Printer Friendly

A recuperacao de uma tematica Anglo-Portuguesa por Jacinto Cordeiro: intertextualidades politicas em torno de um mito nacional literario em Los doze de Inglaterra (1634).

Em 1634, seis anos antes da Restauracao, o dramaturgo portugues Jacinto Cordeiro (?c.1606-1646)--alferes de uma companhia de ordenanca da corte e autor de cerca de dezoito pecas (dezasseis comedias e dois entremezes), varios poemas e uma genealogia da monarquia portuguesa--publicou, em castelhano, como era pratica corrente na altura (Oliveira), a Segunda Parte de las Comedias, na qual se encontra La Famosa Comedia de los Doze de Ingalaterra (DI), comedia que recupera um tema literario portugues divulgado por Camoes em Os Lusiadas. (2) O estereotipo literario do cavaleiro assenta nas tres caracteristicas da etica cavaleiresca: fidelidade, valentia e generosidade (Duby 118; Flori 5-16, 32-41, 73-125), interinfluenciando-se a accao de cavaleiros e a representacao literaria desde cedo, como conclui Gusdorf (199) ao definir a figuracao romantica do cavaleiro: "o romance ... nao permaneceu um fenomeno literario. Atraves de um prodigioso retorno, o imaginario veio parasitar o real; dar forma e sentido ao estilo de vida da classe privilegiada, no final da Idade Media." Tambem Mattoso refere a funcao ludica e de exemplo dos 'livros de cavalaria,' que se aplica ao enredo dos doze cavaleiros lusos que vao a Londres resgatar, com a vitoria final, a honra de doze donzelas inglesas acusadas de serem feias por doze oponentes londrinos (357). E esse mesmo codigo de conduta que acaba por ser alvo da comedia de Cordeiro ao recuperar o mito nacional (3) literario para enaltecer--tal como fizera a obra de Camoes que divulga o referido episodio--os autoestereotipos dos portugueses, que importava caracterizar no ambito da monarquia habsburgica para enfatizar quer os potenciais politico e economico portugueses no seio do imperio filipino, quer um estatuto semelhante ao dos demais territorios reinicolas ibericos, sem, no entanto, se opor a hegemonia filipina, como veremos. (4)

Torna-se necessario ter em mente o contexto historico em que a peca e publicada, pois se Filipe I de Portugal deseja um monarquia dual, ou seja, Portugal unido a Espanha, mas simultaneamente separado, com instituicoes proprias, Filipe II ira ignorar gradualmente a Casa Real portuguesa (Labrador), e, no final do reinado de Filipe III, da-se a "castelizacao de Portugal" (Alvarez Bouza, "O Portugal dos Filipes"), pois o rei e o conde-duque de Olivares projectam uma estreita uniao dos territorios (centralizacao e homogeneizacao politicas), desenhando-se um novo programa politico para a Monarquia Hispanica, no ambito do qual Portugal perde a sua condicao de "reino" com extensos privilegios (Hespanha; Elliott et al; Oliveira; Alvarez Bouza "Lisboa Sozinha" e Portugal; Schaub Portugal, Le Portugal; Curto 2011; Cardim, Costa e Cunha). Em 1634, desaparecera ja o sonho de Lisboa se tornar o centro da Monarquia Hispanica e eram evidentes os efeitos economicos negativos de uma uniao que era cada vez menos entre iguais. E, portanto, ja no contexto do enfraquecimento progressivo da autonomia portuguesa que Cordeiro publica as suas comedias, reivindicando, atraves do mito dos Doze e de outros temas que fazem parte da memoria colectiva portuguesa, a identidade, a autonomia conferida inicialmente a Portugal pelos Filipes e o potencial politico que Portugal detivera ate entao. Sao tambem essas memoria e historia que as comedias de Cordeiro (La Entrada del Rey en Portugal; Prospera Fortuna de Duarte Pacheco, Adversa Fortuna de Duarte Pacheco, 1621) recordam, inclusive herois inimigos de Castela e episodios belicos contra esse reino (Rivero Machina, "La Jornada" 76-77), pois se e verdade que houve uma certa integracao de Portugal no mundo espanhol, tambem existi ram tensoes que a literatura reflecte, recordando-nos que a monarquia das Austrias proporcionou inumeras oportunidades para os individuos, bem como um quadro de referencias unificador (religiao catolica e vinculacao ao rei), constituindo, assim, o palco adequado para articulacoes transversais em funcao de interesses corporativos, economicos, culturais e artisticos, ou seja, funcionou como um enorme espaco de oportunidades (Cardim, Costa e Cunha 9, 11). Sao essas oportunidades que Cordeiro reivindica para Portugal atraves da sua caracterizacao como um espaco tao capaz e antigo como o resto da Monarquia.

