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A ordem e as forcas profundas na Escola Inglesa de Relacoes Internacionais--em busca de uma possivel francofonia.

The order and the Deep Forces in the English School of International Relations--In the search of some francophonie

Introducao

Este trabalho clama por um debate metodologico que revisite a Escola Inglesa de Relacoes Internacionais, eminentemente uma escola de cunho historico, com enfase para a adocao de tal caracteristica como seu locus stand no cenario interpretativo da disciplina de Relacoes Internacionais.

O debate em torno da Escola Inglesa tem sido animado especialmente por um vies bastante critico em relacao a pretensa falta de coerencia metodologica desta corrente interpretativa e tem mesmo ecoado certa dose de preconceito pela argumentacao fortemente behaviorista de que a constante autovinculacao da escola aos autores classicos do campo e a preferencia pelos metodos mais difusos destes a tornariam um empreendimento pouco promissor.

Isto seria consequencia de uma mutacao no proprio conceito de ciencia gestado durante o decorrer do seculo XIX nas areas de ciencias exatas e que chega ao campo das ciencias humanas e sociais no seculo XX, desenvolvendo-se com maior rapidez aproximadamente no pos Segunda Guerra Mundial. Tal mudanca acabou por gerar um ambiente academico onde as ciencias humanas e sociais compartimentam-se em busca de uma formalizacao crescente de seus corpos teoricos e maior replicabilidade de seus estudos, imitando e adaptando metodos quantitativos utilizados nas ciencias exatas--com ampla utilizacao de metodos estatisticos.

A discussao em torno da coerencia metodologica da Escola Inglesa tem assim, em grande medida, se dado sobre as mesmas bases das criticas dirigidas as ciencias humanas e sociais em geral e as quais estas tem tentado responder com maior ou menor sucesso durante todo o seculo XX e que se perpetuam mesmo apos o movimento pos-modernista e o inicio do presente seculo XXI.

No tocante a disciplina de Relacoes Internacionais, sobretudo em seus desenvolvimentos conectados a Ciencia Politica, este esforco pode ser observado pela incorporacao de metodos quantitativos derivados da economia, como no caso da teoria dos jogos, e por formulacoes teoricas elegantes como o estruturalismo.

E em contraste principalmente com estes desenvolvimentos que Roy Jones (1981) chega a afirmar em seu famoso artigo "The English School of International Relations: A case for closure" que a Escola Inglesa nao seria mais do que um pequeno clube de autoproclamados pertencentes a tradicao que, no entanto, nao partilhariam necessariamente bases ontologicas comuns. Dessa forma, chega Jones a afirmar que a contribuicao desta escola a literatura na area seria cada vez mais esteril--chegando a recomendar o abandono de suas linhas de pesquisa na London School of Economics (LSE), apontada pelo autor como o principal centro de convergencia dos estudiosos desta linha.

Estas criticas tem sido estendidas e periodicamente veiculadas em publicacoes da area. Chegando recentemente Ian Hall (2001), em um artigo intitulado de "Still the English patient? Closures and Inventions in the English School", a criticar abertamente a propria historicidade presente nos trabalhos de varios autores vinculados a tradicao.

O que a grande maioria das criticas, sobremaneira as dirigidas por parte de pesquisadores norte-americanos, a Escola Inglesa tem em comum, no entanto, e um constante erro de foco. A discussao tem sido travada em torno da oposicao entre a vinculacao buscada pela tradicao inglesa a um tipo de producao cientifica mais classica e menos compartimentada face a nova concepcao ideal e absolutamente normativa de ciencia pos-baconiana, que encontrou abrigo em meio a disciplina de Relacoes Internacionais do outro lado do atlantico.

O debate e a critica sao fundamentais ao amadurecimento de ideias e desenvolvimento cientifico lato senso e, portanto, louvaveis quando corretamente empregados. O debate travado a partir de encastelamentos doutrinarios, com base em uma normatividade cientifica, sao, no entanto, infrutiferos.

Dessa forma, neste artigo se pretende inquerir por um debate em torno da Escola Inglesa com foco objetivo no que a mesma constitui, e finalidades as quais se autodetermina, e nao em torno de um dever ser orientado pela opiniao de expoentes vinculados a outras correntes interpretativas.

