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A pacifica ascensao da China: perspectivas positivas para o futuro?

O bom leitor de Adam Smith em Pequim--bom por aceitar a recomendacao do autor de le-lo por inteiro--nao deixara de ser intelectualmente estimulado e, em muitos casos, surpreendido, durante o itinerario dessa leitura. A comecar pelo intrigante titulo. A meu ver, Adam Smith em Pequim apresenta um duplo e complementar sentido. O primeiro, extraido das paginas de A Riqueza das Nacoes, refere-se a reiterada referencia de Smith a respeito do padrao chines para a maturidade economica como "o progresso natural para a opulencia" ou "o curso natural das coisas", de acordo com suas proprias palavras. Aqui, Smith exalta o virtuosismo do capital investido domesticamente--primeiramente na agricultura e, em seguida, no comercio varejista--como aquele que produz os efeitos mais solidos e duradouros pelas consequencias positivas para o crescimento do salario e da renda nacional. Contrasta o caminho chines com o holandes, o caso "extremo de pais que seguiu o caminho europeu para a maturidade economica .... (percurso) nao natural e retrogrado (p. 57) por assentar-se no grande comercio atacadista que "parece nao ter residencia fixa e pode vagar de um lugar para outro em busca de lugar onde possa comprar barato e vender caro." (p. 59)

Por outro lado, o segundo sentido desse atrativo titulo esta mais identificado a uma certa continuidade daquele padrao virtuoso--depois de mais de um seculo de interregno--e das surpreendentes conquistas que a China vem progressivamente alcancando na economia e na politica mundiais. Seriam, ao mesmo tempo, uma oportuna lembranca e um devido reconhecimento que Arrighi presta a antecipacao smithiana da ascensao chinesa e das vantagens de se utilizar a maior parte do capital primeiramente na agricultura, depois nas manufaturas e, por fim, no comercio exterior. Adicione-se a essa interessantissima referencia a Smith uma segunda, de autoria de Robert Heilbroner, segundo a qual ele "pode bem ser um dos mais amplamente citados e mais raramente lidos de todos os mestres economistas do passado". (p. 42) e a oportunidade que Arrighi mais uma vez aproveita para apresentar tres mitos que circundam o legado de Smith: "1) que ele foi um teorico e defensor da "auto-regulacao" dos mercados; 2) que ele foi um teorico do capitalismo visto como um motor 'incessante' de expansao economica e, 3) que ele foi um teorico e defensor do tipo de divisao do trabalho que ocorria na fabrica de alfinetes descrita no primeiro capitulo da Riqueza das Nacoes" (p. 42). Posteriormente, a desconstrucao desses mitos fundamentara o detalhamento das peculiaridades da economia politica da China e de suas potencialidades.

Apos longa e elaborada argumentacao teorica onde compara e contrapoe de modo similarmente original Smith, Marx e Schumpeter, Arrighi continua a desenvolver o tema que ha bastante tempo vem ocupando suas reflexoes. Ele mesmo contabiliza que o livro na verdade comecou nos anos 1970, embora possa ser lembrado que suas reflexoes mais sistematicas como as desenvolvidas em torno do estatuto teorico e empirico da hegemonia na economia-mundo, nucleo fundamental do presente trabalho ora resenhado, tenham se iniciado no inicio dos anos 1990, apos quase uma decada dedicada a problematica da semiperiferia. A rigor, foi a partir da busca por mais consistencia para o conceito de semiperiferia que ocorreu o presente desdobramento, quer na direcao dos estudos sobre hegemonia -- um dos cimentos politico-ideologicos do sistema mundial--quer na da crescente preocupacao com os estados e as economias do leste asiatico, vistos em um primeiro momento como promissores candidatos a mobilidade ascendente e posteriormente reconhecidos como tendo completado ao menos um movimento progressivo nesse rigido sistema de estratificacao que e a economia-mundo capitalista.