Os doze herois e protagonistas do referido mito portugues--que partilham o nome e alguns tracos identitarios com figuras historicas medievais (nomeadamente com Magrico e com Alvaro Vaz de Almada, os herois individualizados pelo episodio e protagonistas de DI)--tem sido continuamente recuperados por diversos autores, e o seu comportamento reavaliado como modelador do heroi nacional (Puga), como acontece em DI. A analise da 'lenda' dos Doze enquanto ferramenta ideologica e auto-estereotipo (produzida e divulgada pelos portugueses) ao longo dos seculos permite-nos estudar, na senda de obras como Imagined Communities (Anderson), a forma como os autores vao (re)utilizando o episodio de forma politica. Se Appadurai defende que a nacao e 'construida' com base nao apenas nas fronteiras geograficas nacionais, mas tambem na diaspora e na accao dos meios de comunicacao e da arte, para Maalouf a identidade nao e estatica e vai-se transformando e elaborando ao longo do tempo (188), ideia tambem debatida quer por Hall (1), para quem a identidade depende de mecanismos dialogicos e retroactivos, quer por Balibar (187), de acordo com quem nao existem identidades 'nacionais,' mas sim identificacoes com instituicoes e com os seus membros.

O mito dos Doze, enquanto elemento da memoria (colectiva) nacional, e produzido e disseminado pela literatura, como revela a encenacao de Cordeiro dos auto-esterotipos da coragem, nobreza e singularidade lusas, sendo estrategico o uso de temas historicos portugueses, nomeadamente a figura de cavaleiros de familias que lutaram ao lado de D. Joao I contra os vizinhos ibericos; dai que autores como Cruz-Ortiz refiram quer as "lealtades divididas y, a veces, contradictorias" do "letrado castellanizado" que imita modelos castelhanos (comedia lopesca), quer os seus "parentesco iberico" e "identidad pan-hispanica" ("Lealtades" 97), que sao interpretados por esses mesmos autores tambem como uma forma de anti-castelhanismo dissimulado (Farre 95-106). Efectivamente, DI enaltece "los leones portugueses y su valentia" (64), sendo o espaco politico da accao inicial o Portugal dos Austrias, pelo que o sentimento de pertenca geografico e cultural distingue-se, assim, do politico, e este ultimo muda mais facilmente; dai que Magrico confesse aos ingleses: "sou espanhol, y he nascido portugues" (DI 63). Alias, a alianca anglo-portuguesa, que serve de background ao episodio, e formada, no seculo xiv, com inimigos (ingleses) dos interesses castelhanos, e mantida por Portugal devido a ameaca vizinha. Mesmo que a intencao de Cordeiro nao fosse abordar um tema anti-castelhano, mas sim um conhecido simbolo historico portugues, nao podemos deixar de recordar as lutas de D. Joao I e do seu sogro John of Gaunt contra Castela, convivio que, alias, da origem ao episodio literario dos Doze de Inglaterra.