A Escola Inglesa de Relacoes Internacionais e uma escola de base historica e deve, assim, ser discutida em termos de sua historicidade. Seus metodos, para determinar sua aplicabilidade e efetividade, devem ser comparados e avaliados com vistas a outros metodos que partilham da mesma finalidade--um desenvolvimento em perspectiva historica da disciplina.

Neste sentido, as criticas ontologicas, para uma verdadeira efetividade e mesmo contribuirem para o desenvolvimento da tradicao inglesa, devem provir de disciplinas e escolas historicas. E necessario, no entanto, o previo estabelecimento das bases comparativas para tal empreitada.

Esta constatacao e o que torna extremamente util o objetivo deste trabalho. A saber, o estabelecimento de um mecanismo de interpretacao de uma das dimensoes mais fundamentais das teorizacoes da Escola Inglesa, o lugar e as tendencias da ordem, por meio do arcabouco metodologico desenvolvido por uma consolidada e respeitada escola da Historiografia das Relacoes Internacionais, a tradicao francesa, que tem bases sobretudo nos trabalhos de Pierre Renouvin e Jean-Baptiste Duroselle (1967; 1994; 2002).

Por tras da clara distincao observada na historiografia inglesa de relacoes internacionais entre os conceitos de "sistema internacional" e "sociedade internacional", alicercando tais conceitos tao caros a esta interpretacao historica particular, esta o conceito de ordem.

Seja ela imediata e hierarquica como nos sistemas imperiais ou mesmo anarquica, sem um centro especifico de poder, como no sistema europeu emergente pos-westfalia, a ordem e uma caracteristica necessaria aos sistemas internacionais historicos.

Por tras de uma atitude quase teleologica em favor da tendencia ao ordenamento, que emana da construcao e expansao da sociedade internacional no tempo--desde a obra seminal de Hedley Bull em 1977 (A sociedade anarquica [2002]), passando pelo esforco de Adam Watsom na decada de 1980 (A evolucao da sociedade internacional [1992]), e culminando com as criticas e repaginamento dos anos 90 com Barry Buzan, Richard Little e Charles Jones (The logic of anarchy [1993]) e Buzan e Little (International Systems in World History [2000]) -- existiriam forcas profundas tal qual definidas pela tradicao francesa, materiais e psicosociais, operando tais desdobramentos?

Com base na metodologia da historiografia francesa, com enfase para as obras de Jean-Baptiste Duroselle (Todo imperio perecera [2002]), de Pierre Renouvin (Histoire des Relations Internationales [1994]--com enfase para o capitulo preparado por Rene Girault), e de Duroselle e Renouvin (Introducao a Historia das Relacoes Internacionais [1967]), o trabalho procurara observar se sob a pluralidade caracteristica da escola inglesa pode ser detectado um sistema de causalidades multiplas que operariam em nivel sistemico--propiciando bases de comparacao entre a interpretacao desta escola e a interpretacao da escola francesa.

A distincao fundamental entre Sistema e Sociedade

Antes de adentrar no tema deste trabalho propriamente dito, e frutifero que se definam os termos utilizados na escola inglesa a que se fara referencia no decorrer do artigo, uma vez que a propria definicao dos mesmos traz consigo os fundamentos da escola que serao revisitados sob novo olhar metodologico.

Dessa forma, iniciaremos pelas definicoes de sistema internacional e sociedade internacional, sendo o 'internacional' intercambiavel por 'de estados' neste contexto; passaremos rapidamente pela constituicao pluralista da escola que se funda na propria visao destes termos; para apenas a partir dai discutir o lugar da ordem nesta tradicao e; em seguida lancar uma visao quanto a metodologia da escola francesa.

Por sistema internacional, tal qual definido na obra prima de Martin Wight "A Politica do Poder" (2002) e repetido no trabalho de Hedley Bull "A Sociedade Anaquica" (2002), entende-se um ambiente constituido pela interacao entre unidades soberanas, os estados, que se reconhecem como tal. A definicao de sociedade internacional, tambem abordada em ambas as obras, leva em consideracao os aspectos cooperativos da interacao entre estados e constiui-se em um conjunto de estados, que embora soberanos, partilham certos valores e concordaram em submeter suas acoes a um conjunto de regras e normas de interacao, formando assim uma comunidade.

