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A proposal of recommendations for the preparation of maps for the National High School Examination (ENEM): projecting in view of its oral description for the blind/Uma proposta de recomendacoes para a elaboracao de mapas para o Exame Nacional do Ensino Medio (ENEM): projetando tendo em vista sua descricao oral para cegos.

1 Introducao

Por muitos anos, pessoas com deficiencia visual foram consideradas inaptas para qualquer atividade fisica ou intelectual. Somente a partir do final da decada de 1950 que a integracao dos cegos veio a se tornar uma politica publica. Em 1990, despontaram discussoes sobre a educacao inclusiva, na qual as peculiaridades de cada individuo vieram a ser respeitadas no processo pedagogico. A partir disso, verificou-se aumento no ingresso das pessoas com deficiencia em escolas, universidades e cargos publicos (CASTRO, 2011).

A Lei no. 8.112, de 11 de dezembro de 1990 traz no artigo 5 [section]2 o direito das pessoas com deficiencia a inscricao em processos seletivos publicos, como por exemplo, vestibulares de Universidades Federais, e provas para o preenchimento de cargos em reparticoes publicas, firmando 20% das vagas exclusivamente a essa populacao (BRASIL, 1990). Cada edital estabelece como essas pessoas serao inseridas e quais aparatos serao disponibilizados durante a prova, sendo um direito do candidato cego, no minimo, a prova em Braille e um ledor--pessoa que descreve a prova e as imagens para o candidato com deficiencia visual.

A presenca do ledor tambem e um direito firmado por lei, conforme decreto 5.296, inciso 59 de 02 de dezembro de 2004 (BRASIL, 2004).

Dentre os processos seletivos publicos brasileiros que incluem candidatos cegos, destaca-se o ENEM, criado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anisio Teixeira (INEP), e que vem desde 2009 facilitando a entrada de muitos estudantes ao ensino superior. Estima-se que ate 2020, mais de 300 universidades no Brasil utilizarao o ENEM como processo seletivo para o preenchimento de suas vagas (SILVEIRA; BARBOSA; SILVA, 2015). Nesse exame, alem de uma hora a mais para a realizacao da prova, o candidato cego conta com a prova em braille, e com o ledor. Apesar desses recursos oferecidos, entre 2016 e 2017 as inscricoes de alunos com cegueira cairam mais de 30% no exame (INEP 2016; 2017). Varias sao as queixas que se somam em relacao a apresentacao da prova, e principalmente aos auxilios de leitura e transcricao.

Os ledores do ENEM sao cidadaos brasileiros que se voluntariam para trabalhar nos dois dias do exame, recebendo gratificacao monetaria determinada pela organizacao do concurso. De acordo com regulamento publicado pelo INEP em 2002, e obrigatorio que possuam ensino medio completo, e que realizem curso de capacitacao disponibilizado pela propria organizacao do exame (INEP, 2002).

Apesar de se apresentarem como um recurso amplamente utilizado em processos seletivos brasileiros, Fiori e Manzini (2010) chamam a atencao para os problemas que podem ser causados pela atuacao de voluntarios ledores. Segundo os autores, a interpretacao de imagens atraves da leitura de outra pessoa trata-se de um processo complexo, visto que leva em consideracao as formas e impressoes subjetivas que a visao das figuras desperta em quem as descreve. No ENEM, a prova utilizada pelo ledor formata-se de maneira semelhante a prova escrita, acrescentando-se ocasionalmente a descricao das imagens (INEP, 2002). No entanto, de acordo com Diniz (2013), nem todas as imagens possuem descricao, ficando nesse caso a criterio do ledor utilizar a propria imaginacao.

Como apontado por Santos (2011), a utilizacao de imagens estaticas como graficos, charges e ilustracoes em processos seletivos por muitas vezes torna-se essencial para a interpretacao correta das questoes, e consequentemente seu acerto. Dentre as inumeras imagens que se encontram nas provas do ENEM, encontram-se os mapas. Em levantamento realizado a partir do novo formato do exame adotado desde 2009, observou-se a incidencia desse tipo de imagem em todas as provas, com ocorrencia de no minimo cinco mapas por edicao. Observou-se tambem que a sua utilizacao nao se restringe a area de geografia. Encontraram-se mapas como elemento fundamental na elaboracao de redacoes, por exemplo.