Os doze cavaleiros lusos foram ficcionalizados e utilizados, desde o seculo XVI, como simbolo do glorioso passado "nacional" para enfatizar a antiguidade e a "identidade" historica do reino portugues, que a chamada literatura autonomista tambem rentabiliza (Cidade 69-72). Embora os mitos nacionais se assumam como relatos historicos e partilhem, portanto, caracteristicas com o actual romance historico, Abizadeh define-os como "inspiring narratives, stemming from human imagination, in which we tell ourselves who we are or want to be" (293), fazendo o episodio dos Doze, enquanto simbolo unificador, parte desse processo de construcao performativa do sentimento (proto-)nacional. Enquanto representacoes colectivas hibridas e emotivas, os mitos sao um misto de realidade e ficcao que perdura e produz energia colectiva que pode ser utilizada para promover ou resistir a mudancas sociais, bem como enaltecer comunidades, como acontece em DI. Bouchard lista outras funcoes da retorica do mito nacional que observamos na lenda dos Doze, tais como: alimentar identidade(s) e narrativas simbolicas (as quais a comunidade podera recorrer em tempos adversos/de coesao), gerar a sensacao de seguranca e uniao e o apoio a instituicoes/projectos, e ainda permitir a comunidade reagir perante desafios ("National Myths" 277-78; "The Small Nation" 2). Essas funcoes sao-nos uteis para a analise da criacao e do uso de mitos como o dos Doze, que sao duradouros devido a varios motivos: a emocao, o hibridismo (real/ficcional), a polissemia, a plasticidade e o facto de poderem estimular a uniao perante ameacas (externas), o imaginario 'nacional' e os valores e as crencas a ele associados (Levinger e Franklin-Lytle, 175-94). Por outro lado, o dialogo intertextual entre as diversas obras que recuperam os Doze e conseguido atraves de artificios premeditados, como a reelaboracao de motivos e temas literarios tradicionais e o pastiche, ou seja, a imitacao criativa de um texto preexistente, nomeadamente do canto VI de Os Lusiadas. Por exemplo, em 1632, o manual de civilidade de Francisco de Portugal, a Arte de Galantaria, ao regulamentar o comportamento cortesao, indica os Doze de Inglaterra como modelos, pois "o gala triunfa, servindo a Dama" (31), principio que pauta a caracterizacao dos protagonistas de DI, uma vez que o enredo principal ja se encontrava previamente estipulado pela epopeia camoniana e pela narrativa que Camoes tera lido e que e a fonte do episodio, a relacao quinhentista "Cavalarias de Alguns Fidalgos Portugueses" (meados seculo xvI), possivelmente "elaborada" pelos Coutinhos para recuperar o nome de Alvaro Coutinho, o Magrico, e enaltecer o passado e o estatuto nobres da familia (Puga 66-72). Sao claras as semelhancas tematicas e logo intertextuais entre Os Lusiadas e outras obras que ficcionalizam os Doze, como, por exemplo, os comentarios da epopeia da autoria de Pedro de Mariz e de Pedro Correia (1613), e os anales de Flandres (1624), de Manuel Soeiro, sobretudo no que diz respeito ao enaltecimento da fama e da valentia dos portugueses, que igualam as dos romanos, como tambem refere a peca de Cordeiro.

Apenas as primeiras obras literarias sobre os Doze descrevem demoradamente a afronta as damas inglesas, pois quando o micro-enredo se torna conhecido do publico leitor ja nao e necessario representa-lo, podendo, como Cordeiro faz, resumir-se atraves de breves falas analepticas das personagens. Alias, em Di e a viagem de Magrico por terra ate Londres que serve de trampolim para a accao principal do texto, o posterior encontro amoroso de Almada e Magrico com duas donzelas em Paris e que funciona como um novo elemento-enredo que o dramaturgo adiciona a tradicao dos Doze, ate porque devido a fama do episodio, a peca nao se demora no motivo da expedicao, ou seja, a injuria que leva os paladinos a Londres, comecando in medias res, quando Magrico se encontra ja a viajar, por terra, com o seu pajem, Costa.

Se nos seus comentarios a Os Lusiadas de 1639-1640, Manuel de Faria e Sousa, que residiu durante grande parte da sua vida em Castela, desenvolve, em castelhano, um projecto de cariz "nacionalista," que Wade caracterizou recentemente da seguinte forma: "the Spanish language masked the Portuguese identity of his works, allowing Faria e Sousa, like many of his contemporaries, to promote a patriotic agenda in the language of the Empire and to spread the glories of his native land across the European landscape" (86-87), o mesmo se podera afirmar sobre Cordeiro ao nivel da defesa dos interesses portugueses no seio do imperio filipino, sem que o autor colocasse a monarquia hispanica em causa.

Na "Dedicatoria" da peca dirigida a Duarte de Braganca (1605-1649), senhor de Vila do Conde, segundo filho de Teodosio II, setimo duque de Braganca (1568-1630), e irmao do futuro rei D. Joao IV (1604-1656), (5) o dramaturgo refere os "valerosos antepassados" do destinatario do paratexto, descritos como "sempre os primeiros em tudo; porque como tiverao por espelho aquelle exemplo de facanhas heroicas," mencionando ainda "as facanhas Portuguesas, que lidas ainda com amor, excedem o credito humano, co rigor se atribuem a favor Divino ... por serem tam increiveis, que excedem a todas as monarquias do mundo" (DI 4), auto-estereotipos hiperbolicos que sao desenvolvidos ao longo da peca atraves da caracterizacao colectiva dos Doze, personagem sinedoquica que representa simultaneamente a origem, a gloria e a coragem lusas, entre outras caracteristicas que fazem parte do autoimagotipo que a peca pretende veicular. Numa comedia anterior, La Entrada del Rey en Portugal, redigida apos a visita de Filipe II de Portugal, em 1919, Cordeiro, tal como outros autores, elogia as ja referidas caracteristicas que sao associadas aos portugueses. Como informa Rivero Machina, desde que se comecou a preparar essa visita real, "el mensaje propagandistico disenado por Lisboa para el recibimiento triunfal de su monarca oscilo entre el agasajo y la autoreivindicacion" ("La Jornada" 76), e Cordeiro ira fazer com que se nao esquecam os esforcos lusos para bem receber o rei e que alguns castelhanos tentam desvalorizar estrategicamente, como ele informa, em portugues, no "Prologo ao Leitor," num exercicio que Gonzalez caracteriza como militantismo patriotico ("De la Comedie" 193):