A Pluralidade da Escola Inglesa

A exemplo da propria disciplina de Relacoes Internacionais, que se fundou menos na oposicao entre os pensamentos idealista e realista e em funcao desta dicotomia--em ambos os lados do Atlantico o fenomeno pode ser tracado, seja a partir da seminal obra "Vinte Anos de Crise" de Edward Carr (2001), apontado como o precursor da tradicao por Tim Dunne (1989), seja a partir da fundamentacao do realismo classico feita em "A Politica entre as Nacoes" de Hans Morgenthau (2002).

A Escola Inglesa se fundamenta em funcao do relacionamento e oposicao de tres tradicoes de pensamento: o realismo, o racionalismo, e o revolucionismo. Influenciado pelo pensamento dicotomico do outsider Carr, Martin Wight, que juntamente com Hebert Butterfield e apontado como um dos pais da escola (DUNNE, 1989), elabora em seu "A Politica do Poder" (2002) o argumento de que o pensamento sobre o campo das relacoes internacionais tem historicamente se manifestado de forma vinculada a uma destas tres tradicoes.

A primeira tradicao se fundaria em Tucidides e, sobretudo, Maquiavel, sendo constituida por um sistema internacional de estados orientado segundo uma logica de calculo estrategico onde imperam as relacoes de poder e o mecanismo de interacao internacional e o balanco de poder.

No caso da segunda, prevaleceria uma orientacao grociana, fundada em uma sociedade internacional de estados, com forte influencia tambem de Pufendorf, onde as relacoes entre estados seriam guiadas por um senso de partilha de certos valores e pelo respeito ao direito internacional estabelecido sobre estes pilares compartilhados.

Por fim, a tradicao revolucionista de uma sociedade mundial integrada nao por estados, como no caso das duas anteriores, mas sim por individuos pertencentes a uma grande comunidade teria bases na civitas maxima do pensamento kantiano.

Com o passar do tempo a Escola Inglesa foi-se concentrando em uma producao de literatura mais vinculada a corrente racionalista do que as demais. E embora Tim Dunne (1989) empreenda consideravel esforco para classificar alguns autores como Bull na tradicao revolucionista e redefinir a teoria internacional em bases normativas, esta e uma posicao bastante controversa.

O pluralismo, no entanto, se mantem vivo e animado, sobretudo, pelo debate iniciado na decada de 1990 entre o que Barry Buzan denominou em seu "From International System to International Society" (1993) de correntes pluralista e solidarista--cujos expoentes seriam, no primeiro caso, Robert Jackson e, no segundo, Nicolas Weelar. A primeira corrente estaria localizada no contato entre as tradicoes realista e racionalista e a segunda seria o extremo racionalismo em contato com a tradicao revolucionista.

E a partir desta concepcao interativa que Barry Buzan e Richard Little, cuja vinculacao poderia ser definida como mais pluralista, respondem ao acido artigo de Ian Hall (2001) citado anteriormente, com seu "The 'English patient' strikes back" (2001), argumentando que e o carater historico da disciplina que lhes permite uma passagem tao fluente entre as correntes pertencentes a estas tradicoes e que a Escola Inglesa seria um dialogo entre as mesmas.

O conceito de ordem na Escola Inglesa

A ordem, de forma geral, tem nesta tradicao uma concepcao bastante particular, chegando a ser mesmo normativa. Por ordem, lato senso, entendese um determinado arranjo, segundo algum criterio especifico, de unidades particulares de certo tipo. Nao e, no entanto, qualquer arranjo, e, portanto, qualquer tipo de ordem, em que esta interessada a Escola Inglesa.

A ordem e adotada enquanto sua concepcao finalistica agostiniana por esta escola. Ordem e uma organizacao com vistas a atingir um objetivo especifico. Dessa forma, segundo Bull (2002) a ordem internacional, ou ordem de estados, e um arranjo particular cujo padrao visa promover uma disposicao das atividades internacionais de forma a que favoreca os objetivos primarios de uma sociedade internacional composta por estes mesmos estados.

