Printer Friendly

A producao da maternidade nos discursos de incentivo a amamentacao.

Resumo: No presente artigo (1) discutimos, atraves de materiais da Campanha da Amamentacao, discursos da maternidade, por intermedio das praticas de incentivo ao aleitamento materno. Problematizamos a forma como esses materiais veiculam modos de ser mae, pai e de como cuidar das criancas. Para a analise dos dados, fizemos uso dos conceitos de discurso e de enunciado de Michel Foucault, tomando-os enquanto ferramentas teorico- metodologicas. Nos materiais, percebemos que a mae e posicionada como principal responsavel pela saude de seus/as filhos/as, tendo o dever de cuidar deles/as e nutri-los/as. O pai ocupa um papel secundario nessa relacao, e a figura do especialista em saude ganha destaque, na medida em que e posicionado enquanto conhecedor das praticas da amamentacao, cabendo a mae aderir aos seus ensinamentos em prol da saude da crianca.

Palavras-chave: maternidade: paternidade: discurso: amamentacao.

Abstract: In this article we study several materials from the Breastfeeding Campaign, and discuss practices of incentive to breastfeeding in contemporaneity by observing how those materials disclose the rotes of a mother, a father and how children should be nursed. For data analysis, we used Michel Foucaults concepts of discourse and statement, taking them as theoretical and methodological tools. In the materials, we realized the mother is held as the chief responsible for the health of her children, being her duty to take care of the children and nurture them. The father plays a secondary role in this relationship. It is when the medical professional stands out, appointed as the holder of the knowledge about breastfeeding practices, so that the mother must adhere to the expertise in favor other child's health.

Key Words: Maternity: Paternity: Discourse: Breastfeeding.

Production of Maternity in Breastfeeding Incentive Discourses

Introducao

Muitos discursos veiculados no cotidiano demarcam papeis diferenciados para homens e mulheres, que comecam a se configurar desde a infancia, num momento em que as criancas aprendem a se comportar conforme padroes estabelecidos, nos quais a menina e relacionada a fragilidade e passividade, e o menino, a forca, agressividade e virilidade. Essa diferenca tambem estabelece padroes de desigualdade, nos quais os homens ocupam um papel, muitas vezes privilegiado, em termos de dominacao. (2)

Nessas diferencas vivenciadas nas praticas cotidianas, demarcam-se posicoes que os sujeitos devem ocupar, por intermedio de discursos revestidos por um status de 'verdade' incontestavel. Essa mesma 'verdade' "[...] torna-se o que constrange o pensamento a pensar de uma determinada maneira, aquilo que, em outros momentos da historia, sob outras condicoes, se pensou ou se pensara de modo diferente". (3)

Para Monique Wittig, a diferenca entre os sexos nao e nada mais do que uma interpretacao, constituida de normas fundadas em um sistema binario de genero. Quando uma crianca nasce, a atencao e voltada aos seus tracos anatomicos sexualmente diferenciados, que irao determinar o seu destino social. Dentro desse contexto, Judith Butler afirma que: (4)
   A angustia e o terror de abandonar um genero prescrito
   ou de passar para o territorio de outro genero comprovam
   as contribuicoes sociais sobre a interpretacao de
   genero e a necessidade de haver uma interpretacao,
   isto e, a liberdade essencial na origem do genero. Do
   mesmo modo, a generalizada dificuldade em aceitar
   a maternidade, por exemplo, como realidade institucional
   e nao instintual exprime essa mesma interacao
   de constricao e liberdade. O esforco por interpretar
   sentimentos maternais como necessidades organicas
   revela um desejo de disfarcar maternidade como uma
   pratica opcional, Se maternidade se torna uma escolha,
   entao o que mais e possivel? Esse tipo de questionamento
   frequentemente causa vertigem e terror ante a
   possibilidade de perder sancoes sociais, de abandonar
   um lugar e uma posicao social solida. O fato de que
   esse terror e tao bem conhecido da o maior credito a
   nocao de que a identidade de genero repousa na
   base instavel da invencao humana. (5)


A partir dessa questao, podemos dizer que a maternidade se constitui enquanto produto da cultura, e assume as caracteristicas atuais da sociedade e do momento que se esta vivendo. Esse mesmo conceito de sujeito materno esta pautado na logica construida na modernidade, em que questoes de genero se ancoram a processos que resultam na desigualdade e na hierarquizacao em meio a modelos sociais que investem na mulher em uma perspectiva que leva em conta uma essencia universal e biologica, colocando-a na posicao de cuidadora, educadora, 'por natureza', das criancas. (6)

Por intermedio das praticas de significacao linguistica e cultural dos sistemas simbolicos, os significados da maternidade sao construidos. Tais significados direcionam as mulheres a um entendimento de sua vivencia, compreendendo como se dara a sua pratica e seus sentimentos em relacao a maternidade. (7)

Desse modo, percebemos que a mulher, na condicao de mae, e uma figura constantemente carregada de sentidos, de valores especificos. A ela e atribuida uma serie de obrigacoes e, em muitos casos, e responsabilizada pelo cuidado, saude e sucesso futuro de seus/as filhos/as. Assim, entendemos que se faz necessario investigar discursos cotidianos, provindos de diferentes lugares, tais como midia televisiva, jornais, revistas, anuncios e politicas publicas de saude, que a colocam nesse papel.

As praticas de incentivo ao aleitamento materno, na contemporaneidade, adquirem centralidade em meio a essas questoes (8) e constituem um campo rico de investigacao, tendo em vista que a amamentacao, no Brasil, e tema de interesse da saude publica, envolvendo meios de comunicacao, governos, comunidades e servicos de saude em prol de seu incentivo, o que torna a mulher foco de discursos que muitas vezes a posicionam em uma condicao exclusivamente voltada a maternidade.

Entendendo as questoes postas aqui como de grande importancia, em especial na luta contra a desigualdade nas relacoes de genero, em que a mulher e submetida a determinados papeis em funcao de sua anatomia, e tomando, enquanto disparadores, os estudos feministas, que possuem uma aproximacao com o pos-estruturalismo, a intencao, com este estudo, e dar visibilidade aos discursos de incentivo ao aleitamento materno, veiculados pelo governo brasileiro em parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria, que circulam no cotidiano das mulheres cujos/as filhos/as estao em periodo de lactacao, haja vista a emergencia, cada vez maior, de estudos e acoes politicas nas praticas de incentivo a amamentacao incididos sobre a mae.