Estudos no Design da Informacao como o de Loch (2008) trazem importantes consideracoes sobre a adaptacao de mapa para cegos. No entanto, atraves de Revisao de Bibliografica Sistematica, percebeu-se uma lacuna de estudos que abordassem a apresentacao de mapas em processos seletivos a serem descritos oralmente por ledores para candidatos cegos.

Assim, questiona-se: como aprimorar o design de mapas contidos em provas de processos seletivos publicos inclusivos brasileiros, de maneira que a sua descricao oral seja acurada para candidatos cegos? Os mapas foram selecionados para o estudo principalmente por: (a) sua importancia na percepcao do espaco pelo cego; (b) sua presenca constante desde o primeiro ciclo escolar; (c) pela importancia de sua descricao oral adequada e (d) pela lacuna sobre estudos que abordem descricoes orais de mapas para cegos.

Isto posto, atraves das recomendacoes sobre a utilizacao das variaveis graficas de Bertin (1983), somadas as recomendacoes encontradas na area da Acessibilidade, e as opinioes de quatro voluntarios que ja atuaram como ledores do ENEM, o objetivo do presente trabalho e propor recomendacoes para a elaboracao de mapas a serem descritos para cegos no exame.

Para tal, primeiramente realizou-se revisao de literatura acerca das abordagens de Bertin (1983), e de teoricos da acessibilidade que abordam o assunto, seguida de entrevista semi-estruturada com quatro voluntarios ledores.

O artigo se inicia discorrendo sobre as variaveis graficas de Bertin (1983), e as recomendacoes elaboradas a partir delas por MacEachren (1994). Na sequencia, listam-se os principais achados referentes ao tema na area da acessibilidade. Em seguida, os principais pontos da entrevista semi-estruturada com os ledores sao apresentados, finalizando-se com a proposta do conjunto de recomendacoes, seguido por sua discussao e conclusao.

2 Os mapas

Os mapas para "ver" foram uma das preocupacoes de Bertin (1983, 1986), que deixou como maior legado a sistematizacao das Variaveis Visuais ou Variaveis Graficas, quais foram identificadas como modulacoes visuais no plano das primitivas graficas: ponto, linha e area. Em "Semiology of Graphics" o autor distinguiu informacoes como as localizacoes x-y no plano, forma, tamanho, orientacao, cor, valor, e granulacao, popularmente conhecida como textura, como demonstradas na Figura 1 a seguir a partir da aplicacao sobre as primitivas graficas:

Para cada variavel grafica, Bertin (1983) tambem fez apontamentos para sua utilizacao de maneira mais eficaz na cartografia. Segundo o autor, a utilizacao da simbolizacao atraves da forma e recomendada para casos de representacao de diferencas nominais, ou seja, diferencas entre os tipos de objetos representados. Ja a uso de diferencas criadas pela variacao da orientacao dos elementos sao muito visiveis e podemos aproveita-las de forma diferenciada entre as variaveis nominais. Segundo estudos anteriores, o autor sugeriu que alguns neuronios sao seletivamente sensiveis a diferentes orientacoes.

Ja utilizacao da cor, segundo Bertin (1983) e recomendada principalmente para diferenciacoes nominais, bem como a forma.

No entanto, MacEachren (1994) destaca que a eficacia desse recurso e inversamente proporcional ao tamanho: pequenos pontos ou linhas que se diferenciem somente por suas cores no mapa nao serao facilmente percebidos. Outro erro comum cometido por cartografos e designers e a aplicacao das matizes como recurso de diferenciacao entre dados numericos ordinais. Ha uma ordem logica entre tons definida pelo espectro magnetico. Contudo, grande parte da populacao desconhece tal ordem, e mesmo para os que conhecem, diferencas entre valores de cores ainda sao desafiadoras.

Prosseguindo com as indicacoes para a utilizacao das variaveis graficas, Bertin (1983) aponta que o valor vem com o objetivo de apresentar uma ordem visual obvia, e pode ser entendida, de acordo com MacEachren (1994, p.25) "a pureza de um tom".

Por fim, Bertin (1983) refere-se a textura como a frequencia espacial dos componentes de um padrao. Como e definida apenas para padroes, sao necessarias areas relativamente grandes para que as diferencas de textura sejam obvias. E, portanto, mais adequada para a diferenciacao entre as areas.

Com o intuito de aprofundar a obra de Bertin (1983), MacEachren (1994) elaborou um guia que possa ser utilizado por todos os interessados em produzir mapas fundamentados e que possam ser compreendidos pelo grande publico, utilizando-se das variaveis graficas de Bertin, e suas recomendacoes de uso.

Assim, as recomendacoes para a utilizacao das variaveis graficas de MacEachren (1994) estruturam-se de acordo com o nivel de percepcao: nivel de percepcao qualitativo, nivel de percepcao ordenado e nivel de percepcao quantitativo. Os dados que se enquadram no nivel qualitativo descrevem uma relacao de similaridade ou diversidade e nenhuma operacao matematica pode ser estabelecida entre essas classes. No nivel ordenado, os dados mantem uma relacao de hierarquia entre as classes, pois as classes de feicao se ordenam espontaneamente, porem, sem caracterizar qualquer manifestacao de proporcao, visto que nao ha valores numericos associados as classes. Assim, ao comparar duas classes A e B e possivel apenas estabelecer que A e maior (ou menor) que B, sem afirmar o valor dessa magnitude (MACEACHREN, 1994). Por fim, os dados de nivel quantitativo sao oriundos de uma contagem, uma estatistica ou uma medicao. Por exemplo, os dados de populacao sao provenientes de uma contagem, a temperatura em uma cidade advem de uma medicao e a porcentagem de mulheres gravidas com mais de 30 anos uma relacao/proporcao/razao. Na Figura 2 a seguir, a partir de mapas coletados das provas do ENEM, ilustram-se os tres niveis:

A Figura 3 a seguir demonstra, portanto, as recomendacoes para a utilizacao das variaveis graficas de acordo com os niveis de percepcao, utilizando (B) para bom, (M) para medio e (P) para pobre:

Ressalta-se que os niveis "Bom", "Medio" e "Pobre" foram definidos dessa maneira pelo autor de acordo com sua eficacia. Assim MacEacheren (1994) cria, atraves dessa designacao, uma escala de mensuracao a que se pretende aplicar as variaveis graficas.

Apos o levantamento das recomendacoes para a utilizacao das variaveis graficas, procurou-se encontrar referencias que citassem os mesmos aspectos do ponto de vista da area da acessibilidade, abordando assim o contexto de mapas descritos para cegos. Os autores que trouxeram apontamentos adequados ao tema sao descritos na sequencia.

O National Center for Accessible Media (NCAM) e o maior produtor de programas para distribuicao de conteudo nos Estados Unidos, tendo, desde sua fundacao, especializado-se tambem na disponibilizacao de midia e tecnologia assistiva para pessoas com deficiencia. Explorando politicas de acessibilidade, o centro disponibilizou o texto "Guidelines for Describing Images for Assessments" (2018) ou em livre traducao "Diretrizes para descrever imagens para avaliacoes". No texto, a organizacao aponta tambem recomendacoes para mapas que fazem parte de provas que incluiem cegos, sendo esses topicos extraidos para o presente trabalho.

Em "NWEA--Image Description Guidelines for Assessments" (2017) ou em traducao livre "NWEA--diretrizes para a descricao de imagens em avaliacoes", a Northwest Evaluation Association (NWEA) em parceria com a NCAM desenvolveu manual de instrucoes para auxiliar ledores em processos de avaliacao.