Os objetivos fundamentais de tal sociedade seriam, primeiramente, a preservacao do proprio sistema de estados que garante a sobrevivencia de todos e de cada um de seus membros em particular; depois, a manutencao da soberania externa de cada Estado-membro, pois, esta assegura o funcionamento do proprio sistema em si; passariam pela manutencao da paz, nao tanto pelo seu valor normativo, mas em funcao de suas caracteristicas de estabilizacao sistemica e reducao do risco; e culminariam na criacao de regras e normas que regulassem o funcionamento desta sociedade de estados de forma a limitar o escopo para a utilizacao da violencia dentro do sistema.

Mais recentemente, a ordem emerge dentro esta tradicao, alternativamente, descaracterizada de seu conteudo normativo, mantendo, porem, seu conteudo finalistico e instrumental. Sob a reformulacao de Buzan, Little, e Charles Jones em The logic of Anarchy (1993), a ordem e vista como potencialmente um fruto possivel da interrelacao de estados auto-interessados com agenda voltada para assuntos de seguranca, dentro de um modelo neo-estruturalista.

Esta formulacao ve a ordem como resultado de uma "capacidade de interacao" dos estados, a partir de um comportamento derivado de uma logica adaptativa da anarquia diferente da logica usual de anarquia do pensamento do realismo-estruturalismo waltiziano (WALTZ, 1979). O que implica que a ordem pode ser atingida nao apenas por meio do estabelecimento de uma sociedade de estados que partilhem certos valores e que promovam um arranjo para a perpetuacao de um sistema que garanta tais valores, mas tambem em um ambiente de self-help na ausencia de qualquer compartilhamento de valores, uma vez que da propria logica da anarquia poderia emergir uma sociedade internacional que estabelecesse determinadas regras de conduta com interesse exclusivamente na perpetuacao das suas unidades componentes.

O lugar da ordem na Escola Inglesa

A ordem emerge desta tradicao, quer seja em sua concepcao normativa defendida por Bull (2002), quer em seu repaginamento neo-estruturalista de Buzan e Little (1993), como uma tendencia do sistema internacional. Um conjunto de estados soberanos em interacao tenderia, quer racionalmente quer axiologicamente, a preferir um sistema fundado em um ordenamento finalistico que promova ao menos o objetivo de perpetuacao do proprio sistema.

A ordem tal qual estabelecida pela Escola Inglesa resolve o classico problema hobbesiano do estado de natureza que caracterizaria o cenario internacional, que carece de um poder hegemonico como no nivel domestico. Devemos a esta tradicao, e mais especificamente a Bull cujo subtitulo de sua principal obra e "Um estudo da ordem na Politica Mundial" (A Sociedade Anarquica, 2002), a didatica diferenciacao, tantas vezes repetida posteriormente pelos teoricos do campo, entre caos e anarquia.

Sendo o caos um estado de ausencia de ordem por sua propria definicao e a anarquia caracterizada apenas pela ausencia de uma autoridade hegemonica que vincularia todas a unidades pertencentes a um determinado sistema, a anarquia nao pressupoe a existencia de caos. A anarquia pode se conciliar com a ordem atraves do compartilhamento de valores que edificam uma sociedade internacional imbuida de objetivos especificos, e, portanto, ordenada--deriva dai o nome da obra de Bull.

Adam Watson em seu A Evolucao da Sociedade Internacional (1992), que analisa de forma comparada os sistemas historicos de estados, e, portanto, a materializacao propria da ordem no cenario internacional em suas particularidades historicas, nao constroi uma concepcao diversa do termo da que tem Bull.

Watson (1992), com a sua explanacao quase teleologica acerca do pendulo que movimentaria a historica de forma ciclica entre dois arranjos sistemicos extremos, apenas enfatiza que por "ordem" entende um padrao de relacionamento cuja finalidade principal e a manutencao da paz. Assim, a paz e uma caracteristica definidora da ordem--que e sempre restrita ou pelas acoes de uma comunidade internacional estabelecida, ou de forma autocratica, e ate opressiva, pelos governantes, a depender em que fase do pendulo se encontre o sistema.