Sendo assim, elegeram-se para analise desta pesquisa 11 folders e um cartaz que compoem a Campanha da Amamentacao, (9) elaborados pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e confeccionados no periodo de 1999 a 2010, com a colaboracao do Ministerio da Saude (MS), desde 2004. (10) Esses mesmos materiais sao parte de um Importante marketing de mobilizacao social que tem o intuito de promover o aumento dos indices de aleitamento materno no pais. (11)

Por fazerem parte de uma campanha nacional, tais materiais, que tambem se apresentam no formato de videos e propagandas radialistas, sao veiculados em diferentes meios de comunicdcao, como radio, televisao e sites eletronicos relacionados ou nao ao Ministerio da Saude, e distribuidos em unidades basicas e demais estabelecimentos de saude de todo o Brasil, incluindo os hospitais. Em 1992, o Ministerio da Saude incorpora a Iniciativa Hospital Amigo da Crianca, com o intuito de capacitar profissionais desse campo, realizar avaliacoes e estimular o credenciamento nesse projeto. Ao receber esse titulo, o hospital e reconhecido, em seu municipio, como referencia em amamentacao. (12)

Os materiais eleitos para a presente analise se apresentam como uma forma didatica e acessivel ao publico em geral, configurando-se enquanto dispositivos que pretendem atingir as maes brasileiras que possuem criancas em periodo de lactacao, por intermedio da sensibilizacao em aderir ao aleitamento materno e de uma lista de vantagens e beneficios que se fixam, em especial, na saude de seus/as filhos/as, colocando-as enquanto principais responsaveis pelo sucesso dessa pratica.

A importancia da realizacao de estudos como este se justifica tambem pelo fato de os movimentos como os da Campanha da Amamentacao colocarem a geracao e criacao de filhos/as 'equilibrados/as' e 'saudaveis'13 como um imperativo, delineando um projeto de vida no qual a mulher que se torna mae deve se responsabilizar individualmente por essa missao, sem que se leve em conta suas condicoes sociais e problemas, configurando-se ai uma "nova politlzacao da maternidade". (14)

Esse processo ocorre no Brasil a partir do seculo XIX, quando a maternidade passa a ser assunto publico e a familia se torna alvo de investimento em funcao de dados estatisticos que passam a registrar fenomenos populacionais, tais como nascimentos, mortalidade infantil e natalidade. (15)

Nortearam este estudo as seguintes questoes: que 'verdades' e modos de ser mae estao impressos nesses materiais? De que maneira se apresentam? Que determinados tipos de sujeito querem formar? Qual e a posicao ocupada pelo pai em meio aos discursos proferidos? O que significa, para a campanha, cuidar de uma crianca?

E valido ressaltar aqui que o sujeito a que se refere o estudo nao e um sujeito essencializado, nao e algo que esta sempre dado. A intencao desta producao e deslocar o olhar do individual para as praticas culturais, entendendo que as pessoas estao localizadas em uma rede discursiva na qual tais praticas sao produzidas. Essa producao se constitui em um processo permanente, e o sujeito nao participa dele como mero receptor, tendo em vista que esta implicado em meio a essa trama, sendo tambem produtor dela. (16)

Assim, deixamos de lado a ideia de uma natureza humana, apontando para uma subjetividade essencialmente fabricada, modelada, recebida, consumida. Em meio a essa producao da subjetividade, evidencia-se a producao de modos de ser mae, de ser crianca, de ser homem. Em outras palavras, o foco do investimento se da na producao desses sujeitos, e e por Intermedio desse Investimento que as pessoas tomam como verdade, consomem determinadas formas de entender a realidade, o mundo, o seu dia a dia e as suas praticas. (17)

Para a analise do material, fizemos uso das ferramentas teorico-metodologicas de Michel Foucault, (18) levando em conta seus conceitos de discurso e de enunciado; utilizamonos tambem das producoes que seguem essa mesma linha de investigacao. (19) Desse modo, o discurso e aqui tomado como um conjunto de enunciados que se apoiqm em uma mesma formacao discursiva. E uma construcao historica, permeada por relacoes de poder, que se encontram em um determinado campo discursivo e que colocam em funcionamento enunciados e relacoes. (20)

O enunciado, por sua vez, e uma funcao de existencia que se exerce transversalmente sobre a linguagem, a proposicao ou a frase. Ele perpassa um dominio de unidades e de estruturas e permite que estas aparecam temporalmente e espacialmente. Esta apoiado em um conjunto de signos, e se caracteriza por quatro elementos, a saber: um referente (um principio de diferenciacao ou, em outras palavras, a referencia a algo que identificamos), um sujeito (alguem que afirme o que se profere), um campo associado (associacao com outros enunciados do mesmo discurso) e uma materialidade especifica (formas concretas com que o enunciado aparece). (21)

As pessoas se sujeitam a determinados discursos quando passam a tomar aquilo que lhes e dito, que lhes e veiculado, enquanto unica verdade. As linhas de fuga, nesse caso, sao consideradas enquanto maneiras de elas escaparem dessas verdades postas no discurso. Em outras palavras, e preciso que as pessoas se perguntem por que determinadas coisas sao ditas de uma forma, em um determinado lugar e momento, e nao em outro tempo e lugar, de um modo diferente. (22)

Em funcao de os materiais que veiculam a pratica de amamentacao nao serem constituidos apenas por textos, consideramos, no processo de analise deste estudo, suas imagens enquanto produtoras de concepcoes esteticas, politicas e sociais, sendo vistas, portanto, como um texto discursivo e enunciativo que diz, que conta a nossa historia atual, uma vez que difundem saberes e valores. (23)

Adotamos essa perspectiva porque entendemos as imagens, representadas nos materiais analisados, enquanto coletivas e individuais. Coletivas porque expressam determinados valores sociais de uma epoca. Individuais porque tambem representam o olhar individual de quem as confeccionou, bem como de quem as viu e ve. Desse modo, imagens e textos presentes nos materiais das campanhas dizem sobre os momentos em que foram produzidos, (24) demonstrando, assim, sua influencia na producao dos sujeitos aos quais se destinam.

Verdades proferidas acerca das praticas maternas: colocando em analise discursos da campanha

Em meio a proposta lancada pelos materiais analisados ao longo deste estudo, sao convidadas a falar, por intermedio da divulgacao da amamentacao, mulheres famosas, cujos/as filhos/as se encontram em periodo de lactacao. O movimento da campanha permite denotar um sentido valorativo que procura sensibilizar e, ao mesmo tempo, responsabilizar a mae pelo sucesso da amamentacao, proferido por outra figura ali representada: a do/a especialista em saude da crianca. O jogo entre figura e frases introdutorias, sempre estampadas nas capas dos materiais, exerce a funcao de chamar o/a leltor/a para a importancia da amamentacao.

[FIGURA 1 OMITIR]

O primeiro folder e representado pela atriz Luiza Brunet e seu filho Antonio, de quatro meses, sendo o material um convite feito pela SBP para que as maes e os profissionais da saude, em especial pediatras, passem a aderir em seu cotidiano ao exercicio e tambem incentivo a amamentacao. Nele, a atriz se apresenta ornamentando seu filho. Sentada, segura o bebe com uma das maos e, com a outra, acaricia seu braco. Com um leve sorriso, olha para a camera. Afigura e acompanhada por uma serie de frases curtas, das quais se destacam as seguintes: "Amamentar e educar para a vida." "Vamos reaprender!" "O leite materno e alimento, saude e afeto" (Folder, 1999). (25)

O convite para que maes e profissionais da saude adotem a pratica e o incentivo a amamentacao, por intermedio dessa introducao do copo, permite amarrar esses enunciados com muitos outros presentes dentro do folder, como aqueles que proferem que o leite materno e o contato inicial com a mae sao fundamentais para o desenvolvimento do crianca: "[...] uma educacao de quolidode comeca nos primeiros momentos apos o nascimento, com o aconchego, o calor e a succao no peito. Este momento e unico e repercute por toda a vida" (Folder, 1999). (26)

