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A poetic of the relationship: the endless conversation between Edouard Glissant and Michel Leiris/Uma poetica da relacao: a conversa infinita entre Edouard Glissant e Michel Leiris.

Desde a decada de 1970, aproximadamente, o campo dos estudos culturais, dos estudos subalternos e estudos poscoloniais vem, simultaneamente, promovendo e apontando a desestabilizacao de paradigmas teoricos e tematicos estabelecidos por uma tradicao academica ainda marcadamente eurocentrica--entendendo Europa como espaco geografico e cultural detentor de hegemonia na eleicao de temas, questoes e abordagens, ou de um "privilegio epistemico", nos termos de Sanjay Seth, bem como centralizador de espacos editoriais e de divulgacao cientifica (SETH 2013, p. 187). Sendo assim, a emergencia das vozes pos-coloniais surge, ao mesmo tempo, como reivindicacao de descentralizacao da producao e divulgacao de saberes e como proposicao de novas perspectivas epistemologicas, marcadas por vivencias diasporicas, identidades ambivalentes e pelo entrecruzamento de fronteiras etnicas, nacionais e linguisticas. Segundo Ramon Grosfoguel, a atual critica decolonial questiona fundamentalismos, colonialismos e nacionalismos, evitando a fundamentacao em abstratos universais e buscando construir-se em dialogos criticos com diferentes projetos epistemico-etico-politicos, em direcao a um mundo pluriversal, comprometido com o rompimento da colonialidade inscrita nao apenas nas relacoes de exploracao capital-trabalho e nas relacoes de dominacao centro-periferia, mas, tambem, na producao de subjetividades e saberes (GROSFOGUEL 2007, p. 212).

As reflexoes promovidas no ambito dos estudos decoloniais impoem, assim, potentes questoes teoricas para a teoria da historia e para a historia da historiografia, na medida em que essa disciplina tem suas convencoes e seus principios epistemologicos enraizados na modernidade europeia. A internalizacao desses pressupostos, eles mesmos universalizantes, condiciona, portanto, a atualizacao de formas especificas de representacao do passado, associadas a fenomenos proprios dessa modernidade singular. Tal circunstancia tende a silenciar assimetrias nos contatos e nas circulacoes de saberes, povos e culturas, bem como a mascarar os vinculos entre modernidade, capitalismo e conhecimento historico. Nesse sentido, Dipesh Chakrabarty afirmou que a Europa continua atuando como um "referente silencioso" no estudo do conhecimento historico. De modo similar, em O universalismo europeu, Immanuel Wallerstein procurou demonstrar as associacoes entre a logica de dominacao capitalista e a producao de um aparato epistemologico europeu pretensamente neutro e desenraizado de sua origem (NICODEMO; PEREIRA; SANTOS 2017, p. 176-177).

Diante dessas questoes, os historiadores tem comecado a ponderar as relacoes entre eurocentrismo, etnocentrismo e escrita da historia, com seus desdobramentos teoricos e etico-politicos para a historia da historiografia. Trata-se de observar esses debates como possibilidade de diversificacao do instrumental teorico e conceitual para a escrita da historia sem, no entanto, abrir mao de seus marcos disciplinares, mas tensionando-os e transformando-os na defrontacao com outras formas de abordagem (NICODEMO; PEREIRA; SANTOS 2017, p. 180). Silvia Cusicanqui e Eduardo Viveiros de Castro sao exemplos de autores que, ha algum tempo, vem afirmando a importancia da confrontacao criativa de diferentes epistemes, que seria necessaria nao apenas para a compreensao de cosmovisoes e modos de vida nao ocidentais, mas, principalmente, para a imaginacao e construcao de novos projetos de futuro (CUSICANQUI; SANTOS 2015; VIVEIROS DE CASTRO 2009). No que concerne a historiografia, especificamente, Sanjay Seth afirma que o confronto com distintos "modos de raciocinio" e fundamental para que "a escrita da historia deixe de ser uma pratica imperialista e se torne uma pratica etica" (NICODEMO; PEREIRA; SANTOS 2017, p. 181).

Edouard Glissant procurou, ao longo de toda a sua trajetoria, pensar as condicoes de producao de uma subjetividade e de uma historia antilhanas a partir de categorias que--embora formuladas em dialogo com os debates europeus, considerassem nao apenas a diversidade de modos de vida e de cosmovisoes presentes na regiao, mas a propria materialidade do arquipelago em sua relacao com o oceano: lugar de passagem, de contatos (duradouros e efemeros, harmonicos e desarmonicos) e de identidades diasporicas. Esses esforcos teoricos culminaram na construcao de conceitos como creolisation (remetendo a uma longa tradicao de representacao da sociedade antilhana), identite-relation, Relation (1), pensee archipelique, entre outros. Muitos desses conceitos tem sido, atualmente, mobilizados nos debates decoloniais, na medida em que que consideram o lugar geopolitico e corpo-politico do sujeito que fala (GROSFOGUEL 2007, p. 213).