A comunidade internacional estaria presente na fase extrema do pendulo denominada de "independencias multiplas", onde a ordem e flexibilizada em favor de regras de conduta auto-impostas, em que o sistema e composto por uma determinada quantidade de estados independentes e soberanos cujas relacoes sao horizontais, voluntarias, e que culminam na formacao de aliancas, pois, nao podem operar sozinhos no sistema internacional.

No campo oposto, o extremo do pendulo onde a ordem e mais estavel fundase no uso da coercao por parte de um estado mais forte para subjugar estados mais fracos e traze-los para dentro de seu aparato administrativo domestico, eliminando o ambiente internacional. Este estagio e denominado de "dominio" e e caracterizado pela prevalencia dos imperios e pelas relacoes verticais de suserania. Seja qual for a fase do pendulo, a ordem e mais do que uma meta passivel de realizacao, e sempre uma tendencia dos sistemas--variando apenas seu grau de efetividade e vinculacao.

Buzan e Little, continuando a pesquisa iniciada em "The logic of anarchy" (1993) juntamente com Jones, publicam em 2000 "International Systems in World History" no qual, retomando a diversidade de logicas que emanam da anarquia, avancam o programa de Watson de estudo comparado dos sistemas de estados na historia, atraves de sua metodologia mais neo-estruturalista, realizando uma viagem por 60.000 anos de historia humana.

Neste estudo, os autores empreendem uma ampla categorizacao dos tipos de sistemas de estados na historia, que embora nao nos interessem diretamente aqui, levaram os autores a conclusoes importantes para o desenvolvimento deste trabalho. Buzan e Little rejeitam cabalmente os pressupostos do realismo estrutural de Waltz ao afirmarem que as mudancas no sistema internacional sao sempre estruturais e nao provem das unidades.

Os autores nao utilizam meias palavras tambem para mencionar o que Watson deixa apenas antever de forma implicita, o sistema internacional mais funcional e sempre o hierarquico e nao o anarquico. Por funcional, claro, entendese a concepcao finalistica de um sistema--a ordem. As fontes de explicacao para os desdobramentos internacionais, e para o ordenamento, passam, dessa forma, pela propria inter-relacao entre os estados, no que descreveram previamente em "The logic of anarchy" como "capacidade de interacao", pelo processo mesmo de relacionamento, e pela estrutura do sistema.

A tradicao francesa

A Escola Francesa de Relacoes Internacionais, ao contrario de sua contraparte do outro lado do Canal da Mancha, nao enfrentou maiores obstaculos para a sua consolidacao e institucionalizacao. Isto se deveu em parte a forca das disciplinas historicas no seio da comunidade academica francesa, em parte ao rapido florescimento de uma arquitetura interpretativa propria da corrente historiografica dedicada as relacoes internacionais neste pais.

A tradicao francesa com muita propriedade avancou a pesquisa historica na disciplina para muito alem dos limites da historia diplomatica praticada ate entao, desenvolvendo uma nova ontologia historica de dimensao eminentemente societaria aplicavel a vida internacional.

A consolidacao desta tradicao atraves do que Pierre Renouvin e Jean-Baptiste Duroselle estabelecem como objetivo em "Introducao a Historia das Relacoes Internacionais" (1967), a procura por identificar regularidades e extrair dos dados disponiveis, oriundos de pesquisa empirica, as conclusoes teoricas ao inves de inserir os dados coletados em modelos conceituais analiticos previos, aproxima esta tradicao do modelo de trabalho estabelecido por Martin Wight em sua busca de regularidades e padroes de pensamento em relacoes internacionais.

Esta postura torna a Escola Francesa tambem bastante desconfiada, a exemplo da tradicao inglesa, dos modelos estaticos de analise dos fenomenos internacionais; da elegancia e pretensa seguranca de explicacoes universalistas; e do que Duroselle chama de "fetiche do matematismo" em seu "Todo Imperio Perecera" (publicado no Brasil em 2000).

Neste sentido, a aproximacao entre as escolas salta imediatamente aos olhos e parece nos fornecer uma base para interoperabilidade entre os anseios das mesmas. Nos cabe, entao, avancar a especulacao sobre se estas atitudes e estes posicionamentos similares face ao fenomeno internacional se refletirao em uma possibilidade de interoperabilidade entre os conceitos destas mesmas escolas.

A saber, mais especificamente a factibilidade do objetivo deste trabalho, a analise da concepcao inglesa de ordem e seu lugar nos sistemas historicos de estados, nos moldes do arcabouco interpretativo desenvolvido pela tradicao francesa. Para tanto, empreenderei uma breve discussao da metodologia francesa e dos componentes de seus sistemas de causalidade e finalidade, para a partir dai revisitar o lugar da ordem no sistema internacional utilizando um discursso a la francaise.

Metodologia francesa

A tradicao francesa, ao rejeitar as explicacoes universalistas, desenvolveu o conceito de "multicausalidade" (Duroselle, Renouvion, 1967; Duroselle, 2000), que diferentemente do significado de causalidade observado na ciencia politica apos a revolucao behaviorista anteriormente aludida, implica na constituicao de um vetor aberto de causas, ou influencias, que nao exaurem necessariamente as explicacoes para desencadeamento de determinado fenomeno--atuando sempre como influencias com pesos variados em cada situacao especifica.

Esta multicausalidade sempre condicional e especifica a cada situacao, carecendo, portanto, de analise empirica sempre que se procura determinar um vetor de causas, decorre da ausencia de uma teoria programatica das relacoes internacionais nesta escola. Teoria, enquanto conteudo produto da reflexao orientada, se confunde com a propria metodologia da escola.

A explicacao e sempre particular de um determinado fenomeno, desenvolvida atraves do emprego de um arcabouco de variaveis definidas como potencialmente explicativas dos fenomenos internacionais. A validade de cada variavel e, no entanto, contingente a cada fenomeno especifico--o que gera um vetor de causalidade em cada situacao particular, mas que no avolumar-se dos estudos do continuum historico pode fazer vislumbrar regularidades e padroes dos acontecimentos. Fomentando assim, a construcao de uma teoria baseada na historia e nao o contrario, uma interpretacao da historia com determinada perspectiva teorica.

A tradicao francesa concebe estas variaveis potencialmente componentes deste vetor de causalidade como pertencentes a um "sistema de causalidade" (Duroselle, Renouvion, 1967; Duroselle, 2000). Por seu conteudo historico, cada uma destas variaveis e chamada de uma "Forca Profunda", atuando como um bruit du fonde continuamente no tempo historico. O sistema de causalidade e composto, portanto, das forcas profundas.

Estas forcas profundas atuariam sobre a acao do estado, constrangendo-lhes e limitando-lhes dentro de determinadas direcoes. Mais propriamente, Duroselle e Renouvin afirmam que estas forcas atuam sobre o que chamam de "homem de estado" (Id. Ibid). O "homem de estado" e um tipo ideal, caracterizado por um determinado temperamento e peculiaridades, que tem por atribuicao definir os objetivos a serem atingidos por determinado estado--utilizando-se para tanto de determinados mecanismos de decisao.

Para nosso objetivo especifico neste trabalho, nao consideraremos a unidade decisoria do modelo frances exposto. Para nos, no momento, nao interessa a constituicao interna do estado e as caracteristicas de seu governante. A decisao pode ser fruto de uma inteligencia humana ou produto de um output automatico de um estado monolitico, isto nao influenciara a analise.

Cabe apenas mencionar que estes objetivos especificos, independentemente da forma como forem definidos, consistem em um vetor de objetivos ou "sistema de finalidade" (Id. Ibid), que nada mais e do que a representacao racional de objetivos estabelecidos de forma transitiva.

O sistema de finalidade e composto de duas dimensoes, uma que se refere ao processo de calculo estrategico, englobando todas as suas variaveis desde a definicao de fins/objetivos, a avaliacao de riscos e a definicao dos meios para atingir os fins estabelecidos; e uma referente a politica externa, que se refere a acao pratica do homem de estado, sendo definida por suas diretrizes particulares.