Esse movimento, no qual profissionais da saude e mulheres aparecem como figuras de destaque, posiciona sujeitos em meio aos discursos ali proferidos. Por intermedio de sistemas de representacao social, que envolvem praticas de significacao, e sistemas simbolicos, que permitem a construcao desses mesmos significados, criam-se lugares nos quais mulheres, na condicao de maes, e profissionais, estampados na figura do/a pediatra, por exemplo, se posicionam e sao posicionados e, a partir dos quais, podem falar ou ser falados. (27)

Nesse caso, a figura do especialista aparece na posicao de detentor do saber, no que se refere aos beneficios da amamentacao e na forma como pratica-la, em um movimento que se inicia na capa e tem prosseguimento ao longo dos materiois, ditando a tecnica da mamada correta, como se pode perceber na seguinte frase:

O bebe deve estar virado para a mae, bem junto de seu corpo, bem apoiado e com os bracos livres. A cabeca do bebe deve ficar de frente para o peito e o nariz bem na frente do mamilo. So coloque o bebe para sugar quando ele abrir bem a boca. Quando o bebe pega bem o peito, o queixo encosta na mama, os labios ficam virados para fora, o nariz fica livre e aparece mais areola (parte escura em volta do mamilo) na parte de cima da boca do que na de baixo (Folder, 2010). (28)

A mae, por sua vez, e posicionada enquanto receptora desse saber, convidada, na figura das atrizes, a proferir o jeito certo de exercer sua funcao materna, desde que se coloque como boa aprendiz da tecnica a ela passada. Aqui, engendra-se um movimento que coloca a mulher em uma posicao de submissao a um saber que ela nao detem, mas que adquire por intermedio do/a especialista, e que nos mostra um exemplo de discurso que nos produz e que produzimos em nossa sociedade. (29)

Isso faz pensar que circulam no dia a dia ideais que fazem as pessoas crer que a mae e a peca fundamental para o sucesso e para o desenvolvimento dos criancas, e, a medida que esses materiais circulam, com o intuito de promover a aderencia, por parte das maes, pela pratica da amamentacao, tambem constroem sentidos e significados de maternidade. (30)

A tecnica da 'mamada correta' e representada em geral por um desenho, no qual o corpo da mulher e fragmentado, dando-se visibilidade apenas para a mama, que se encaixa na boca da crianca. O movimento expresso na campanha, quando intencionado o garantir o 'correto' uso da tecnica, direciona o foco de atencao para a parte do corpo que ali representa a mulher em sua condicao de nutriz. Nesse caso, a preocupacao e expressa na forma como a tecnica e exercida, sem ao menos dar-se conta que aquele corpo deve ser visto e tratado em sua integralidade.

Em outras palavras, podemos perceber que a imagem enuncia um corpo que tem uma funcao especifica ao gerar uma crianca: a de amamentar. Ha uma exaltacao da mama nessas figuras e nas demais, nas quais as mulheres posam sorridentes para as cameras e expoem o orgulho do ato de amamentar. Quando as imagens se fixam na demarcacao de determinadas partes do corpo, como seios, bracos (representando o 'modo correto' de segurar a crianca), convidam o/a leitor/a a observar a especificidade delas no cuidado com a crianca.

A insistencia na forma como se amamenta, ditando ai um padrao especifico, demonstra, ainda, que a maternidade e um exercicio constante e intensivo, no qual a mae precisa saber manusear, usar seu corpo em prol da alimentacao de seu bebe e, em especial, a mama, parte na qual se situa, nesse caso, a especificidade do exercicio da maternagem. (31)

O movimento feito pelos discursos dos demais materiais, no que se refere as frases e as imagens, segue basicamente o mesmo percurso, e se direciona para a representacao de um ideal de maternidade, de mae, e de familia, dando um forte sentido de valor para a amamentacao, que nao se restringe apenas ao ato de alimentar a crianca: "Amamentar e dar ao seu bebe saude em forma de amor" (Folder, 2002). (32) "Amamentacao e uma forma especial de comunicacao entre a mae e o bebe. Ao ser amamentada, a crianca aprende muito cedo a se comunicar com intimidade, afeto e confianca, o que pode contribuir para a sua saude mental no futuro" (Folder, 2004). (33)

[FIGURA 2 OMITIR]

O sujeito materno e aqui posicionado enquanto aquele que, por intermedio da amamentacao, transmite amor e saude para a crianca; mas nao e qualquer tipo de saude: e uma saude dada em forma de amor. Amamentar, em outras palavras, vem a confirmar a ideia de que uma boa mae amamenta, pois proporciona a crianca muito mais do que alimento. E como se a mae se doasse para a crianca e desse a ela algo unico, que o seu proprio corpo produz.

A amamentacao, enquanto forma especial de comunicacao, indica aqui a presenca insubstituivel da mae no processo de desenvolvimento da crianca. A cada enunciado presente, repete-se a ideia de que as criancas devem ser cuidadas por suas maes, dando-se a impressao de que estas necessitam ser suas maes biologicas, pois intimidade, afeto, comunicacao e aquisicao de confianca se expressam atraves do ato de amamentar ao peito, conforme dita a campanha. Todos esses enunciados presentes nas campanhas estao ligados a um ideal de mae perfeita, que e a mae 'natural', nocao que se pauta na crenca do instinto maternal presente em todas as mulheres: (34) 'Acredite, seu filho prefere seu leite, seu peito, seu colo" (Folder, 2007). (35)

A formulacao de um discurso ligado a culpa direcionado aquelas que optam por nao amamentar, ou que nao conseguem porque praticaram a tecnica Inadequada--segundo o que se expressa nos folders, basta a mulher acreditar que consegue amamentar para concretizar essa funcao--e levada aos extremos, quando se dita um futuro, um destino para aqueles/as que sao e para aqueles/as que nao sao amamentados, ligado a sua futura saude mental. Esse processo de culpabilizacao vem, mais uma vez, demonstrar que, apesar de proporcionar o entendimento de que a mae necessita de uma rede de apoio para amamentar, a campanha ainda a coloca como a principal responsavel pelo sucesso ou pelo fracasso da pratica. Desse modo, como nos apresenta Aminatta Forna: (36)
   O mito da maternidade e o mito da 'Mae Perfeita'. Ela
   deve ser completamente devotada nao so aos filhos,
   mas a seu papel de mae. Deve ser a mae que
   compreende os filhos, que da amor total e, o que e
   mais importante, que se entrega totalmente. Deve ser
   capaz de enormes sacrificios. Deve ser fertil e ter Instinto
   maternal, a nao ser que seja solteira e/ou pobre, e
   nesse caso sera aviltada precisamente por essas
   condicoes. Acreditamos que ela e a melhor, e a unica
   capaz de cuidar corretamente dos filhos, e que eles
   exigem sua presenca continua e exclusiva. Ela deve
   incorporar todas as qualidades tradicionalmente
   associadas a feminilidade, tais como acolhimento,
   ternura e intimidade. Queremos que elo seja assim e
   e assim que tentamos faze-la. (37)


Alimentacao, cuidado e educacao da crianca: 'coisas de mulher'

As maes que representam a pratica da amamentacao nas campanhas apresentam-se, na maioria das vezes, sozinhas e, quando acompanhadas, aparecem ao lado de outra mulher (como no caso do folder de 2005, (38) no qual a atriz Maria Paula e sua filha posam ao lado de Vera Viel e seu bebe, ou no caso do folder de 2008 (39), em que Dira Paes aparece ornamentando seu filho ao lado de sua mae).