Alem das instrucoes tecnicas para leitura, o material tambem traz recomendacoes para a composicao das imagens de maneira que sejam de facil compreensao para o estudante e para o leitor. Ao se referir aos mapas, a organizacao recomenda, dentre outros pontos, a utilizacao de vocabulario especifico para os exames, para que assim se empregue uma mesma linguagem durante toda a prova.

Por fim, dentro dos destaques dos achados bibliograficos da area da acessibilidade, destaca-se os estudos de Perkins (2008). Segundo o autor, a pesquisa sobre o uso do mapa ate o comeco dos anos 2000 focou-se amplamente em abordagens cognitivas, e subestimou o significado de preocupacoes contextuais mais amplas associadas as culturas nas quais a cartografia opera. Enquanto isso, o ato de projetar mapas esta sendo popularizado, e as pessoas estao criando e empregando seus proprios mapas ao inves de confiar em cartografos. Assim, o Perkins (2008) enfatiza a necessidade de repensar o uso do mapa como um conjunto de atividades diarias praticadas em contextos do mundo real, utilizando-se para isso metodologias das ciencias sociais. Dentro do contexto da prova, um dos fatores que devem ser considerados e principalmente a cultura de quem descreve os mapas, o ledor.

O levantamento se deu em 5 bases de dados, e os achados referentes exclusivamente as recomendacoes para a elaboracao de mapas para descricao oral para cegos sao demonstrados na Figura 4 a seguir:

3 Consulta a ledores

Seguindo a coleta de informacoes a respeito de recomendacoes sobre os mapas, realizou-se entrevista semi-estruturada com quatro ledores, a fim de se explorar suas experiencias, alem de coletar opinioes sobre como os mapas podem ser apresentados de forma eficiente para o trabalho de descricao para cegos.

O numero de voluntarios escolhidos seguiu o que Given (2008) chama de amostra nao probabilistica, tecnica comum para a escolha de amostra em pesquisas qualitativas, onde o pesquisador usa seu proprio julgamento para a escolha dos participantes. Os voluntarios foram escolhidos por:

* Conveniencia: em locais de facil acesso;

* Bola de neve: indicacao de participantes atraves de voluntarios ja recrutados;

* Proposito: participantes que se encaixam nos criterios de selecao definidos pelo pesquisador.

Para os ledores, o principal local para busca de voluntarios foi o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) de Curitiba, que, como indicado pelo primeiro entrevistado, concentra funcionarios que ja participaram como ledores em processos seletivos publicos brasileiros.

Foram selecionados ledores que:

* Ja foram voluntarios em processos seletivos anteriores, atendendo candidatos com deficiencia visual;

* Independente de genero;

* Que estejam cursando ou tenham finalizado o Ensino Medio;

* Independente de idade, desde que atendam os criterios acima mencionados.

Os entrevistados relataram suas experiencias como ledores desde o curso de preparacao ate sua atuacao nos exames. Por conveniencia, as entrevistas ocorreram em duplas: entrevistou-se os Ledores 1 e 2 concomitantemente, e em um segundo momento os Ledores 3 e 4. Seus perfis sao ilustrados na Figura 5 a seguir:

Como observado em seus perfis, os voluntarios atuam em areas nao relacionadas diretamente aos temas especificos abordados pelo ENEM ou pelo ENCCEJA, o que foi apontado de imediato pelos ledores como condicao que gerou dificuldade. Como mencionou o Ledor 2 ao ser questionado sobre sua area de formacao:

E, eu sou formado em design grafico, e tambem nao tem nada a ver mesmo. Ate para mim foi um grande desafio, [...] imagine voce ter que ficar lendo aquelas formulas matematicas, descrevendo as imagens e tudo mais. [...] Ah, outra coisa que eu achei muito dificil foi o mapa que apareceu. [...] A sorte e que a gente tinha ate um conhecimento geografico, entao a gente meio que sabia se virar (informacao verbal)1.