Foy mais poderoso o amor da patria que minha desconfiansa ...; estimulado da plicacao de algus que tomao obras de menos cabedal pera darem mostras de sua habilidade; quis por em efeito a execusao desta vontade, pela muyta que tenho de eternizar grandezas de minha Patria vendo que a fama as cala amendrentada de emulos que, envejosos de sua gloria com ochubo vil de sua ma votade, tapao o retumbante son de sua gloriosa trobeta ... Antepodo estes desejos a feretoadas dezoilos que vituperao minha ousadia mas responderei a sua Riguridade com este verso de Horacio Dulce et decorum est pro patria mori ... Se a que offereco for recebida com a benevolencia que merece a singeleza de meu animo, empregaloey com o cabedal que me fica em acabar alguas obras que tenho comesadas de Heroes valerosos que na India me covidarao co o belicoso som de suas valerosas Proezas. (La Entrada [3v].; nossa enfase).

Na ambito das tensoes e intrigas inerentes ao longo processo de integracao de Portugal no conglomerado dinastico dos Austrias, o dramaturgo defende os interesses dos lusos, e fa-lo, como conclui Rivero Machina ("La Jornada" 76), atraves de uma complexa "reivindicacion patriotica, dejando patente en todo momento que lo que ofrece los portugueses a sua monarca no es una ciega e incindicional sumision, sino una alianza politica e incluso patriotica ventajosa para ambas partes ... un permanente canto a la union iberica" (vide Rivero Machina "La Entrada"). Os paratextos e os textos literarios de Cordeiro funcionam, assim, como uma das inumeras "provas de interaccao e de interpenetracao social e cultural entre Portugal e Castela nesse periodo" (Schwartz 497).

DI comeca com o encontro de Magrico e do seu empregado fanfarrao, a cavalo, numa estrada de Franca, com um almirante frances, que salvam do ataque de quatro ladroes. O almirante convida Magrico para ir a Paris, mas o heroi recusa pois o dever leva-o a Inglaterra, onde e esperado, e comunicalhe o objectivo da sua viagem, aproveitando para referir o valor da espada dos famosos Mestre de Avis e Nuno Alvares Pereira (figuras historicas mais tarde retomadas), defendendo, de acordo com as leis da cavalaria, para se autocaracterizar, que "a las Damas se deven, / cortesias, y respetos" (DI 60v). A longa fala de Magrico expoe sumariamente o espectador/leitor a intriga do episodio, tornando-se o protagonista, no inicio da comedia, narrador autodiegetico e o almirante o seu narratario para que o primeiro apresente, como testemunha directa, o motor do enredo dos Doze e os motivos que o levam a Londres, reproduzindo, inclusive, o discurso directo de John of Gaunt (Puga 79-80). Atraves da elipse, a accao passa para o Palacio de Saboia, onde as mulheres estereotipam os doze portugueses como nobres corajosos e enamorados que respeitam o codigo da Cavalaria. Cordeiro omite temas presentes na relacao quinhentista e em Os Lusiadas (6)--por exemplo, a convocatoria aos Doze, a sua partida e a hipertricose de Magrico--, e acrescenta outros a tradicao do mito, nomeadamente o acto de Rosarda, assumindo uma pose androgina, ameacar defrontar-se com os seus ofensores em campo, caso os portugueses nao cheguem a tempo, enquanto o termo "cortesia" se torna recorrente para os caracterizar. Substantivos e expressoes como vassalagem, gloria, luta, "grandeza de ... sangre" (DI 61), decoro, amor, urbanidade, honra, lealdade e entrega total acumulam-se ao longo do texto e adensam o campo semantico do ideal de cavalaria que os Doze, "escravos" das inglesas, seguem a risca em Portugal, "Reyno tan ilustre, y graue" (DI 64), e no estrangeiro, conduta que e elogiada na comedia sobretudo atraves da adjectivacao dupla e tripla, ou seja, da enumeracao qualificativa. Esse recurso estilistico e, alias, essencial para representar os autoestereotipos positivos associados a Portugal (Puga 79).