[FIGURA 3-4 OMITIR]

O folder de 2007 (40) e o unico que traz a imagem do pai na capa, acompanhado da mae e da crianca, Os materiais de 2002 (41) e de 2004 (42) tambem trazem o pai em meio as imagens, porem, do lado de dentro do folder.

O que enunciam os materiais e que cuidar, nutrir e acompanhar o/a filho/a e basicamente coisa de mulher, em especial porque essa ideia esta impregnada por explicacoes de cunho biologico, nas quais mae e vista como a cuidadora natural, em funcao de dar a luz e possuir mamas. A paternidade, nesse caso, e posicionada de forma diferenciada, sendo um acontecimento que se estabelece em um periodo especifico da vida do homem, em um momento que comeca com a noticia da gravidez. No caso da mulher, a experiencia da maternidade e continua (43) e exige dela um preparo para receber o/a filho/a e cuidar dele/a ate quando for necessario.

Tudo isso fica mais claro quando se foca a atencao para as questoes legais de ordem trabalhista que ditam quem tem o direito (ou no caso, o dever) de se afastar do trabalho para cuidar da crianca nos seus primeiros meses de vida. Os folders sao claros: e preciso divulgar as maes que trabalham seu direito a licenca-maternidade de quatro meses, e de duas pausas no trabalho de meia hora cada uma, ate os seis meses de vida da crianca, para amamentar. Aos pais, reservam-se, por lei, os cinco primeiros dias apos o nascimento da crianca para que possam permanecer com elas em casa.

Nao e a toa que o movimento da campanha aponta as praticas de cuidado a crianca como 'coisa de mulher', tendo em vista que, ao longo dos tempos, as maes e as sogras da nutriz sao as principais figuras no incentivo a amamentacao. A participacao do companheiro, nesse caso, se mostra insignificante, (44) sendo posicionado como mais um membro da familia responsavel por apoiar a mae na pratica da amamentacao: "Como a familia, vizinhos e amigos podem apoiar a amamentacao? Ajudando ou assumindo as tarefas domesticas para que qs maes tenham tempo e tranquilidade para amamentar" (Folder; 2008). (45)

Esse movimento feito pela campanha se articula ao posicionamento social dado a mulher: a responsabilidade pelas tarefas da casa, que envolvem o cuidado das criancas e os afazeres domesticos, combinados a sua jornada de trabalho fora do lar. As desigualdades de genero aumentam a medida que a mae, expressa na campanha, tem cada vez menos escolhas, tendo em vista que esta confinada a sua condicao biologica e, portanto, convidada a deixar de lado, ainda que temporariamente, qualquer coisq que a impeca de exercer suas funcoes maternas.

Para se entender a importancia que hoje se da a relacao mae-bebe e aos aspectos relacionados aos vinculos Iniciais, devemos nos remeter aos estudos de Sigmund Freud e de John Bowlby, cujas obras procuraram enfatizar, por intermedio de uma autoridade cientifica, a necessidade de a mae dedicar-se exclusivamente aos cuidados das criancas.

Entretanto, nao ha pretensao aqui de comparar o tempo presente com outros momentos historicos, negando as suas particularidades e a forma singular do modo como emergiam e pulverizavam determinadas verdades. Consideramos, no entanto, que e preciso entender a emergencia de determinados discursos e as consequentes modificacoes culturais que foram consolidando a realidade de hoje.

No inicio do seculo XX, Freud ja apontava para a ideia de que as experiencias primitivas na Infancia iriam repercutir nos comportamentos posteriores do individuo. (46) Tais teorias propiciaram a disseminacao, por parte de seus/as discipulos/as, de que qs maes seriam as culpadas pelos infortunios de seus/as filhos/as no futuro. Com o psicanalista John Bowlby, a teoria do vinculo e a crescente preocupacao dos especialistas com a saude mental da crianca, emerge um movimento que exige a volta, no pos-guerra de 1950, das maes para seus lares, para que ali permanecessem em tempo integral com a crianca. (47)

Os estudos de Bowlby tiveram muita influencia na vida das mulheres dessa epoca, em especial porque seus estudos apontavam para os maleficios que os orfanatos propiciavam no desenvolvimento infantil. Ao se fixar na relacao mae-bebe, o autor deixou de considerar que o que acarretava em maleficios para as criancas era, na verdade, a carencia das relacoes humanas existente nesses estabelecimentos. Entretanto, ainda que seus estudos tenham sido muito criticados pela falta de utilizacao de metodos cientificos, tais como os de grupos-controle, eles beneficiaram interesses do Estado, que necessitava reposicionar as mulheres (cujo contexto da guerra as fizeram sair do espaco privado e assumir funcoes dos homens no mercado de trabalho) com a volta da mao de obra masculina no pos-guerra. (48)

Hoje, o que se percebe e que a mulher, mesmo exercendo uma funcao fora de casa, ainda e responsabilizada pela criacao dos/as filhos/as, cabendo a ela saber administrar essa situacao. Em um estudo no qual foram analisadas reportagens de duas revistas de alta circulacao no Brasil, no periodo de 1992 a 2003, (49) os enunciados presentes nos materiais apontam para um movimento em que 'brincadeira de menina' se situa, em especial, no exercicio do cuidado com o outro, em gestos que envolvem o embalo das bonecas e demais atitudes que comprovam que essa crianca, reduzida ao seu sexo, nasceu para ser mae.

Quando adulta, e Incentivada, segundo os materiais da revista, a deixar de lado o trabalho por um bom tempo, em especial quando resolve ter um/a filho/a logo apos oIa outro/a. A ideia se justifica com o trabalho que ira ter no cuidado diario das criancas e no tempo que tera para atender o marido quando este chegar em casa.

Como se pode perceber, a campanha da amamentacao se articula a leis, cultura, saberes cientificos e, em especial, a midia, um dispositivo pedagogico que se mostra como local privilegiado na veiculacao da informacao e educacao das pessoas, capturando ainda o/a telespectador/a em sua intimidade, o que o faz, em muitos casos, reconhecer-se em uma serie de 'verdades' por ela pronunciadas. (50)

Desse modo, por intermedio de atrizes famosas, veicula um modo de ser mae, utilizando-se de estrategias que ditam um padrao de mulher ja reconhecido (ou, pelo menos, conhecido) pelo publico em geral. A mulher que ali representa a mae brasileira que amamenta nao e qualquer mae, mas sim uma mae personificada na figura da mulher padrao, com um estilo de vida muitas vezes almejado enquanto modelo Ideal.