Sobre a escolha dos ledores e sua relacao com as areas abordadas no ENEM, o Ledor 3 argumentou:

Nos eramos indicados, nao era um processo aberto. Eu fazia um trabalho junto a pro-reitoria da minha universidade, entao eu fui indicada. Quem me indicou me conhecia, sabia o interesse que eu tinha por essas questoes de acessibilidade, sabia que eu era fluente em ingles, essas coisas. Nao era pelo dinheiro, era mais pelo cuidado e interesse com aquele trabalho. E eu leria para pessoas que tivesse escolhido o ingles como lingua estrangeira. Entao tinha essa questao da indicacao e do interesse da pessoa tambem (informacao verbal) (2).

Ao discorrerem especificamente sobre os mapas que foram descritos por ambos nos exames, varias queixas foram relatadas. A primeira foi em relacao ao tamanho dessas imagens: segundo os ledores, muitas, alem de apresentarem um excesso de informacao, exibiram-se de tamanho inferior, dificultando a leitura das legendas, principalmente.

Outro aspecto que coletou uma serie de queixas foi o uso extensivo da textura como variavel grafica para a distincao entre areas. Como queixou-se o Ledor 2:

[...] e a prova em preto e branco, e a gente tinha que descrever as areas que estavam marcadas ali. Por exemplo, tinha umas que estavam pintadas com pontinhos, outras que estavam pintadas com mais pontinhos, e outras que estavam com riscos, e a gente precisava descrever tudo isso pra ele. Entao eu falei assim: "aqui temos um mapa do Brasil, na regiao Sul ele esta marcado com uns pontinhos maiores, perto do Rio de Janeiro e Espirito Santo esta marcado com risquinhos, e no nordeste com pontinhos menores". Nossa, e isso foi muito complicado, porque a gente nao tinha o mapa original para descrever. Entao a gente teve que descrever do nosso jeito. Se ele entendeu, eu nao sei. Essa foi uma das questoes que o candidato respondeu de qualquer jeito, provavelmente porque ele teve muita dificuldade em entender a descricao sobre o mapa, ate porque nesse caso nao recebemos a prova do ledor com a descricao. [...] Todas as legendas eram com texturas, e as bolinhas eram muito parecidas, e ler baseado na legenda, que teoricamente e o certo a se fazer, fica muito complicado (informacao verbal) (1).

Uma consideracao que se comentou diversas vezes tambem foi a real necessidade dos mapas e imagens como um todo nos exames. Os voluntarios se queixaram, primeiramente, que as provas sao simplesmente adaptadas de acordo com as oferecidas aos demais candidatos, que enxergam. Assim, adapta-se um conteudo extremamente visual, o que nao e aplicado a realidade daqueles que nao enxergam. O resultado e a aplicacao de imagens que, em muitos casos, estao presentes na prova apenas por um aspecto estetico, nao sendo fundamentais para a resolucao das questoes. Como comentou o Ledor i: E, mas eu acho assim, para muitas questoes nao e tao importante assim o visual, porque na verdade na interpretacao do enunciado ja da para resolver, nao precisava nem ter mapa, sinceramente. Voce precisa so interpretar o enunciado corretamente (informacao verbal) (1).

O tempo de duracao das provas tambem foi apontado pelos voluntarios como insuficiente, mesmo quando os candidatos solicitaram a hora adicional garantida por lei, e pelos editais do ENEM e do ENCCEJA. Segundo os ledores, o processo de leitura previa do material e selecao do que e realmente necessario para o candidato despende muito tempo e capacidade cognitiva dos mesmos, sendo apenas a hora adicional insuficiente.

Quanto ao delongamento para interpretacao das informacoes, os ledores destacaram os mapas como imagens dificultosas nos exames, principalmente por apresentarem um "excesso de conteudo a ser dito" (informacao verbal) (1). O Ledor 2 sugeriu:

Acho que e eles indicarem melhor o que precisa ser descrito do mapa, relacionando com a questao. [...] Ai sim fica mais facil para o ledor, e mais facil de bater o olho e entender. Nao precisa ter uma imagem tao grande e cheia de informacao para perguntar uma coisinha. [...] Porque a gente nao pode so olhar friamente para a imagem, tem que olhar tudo para saber como descrever as imagens (informacao verbal) (1).