Tomando como ponto de partida os achados de estudos anteriores, notadamente em O Longo Seculo XX e em Caos e Governabilidade no Moderno Sistema Mundo--este em co-autoria com Beverly Silver--ambos traduzidos para o portugues, o autor desenvolve uma longa e detalhada comparacao das tres ultimas decadas do seculo XX e os primeiros anos do XXI, com periodos precedentes de crise de hegemonia, a saber, a crise da hegemonia holandesa, durante o seculo XVIII - compreendendo o longo periodo entre a Guerra da Sucessao Espanhola (1701-14) e a Quarta Guerra Anglo-Holandesa (1780-84)--e a crise da hegemonia inglesa, de 1870 ao inicio dos anos 1930. A partir da analise detalhada do que e peculiar em cada "momento" das hegemonias preteritas e do que se repetiu, com que grau de importancia e com que ordem de abrangencia, Arrighi identifica as peculiaridades da hegemonia americana, iniciada ao final da Segunda Guerra Mundial e, com minucia de detalhe, reporta sua incontrastavel decadencia.

Do mesmo modo que em varios estudos das Relacoes Internacionais, o conceito de hegemonia utilizado por Arrighi provem do conhecido referencial gramsciano, que o edifica a partir da capacidade de um grupo apresentar-se durante um determinado periodo como portador do interesse geral de uma dada sociedade. Ao transpor essa peculiar capacidade de lideranca ao ambiente do sistema interestatal, entretanto, Arrighi desdobra a ascendencia que um estado exerce sobre os demais em duas direcoes designadoras de dois tipos de fenomenos. Por um lado, temos um estado que "em virtude de seu desempenho ... se torna modelo para outros estados imitarem-no e, a partir dai, serem atraidos para sua propria rota de desenvolvimento". Neste caso, estamos falando de lideranca. Por outro lado, hegemonia vai destacar que "o estado dominante lidera o sistema de estados em uma desejada direcao e, ao fazer isso, e amplamente percebido como portador/defensor do interesse geral." (ARRIGHI & SILVER, 1999:27).

No entanto, se atualmente nao se observa qualquer estado assumindo tal posicao e sendo reconhecido no sistema interestatal por essa tarefa, tambem nao se pode identificar o surgimento de radicalizacoes competitivas do tipo de corrida armamentista ou de paz armada, como em outros momentos no passado. Se a concentracao do poder militar em um estado, se os esforcos dos paises centrais para uma certa convergencia e se a unidade do mercado mundial tem evitado aquela rivalidade belicosa de outros tempos, por outro lado essas caracteristicas do momento atual nao permitem excluir de um cenario futuro a crescente expansao de tensoes, como as que podem irromper em caso de uma ampla e profunda depressao economica mundial. De acordo com o autor, portanto, tal contexto esta marcado pelo irrecuperavel declinio da credibilidade previamente desfrutada pelos Estados Unidos como portador/defensor do interesse geral do sistema interestatal. Essa descrenca foi provocada inicialmente pelo fracasso militar no Vietna e reforcada recentemente pelos sucessivos reveses americanos no mundo muculmano, especialmente no Iraque. Alem disso, o processo de liberalizacao multilateral do comercio e de movimento de capitais acabou limitando as acoes do poder americano, especialmente no ambito financeiro. Por fim, "o maior de todos os fracassos do projeto imperial neoconservador: o de impedir que a China se transformasse em um novo centro potencial da economia politica global" (p. 203). Assim, ao reconhecermos a existencia de um estado que concentra um poder militar sem rival e ao admitirmos que esse estado nao carrega mais a bandeira da credibilidade mundial, especialmente pelos sucessivos fracassos politico-militares sofridos nos ultimos quarenta anos, estamos frente a uma situacao que o autor caracteriza como de dominacao sem hegemonia.