Entretanto, sabemos que, quando as pessoas padronizam um modo de ser, deixam de lado a possibilidade de producao de outro modo de se pensar a maternidade. Ao ditar um modo de ser mae, a campanha deixa tambem de contemplar a realidade de muitas mulheres, como as que possuem um grande numero de filhos/as, as que querem ou necessitam se inserir no mercado de trabalho porque se encontram na condicao de chefes de familia, bem como as que nao possuem acesso a uma rede de apoio social. (51)

Os materiais ainda tracam um percurso no qual enunciados se entrelacam em uma demonstracao constante de que amamentar e um ato natural e fundamentalmente essencial para a saude da crianca. Nao poupam esforcos para coloca-lo como uma atitude sublime e cuja funcao toda mulher e capaz de exercer, como quando ilustram, na campanha de 2003, (52) a atriz Luiza Tome ornamentando seus dois filhos ao mesmo tempo.

[FIGURA 5 OMITIR]

A imagem, que direciona o olhar do/a leitor/a para as mamas e para a posicao 'correta' de amamentar gemeos corrobora com o movimento que todos os folders fazem ao transmitir a ideia de que, para amamentar, e preciso da tecnica aliada a crenca, por parte de todos/as e inclusive da mulher, de que ela pode amamentar: "Acredite, voce e capaz de amamentar seu filho!" (Folder 2006). (53)

Entretanto, a figura demonstra que a mae deve estar rodeada por uma serie de instrumentos que lhe possibilitem aleitar seu bebe (como o lugar confortavel para se sentar e o ambiente adequado). Sem duvida, para que Luiza consiga realizar sua funcao de nutriz de gemeos, necessita no minimo da ajuda de outra pessoa, seja para apoiar as criancas junto ao seu corpo, seja para garantir-lhe que, naquele momento, possa fazer aquilo com exclusividade.

O movimento que a campanha faz e o de chamar familiares, amigos e vizinhos, bem como profissionais da area da saude, para que incentivem e deem apoio as maes nesse momento. Entretanto, os proprios materiais veiculam, em sua maioria, a figura da mulher sozinha no ato da amamentacao, demonstrando que, no final das contas, a pratica depende quase que exclusivamente dela.

A ideia de que alimentar o/a filho/a com o proprio leite e um ato natural prossegue ao longo dos anos de campanha e e apontada enquanto incumbencia unica e exclusiva da mulher, que, por intermedio de uma 'verdade' de cunho biologico, e convocada a adotar a pratica. Ao mesmo tempo que o exercicio da amamentacao e constantemente reforcado e apoiado pelo discurso biologico, muitos outros discursos que dao a mae a incumbencia de exercer praticas maternas de um determinado jeito e nao de outro demonstram que, para sensibiliza-las, e preciso ligar o aleitamento materno a uma questao de responsabilidade social para com o futuro da nacao: "Amamentacao, saude e paz para um mundo melhor!" (54) "Nada mais natural que amamentar. Nada mais importante que apoiar". (55)

Como podemos perceber, as campanhas enunciam que a amamentacao esta ligada a uma responsabilidade muito grande, por parte das mulheres, com questoes que vao alem do bom desenvolvimento da crianca pequena. Alem de garantir uma boa condicao de saude a crianca, a amamentacao e vista aqui como a solucao para muitos problemas que se ligam ao contexto populacional e, no final das contas, da a ela um status privilegiado.

Sendo um ato considerado natural, passa a ser incumbencia de todas as maes cujos/as filhos/as estao em periodo de lactacao e, sendo ligado a garantia de um futuro melhor para a populacao, cabe a mae aderir ao processo como todas as outras que assim o fizeram e que demonstram, por intermedio dos materiais, que isso e possivel.

Hoje, uma serie de especialistas da area da saude, um dos muitos agentes autorizados a proferir 'verdades' sobre o tema da maternidade, lancam receitas e modos adequados de ser, apontando para os maleficios para a crianca quando a mae nao adere aos pressupostos da ciencia. Algumas dessas 'verdades' se manifestam na entrevista dada pelo pediatra Jorge Cesar Martinez a revista PUCRS Informacao: (56)
   Temos em nossas maos o futuro de uma pessoa. O que
   fazemos ou deixamos de fazer vai favorecer que esse
   ser humano cresca sadio fisica e mentalmente. Os filhos
   dependem grande parte de nos. E uma incrivel
   oportunidade. Que outra parte do corpo podemos
   com nossas acoes modificar? Nenhuma. Com meu
   comportamento eu vou fazer que essa pessoa seja
   saudavel mentalmente. Que esse individuo nao use
   sua inteligencia para produzir bombas, atentados [...].
   Acredito nas maes. Elas podem trabalhar os filhos desde
   recem-nascidos, que tem a chqnce de aprenderem
   a lidar com as situacoes sem violencia. Que as maes
   nao trabalhem por tres anos. Estao criando o futuro
   brasileiro, argentino, canadense. Sou um sonhador. A
   cada tres, cinco, 200 geracoes, poderemos mudar.
   Falamos ingles, portugues, espanhol. A mae fala o
   idioma do coracao. (57)


Aqui, problematizamos a questao, apontando para diferentes discursos, pautados em uma autoridade cientifica, que sao lancados as mulheres e tambem aos homens. Ainda que se reconheca a importancia da amamentacao para o desenvolvimento da crianca, e preciso entender que a forma como se veiculam as praticas de cuidado expressa a grande influencia que a cultura contemporanea, especialmente na realidade brasileira, promove sobre as atitudes das maes, ditando-lhes o que fazer, como fazer, o que devem sentir por seus/as filhos/as e quais sao os limites entre o normal e o patologico nessa relacao.

As maes sao convidadas a salvar o futuro da nacao, a deixar de lado seus empregos, negociar com sua chefia, readaptar sua rotina em prol do desenvolvimento da crianca, mas cada vez menos se pergunta a elas o que pensam disso e como fazem para tornar essa realidade possivel.

Em uma entrevista a revista alema Spiegel, em 30 de agosto de 2010, reproduzida no site UOL, (58) Elisabeth Badinter aponta para seu temor de que um novo discurso de retorno a natureza esteja fazendo com que muitas mulheres abandonem suas lutas e conquistas em prol de sua emancipacao para aderirem aos valores de suas avos. O desejo de que a crianca seja perfeita e apontado por ela como consequencia desse movimento, e o esforco da mulher em ficar em casa cuidando pessoalmente dos/as filhos/as vem justamente ao encontro desse objetivo.