O combate e encenado atraves da descricao de elementos visuais e de soundscapes (paisagens acusticas, sons) tipicos de conflitos belicos, e termina com os ingleses fora de campo, momento em que a voz off glorifica a presenca lusa: "Victoria por Portugal" (Di 64). O segundo acto e marcado por uma elipse que concorre para a economia dramatica, encontrando-se Alvaro Almada e Magrico ja na casa do almirante em Paris, espaco urbano onde a vitoria e a "heroica espada" (DI 66) lusas sao ja conhecidas. O enredo-base do episodio dos Doze e assim apresentado apenas ao longo de 11 folios dos 38 que a peca ocupa, tendo lugar na capital francesa duas novas historias de amor que envolvem Alvaro Almada, Magrico e as irmas do militar frances, Otavia e Flora. O amor dos casais da lugar as peripecias que ocupam o resto da estada dos dois "pechos nobles" (DI 67) portugueses na capital francesa. O rei de Franca visita os cavaleiros e elogia a coragem dos lusos e a fama invencivel de D. Joao I, digna de "eternos anales" (DI 67), tornando-se a memoria historica e a fama temas recorrentes na peca atraves da referencia as pazes entre Castela e Portugal e a figuras como Nuno Alvares Pereira, o "Cid Portuguez" (DI 66). As andancas e o regresso de Magrico a Portugal dao origem a intriga principal da peca, mas a cartografia das aventuras do episodio expande-se, e o encontro com o rei leva o recem-nomeado coronel D. Alvaro de Almada a Alemanha, e Magrico a Italia para defender os interesses do "monarca." Mais uma vez, nobres estrangeiros recorrem a valentia dos portugueses para repor a ordem nos seus territorios, estereotipo que e enfatizado pela maioria dos autores que recuperam os Doze de Inglaterra. Os herois fragilizados pelo amor acabam por revelar fraquezas humanas no universo domestico e privado, ou seja, a comedia de Cordeiro, como nao poderia deixar de ser, nao apresenta apenas a dimensao heroica dos cavaleiros, mas tambem o seu lado humano, os seus medos, ansiedades e aprendizagens espirituais e geograficas, ou seja, o seu caracter anti-epico (a vulnerabilidade e as peripecias amorosas, a par das lides guerreiras).

Gonzalez realca o gosto pelo patetico e a tendencia tragica da comedia palaciega barroca de Cordeiro, elencando algumas das suas caracteristicas: o crescendo dramatico conseguido atraves do elevado numero de entradas e saidas de cena (87, no total), as quais se juntam cenas em janelas e varandas, a rapidez das sequencias, a violencia militar e verbal, a transgressao social, o jogo permanente entre claro e escuro e entre momentos de espera e de tensao, o dinamismo das agressoes e dos combates, o duelo, as mascaras, a intercepcao de cartas de amor e o passado historico ("De la comedie" 189). Ja Wade indica caracteristicas que a peca partilha com as comedias de enredos referidas por Lope de Vega, na sua arte Nuevo de Hacer Comedias en este Tiempo, em 1609 (interesses amorosos, inveja, defesa de honra), e conclui que um dos objectivos de DI e elogiar a "portugalidade" (15). A fama de Magrico e de Alvaro de Almada vem de fora da Peninsula Iberica (o famoso tema do heroi que vem do estrangeiro), e essa dimensao europeia dos herois enfatiza o estatuto desses cavaleiros, bem como do antigo tema proto-nacional. Em varias pecas, o dramaturgo convoca mitos nacionais/temas camonianos, como os de Ines de Castro e dos Doze, e se os paladinos lutam contra estrangeiros opressores, as tematicas militar e da gloria portuguesa agradariam ao autor. Podemos, assim, questionar a posicao de Ares Montes quando afirma, ao estudar a comedia barroca na Peninsula Iberica, que os poucos autores portugueses "que cultivaron el teatro, casi siempre en espanol, no destacaron por su valor ni por su originalidad" (12), (7) bastando recordar outras obras de tematica nacionalista de Cordeiro, como silva a ei Rei Nosso senhor d. Joao Quarto e Triunfo Frances (1641), ambas publicadas ja apos a Restauracao e que descrevem o rei como restaurador da patria, ou ainda entrada de ei Rei em Portugal, em cujo prologo prometia terminar varias obras sobre "Heroes valerosos" (3v), referindo-se decerto a textos como Prospera e adversa Fortuna de Duarte Pacheco, e a outros publicados em seis Comedias Famosas (1630), bem como a Non Plus Ultra (1630), sobre Ines de Castro, a elogio de Poetas lusitanos (1631) e a comedia de que nos ocupamos, que evoca a tematica da 'patria amada' durante a viagem de regresso de Magrico e Almada, inclusive atraves de uma curiosa fala de Costa redigida propositadamente em portugues, e na qual o determinante possessivo e a tematica da saudade veiculam sentimentos de pertenca e de inimizades das personagens (populares): "E falando em conclusao / em nossa lingoa verdades, / inda tenho saudades / do vinho, do frade nao" (DI 65).