Embora nessa moldura internacional a China seja percebida como a grande beneficiaria da cruzada antiterrorista desencadeada pelos Estados Unidos desde os anos 1990, o autor aponta tres propostas que visam conter essa "pacifica ascensao" que caracteriza a provavel caminhada chinesa para o perimetro do centro da economia mundial. Ainda que radicalmente contrastantes, as alternativas neoconservadoras desenvolvidas por Kaplan, Kissinger e Pinkerton sao distantes uma das outras e independentes de apoios partidarios mostrando, com isso, como o tema tem sido controvertido mesmo no seio do pensamento conservador.

Tomando como referencia as tensoes e conflitos surgidos no passado por disputas por hegemonia no sistema interestatal, Kaplan antecipa que a emergencia da China como uma superpotencia e inevitavel e que, consequentemente, conflitos de interesses com os Estados Unidos serao incontornaveis. Para enfrentar com vantagem essa ameaca, os EUA devem buscar: 1) reforcar um equilibrio regional de poder evitando a todo custo aventuras militares na regiao e 2) gerenciar riscos a partir de uma "estrategia bismarckiana de contencao centrada no Comando Americano do Pacifico, conhecido como PACON." (p.285) Aqui, nessa nova Guerra Fria, busca-se inspiracao na bem-sucedida contencao e posterior vitoria sobre a ex-Uniao Sovietica que a construcao de um equilibrio de poder a partir da OTAN ajudou a organizar. Ressalte-se que no caso chines essa contencao limita-se ainda a uma dimensao asiatica.

A proposta de Kissinger e radicalmente diferente por nao pressupor como inevitavel uma confrontacao dos EUA com a China, embora concorde que "o centro de gravidade dos interesses do mundo esta mudando do Atlantico ... para o Pacifico." (p. 289). Partindo do principio de que uma ameaca militar chinesa e inexistente ou, na pior das hipoteses ainda muito distante, Kissinger entende que o interesse americano sera muito mais facilmente alcancado a partir da cooperacao com a China. Ao mesmo tempo, adverte que a China nao e a Alemanha nem a Russia, seja por razoes historicas (o pais existe com autogoverno ha quatro mil anos) seja por motivos politico-ideologicos, como demonstrado pelos ensinamentos de acao estrategica de Sun Tzu ou pelos quatro nao e os quatro sim tao enfaticos do Presidente Hu Jingtao, por exemplo (nao a hegemonia, a forca, a blocos e a corrida armamentista; e sim a construcao da confianca, a reduzir as dificuldades, a desenvolver a cooperacao e a evitar a confrontacao). (p. 292) Nao e por outro motivo que a posicao realista de Kissinger "e extraordinariamente semelhante a doutrina chinesa de heping jueqi (literalmente emergir precipitadamente de modo pacifico)". (p. 291) Problemas com a doutrina chinesa e com a de Kissinger existem nos dois lados. Do lado americano, a existencia de longa e disseminada "sinofobia" vem sendo mais recentemente reforcada pelas tentativas chinesas de adquirir empresas petroliferas nos EUA, o que tem aumentado as apreensoes do eleitorado americano. Do lado chines, existem restricoes de dentro e de fora do Partido quer quanto aos sentidos contidos na ideia de emergir quer quanto as consequencias do que pode ser entendido por de modo pacifico. No primeiro caso, porque pode difundir o sentimento de ameaca e no segundo pelas atitudes agressivas que podem estimular no comportamento do Japao e de Taiwan.

Do mesmo modo que Kissinger, James Pinkerton e um duro critico da estrategia de contencao militar de Kaplan. No entanto, ele e ainda mais critico da proposta 'kissingeriana' de acomodacao. No primeiro caso porque uma coalizao suficientemente ampla para tal enfrentamento com a China--nos moldes da organizada para derrotar as aspiracoes alemas--e hoje totalmente inviavel. Por outro lado, a principal restricao a posicao cooperativa advem das consequencias que o aprofundamento do outsourcing (aquisicao no exterior de pecas para cortar custos), por si mesmo um fator de aproximacao EUA/China, pode provocar na capacidade produtiva americana de material belico. E esse enfraquecimento potencial e inaceitavel aos falcoes de Washington. Em tal contexto, a proposta que Pinkerton apresenta e a de uma estrategia de duas vertentes (two pronged strategy) que estimularia um equilibrio de poder entre as atuais potencias asiaticas (India, China e Japao) e outros tigres que porventura surgirem. Ao inves do enfrentamento direto, os Estados Unidos deveriam colocar um contra os outros. Arrighi encontra uma feliz denominacao latina para essa estrategia de beneficiarse com a luta dos outros: tertius gaudens (o terceiro alegra-se).