Para a filosofa, as maes sofrem uma pressao muito grande para amamentar seus/as filhos/as, pratica essa que, em sua opiniao, envolve decisoes muito pessoais que so dizem respeito a mulher. Entretanto, o assunto acabou virando uma das prioridades na agenda da Organizacao Mundial da Saude, misturando-se a questoes de ordem politica e economica. Mais do que nunca, e na medida em que a reproducao ganhou visibilidade para alem do contexto familiar, ela passou a ser regulada e vigiada, o que, por sua vez, colocou a mulher enquanto figura central em meio ao processo de gestacao, do aleitamento, do cuidado e da educacao das criancas. (59)

A exemplo de como a Campanha de Amamentacao se constitui em um mecanismo regulador da vida das maes, trazemos para esta discussao o movimento unanime de todos os folders na determinacao do tempo em que se deve amamentar: de forma exclusiva ate os seis meses de vida da crianca, sem a utilizacao de aguas, chas, e, apos os seis meses, administrada juntamente com outros alimentos, ate os dois anos ou mais. No sentido de informar as maes e aos demais leitores desses folders sobre a importancia de amamentar ate esse periodo, muitos materiais proferem: "O leite humano e o unico alimento capaz de oferecer todos os nutrientes na quantidade exata de que o bebe precisa. Ele garante o melhor crescimento e desenvolvimento, nao existindo nenhum outro alimento capaz de substitui-lo". (60)

Percebemos que se expressa, em meio aos materiais analisados, um conjunto de enunciados que atribuem a saude da crianca em geral (seu desenvolvimento fisico, afetivo e cognitivo) determinados comportamentos e formas de cuidado que, mesmo com os avancos tecnologicos e dos movimentos feministas, colocam a maternidade como uma tarefa muito dificil e abrangente, tendo como exemplo claro disso a forma como a pratica do aleitamento materno e hoje concebida e ditada no Brasil. (61)

Assim, a Campanha de Amamentacao acaba ditando um padrao de normalidade em relacao as praticas maternas. Para Georges Canguilhem, ha uma imprecisao no que se refere ao limite entre o normal e o patologico. Tudo aquilo que se taxa de 'anormal', na verdade, e assim nomeado porque se apresenta enquanto diferente daquilo que se esta acostumado. Ao se criar uma norma, uma logica de normalidade, esquece-se que "[...] nao ha desordem, ha substituicao de uma ordem esperada ou apreciada por uma outra ordem que de nada nos serve e que temos que suportar". (62)

As palavras do referido autor fazem refletir o quanto os processos de resistencia de muitas mulheres, no que se refere a pratica da amamentacao, da forma como e veiculada, acabaram, de certo modo, sendo enquadradas, por intermedio da campanha da amamentacao, em um vies psicopatologico a favor de uma norma preestabelecida, na qual quem nao amamenta nao e normal.

Assim, as maes que optam por nao amamentar sao apontadas, em meio as campanhas analisadas, em uma logica de anormalidade, e a populacao em geral cabe passar a nutriz apenas experiencias que condigam com o que ditam as 'verdades' expressas nos materiais: "Como a familia, vizinhos e amigos podem apoiar a amamentacao? Transmitindo experiencias positivas de aleitamento materno" [Folder 2008). (63) Podemos pensar que, se e recomendado a uma mae que ela ouca apenas o que as pessoas tem de positivo para falar sobre o aleitamento materno, e porque nem toda experiencia e valida para a campanha.

E quando o que os materiais veiculam e tomado como discurso de verdade, incide-se tambem na producao de um determinado tipo de infancia, bem como de maternidade, colocando-se acima dos saberes que a sociedade tem sobre saude da crianca. Apesar de ajudarem a orientar as pessoas a como proceder em relacao a alguns aspectos do cotidiano, que envolvem o bem-estar da crianca, esses materiais tambem desqualificam a familia e a sociedade em geral ao desconsiderarem seus conhecimentos. (64)

Na campanha, ha um padrao de mae estabelecido, no qual a nocao de maternidade desviante nao aparece, mas se faz presente na grande insistencia pela aderencia da amamentacao como forma de cuidado com a saude da crianca. Nao aderir a tudo o que ela preconiza implica colocar a vida do bebe em risco ou nao lhe proporcionar uma boa aparencia nos dentes com o uso, por exemplo, de chupetas e mamadeiras, que, alem de serem consideradas fonte de prejuizo para a saude (fala e respiracao), nao contribuem para a formacao de uma arcada dentaria bonita.

Isso tudo se liga, em meio aos materiais, a informacoes incisivas acerca dos beneficios da amamentacao ao peito, demonstrando que a crianca representada na campanha necessita possuir um peso padrao e ter determinadas caracteristicas fisicas que a ligam a figura de um ser saudavel e bonito. Assim, o exercicio da maternidade e ligado a responsabilidade pelo desenvolvimento de uma pessoa 'saudavel' fisico, cognitivo e emocionalmente, (65) havendo ai um ideal de saude que se configura nos moldes de como a mae exerce sua funcao.

Assim, o valor de verdade impresso nos discursos cientificos de cunho medico e psicologico que ligam a saude do individuo ao ato de ser amamentado, em meio as campanhas de amamentacao brasileiras, acaba produzindo determinados tipos de crianca: a que mamou no peito e a que nao mamou, bem como de mae: a que amamenta, a que nao amamenta porque nao quer e a que nao amamenta porque nao pode. Tudo isso posiciona mulheres e criancas nas redes de vigilancia e de controle nos sistemas de saude, colocando-as em grupos considerados normais ou de risco. (66)

Wanessa, uma brasileira como tantas ...

Ao longo dos 12 anos de campanha no Brasil, percebe-se a construcao e a perpetuacao de enunciados que posicionam a mae como insubstituivel no cuidado do crianca. Os materiais da campanha, ao investirem na educacao delas, transformando-as em sujeitos de cuidado, mostram-se como tecnologias de governo, exercicios existentes no dia a dia que ordenam a vida por intermedio de sentidos referentes ao modo que cada um tem que viver. Tudo isso se denomina arte de governo, tendo em vista que essa pratica nao se estabelece de forma proibitiva, mas na forma de controle, de administracao. (67)

Entretanto, ao se prescrever formas especificas de cuidado, elegendo a mae como a que melhor desempenha essa funcao, deixa-se de lado todas as demais possibilidades de relacao que a criancq poderia estabelecer com outros possiveis cuidadores. A familia exerce aqui um papel secundario, e a dupla mae-bebe ganha centralidade nesses discursos, em uma logica de causa e efeito na qual amamentar e cuidar pessoalmente da crianca pode selar seu destino, alcancando a saude ou a doenca.

A ideia da promocao da saude segue outro vies, deixando de lado intervencoes nas quais a saude e tomada como estrategia de controle da vida (formas de governo) para se atentar as diversas possibilidades de modos de vida, nas quais estao incluidas a solidariedade, a cidddania e a equidade. Qudndo o cuidado e destinado ao tratamento, a prevencao e a reabilitacao, as praticas de sdude se colam a prescricao, as praticas de governo ditam como se deve viver para, assim, obter uma boa saude. (68)

O ponto que direciona tais estrategias e a propria doenca, que demqrcq qs qcoes na busca da saude. A promocao da saude e lancada dentro de uma proposta que inclui outrqs formqs de vida, compreendendo o diversidade dos diferentes modos de vivenciar a realidade, dando abertura para a invencao, para os afetos, desejos e experiencias singulares. (69)

Assim, finalizamos esta discussao colocando em questao o pronunciamento feito pela SBP ao longo da divulgacao da campanha de 2010, na qual foi eleita para ser madrinha da campanha uma mae 'diferente' daquelas que ate entao representavam o movimento em prol da amamentacao, tendo como novidade o fato de a madrinha desse mesmo ano nao ser famosa, caracteristica esta presente nos outros 11 anos de cdmpanha.