As forcas profundas

As "forcas profundas" atuam sobre os componentes das relacoes internacionais, os homens de estado, doravante considerados como estados monoliticos. Estes estados possuem determinados objetivos presentes em seu sistema de finalidades, objetivos os quais nao nos importa o mecanismo pelo qual foram estabelecidos. Esta interacao entre os estados, o sistema de causalidade e o sistema de finalidade, produz os movimentos da vida internacional--caracterizado por suas ondas criativas; por relacoes pacificas ou conflituosas, e, finalmente, pela guerra (DUROSELLE, 2000).

Estas "forcas profundas" sao de diversos tipos e Renouvin as enumera na primeira parte da obra "Introducao a Historia das Relacoes Internacionais" (1967) como: geograficas; demograficas; economicas; da mentalidade coletiva; e correntes sentimentais. Sendo a primeira composta por atributos de posicao e espaco que orientam a alocacao dos agregados humanos. No segundo caso, discorre-se sobre o papel dos surtos demograficos e movimentos migratorios como constrangimentos do ambiente internacional.

Quanto as forcas economicas, estas sao divididas entre materiais e financeiras e entre conflitivivas e cooperativas. No tocante a mentalidade coletiva, destaca-se o papel constitutivo de sentimento nacional. E, finalmente, dentre as correntes sentimentais Renouvin da enfase aos movimentos nacionalistas e aos pacifistas. A unica caracteristica comum a todas as forcas e o seu carater perene enquanto causa historica potencial do desencadeamento de fenomenos e sua regularidade observavel no tempo.

Em busca de uma francofonia

Como pode ser vocalizado o fundamental conceito de ordem presente, e digo mesmo onipresente, na Escola Inglesa, seja em sua vertente mais classica e agostiniana tal qual a define Bull (2002), seja em seu repaginamento pluralista neo-estruturalista (BUZAN, JONES, LITTLE, 1993; BUZAN, LITTLE, 2000), segundo a tradicao interpretativa francesa? Qual seria o lugar da ordem neste sistema dual da metodologia historiografica francofona?

Para fornecer uma resposta a ambas as questoes a que nos colocamos, afirmo que temos de partir da intima relacao que estas perguntas possuem sob a perspectiva inglesa. Sob esta perspectiva interpretativa, diferentemente da compartimentacao entre causalidade e finalidade observada no pensamento frances metodologicamente mais rigoroso, o que coloca os componentes de cada um destes sistemas e lugares especificos do modelo, o proprio conceito de ordem tal qual estabelecido na Escola Inglesa evoca ambas as dimensoes de causa e fim.

Dessa forma a simples definicao de ordem sob os auspicios do modelo frances, mantida a carga de significancia atribuida ao termo pela Escola Inglesa, implica automaticamente na determinacao de seu lugar especifico no modelo.

O que caracteriza o conceito de ordem em qualquer de suas formulacoes por sob as diretrizes da tradicao inglesa, e o seu conteudo finalistico. A ordem e uma organizacao com vistas a um conjunto de objetivos especificos. O principal objetivo e a manutencao sistema internacional, garantindo, assim, a sobrevivencia de suas partes constituintes, sendo este o unico objetivo factivel na concepcao de Buzan e Little.

No entanto, a estrutura especifica para a promocao deste objetivo de perpetuacao do sistema internacional e a propria ordem, em sua conformacao particular em cada periodo historico representado pelo sistema de estados historico que lhe for contemporaneo. O que implica que a ordem, enquanto um arranjo determinado, passa a ser o proprio objetivo primordial de uma sociedade de estados. E neste sentido que tenho afirmado anteriormente que a ordem e eminentemente um atributo teleologico enquanto tendencia na Escola Inglesa.

Apresentada a critica de maneira bastante intuitiva, vejamos como podemos supera-la por meio da metodologia da historiografia francesa. Empreendamos uma separacao artificial e meramente didatica da ordem enquanto fim e da ordem enquanto meio no seio da Escola Inglesa. Se pensarmos na ordem enquanto fim e interpretarmos a sua busca e consecucao como uma decisao consciente do estado, ou do homem de estado, a ordem como arranjo especifico estaria claramente dentro do sistema de finalidade do modelo frances.