DI elogia e destaca varias vezes os (cavaleiros) portugueses como detentores de grandes qualidades guerreiras: "tan supremos, / tan valientes, y arrogantes / tan esforcados, tan buenos ...los Leones Portugueses" (DI 61, 64), hiperbolizando esses auto-estereotipos ao afirmar que "solo un Portugues" consegue fazer o que quer que seja e que "mitad" de um luso chega para qualquer grupo de inimigos (61, 63). A obra de Cordeiro, enquanto configuracao ideologica, demonstra que o tema dos Doze de Inglaterra e utilizado como discurso politico desde cedo, inclusive como estrategia retorica de afirmacao da identidade e de especificidades culturais lusas, sendo varios, alias, os mitos recuperados por outros autores portugueses para legitimar a autonomia, a independencia (Cidade) e a antiguidade de Portugal enquanto entidade historica e politica. Como vimos ao longo deste estudo, ao cantar emblematicos herois portugueses, como os Doze, Cordeiro nao recusa directamente o dominio dos Austrias e enfatiza diversos auto-imagotipos que os portugueses atribuem a si mesmos, como a valentia militar, a honra e a gloria antiga, tracos que definiriam, de acordo com os proprios lusos, juntamente com outros tracos culturais e linguistico, a chamada "portugalidade," constructo que DI tenta caracterizar e reforcar ficcionalmente ao defender os potenciais politico e economico portugueses no seio do imperio filipino, advogando para Portugal um estatuto semelhante, ou ate superior, ao dos demais territorios reinicolas. Num periodo em que o estatuto de Portugal se esbatia no ambito da monarquia hispanica, Cordeiro reivindica, assim, para a sua "patria" (La Entrada 3v), o estatuto de reino com personalidade propria e com capacidade suficiente inclusive para, tal como Castela, dirigir o imperio hispanico, e essa experiencia e competencia advem tambem da preparacao dos portugueses ao longo dos seculos, ou seja, da antiguidade e da bravura que os Doze metaforizam sinedoquicamente ao sugerir uma uniao iberica entre iguais.

FCSH, UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA

OBRAS CITADAS

Almeida, G. K. de. "Heroi em Processo: Escrita e Diplomacia sobre D Duarte de Braganca (1641-1649)." Dissertacao de Mestrado. Niteroi: U. Federal Fluminense, 2011.

Abizadeh, Arash. "Historical Truth, National Myths and Liberal Democracy: On the Coherence of Liberal Nationalism." The Journal of Political Philosophy 12.3 (2004): 291-313.

Alvarez Bouza, Fernando. "Lisboa Sozinha, Quase Viuva. A Cidade e a Mudanca no Portugal dos Filipes." Penelope, Fazer e Desfazer a Historia 13 (1994): 71-93.

--. Portugal no Tempo dos Filipes. Politica, Cultura, Representacoes (1580-1668). Lisboa: Cosmos, 2000.

--. "O Portugal dos Filipes e Uma Criacao Portuguesa: Entrevista." Publico. 14 Dez. 2014. Web. 1 Junho 2016.

Anderson, Benedict. Imagined Communities. Londres: Verso, 1983.

Appadurai, Arujun. Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization. Minneapolis: U of Minnesota P, 1996.

Ares Montes, Jose. "Portugal en el Teatro Espanol del Siglo XVII." Filologia Romanica 8 (1991): 11-29.

Azevedo, Padre Nicolau da Maia de (?). Historia da Feliz Aclamacao do Senhor Rei Joao, o Quarto. 1641. Lisboa: Oficina de Siao Tadeu Ferreira, 1803.

Balibar, Etienne. "Culture and Identity (Working Notes)." The Identity in Question. Ed. J. Rajchman. Londres: Routledge, 1995. 173-96.

Bouchard, Gerard. "National Myths: An Overview." National Myths: Constructed Pasts, Contested Presents. Ed. Gerard Bouchard. Londres: Routledge, 2013. 276-97.

--. "The Small Nation with a Big Dream: Quebec National Myths (Eighteenth-Twentieth Centuries)." National Myths: Constructed Pasts, Contested Presents. Ed. Gerard Bouchard. Londres: Routledge: 2013. 1-23.

Cardim, Pedro, Leonor F. Costa e Mafalda S. da Cunha, eds. Portugal na Monarquia Espanhola. Dinamicas de Integracao e Conflito. Lisboa: CHAM, 2013.