As proposicoes de Michel Leiris, por sua vez, tanto em seu trabalho mais propriamente etnografico quanto em seu esforco literario de escrita de si, tem sido, aos poucos, retomadas nas ciencias humanas e sociais em funcao de seus questionamentos sobre a propria fundacao do campo da etnografia e de sua potencia como forma de critica da modernidade (heranca surrealista e, portanto, romantica) (LOWY 2008, p. 839-840). Trata-se, assim, de dois autores cuja leitura nos forca a imaginar formas nao violentas de autorrepresentacao e de representacao do outro. Edouard Glissant foi aluno de etnografia de Leiris no Museu do Homem, na Franca, entre 1953 e 1954. Nessa mesma decada, poucos anos antes, Leiris esteve nas Antilhas a convite da UNESCO, realizando um estudo que buscava contribuir para o programa antirracista dessa instituicao, ancorado na ideia de que a regiao seria um exemplo de "encruzilhada cultural" e de "convivencia harmonica entre racas e culturas". A partir de uma leitura dos questionamentos de Leiris nessa decada marcados, ao mesmo tempo, pela experiencia antilhana, pela heranca surrealista e pelo militantismo frances do pos-Guerra --, e dos escritos de Glissant entre 1950 e 1990, que incluem ensaios sobre a obra de Leiris, este artigo pretende demonstrar a intertextualidade dos estudos de ambos--resultante, sobretudo, das apropriacoes que Glissant estabeleceu dos textos de seu professor. Deseja-se, assim, compreender as articulacoes entre uma longa tradicao de representacao das Antilhas (que remonta ao seculo XIX e que mobilizou o interesse da UNESCO no arquipelago), os usos, na obra de Leiris, das nocoes de encruzilhada (carrefour), contato e comunicacao e alguns dos conceitos formulados por Glissant para pensar a experiencia antilhana--especialmente os de creoiisation e o de Relation.

Sendo assim, este texto encontra-se dividido em tres partes. Na primeira parte, foi feita uma leitura das publicacoes de Leiris resultantes de suas duas viagens as Antilhas, com o objetivo de expor e analisar a formulacao e os usos das nocoes referidas, buscando, ainda, relaciona-los com a trajetoria intelectual de seu autor e com o conjunto mais amplo de questoes que emergem de suas obras etnografica e literaria. Na segunda parte, ha um exame de alguns ensaios que Glissant escreveu sobre Leiris, quando se procura demonstrar os impactos teoricos e etico-politicos das formulacoes do ultimo na obra do primeiro, a partir de apropriacoes especificas. Por fim, na terceira e ultima parte, busca-se expor e observar, por meio de entrevistas e ensaios de Glissant, a elaboracao, definicao e os usos, tambem teoricos e etico-politicos, dos conceitos de creoiisation e Relation, sempre identificando os eixos de intertextualidade das obras dos dois autores analisados.

Michel Leiris e a UNESCO: representacoes da sociedade antilhana

Como se sabe, o imediato pos-Segunda Guerra foi marcado por uma serie de empreendimentos cientificos e politicos que visavam a defesa da autonomia dos povos e ao combate ao racismo. Com esses propositos, a partir de 1949, mais especificamente, a UNESCO engajou-se amplamente em um programa intelectual e pedagogico que contou com a colaboracao de inumeros estudiosos de diversas partes do mundo, e que foi colocado em pratica, principalmente, por meio da publicacao de analises coletivas e individuais sobre os temas mencionados (MAUREL 2007, p. 2-19).

Entre os anos de 1951 e 1952, por exemplo, a UNESCO patrocinou uma serie de estudos no Brasil. Desde abril de 1950, o antropologo Alfred Metraux ocupava a direcao do recem-criado "Setor de Relacoes Raciais" daquela instituicao. De acordo com Marcos Chor Maio, Metraux e seu principal assistente na funcao, o antropologo Ruy Coelho, ambos com pesquisas realizadas sobre indios e negros na America Latina, representaram, a partir daquela data, uma especie de lobby latino-americano no interior do departamento de ciencias sociais. Ainda segundo Maio, as investigacoes da UNESCO no Brasil "buscavam apresentar ao mundo os detalhes de uma experiencia no campo das relacoes raciais julgada, na epoca, singular e bem-sucedida, tanto interna quanto externamente". O pesquisador constata que havia, entre os estudiosos envolvidos no projeto, uma especie de "conhecimento aceito consensualmente como natural", nao problematico, de que a sociedade brasileira "viveria sob a egide da cooperacao entre as racas". Desse modo, ela poderia tornar-se um exemplo para o restante do mundo, fornecendo "licoes de civilizacao" em materia de relacoes raciais (MAIO 2004, p. 144 e 149).

No mesmo ano de 1952, a UNESCO financiou estudos do escritor e etnologo africanista Michel Leiris nas Antilhas, partindo de razoes similares as que motivaram os estudos no Brasil. Diante da "resolucao 3.22 do Programa da UNESCO de 1952", que previa produzir um "inventario critico de metodos e tecnicas empregados para facilitar a integracao de grupos sociais que nao participam plenamente da vida de seu pais, seja por motivos etnicos ou culturais", tratava-se de analisar, tambem, "situacoes que se poderia considerar felizes, ou seja, aquelas que oferecem poucas friccoes ou que evoluem para um estado de equilibrio ou harmonia" e que poderiam servir, portanto, como modelo para outras sociedades (LEIRIS 1955, p. 6). (2)

Michel Leiris comecou sua carreira como escritor em Paris nos anos de 1920, tendo feito parte das discussoes do surrealismo literario, nos moldes formulados por Andre Breton. Em 1929, ele se afastou de Breton e se aproximou de Georges Bataille, trabalhando na revista Documents, que abordava temas na interseccao entre etnografia, literatura e artes. Foi nessa revista que conheceu Marcel Griaule, etnografo que o convidou para participar da missao Dakar-Djibouti (1931-1933), primeira grande missao etnografica francesa nos territorios coloniais africanos. Ao retornar dessa viagem, Leiris comecaria seus cursos no Instituto de Etnologia (instituicao fundada em 1925 e que remete a profissionalizacao do trabalho etnografico na Franca), especializando-se em Africa Negra (Cf. THEOPHILO 2016, p. 91-104). Nos anos de 1940 ele atuou, junto a Jean-Paul Sartre, por algum tempo, na revista Les Temps Modernes. O que os aproximava, sobretudo, era o interesse comum nas lutas de descolonizacao africanas, na literatura afroamericana e, consequentemente, no movimento da Negritude, encabecado por Aime Cesaire, de quem Leiris tornou-se amigo (Cf. SENGHOR 1967). Foi nesse periodo, e impulsionado pelos debates com Cesaire e Sartre, que ele decidiu colocar sua formacao e sua condicao de intelectual reconhecido a servico de outros povos em luta por liberdade.