Wanessa, anunciada como "uma brasileira como tantas", (70) foi apontada enquanto cidada cuja historia muito se aproximava das demais mulheres do pais: uma gravidez, o nascimento da filha, o problema de uma fissura na mama com consequente aconselhamento dado por familiares para dar a crianca a chupeta, e o incentivo de um Hospital Amigo da Crianca para que permanecesse ornamentando. Mais uma vez, encontramos aqui a valorizacao, a exaltacao impressa na figura da mae que persiste na amamentacao, em especial por deixar de lado os conselhos alheios e por seguir a risca as normas ditadas pelo saber dos/as profissionais.

A forma como a SBP posiciona Wanessa em meio a divulgacao da campanha faz refletir ainda como se mostram os sentidos valorativos que permeiam as acoes de quem rege a saude do pais: "Muitas mulheres famosas ja cederam sua imagem a campanha, mas desta vez e uma usuaria do Sistema Unico de Saude (SUS)". (71)

Ainda que se saiba que todos/as nos somos usuarios/as do SUS, a afirmacao acima parece colocar as maes brasileiras em posicoes diferentes em relacao aos servicos de saude oferecidos pelo pais. Se ate entao as capas dos materiais analisados neste estudo foram representadas por imagens de mulheres famosas, por que somente na ultima campanha, representada por uma 'brasileira comum', se da evidencia a madrinha enquanto usuaria do SUS? Nao seriam as outras tambem usuarias desse sistema? Seriam as atrizes famosas que posaram para as campanhas anteriores exemplos, modelos de maes para as 'reais' usuarias do SUS?

O que se pode perceber e que a Campanha da Amamentacao esta formulada e direcionada para um modelo especifico de mae que, na maioria das vezes, nao contempla a realidade de todas as brasileiras, cujas atitudes a campanha quer regular em meio as praticas maternas. A mae dos materiais analisados esta resumida na figura da mulher casada, que mantem um relacionamento heterossexual, usuaria de um servico de saude ainda nao reconhecido como sendo para todos/as, cujas escolhas sao regidas por especialistas que detem a formula 'certa' e 'adequada' de como produzir cidadaos e cidadas saudaveis.

Referencias

ACAUAN, Ana Paula. "So as maes podem salvar o mundo: pediatra destaca que o cuidado com os bebes tem a incrivel possibilidade de moldar o futuro". PUCRS Informacao, Porto Alegre, n. 150, p. 16, jul./ago. 2010.

ALMEIDA, Joao Aprigio Guerra de. Amamentacao: um hibrido natureza-cultura. 20. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1999.

ALMEIDA, Joao Aprigio Guerra de; NOVAK, Franz Reis. 'Amamentacao: um hibrido natureza-cultura". Jornal de Pediatria, v. 80, n. 5, p. 119-125, nov. 2004.

BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

BERNARDES, Anita Guazzelli; QUINHONES, Dionatans Godoy. "Praticas de cuidado e producao de saude: Formas de governamentalidade e alteridade". Psico, v. 40, n. 2, p. 153-161, abr./jun. 2009.

BRASIL. Ministerio da Saude. Promocao, Protecao e Apoio ao Aleitamento Materno. Brasilia, 2009. Disponivel em: <http://portal.saude.gov.br/portal/saude/drea.cfm?id_area=1460>. Acesso em: 24out. 2009.

BRASIL. Ministerio da Saude. Iniciativa Hospital Amigo da Crianca. Brasilia, 2010. Disponivel em: <http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?id1xt=24229>. Acesso em: 20 out. 2010.

BUTLER, Judith. "Variacoes sobre sexo e genero: Beauvoir, Wittig e Foucault." In: BENHABIB, Sheila; CORNELL, Drucilla (Coords.). Feminismo como critica da modernidade. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1987. p. 139-154.

CADONA, Eliane. Amamentar e educar para a vida?!?!: A producao da maternidade contemporanea nas campanhas da amamentacao. 2010. Dissertacao (Mestrado em Psicologia Social)--Programa de Pos-Graduacao em Psicologia, Faculdade de Psicologia da PUCRS, Porto Alegre.

CANGUILHEM, Georges. O normal e o patologico. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitaria, 2002.

COLLING, Ana Maria. "O corpo que os gregos inventaram". In: STREY, Marlene Neves; CABEDA, Sonia Lisboa (Orgs.). Corpos e subjetividades em exercicio interdisciplinar. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. p. 49-64.

FISCHER, Rosa Maria Bueno. Adolescencia em discurso: midia e producao de subjetividdde. 1996. Tese (Doutorado em Educacao)--Programa de Pos-Graduacao em Educacao, Faculdade de Educacao da UFRGS, Porto Alegre.

--. "Foucault e o desejavel conhecimento do sujeito". Educacao & Realidade, v. 24, n. 1, p. 39-59, jan./jun. 1999.

--. "Foucault e a analise do discurso em educacao". Cedernos de Pesquisa, n. 114, p. 197-223, nov. 2001a.

--. "Midia e educacao da mulher: uma discussao teorica sobre modos de enunciar o feminino na TV". Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 2, p. 586-599. 2001 b.

FORNA, Aminatta. Mae de todos os mitos: como a sociedade modela e reprime as maes. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

FOUCAULT, Michel. Microfisica do poder. 10. ed. Rio de Janeiro: Edicoes Graal, 1979.

--. A arqueologia do saber. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007.

GOELLNER, Silvana Vilodre. Bela, maternal e feminina: imagens da mulher na Revista Educacao Physica. 1999. Tese (Doutorado em Educacao)--Programa de PosGraduacao em Educacao, Faculdade de Educacao da Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

GUATTARI, Felix; ROLNIK, Suely. Micropolitica: cartografias do desejo. 9. ed. Petropolis: Vozes, 2008.

KLEIN, Carln. "Educacao, maternidade e politica cultural". Genero, v. 7, n. 2, p. 171-194, 2007.

LARA, Lutiane de. Saude publica e saude coletiva: investindo na crianca para producao de cidadania. 2009. Dissertacao (Mestrado em Psicologia Social)--Programa de Pos-Graduacao em Psicologia, Faculdade de Psicologia da PUCRS, Porto Alegre.

LOURO, Guacira Lopes. "Pedagogias da sexualidade". In: LOURO, Guacira Lopes. (Org). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autentica, 1999. p. 7-34.

MARCELLO, Fabiana de Amorim. "Dispositivo da maternidade: midia e a producao pedagogica de sujeitos, praticas e normas". Educar, n. 26, p. 81 -98, 2005.

MEYER, Dagmar E. "As mamas como constituintes da maternidade: umd historia do passodo?". Educacao & Realidade, v. 25, n. 2, p. 117-133, jan./jun. 2000.

--. "Educacao, saude e modos de inscrever uma forma de materniddde nos corpos femininos". Movimento, v. 9, n. 3, p. 33-58, set./dez. 2003.

PAIM, Maria Cristina Chimelo; STREY, Marlene Neves. "Corpos em metamorfose: um breve olhar sobre os corpos na historia, e novas configuracoes de corpos na atualidade". Lecturas: EFy Deportes, v. 10, n. 79, Die. 2004.