O fim ultimo e a sobrevivencia do proprio estado enquanto tal, o que coloca em plena sintonia a transitividade axiologica atribuida aos estados, ou aos homens de estado, tanto na formulacao inglesa quanto na formulacao francesa. E a sobrevivencia do estado se faz, como afirmado anteriormente, atraves da preservacao do sistema internacional, que representa em cada tempo um ordenamento especifico. A ordem-fim e, dessa forma, produto do calculo estrategico do estado, ou do homem de estado. Interpretacao esta que se assemelharia bastante com as elaboracoes de Buzan e Little apresentadas anteriormente ao tratarem das diversas logicas da anarquia, sem, no entanto, ferir os pressupostos das formulacoes mais classicas da Escola Inglesa.

Se pensarmos na ordem enquanto meio para a consecucao desta finalidade especifica de garantir a sobrevivencia do estado, ou seja, na ordem-meio como uma politica especifica ativamente buscada pelo estado, ou homem de estado, devido a seus valores particulares, podemos concebe-la como a diretriz de politica exterior escolhida por este componente do sistema.

Conclusao

Estas elaboracoes nao traem o espirito da ordem na Escola Inglesa e tem a vantagem de solucionar o recorrente problema teleologico do lugar da ordem enquanto tendencia nesta tradicao. Sob esta arquitetura, e possivel manter a ordem-fim como caracteristica de uma sociedade de estados, que compartilhem valores alem da simples manutencao dos mesmos enquanto unidades de um sistema de multiplas independencias; ao mesmo tempo em que se concilia a ordem-fim com o espectro de dominio do pendulo de Watson (1992), tendendo ao imperio e as relacoes suseranas onde a ordem e sinonimo de paz.

Ao mesmo tempo preserva-se a ordem-meio como uma diretiva determinada de politica externa que nao mais se confunde com seu fim. Podendo a ordem-meio constitui-se quer no estabelecimento e respeito a regras e normas de uma sociedade internacional na primeira fase do pendulo, quer no estabelecimento de dominio das demais unidades na fase de imperio.

A vantagem desta formulacao e que a Escola Inglesa escapa assim tambem de outras criticas advindas do campo da historia acerca de sua predilecao pelo discurso politico como explicacao. A francofonia inglesa permite que se expanda a agenda de investigacao da tradicao inglesa de maneira bem estruturada, utilizando a agenda investigativa do sistema de causalidade para teste das forcas profundas atuando em favor e contra a ordem-fim em cada um dos sistemas de estado historico, que constituem-se um arranjo ordenado particular e, portanto, sao manifestacoes historicas das apresentacoes da ordem-meio.

O desenvolvimento de linhas de pesquisa que incorporem este dialogo entre a Escola Inglesa e a tradicao francesa continental, empreendendo estudos, de forma comparada entre os sistemas historicos de estados, dos efeitos da ampla gama de forcas profundas sobre a ordem-fim, ajudaria a Escola Inglesa a entender melhor e de forma mais sistematica a constelacao de fenomenos que contribuem para o ordenamento.

Os estados, ou homens de estado, a depender da definicao da unidade de analise, em interacao uns com os outros em um ambiente internacional constrangido por um sistema de causalidade do tipo das forcas profundas, produziriam em sua interrelacao, na qual todos buscam a consecucao de ao menos um objetivo comum, a ordem-fim estabelecida no sistema de finalidade, os movimentos e as ondas da historia.

Estes movimentos se materializariam, em cada momento historico particular constrangido por seu proprio vetor de forcas profundas, em tres tipos de relacoes entre estados--pacificas; conflituosas; ou belicas, esta representando a falha ultima na consecucao da ordem. A logica nos sugere que poderiamos encontrar os sistemas historicos de estados entre as duas primeiras relacoes, com a primeira prevalecendo no caso de independencias multiplas e a segunda no espectro imperial de dominacao coercitiva. Cabe, no entanto, a pesquisa empirica determinar os sistemas de causalidade operando em favor de cada um destes arranjos especificos da ordem.

Recebido em 9 de outubro de 2007 Aprovado em 30 de abril de 2008

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CARLOS HENRIQUE CANESIN, Mestrando em Relacoes Internacionais pela Universidade de Brasilia--UnB (canesin@unb.br). Carlos Henrique Canesin
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Author:Henrique Canesin, Carlos
Publication:Revista Brasileira de Politica
Date:Jan 1, 2008
Words:5920
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