Foi assim que, em 1948, fez uma primeira viagem as Antilhas a convite de Aime Cesaire com o incentivo de Metraux. Proferiu conferencias em Martinica, Guadalupe e Haiti, alem de redigir um caderno de viagem (ainda inedito), publicar pequenos textos sobre as praticas de vodu no Haiti e produzir um relatorio no qual analisava a configuracao socioeconomica da populacao das ilhas, o acesso a educacao e a bens culturais, fornecendo, ao final, algumas impressoes mais gerais e sugestoes para um futuro de (ainda) maior "integracao entre as racas" (LEIRIS 1949, p. 341-354).

Em marco de 1950, ele proferiu uma conferencia na Association des travailleurs scientifiques (section des sciences humaines), denominada L'ethnographe devant le colonialisme. Nessa ocasiao, constatava que a disciplina etnografica tinha se desenvolvido, na Franca, junto a expansao da dominacao colonial nos continentes africano e asiatico. O etnografo, portanto, financiado pelo Estado colonizador, jamais poderia ficar indiferente aos problemas relacionados a essa realidade. Visto que um trabalho intelectual honesto, segundo Leiris, era tambem um trabalho de comprometimento etico, um estudioso de populacoes colonizadas deveria ser o primeiro a atuar como "advogado" em defesa dos interesses dessas populacoes frente as nacoes colonizadoras--ainda que isso fosse considerado "contra os interesses nacionais" de seu pais de origem (LEIRIS 1969, p. 84-85). (3)

As circunstancias presentes mostravam, ainda em seus termos, que a etnografia nao deveria mais ser associada unicamente ao folclore. Os etnografos nao poderiam mais iludir-se com a "salvaguarda" de culturas supostamente "intocadas". Pode-se dizer que, para Leiris, havia uma urgencia etica naquele momento: estudar e trocar conhecimentos, prioritariamente, com aqueles povos mais brutalmente afetados pela colonizacao, que buscavam caminhos para a emancipacao (LEIRIS 1969, p. 98-103). Outro ponto importante para ele era a troca de conhecimentos que levasse a formacao de uma classe intelectual e de etnografos africanos. Assim, ele afirmava que o desequilibrio existente do ponto de vista da producao do conhecimento "falseava a perspectiva" e contribuia para "nos assegurar de nosso orgulho, nossa civilizacao se encontrando, assim, fora do exame de outras civilizacoes, para as quais ela dirige seu proprio exame" (LEIRIS 1969, p. 106-107). (4)

Ja no ano de 1951, Leiris participaria de um projeto editorial da UNESCO denominado La question raciale devant la science moderne, dirigido por Alfred Metraux, com conferencia intitulada Race et civilisation (LEIRIS 1969, p. 10-80). Tratavase da mesma publicacao em que Claude Levi-Strauss publicou Race et histoire. Nesse mesmo ano, republicou e escreveu um novo prefacio para o diario Africa Fantasma, que foi resultado de sua primeira viagem de campo nos territorios coloniais franceses da Africa, entre os anos de 1931 e 1933. Nesse prefacio, ele declarava que "nao ha etnografia nem exotismo que resistam a gravidade das questoes postas, no plano social, pela transformacao do mundo moderno", e o contato entre os homens so deixaria de "ser um mito", na medida em que houvesse "trabalho em conjunto contra aqueles que, na sociedade capitalista do nosso seculo XX, sao os representantes do antigo escravagismo" (LEIRIS 2007, p. 49).

Em 1952, finalmente, Leiris voltaria as Antilhas, dessa vez por convite direto da UNESCO. Dessa nova temporada, resultou o texto Contacts des civilisations en Martinique et en Guadeloupe (LEIRIS 1955, p. 8). Segundo o prefacio institucional da publicacao, as Antilhas seriam um exemplo privilegiado de convivencia harmonica entre culturas e racas, ainda que alguns problemas persistissem, como a superposicao da reparticao de classes e de categorias raciais, "sem que exista, porem, coincidencia absoluta". Mesmo que antagonismos "mais de ordem economica do que racial" perdurassem, o estudo detalhado e objetivo de Michel Leiris mostrara que a igualdade juridica alcancada por toda a populacao a partir de 1848 tornara-se uma "fonte inesgotavel de progresso". Alem disso, os esforcos locais e franceses em materia de instrucao possibilitaram "integracao suficiente das massas", de modo que ja era perceptivel "a contribuicao original que essas sociedades traziam para a cultura francesa". Ainda nos termos da UNESCO, ja se observava, na maior parte da populacao, uma sensivel atenuacao dos preconceitos raciais, considerados uma "reliquia da velha epoca colonial" (LEIRIS 1955, p. 6-7).

A introducao escrita por Leiris, por sua vez, esclarecia que o trabalho que ora se apresentava era resultado de estudo em fontes bibliograficas diversas, de analise de grande parte do material recolhido na primeira viagem que fizera as Antilhas em 1948 e de uma serie de entrevistas que conduzira em Paris com franceses originarios das ilhas (LEIRIS 1955, p. 8). A viagem de 1948, de acordo com Leiris, teve como objetivo o exame do folclore da Martinica, de Guadalupe e do Haiti ("em busca do que poderia ser considerado como tracos de civilizacao de origem africana") e o estabelecimento de contato com intelectuais das tres ilhas, a fim de estreitar os lacos culturais tanto com a Republica do Haiti, quanto com os novos departamentos franceses. Dessa vez, porem, a meta principal era proceder ao "exame critico dos meios empregados para a integracao dos grupos humanos nao europeus a vida e a comunidade nacional". O objetivo do estudo era de ordem pratica: fornecer dados e sugestoes aos governos locais e ao governo frances para a implantacao de politicas que pudessem contribuir para por fim aos preconceitos raciais e para a integracao cada vez maior dos povos das Antilhas, de forma que essas sociedades forjadas no "convivio de tradicoes de origens diversas" pudessem servir de exemplo para o restante do planeta (LEIRIS 1955, p. 8-12).

A conclusao desse texto de 1952 e comedida em comparacao a conclusao do relatorio de 1948. Leiris ressalta a continuidade dos cortes socioeconomicos entre raca e classe e prioriza a explicacao de ordem economica: segundo ele, "apenas uma transformacao profunda na estrutura economica das duas ilhas" poderia resolver efetivamente o problema das desigualdades sociais entre "pessoas de cor" e brancos (LEIRIS 1955, p. 178).

Ambos os estudos, de 1952 e de 1948, revelavam a admiracao de Michel Leiris pelos intelectuais antilhanos e pelo trabalho que eles empreendiam para a valorizacao da heranca cultural africana e da lingua crioula nas ilhas. A percepcao idealizada da convivencia entre racas e culturas nessa regiao, porem, ficava mais clara nas paginas finais do artigo escrito em 1948. Em seus termos, os intelectuais antilhanos estavam localizados "na encruzilhada [carrefour] de civilizacoes as mais diversas" e, desse modo, "em posicao privilegiada para a elaboracao de um sincretismo de grande estilo, prefiguracao parcial do que poderia realizar, desde que essa elaboracao se instaure no porvir, a sociedade sem racas. A militancia desse grupo junto a parte mais africana da populacao contribuiria, ainda, para a criacao de uma "uma cultura autenticamente 'antilhana'" (LEIRIS 1949, p. 354).

Ao longo dessa primeira viagem, em 25 de outubro de 1948, Leiris proferiu, no Instituto Frances do Haiti, uma conferencia denominada Antilles et poesie des carrefours (LEIRIS 1992a, p. 67-87). Para a discussao desenvolvida neste artigo, essa conferencia e fundamental, na medida em que, nela, Leiris define sua nocao de carrefour e explica os motivos pelos quais escolhera essa palavra para se referir as Antilhas. Nesse interim, e valido mencionar que tanto a nocao leirisiana de carrefour, quanto a nocao de creolisation, elaborada por Glissant, bem como o proprio interesse da Unesco nas Antilhas, dialogam com uma longa tradicao de interpretacao das sociedades antilhanas como sociedades "mesticas". O termo creolisation, de acordo com Jean-Luc Bonniol, teve suas primeiras aparicoes na lingua francesa no final do seculo XIX, tendo sido resultado de "uma longa trajetoria lexical da qual essa inovacao tecnologica e o ponto de chegada" (BONNIOL 2013, p. 240). Esse conceito, vindo do campo da linguistica, seria apropriado pelas ciencias sociais para descrever sociedades caracterizadas por um projeto colonial imposto por nacoes distantes e marcadas por uma economia de plantation; pelo desaparecimento da populacao autoctone, de modo que foram povoadas por "estrangeiros"; por terem matriz escravagista e por apresentarem um quadro de confrontacao de elementos culturais de origens diversas. O mundo colonial, assim, seria fundado sobre uma dupla violencia fundadora (a do genocidio da populacao indigena e, depois, a diaspora e a escravidao). A conotacao positivada do termo, por sua vez, teria emergido no quadro da retorica nacional e anticolonial desenvolvida na America latina no momento das independencias, com o surgimento do mito da "nacao mestica" (BONNIOL 2013, p. 240-251). Em Leiris e em Glissant, no entanto, esses conceitos aparecem ressignificados por diferentes aportes teoricos, que os distanciam da ideia de "miscigenacao" como "mistura" e se aproximam mais de uma ideia de convivencia de contraditorios, interseccao e negociacao de forcas adversas, como se vera.

Voltando a conferencia Antilles et poesie des carrefours, Leiris afirmava que o primeiro esforco seria o de explicar o titulo escolhido: "e permitido conceber as Antilhas como uma efetiva encruzilhada (carrefour). Lugar de encontro [...] de grupos humanos heterogeneos e de correntes de civilizacao orientadas nos mais diferentes sentidos" (LEIRIS 1992a, p. 70). No entanto, a ideia de carrefour, em Leiris, foi elaborada antes da experiencia nas Antilhas. Essa ideia estabelece uma relacao de analogia com outras utilizadas ao longo de toda a sua obra e que remetem ao vocabulario da mistica crista e da "alquimia" dos seculos XV e XVI. Sendo assim, a compreensao da nocao exige um entendimento dos varios e escorregadios significados de "coincidencia de opostos" na literatura mistica que circulou na Europa nos referidos seculos, sendo relida pelos ocultistas do seculo XIX e, tambem, pelos surrealistas no seculo XX. O etnografo, entao, definia carrefour como "ponto de interseccao, pivo de rosa dos ventos ou cruzamento de caminhos que parecem equivaler, no dominio poetico, aquilo que era o ponto fixo de que falavam os alquimistas, autentico Carrefour ele tambem" (LEIRIS 1992a, p. 71).

Ele continuava afirmando que aquilo que mais o havia emocionado no Haiti foram os rituais do vodu, pois esses rituais poderiam representar uma poesia de "carne e osso", uma especie de maravilhoso "concretizado". O "teatro vodu" configurava-se, assim, como uma arena na qual "uma longa serie de dramas e comedias se sucediam", e todos os generos encontravam-se misturados: "violencia tragica", "carrefour no qual convergiam, formando uma surpreendente unidade, os elementos mais contraditorios" (LEIRIS 1992a, p. 73-84). Ao final da conferencia, alegava que seu objetivo nao era fazer uma "apologia do vodu", no sentido de um elogio vazio, mas sugerir de que forma a civilizacao ocidental poderia aprender com essas culturas (LEIRIS 1992a, p. 85-86).

