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A mephistophelic museum: the museumization of black magic in the first ethnographic safeguarding in Brazil/Um museu mefistofelico: museologizacao da magia negra no primeiro tombamento etnografico no Brasil.

ANTROPOLOGIA DO OLHAR (1)

Pensar e um ato que poe em duvida a estrutura de tudo.

O Diabo Pensativo.

Dante Milano.

Este estudo e resultado do exercicio de uma modalidade de pesquisa baseada na antropologia dos olhares sobre a Colecao-Museu de Magia Negra do Rio de Janeiro; no qual relativizamos as diferentes concepcoes acerca dos diversos estatutos museologicos imputados a esse acervo. Com esse intuito operamos procedimentos interpretativos apoiados na pratica antropologica apresentada por Claude Levi-Strauss (1986) na obra O olhar distanciado. O antropologo frances resumiu, em entrevista concedida em 1998, seu empreendimento metodologico:
   O olhar distanciado caracteriza o olhar antropologico. A expressao
   'olhar distanciado' e de Hami, que foi um grande ator dramatico
   japones. Ele dizia que, para ser um bom ator, era preciso olhar
   para si mesmo, o tempo todo, com os olhos afastados do espectador.
   O olhar distanciado pode ser aprendido atraves de treinamento, mas
   tambem e algo que se pode possuir desde o nascimento, uma especie
   de caracteristica da personalidade de cada um. (2)


Atraves desse metodo de observacao e descricao dos diferentes olhares e concepcoes sobre os estatutos museologicos da Colecao de Magia Negra do Museu da Policia Civil, tombada pelo Iphan em 1938, investigamos o significado cultural desse acervo heteroclito que compoe o panteao do patrimonio cultural brasileiro contemporaneo.

Sao diversos olhares que pretenderam enquadrar na historia o significado dessa colecao museologica, classificada e inscrita como o primeiro patrimonio etnografico do pais. Assim, colocamos sob as coordenadas de um quadro sinotico o olhar da Policia Civil do antigo Distrito Federal e do Judiciario; o olhar dos agentes de patrimonializacao, da Academia Sphan; o olhar dos poetas e literatos modernistas; o olhar dos detetives e peritos da Policia Civil e por fim o olhar dos antropologos que a pesquisaram a partir de meados da decada de 1970. A confluencia relativizadora desses olhares demonstrou que o enquadramento exclusivo em apenas um desses olhares, reduz o alcance cultural e patrimonial desse acervo cultural heterodoxo. A ultima tentativa de estabelecer seu estatuto museologico como acervo afro-brasileiro parece restringir seu prisma sociocultural, pela falta de contextualizacao no imaginario social modernista, em formacao naquelas primeiras decadas do seculo XX no Brasil.

O ensaio critico que resultou de duas pesquisas de pos-doutorado (CORREA, 2006; 2010) sobre a colecao-museu em foco propoe nova hipotese original. Apos o encontro com a biografia fascinante do poeta carioca Dante Milano, primeiro diretor do Museu da Policia Civil do Rio de Janeiro, entendemos que esse acervo se encontrava, na verdade, entre processos culturais muito mais complexos e que era preciso alargar nossa compreensao sobre o significado cultural dessa singular colecao museologica.

Todavia, antes de seguir na apresentacao da hipotese que conduziu a reflexao e a construcao do ensaio referido, do qual este artigo e uma breve introducao condensada, gostariamos de convidar o leitor a conhecer os dados e as coordenadas que o ajudarao a se localizar no tempo e no espaco, para, a partir de metaponto de vista, formular autonomamente novo olhar sobre a colecao museologica estudada.

MUSEU DA POLICIA CIVIL DO RIO DE JANEIRO

Observando o mapa de localizacao topografica do Centro da Cidade do Rio de Janeiro, o Museu da Policia Civil encontra-se na regiao entre o Largo da Carioca, a Catedral Catolica e a Praca da Republica. Esta estabelecido, mais exatamente, ao lado da sede oficial da Policia Central. (3) Atualmente essa regiao passa por processo de gentrification e valorizacao imobiliaria intensa, que promete o revigoramento e a revitalizacao da area urbana sem precedentes. Todavia, a referencia a esse acervo nao se encontra presente em nenhum material de divulgacao turistica da "cidade maravilhosa"; nem mesmo contamos com algum city tour mais alternativo incluindo visita a essa colecao de magia negra ou ao proprio Museu da Policia Civil. (4)

O Instituto do Patrimonio Historico e Artistico Nacional (Iphan/MinC) tem relacao historica extremamente ambivalente com esse acervo. O cidadao que pretenda encontrar a direcao e o acesso a esse equipamento cultural tera muita dificuldade. Alem do mais, a propria Policia Civil mantem ha alguns anos parte do acervo da "magia negra" em "reserva tecnica" e nao ha noticia de abertura integral ao publico. No momento o predio esta em processo de reforma, apos as intensas chuvas de abril de 2010 e os abalos de uma obra da Petrobras realizada no entorno do predio, que danificou suas estruturas. Diante de todas essas adversidades, pode-se imaginar as dificuldades de ter acesso ao conjunto de pecas e objetos, mesmo para pesquisadores credenciados, impossibilitados de obter acesso livre a esse bem cultural tombado, a nao ser por fotografias dispersas em diferentes publicacoes. As possiveis hipoteses para esse comportamento adverso, que em muitos aspectos parecem constituir verdadeiro tabu institucionalizado, serao apresentadas no decorrer deste texto. Antes e preciso algumas palavras sobre a historia do Museu da Policia Civil.

Observando fotos ilustrativas do exuberante palacio, vemos destacar-se o estilo ecletico frances em pleno auge do triunfante positivismo republicano. Reflete, com sua arquitetura simulada da Belle Epoque francesa, as pretensoes modernizadoras e improvisadas no pais recem-introduzido no rol das republicas ocidentais. Nesse cenario de promessas racionalizadoras e cientificistas, esse edificio acabou por tornar-se o local em que aconteceram os fatos mais atrozes da historia moderna brasileira. Nesse predio funcionou em plena ditadura militar dos anos 64-85 o antigo Departamento de Ordem Politica e Social (Dops). A memoria que ali ainda esta parcialmente encoberta aglutina e preserva agonias que aguardam a revelacao oportuna de seus segredos; trabalho que tem sido levado a cabo pela Comissao da Verdade. (5)

Entretanto, aguardamos o tempo em que se podera observar a colecaomuseu sem estar sujeitos as admoestacoes das autoridades, tanto policiais como patrimoniais. Muito poderia ser dito sobre os comportamentos idiossincraticos que diferentes personalidades tem expressado em relacao a esse complexo sociocultural patrimonializado no final da decada de 1930. Porem, temos que ser economicos neste texto e nos limitarmos a seguir aqui na apresentacao das particularidades desse interessante complexo museologico.

MUSEOLOGIZACAO DO CRIME

Nas salas do predio, em que hoje se preserva de um modo improvisado e amador a memoria de periodos ditatoriais recentes na historia brasileira, funcionou a Academia de Policia. Nesse edificio eram ministradas as aulas do Prof. Elisio de Carvalho, em 1912. Sob a batuta do mestre criminalista foram realizadas sessoes didaticas de policia cientifica para as novas turmas de policiais do Distrito Federal. Como novo equipamento que serviria de suporte pedagogico para a Academia recem-fundada, foi proposta a criacao de um Museu do Crime; utilizado desde entao como suporte museologico e cenografico para a preservacao improvisada de cenas de crimes, delitos etc., alem de deposito das acoes de apreensao judicial e pericia.

O Museu da Policia foi lugar de guarda e apreensao, coleta e reserva dos materiais e objetos recolhidos em 'batidas' policiais, investigacoes e acoes judiciais na capital do pais. Apos o decreto de 1934, editado pelo Gabinete de Seguranca Publica, definiram-se as competencias das quatro delegacias auxiliares relacionadas diretamente com aquisicao do acervo que integraria o futuro Museu da Policia. Pela natureza de suas atribuicoes, sao objeto de nosso interesse aqui, uma vez que parte consideravel do acervo, hoje pertencente ao Museu da Policia, origina-se de suas atuacoes. Assim, cabia a Primeira Delegacia Auxiliar, entre 1934 e 1945:

I--Processar a cartomancia, mistificacoes, magias, exercicio ilegal da medicina e todos os crimes contra a Saude Publica;

II--Ter sob sua vigilancia o meretricio, providenciando contra ele, sem prejuizo do processo judicial competente, da forma que julgar mais conveniente ao bem da populacao e da moralidade publica;

III--Reprimir e processar o proxenetismo e o caftismo;

IV--Fiscalizar as delegacias distritais do 1 ao 10 distrito policial, providenciando para que nelas o servico se faca com toda responsabilidade.

Todo esse conjunto de acoes policiais contribuiu para a criacao de um acervo repleto de curiosidades, mas que infelizmente sofreu durante longo tempo, pela forca do abandono, desgaste comprometedor em muitos aspectos, deixado em lamentavel estado de indiferenca e negligencia.

CENOGRAFIA DO MUSEU DA POLICIA NA DECADA DE 1970

Gostariamos de destacar dessa cronologia historica um periodo importante pelo qual passou a referida colecao museologica, na decada de 1970, quando o Museu da Policia ticou instalado temporariamente na Rua Frei Caneca. Observamos que a cenografia produzida no espaco oferecido para o funcionamento provisorio do Museu ofereceu elementos notaveis para interpretacao. Foi relatado, em documento de pesquisa elaborado pela equipe do convenio Funarte/ CNDA, (6) o assombro em relacao ao ambiente. Chegou-se a afirmar que a miseen-scene escolhida, montada por um detetive de formacao umbandista, configurava uma atmosfera "surrealista", num cenario que oscilava entre o naif, o kitsch e o trash.

Nesse periodo a colecao possuia acervo mais amplo e diversificado. Mas em 1989 sofreu lamentavel incendio, que foi avassalador, ocasiao em que mais de 40 pecas sucumbiram e arderam sob o poder do fogo. Pecas e objetos tombados desapareceram, e outras pecas e objetos incorporados a posteriori tambem se perderam. Entre as pecas desaparecidas destaca-se o Exu Sete Capas, figura impressionante que tinha grande destaque no meio do salao central do Museu improvisado. (7)

Como se ve, o conjunto do acervo museologico estudado compoe-se de um complexo reunindo as seguintes colecoes: de Armas Brancas; de Toxicologia; de Jogos de Azar; de Objetos de Magia; e do Museu da Magia Negra. No ensaio que resultou desse trabalho de investigacao, apresentamos as particularidades de cada uma dessas colecoes. No momento, cabe considerar que esse complexo cultural e museologico, para ser compreendido plenamente, exige esforco de contextualizacao que deve ser executado com sensibilidade alargada.

ARTE & CIENCIA MODERNA: PROCESSO DE "DISTABUZACAO"

E necessario nos aproximar um pouco mais do ponto central da argumentacao. Apresentada a localizacao e as caracteristicas do acervo, devemos avancar na introducao dos referenciais teoricos que propiciaram desenhar as coordenadas dos diferentes olhares sobre esse acervo. Para tal analise nos debrucamos sobre um novo mapa historico-cultural, no qual foram cartografadas as posicoes de atravessamento semiologico da Colecao Museologica da Magia. Assim temos:

Literatura & Poesia

Nesse ponto cardeal procuramos descrever as linhas principais do modernismo literario do imaginario social brasileiro, tendo como pano de fundo mais amplo o modernismo como fenomeno civilizacional ocidental, da maneira como Marshall Berman (1986) tratou na obra Tudo que e solido desmancha no ar. Outro texto importante que guiou este trabalho com o tito de atingir as profundezas de uma sociologia do imaginario modernista, foi o livro A experiencia etnografica de James Clifford (1998).

Com base nesses textos interpretativos de ampla abordagem interdisciplinar podemos estabelecer um olhar metaetnologico e metassociologico que superasse os impasses de um reducionismo etnicista que limitava o significado cultural dessa colecao ao modismo "etnico" dominante na atualidade. Esse modismo do elogio desenfreado e sintomatico da "diferenca etnica" acabou tornando-se um obstaculo epistemologico importante, que mereceu longo esforco de superacao. A ideologia "etnicista" tornou-se um vies dificil de contornar, pois a colecao de "magia negra" em foco enquadrava-se facilmente nas ideias dominantes nessa area. Mas, com o auxilio desses textos relativizadores, conseguimos desenvolver interpretacao mais alargada do significado cultural de acervo cultural. Alem do signo de pecas e objetos considerados e classificados como afro-brasileiros, catolicos, cristaos, europeus, indigenas, etc., compreendemos que o conjunto museologico ao qual dedicavamos atencao era atravessado por linhas do imaginario que jamais poderiam se restritas e reduzidas a um suporte etnico exclusivo. Tratava-se entao de procurar atingir as camadas mais profundas nos seus lastros subjacentes, que confirmassem a importancia desse legado e dessa heranca cultural, para alem do nicho etnologico a que eventualmente se via condenada a ser estigmatizada e negligenciada. A recuperacao dos vinculos mais profundos e inconscientes dessas linhas do imaginario modernista foi fundamental para o avanco da reflexao. E nesse sentido que resplandece o achado antropologico mais importante, produzido por este trabalho, na verdade nossa contribuicao original para essa pesquisa, ao trazer para os estudos sobre a patrimonializacao da "magia", uma nova abordagem. Referimo-nos especiflcamente a analise da obra poetica de Dante Milano. A descoberta dessa personagem heretica e heterodoxa, como a propria colecao, abriu a porta para os meandros mais ocultos, revelando os significados encobertos pela leitura rapida e apressada, feita ate entao pelos especialistas. Decidimos, a partir de entao, fazer uma arqueologia do imaginario literario desse poeta carioca, afinal de contas o primeiro diretor do Museu da Policia Civil do Rio de Janeiro e, mais importante ainda, o autor dos oficios de encaminhamento do processo de tombamento da Colecao-Museu de Magia Negra pelo antigo Sphan, em 1938.

O trabalho arqueologico realizado acabou por fazer emergir dois literatos de importancia universal. Dante Milano foi tradutor das obras de Dante Alighieri e de Charles Baudelaire. Na consulta da obra do poeta carioca, considerado um dos cinco maiores poetas modernistas brasileiros--infelizmente ainda pouco conhecido --encontramos um legado literario de importancia capital para a interpretacao antropologica da colecao aqui estudada. Aspectos desse trabalho interpretativo sao mais aprofundados em textos publicados em periodicos especializados (Correa, 2012; 2013).

Magia na Arte Moderna

O trabalho de arqueologia do imaginario modernista avancou em outras direcoes complementares. Apos visitar a obra classica A divina comedia, e em seguida revisitar o poeta simbolista de As flores do mal, nos aproximamos do dadaismo, do surrealismo e do cubismo. Citamos ainda, mais particularmente, Jean Arthur Rimbaud (1854-1891), Une saisson en enfer; Tristan Tzara (1896-1963); Andre Breton (1896-1966) nos seus manifestos de 1923 e 1924; e, Pablo Picasso, especialmente no designado 'periodo africano'.

Ciencias Sociais e a questao do metodo: Gilberto Freyre

Mas era preciso ir mais alem. Foi quando, ao voltar nosso olhar para o modernismo brasileiro, encontramos outra fonte segura. Tratava-se de Gilberto Freyre. Com suas proprias palavras, entregamos ao leitor a justa medida de sua importancia para o trabalho semiologico aqui empreendido. Como ele mesmo afirmou, seu metodo de trabalho consistia no que designou "metodologia unitaria", isto e, a:

sintese ou combinacao de metodos semelhantes a que vem empregando Mestre Pablo Picasso em artes plasticas (...) fusao dos metodos analitico e organico de interpretacao do homem, para dessa fusao resultar uma imagem quanto possivel completa do humano. Pois parece que essa imagem (...) so se obtem tendo em vista, no estado do homem, o que nesse homem e considerado 'primitivo', junto com a sua denominada 'civilizacao'. Assim se caminharia para uma metodologia unitaria, na Antropologia ou nos estudos sociais de base antropologica, que transbordasse em reinterpretacoes artisticas e filosoficas do homem (FREYRE, 1963, p.61).

As artes e as ciencias modernas avancaram nesse trabalho de "distabuzacao" que culminou em profundas conquistas, resultando em obras-primas de valor universal. Todo esse processo sofreu resistencias reativas que se expressaram no nazismo e fascismo. Porem, apos a Segunda Grande Guerra, com o processo acelerado de descolonizacao da Africa, ocorreu novo impulso que coincide com a independencia de diversos paises locais das metropoles europeias.

OLHAR POETICO: O MODERNISTA MARGINAL

No entanto, o trabalho de contextualizacao historico-cultural nao foi suficiente, foi preciso atingir os tracos mais profundos da singularizacao na analise do modernismo brasileiro. Assim, nossa pesquisa chega ao climax quando se abre para a vida e obra de Dante Milano: o 'modernista marginal' em funcao das caracteristicas de sua producao literaria, expressas no seu "antilirismo sinistro, fantasmagorico e visionario". Como ja comentado, D. Milano foi o primeiro diretor do Museu da Policia Civil do Distrito Federal, entre 1945 e 1956. Mas, alem disso, juntos dos amigos desde a decada de 1920, participou de um movimento fecundo de renovacao da arte moderna brasileira. Ele e seus amigos da boemia na Lapa carioca--tais como Villa-Lobos, Ribeiro Couto, Candido Portinari, Jaime Ovalle e Manuel Bandeira--revolucionaram e atualizaram o 'relogio' cultural do pais.

Nesse sentido de perscrutacao de uma obra literaria e poetica de valor extraordinario, arriscamos aplicar a hipotese de trabalho apresentada por Hermano Vianna (1995), no seu estudo Misterio do samba. Trata-se da hipotese da "distabuzacao": processo que ele identificou no samba e que aqui nos empregamos no contexto da magia. E verdade que essa intuicao teorica nasceu da fonte de Gilberto Freyre, como o proprio Vianna confessa em sua obra. Destarte, o que nos faz lancar mao dessa chave interpretativa tambem e sugerido por influencias de outras fontes, como a filosofia. E quando resplandece as seguintes orientacoes interpretativas: "O mal nao e cosmico ou ontologico, e historico e contingente" (RICOEUR, 1950, p.30). E: "O mal nao e criado por nos nem pelos outros, nasce do tecido que fiamos entre nos" (MERLEAU-PONTY, 1981). Como se ve, essas referencias nos oferecem uma ampliacao do alcance interpretativo, ultrapassando reducionismos etnicistas hoje tao glorificados, nos lancando numa analise simbolica mais generosa e universalista, pois invoca a dimensao mitologica e o inconsciente social literario e modernista (CORREA, 2009).

OLHAR MEFISTOFELICO: TEATRO DO BEM E DO MAL

E desse escopo amplificado de possibilidades interpretativas que a analise avancou. Tomando como ponto de partida o imaginario literario brasileiro do inicio do seculo XX, nos deparamos com um poema "libertino" impressionante, que sinaliza para a forca da feiticaria, da magia e da bruxaria no imaginario estetico moderno: Macumba do pai Zuse: Na Macumba do Encantado/Nego velho paide-santo fez mandinga./No Palacete de Botafogo,/Sangue de branca virou agua./ Foram ver: estava morta. (BANDEIRA, 1930). Nesse trajeto, continuamos o trabalho de escavacao das linhas de forca do imaginario modernista, ja que sua pertinencia se comprova nos registros indicados.

Visao do Paraiso & do Inferno

Como escreveu Sergio Buarque de Holanda (2000, p. XVII): "Uma das missoes do historiador consiste em procurar afugentar do presente os demonios da Historia". Nesse caminho aberto por interpretes desbravadores, encontramos Michel de Certeau, recuperando substratos culturais importantes. Como sabemos, esse autor:

nao hesitou em apontar o seculo XVI e os primeiros sessenta anos do seculo XVII como os periodos mais satanicos da Europa Crista. Foi nesse contexto, envolta em uma densa aura de satanismo, que a Cristandade europeia aportou em solo americano, pronta a detectar e combater rastros da malignidade diabolica para alem do Atlantico singrado (CHAIN, 2003, p.85)

Dessarte, esse trabalho arqueologico foi revelando camadas mais recentes, mais proximas de nossa modernidade, estendendo a forca de uma estrutura antropologica que se alastra pela historia e chega ate a virada de nosso seculo, forte e pulsante.

As Artes Magicas

A dialetica do bem e do mal ja produziu imagens literarias e mitologicas importantes, desde o Livro de Jo, da Biblia Sagrada. Porem, nessa linha de descortinar as trilhas modernas outra fonte importantissima brilha no horizonte da literatura universal, apresentando-se como chave interpretativa de grande forca heuristica, constituindo ferramenta semiologica poderosa. Trata-se da obra maxima da civilizacao ocidental, Fausto, de Goethe (1952). (8) A saga dessa personagem extraordinaria sintetiza de modo penetrante o cerne dos conflitos existenciais basicos do drama psicologico e fllosoflco e estrutural do "admiravel novo mundo" cultural burgues. As "estruturas antropologicas" fundamentais que sustentam a modernidade ali se encontram desenhadas de maneira contundente. E assim que, de posse desse arsenal teorico, pudemos compreender de modo satisfatorio, os signos que se revelaram a partir de nossa pesquisa em culturanalise.

Encenacao do Diabolico e do Satanico

Convem salientar que a referencia ao signo de "mefistofeles", nao e um recurso interpretativo acrobatico. O signo de "mefisto" aparece na lista de inventario enviada para o antigo Sphan, solicitada por Rodrigo de Mello Franco de Andrade. No item numero 2, encontramos descrito: "Estatueta de Mefistofeles (Eixu) entidade maxima da linha de malei". (9) Infelizmente essa estatueta foi definitivamente perdida no incendio de 1989. Contudo, curiosamente, anos mais tarde, vai ser incorporada a colecao outra figura em que se reafirma a presenca dessa personagem 'transcultural'. Vejamos a descricao feita na ficha identificatoria do famigerado Exu das Sete Capas, que passou a compor a cenografia do museu:
   Esta representacao de Exu e tipica influencia do cristianismo no
   culto Afro-Brasileiro. Todavia, ha um sentido obliquo de
   interpretacao: enquanto para o cristianismo representa
   'satanas'--indesejavel, expulso do paraiso, no culto
   Afro-brasileiro como Exu, uma especie de embaixador dos homens
   junto aos orixas (deuses).


Entendemos que esses dados empiricos sao suficientes para convencer os ceticos, confirmando que temos nesse conjunto museologico excelente oportunidade de realizar uma verdadeira antropologia profunda do imaginario social do periodo modernista brasileiro.

RETORNO DO ENCOBERTO: "DES-ETNOGRAFIZACAO" DA ALTERIDADE

As licoes mais importantes de nossa antropologia do olhar podem ser delineadas pelo seguinte trajeto semiologico: acao interpretativa sobre o proprio pesquisador; a pesquisa iniciou-se com uma hipotese etnicista abandonada no decorrer da investigacao; o olhar distanciado sobre si mesmo; critica as concepcoes e doutrinas "etnistas" contemporaneas; critica ao vies pejorativo do conceito de "patrimonio etnografico" na sociedade brasileira; religar-se a missao cientifica original da antropologia: uma aventura pela "desetnografizacao" ironica; recolocando em foco a diversidade cultural. Todavia, essa aventura antropologica nao se ultrapassa ileso. Como exemplo, chama atencao o alcance inusitado que tem a critica ao etnismo contemporaneo, expresso no desabafo de Antoine Vitez (apud PAVIS, 2003, p.258):
   Nao gosto que me digam que nao posso entender nada dos outros, nem
   os outros de mim. Tenho horror desta moda que faz as diferencas
   irredutiveis. Entao nao compreendo nada das mulheres por que sou
   homem, dos africanos por que sou europeu? Ao pe da letra, isso me
   enlouquece. Se devesse pensar nisso, nao poderia mais viver.


Uma das consequencias mais imediatas desse processo de reflexao e a impressao de que e preciso "desestabilizar a propria nocao antropologica de cultura"

Ao assumir uma atitude 'ironica' frente as formas de representacao etnografica, o efeito de sua reflexao e desestabilizar a propria nocao antropologica de cultura, tal como esta se configurou ao longo do seculo XX. Em especial aquelas concepcoes em que a 'cultura' aparece como uma totalidade integrada no espaco e continua no tempo, dotada de uma 'identidade' e de fronteiras muito bem definidas, fundada em 'raizes' e portadora de 'autenticidade' (CLIFFORD, 1998, p.11).

Entretanto, para seguirmos na analise da colecao, objeto de nossa atencao, faz-se necessario introduzir ainda mais um nivel de relativizacao; patamar mais profundo da escavacao arqueologica empreendida.

E Possivel Pensar Isso, a Magia?

No Prefacio da famosa obra As palavras e as coisas, Michel Foucault (1992, p.5) defende a ideia de que:
   no deslumbramento da taxionomia [chinesa], o que de subito
   atingimos --o que, gracas ao apologo, nos e indicado como o encanto
   exotico de um outro pensamento--e o limite do nosso: a
   impossibilidade patente de pensar isso. Que coisa, pois, e
   impossivel pensar, e de que impossibilidade se trata?


E possivel pensar a magia? Como ficamos diante dessa possivel impossibilidade? Pode haver um "possivel espaco de encontro"? Na antropologia do olhar exercitada neste texto--muito embora atraido pela ironia dessas interrogacoes vai-se na direcao de um tangivel "espaco de encontro", do modo como defendia Merleau-Ponty. Para esse filosofo, ao contrario de Foucault, a antropologia leva, sim, a "um alargamento da racionalidade porque desemboca numa ontologia" (MERLEAU-PONTY, 1984, p.200).

A Crenca na Magia

Porem, ao crer na possibilidade de trabalhar na regiao dos signos e de exercitar uma verdadeira semiologia, nao superamos facilmente todos os obstaculos, num so lance de dados do pensamento. Tivemos tambem que enfrentar outro obstaculo epistemologico, representados nestas frases lapidares, que sintetizam como em capsulas nosso dilema sociologico basico: "Nos dependemos do feitico" (RIO, 1904). "A religiao do Diabo sempre existiu entre nos" (Rio, 1951). "O feitico e uma realidade brasileira. O Brasil vive impregnado de magia" (RAMOS, 1934 [2001]). "O feitico nao seria sobrevivencia do arcaismo na sociedade brasileira. Esta no centro mesmo da sua maneira de pensar contemporanea" (MAGGIE, 1992).

Logo, diante de algo tao familiar, a magia, o trabalho de distanciamento e de desnaturalizacao exigiu sempre, como se pode deduzir, um rigor interpretativo de maxima envergadura; atingiu o pesquisador tal exigencia? Cabe a critica responder.

O entrelacamento dos dominios do poder e da magia no Brasil e muito forte, como podemos observar em analises diferentes e sutis; como as destacadas acima. Uma interpretacao mais recente, porem, iluminou de modo contundente nosso estudo. Num artigo de Norman Gall (2005) vemos o sociologo estadunidense utilizar o signo de "meflstofeles" para compreender a mais recente desgraca etica do governo central brasileiro, afundado em denuncias de fraudes no famigerado episodio conhecido como mensalao (10): reflexao util para esmiucar mais um capitulo sobre a natureza demoniaca do poder.

ESTATUTO MUSEOLOGICO DA COLECAO DE MAGIA NEGRA

Chegando ao flm de nossa aventura, podemos entao apresentar nossa proposta alternativa as concepcoes reducionistas comumente defendidas para a colecao de magia tombada pelo patrimonio cultural brasileiro. Nosso argumento se apoia em diferentes autores e e herdeiro de influencias recentes que buscam integrar uma epistemologia complexa do olhar. Acreditamos que essa colecao, fruto de muitas improvisacoes e malentendidos--constituindo-se em certos aspectos verdadeiros 'atos falhos' da acao cultural--, pode ser entendida como integrante do mesmo processo sociocultural pelo qual passaram manifestacoes artisticas e culturais brasileiras, tais como o samba, o bumba-meu-boi, o tambor de crioula, o jongo, etc (11).

Performances Culturais

Do mesmo modo que essas expressoes, a magia vem passando por um processo de "distabuzacao", na direcao de uma "antropofagia" estetizadora e espetaculizadora agenciada por uma nova onda de "turistificacao" recente, (12) isto e, por apropriacoes simbolicas redutoras de seu valor simbolico e que devoram e canibalizam seu significado original, transformando-a em mais uma mercadoria de facil consumo pelas classes medias urbanas.

Gilberto Freyre fala de 'uma especie de cura psicanalitica' de todo pais; Gilberto Amado fala em 'distabuzacao'. Todas essas expressoes tendem a ressaltar o carater subito, descontinuo, de descoberta e valorizacao daquilo que seria 'verdadeiramente' brasileiro, daquilo que antes estava 'tapado' pelo Brasil postico (VIANNA, 1995, p. 31).

As manifestacoes culturais e artisticas que antes eram proibidas e reprimidas, hoje estao entronizadas como identidade cultural oficial dos estados e regioes do pais. Passaram por processos de esvaziamento de conflitos, de resistencias culturais e enfrentamentos latentes, para uma manifestacao apaziguadora, teatral, de entretenimento espetacularizado e turistificado.

No dialogo intenso com essas novas mutacoes no espaco das representacoes sociais sobre o folclore, os patrimonios culturais e as memorias sociais, o presente estudo propoe um novo olhar sobre a Colecao de Magia Negra: um novo estatuto museologico. Todavia, essa proposta enfrenta variada resistencia. O que pode surgir da "hibridizacao antropofagica" que se processa atualmente, ainda e cedo para afirmar, mas e certo que o impacto mais virulento desse processo de "canibalizacao" cultural e a acao de "sanitarizacao" do campo religioso brasileiro, operado pela magia institucionalizada crista neopentecostal (Mariano, 1996). A Igreja Universal do Reino de Deus (lurd) e seus neofitos tem promovido acao persecutoria contra as manifestacoes magico-religiosas afro-brasileiras que afetam diretamente essa colecao de magia, tombada pelo Iphan. Ha mais de dez anos a colecao nao esta exposta integralmente ao publico e se ve ainda encoberta sob o manto do obscurantismo "satanizador", que ainda "diaboliza" esse acervo. (13)

A partir da analise semiologica dos diferentes olhares sobre essa colecao museologica, arriscamo-nos a apresentar uma hipotese alternativa e terapeutica. Consideramos que esse acervo merece ser defendido a partir da pluralidade e da polifonia cultural que o marcam de modo significativo. E uma colecao em que encontramos o entrelacamento de multiplos olhares sobre a questao da magia, da bruxaria e da feiticaria na moderna sociedade brasileira--especialmente nas suas relacoes com o Estado; apresentando metamorfoses curiosas, indicando mutacoes no sentido da formacao de uma elaborada e sofisticada "magia de Estado" (TAUSSIG, 1997; 2010): a magia a brasileira!

Apos esse denso trabalho de investigacao, parece-nos que a colecao museologica em questao coloca em cena a categoria do "mal" na sociedade brasileira, isto e, trata-se provavelmente do primeiro "museu do mal" que dialoga com a museologia do crime, da policia, das armas, etc: museu do "mal a brasileira". (14) Dessa forma, ampliamos o campo semantico numa interpretacao mais abrangente, atingindo, atraves da antropologia, um vasto espaco de configuracao de seu significado politico-cultural. Realcando essas possibilidades interpretativas, pretendemos colocar tambem em questao o tema fascinante da museologia na sociedade brasileira contemporanea.

Nesses ultimos anos temos publicado variados artigos e textos a respeito desse conjunto museologico, analisando tambem aspectos relacionados a figura literaria e poetica de Dante Milano. Trabalhos que podem ser consultados para testar a pertinencia dessas sugestoes e hipoteses interpretativas (correa, 2009-2013). Mas, ainda seguindo na direcao critica apontada, e abalando o conservadorismo (15) dominante e persistente no espaco do patrimonio cultural e da museologia em nosso pais e na America Latina (canclini, 2003), utilizamos a obra de outro grande poeta brasileiro para concluir nosso trabalho provocativo.

Museu de Tudo

Como consideramos urgente fazer uma profunda reflexao sobre metafora "museu" na cultura e na sociedade brasileira--imbuidos dessa inquietante heterodoxia --utilizarmos um poema de Joao Cabral de Melo Neto, Museu de tudo, no qual o vate brasileiro condensa de modo muito especial o esforco investigativo apresentado aqui de modo mais prosaico. Assim, se tudo pode ser museologizado --num mundo que cultua cada vez mais a velocidade das mudancas, numa transformacao alucinante e devoradora--quando o museu de tudo "e deposito do que ai esta", indagamos: por que nao poderia existir um "museu mefistofelico"? (16)

O poema Museu de tudo nos indica um novo caminho, talvez mais fecundo --sem contudo deixar de ser ironico--para a futura reflexao sobre a gestao politica do teatro das memorias e do patrimonio cultural em nossa sociedade: "Este museu de tudo e museu/como qualquer outro reunido;/como museu, tanto pode ser/caixao de lixo ou arquivo./Assim, nao chega ao vertebrado/que deve entranhar qualquer livro:/e deposito do que ai esta,/se fez sem risca ou risco" (MELO NETO, 1976).

DOI: 10.12957/tecap.2014.16234

Alexandre Fernandes Correa (UFRJ)

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NOTAS

(1) Primeira versao deste texto apresentado na 26a. Reuniao Brasileira de Antropo logia (RBA), 01 e 04 de junho de 2008, Porto Seguro/BA, Brasil. Mesa redonda 5--Antropologia dos Objetos, Museus e Cidades Patrimoniais. Uma segunda versao serviu de base para nossa participacao como professor/pesquisador convidado no Curso Livre de Folclore e Cultura Popular/CNFCP-2010.

(2) Entrevista a Beatriz-Perrone Moises em Paris, 1998. Folha de S. Paulo, domingo, 27 de junho de 1999, Caderno Mais!, p.7.

(3) Rua da Relacao n. 42 (continuacao da Av. Republica do Chile, na direcao da Rua Henrique Valadares).

(4) Observamos um grande potencial turistico reservado a este equipamento cul tural, numa epoca que se da cada vez importancia a questao da violencia, na sociedade brasileira. Hoje o Museu da Policia Civil esta hospedado na sede original da 1a a 4a Delegacia da Policia Civil do Distrito Federal (1912). Predio Tombado. Nos anos da Ditadura Militar de 1960-70, foi sede do tenebroso DOPS; hospeda tambem parte dos arquivos da instituicao policial.

(5) A Comissao Nacional da Verdade (CNV) foi criada pela lei 12528/2011 e institu ida em 16 de maio de 2012. A CNV tem por finalidade apurar graves violacoes de direitos humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Em dezembro de 2013, o mandato da CNV foi prorrogado ate dezembro de 2014 pela medida provisoria n. 632.

(6) Convenio entre a Fundacao Nacional da Arte e Conselho Nacional de Direitos Autorais.

(7) Figura tao famosa no campo religioso umbandista, que muitos devotos se diri giam ao museu para oferecer oferendas e reverencias a estatua museologizada pela instituicao policial.

(8) Fausto, no Prologo: "Do Ceu, atraves do mundo, ate o inferno" (GOETHE, 1952).

(9) Analogia ingenua entre Mefistofeles e Exu Sete Capas, expressa na ficha iden tificatoria. Peca museologica perdida em incendio ocorrido na Academia de Policia em 1989.

(10) "A essencia da antiga lenda de Fausto consiste no fato de ele ter perdido a nocao de seus limites. Cada perda desse tipo e paga com um preco proprio. Conta a historia que Fausto era um mago e charlatao que negociou com o Diabo para ganhar poderes sobre-humanos pelo prazo de 24 anos, periodo apos o qual Mefistofeles, um dos sete principes do Inferno, vem reivindicar a alma de Fausto para a condenacao eterna. A lenda evoluiu ao longo dos ultimos cinco seculos, em livros de historias populares, espetaculos de marionetes, dramas tragicos, poemas, operas, sinfonias, romances modernos e filmes" (GALL, 2005).

(11) Acervo Missao de Pesquisas Folcloricas, 1938. http://www.centrocultural.sp.gov.br/missao_p.htm

(12) A Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo) nos anos 70 e 80 implementou acoes de "turistificacao" com repercussoes ate hoje no cenario cultural brasileiro.

(13) Posicao defendida pela antropologa Yvonne Maggie em recente texto publicado no Blog Raiz Africana, intitulado Arsenal da macumba: "(...) e possivel especular que o sumico da colecao do Museu da Policia tenha algo a ver com a forca crescente das religioes evangelicas no Rio de Janeiro, inimigas mortais da feiticaria, que tem crentes em todas as esferas da sociedade, ate na policial". Texto Disponivel: http://raizafricana.wordpress.com/2009/12/16/o-arsenal-da-macumba-por-yvonne-maggie/ Acesso: 7 de maio de 2010.

(14) Parodia do titulo do livro organizado por Patricia Birman (1997), O mal a brasileira.

(15) Precisamente porque o patrimonio cultural se apresenta alheio aos debates sobre a modernidade ele constitui o recurso menos suspeito para garantir a cumplicidade social. Esse conjunto de bens e praticas tradicionais que nos identificam como nacao ou como povo e apreciado como um dom, algo que recebemos do passado com tal prestigio simbolico que nao cabe discuti-lo. As unicas operacoes possiveis--preserva-lo, restaura-lo difundi-lo--sao a base mais secreta da simulacao social que nos mantem juntos. Frente a magnificencia de uma piramide maia ou inca, de palacios coloniais, ceramicas indigenas de tres seculos atras ou a obra de um pintor nacional reconhecido internacionalmente, nao ocorre a quase ninguem pensar nas contradicoes sociais que expressam. A perenidade desses bens leva a imaginar que seu valor e inquestionavel e torna-os fontes de consenso coletivo, para alem das divisoes de classe, etnias e grupos que cindem a sociedade e diferenciam os modos de apropriar-se do patrimonio. Por isso mesmo, o patrimonio e o lugar onde melhor sobrevive hoje a ideologia dos setores oligarquicos, quer dizer, o tradicionalismo substancialista (canclini, 2003, p. 160).

(16) Provocacao que se inspira na recorrente, significativa e recalcitrante caracteristica de nossa sociedade, que, se me for permitida a liberdade de uma pequena ironia, e campea das improvisacoes socioculturais.

Alexandre Fernandes Correa e docente associado IV de sociologia/antropologia da UFRJ Campus Macae, com doutorado em ciencias sociais: antropologia (PUC/ SP) e pos-doutorados em antropologia (UFRJ-2006 e UERJ-2010).

Recebido em: 22/03/2014

Aceito em: 05/04/2014
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Correa, Alexandre Fernandes
Publication:Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares
Article Type:Ensayo
Date:May 1, 2014
Words:6191
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