De acordo com todos os apontamentos levantados em entrevista, elaborou-se a Figura 6 a seguir. Agruparam-se sugestoes para aprimorar o processo de aplicacao dos mapas, alem de suas formas de representacao.

4 Conjunto de recomendacoes

Por fim, como resultado da primeira fase da pesquisa, tem-se o conjunto inicial de recomendacoes. Atraves da reuniao dos achados encontrados na Revisao Bibliografica e dos pontos sugeridos pelos ledores em entrevista, as recomendacoes sao dividas em duas secoes: recomendacoes para a aplicacao das variaveis graficas nos mapas, e recomendacoes para a apresentacao dos mapas nos processos seletivos.

A primeira secao (Figura 7) constitui-se essencialmente da Figura 2, referente as recomendacoes para a utilizacao das variaveis graficas de acordo com MacEachren (1994). Ao nivel de percepcao qualitativo da variavel grafica Textura, foram acrescentadas duas observacoes realizadas pelos ledores em entrevista:

A segunda secao "Recomendacoes para a apresentacao dos mapas nos processos seletivos" agrupa as recomendacoes encontradas na area de acessibilidade, somadas as sugestoes dos ledores fornecidas em entrevista, como demonstra a Figura 8 a seguir:

A partir desse primeiro conjunto de recomendacoes, a quesito de exemplificacao da aplicacao das recomendacoes, adequou-se um dos mapas ja utilizados pelo ENEM, mantendo-se apenas suas informacoes textuais. O mapa foi escolhido de maneira aleatoria, oriundo do exame de 2009 (BRASIL, 2009), sendo suas alteracoes demonstradas na Figura 9 a seguir:

As seguintes alteracoes foram realizadas de acordo com as recomendacoes:

* Eliminaram-se as texturas, por serem similares entre si;

* Por tratar-se de um mapa de representacao qualitativa, utilizou-se a cor como variavel grafica para a distincao entre areas;

* Acrescentou-se a Rosa dos Ventos;

* Inseriu-se titulo e legenda, de forma a estabelecer uma ordem de apresentacao entre as informacoes do mapa;

Espera-se, com esse primeiro conjunto de recomendacoes, que seja possivel avancar na composicao de recomendacoes precisas para a elaboracao de mapas a serem descritos no ENEM. O INEP, responsavel pela elaboracao da prova, nao informa exatamente quem sao os responsaveis pela diagramacao completa da prova, contudo, o intuito dessa proposta de recomendacoes e de que possam ser lidas e compreendidas por qualquer profissional do ramo, tanto designers, cartografos e ate mesmo pedagogos.

5 Resultados e discussao

Por fim, como resultado da pesquisa, obteve-se modelo parcial de recomendacoes para o design de mapas de provas que incluam candidatos cegos. No levantamento teorico, observou-se que a legislacao brasileira sobre o direito do cego em processos seletivos e enfatica e rigorosa. No entanto, a realidade relatada pelos entrevistados nao e alinhada a essa eficacia: cursos de especializacao para ledores do ENEM nao sao suficientes para o trabalho individualizado com os cegos, o tempo para o preparo desse voluntario e insuficiente, e queixas sobre a estrutura e legibilidade das provas se somam.

Dentro dessa problematica de legibilidade da prova, ao se propor recomendacoes que venham a melhorar o entendimento dos mapas, observou-se a complexidade do processo. Por exemplo, aplicar somente as indicacoes das variaveis graficas de Bertin (1983) nao seria suficiente, devido ao contexto hibrido em que esses mapas sao aplicados. Assim, outros fatores externos a legibilidade das provas e dos mapas merecem atencao para o prosseguimento e aplicacao das recomendacoes, como por exemplo, a disponibilizacao de um Atlas para a consulta dos ledores durante a descricao.

6 Conclusao

Conclui-se com esse trabalho que a aplicacao de recomendacoes para mapas neste contexto e necessaria, para que assim mais candidatos cegos possam ter seu acesso a universidade ou a cargos publicos garantidos. No entanto, para o prosseguimento da pesquisa, e necessario aprofundamento bibliografico maior, bem como a consulta a mais especialistas, como cartografos e designers. A aplicacao das recomendacoes sobre mapas ja existentes tambem seria fator crucial para sua validacao, assim, seria possivel medir todos os aspectos que foram abordados, e os que ainda precisam ser. Com a aplicacao das recomendacoes sobre uma quantidade maior de mapas, seria possivel tambem aplica-los em ambiente simulado, no qual ledores e cegos realizariam a prova, observando-se assim fatores que contribuiriam para o aprofundamento das recomendacoes.

Referencias

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Sobre os Autores

Fernanda Domingues, mestranda.

<fernanda.fdomingues@gmail.com>

Graduada em Design pela Universidade Tecnologica Federal do Parana. Mestranda e bolsista CAPES pelo Programa de Pos-Graduacao em Design da Universidade Federal do Parana. Endereco: UFPR Edificio Dom Pedro I-R. General Carneiro, 460-8 andar--Curitiba--Parana --Brasil, CEP: 80060-150.

Claudia Mara Scudelari de Macedo, Dra.

<claudia.scudelari@gmail.com>

Doutorado em PPG-EGC--Midia e Conhecimento da UFSC--Possui pesquisas e publicacoes em multimidia-geometria, ambiente hipermidia, hipermidia adaptativa, Objetos de aprendizagem, Mapas conceituais, Acessibilidade digital. Foi docente da PUC-PR e professora colaboradora do PPGDesign da UFPR.

Artigo recebido em 05/11/2018

Artigo aceito em 08/03/2019

(1) Entrevista concedida por 1, Ledor; 2, Ledor. Entrevista I. [nov. 2017]. Curitiba, 2017. 1 arquivo .mp3 (90 minutos)

(2) Entrevista concedida por 3, Ledor; 4, Ledor. Entrevista II. [mar. 2018]. Curitiba, 2018. 1 arquivo .mp3 (75 minutos).

Caption: Figura 1 Variaveis Graficas. Fonte: adaptado de Bertin (1983).

Caption: Figura 2 Representacoes qualitativa, quantitativa e ordenada. Fonte: adaptado de Brasil (2009; 2013).

Caption: Figura 5 Perfil dos ledores entrevistados. Fonte: as autoras (2018).

Caption: Figura 9 Aplicacao das recomendacoes a um mapa ja utilizado pelo ENEM. Fonte: as autoras (2018).
Figura 3 Recomendacoes para a utilizacao das Variaveis Graficas.
Fonte: adaptado de MacEachren (1994).

             QUANTITATIVO   ORDENADO   QUALITATIVO

FORMA             B            P            B
TAMANHO           M            B            P
ORIENTACAO        M            M            B
COR               M            M            B
VALOR             M            B            P
TEXTURA           M            M            B
                B: BOM      M: MEDIO    P: POBRE

Figura 4 Achados na revisao de literatura. Fonte: as autoras (2018).

RECOMENDACAO                                             AUTOR(ES)

Respeitar a ordem de apresentacao entre as              NCAM (2009)
informacoes enunciado, mapa e alternativas

Os mapas devem manter o mesmo padrao de layout ao       NCAM (2009)
longo do documento

Usar vocabulario cartografico especifico                NWEA (2017)

Incluir sempre que possivel a Rosa dos Ventos           NWEA (2017)

O idioma utilizado deve ser compativel ao do ledor e    NWEA (2017)
candidato

Considerar como fatores contextuals ao se projetar     Perkins (2008)
um mapa: mobilidade, visualizacao, onde a leitura do
mapa ocorre, tempo contexto social, Interatividade
do meio e retorica

Factores culturais devem desempenhar um papel major    Perkins (2008)
no projeto de representacao e interfaces usadas na
geovisualizacao

Os ledores devem ter acesso a atlas e dicionarios      Perkins (2008)
como material de apoio

Figura 6 Recomendacoes apontadas pelos ledores.
Fonte: as autoras (2018).

RECOMENDACAO                                            LEDOR(ES)

Os mapas devem apresentar um tamanho minimo de      Ledores 12.3 e 4
acordo com 0 diagramacao das provas, de maneira
que seja visivel e identificavel pelo ledor

Utilizar mapas quando estritamente necessario       Ledores 12.3 e 4
para a resolucao da questao

As provas do ledor e do cego devem ser                 Ledores! e2
trabalhadas individualmente, retirando se 0
excesso de artificios visuais desnecessarios
presentes na prova comum

Tornar obrigatorio 0 curso de capacitacao para        Ledores 1 e 2
voluntarios que se inscrevem em processos
seletivos publicos que incluam candidatos com
deficiencia

A prova do ledor deve ser obrigatoriamente          Ledores 1,2,3 e 4
disponibilizada, com todas as descricoes
necessarias e para todos os tipos de deficiencia

Para candidatos que solicitam 0 auxilio-ledor,      Ledores 1,2,3 e 4
disponibilizar mais de uma hora adicional

Figura 7 Primeira pagina do conjunto de recomendacoes.
Fonte: os autores (2018).

                          NIVEL DE PERCEPCAO
             QUANTITATIVO   ORDENADO   QUALITATIVO

FORMA             P            P            B
TAMANHO           B            B            P
ORIENTACAO        M            M            B
COR               M            M            B
VALOR             M            B            P
TEXTURA           M            M         B (a,b)
                B: BOM      M: MEDIO    P: POBRE

Figura 8 Segunda pagina do conjunto de recomendacoes.
Fonte: as autoras (2018).

RECOMENDACOES PARA A APRESENTACAO DOS MAPAS NOS PROCESSOS SELECTIVOS

A quadro a sequir apresenta as recomendacoes para a aprentacao dos
Mapas em processos selectivos de acordo com autores levantados
Durante a revisao bibiliografico e a entrevista.

RECOMENDACAO                                           AUTOR(ES)

Respeitar a oidem dc apresentacao entre as            NCAM (2009)
informacoes: enunciado, mapa e alternativas

Os mapas devem manter o mesmo padrao de layout        NCAM (2009)
ao longo do documento

Usar vocabulario cartografico especifico              NWEA (2017)

Incluir sempreque possivel a Rosa dos Ventos         NWIEA (2017)

O idioma utilizado deve ser compativel ao do         NIWFA (2017)
ledor e candidato

Considerar como fatores contextuais ao se           Perkins (2008)
projetar um mapa: mobilidade, visualizacao,
onde a leitura do mapa ocorre, tempo, contexto
social, Interatividade do melo e retorica

Fatores culturais devem desempenhar um papel        Perkins (2008)
maior no projeto de representacoes e interfaces
usadas na geovisualizacao

Os ledores devem ter acesso a atlas e               Perkins (2008)
dicionarios como material do apoio

Os mapas devem apresentar um tamanho minimo de     Ledores 1,2,3 e 4
acordo com o diagramacao das provas, de maneira
que seja visivel e identificavel peio ledor

Utilizar mapas quando estritamente necessario      Ledores 1,2,3 e 4
para a resolucao da questao

As provas do ledor e do cego devem ser               Ledore 1 e 2
trabalhadas individualmente, retirando-se o
excesso de artificios visuais desnecessarios
presentes na prova comum

Tornar obrigatorio o curso de capacitacao para       Ledores 1 e 2
voluntarios que se inscrevem em processos
seletivos publicos que incluam candidatos com
deficiencia

A prova do ledor deve ser obrigatoriamente         Ledores 1,2,3 e 4
disponibilizada, com todas as descricoes
necessarias e para todos os tipos da
deficiencia

Para candidatos que solicitam o auxilio-ledor,     Ledores 1,2,3 e 4
disponibilizar mais de uma hora adiciona
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Article Details
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Author:Domingues, Fernanda; de Macedo, Claudia Mara Scudelari
Publication:Brazilian Journal of Information Design
Date:May 1, 2019
Words:5029
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