Ao longo de toda a sua obra etnografica, Leiris elegeu a afetividade, regida por relacoes de analogia e identificacao, como pressuposto da producao de conhecimento. Essa identificacao, porem, so seria possivel se se considerasse o outro em sua semelhanca com o "si-mesmo", ou, melhor dizendo: se o "simesmo" pudesse tornar-se outro por instantes, de forma a abrir a brecha da verdadeira "comunicacao". Para que houvesse comunicacao era preciso haver existencias singulares, sempre dispostas a abertura para o "fora-de-si".

A tematizacao das nocoes de "si-mesmo" e de "fora-desi" sao constantes na obra de Leiris. Alcancar os instantes de (des)equilibrio que lancariam o sujeito hors-de-soi deveria ser, segundo ele, o desejo maior do artista. Apenas nesses instantes de vertigem, a partir de um esforco de mise en-abime de si-mesmo (performatizado na escrita), uma verdadeira comunicacao poderia ser estabelecida. A nocao de "comunicacao", porem, nunca foi estritamente definida por Leiris. Em seu diario, no ano de 1964, ele afirmou que mobilizava essa palavra de modo "inevitavelmente vago" e que a considerava apenas um "eufemismo para comunhao" (LEIRIS 1992b, p. 600). No texto L'homme sans honneur, de 1938, porem, ele havia escrito algumas notas sobre a nocao de "sagrado" (como coincidencia de contrarios) aproximando-a da ideia de comunicacao: "revolucao desta contradicao aparente pela ideia de sagrado enquanto comunicacao: projetar para fora, compartilhar o que se tem de mais intimo [...] comunicar: isso quer dizer estabelecer verdadeiramente uma relacao [rapport]" (LEIRIS 1994, p. 125-126). No ensaio Espelho da tauromaquia, escrito no mesmo ano, Leiris nos fornece, mais uma vez, a imagem de um ponto deinterseccao, ou encruzilhada, que projetaria o sujeito para fora-de-si, possibilitando, desse modo, a comunicacao. Segundo ele "assim como Deus, coincidencia de contrarios, segundo Nicolau de Cusa [...] pode ser patafisicamente definido como 'ponto tangente do zero e do infinito'", existiriam nos varios fatos que constituem o universo "certa especie de nos, ou ponto criticos, que poderiamos geometricamente representar como lugares onde o homem tangencia o mundo e a si-mesmo" (LEIRIS 2001, p. 11).

Esse movimento de mise-en-relation de si-mesmo--fundado sobre um trabalho de linguagem, segundo analise de Phillipe Lejeune--foi encenado em sua mais longa obra, denominada La Regle du jeu. Essa autobiografia literaria, dividida em quatro tomos, foi concebida como "obra total"--na medida em que ele afirmava esperar que o processo de escrita pudesse, finalmente, conjugar vida e literatura, savoir-vivre e savoir-poetique. Um livro concebido como um "todo autonomo, livre, obra aberta, como um perpetuo work in progress, que so a morte pudesse interromper" (LEIRIS 1992b, p. 614). A partir de uma escrita "trancada", ainda de acordo com Lejeune, essa autobiografia era, entao, "orientada nao para o passado da historia, no nivel do conteudo, mas para seu proprio devir" (LEJEUNE 1996, p. 287). Em artigo sobre Biffures (tomo I de La Regle du jeu), Emmanuel Levinas afirmou que, nesse texto, Leiris elaborou uma expressao que comportava a impossibilidade de "estar em si" e, como consequencia, a insuficiencia do sujeito que dispoe de um "mundo dado", lancando-se na escrita, simultaneamente, como sujeito e objeto, numa operacao dialetica (LEVINAS 1981, p. 62). La Regle du jeu comecou a ser escrito na decada de 1940. Foi entre os anos de 1940 e de 1950, como dito, que Michel Leiris estreitou vinculos com intelectuais caribenhos, como Aime Cesaire. Nessa mesma epoca, Glissant se tornaria seu aluno no Museu do Homem. (5)

Michel Leiris e as Antilhas na obra de Glissant: por uma etnografia da relacao

Edouard Glissant nasceu na Martinica no ano de 1928. Em sua juventude, foi amplamente impactado pelo movimento da Negritude e pelos debates surrealistas franceses. Estudou etnografia no Musee de L'Homme, entre 1953 e 1954, tendo Michel Leiris como professor. No que concernia a etnografia ate entao praticada naquela instituicao, Glissant criticava o fato de que, por um lado, exceto por Leiris, os etnografos partiam as Antilhas sobretudo em busca da "populacao indigena", impulsionados pela procura do "puro", do exotico. Desse modo, os "camponeses negros do Caribe", ou seja, a maior parte da populacao caribenha, por serem filhos da diaspora e herdeiros de um cruzamento de culturas, quase nunca eram considerados "primitivos" o suficiente para serem observados. Por outro lado, os povos caribenhos estavam sempre na condicao de "objetos" e quase nunca de "sujeitos" do conhecimento etnografico. Como estudante de etnografia ele proprio, Glissant nao condenava a disciplina, por inteiro, como apenas mais um "discurso colonial": ele acreditava que o simples movimento em direcao ao outro ja era intrinsecamente positivo. Porem, era nao somente necessario, mas urgente, que as populacoes observadas pudessem "observar em retorno" (KULLBERG 2013, p. 970-971).

A defesa tanto de uma etnografia praticada pelos povos das antigas colonias, quanto do incremento de estudos sobre populacoes "hibridas", foi resultado de um primeiro dialogo de Glissant com a obra de seu professor Michel Leiris. Ambos os etnografos, como foi visto, acreditavam que o cruzamento de culturas encontrado nas Antilhas seria um modelo ou um laboratorio para o "mundo do amanha". Ao longo dos anos, Glissant desenvolveria dois conceitos que tambem foram, em grande parte, devidos a leitura inicial de Leiris--ainda que, posteriormente, acrescidos de outros dialogos. Trata-se dos conceitos de Relation e de creolisation.

Antes de examinar esses conceitos, e valido que se passe por dois textos que Glissant escreveu sobre a obra de Leiris: um, primeiramente, publicado na revista Les lettres nouvelles, em 1956, intitulado Michel Leiris, ethnographe; e outro, veiculado no livro Traite du tout monde: poetique IV, nos anos de 1990, e denominado Repli et depli.

O primeiro texto foi, claramente, escrito sob o impacto da leitura dos ja citados prefacio de 1951 do livro Africa fantasma, a palestra sobre a "funcao do etnografo" e do estudo Contacts des civilisations en Martinique et Guadeloupe. Tres caracteristicas das obras literaria e etnografica de Leiris sao ai destacadas. Em primeiro lugar, Glissant admira a investigacao de si que seu professor desenvolvia tanto em La Regle du jeu, quanto no proprio Africa fantasma. A "vocacao de escritor", que o levava a ser "sincero e rigido em relacao a si mesmo", seria fundamental para o exercicio da atividade etnografica, "mais do que qualquer outra, dedicada a busca do outro". Em segundo lugar, importava para Glissant a propria concepcao leirisiana de "etnografia", como algo que deveria se tornar um "oficio do contato", muito mais do que uma ciencia de observacao neutra (GLISSANT 1997a, p. 121 e 126).

Em terceiro, destaca-se a solucao proposta por Leiris, tanto no prefacio de seu diario africano, quanto no estudo sobre Martinica e Guadalupe, de desenvolvimento de uma etnografia dos contatos culturais e a solidariedade entre os povos contra seus opressores. Na mesma perspectiva que privilegia o contato, Glissant corrobora aquela representacao das Antilhas, vista como exemplo privilegiado de "cruzamento de culturas":

Duas temporadas nas Antilhas o reafirmam em sua intencao de dedicar-se aos contatos de civilizacoes. [...] Toda a etnografia das Antilhas [...] inscreve, no presente, um porvir, pois forca a considerar os choques entre culturas e confirma (apesar do racismo que grassa nesses paises) que nao e utopico conceber o advento, um dia, de uma verdadeira civilizacao hibrida. [...] aqui a observacao porta sobre os contatos, sinteses, choques e harmonias entre culturas. Esse e o sentido da atencao que Leiris dedica as Antilhas: [...] ao incomodo, a distanciacao, pode suceder a solidariedade (GLISSANT 1997a, p. 127).

Por fim, Glissant constroi um contundente elogio ao esforco de Leiris em sua busca simultanea pelo "mundo dos outros e pelo porvir comum" e, em seguida, introduz seu proprio conceito de Relation, que seria desenvolvido ao longo de toda a sua obra e que dialoga com usos de Leiris da nocao de "comunicacao". Em Leiris, como dito, a comunicacao so poderia ser verdadeiramente estabelecida a partir do esforco poetico de abertura de si para o outro. Nesse sentido, uma "atitude literaria", ou poetica, em seus termos, seria muito mais eficaz que uma suposta "atitude cientifica". Compartilhar momentos, ainda que efemeros, de efetivo dialogo e comunicacao exigia um mergulho rimbaudiano na vida do outro. No texto aqui apresentado, assim, as nocoes de "poetica" e de "drama do mundo" referidas por Glissant, costuram-se sensivelmente com a obra de seu professor. Em Africa Fantasma, frustrado com o imperativo de uma observacao neutra das populacoes da Abissinia em suas relacoes com o sagrado, Michel Leiris afirmava: "O conhecimento abstrato, para mim, nunca deixara de ser apenas a pior das hipoteses [...]. Tenho necessidade de mergulhar no drama dessas mulheres, tocar seus modos de vida, me banhar na carne viva. Dane-se a etnografia" (LEIRIS 2007, p. 434 e 469). Ao final de seu texto, por sua vez, Glissant, falando de seu lugar de antilhano e ecoando a citacao de Leiris, declarava "odiar a etnografia" a cada vez que ela nao fertilizava o desejo da relacao, "dessa relacao: o mundo enfim vivo, sofrido, compartilhado. "O observador atento", que e (ou era) o etnografo, devera inscrever-se no drama do mundo [...] devera viver uma poetica (um compartilhamento). Assim, Leiris" (GLISSANT 1997a, p. 128-129).

No segundo texto sobre Michel Leiris, Repli e depli, Glissant define a etnografia praticada por seu professor como uma "etnografia da relacao". Na verdade, a proprio esforco de investigacao de si praticado em La Regle du jeu, a partir de uma escrita espiralada e tensa, tambem e incluida por Glissant como modelo de "etnografia". Em 1955, Michel Butor (assim como faria Emmanuel Levinas, anteriormente citado, anos mais tarde), caracterizava a narrativa de Leiris em La Regle du jeu como "dialetica", a partir do dialogo com o "outro", leitor, tomado como interlocutor privilegiado, incorporado aos questionamentos constantes do texto. Essa insercao do outro no texto era, tambem, de acordo com Butor, um abandono da "arte pela arte", em favor da construcao de uma literatura com finalidade edificante. Isso nao era afirmado, entretanto, no sentido da busca de algum tipo de "salvacao" metafisica, mas no sentido da procura de uma "melhora" ou de uma "cura" moral para a propria vida e para a vida do outro. Sendo assim, ainda segundo Butor, ao longo das paginas de La Regle du jeu era, na verdade, nao um "eu", mas um "nos" que despertava, "um grupo de individuos nao identicos, mas comparaveis, relacionaveis" (BUTOR 1960, p. 262).

Pode-se dizer que sao exatamente essas caracteristicas que atraem Glissant na obra de Leiris. Voltando, portanto, ao texto Repli et depli, verifica-se a valorizacao dessa demarche dialogica e subjetiva tanto em suas autobiografias quanto em sua etnografia. Essa abordagem, que daria espaco aos contatos e passagens entre si mesmo e o outro, e contraposta a uma suposta "consciencia universal", que, segundo ele, estaria implicita na abordagem estruturalista. (6) De acordo com Glissant, para Leiris, "o real e uma totalidade que se trama infinitamente". A paixao do escritor seria, entao, descobrir e decifrar essa trama, surpreendendo-se na relacao com o outro. O exercicio de observacao de Leiris era, assim, extremamente "rigoroso" e "objetivo", sem derivar, no entanto, em "suposicoes teoricas". Em um tempo em que vigia, ainda segundo Glissant, uma concepcao de "etnologia pura", em busca de sociedades supostas como puras, na pretensao de que se pudesse "reter o essencial de um fato social ou cultural na malha das descricoes" e presumindo a compreensao plena de um fenomeno observado--revelando, por fim, as estruturas elementares de toda uma sociedade--a etnografia de Michel Leiris nao se quedaria na "tentacao do universal generalizante" (GLISSANT 1997b, p. 130-131).

Ao descrever um vai-e-vem entre "si-mesmo" e o "outro", refletindo sobre a propria linguagem, costurando e descosturando eventos, observacoes, autorreflexoes, Michel Leiris, segundo Glissant, tornava-se bem-sucedido na criacao de um regime verdadeiramente aberto de linguagem, uma poetica da relacao: "uma aventura da palavra, um desafio que se expoe, em sua relacao fora-dentro, si-mesmo-mundo [...]. A prosa de Leiris e assim, uma meta-prosa que avalia a cada instante seu proprio nivel de expressao [...]" (GLISSANT 1997b, p. 134-138).

Toda a obra de Michel Leiris encena um questionamento

Os conceitos de creolisation e Relation em Edouard Glissant e sua intertextualidade com a obra de Michel Leiris

Relativo a propria subjetividade. Como herdeiro das discussoes surrealistas e leitor de textos misticos (apropriados de forma particular), o uso das relacoes de analogia e metafora na linguagem torna-se instrumento performativo de combate a definicao cartesiana de sujeito e a separacao, tambem cartesiana, entre sujeito e objeto. De modo similar, a comunicacao, tal como descrita e imaginada ao longo da obra de Leiris, tambem so e possivel a partir da construcao de uma subjetividade descontinua, nao essencial e nao orgulhosa de si. A comunicacao tambem pressupunha uma horizontalidade entre soi-meme et l'autre.

Por tudo isso, pode-se dizer que a obra de Leiris representava, para Glissant, la pensee archipelique, em contraposicao a la pensee continentale, representada, por exemplo, por Claude Levi-Strauss. A partir dessas consideracoes, podem-se compreender melhor algumas nocoes fundamentais da obra de Glissant, como as nocoes de creolisation e de Relation.

Em primeiro lugar, deve-se atentar para a diferenca entre creolite, conceito que aparece no manifesto Eloge de la creolite (BERNABE; CHAMOISEAU; CONFIANT 1989), escrito em 1989 e inspirado em Glissant, e o conceito de creolisation. Em uma serie de entrevistas concedidas a Lise Gauvin, o escritor explica que, em suas obras Le discours antillais e L'intention poetique, a ultima categoria aparece com frequencia. Ele afirma que a creolisation e um "movimento perpetuo de interpenetrabilidade cultural e linguistica que nao permite que se chegue a uma definicao do ser". Segundo Glissant, ainda que o "ser" fosse uma "grande e nobre invencao do ocidente", foi um conceito que desembocou em "toda sorte de sectarismos, de absolutos metafisicos e de fundamentalismos". Era isso, tambem, que, ainda em seus termos, ele reprovava no movimento da Negritude (sem negar sua clara importancia): o impulso para a definicao de um "ser". Ele continua declarando que acredita ser preciso dizer que ha apenas um "sendo" (l'etant), ou seja, "existencias particulares que se correspondem e que entram em conflito", num processo continuo (GLISSANT 2010, p. 31). Entretanto, para que esse processo se realize plenamente, e necessario equivalencia entre as partes: "se, entre os elementos culturais postos em relacao, ha alguns que sao inferiorizados em relacao a outros, a creolisation nao se realiza verdadeiramente. Ela se faz, mas de um modo bastardo e injusto" (GLISSANT 1996, p. 17).

A creolisation, resultado da Relation, e realizada, portanto, entre elementos diferentes (que nao se confundem e nao se diluem), mas que sao equivalentes em valor. A creolisation nao e, assim, uma dissolucao de identidades, mas uma comunicacao (que pode ser harmonica ou desarmonica) entre subjetividades descontinuas (GLISSANT 2010, p. 39-40). A Relation, entao, se opoe aos universais. Trata-se de uma dialetica sem sintese: "a Relation nos autoriza a passagem [...] entre todas as diferencas do mundo, enquanto o universal [...] tentava abstrair estes diferentes [...] a verdade absoluta do ser. [...] A Relacao nao e jamais uma diluicao de particulares" (GLISSANT 2006, p. 220).

Ambos, Michel Leiris e Edouard Glissant, buscaram

Conclusao

Construir formas nao sistematicas de representacao de simesmo e do outro. Seus trabalhos performatizam um miseen-jeu da propria subjetividade, uma forma de dar-se ao dialogo permanente. Ao longo de toda a vida, Leiris afirmou ser poeta e escritor, sendo a etnografia seu "segundo oficio". Essa disciplina lhe teria fornecido novos instrumentos e metodos, alem da possiblidade de uma "ampliacao de horizontes" e de contatos reais com outras cosmovisoes e formas de vida. As convencoes cientificas, porem, impediriam, na maior parte das vezes, o estabelecimento de uma verdadeira "comunicacao". Ele costumava afirmar que decidira publicar postumamente seu Journal para que, a partir dele, fossem abertas novas janelas de comunicacao, para que o dialogo nao fosse interrompido pela morte. O comercio de si-mesmo na forma do objeto-livro possibilitava, efetivamente, essa continuidade. A literatura, ou a poesia, como ele asseverou inumeras vezes, seria o unico instrumento capaz de projetar a propria subjetividade numa zona off limits, em que as barreiras entre si-mesmo e o outro pudessem ser interrompidas, ainda que por instantes.

Em sua obra, ainda que muito mais prescritiva do que a de Michel Leiris, Glissant tambem fara constante exaltacao de uma demarche poetica, unica que permitiria a Relation e a imaginacao de novos mundos (GLISSANT 2010, p. 63). Ele preconiza uma poetica da relacao. Poderiamos acrescentar: preconiza uma poetica nao apenas como instrumento estetico, mas como savoir-vivre, como arte de viver. Sobretudo, como arte de dialogar: "aquilo que e projetado como palavra encontra tambem um outro multiplo [...]. Iremos perceber que a poetica nao e uma arte do sonho ou da ilusao, mas uma maneira [...] de conceber a relacao entre si-mesmo e o outro e a expressar" (GLISSANT 2010, p. 39-44).

Tanto a obra de Leiris quanto a de Glissant nos forcam a uma "leitura pelas dobras". A propria forma de seus textos nos impele a imaginacao de um fora-de-nos, a intuicao de novas possibilidades nao do "ser", mas do "sendo". A obra de Glissant e mais esperancosa que aquela de seu professor, mas ambas estao ancoradas em um compromisso insistente com a sua contemporaneidade, com os problemas de seus (des)semelhantes.

Pretendeu-se demonstrar, nesse estudo, portanto, as relacoes entre os conceitos elaborados por Edouard Glissant com a obra de Michel Leiris. Em primeiro lugar, a atracao de Glissant pela substituicao do "exotismo" pela "solidariedade" como forma de abordagem etnografica. Nessa mesma perspectiva inclui-se a ideia de contato--nao apenas representado na postura do etnografo, mas, sobretudo, na valorizacao das "sociedades do contato". Em segundo lugar, buscou-se demonstrar a intertextualidade entre as nocoes de comunicacao e contato na obra de Leiris e as nocoes de creolisation e de Relation na obra de Glissant. Trata-se, verdadeiramente, de uma conversa infinita.

DOI: 10.15848/hh.v0i27.1290

AGRADECIMENTOS E INFORMACOES

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

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Gabriela Mitidieri Theophilo

gabitheophilo@gmail.com

Doutora em historia (PPGHIS-UFRJ)

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Rua Honorio de Barros, n. 26, ap. 203--Flamengo

22250-120--Rio de Janeiro--Rio de Janeiro

Brasil

RECEBIDO EM: 02/10/2017 | APROVADO EM: 13/04/2018

(1)--Escrevo o vocabulo Relation com a inicial maiuscula, pois e como essa palavra aparece nos livros e entrevistas de Glissant.

(2)--Trata-se do prefacio institucional da UNESCO ao estudo concluido por Leiris.

(3)--Essa palestra foi publicada pela primeira vez na revista Les Temps Modernes n. 58, annee 6, aout 1950, p. 357-374. Posteriormente, Leiris a incluiu no livro Cinq etudes d'ethnologie. Le racisme et le tiers monde (LEIRIS 1969, p. 83-112). Nesse interim, e valido mencionar que manterei, ao longo deste artigo, os vocabulos "etnografia" e "etnografo", palavras utilizadas por Leiris para referirse ao seu oficio, tanto na palestra citada quanto ao longo de toda a sua obra. Sabe-se, porem, que, no campo das ciencias sociais, ha um amplo debate que distingue os conceitos de etnologia, etnografia e antropologia. Segundo Levi-Strauss, por exemplo, etnografia, etnologia e antropologia seriam tres etapas de uma mesma pesquisa (GONCALVES 2016, p. 252-253).

(4)--Traducoes de citacoes em lingua estrangeira sao de minha autoria, com excecao daquelas retiradas de livros ja traduzidos para o portugues, especificamente, as obras Africa fantasma e Espelho da tauromaquia (LEIRIS 2007; 2001).

(5)--O Musee de l'Homme, localizado no palais de Chaillot, em Paris, foi inaugurado em 1937 em substituicao ao antigo Musee du Trocadero. Esse museu foi concebido como um espaco de ensino e pesquisa de etnografia, mas, principalmente, como um instrumento pedagogico para o grande publico. Michel Leiris foi pesquisador desse museu durante quase toda a sua vida profissional. Sobre a historia dos museus de etnografia na Franca, ver L'ESTOILE (2010).

(6)--O detalhamento da critica de Glissant ao modelo Levi-Straussiano, no ambito de uma disputa entre uma aproximacao estruturalista e uma aproximacao fenomenologica da etnografia, seria materia de um artigo a parte. No entanto, a partir das observacoes de Souleymane Bachir Diagne no artigo Edouard Glissant: l'infinie passion de tramer, podese entender melhor o debate que contrapunha uma "consciencia universal" (que seria subjacente ao modelo de Levi-Strauss), a uma "poetica do mundo". Segundo Diagne, Glissant recorreria a Leiris para "nos fazer entender melhor aquilo que Husserl teria vislumbrado a partir da leitura de Levy-Bruhl: o valor da etnografia na medida em que ela se liberta da tentativa de assimilar o "diverso ao mesmo". Instalar-se no "contato de culturas" seria "esposar o movimento", sem ancorarse no "solo firme de uma gramatica universal, pura", mas dando-se a um processo indefinido de "creolisation" (DIAGNE 2014, p. 89-91). Sobre esse tema, ha tambem o texto de Christina Kullberg (Cf. KULLBERG 2013).
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Author:Theophilo, Gabriela Mitidieri
Publication:Historia da Historiografia
Date:May 1, 2018
Words:7300
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