Depois de longa critica a cada uma dessas propostas, das quais um destacado argumento e apresentado como "a grande muralha de ignorancia a respeito da China", o autor desenvolve longa e detalhada interpretacao da economia politica chinesa, identificando as origens internas e externas da dinamica de sua ascensao.

Por fim, o autor retorna a algo apresentado logo na introducao e que foi propositalmente deixado de lado ate agora nesta resenha: a questao central de todo o seu trabalho. Afinal, ao iniciar seu percurso investigativo, Arrighi perguntava se a "ascensao chinesa com todas suas inconsistencias e possiveis reviravoltas futuras ... (poderia ser entendida) como mensageira de maior igualdade e respeito mutuo entre europeus e nao europeus ...(ponto que) que Smith antecipou e defendeu 230 anos atras." (p. 379) No final de seu trabalho conclui que a analise indica que sim, porem com importantes ressalvas. Como verdadeira vencedora da guerra americana contra o Terror, a China vem crescentemente avancando sobre a posicao anteriormente ocupada pelos Estados Unidos na Asia de tal modo que a expressao Consenso de Pequim, cunhado por Joshua Cooper Ramo, aponta o exemplo chines para outras nacoes do mundo "nao simplesmente para desenvolverem-se mas para integrarem-se na ordem internacional de modo a permitir que sejam verdadeiramente independentes para protegerem seu modo de vida e (suas) escolhas politicas." (p. 379)

O livro termina advertindo que o caminho chines de modo algum e sem percalcos. Questoes ambientais e redistributivas sao partes muito atuais das tensoes que o rapido crescimento fez aflorar na economia e na sociedade chinesa. Desse modo, se a reorientacao de rumos em andamento

"... conseguir reavivar e consolidar as tradicoes da China de desenvolvimento auto centrado e baseado no mercado, de acumulacao sem desapropriacao, de mobilizacao de recursos humanos ao inves dos nao humanos e de governo atraves da participacao das massas na formulacao de politicas, entao existem chances para que a China esteja em condicoes de contribuir decisivamente para a emergencia de uma comunidade de civilizacoes verdadeiramente respeitadora de diferencas culturais. Mas, se a reorientacao fracassar, a China pode muito bem transformar-se em um novo epicentro de caos social e politico que facilitarao as tentativas do Norte de restabelecer uma dominacao global em desintegracao ou, para parafrasear uma vez mais Schumpeter, que contribuirao para que a humanidade queime-se nos horrores (ou glorias) da escalada de violencia que tem acompanhado a liquidacao da ordem mundial estabelecida pela Guerra Fria." (p. 389)

Recebido em 21 de abril de 2008 Aprovado em 18 de junho de 2008

Referencia bibliografica

ARRIGHI, G. & SILVER, B. (1999). Chaos and Governance in the Modern World System, University of Minnesota Press, Minneapolis.

* ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith in Beijing: Lineages of the Twenty-first Century. London/New York: Verso, 2007, 418 p., ISBN 978-1-84467-104-5.

ANTONIO JOSE ESCOBAR BRUSSI, Professor do Instituto de Ciencia Politica da Universidade de Brasilia--UnB (brussi@rudah.com.br).
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Author:Escobar Brussi, Antonio Jose
Publication:Revista Brasileira de Politica
Date:Jan 1, 2008
Words:2620
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