Cidade, Hernani. A literatura autonomista sob os Filipes. Lisboa: Sa da Costa, 1948.

Cordeiro, Jacinto. La entrada del Rey em Portugal. Lisboa: Jorge Rodrigues, 1621.

--. "La Famosa Comedia de Los Doze de Ingalaterra [sic.]." segunda Parte de las Comedias del Alferez Jacinto Cordero. Lisboa: Lourenco e Paulo Craesbeeck, 1634. 60-78.

Cruz-Ortiz, J. "Jacinto Cordeiros' El Juramento antes Dios y lealtad contra el Amor: A Critical Edition." Tese de Doutoramento. Norman: U. de Oklahoma, 2009.

--. "Lealtades divididas: las alianzas literarias y politicas del dramaturgo portugues Jacinto Cordeiro." Dramaturgia y espectaculo teatral en la epoca de los Austrias. Ed. Judith Farre. Madrid: Iberoamericana, 2009. 95-106.

Curto, Diogo Ramada. Cultura Politica no Tempo dos Filipes (1580-1640). Lisboa: Edicoes 70, 2011.

Duby, Georges. Guilherme Marechal ou o Melhor Cavaleiro do Mundo. Rio de Janeiro: Edicoes Graal, 1987.

Elliot, J. et al., ed. La espana del Conde Duque de olivares. Valladolid: U de Valladolid, 1990.

Farre, Judith, ed. Dramaturgia y espectaculo teatral en la epoca de los Austrias. Madrid: Iberoamericana, 2009.

Flori, Jean. Chevaliers et Chevalerie au Moyen Age. Paris: Hachette, 2004.

Gonzalez, Christophe. "Le Dramaturge Jacinto Cordeiro et Son Temps." Tese de Doutoramento. Aix-en-Provence: U. de Provence, 1987.

--. "Heroisme Lusitanien et Comedie Espagnole: Los Doce de Ingalaterra, de Jacinto Cordeiro." Taira 7 (1995): 55-87.

--. "De la Comedie Espagnole aux Textes Anti-Castillans, l'Itineraire d'un Dramaturge Portugais entre la Monarchie Dualiste et la Restauration: Jacinto Cordeiro." Arquivos do Centro Cultural Calouste gulbenkian 44 (2002): 183-97.

Gusdorf, Georges. "Romantismo e Cavalaria." Cavalaria espiritual e Conquista do Mundo. AA.VV. Lisboa: INIC, 1986. 193-216.

Hall, Stuart. Representation: Cultural Representations and signifying Practices. Londres: SageOpen U., 1997.

Hespanha Antonio Manuel. "O Governo dos Austrias e a 'Modernizacao' da Constituicao Politica Portuguesa." Penelope. Fazer e Desfazer a Historia 2 (1989): 50-73.

Labrador Arroyo, Felix. "A Jornada Real de 1602-1603. Um Projecto Politico Frustrado." Portugal na Monarquia espanhola. Dinamicas de Integracao e Conflito. Ed. P. Cardim, L. F. Costa e M. S. da Cunha. Lisboa: CHAM, 2013. 413-34.

Levinger, M. e P. Franklin-Lytle. "Myth and Mobilization: The Triad Structure of Nationalist Rhetoric." Nation and Nationalism 7.2 (2001): 175-94.

Maalouf, Amin. Identites Meurtrieres. Paris: Grasset, 1998.

Mattoso, Jose. "Cavaleiros Andantes. A Ficcao e a Realidade." A Nobreza Medieval Portuguesa. A Familia e o Poder. Lisboa: Editorial Estampa, 1987. 355-71.

Oliveira, Antonio. Poder e oposicao Politica em Portugal no Periodo Filipino (1580-1640). Lisboa: Difel, 1991.

Oliveira, Luisa Braz de, Ed. Arquivos do Centro Cultural Calouste gulbenkian XLIV: la litterature d'Auteurs Portugais en langue Castillane. Paris: Centro Cultural Calouste Gulbenkin, 2002.

Portugal, Francisco de. Arte de galantaria. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1984.

Puga, Rogerio Miguel. Imagologia e Mitos Nacionais: o episodio dos Doze de Inglaterra na literatura Portuguesa (c.1550-1902) e o Nacionalismo (Colonial) de Teofilo Braga. Goa: Universidade de Goa, Lisboa: Caleidoscopio, 2014.

Rivero Machina, Antonio. "La Jornada Real de Felipe III de Espana por Portugal: Repertorio Literario y Mensaje Politico." limite. Revista de estudios Portugueses y de la lusofonia 7 (2013): 63-82.