SCHUTZ, Anelise. "Relacoes entre amamentacao, inteligencia e aproveitamento escolar: uma problematizacao a partir dos Estudos de Genero". In: SEMINARIO INTERNACIONAL EDUCACAO INTERCULTURAL, GENERO E MOVIMENTOS SOCIAIS: IDENTIDADE, DIFERENCAS, MEDIACOES, 2., 2003, Florianopolis. Anais ... Florianopolis, 2003. Nao paginado.

SCHWENGBER, Maria Simone Vione. Donas de si? Educacao de corpos gravidos no contexto da Pais & Filhos. 2006. Tese (Doutorado em Educocao)--Programa de PosGraduacao e, Educacao, Faculdade de Educdcao dd UFRGS, Porto Alegre.

--. "A educocao do mae carinhosa e o discurso das praticas corporais e esportiva nas paginas da Pais & Filhos". Movimento, v. 15, n. 3, p. 209-232, 2009.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Folder da Campanha da Amamentacao. 1999.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2000.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2001.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2002.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2003.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2004.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2005.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2006.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2007.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2008.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2009.

--. Cartaz da Campanha da Amamentacao. 2010a.

--. "Madrinha da campanha de amamentacao, Wanessa e uma brasileira como tantas". 2010. Disponivel em: <http://www.sbp.com.br/show_item2.cfm?id_categoria=898ud_detalhe=36128itipo_detalhe=s>. Acesso em 28 nov. 2010b.

TEIXEIRA, Marizete Argolo; PAIVA, Mirian Santos. "A influencia das questoes de genero no processo de amamentacao". In: SEMINARIO INTERNACIONAL FAZENDO GENERO, 7., 2006, Florianopolis. Anais ... Florianopolis: Ed. Mulheres, 2008.

UOL NOTICIAS. "Mulheres nao sao chimpanzes", diz Elisabeth Badinter. Disponivel em: <http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2010/08/30/mulheres-nao-saochimpanzes-diz-elisabeth-badinter.jhtm>. Acesso em: 30 ago. 2010.

VEIGA-NETO, Alfredo. Foucault & a Educacao. 2. ed. Belo Florizonte: Autentica, 2007.

WELZER-LANG, Daniel. "A construcao do masculino: dominacao das mulheres e homofobia". Revista Estudos feministas, v. 9, n. 2, p. 460-482. 2001.

[Recebido em abril de 2011, reapresentado em junho de 2013 e aceito para publicacao em marco de 2014]

Eliane Cadona

Pontificia Universidade Catolica do Rio Grande do Sul

Marlene Neves Strey

Pontificia Universidade Catolica do Rio Grande do Sul

(1) O artigo se desdobra a partir da dissertacao de mestrado em Psicologia Social da primeira autora deste texto, defendida no ano de 2010, intitulada 'Amamentar e educar para a vida?!?!'A producao da maternidade contemporanea nas campanhas da amamentacao, sob a orientacao da Profa. Dra. Marlene Neves Strey, na linha de pesquisa "Genero, geracoes e subjetividade".

(2) Maria Cristina Chimelo PAIM e Marlene Neves STREY, 2004.

(3) Ana Maria COLLING, 2004, p. 1

(4) Judith BUTLER, 1987.

(5) BUTLER, 1987, p, 143-144.

(6) Carin KLEIN, 2007.

(7) Dagmar E. MEYER, 2000.

(8) Joao Aprigio Guerra de ALMEIDA, 1999; Elisabeth BADINTER, 1985; e MEYER, 2003.

(9) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2009a.

(10) Na segunda edicao da Campanha da Amamentacao, em 2000, houve a confeccao de apenas um cartaz para veicular a amamentacao ao peito. No Intuito de contemplarmos todos os anos em que se tratou da tematica, o material desse ano tambem fez parte da presente pesquisa.

(11) BRASIL, 2009.

(12) BRASIL, 2010.

(13) Destacamos as palavras "saudaveis" e "equilibrados" em funcao de entendermos que, frequentemente, a sociedade elege apenas um modo de vida como sendo o mais adequado, estabelecendo, assim, normas e padroes de vivencia no cotidiano. Com isso, ela deixa de lado a possibilidade de considerar as diferentes formas de experienciar a realidade.

(14) MEYER, 2003, p. 35.

(15) Maria Simone Vione SCHWENGBER, 2006.

(16) Rosa Maria Bueno FISCHER, 2001a; Michel FOUCAULT, 2007; Guacira Lopes LOURO, 1999; e Alfredo VEIGA-NETO, 2007.

(17) Felix GUATTARI e Suely ROLNIK, 2008.

(18) MICHEL Foucault, 2007.

(19) FISCHER, 1996; 1999; 2001a; e SCHWENGBER, 2006.

(20) FISCHER, 2001a; FOUCAULT, 2007.

(21) FISCHER, 2001a.

(22) FISCHER, 2001a.

(23) SCHWENGBER, 2006.

(24) Silvana Vilodre GOELLNER, 1999.

(25) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 1999.

(26) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 1999.

(27) FISCHER, 2001b; e Anelise SCHUTZ, 2003.

(28) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2010a.

(29) FISCHER, 2001b.

(30) KLEIN, 2007.

(31) SCHWENGBER, 2006.

(32) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2002.

(33) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2004.

(34) Marizete Argolo TEIXEIRA e Mirian Santos PAIVA, 2006.

(35) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2007.

(36) Amlnatta FORNA, 1999.

(37) FORNA, 1999, p. 11.

(38) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2005.

(39) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2008.

(40) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2007,

(41) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2002.

(42) SOCIEDADE BRASILEIRA DE

(43) SCHWENGBER, 2006.

(44) TEIXEIRA e PAIVA, 2006.

(45) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2008.

(46) FORNA, 1999.

(47) FORNA, 1999.

(48) FORNA, 1999.

(49) Fabiana de Amorim MARCELLO, 2005.

(50) FISCHER, 2001b.

(51) MEYER, 3003.

(52) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2003,

(53) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2006,

(54) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2003.

(55) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2008.

(56) Ana Paula ACAUAN, 2010.

(57) ACAUAN, 2010, p. 16.

(58) UOL NOTICIAS, 2010.

(59) SCHWENGBER, 2009.

(60) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2007.

(61) MEYER, 2003.

(62) Georges CANGUILHEM, 2002, p. 156.

(63) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2008.

(64) Lutiane de LARA, 2009.

(65) KLEIN, 2007.

(66) MEYER, 2003.

(67) FOUCAULT, 1979.

(68) Anita Guazzeili BERNARDES e Dionatans Godoy QUINHONES, 2009.

(69) BERNARDES e QUINHONES, 2009.

(70) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2010b.

(71) SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2010b.
COPYRIGHT 2014 Instituto de Estudos de Genero - Centro de Filosofia
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2014 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:articulo en portugues
Author:Cadona, Eliane; Strey, Marlene Neves
Publication:Revista Estudo Feministas
Date:May 1, 2014
Words:9822
Previous Article:Ironia e discurso feminino.
Next Article:Las politicas de seguridad y el abordaje de la perspectiva de genero en Buenos Aires.
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2022 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters |