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A percepcao dos jovens sobre desigualdades e justica social no Brasil.

Este artigo reune a analise das percepcoes, valores e opinioes a respeito de temas sobre justica social, igualdade de classes e das possibilidades de ascensao e mobilidade social de jovens, no Rio de Janeiro, pertencentes a grupos sociais que aqui chamamos "classe media" e "classe popular", obtidas a partir de pesquisa com grupos focais. Alem disso, foram abordados, tambem, assuntos relacionados a temas tais como politicas de discriminacao positiva e o papel do Estado e da sociedade civil no combate as desigualdades. O estudo realizado em 2008 baseia-se nas falas transcritas das dinamicas de grupos focais e nao pretende responder questoes especificas, mas sim oferecer elementos para reflexao e desenvolvimento argumentativo futuro no debate sobre percepcao de desigualdades e justica social.

A pesquisa qualitativa teve como base a realizacao de dinamicas com seis grupos de jovens divididos em tres faixas etarias: 16 a 18 anos, 19 a 21 anos e 22 a 24 anos. Em cada faixa etaria, os jovens foram selecionados e agrupados de acordo com o pertencimento as classes mais ou menos favorecidas--aqui nomeadas "classe popular" e "classe media". Os grupos focais foram realizados em 2008 como parte do projeto do Instituto do Milenio, coordenado por Nelson do Valle Silva. Para o recrutamento dos jovens participantes das dinamicas, contratamos uma empresa especializada que separou os agentes de acordo com a renda familiar e outros aspectos relevantes para a caracterizacao socioeconomica dos jovens, segundo a metodologia de recrutamento utilizada nesses casos e adotadas por uma serie de empresas e organismos destinados a empreender esse tipo de dinamica.

Sabemos que o conceito de classe e complexo e de dificil delimitacao e nao temos a pretensao de fazer uma discussao sobre classes e, tampouco, defender que os dois grupos denominados "classe media" e "classe popular" sejam interpretados dentro do conceito especifico de classe social. Portanto, no caso particular desse estudo, o grupo que chamamos de "classe media" sao jovens que estudam em instituicoes de ensino privadas, oriundos de familias com renda elevada e moradores da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Os jovens pertencentes ao grupo aqui denominado "classe popular" sao estudantes de escolas publicas, oriundos de familias de baixa renda e moradores da periferia ou dos suburbios do Rio de Janeiro.

O texto esta dividido em partes que tratam das discussoes realizadas durante as dinamicas dos grupos focais. Desse modo, busca-se organizar em temas as questoes apresentadas aos agentes, fazendo uma comparacao das impressoes e das falas dos jovens segundo a classe e a faixa etaria em que estao inscritos. Finalmente um conjunto bastante circunscrito de impressoes esta registrado na ultima parte a titulo de sugestoes para reflexao e desenvolvimento argumentativo futuro.

O que e classe social?

A primeira parte das discussoes realizadas versou sobre a questao das classes sociais e o que determina a inclusao das pessoas em uma ou outra classe. Os jovens de estratos mais baixos, em grande parte, declararam que as classes sao definidas pela renda e/ou pelo local de moradia. A caracterizacao da classe nesses grupos baseia-se em aspectos mais concretos e palpaveis do que aquela efetivada pelos jovens dos segmentos mais favorecidos. Eles tendem a usar uma logica social, fundamentada em aspectos da materialidade, como apontou Bourdieu em alguns de seus textos (1976; 1979).

Hoje em dia e considerada uma pessoa de classe media, uma pessoa que tem um micro-ondas em casa, um computador, uma geladeira boa, duas tres televisoes dentro de casa, isso eu acho que qualquer pobre pode ter. Eu trabalhava na zona sul e uma vez uma senhora esteve la falando que a empregada dela tinha as mesmas coisas que ela tinha dentro da casa dela, duas televisoes, uma TV a cabo, micro-ondas, DVD, computador ... tinha a mesma coisa que ela tinha dentro de casa, a questao e zona sul, zona norte (classe popular 22-24).

Essa questao de classe ja e discriminada ha seculos atras, e conforme o tempo so vai se agravando: o carro que voce usa, o supermercado que voce faz suas compras, dependendo do supermercado, ate o mesmo produto, o preco e diferente, dependendo do bairro, o bairro que voce mora diz qual e a sua classe (classe popular 22-24).

Eu entendo que sejam diferentes classes na sociedade. Tipo ... Vou dar um exemplo: a localidade onde a pessoa mora. Tem a classe social da zona sul de um jeito e na zona norte de outro, e na baixada fluminense ... (classe popular 19-21).

Ate determinado salario e classe media baixa, classe media alta e classe media ... Nem tanto por onde mora. Eu entendo pela renda da pessoa, da familia, em geral (classe popular 19-21).

(...) varia muito e depende sim do lugar onde mora ... Porque determinados lugares as pessoas ja olham para voce ... Ve mais a pessoa por onde mora ... (classe popular 19-21).

A classe social na maioria das vezes e definida pela renda da pessoa (classe popular 19-21).

Ja os jovens de classe media apontaram para estas caracteristicas, mas deram relevancia tambem ao estilo de vida, ao status, a cultura e ao prestigio ocupacional.

Acho que voce acaba tendo varios tipos de classe social. Uma classe social cultural, uma classe social ... economica, entao eu acho que eu posso fazer parte da classe social ... classe economica e classe social media, cultural ... (classe media 1921).

Isso ate hoje da pra ver porque a pessoa, por exemplo, olha com mais prestigio para um professor do que, por exemplo, pra um mecanico, que ganha a mesma coisa. Isso ... ate coisa bastante enraizada (classe media 19-21).

Acho que os valores que a gente da a determinadas profissoes tambem, a gente ja olha com um certo preconceito (classe media 19-21).

Eu acho que mais assim pelo profissional que a pessoa e, que exerce (classe media 22-24).

Os habitos das pessoas, o meio que ela vive ... (classe media 22-24).

Eu acho que classe social nao esta ligada so a dinheiro. Como o nome diz, esta ligada a sociedade que voce vive, a religiao, se voce pratica algum tipo de esporte, a sociedade daquele esporte que voce pratica ou entao uma faculdade, no caso dele (indicando outro membro integrante da dinamica), de Educacao Fisica, mas depende do meio das pessoas que voce convive, nao so dinheiro (classe media 16-18).

Isso, estilo de vida (classe media 16-19).

Caracteristicas adquiridas e caracteristicas adscritas: quem manda nesse jogo?

Foi perguntado aos jovens o que eles acreditavam ser mais importante no Brasil para uma melhor ou pior posicao social. Educacao? Esforco (quem se esforca mais)? Nascer em familia rica? Ter conexoes e redes para indicacao de emprego e outras oportunidades? Sorte? Ser corrupto etc.? Osjovens de classe popular invariavelmente apontam como determinantes da estratificacao a educacao e o esforco.

O estudo e a base de tudo. Pra gente ter alguma coisa no futuro, esta no estudo (classe popular 16-19).

O estudo ajuda bastante, mas o esforco ... Voce pode fazer mil faculdades, mas nao vai ficar la sentado esperando (classe popular 16-19).

Eu acho que e o estudo, principalmente a forca de vontade e se voce faz isso tudo, estuda e, por exemplo, uma pessoa escolhe uma coisa pra seguir: "Eu quero ser aquilo", ai estuda. Nao deu certo, desiste e nao esta nem ai. Eu acho que a pessoa nao pode focar so numa coisa. Como ela falou. Nao deu tenta outra coisa. Nao vai ficar esperando aparecer (classe popular 16-19).

E a forca de vontade (classe popular 19-21).

Alem disso, a base vem com a educacao, com certeza (classe popular 19-21).

Para mim e estudo (classe popular 19-21).

Estudo e forca de vontade (classe popular 19-21).

Acho que tem que ter forca de vontade mesmo (classe popular 19-21).

Apesar de os jovens de classes privilegiadas tambem apontarem o esforco e a educacao como fatores relevantes, eles enfatizam o papel das caracteristicas adscritas, como origem e redes sociais, com muito mais frequencia do que os jovens de classe popular.

Eu acho que nascer em berco de ouro na familia rica e depois o esforco da pessoa. Abre portas, as vezes seu pai ja tem um cargo bom, voce ja comeca ali. Ou te indica para algum lugar. Mas sem esforco tambem fica complicado (classe media 22-24).

Acho que a familia ... ajuda muito. E o estudo em segundo lugar. Quem estuda muito, se esforca muito, com certeza consegue chegar ai no topo da piramide (classe media 22-24).

Acho que com estudo e esforco consegue, mas quem tem influencia consegue mais rapido. Influencia, pais ricos, consegue bem mais rapido (classe media 22-24).

Eu acho que a influencia, porque a familia nao deixa de ser o pistolao. Por exemplo, tem um menino na minha faculdade que ta no segundo periodo e ta estagiando na Petrobras ganhando quase 3 mil por mes. Porque ele conhece o deputado de nao sei onde que colocou, que mandou colocar ... (classe media 22-24).

Eu conheco algumas pessoas que estudam pra caramba, sao muito esforcadas, mas muito esforcadas mesmo, sao feras, e que nao conseguem sair ali do mundinho (classe media 19-21).

E rede e esforco. Se voce nao se esforca voce nao se mantem. Voce pode entrar, mas voce nao vai se manter. Sao as duas coisas. Relacionamento e esforco (classe media 22-24).

Com relacao a essa questao, na coorte mais velha, de 22 a 24 anos, alguns agentes de classe popular demonstraram uma tendencia de apontar a origem social e as redes de relacoes como importantes. A trajetoria, a vivencia, o desencantamento fazem com que as caracteristicas adscritas passem a ter relevancia na analise desses jovens, ainda que a expressao dessa perspectiva apresente um diferencial em relacao as classes mais favorecidas, em termos da enfase dada a ela.

A pessoa que nasce num berco de ouro ja esta feita, praticamente, porque na educacao publica hoje em dia e uma vergonha, porque ninguem aprende nada, agora estao passando sem ter condicoes de estar exercendo nada no futuro, eles estao passando automaticamente, eu acho que nascer numa familia que ja tenha uma condicao melhor, que de uma condicao para ela ter um futuro, uma profissao, eu acho que isso e o mais importante (classe popular 22-24).

Bom, na atual situacao do Brasil hoje, eu acho que em primeiro lugar e nascer numa familia rica, porque para o pobre esta dificil, esta complicado, esta cada dia mais dificil, vou dar um exemplo, faculdade publica, claro que tem pobres que estudam e conseguem chegar la, mas a grande maioria sao filhos de pessoas ricas, que estudaram em colegios particulares, fizeram bons cursinhos pre-vestibular e conseguiram passar, a grande maioria, entendeu (classe popular 22-24).

Igualdade e Justica: realmente dois lados da mesma moeda?

Confrontados com a pergunta se e justo ou injusto que um "medico ou advogado" ganhe 30 a 40 vezes mais que um "frentista de posto de gasolina ou lixeiro", os jovens de classe popular tenderam a responder, quase unanimemente, que essa disparidade e justa. Segundo eles, essa discrepancia entre salarios estaria justificada pela educacao e esforco que as ocupacoes de mais alto status e renda supoem. Por outro lado, entre os jovens da classe media, as posicoes em relacao a essa pergunta sao mais divididas, conflitantes e complexas.

Ninguem falou: "Voce vai ser medico", ele estudou pra ser medico, ele teve forca de vontade. Ninguem sabe o que ele passou pra ser o que e. O frentista ate pode ser um cara que fez faculdade. Mas pra ser frentista ninguem vai te pedir uma advocacia, nao vai pedir um curso superior (classe popular 19-21).

Ele tambem estudou. Dedicou tanto tempo ... pra ser juiz. Vai julgar alguem e pra isso tem que saber muito ... (classe popular 19-21).

Eu acho justo. Ele estudou, fez curso pra medico (classe popular 19-21).

A pessoa fica horas e horas estudando, nao tem mais vida, nao sai, nao se diverte, nao vai a lugar nenhum, so fica ali de cara nos livros, a pessoa esta se esforcando para ter um salario bom, o frentista, vai ali encheu, e fica ali parado ... (classe popular 22-24).

Justo nao e. Justo, to falando do criterio o pais devia dar igualdade a todos. Assim, pro frentista poder chegar e poder estudar e ter a mesma instrucao que o juiz teve pra chegar aonde ele chegou. E injusta a forma como que eles nao podem competir um com o outro. Frentista nunca vai melhorar na vida, a nao ser que, po, nao sei, alguma ocasiao que ele consiga se tornar juiz ... (classe media 19-21).

Pelo dinheiro, a diferenca e muito grande. E como se um nao ganhasse nada e outro ... porra ... Do zero ao cem. Eu acho que e justo, um juiz merece esse dinheiro. Frentista nao merece, mas ... e o que ... (classe media 19-21).

Eu concordo plenamente, eu acho que e justo (classe media 19-21).

Justo. Quanto mais voce estuda, mais voce ganha. Ja que as vezes isso nao acontece (classe media 22-24).

Se os altos salarios se devem a outros fatores que nao correspondem a educacao e ao esforco, a disparidade e percebida como injusta. E o caso dos jogadores de futebol ou do presidente Lula, citados no grupo de classe popular de 16 a 18 anos.
   O Ronaldinho Gaucho, por exemplo ...

   Ou o Maradona que nao teve estudo tambem ...

   O cara joga futebol ali e ganha 200 mil por mes. Um policial que
   arrisca a vida ai contra bandido, a ponto de morrer ganha 900 por
   mes.

   Porque, na verdade, o Lula nao teve muito estudo (...) E ganha pra
   caramba ... E ai? So vai assinar papel. Pra assinar papel eu tambem
   vou ...


Foi possivel perceber a enfase dada a educacao como principal determinante da estratificacao, tal como observado no survey sobre desigualdades realizado em 2000 (SCALON, 2003). Nesse ponto, e importante ressaltar que a literatura sobre percepcao de desigualdades indica o fato de que, quando dada populacao vige a crenca de que os esforcos e recursos individuais sao o principal fator para a obtencao de riquezas e o sucesso social, tende-se a encontrar ai tambem uma maior disposicao para a aceitacao das assimetrias sociais (HIRSCHMAN, 1973). Nesse sentido, altos salarios sao justificaveis quando vinculados ao merito individual--como esforco, qualificacoes, inteligencia, educacao--e, portanto, a desigualdade de renda e moral ou eticamente legitimada. Caso os fatores que determinam as chances economicas estejam associados a caracteristicas alem do controle dos individuos, sera menos provavel a aceitacao das desigualdades (CORNEO & GRUNER, 2000; SUHRCKE, 2002). A hipotese central postulada afirma que os determinantes das diferencas na obtencao de posicoes sociais e riqueza sao reconhecidos como justos quando ha maior tolerancia com os niveis de desigualdade de renda (SCALON, 2003).

A analise dos dados quantitativos apontou para o fato de que no Brasil a populacao adere mais a ideia de que as pessoas sao recompensadas por sua inteligencia e qualificacoes, quando se comparam os dados para a mesma questao em outros paises (1). Considerando a adesao a um item incluido em outra questao daquele survey, concluiu-se que no Brasil e em Portugal da-se maior importancia as credenciais (2), uma vez que os entrevistados tendem a concordar com o papel das diferencas educacionais como criterio de estratificacao, que tambem justifica grandes diferencas na obtencao de rendimentos (SCALON, 2003).

Do mesmo modo, os resultados qualitativos do grupo focal apontam uma justificativa pela educacao e pelo esforco e, assim, para uma maior adesao a ideia de que prevalecem no Brasil as caracteristicas adquiridas em relacao as adscritas para a alocacao e ascensao em posicoes sociais. Isso pode apontar para um alto grau de conformismo em relacao as desigualdades. Contudo, verifica-se aqui diferencas de classe que nao foram possiveis de serem averiguadas no survey. Jovens de classe media mostram-se mais propensos a enfatizar as caracteristicas adscritas, tais como redes sociais e origem familiar, enquanto elementos significativos para as chances de melhor insercao social dos agentes.

Um aspecto tambem destacado por alguns agentes das classes mais privilegiadas e o tamanho da desigualdade. Eles acreditam na justica das diferencas salariais, mas a questao primordial e a magnitude dessa distancia. Por serem as disparidades de renda excessivamente grandes, elas se tornam injustas.

Eu acho totalmente injusto a questao salarial ter uma defasagem tao grande, porque voce coloca uma importancia maior num certo tipo de trabalho do que no outro (classe media 22-24).

Eu acho injusto, claro. Como eles falaram, o problema e o salario do gari que e baixo demais. Agora, essa questao do salario tem a ver tambem com o mercado, com lei de mercado, e com o proprio status que e vinculado a profissao (classe media 22-24).

Eu acho que deveria ser melhor distribuida a renda, diminuindo um pouco do juiz, aumentando um pouco do gari. Ficaria tudo certo. Sao dois cargos importantes. Sao duas funcoes importantes, obvio, toda profissao e importante. Agora, porra, essa diferenca entre salario eu tambem acho muito complicado, mas eu discordo. Acho que uma distribuicao feita justamente ... (classe media 19-21).

Seria interessante, entretanto, destacar que algumas justificativas se basearam na ideia liberal de que a desigualdade de renda e inerente ao sistema capitalista, uma vez que ela e necessaria para a competicao no mercado. Essa mesma perspectiva reaparece num momento posterior da dinamica, quando se discutia a possibilidade e a responsabilidade de quem deveria atuar no sentido de diminuir essas assimetrias, tal como discutiremos mais a frente.

Entao, de repente, e um dinheiro que e valido, e uma disparidade que tem que existir, ate para a economia fluir.

Existir no sentido para as pessoas correrem atras e tambem crescer na vida (classe media 19-21).

Eu acho que e justo. Porque o frentista do posto, ele vai querer melhor, ele vai querer chegar a gerente do posto, por isso ele vai chegar no trabalho, como o medico vai sempre querer ter uma clinica, para ganhar mais dinheiro e viver bem para sempre (classe popular 22-24).

Eu acho que e justo, porque tambem traz forca de vontade para a pessoa, diz, eu ganho tao pouco, e as vezes ganha tao bem, entao eu vou estudar para poder igualar aquela pessoa, da uma motivacao para a pessoa batalhar para poder crescer (classe popular. 22-24).

(...) Se a gente esta querendo viver no capitalismo e fundamental que ocorra esse tipo de disparate assim (classe media 19-21).

Essas afirmacoes corroboram a visao do capitalismo como injusto, desigual, mas necessario. No limite, essas opinioes justificariam a disparidade social no Brasil. Aqui tambem encontramos um ponto de contato com os resultados obtidos no survey sobre desigualdades. Ainda na analise comparativa, os dados quantitativos revelaram que "sao os paises latino-americanos--Brasil e Chile que apresentam maior tendencia a concordar com a justificativa de que grandes diferencas salariais sao necessarias para a prosperidade do pais. Esse tipo de legitimacao das desigualdades de renda faz lembrar a logica que imperou no Brasil durante a decada de 1970, e ainda sobrevive nos discursos, de que era necessario fazer primeiro o bolo crescer para depois dividi-lo. Parece que essa crenca permanece ainda nos dias atuais (SCALON, 2003:8).

Cotas: Para quem?

As cotas foram criticadas pela maioria dos jovens, independentemente da

classe a que pertenciam. Houve alguma adesao a politica de cotas para negros por parte de apenas dois jovens negros do grupo de 19 a 21 anos de classe popular e de dois jovens do grupo de 19 a 21 anos de classe media. Quando expressam conformidade em relacao a algum tipo de discriminacao positiva, os entrevistados demonstraram ser mais favoraveis as cotas quando definidas pela renda. Em alguns grupos foi indicada a aceitacao de cotas tambem para portadores de necessidades especiais. As cotas baseadas na cor ou raca sao vistas como discriminatorias.

Essa coisa de cota eu acho que isso esta sendo um preconceito. Eu acho um preconceito porque os negros, indios, nao-sei-oque, todo mundo e igual. Esse rotulo ja tem um preconceito ali (classe popular 19-21).

Pode ser um negro que cresceu junto comigo, estudou junto comigo, passamos pelo mesmo colegio, subimos e fizemos o curso. Ele vai ter a cota dele e eu vou ter que bater junto com todo mundo. Tem que tirar vaga ai de muita gente branca (classe popular 19-21).

Eu acho que essa questao de cota, e como se fosse uma aprovacao automatica, e tambem acaba isolando essa minoria cada vez mais. Porque uma pessoa entra na faculdade, entrar e mole, agora sair, fazer uma prova, entrar numa empresa, conseguir um estagio, ninguem se forma sem estagio, tem estagio que voce precisa fazer prova para entrar, entao as vezes a pessoa esta la dentro, mas nao adiantou nada, esta se iludindo, enquanto o sistema continua prejudicando ele (classe popular, 22-24.

Eu sou contra as cotas porque acho que e uma forma de segregacao. Por exemplo, a cota pra universidade e igual ao apartheid que tinha na Africa do Sul. Como se tivesse separando os negros dos brancos, como se dissesse que os negros sao menos capazes de fazer certa coisa. Quando a pessoa quer mesmo, por exemplo, ir para uma faculdade federal ela vai se esforcar, mesmo nao tendo estudado em colegio particular bom assim, ela vai, sei la, trabalhar e pagar um cursinho pre-vestibular para poder ir. Isso depende da pessoa, a pessoa tem que se esforcar (classe media, 19-21).

Eu sou contra a cota, totalmente, de qualquer coisa, branco, de carencia, quanto de raca, eu acho que o que tem que ser feito e um ensino de qualidade, foi o que eles dois falaram. (classe popular 22-24)

Sou a favor da cota relacionada a renda da pessoa. Em relacao a cor da pele eu acho que nao tem nada a ver, se nao teria que ter cota pra loiro, pra ruivo, pra tudo. Cor da pele ja autodescrimina a pessoa. Eu nao gostaria, por exemplo, se fosse negro, de entrar por causa de cota. Entrar pelo meu esforco, da minha capacidade. Isso nao ta relacionado a cor da pele (classe media 22-24).

Eu sou contra as cotas, mas contra a cota para negros, sou a favor da cota para pobre, pessoas de classe popular, se a pessoa nao teve oportunidade, ela nunca vai se formar, isso e uma chance que o governo da para ela se formar (classe media, 16-18).

Entendi. Tem umas restricoes ... Assim ... Deficiente, realmente, pra mim e uma restricao, eu acho que sim. Porem para mulher, cor, pode ser negro e ser uma situacao tranquila. Eu nao sou a favor (classe media 19-21).

Eu sou contra essa cota de negro, mas eu sou a favor das cotas no que tange a tratar igualmente os desiguais, como deficiente fisico. Ele nao tem condicao de fazer determinadas coisas, mas tem condicoes de fazer outras. So que e muito mais facil voce botar uma pessoa sem nenhuma deficiencia. Entao nesse caso eu sou a favor (classe media, 19-21).

Tem que ter cota pra pobre (classe popular, 22-24).

Quem pode diminuir as assimetrias sociais?

Nesta analise foram recolhidos trechos de falas que respondem as questoes acerca da responsabilizacao sobre as iniciativas no sentido de diminuicao das assimetrias sociais. Quando indagados sobre quem deveria ser responsabilizado no caso de se almejar uma melhor distribuicao de renda, percebemos uma tendencia no grupo de faixa etaria mais jovem (16-18 anos) das classes menos favorecidas para enfatizar a responsabilidade dos proprios agentes, ou seja, eles tendem a efetuar uma autoimputacao de responsabilidade ao pensarem nos possiveis responsaveis pela resolucao do problema.

Nao basta so o governador (ir) la ou o presidente sei la, querer dar oportunidade, botar ai escolas e trabalhos ai, e muita gente nao querer. Por exemplo, o cara continuar trabalhando na boca de fumo ou no morro la. O cara vai querer sair de la pra trabalhar? Ter um trabalho digno? Vai querer estudar? Nao vai (classe popular, 16-18).

O que adianta ter mais escolas se o que a gente vive nao consertam. A gente nao respeita, a gente nao respeita os professores, diretor, picha ... (classe popular, 16-18). E por causa dele e de alguns nao da pra fazer? Tem que fazer. Tem um monte de gente querendo. E o tempo de cada um, cada um tem a cabeca diferente. Conforme algumas pessoas sao influenciadas pelas outras, as outras tem cabeca formada. Tem que dar tempo ao tempo, tem que ir fazendo pra ver se a cabeca das pessoas vai mudando. So assim que vai ter oportunidade de mudar isso ai. Senao, vai continuar do jeito que esta (classe popular, 16-18).

Cada um fazendo a sua parte diminui. Se eu fizer o meu e ela fizer o dela, voce fizer o seu, e ele assim sucessivamente, vai diminuir (classe popular, 16-18).

Esse tipo de perspectiva prossegue no grupo de jovens de baixa insercao da proxima faixa etaria (19-21), ainda que neste a imputacao de responsabilidade para o governo ou o Estado tenha sido mais enfatizada que no anterior.

O governo, com certeza (classe popular, 19-21 anos).

Primeiramente, antes de tudo, o governo (classe popular, 1921 anos).

A gente tem tambem que ajudar. Nao pode ter esse pensamento de so deixar na mao do governo (classe popular, 19-21 anos).

Nao e so ele (classe popular, 19-21 anos).

Tem a nossa parte (classe popular, 19-21 anos).

(...) O que gera a violencia? O que gera os assaltantes? E o trafico. Tem sempre uma boquinha la com um "aviaozinho"... E uma coisa assim, o que gera a violencia e o trafico. O que gera sei la enchente, poluicao, e uma coisa puxando a outra. Abaixo da violencia e voce nao ajudar nas drogas. Na poluicao, nao jogue o lixo no chao. Sei la, seja mais solidario (classe popular, 19-21 anos).

Conforme avancamos na faixa etaria, percebemos que a situacao de autoimputacao para a resolucao da questao da desigualdade tende a ser reavaliada. Ela ressurge ainda, porem o "nos" agora aparece personificado na palavra "sociedade", ou seja, prossegue o voluntarismo, embora alguns membros desse grupo explicitem sua sensacao de impotencia para resolver o problema. Dessa forma, ao contrario do voluntarismo que se percebia no grupo de faixa etaria mais jovem dos segmentos populares, nos jovens mais maduros das classes desfavorecidas emerge uma sensacao de incapacidade deles proprios para a resolucao desse tipo de problema.

Eu acho que todas as classes, como dizem, classe media, classe popular, eu acho que se todo mundo se reunisse, quem tivesse mais tentasse dividir com quem tivesse muito menos, eu acho que daria certo, e logico que e uma coisa meio fantasiosa, mas eu acho que e a unica solucao, do jeito que o Brasil esta indo, fica cada vez mais dificil de um pobre conseguir uma colocacao (classe popular 22-24).

E dificil falar. Porque a gente, coitado, a gente nao manda em nada, so trabalha, trabalha ... Acho que so os que estao la em cima mesmo para resolver esse problema (classe popular 22-24).

Os politicos, os governantes, porque a gente, acho que nao pode resolver, na minha opiniao acho que nao (classe popular 22-24).

Hoje em dia quem tem mais favorece quem tem mais, voce nao ve uma propaganda politica de um vereador que nao tem dinheiro, um vereador do povo, voce so ve os politicos apoiados por presidente, por quem tem dinheiro, entao, a gente colocar um de nos la dentro e muito dificil (classe popular 22-24).

Mas tambem a sociedade e culpada, porque coloca eles (classe popular 22-24).

(Pergunta do moderador: Quem e a sociedade?) Nos, todos nos. Porque podemos fazer a diferenca sim, como eles falam, um rapaz ou uma moca de 16 anos votar e uma diferenca, pode ate ser para colocar mais um corrupto no lugar do outro, eu acho que, se a populacao se unisse, por exemplo, como vai vir as eleicoes domingo, todos votassem em branco ... (classe popular 22-24).

Pergunta: Nesse sentido, quem tem que resolver isso? Nos, a sociedade (classe popular 22-24).

Para mim, os politicos (classe popular 22-24).

Ja os jovens que integraram os grupos focais de classes mais favorecidas apresentaram uma visao diferenciada em relacao a essa questao. Alem das respostas se apresentarem de forma mais articulada, surge a figura do empresario como um dos principais artifices dessa possivel melhoria. Alguns atribuem essa responsabilidade as pessoas mais bem posicionadas e que apresentam, portanto, mais capitais (economico, cultural, simbolico etc.).

Acho que isso depende tanto do povo quanto dos politicos. A gente tem que se manifestar e os politicos que estao la para nos representar tem que dar voz a nossa manifestacao (classe media, 16-18 anos).

Concordo com o que todo mundo disse sobre o fator politico, mas acho que tem outro lado que tambem e muito responsavel e que poderia dar fim a isso: sao os empresarios. (...) Eu concordo com ela, se as pessoas comecarem a dar mais oportunidade as pessoas que nao tem acesso a essas oportunidades, pode ser um meio de quebrar essa barreira, porque as pessoas pobres tem muito poucas oportunidades de estudar, de fazer curso e se especializar em alguma coisa (classe media, 16-18 anos).

Acho que qualquer pessoa que tenha mais conhecimento, mais estudo podia ajudar, e as que nao tem se empenhar para poder saber mais sobre isso (classe media, 16-18 anos).

E, governo. (...) Com ajuda de empresarios e de ONGs. Mas e o governo (classe media, 16-18 anos).

Com ajuda privada assim, acho que o governo e responsavel por isso. Diminuir um pouco essa pobreza que a gente tem aqui, atraves de varios recursos, educacao, projetos, mas e a parte do governo. Monetariamente falando, precisaria de uma ajuda de capital privado e tal, mas a responsabilidade ficaria com o governo (classe media, 16-18 anos).

Mas assim ... eu acho que a midia, no caso, [tem] extrema importancia, porque acho que a midia e formadora de opiniao. O politico, ele nao e formador de opiniao. Ele e um mero executor do que a populacao quer. Porque o politico, ou pelo menos o atual, ele nao da educacao pra ganhar voto. Ele da festa pra ganhar voto. (...) Seria[m] os empresarios (de midia) (classe media, 16-18 anos).

Um tipo de resposta se diferencia bastante daquelas dadas por jovens de classes menos favorecidas: a ideia de que a desigualdade nao e um problema, pois e constitutiva do proprio sistema capitalista, tal como ja havia aparecido num momento anterior quando se discutia sobre a desigualdade de disparidade de renda no pais:

Acho que e a participacao dos empresarios pra diminuir ... [para ter] oportunidade para mais pessoas. [Mas] acho que desigualdade sempre vai haver em todas as sociedades, mas pobreza ... (classe media, 22-24).

Acho que com os empresarios ajudando, ajuda muito, mas acho que nao seja uma solucao efetiva porque desde o inicio sempre foi assim, estudei isso em sociologia mesmo, que a sociedade sempre tem um explorando o outro inferior. E muito capitalismo mesmo, ja tem uma classe que esta em cima e explorando sempre os pobres. (classe media, 16-18).

Acho que primeiro, para responder logo a sua pergunta, acho que ninguem. Porque a pobreza e a desigualdade nao e vista como um problema. E vista como problema pra gente aqui. Mas pro sistema nao. Nao tem problema (classe media, 19-21).

A gente vive de capitalismo, e pobreza e desigualdade tem que ter no capitalismo, sem isso nao tem capitalismo. Entao resolver acho que ninguem resolve, mas se alguem podera melhorar ... acho que seriam os individuos, todos (classe media, 22-24).

[Individuos] relacionados aos pobres, porque o individuo da classe media ele nao vai se esforcar para mudar nada, porque ele ta feliz da vida (classe media, 22-24).

O individuo da classe media so vai se mexer se mexerem no bolso deles (classe media, 22-24).

Tem individuo da classe media que faz de tudo, por exemplo, os impostos, tem gente da classe media que faz de tudo para nao pagar imposto. Bota empresas no nome de outras pessoas pra ... pra tentar burlar as leis, e quem paga mais e o povo mais pobre. Nao tem da onde tirar, tira do povo. Aumenta as coisas (classe media, 22-24).

A situacao dos jovens no futuro

Nesta parte do estudo, estao assinalados trechos de falas que incidem sobre a perspectiva individual futura de ascensao e mobilidade social. Quando interpelados a vislumbrarem sua situacao no futuro, os jovens pobres apontam para a situacao de precariedade dos pais e acreditam que estarao numa situacao muito melhor a medio e longo prazo, dado o fato de que tem mais condicoes de estudo e que estao dispostos a se esforcarem para melhorar sua posicao social.

Eu vou batalhar pelo o que eu quero. Eu vou batalhar com certeza pra ser o que eu quero. (...) Nao e prejulgando o meu pai, porque eles nao tiveram ... eu quero pra mostrar pros meus irmaos que eu consegui antes deles ... pra ter aquele exemplo: "A minha irma conseguiu eu tambem posso conseguir". Posso ajudar o meu pai e minha mae no que eles precisarem. E ter uma familia pra poder ensinar pros meus filhos que dinheiro nao e tudo (classe popular, 16-18 anos).

Eu vou estudar bastante. Ninguem que ser igual ao pai ... Quero ser melhor, estudar bastante ... (classe popular, 16-18 anos).

Eu tambem acho que vou estar numa condicao melhor do que eles. Porque tenho mais oportunidades. A minha mae parou na 8a serie. Ela tem que estudar pra continuar no emprego. E eu ja vou ter tudo, tem mais cursos (classe popular, 16-18 anos).

Com certeza vai ser melhor. Porque o meu pai era o maior sofrimento. O meu pai ficava as vezes 15 dias fora de casa. Ele trabalhava num barco de pesca. A minha mae e manicure. Agora o meu pai esta aposentado por invalidez ... (classe popular, 16-18 anos).

Eu pretendo ser melhor porque a minha mae so fez ate a 8a serie (classe popular, 16-18 anos).

(...) Eu nao conheci o meu pai. Conheci, mas era pequena e nao lembro. Eu quero ajudar a minha mae. A minha mae precisa muito da gente. Ela toma conta da minha avo, entao, ela nao pode trabalhar. Eu quero ter um futuro melhor do que o da minha mae (classe popular, 16-18 anos).

Da mesma forma. A minha mae nao teve condicoes de estudar, tanto que ela nao sabe ler nem escrever. A unica que esta cursando nivel superior sou eu. Eu tenho mais que por obrigacao estar melhor do que ela, ate pra ajuda-la tambem. E mais do que obrigacao, por mim e a realizacao profissional e por ela pra ajudar na familia em si (classe popular, 19-21 anos). Eu acho que vou estar melhor. Porque eu acho que pode mudar muita coisa do que era antigamente para agora, mudou muito, a tecnologia esta avancada, muita coisa avancou demais, entao eu acho que pode melhorar sim (classe popular, 22-24 anos).

Vou procurar ser melhor, porque tudo que meu pai nao pode me dar, eu vou querer dar para o meu filho o melhor, para isso eu tento, eu estudo, e o conhecimento que eu ... (classe popular, 22-24 anos).

Eu com certeza vou estar melhor, porque, no caso dos meus pais, no tempo deles, nao deu para terminar o segundo grau, no caso teve filhos, a situacao era mais precaria do que agora, e com certeza eu estou estudando para isso, nao e questao que eu estou parado hoje, eu tenho meu futuro em mente, e com certeza eu vou dar um futuro muito melhor para meu filho (classe popular, 22-24 anos).

Eu vou estar melhor, porque eu estou lutando e vou continuar lutando, porque assim ... minha mae teve eujovem e os sonhos dela ela nao pode [puderam se] realizar, e tambem [ela] nao tinha condicoes na epoca, entao eu quero fazer isso, eu quero poder realizar meus sonhos, ter um futuro bom, ate mesmo para ajudar ela e meu irmao e os proximos, amigos, parentes (classe popular, 22-24 anos).

Eu tambem acho que eu tenho condicoes de chegar na frente da minha mae, em relacao de estudo, condicoes que ela esta me dando que ela nao teve, informacao, cultura, educacao, antigamente as criancas geralmente trabalhavam, hoje em dia voce ve varias pessoas, adolescente, jovens, eu tenho 22 anos e nao trabalho, mesmo assim minha mae me da uma situacao boa ... (classe popular, 22-24 anos).

Entre os jovens de segmentos mais favorecidos tambem ha uma parcela de integrantes que apontam a possibilidade de melhora, porem, ao contrario do que se viu nos grupos focais de jovens de classes menos favorecidas, aqui ouvimos respostas que trazem a possibilidade de se manter no mesmo nivel dos pais ou, entao, algo que em nenhum momento sequer foi aventado nos grupos menos favorecidos: a melhora pode estar relacionada nao a um incremento de renda, mas a possibilidade de se ter mais satisfacao profissional e pessoal do que seus pais.

(...) acho que, contanto que eu esteja feliz, que eu esteja satisfeito comigo mesmo, acho que vai ser bem legal para mim. Embora ele [meu pai] seja empresario, eu acho que tenho minha vida, entao ele e o que e, e eu nao sou o que meu pai e. Eu acho que vou estar numa posicao melhor que ele porque vou fazer uma coisa que quero, nao vou fazer que nem meu pai, por obrigacao (classe media, 16-18 anos).

Eu tambem estou tendo mais oportunidades que meus pais, pretendo estar melhor do que eles hoje, mas se eu estiver igual a eles estarei muito feliz (classe media, 16-18 anos).

Financeiramente eu acho que nao, mas vou fazer uma coisa que gosto. Nao vou ser pobre, mas nao vou ser igual a eles. Estou fazendo Educacao Fisica, e o que eu gosto, mas meus pais sao juiz e engenheiro, dao mais dinheiro, mas nao dao tanta satisfacao (classe media, 16-18 anos).

Eu acho que vou estar melhor, porque eu nao vou estar no Rio de Janeiro, vou estar num lugar que o custo de vida vai ser muito menor. E acho que minha qualidade de vida vai ser muito melhor. Acho que vou estar melhor por causa disso, mas acho que vou estar ganhando menos (classe media, 1921 anos).

Eu almejo estar melhor. Mas se ja tiver igual estou muito feliz (Classe media, 19-21 anos).

Acho que pior nao deve ficar nao. Pode ser igual ou um pouco melhor. Pelas oportunidades que surgem de vez em quando. Mas pior eu acho que nao fica nao (classe media, 22-24).

Igual, um pouquinho melhor. (classe media, 22-24).

Eu vou ser professor, ne?(risos) (classe media, 22-24).

Com relacao aos meus pais, no maximo igual (classe media, 22-24).

Acho que igual ou melhor, se tiver mais sorte. Mas acho que igual (classe media, 22-24).

Eu acho que igual, embora eu ... quero muito que seja melhor, mas acho que ... se pensar friamente vai ficar igual mesmo (classe media, 22-24).

A situacao do pais no futuro

Aqui foram recolhidas as impressoes de algunsjovens sobre o que eles vislumbram para o pais a medio e longo prazos. Desvinculando a sua perspectiva de um futuro melhor daquela vislumbrada para o pais, os jovens do segmento menos favorecido tendem a esperar uma piora na situacao geral nacional.

Eu acho que piora. Nessa questao da politica tambem o que esta acontecendo na Bolivia com o gas. Daqui a pouco isso vai acontecer aqui tambem. A agua tambem vai faltar. Eu nao sei se e daqui a 10 ou 20 anos. Pode estar tambem a mesma coisa, eu posso estar enganado. Pode ficar a mesma coisa. Agora pode piorar em questao disso (classe popular, 16-18 anos).

A gente vai melhorar. Mas o pais nao melhora (classe popular, 16-18 anos).

Tanta gente melhora e o pais continua a mesma coisa ... (classe popular, 16-18 anos).

O Brasil esta em decadencia.

Pra voce o Brasil vai piorar? [pergunta do moderador] [E] como! Porque nao adianta que nao vai entrar uma pessoa honesta. Ela pode ser honesta e querer mudar uma parcela do Brasil ... um pouco. Mas quando comecar o dinheiro a rolar e ver que aquilo ali e so uma chance pra ele, vai querer avacalhar as coisas (classe popular, 19-21 anos).

Pra voce e quase certo que vai piorar? Eu tenho quase certeza (classe popular, 19-21 anos).

Eu acho que sim, a tendencia nao tem muito a melhorar nao (classe popular, 22-24 anos).

A tendencia e so piorar. Com os politicos que estao ai, eles so pensam neles, neles ... Ai nao da (classe popular, 22-24 anos).

Vai piorar. Cada dia que passa esta ... A gente le jornal, a gente ve televisao, ta cada vez pior (classe popular, 22-24 anos).

Antigamente so tinha bandido, hoje tem policia bandido (classe popular, 22-24 anos).

A gente nao sabe quem e quem (classe popular, 22-24 anos). Nao queria que piorasse, mas ... (classe popular, 22-24 anos).

Nesse segmento de jovens, nao sao poucos aqueles que pensam numa melhora apenas quando houver uma mudanca de regime politico no sentido do endurecimento, pois apenas um governo de "pulso firme" poderia alterar essa perspectiva de piora dada por eles como certa para o pais.

O que voce esta dizendo e que o Brasil vai continuar na mesma. E so poderia ter mudanca se tivesse uma mudanca radical ... um governo ditadura, assim ... tipo os militares ... ? Tinham que mudar pro bem, fazer o que e certo. Porque eles estao ali pra fazer. E eles nao fazem (classe popular, 16-18).

E se voce tivesse que dar uma sugestao ... Ele falou num governo mais forte com medidas radicais, foi o que o Alessandro falou. O Robson disse que nao vai mudar nada ... o governo nao tem capacidade de mudar. E voce? Eu concordo com ele (classe popular, 16-18 anos).

Voce concorda com o Alessandro? Tem que ter um pulso mais firme ... (classe popular, 16-18 anos).

Entao tem que mudar, como disse o Alessandro. Tem que vir um governo ... Com certeza. Mais serio, ter voz ativa e nao ir pela cabeca dos outros. E a maioria deles se candidata indo pela cabeca dos outros (classe popular, 16-18 anos).

E pra mudar tambem o que voce pensa? Ter pulso firme, pensar nos outros. E nao so neles (classe popular, 16-18 anos).

Essas mesmas visoes apresentam-se no grupo de jovens medios de baixa insercao.

Tende a piorar (classe popular, 19-21 anos).

Eu acho que e piorar. Nao e o que a gente espera ... Vamos ver o que o nosso presidente vai poder fazer ... Melhor do que a gente esta agora vai ser muito dificil (classe popular, 19-21 anos).

Ha aqui uma visao centrada numa perspectiva individualista. Destacavel e a separacao entre o que pensam sobre a sua situacao individual (para eles diminuir a desigualdade e ter perspectiva de ascensao individual) e a situacao coletiva. Ao final dessa bateria de perguntas o comentario geral no grupo dos mais jovens das classes baixas foi o de que o Brasil era um pais marcado pelo egoismo das pessoas.

Eu acho o brasileiro muito egoista. So pensam neles (classe popular, 16-18 anos).

So pensam em si mesmos. Nao pensa no proximo (classe popular, 16-18 anos).

Mas pensa bem, a gente nao pensa no proximo e o proximo nao pensa na gente mesmo.

E egoismo (classe popular, 16-18 anos).

E o egoismo, mas o Brasil acima de tudo. Mas e aquilo, um por todos e todos por um. Porque se nao for todo mundo numa coisa so, nao acontece (classe popular, 16-18 anos).

Diferentemente dos grupos menos favorecidos os jovens de classe media tem uma perspectiva muito mais otimista em relacao ao Brasil e vinculam esta melhora a propria atuacao deles, coisa bastante distinta do que ocorreu no outro segmento. Houve tambem quem assinalou a atuacao deles proprios para que o pais possa ter uma situacao melhor no futuro.

Nos somos o futuro do pais, se nao fizermos nada vai ficar do jeito que esta ou ate piorar.

Acho que melhor pelos recursos que estao surgindo, descoberta de petroleo e de outros meios naturais. (...) Acho que possivelmente la para frente, se for coordenada pelas pessoas certas vai ter uma melhora (classe media, 16-18 anos). Eu acho que economicamente vai melhorar, como a Jessica falou, depende da nossa geracao, eu me preocupo com isso, se depender de algumas pessoas que conheco da nossa idade, estamos ferrados, mas em nivel geral nao vai melhorar, mas talvez para os juizes e doutores vai melhorar, acho que o pais vai ficar mais rico (classe media, 16-18 anos).

Acho que vai melhorar. Vai sim (classe media, 19-21 anos).

Melhora, melhora (classe media, 19-21 anos).

Vai, vai [melhorar]. (classe media, 19-21 anos).

Vai melhorar (classe media, 19-21 anos).

Foi o que ela falou, acho que economicamente eu tenho esperanca que vai melhorar. Socialmente de repente acompanha. Acho que a gente tem esperanca, ainda tem esperanca (classe media, 19-21 anos).

Eu nao sei se vai ficar pior, mas eu acho que ta melhorando. Se pegar os numeros, por exemplo, em relacao a desemprego acho que diminuiu. Hoje o pobre ja pode andar de aviao, antigamente nao podia (classe media, 22-24 anos).

Isso e verdade (classe media, 22-24 anos).

Eu acho que pode melhorar um pouquinho, nao mais do que isso. Nao vejo como melhorar muito nao (classe media, 22-24 anos).

Eu acho que igual, pode melhorar um pouco, talvez. (classe media, 22-24 anos).

Mas o Brasil nao vai virar Suecia. Pode melhorar um pouquinho ... (classe media, 22-24 anos).

Conclusoes preliminares

Na visao dos jovens de classe popular, as classes sociais sao definidas basicamente pela renda e pela espacialidade, isto e, pelo bairro ou regiao onde as pessoas vivem. Mesmo concordando com esses elementos como definidores de classe social, os jovens da classe media tendem a demonstrar uma perspectiva mais complexa, incluindo outros fatores como definidores de posicao social, tais como o prestigio das ocupacoes, o status e o estilo de vida. A ideia de que os agentes de segmentos menos favorecidos prendem-se a uma logica baseada na funcionalidade e na materialidade se confirma tambem nesse caso (BOURDIEU, 1979; 1976).

Essa diferenca fica ainda mais evidente quando analisamos as respostas sobre quais fatores sao determinantes das posicoes no sistema de estratificacao social. Os jovens de classe popular apontam para o esforco e a educacao como principais fatores, ou seja, apostam nas caracteristicas adquiridas e, portanto, num sistema de estratificacao mais meritocratico. Ja os jovens de classe media mencionaram um conjunto maior de caracteristicas, adscritas e adquiridas, como responsaveis pela insercao dos individuos em uma posicao social mais favoravel. Entre as caracteristicas adscritas eles assinalaram as redes sociais e a origem dos individuos. Desse modo, demonstram uma visao mais critica da realidade social, uma vez que a maior parte dos jovens das classes baixas nao enfatizaram tais caracteristicas como relevantes.

Nesse caso, os dados do survey sobre desigualdades apontaram na mesma direcao (SCALON, 2009). Embora povo e classe media indiquem forte crenca na educacao como via de insercao e ascensao social, os agentes de classes menos favorecidas mostram-se mais confiantes nas caracteristicas adquiridas, como esforco e educacao, do que a classe media, mais cetica em relacao a esse cenario. "O povo se mostrou mais confiante nas recompensas obtidas atraves de qualidades pessoais, talvez uma estrategia de manter a crenca na superacao de sua condicao social" (SCALON, 2009:60). Nao basta apenas pensar que, se o esforco e a educacao sao as unicas vias de acesso a melhores posicoes para os agentes menos favorecidos, entao seriam justificadas essas caracteristicas com muito mais naturalidade nesse grupo do que nos grupos mais favorecidos. Destacavel e a opiniao expressa dessa forma e que ajuda a conformar um estado de resignacao e conformismo em relacao a situacao de desigualdade e grandes assimetrias sociais no pais.

Outro tema que corrobora conclusoes baseadas em estudos anteriores diz respeito a justica das disparidades de salarios entre ocupacoes. Os jovens veem como justas as grandes disparidades de salarios entre ocupacoes, e o que permite a legitimacao dessas desigualdades profundas e a crenca na educacao como principal criterio de estratificacao. Uma vez que as diferencas entre salarios se devem a fatores tidos como meritocraticos, o nivel educacional e o esforco para obte-lo, elas passam a ser interpretadas como justas.

Apesar dessa perspectiva ser tambem aceita por uma parcela significativa dos agentes de classe media, esses jovens da classe media tendem a ter uma visao mais critica, em especial com relacao ao tamanho da desigualdade.

O grande debate na area de desigualdades e, mais especificamente, no que diz respeito as formas de combate as desigualdades esta focado na diferenca entre igualdade de oportunidades e igualdade de recompensas. Influenciados pelo trabalho de Rawls, muitos estudiosos na area de estratificacao e desigualdades passaram a considerar a igualdade de oportunidades como elemento-chave para uma sociedade justa, em oposicao a perspectiva de que todos deveriam receber as mesmas recompensas, ainda que tivessem posicoes ocupacionais diferentes.

Nossa nocao intuitiva e que essa estrutura contem varias posicoes sociais e que homens nascidos em condicoes diferentes tem expectativas de vida diferentes, determinadas, em parte, pelo sistema politico bem como pelas circunstancias economicas e sociais. Assim, as instituicoes da sociedade favorecem certos pontos de partida mais que outros. Essas sao desigualdades especialmente profundas. Nao apenas sao difusas, mas afetam desde o inicio as possibilidades de vida dos seres humanos; contudo, nao podem ser justificadas mediante um apelo as nocoes de merito ou valor. E a essas desigualdades, supostamente inevitaveis na estrutura basica de qualquer sociedade, que os principios de justica social devem ser aplicados em primeiro lugar (RAWLS, 2002:8).

Essa visao aparece, ainda que naturalmente, de modo muito mais simplificado em algumas falas dos jovens participantes das dinamicas:

(...) o pobre quer subir na vida e nao da porque as pessoas nao dao chance, as pessoas tem preconceito (...). Ai nunca depende so dele (classe media 16-19).

Tem que ter oportunidade tambem (classe media 16-19).

Eu acho injusto porque as vezes o gari nao teve tanta oportunidade de ter esse ensino todo e ser um juiz, as vezes ele nao tem culpa, de vez em quando tem porque nao quer nada na vida, mas, assim, tem pessoa que e gari porque nao teve oportunidade e fez o que pode, procurou o que podia (classe media 16-19).

Eu acho que tambem e falta de oportunidade, todo mundo precisa de uma oportunidade na vida para estar seguindo aquilo que ele quer, eu concordo com eles tambem (classe popular 22-24).

Questao de classe social tem gente que tem menos oportunidade, a gente pode estudar em colegio pago que o ensino e bem melhor. Ninguem quer estudar em colegio publico. Se voce tem oportunidade de estudar num bom colegio, colegio pago, voce vai preferir ter uma educacao melhor, fazer cursinhos e tal e ter alguma vantagem. Aquela pessoa que tem mais dificuldade pra voce trabalhar, nao precisa ... nao tem tanta oportunidade quanto voce (classe media 19-21).

De um modo geral, jovens de classe popular e jovens de classe media reconhecem como problema a desigualdade de oportunidades, no entanto, rejeitam as alternativas de igualdade de recompensa para individuos em posicoes ocupacionais distintas. Nesse caso, as disparidades entre salarios seriam injustas porque expressam desigualdades de oportunidades, no entanto, reconhecem que, uma vez em posicoes distintas, os individuos devem receber recompensas distintas. As disparidades de renda seriam injustas quando avaliadas segundo as chances de oportunidade desiguais, porem sao consideradas justas quando observadas como desigualdades de recompensa. Uma das falas exprime uma intuicao bastante proxima daquela defendida pelo filosofo da justica social.

Eu continuo tendo a mesma opiniao: e justo e injusto. Justo, porque a pessoa estudou, batalhou ... logico, evidentemente ela tem que conseguir um emprego, tem que ter um

salario bom. Mas ao mesmo tempo eu acho que deveria ter condicoes [oportunidades] melhores para as classes mais baixas, salarios melhores, condicoes de voce ter uma coisa melhor (classe popular 22-24).

Eu concordo que seja justo, mas as oportunidades sao injustas. Creio que sim ... quem lute, quem tem um esforco a vida inteira, se esforce bastante, estude, estude, estude ... claro! Merece ter um salario muito melhor! (classe popular 22-24).

Em suma: desigualdades de oportunidades sao injustas, mas as desigualdades de recompensa podem ser justas. E possivel concluir que para muitos a igualdade desejada corresponde a igualdade de oportunidades, mantendo-se a inevitavel desigualdade de recompensa.

E importante ressaltar que alguns agentes adotam a perspectiva de que as desigualdades sao funcionais para o capitalismo, uma vez que incrementam a competicao por posicoes sociais mais privilegiadas. Essa e uma visao comum aos utilitaristas e foi apoiada pela teoria do crescimento economico. Tambem os dados do survey ja mencionado revelaram opinioes semelhantes as que aqui foram recolhidas nas dinamicas dos grupos focais. De certo modo, essas opinioes vao ao encontro da ideia de que o esforco e o investimento educacional sao os motores da ascensao social, abastecidos pelas disparidades de recompensas oferecidas pelo mercado capitalista.

A questao sobre cotas apareceu espontaneamente no primeiro grupo focal realizado, desde entao foi introduzida no roteiro da pesquisa. O que fica claro pelas falas dos jovens e que as cotas raciais sao compreendidas como discriminatorias e excludentes, ate mesmo intensificando os preconceitos. Por outro lado, as cotas sociais, ou seja, para pessoas pobres, sao mais bem aceitas; assim como as cotas para pessoas com necessidades especiais. Essas opinioes demonstram que as politicas de cotas estao longe de serem consensuais e livres de debate.

Quando questionados sobre a responsabilizacao em relacao a quais agentes poderiam atuar no sentido de diminuir as assimetrias sociais no Brasil, as respostas obtidas desafiam nossa imaginacao sociologica no sentido de explicalas. Antes de tudo, compreender as razoes que motivaram, por exemplo, os jovens de segmentos menos favorecidos a apresentarem os proprios individuos como os provaveis responsaveis para uma melhora no quadro da colossal desigualdade social brasileira. Ainda que tenha havido falas em que essa responsabilidade tenha sido imputada ao governo e aos politicos, seria interessante verificar em que se fundamenta essa autoimputacao para a resolucao do problema. Pode-se

pensar que, excluidos das teias e redes de interdependencia mais importantes, esses agentes oscilem entre duas alternativas: a salvacao milenarista imputada a um redentor todo-poderoso que viria salva-los, e que nesse caso se personifica na figura do Estado ou de seus agentes mais evidentes como os politicos, ou entao a hipotese de que todos estao entregues a sua propria sorte e assim tudo dependeria apenas deles. O Leviata hobbesiano que anda pari passu com a sentenca popular do "Deus nos salve" por um lado ou entao, por outro, o famoso dito que consagra a renhida competicao capitalista do "cada um por si e Deus por todos". Nesse sentido as justificativas para a desigualdade social imputada as caracteristicas nao adscritas destacadas na primeira parte deste trabalho podem ser lembradas como reforco dessa perspectiva.

Ja em relacao as perspectivas pessoais e nacionais de medio e longo prazos, foi unanime entre os jovens de segmentos menos favorecidos a opiniao de que estarao melhor num futuro de medio a longo prazo em relacao aos seus pais. Quando sabemos que esses jovens tem um volume de capital total bastante precario, qualquer incremento e visto obviamente como uma situacao de melhora. Normalmente, esses jovens apontam para a possibilidade de ascensao via estudos e investimentos no setor escolar.

Ao considerarmos o fato de que o capital cultural e uma das alternativas para se obter posicoes melhores dentro da estrutura social, entende-se que para esses agentes a aposta nos diplomas e nas qualificacoes escolares tende a ser a principal via de acesso a postos que possam dar a eles uma melhor insercao. Nao dispondo de outras vias e percebendo o leque de possibilidades de qualificacoes escolares disponiveis, esses agentes nao poderiam ter senao essa perspectiva unanime de mobilidade e ascensao.

Ja nos segmentos mais favorecidos, apesar de um otimismo reinante, e possivel encontrar um conjunto de falas no qual se vislumbra apenas a manutencao da posicao social dos pais, ou ate um possivel decrescimo de capital (economico, principalmente) compensado pela possibilidade de se atuar numa profissao na qual a realizacao pessoal esteja melhor assegurada. Uma vez atendidas as necessidades materiais fundamentais esses agentes podem "se dar ao luxo" de viver com menos (ainda que nesse calculo provavelmente este menos ainda assegure uma vida confortavel) se tiverem garantidas suas aspiracoes subjetivas de realizacao profissional.

Vale registrar que se de um lado a homeostase do sistema de desigualdade se mantem porque os que estao na base da piramide tem sempre possibilidades de melhorar sua situacao propiciadas fundamentalmente pela formacao escolar (profissionalizante ou nao), por outro, nas posicoes privilegiadas, encontram-se agentes que vislumbram manter-se, no minimo, nessas mesmas posicoes ou em outras em que, se o ganho material nao se mantiver em relacao aos pais, serao compensados pela maior satisfacao pessoal profissional: um ganho imaterial. E esse desequilibrio e essas aspiracoes diferenciadas que asseguram a manutencao de um regime de assimetria no qual os que estao embaixo esperam subir e os que estao melhor situados esperam se manter em suas atuais posicoes. Crencas distintas, resultantes de posicionamentos diferenciados, mas que se complementam e asseguram a reproducao e manutencao de hierarquias vigentes.

Em relacao a perspectiva dos grupos sobre a situacao provavel do pais num futuro a medio e longo prazo podemos verificar uma total discrepancia entre os jovens de classe media e os jovens das classes menos favorecidas. Enquanto no primeiro grupo ha uma visao otimista de que o pais tem grandes possibilidades de melhorar a sua situacao, entre os jovens das classes populares e quase unanime a ideia de que o Brasil vai piorar e ficar numa situacao mais calamitosa do que aquela que eles ja vivenciam. Vale lembrar que a pesquisa foi feita em 2008, ano em que o Brasil apresentava indices de crescimento economico. Se o primeiro grupo apenas repete a visao que vem sendo veiculada por uma serie de analises economicas nas diversas midias, atestada por indices que apontam uma efetiva melhora, no segundo, ouvimos um tipo de narrativa que so pode ser verificado num difuso senso comum pessimista que tende a justificar nossa situacao enquanto nacao destinada ao fracasso.

Nesse aspecto especifico podemos verificar a maior adesao que os agentes jovens das classes populares concedem as narrativas de senso comum. Nao apenas neste, mas tambem em diversos outros aspectos podemos constatar entre esses jovens uma adesao mais irrefletida as prescricoes genericas. Para entender isso, caberia aqui pensar num processo diferenciado de subjetivacao no qual agentes mais bem posicionados tendem a desenvolver uma individualidade critica mais evidenciada do que aquela encontrada nos agentes das classes populares. Podemos lancar mao de hipoteses que buscam explicar os diferentes processos de subjetivacao nas diferentes classes sociais. Segundo essas hipoteses, ha uma logica do social (ou uma sociologica) que distingue os processos de subjetivacao no sentido de que aqueles agentes destinados as posicoes de poder sao estimulados a desenvolverem um senso critico tipico de agentes individuados e, portanto, potencialmente mais afastados das prescricoes genericas tipicas do senso comum (OLIVEIRA, 2004:219-239), ocorrendo exatamente o oposto quando pensamos a subjetivacao dos jovens de segmentos menos favorecidos, tal como as evidencias empiricas deste trabalho nos permitem confirmar.

Como este texto esta sendo revisto para publicacao justamente no momento em que milhares de brasileiros saem as ruas para protestar contra as politicas publicas --ou ausencia destas--nas areas de transporte, educacao, saude e seguranca, bem como, contra a corrupcao, e importante refletir sobre o papel da juventude apos cinco anos da realizacao dos grupos focais. Sabemos que os protestos, que ocorrem em inumeras cidades do pais, foram inicialmente mobilizados por jovens universitarios. Portanto, uma primeira analise poderia supor que eles, tambem, pertencem as classes mais privilegiadas, tendo em vista o vies do ensino superior no Brasil. Essa situacao corrobora com nossas observacoes de que a classe media tende a ser mais critica e articulada em suas demandas. Por outro lado, nao podemos atribuir tamanha movimentacao nas ruas, apenas a adesao de estudantes pertencentes a essa classe. Considerando, inclusive, recentes pesquisas de opiniao que apontam a queda de popularidade da presidente; seria possivel supor que a opiniao expressa pelos jovens das camadas populares de que o Brasil tende a piorar pode estar ainda prevalecendo.

Embora o Brasil, durante e apos o ano de 2008, tenha experimentado momentos de crescimento do PIB--em 2008 (5,10%) e em 2010 (7,5%)--, e importante registrar a retracao vivida em 2009 (-0,60) e a continua queda em 2011 e 2012. E fato que a renda media brasileira registrou melhoras nos ultimos anos, mais fortemente impulsionada pelo aumento dos empregos formais e pela queda geral do desemprego. Contudo, recentemente, assistimos a combinacao de indices economicos desfavoraveis, tais como queda do PIB, aumento da inflacao e do dolar e desequilibrio da balanca comercial e fiscal. Todos esses fatores atingem o preco dos produtos e incidem sobre o consumo, gerando uma percepcao de piora relativa, sempre vinculada ao periodo imediatamente anterior.

De qualquer modo, os indicadores economicos desfavoraveis nao podem ser vistos como principal estopim dessas manifestacoes populares. Fica claro, pelas demandas vocalizadas nas ruas do Brasil, que a populacao deseja politicas publicas universais de qualidade, mais especificamente em educacao, saude e seguranca. E essas demandas vem tanto da classe media, como das classes populares que participam dos protestos. As politicas de transferencia condicional de renda parecem ser insuficientes para promover uma sociedade mais igualitaria. O que se assiste nas ruas hoje sao demandas por politicas e direitos que sao a base de uma sociedade justa. A essas demandas gerais, soma-se a insatisfacao de minorias que assistiram, recentemente, a retrocessos em relacao a direitos conquistados, como os indigenas, as mulheres e os LGBT

A tese de que viviamos em uma sociedade com crescente classe media e igualdade e derrubada pelos gritos nas ruas, que vao, crescentemente, incorporando grupos desprivilegiados. A renda, sozinha, nao muda uma estrutura de classes e, muito menos, constroi pontes que cubram o enorme abismo que existe entre a elite e a classe popular. Um abismo que se expressa em sistemas de ensino, servicos de saude e acesso a direitos extremamente excludente. A falencia de um modelo de geracao de renda, para que as pessoas possam consumir servicos no setor privado, e patente. Os pedidos por politicas publicas e por respeito a direitos fundamentais, que sao a marca de uma sociedade igualitaria, mostraram, claramente, o caminho que a sociedade brasileira quer seguir.

Assim, os resultados desta pesquisa que apontam uma visao pessimista do futuro, pelos jovens de classe popular, e as criticas as desigualdades, pelos jovens de classe media, podem ser mais atuais do que, em principio, nos, autores, supunhamos. Para compreender melhor esses fenomenos, e necessario voltar a campo e realizar uma nova pesquisa empirica com jovens, abordando estas e outras questoes que compoem nossa agenda de estudos sobre desigualdades e justica social.

Recebido em

junho de 2013

Aprovado em

julho de 2013

Referencias

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BOURDIEU, Pierre (1979) La distinction. Paris: Seuil.

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CORNEO, Giacomo & GRUNER, Hans Peter (2000) "Individual preferences for political redistribution". Forthcoming in Journal of Public Economics, 83(1), p. 83-107.

HIRSCHMAN, Albert (1973) "The changing tolerance for income inequality in the course of Economic development (with a Mathematical Appendix by Michael Rothschild)". Quartely Journal of Economics, vol. 87, no. 4, p. 545-562.

OLIVEIRA, Pedro P. (2004) A construcao social da masculinidade. Belo Horizonte: Editora da UFMG.

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SCALON, Celi (2009) Ensaios de estratificacao. Belo Horizonte: Ed. Argumentum.

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SUHRCKE, Marc (2002) "Preferences for inequality: East vs. West". Innocenti working paper no. 89, out. Florence: UNICEF Innocenti Research Centre, p. 01-45.

(1) Os outros paises-alvo da mesma pesquisa foram o Chile, a Russia, a Suecia, Portugal, a Espanha e os Estados Unidos.

(2) O item sugerido para concordancia na questao era: "Ninguem estudaria tantos anos para ser advogado ou medico se nao pensasse que viria a ganhar muito mais dinheiro do que trabalhadores comuns". Os respondentes poderiam optar por: "concordo totalmente", "concordo em parte", "nem concordo nem discordo", "discordo em parte", "discordo totalmente".

Celi Scalon, Professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/Brasil) e pesquisadora visitante na University of California (Los Angeles/Estados Unidos), com apoio da Fundacao CAPES. E-mail: celiscalon@gmail.com.

Pedro Paulo de Oliveira, Professor do Instituto de Filosofia e Ciencias Sociais da Universidade Federal de Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/Brasil). E-mail: ppolivera1933@uol.com.br.
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Author:Scalon, Celi; de Oliveira, Pedro Paulo
Publication:Intersecoes - revista de estudos interdisciplinares
Date:Dec 1, 2012
Words:10696
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