Rivero Machina, Antonio. "La entrada del Rey en Portugal de Jacinto Cordeiro: entre la relacion poetica y la literatura dramatica." Confluencia de la Imagen y la Palabra. Ed. Jose M. M. Folguera, Reyes E. Perez e Francisco J. Talavera Esteso. Valencia: U. de Valencia, 2015. 443-50.

Schaub, Jean-Frederic. Portugal na Monarquia Hispanica (1580-1640). Lisboa: Livros Horizonte, 2001.

--. Le Portugal au Temps du Comte-duc d'olivares, 1621-1640. Le Conflit de Juridictions comme exercice de la Politique. Madrid: Casa de Velasquez, 2001.

Schwartz, Stuart B. "As Classes Populares Portuguesas durante a Uniao Iberica e a Restauracao." Portugal na Monarquia espanhola. Dinamicas de Integracao e Conflito. Ed. P. Cardim, Leonor F. Costa e Mafalda S. da Cunha. Lisboa: CHAM, 2013. 493-506.

Wade, Jonathan William. "Early Modern Iberian Landscapes: Language, Literature, and the Politics of Identity." Tese de Doutoramento: Nashville: U. de Vanderbilt, 2009.

(1) The original version of this article was presented during the "International Conference 'Teatro de Autores Portugueses do Seculo XVII: Lugares (In)Comuns de Um Teatro Restaurado,' at the Faculty of Arts of the University of Lisbon, Portugal, 28 January 2015.

(2) Sobre a (re)elaboracao do mito nacional literario portugues dos Doze de Inglaterra ao longo dos seculos, nomeadamente por Cordeiro, veja-se Puga (78-80).

(3) Utilizar o termo (proto-)nacional num estudo sobre a primeira metade do seculo xvII e problematico, pois e dificil interpretar indicadores de pertenca nacional desse periodo enquanto expressao de sentimentos da populacao, devido a coexistencia de varios vinculos de identidade e ao facto de "nacao" e naturalidade nao serem elementos de pertenca primordiais, a par da religiao, da fidelidade dinastica e de outros factores enfatizados por processos de instrumentalizacao politica de sentimentos proto-nacionais (Cardim, Costa e Cunha 13-14; Schwartz 493-506).

(4) Agradecemos a Antonio Rivero Machina (Universidade da Extremadura, Espanha), com quem debatemos algumas questoes de cariz proto-nacional, o gentil envio de alguns dos seus estudos.

(5) Em 1634, ano da publicacao de Di, o destinatario da dedicatoria dessa obra, D. Duarte de Braganca, abandona Portugal, por conflitos familiares e devido ao seu desejo de obter honras que, como segundo filho, nao conseguiria em Portugal, como acontecera, alias, com o cavaleiro que da nome ao protagonista dos Doze de Inglaterra, Alvaro Goncalves Coutinho, o Magrico. Tenta, primeiro, oferecer os seus servicos a Filipe IV de Espanha, III de Portugal, mas quando nao consegue uma audiencia com o rei, decide prestar servicos ao imperador Fernando II da Germania, na Guerra dos Trinta Anos. Em 1638, apos a morte do seu irmao mais novo, volta a Portugal e promete--num periodo em que ja se rompera a alianca do rei Filipe com as elites locais portuguesas--regressar e ajudar os conspiradores portugueses contra Castela, quando tal viesse a ser necessario. Ja apos a Restauracao, D. Duarte, irmao do rei de Portugal, seria aprisionado pelos espanhois e faleceria, em 1649, apos anos de cativeiro (Azevedo 332-33; Almeida 7-9).

(6) Para uma comparacao entre DI e o episodio camoniano, veja-se Gonzalez ("Heroisme" 73-78).

(7) Sobre esses mesmos autores, Cruz-Ortiz afirma: "Despite their political leanings, Lusitanian authors developed techniques for affirming their identity against Spanish cultural hegemony ... The Portuguese comedias are often hybrid resistance plays in which dramatists convey their national identity in a foreign tongue ... Such equivocations in which Lusitanian authors simultaneously emulate and resist Spanish influences can be considered a defining trait of the Portuguese comedia" ("Jacinto" 37-38).
COPYRIGHT 2017 University of North Carolina at Chapel Hill, Department of Romance Languages
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2017 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Miguel Puga, Rogerio
Publication:Romance Notes
Article Type:Critical essay
Geographic Code:4EUPR
Date:May 1, 2017
Words:5084
Previous Article:La construccion del yo femenino y de la feminidad en el modernismo: el caso de Alma Rubens.
Next Article:Em busca de um fernao Mendes Pinto Cristao-Novo: limitacoes e implicacoes de uma hipotese.
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2021 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters |