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A memoria do tempo de cativeiro no Maranhao.

Memory of the slavery era in Maranhao

La memorie du temps de la servitude au Maranhao
A memoria do tempo
de cativeiro no Maranhao

   "Cantor, tu larga essa mania
   De querer surrar os cantador
   Que a pessoa maluca
   Que tinha no Maranhao
   Era Ana Jansen
   Ela ja morreu
   No tempo da escravidao

   A alma dela hoje vive arrependida
   Implorando a salvacao
   Os anjos la no ceu
   Todos se reuniram
   Lamentaram a situacao
   Que para ela nao tem perdao."

   Joao Chiador
   Boi da Maioba

   "A mulher do padeiro
   Trabalhava noite e dia
   De noite pisava uma carga de arroz
   E de dia fazia renda."

   Cantiga recolhida com Raimunda Pio
   Fazendinha/Santa Quiteria


A escravidao africana teve no Maranhao alguns aspectos singulares. Ate 1750 o numero de africanos escravizados foi insignificante. A Companhia Geral do Comercio do Grao-Para e Maranhao obteve o monopolio do trafico da Coroa, e trouxe 12 mil africanos para a capitania entre 1755 e 1778. Com o subsequente desenvolvimento das fazendas de algodao e arroz, fomentado pela crescente demanda europeia por esses produtos, vieram mais 100 mil africanos, sobretudo de Guine, Dahomey e Angola. (1) Desta maneira, as vesperas da Independencia, o Maranhao era a provincia brasileira com maior percentual de escravizados (78 mil, ou 55% da populacao). Depois da crise de 1817, no entanto, o algodao maranhense encontrou dificuldades crescentes no mercado mundial. Por isso o trafico transatlantico de escravos para a provincia se tornou inexpressivo bem antes de 1850. Crises economicas e politicas -- a guerra da Independencia (1822-23) e a Balaiada (1838-41), que se desenrolaram na principal regiao produtora de algodao -- contribuiram para abalar o poder economico dos senhores. A insercao da sociedade escravagista no meio amazonico -- a maior parte do norte da provincia era coberta por densas matas -- combinada com esse desenvolvimento tardio, curto e intensivo, pode explicar alguns dos tracos particulares do cativeiro maranhense. Junto com o Para, o Maranhao gozava de pessima reputacao entre escravos e senhores alhures. Ao ponto de a venda para o Maranhao ser ate uma ameaca para punir escravos desobedientes em outras provincias. (2) Nao ha ainda uma explicacao bem estabelecida na historiografia a respeito dessa imagen negativa. Contemporaneos viam a causa nas pessimas condicoes de trabalho. (3) Outra razao certamente residia na proliferacao, por todo o territorio da provincia, de doencas endemicas como "sezoes" (malaria). Finalmente, o processo de apropriacao de terra se deu de maneira distinta no escravismo maranhense. Resultou na ocupacao de muitas terras por ex-escravos antes e depois da Abolicao, as chamadas 'terras de preto', mais numerosas no Maranhao do que em qualquer outro estado. (4)

Nao pretendo aqui refazer a historia da escravidao africana no Maranhao, sobre a qual existem, alem de varios trabalhos, muitos documentos ainda inexplorados. (5) Quero apenas dar voz a memoria oral, para mostrar que a memoria popular tambem tem sua propria visao, incompleta e fragmentada, evidentemente, mas nao mais deformante do que a dos historiadores que falam a partir da casa-grande. Acredito que a memoria oral nos aproxima da experiencia de vida, e da visao do mundo dos proprios escravizados, como eles e elas a transmitiram a seus filhos, netos e tataranetos, e tambem a algumas outras pessoas. E sabido que registros sistematicos de memoria oral da escravidao foram feitos nos Estados Unidos a partir da decada de 1930. No Brasil, no entanto, os primeiros registros dessa natureza datam apenas das decadas de 1980 e 90. (6)

Os depoimentos que seguem foram obtidos durante um trabalho de campo no Maranhao oriental, entre janeiro e outubro de 1982, e publicados pela primeira vez em 1988. (7) Escolhi esta area porque a razao principal da pesquisa era registrar a memoria da Balaiada, a grande guerra civil que devastou a provincia entre 1838 e 1841. Nessa luta de camponeses e vaqueiros livres participaram tambem milhares de escravos, liderados pelo Zumbi maranhense, o Cosme. (8) Decidi conversar sobretudo com as pessoas mais idosas nos povoados e bairros rurais, assim como nas sedes dos municipios. Entre elas encontrei muitas que tinham memorias detalhadas e vivas do passado da familia e do seu lugar. Acredito que a falta de luz eletrica na maioria dos povoados nessa epoca, e a consequente ausencia da televisao, ajudou muito na preservacao da memoria do cativeiro. Seu Simiao, o lider comunitario de Bom Sucesso, por exemplo, lembrava oito geracoes de seus ancestrais. Entrevistei tambem pessoas mais jovens, que revelaram conhecer um vasto fundo de memorias apreendidas com algum familiar ou anciao do lugar. Conversei com mais de 600 pessoas em 20 municipios dos 35 que existiam entao na regiao entre a BR Sao Luis--Teresina ao sul, os rios Itapicuru a oeste, Parnaiba a leste, e o Oceano Atlantico, ao norte. Escolhi trechos de 91 depoimentos para inclusao no texto. (9)

Quem entao vai falar do tempo do cativeiro, ou melhor, onde foi possivel colher uma memoria oral que nao fosse a reproducao da visao senhorial? A primeira vista parecia evidente: so os descendentes de escravos podem contar a outra versao. E realmente, em 1982, ainda havia muitos descendentes -- filhos ou netos -- de cativos, espalhados pelo interior do Maranhao:

"Eu sou de um lugar onde era uma feitoria, Novo Mundo. So tinha preto nesse lugar. Hoje ja se acabou tudo. De mais velho so tem eu e mais alguns."

Maria Jose Moreira

Codo

Mas estas pessoas nem sempre eram isentas de adotar, por diferentes razoes, uma visao que havia sofrido o impacto do ponto de vista senhorial, como, por exemplo, a opiniao popular a respeito da Princesa Isabel. Por outro lado, se muitos descendentes de senhores de escravos diziam: "meus avos nao judiavam com os seus escravos, tinha outros que judiavam", isto nao acontecia sempre (ver, por exemplo, os depoimentos de seu Acacio e de Francisco Rodrigues a seguir).

Alem do mais, encontrei varias pessoas que eram descendentes de escravos e de senhores. Conhecem de perto a escravidao, como o Sr. Domingos Raposo Ramos (Timbiras, ver foto). Do lado do pai, o Sr. Domingos e neto de Orvidio Raposo e Alexandrina, uma liberta, filha de escravos de Joao Raposo (pai de Orvidio). Contava ele que a avo Alexandrina sempre intervinha em favor dos escravos junto a iaia. O Joao Raposo era criador de um lugar chamado Curador, no Piaui, "onde nao teve escravos". Do lado da mae, o avo Aniceto Lima de Azevedo era branco, filho de dono de escravatura, um portugues muito rico chamado Joao do Macaco, "macaco porque na fazenda tinha muita escravatura". O avo casou com uma "india", Genoveva. Esse avo, que casou fora da linha, sempre falava como o pai maltratava os negros ("dava pisa nos negros demais") e como os irmaos mais velhos da mae "eram malvados com os caboclos". Assim sendo, descendente de senhores de escravos, de escravos e de caboclos, o Sr. Domingos diz com razao: "Eu sei da escravidao, eu sei como era malvada".

[ILUSTRACION OMITIR]

Outro grupo de informantes era aquele formado por pessoas que conheceram de perto um preto velho ou uma preta velha do cativeiro (o que foi o caso tambem de alguns grandes estudiosos da escravidao, como Gilberto Freyre). Ligados a eles por relacoes de amizade ou parentesco, lembravam as historias mais contadas por essas testemunhas diretas. Era o caso da Dona Dede Matos, por exemplo. Em todo caso, impoe-se uma apreciacao circunstancial que leve em conta as motivacoes do informante, todo o seu background. Para dar um exemplo de como a mesma historia podia ser contada diferentemente, reproduzo a seguir duas versoes de um roubo e seu descobrimento no Paraiso (municipio de Sao Bernardo). A primeira foi dada por um descendente da familia Pires:

"Negro naquele tempo era bicho safado [sic]. Um negro de Sao Raimundo roubou um carneiro do Paraiso. Agora ele foi, roubou as botinas de outro negro e foi roubar o carneiro. Entao foi descoberto porque o negro feitor conhecia as botinas mas tambem a passada do que roubou."

Essa versao seria para demonstrar que, nao somente os negros do centro proximo a Sao Raimundo roubavam, mas, que, alem disso, eram traicoeiros com os seus semelhantes, nao havendo, assim, solidariedade entre os escravizados. A outra versao ja enfatizava a destreza do preto velho em ler passada:

"Tinha um negro que era bom de conhecer rastros de gente e de animal. Um negro roubava coco de noite no Paraiso e enfiava ninho de xexeu nas pernas para o rastro nao ser reconhecido. Chamaram o velho e esse disse: 'O rastro nao da para reconhecer, mas a passada e de fulano'. Como ainda tivessem duvida, mandaram desenterrar um cavalo que tinha morrido alguns anos atras e marcaram um rastro com o casco dele no lugar dos animais beber. Levaram o velho e esse disse: 'Rapaz, sera que animal tem alma? Porque se tem, passou aqui o cavalo de tal que ja morreu faz anos'".

Bernardo Coelho Lima

Jua/Sao Bernardo

A visao do caboclo que nao teve envolvimento com o cativeiro era mais distante. E uma apreciacao sem aquela emocao que tomava conta, ainda em 1982, daqueles que sofriam por seus avos:

"Escravidao? Era a sujeicao para o pessoal pardo. Eu ainda alcancei o pessoal cativo. Nao tinha valor. Eram os pardos. Os brancos comprava um casal de preto para trabalhar para eles. Traziam da Africa e aqui vendia num dia e trabalhava pros brancos sem ganhar coisa nenhuma, so a boia".

Teixeirinha

Brejo

Como se vera mais adiante, algumas categorias usadas pela memoria oral sao particularmente relevantes. Sao eles o "tempo do cativeiro", "judiar" com os escravizados, e a oposicao entre o "bom senhor", o "ruim" e o "malvado". De fato, parecem ter sido uma constante na memoria oral da escravidao no Brasil. Os depoimentos sobre o tempo do cativeiro foram organizados segundo tres temas: o trabalho cativo, a violencia que sofria o escravo e sua resistencia.

a) TRABALHO

O cativeiro e desde logo associado as casas-grandes e feitorias, cujas ruinas salpicam a paisagem do Maranhao antigo. Sem nenhuma protecao do Patrimonio Historico, atestam que a consciencia historica da oligarquia sucessora dos antigos senhores nao passa de uma visao turistica do passado visando o lucro a curto prazo. Limita-se a alguns projetos de manutencao e restauracao, situados em areas privilegiadas do Estado (Sao Luis e Alcantara). Desta maneira, do "Tamancao" de Ana Jansen as antigas Fortalezas do Itapecuru e do Munim, e iminente o desmoronamento de grande parte do patrimonio historico estadual, quando isto ja nao e fato consumado, como aconteceu com todos os sobrados de Rosario e a grande maioria das casas-grandes do Itapecuru, onde se encontram apenas pocos aterrados e paredoes sepultados nas matas e capoeiras. No Baixo Parnaiba, as tres casas-grandes do tempo do cativeiro que encontrei em pe eram: Sucuruju (Brejo), Santa Cruz (Buriti de Inacia Vaz) e Paraiso (Sao Bernardo). Subsistiam gracas aos cuidados solitarios de seus proprietarios.

A memoria oral me parece, nessa altura, mais duradoura que a ambicao senhorial, ja que muitas feitorias das quais nem traco existia ainda eram lembradas. No Itapecuru, desde a foz (Boavista dos Bayma) ate Caxias, a memoria oral registrava (como tambem atestam todos os documentos) grande quantidade de feitorias, fazendo das margens deste rio o principal sustento da economia de exportacao. Eram situadas na proximidade imediata do rio ou a beira de um riacho ou igarape, situacao que garantia a comunicacao com a capital da Provincia. Quando se situavam mais para dentro das matas, era preciso abrir caminhos que eram praticaveis a carros de boi, somente no verao (como no caso de Flores).

No Munim sao atestadas muitas feitorias na regiao baixa do rio, chegando a Manga (hoje Nina Rodrigues), porem, vao se tornando mais escassas. A memoria oral se lembrava de uma serie de casas-grandes ao longo do rio Preto (como Mata do Brigadeiro, Guabiraba). Ja no rio Iguara, que parece ter sido um foco importante durante a Balaiada, so encontramos ecos de duas fazendas de escravos. No Baixo Parnaiba a memoria oral atestava feitorias tanto na margem do rio como na margem de riachos e rios que desaguam no Parnaiba (como o rio Buriti, por exemplo). No litoral, tive noticias de fazendas de escravos no rio Preguica, no rio Grande (regiao de Santo Amaro) e uma na Miritiba (hoje Humberto de Campos).

A lembranca popular da distribuicao das fazendas faz eco a outras fontes, como os registros de terra de 1854, que atestam que nas regioes do litoral e nas chapadas entre o Munim e o Parnaiba, as fazendas de escravos eram muito mais raras do que a beira dos rios Itapecuru, Munim e Parnaiba. E verdade que a memoria oral talvez so lembre as grandes feitorias e nao aquelas que utilizavam reduzida mao de obra escrava, as vezes complementar a mao de obra familiar. As grandes feitorias se concentravam, evidentemente, naqueles lugares que dispunham de boas terras para o plantio de algodao ou acucar, assim como de vias de acesso para a comercializacao. Isso impediu que as terras entre o Munim e o Vale do Parnaiba fossem tao procuradas, ja que ai sao frequentes as terras muito arenosas e tem poucos rios navegaveis.

A memoria oral lembrava os donos das fazendas e os lacos de familia e solidariedade entre eles.

"Para fazer a rapadura, os senhores se emprestavam os escravos uns pros outros."

Benedito Alves

Vazantinha/Magalhaes de Almeida

As fazendas da familia Pires, no Baixo Parnaiba, sao um exemplo do reino de uma familia sobre toda uma area:

"Paraiso era a sede das outras. Era do Comendador Pires Ferreira. Joao de Deus era o genro do comendador. A lagoa (do Bacuri) cresceu e tomou a casa do Bacuri onde morava o Joao de Deus Pires Ferreiro, mas o Bacuri nao era fazenda. Era estagio pras filhas descansar. No Santo Eugenio e no Santo Agostinho tambem tinha fazenda dos Pires. Era Francisco Florindo de Castro casado com uma da familia Pires. O Baixao do Capim era do Tote Pires. Na Santana tinha outra propriedade. E Sao Domingos (Buriti dos Lopes) e Tabuleiro eram fazendas dos Pires no Piaui".

Chico Tobias

Magalhaes de Almeida

"Por aqui teve casa-grande no Paraiso, era do Joao de Deus Pires. No Bacuri, era de Antonio Pires. No Sao Joao, era a casa-grande velha do Joao de Deus. Na Santa Maria, tambem do Joao de Deus. No Bebedouro de Sao Pedro: era da Chiquinha Castelo Branco e do pai dela Domingo Pacifico. Na Malhadinha, que era de dois irmaos, Paulino e Analina. No Angico, que era do Domingo Rodrigues. Teve no Santo Inacio e no Retiro".

Bernardo Viriato

Sao Joao/Magalhaes de Almeida

E aquele mundo "que o portugues criou", construido a custa do sangue e suor dos cativos. A plantacao era assim uma grande empresa agricola:

"Eu alcancei o vaquejador do Jose Carlos Frazao. Esse me contou que a casagrande ficava onde hoje e a base. Uma estrada larga e limpa ia ate la por onde caminhava os pretos dele. Ele morava num sobrado, mandava limpar a estrada para olhar da janela do sobrado os pretos dele, e quem nao vinha no regulamento dele, ele mandava surrar pelo adomador. Tinha duas filhas; quando uma tinha pena dos pretos, enchia as maos de prata e jogava no preto e ele achava graca e nao mandava surrar. Um centro, a Passagem Franca, era mandado por um preto dele. Ele mandava rocar 100 bracas de gergelim, 100 de milho, 100 de arroz, 100 de feijao, 100 de carrapato e 100 de mandioca. De tudo 100 bracas, ele nao plantava misturado como hoje se planta. Ele tinha 3 parelho de preto, que era dois homens carregando uma taboca e a rede amarrada e duas pretas com chapeu de sol e os 3 parelho revezava, assim que ele andava. Ele tinha pretos nos Centros de Casso, Passagem Franca, Sao Joaquim, Boa Uniao. Era homem rico, senhor! Ele tinha 700 e tantos pretos so dele. As pretas nova que ele desejava ele comia e depois dava para outros pretos. Os escravos tinha que trabalhar de graca. Ganhava so uma camisa e uma calca de perna estreitinha e comida. O vaqueiro dele nao ganhava uma cria. Era um homem fino, magro".

Mundico Seabra

Humberto de Campos

"Minha avo contava: De um lado ficava a Igreja que recebia os padres, do outro ficava a morada do Jose Carlos Frazao, um homem que tinha arrecadado a area da Miritiba. Ele trabalhava com diversos homens na lavoura. Trabalhava nos centros do rio Munim e de la transportava carga ate a Miritiba. Daqui remetia cereais de lavoura para Sao Luis e, do Munim, farinha e carrapato. Ele tinha diversos depositos na estrada. Muitos homens trabalhavam para ele."

Cau

Humberto de Campos

Os senhores, como Frazao, alias, nao tinham muitos escrupulos para aumentar o seu dominio:

"O vaquejador do Jose Carlos me contou: um vaqueiro do Jose Carlos Frazao achou uma populacao de preto. Ai o Frazao inventou que ele tinha ido onde o rei, pediu como homem pobre que lhe desse aqueles pretos para ele. Ele era danado! Inventou que o rei D. Pedro II deu uma carta para ele ler pros pretos que eles tinham que lhe obedecer como senhor e quem nao obedecia o rei mandava enforcar. Fez de conta que tava lendo esta pros pretos. Ai os pretos se ajoelharam e tomaram bencao a ele. O senhor nao calcula como e a gireza dele! Era no Casso (hoje municipio de Primeira Cruz)".

Mundico Seabra

Humberto de Campos

A memoria oral lembrava trabalhos executados pelos cativos, porque so mesmo escravo para executar tais tarefas. Sao rampas, pocos, paredoes e cercas de pedra (ver foto):

"No Olho d'Agua ainda tem os paredao da casa-grande. O Bebe Rodrigues mandou fazer uma cerca de pedra pelos negros. Essa cerca de pedra era da altura de uma braca caveira, hoje ja ta mais baixo".

Jose Vicente

Canto d'Agua/Santa Quiteria

"A Santa Maria era feitoria do Joao Paulo Miranda, morador do Brejo. (...) Trabalhava com cana. Mudou o rio com uma encanacao para moer a cana. Aquele engenho ficou bonito. Morreu com desgosto porque o rio secou, ai o engenho nao correu."

Maria Alves da Silva

Porto Velho/Urbano Santos

[ILUSTRACION OMITIR]

"Paraiso, Bacuri e Santa Maria era do mesmo feitio, feito por escravos. Na Santa Maria tinha seis furquilha de cumieira (10) e cinco varandado: dois de frente e tres nos fundos. Tinha peitoril largo que duas pessoas podia deitar."

Bernardo Viriato

Sao Joao/Magalhaes de Almeida

Neste cenario, a fartura da casa-grande sempre era lembrada:

"Um dia sim e outro nao, matava uma res no Paraiso."

Chico Tobias

Magalhaes de Almeida

"De Mandioca alcancei a Tomazinha, a Anajazinha, a Vermelhinha e a Carregadeira. Tinha uma mandioca como a Anajazinha que era um pau brabo, uma raizona dessa grossura ... quando arrancava era dois, tres homens para suspender o pe da mandioca. Isso no Santo Agostinho, no baixao do Jua, mas hoje ta tudo acabado ... Mes de farinhada era doze cargas de burro todo dia. Na casa da farinha tinha uma bulandeira com quatro burros puxando, tinha oito para esse servico. Deitava as dez da noite e se levantava na primeira hora da madrugada para lavar a goma, os coxo de goma, aqueles pauzao de goma."

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

A escravidao foi introduzida "para o sustento da lavoura". Ser escravo do eito foi sem duvida a condicao mais comum do ser escravo. Mas, instituida para a plantacao, a escravidao acabou permeando toda a sociedade e assim foram aparecendo formas secundarias da escravidao.

Na plantacao mesmo, teve a segmentacao entre escravos do eito e escravos que trabalham na casa-grande, esses relativamente mais favorecidos. Outra ocupacao importante na plantacao era o vaqueiro. Sao encontradas, na memoria oral, referencias tanto ao trabalho cativo, como ao trabalho livre com o gado:

"Me criei na Santa Maria. Meu pai foi vaqueiro 40 anos, ele chamava Viriato Francisco da Cunha. Meu avo morreu com 96 anos. Ele era piauizeiro, veio ser vaqueiro na fazenda de Santo Agostinho. La ele ficou 16 anos de vaqueiro. Nao quis mais e comprou essa terra aqui. O patrao dele repartia as cria: de quatro, um. De todo animal."

Bernardo Viriato

Sao Joao/Magalhaes de Almeida

O trabalho de Raimundo Gomes, um dos grandes lideres da Balaiada, levava os estigmas da escravidao, razao pela qual, quando era exercido por livres, estes eram muitas vezes "pardos" (descendentes de negro com mulato no Maranhao oitocentista) -- como Raimundo Gomes -- ou cafuzos. Trabalho com gado requeria muita coragem, como se ve pelo depoimento seguinte:

"Nasci no Santo Agostinho. Era do velho Castro Pires. O cativeiro eu nao alcancei. Ja era o meu pai que contava. Ele foi escravo no Santo Agostinho, Antonio Augusto dos Santos. Papai contava quando era o finado Joao de Deus, que era um malvadao do tempo do cativeiro ... Papai era vaqueiro e morava mais esse senhor dele, Francisco Florindo de Castro. Morava nas Cajazeiras de baixo ou se era nas Cajazeiras de cima ... Agora veio ele sozinho, mandaram ele sozinho de noite escura chamar o 'Satanas' aqui no ... ([A filha interrompe:]'Nao e Satanas, diga o nome, mamae') 'Satanas', porque era malvado ... Aqui, como era o nome, que ele morava? Mas ele sabia a mao direita dele. Ele via onca roncar para ca, via onca para la, via onca roncar para acola e ele no caminhozinho.

Quando foi bem cedo que ele chegou e deu [o] velho Joao de Deus vinha, que ele veio o caminho tava triado de rastro de onca que ele so [ou]viu o ronco".

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

Parece ter havido, tambem, escravos exercendo oficios mecanicos.

"Meu avo Bras era escravo e pedreiro, participou do servico da Igreja de Rosario. Ele podia trabalhar onde queria, mas tinha que entregar o salario todo pro Senhor. Esse entao lhe dava uma parte. Ele morreu forro."

Dudu

Rosario

A respeito de uma escravidao domestica, tipo de escravidao que era frequente em muitas sociedades africanas, encontraram-se algumas referencias indicativas desse tipo de cativeiro, o que nos leva a considerar a hipotese de ter havido uma camada do campesinato mais abastecida que, sem poder pretender ser dona de plantacao, era intimamente comprometida com o sistema escravista do qual tambem lucrava. Isto, alias, sempre foi do interesse dos grandes proprietarios escravistas porque aumentava a base social interessada na manutencao da escravidao.

"O meu bisavo e o meu avo tinham escravatura. O meu bisavo nao judiava, os escravos comia na mesa com ele, os filhos dele trabalhava na roca junto com eles."

Pechincha

Sao Francisco/Anapurus

"Minha mae era filha de escravo: Pio e Maria Valeria eram os avos. Ela foi criada na escravidao. Quando gritaram a alforria dos negros minha mae tava com 12 anos de nascida. Meus avos nao foram judiados porque foram criados por uma velha que deu tudo para eles, e cada um dos 8 filhos que criou: aviamento, caititu, forno, gado e criacao, ate um cachorro ela deu. Nao lembro o nome dela, so se conhecia ela por 'Iaia Veia'. Ela era como uma mae para eles."

Raimunda Pio

Fazendinha/Santa Quiteria

A memoria oral guardou alguns casos que permitem reconstituir a vida cotidiana na plantacao. Se um dia sim, outro nao se matava uma res no Paraiso, dificilmente algum pedaco desta carne ia parar dentro do bucho do escravo.

"Comida de escravo era feijao com milho."

Mimi

Sao Bernardo

"Os negros escravos, de primeiro, comia e milho. Os brancos que botava para eles."

Januaria

Almas/Brejo

[ILUSTRACION OMITIR]

"Pacoca de gergelim era o comer dos escravos."

Francisca Rodrigues

Currais/Sao Bernardo

"Um negro no Paraiso foi reclamar com a cozinheira no meio-dia 'esse feijao nao tem azeite'. Ai a cozinheira foi dizer pro patrao que o negro velho tava reclamando que nao tinha azeite. Ai esse mandou o preto voltar pro servico sem almocar. Chegou de noite, ai a cozinheira foi botar feijao para ele, so cozido na agua e sal. Disse: 'Negro Velho, esse feijao nao leva azeite', ai o negro velho ja morto de fome: 'Nao tou mais procurando por zete!' E comeu."

Benedito Alves

Vazantinha/Magalhaes de Almeida

Os costumes eram severos para nao permitir que, nessa convivencia cotidiana do escravo com o senhor, longe dos centros urbanos, o escravo esquecesse que ele "nao tinha valor".

A humilhacao do escravo, alem de satisfazer o ego do senhor, permitia a reafirmacao cotidiana da hierarquia social que o cativeiro instaurou.

"O Negro tinha que dizer: 'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo' e abracava os joelhos pedindo a bencao: 'A bencao Iaia' e essa respondia: 'Para sempre seja louvado'. La nas onze horas sempre encostava muita gente na casa-grande. Tanto que as cozinheiras as vezes nao comia certo com o Louvado Seja, porque tinham que dar pratos para os que deram o Louvado Seja, e por isso diziam: 'Vamos almocar, logo, antes do Louvado Seja'."

Mimi

Sao Bernardo

"Esse Florindo, papai me disse, que eles nao ... que nao era da parte deles (dos vaqueiros), mas os escravos quando levantavam, ele vinha la de dentro pisando, Ho! Ho! temperando a goela ... Os negro tava tudo acola, tava coalhando de medo e tinha que esperar que ele botava a cabeca e eles diziam, nao tinha a bencao: 'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!' E ele respondia d'acola: 'Para sempre seja Louvado ...' Aquele que nao dissesse, apanhava ..."

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

"No cativeiro cada um tinha o seu servico."

Raimunda Pio

Fazendinha/Santa Quiteria

Mas para todos era de noite e de dia:

"O trabalho do escravo chamava tarefa, de dia, e serao, de noite. Serao era socar arroz ou milho ou bater arroz ou milho".

Domingos Raposo

Timbiras

"Os escravos sofriam muito. Eles apanhavam muito. Os escravos de Raimundo Munim de noite socavam o arroz e iam dormir muito tarde."

Tomasia Lages

Codo

"Os negros do Paraiso, quando voltavam de tarde das rocas pra diante do Sao Raimundo, quando passavam aqui, carregavam mandioca que eles tinham que descascar para fazer farinha ainda de noite pra trabalhar no outro dia. Tinha um lugar chamado 'Rancho dos Negros' onde eles descansavam na hora do almoco, do sol quente. A farinhada era feita pelos negros e cada um levava um jaca (cesto feito de talo de mandioca) quadrado no ombro e jogava na casa da bulandeira (motor de pau puxado por um cavalo pra mover o caititu). As negras descascavam de noite e no outro dia ja tava a massa torrada por eles."

Agapio

Sao Raimundo/Sao Bernardo

"Negro de noite tava de algodao fiando e de dia na roca. Taca! Diz que negro pegava taca como que! Negro padeceu. Apanhava sem necessidade."

Avelino Goncalves

Pereira/Mata Roma

"Minha avo era da Mata, municipio do Brejo. Ela foi escrava e diz que sofreu muito. So tinha uma filha do tempo da escravidao, banhava ela mais o filho da Sinha. Paulino Diniz era o dono dos escravos. Ela torrava, pisava e cozia o coco e tirava uma quarta de azeite todo santo dia."

Maria de Lourdes da Conceicao

Carmo/Mata Roma

"As roupas dos senhores eram lavadas de dia, as dos escravos de noite."

Dede Matos

Rosario

"Minha avo, Bertolina, era escrava e morreu escrava. A feitoria era na Prata, do Henrique Rocha. Tinha olaria, saboaria (de andiroba) e engenho. Os pretos moravam la e ia e pros canaviais que eram por la, tambem. As pretas tinham as cabecas amarradas, para pude ajuntar e botar no carro de boi a cana que os homens cortavam. Ai levava pro engenho."

Dudu

Rosario

As mulheres, alem do trabalho da roca, tinham tarefas domesticas extenuantes como fiar algodao e fazer renda.

"No Paraiso tinha so 15 dias de resguardo. As escravas levavam o neguinho numa tipoia para a roca e voltava a crianca de cara inchada de mordida de muricoca."

Mimi

Sao Bernardo

"Nos fiamo algodao. Minha mae era trabalhadeira, gracas a Deus, como a filha dela. Ela no meio do terreiro, fiando na luz, fazendo corda, era fazedor de corda para rede. Nao tinha esse negocio de cama nao."

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

"Se fazia renda. Era um monte de menina sentada na varanda. Tinha tarefa: fazer um tanto de renda. Muitas vezes elas nao comiam, olhava o prato e nao podia comer para nao perder tempo. A renda era so para a familia dos senhores."

Mimi

Sao Bernardo

Perdurou este trabalho de renda por tarefa alem da abolicao. O depoimento de Dona Raquel, ja livre, apanhando da iaia, atesta que as datas historicas nem sempre operam cortes absolutos nas relacoes de trabalho:

"Era uma meia quarta de renda para fazer por dia. Para uma pessoa render, quem sabia mexer com bilro fazia so uma meia quarta por dia. Se acabasse de dia, era de dia, e se nao acabasse acabava de noite. Acho que e por isso que minha vista ta ruim. Todo santo dia era meia quarta de renda, todo santo dia ... (seis dias) da semana, nem que acabasse de noite: era tarefa! Por isso que o povo do outro tempo era trabalhador, hoje as mocas sao preguicas. Nao sei nessas outras terras porque nunca corri terra, mas aqui, na beira dessa lagoa ...

Para fazer aquela renda bem larga de 2 palmo para fazer vestido, tirava no papelao. Renda de 2,5 de 6 duzias de bilro. Eu mexia com duas duzias numa almofadona dum saco deste tamanho, desta largura [mostra]. Cheio daquele papelao com dois, tres duzia de bilro, eu mexi. Pelejei tanto [...] O povo era trabalhador nesse tempo. Eu nao alcancei o cativeiro nao, mas trabalhava de tarefa. Ai tem muita colega ... uma morreu outro dia, mae desse meu genro aqui, morreu ceguinha. E esta velha que morreu, Ave Maria! gritava: 'Me acude, minha gente! Minha cabeca quer rachar'. Os olhos dela aquele poco de sangue ... As senhoras, aquelas danadas! A gente apanhava ... Dava de palmatoria. Mas a gente quebrava os bilro, nao fazia renda, quebrava os bilro. Mas gracas a Deus nao tenho as maos aleijadas. Sou limpa graca a Deus."

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

Alem desses trabalhos produtivos, havia que satisfazer as extravagancias dos senhores, que, ociosos, tinham que procurar alguma distracao ou, mais uma vez, exibir o seu poder:

"Na Ilha Velha tinha um casarao. So atravessava o braco do rio, que ali e estreito, com a mare seca. Todos os escravos se deitavam para o Senhor passar por cima e chegar ate o Rosario".

Dede Matos

Rosario

"No tempo da escravidao era muito o sofrimento. Tinha dona rica que so dormia embalada por uma escrava. Tinha que embalar ate ela dormir."

Janu Santana

Chapadinha

Os senhores gozavam de um privilegio que, nos dias de hoje, so se concede aos mortos e moribundos:

"Dois negros levava o branco na rede como se fosse um doente".

Jose Leal Lelis

Flores/Timbiras

b) VIOLENCIA

A superexploracao do trabalho escravo, que tinha como unico limite a resistencia fisica do cativo, so era realizavel atraves da coercao. E o que poderia se chamar de violencia cotidiana do tempo do cativeiro. Ela e a ameaca constante de taca para a tarefa nao cumprida, para qualquer "falta" cometida no trabalho. Fazia parte do pao cotidiano do escravo:

"Os escravos sofria muito. Trabalhava por tarefa e tinha que dar aquela quantia de arroz, de algodao, senao ia pra taca. Taca ou reios, era um pedaco de pau com couro".

Jose Leal Lelis

Flores/Timbiras

"Os negros ta tudo trabalhando, capinando. Pra fazer trabalhar mais depressa um osso de bode na ponta do reio da taca: chamavam 'mocoto de bode'. Quando dava lapada com essa taca o negro que tava cochilando de tanto trabalhar porque o coitado trabalhava muito -- acordava. Os negros tinha tudo calo de tanto trabalhar e apanhava."

Domingos Raposo

Timbiras

"Se o escravo nao executou a tarefa, ai que ele ia sofrer. Porque ia cortado os quarto, ia pregada a orelha no banco, ia apanhando de reio que largava o couro, reiao grosso de boi, cortado de boi, seu moco, dado pela mao de homem, como queimadura de fogo ... assim que ficava quando dava de reio, pegava eles, botava no pe de pau, metia o reio."

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

"Meu pai, Antonio Rodrigues de Pinho, me contava que o meu avo, Porfirio de Pinho, tinha uma fazenda de escravos na Santa Isabel (hoje municipio de Presidente Juscelino). Nao alcancei meu avo, mas meu pai disse que era muito mau com ele. A mesma tarefa que ele dava pros escravos meu pai tinha que fazer tambem. O velho botava os pretos para trabalhar, ai chegava na roca e, se os pretos nao estivessem fedendo (de suor), ele dava uma tacada em cada preto. Na alforria foram todos embora. Acho que so meu avo que teve escravos nessa regiao (Cachoeira de Morros)."

Acacio

Cachoeira de Morros/Morros

Ninguem escapava e nenhuma desculpa era valida:

"Uma preta velha me contou de quanto os senhores eram maus. Contava de uma feitoria no Veado Branco (municipio de Brejo), ai tinha um preto velho com os pes grande demais e nao podia andar bem. O patrao que levantava tarde depois do frio, tomava banho, tomava cafe, pegava o cavalo para ir a roca ver os preto trabalhar e ainda alcancava ele no caminho. Ai surrava ele: 'Caminha! negro velho!' Ele: 'Nao posso, senhor!' porque nao podia. Mas o senhor surrava e depois cortava as nadegas e botava sal".

Maria Garreto

Mata Roma

"Conheci pretos velhos depois de liberto. Ouvia contar que o feitor obrigava a trabalhar ate doente, tinha um que chegou a morrer em cima do cabo da enxada. Os outros olhava para ele com olhar de piedade e nao podia dizer nada, e o feitor gritava: 'Vamo! Vamo!'"

[ILUSTRACION OMITIR]

Isaac Francisco Montelles

Anapurus

Em geral, o senhor nao ia sujar as maos. Deixava que a escravidao pervertesse ate as relacoes de familia:

"No tempo do cativeiro, tinha dia que o escravo nao comia, era so apanhando. Meu pai contava que ele passou muito mal. Trabalhava de roca e de canavial no Caboge, Bacabal, que ficavam perto um do outro e morava aqui perto. O avo da parte de pai era Damiao de Souza, tambem escravo dos Garreto. Ele era feitor. Era ele que batia no meu pai".

Firmina Rosa de Souza

Arara/Vargem Grande

Assim o negro trazia no seu corpo as marcas da violencia cotidiana. Ferrado que nem gado, cicatrizes dos "estimulos ao trabalho" e orelhas dependuradas de pregar no banco ou de tanto puxar:

"A velha Brigida, do Santo Agostinho, enlouqueceu na Alforria. Ficou doida porque ela nao tinha mais de quem puxar orelha, que os negro dela tinha tudo a orelha como jumento dependurada de puxar. So chamavam ela de Dona, Dona, Dona. Era mulherao gorda, malvada como que!"

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

Alem desta violencia cotidiana, havia a violencia mais requintada da punicao exemplar. A historia de negros que tiveram as costas retalhadas com navalha depois de acoitados e o "curativo" de sal e pimenta nessas feridas, era a mais frequente lembrada pela memoria oral a respeito do Cativeiro. Ouvi-a inumeras vezes em muitos municipios, tendo como protagonistas os escravos e senhores locais:

"Joaquim Antonio, um grande de Sao Bernardo, era muito rico, mas muito ignorante e era ruim com os negros. Quando era para punir um, ele mandava dois negros surrar com uma chibata que tinha na ponta um osso de bode. Depois, nos lugares onde ficava inflamado, ele mandava cortar com navalha para sair o sangue. Dizia ele que era para nao apodrecer. Ai preparava uma gororoba (remedio preparado) que continha pimenta, esterco de gente misturado com egua, sal e mastruz. Ele era malvado e botava os pobrezinhos para tomar aquilo".

Janu Santana

Chapadinha

[ILUSTRACION OMITIR]

A punicao podia surgir a partir das "faltas" no trabalho cotidiano, ja que quase nada, nem ninguem, podia por limites ao escravocrata enfurecido dentro de sua propriedade:

"A Gregoria Marques, antiga escrava e madrinha da minha filha, me contava muitas historias: os Rocha, familia grande, eram donos da Prata (Rosario). Um dia, Juca Rocha foi para a roca e sentiu falta de uma escrava, chamou o feitor e perguntou por Joana: 'Ela nao veio, dormiu com dor de dente'. Ai ele voltou para a fazenda, la tinha um casarao. Chamou a preta, pegou um alicate e arrancou todos os dentes da escrava para ela nunca mais faltar servico por dor de dente".

Dede Matos

Rosario

"Minha tia contava: as patroa fazia judiacao. Botava elas para fazer renda de frente para parede para nao olhar pra ninguem. Aquela que tava olhando ia morrer e morria mesmo, nao tinha quem acudisse. A patroa com malvadeza, retalhava ela, salgava, botava amarrada no mourao no sol quente, ou no formigueiro para fazer judiacao."

Rosinha

Ribamar

"Meu pai morava aqui nas terras de Santa Cruz depois de casado. Antes morava na Faveira, residencia do Hortencio, cativo, e depois agregado do Hortencio. Ele trabalhava todo dia da semana para o senhor e foi liberto pela Princesa Isabel. Ele era do Maranhao, minha mae, cativa tambem, era do Piaui, aonde eu nasci, municipio de Uniao aonde fiquei ate 10 anos. Tinha turmas de escravos na Faveira, no Sucuruju, na Santa Cruz, na Barra. Quando um senhor criava raiva de um escravo vendia para outro senhor ou judiava com ele. O velho Freita, no Sucuruju, era cego. Ele tinha um escravo com nome Calistre. Estavam na roca trabalhando, ai o Calistre adoeceu com um dor de barriga. Entonces os outros disseram para ele vir para casa, que tava doente e nao podia trabalhar. Ele disse que nao vinha porque o senhor nao ia se dar com aquilo, ia dizer que era preguica. Acabou saindo da roca e vem para casa para tomar remedio. Quando chegou no Riacho das Barroca Funda, ouviu o tropelo do animal do senhor, que tava, nao sei se tava, atras do servico dele, ou para alguma viagem. Ai entrou pelo mato, la deitou-se. Quando o velho Freita chegou bem aonde tava o Calistre parou o animal. Parece que ele tinha um faro. Talvez ele sentiu pelo cheiro do suor e ai chamou ele pelo nome: 'Calistre!' Nas tres chamadas Calistre falou. Ai chamou ele para que viesse aonde ele. Entao Calistre chegou e ele mandou que se deitasse. Deitou, e ele avancou no Calistre de espora, Calistre ficou foi mais doente. Nao morreu naquela hora, ainda contou tudo para os outros."

Zeca Lotide

Macambira/Buriti

"A minha avo dancou no dia da libertacao e amanheceu parindo a minha mae. Minha mae contou que minha avo dizia que no Paraiso, onde ela foi escrava, se deu o seguinte: Tavam uns escravos fazendo rapadura na fornalha do Paraiso. Um escravo tava mexendo no tacho de mel. Ai chamaram ele para almocar e ai ficou uma mocinha mexendo o tacho de cobre. Ja tava fervendo e a sustancia dela nao deu (tem que mexer ligeiro) e ai derramou. E ela gritando que o mel tava derramando. Ai o patrao chegou zangado e derramou o mel quente na cabeca dela ate quando matou. Ela morreu queimada."

[ILUSTRACION OMITIR]

Benedito Alves

Vazantinha/Magalhaes de Almeida

A fuga, como ameacava diretamente a viabilidade do sistema escravista, era punida de maneira exemplar:

"Minha mae contava tudinho: De muitos lugar fugia, eles ia atras. Eles passava mao (amarrava) no rabo dos animais e trazia, e quando chegava a taca caia".

Raimunda Pio

Fazendinha/Santa Quiteria

"Minha avo era uma fujona. Ela contava que fugia, mas ai era pior: ia pro tronco, botavam ela pra trabalhar com corrente."

Maria de Lourdes Conceicao de Carmo

Carmo/Mata Roma

"Me contaram que no Piaui uma negra fugia muito pra mato. Mandavam um negro em cima de burro atras dela que levava um chifre de gado que ele amarrava na negra, (depois de ter pegado ela). Amarrava ela com uma corda no rabo da burra e ai corria com a negra atras. E o chifrao grande batendo para dizer que era chocalho. Tambem no Piaui teve um que matou um negro e mandou cortar ele, tirar os quartos de carne e pendurar todinho que nem gado. Um outro pregava orelha de negro fugido na parede da casa dele que era um sobrado."

Janu Santana

Chapadinha

"Triste aquele que era pegado fugindo. Tinha um alcapao (buraco fundo com caco de vidro). Jogavam o escravo ali dentro e nao saia mais. Na Prata tinha um. So mesmo o feitor que sabia se tinha escravo dentro, porque se botava uma tampa por cima."

Dede Matos

Rosario

"Sumidores" sao registrados pela memoria oral em varios lugares:

"Mas nesse tempo o povo era brabo. Tinha muitos senhores maus. Na Agua Branca tinha ate um poco de jogar escravo dentro. Eles (os donos de escravos) tinham um vaqueiro para ir atras dos escravos que fugiam".

Pechincha

Sao Francisco/Anapurus

"Uma escrava custou a tirar o urinol da alcova da senhora. Quando daqui a pouco ela chegou, ela fez a escrava comer o conteudo todinho."

Raimundo Erre

Sao Benedito

"Quando dava de safado matava retalhando vivo. Amarrava o negro em banco de aroeiro duro, talhava as costas com navalha, botava sal e pimenta do reino. Quando morriam, eles penduravam que nem gado pelo pescoco num pau. Ai apodrecia e caia aos pedacinhos. Urubu nao comia porque tinha sal. Quando dava uma chuva aparecia o cheiro de pimenta do reino com alho, ai sabiam que tinham matado um negro. Eu vi muito poco de sumidor. Na Boa Esperanca tinha um. Poco de boca larga e fundo estreitinho de pedra e cal com laminas de gilete [sic] no fundo. Ai jogavam eles."

Domingos Raposo

Timbiras

Os requintes de sadismo de alguns senhores eram lembrados pela memoria oral com todos os detalhes:

"Tinha uns senhores ruim que furava o negro com uma agulha para ver se era morto mesmo. Na Lagoa do Cantanhede (hoje Lagoa do Cazuzo) tinha Candido Cantanhede, dono de escravo. Era mal. Era desse que botava escapa (de armar rede), duas velhas me contaram isso, amarrava com sola as maos e dependurava na escapa, so com as pontas dos dedos no chao. Ele dizia: 'Sururuca! Sururuca!' e cutucava os maribondo que ia em cima dos negros que ficavam sapateando. Ai as mulheres tiveram que acudir: 'Nao mata! Nao mata!' para salvar eles. Quando enterraram ele, num caixao bom, chegaram dois cabras desconhecidos e levaram o caixao. E nunca mais apareceu (o corpo) em lugar nenhum".

Jose Leal Lelis

Flores/Timbiras

"Um negro velho que tinha os pes dele rachado que se passasse o calcanhar assim numa pessoa cortava como faca. Aquele couro secava, aquela rachadura dos pes. Ele nunca calcava. Esse meu padrinho Angirico, ele era malvado. Ele tinha uma negra velha que chamava Cabeca de Onca. A negra velha apanhava! Diz que um dia ela pegou uma pisa tao medonha que diz que rinchou como um animal. Nao chorava mais, fazia era rinchar. So da taca que era demais. Ele fazia um cigarro, naquele tempo ninguem usava cigarro feito, era cortado, e tinha uma negona grande que era quase da altura dessa porta. Ele mandava que ela se sentasse e ficasse assim rebaixadinha, e ele sentava em cima dela assim e cortando aquele cigarro bem devagarinho, para demorar muito. Fazia aquele cigarro com toda demora e, acabado, ele ia fumar e quando tava terminando de fumar que ele saia e ela ali sofrendo o monstro de homem, que o bucho dele era assim (mostra). Sentado nas costas dela e ela gritava: 'Ah! meu senhor! Nao aguento mais!' e ele assentado. Era meu padrinho de batismo aquele que fazia essa malvadeza."

Francisco Rodrigues

Currais/Sao Bernardo

Parece que era uma maneira do senhor matar o tempo e exercer sua "imaginacao". Aparece nesses depoimentos todo o lado patologico da re1acao senhor/escravo, esse ultimo podendo ser levado a loucura:

"Essa senhora criava essa nega. Quando era de manha mandava ela pra fonte buscar agua. Dizia: 'Vai pra fonte buscar agua e tu vem ja!' E se a nega custasse, quando chegava, ela botava a nega pra correr de uma parede a outra, ate quando cansava que nao podia mais nem falar. Ai ela botava de joelho em dois caroco de milho e ficava sem comer e sem beber ate meio dia quando o senhor chegasse e mandasse dar um prato de comer para a nega. Desse jeito a pobre nega vivia, so faltava ficar doida! Deu gracas a Deus quando deram a libertacao aos escravos. Ai ela nunca mais quis ser escrava de ninguem. Que ela ainda tinha a fala cansada so de correr. O nome dela era Benedita Viricio, e o nome da patroa era Candinha Carvalho da Silva. Minha mae conhecia todas as duas: uma era comadre da filha dela e a outra era madrinha de casamento, la em casa".

Raimunda Santana da Silva

Vazantinha/Magalhaes de Almeida

Um capitulo particularmente odiavel e o da violencia contra a mulher escrava, fazendo do tempo do cativeiro o tempo do estupro institucionalizado:

"No tempo do cativeiro os filhos dos fazendeiros chegava na casa dos cativos e levava as filhas para fazer o que nao prestava: sem-vergonhices, os pais nao diziam nada com medo de morrer".

Raimunda Pio

Fazendinha/Santa Quiteria

"O meu avo, pai do meu pai, era sem-vergonha mesmo, igualmente eu. Ele botou um paiol na roca dele, na feitoria dele, que era um quarto reservado so para ele. 'Vou olhar os pretos', dizia pra Sinha branca. Agora tinha uma preta velha, eu alcancei ela ainda, que ele mandava ela deixar boia para dois nesse quarto. A minha avo Anastacia era escrava e rapariga dele ... "

Lazaro

Cachoeirinha/Nina Rodrigues

"Como chamava aquele, que era malvado? E, o finado Joao de Deus botava as negas para dancar para eles poder se por acola, mangando, as negonas gorda dando marrada nos homens com os quartos ... Papai era cantador. As mocas, no tempo do cativeiro, tinham que dormir com os filhos do senhor. De noite elas tinham que se preparar e ir pros quartos dos rapazes filhos dos senhores. Voce pensa que eu gosto de falar? Eu nao gosto, Ave Maria! Era muita malvadeza ... Se fosse viva eu morria! Tudo papai contava que se fazia de mal. 'Eu nao quero ir nao, mamae, Ai! Eu nao vou, nao, nao vou'. Ai quando chegava para dormir nos quartos com os malvados ... Pois bem, os pais era ricos e malvados como o finado Joao de Deus e nao queriam que eles fossem procurar a vida por fora, nao queriam nao, ainda hoje tem dela doente. Na dormida, o senhor ta entendendo? para dormir mais elas. Ora! Meu Deus! Nossa senhora! As maes ficavam chorando e elas saiam chorando, Ave Maria! eu nao gosto nem de falar, eu lhe garanto que e um bocado ruim, a gente fazer as coisas obrigado, nao presta nao. Como hoje. Hoje fica uma moca, quando da fe, os pai ta com ela gravida, ai dentro de casa e um barulho medonho, anda de justica ... Tem muitos que casam a forca. Larga a mulher, foge, vai embora, deixa ai a mulher. Avalie nesse tempo, Ave Maria! Que nao tinha justica nao ... Os pais obrigava, tornava das mae de 10 anos, de 12 anos, pronto para eles, eles diziam que eram o dono na dormida, voce ta entendendo? no quarto, na cama que eles dormiam com elas. Nao tinha moca nao senhor. Sofria ..."

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

"No tempo bom que eu ainda alcancei as mocas tinha medo do homem. Nao to dizendo para voce, que no tempo da malvadeza elas iam chorando? Ave Maria! Nao gosto de falar, patrao, que eu me lembro, se fosse eu, eu morria tambem. Dela ir dormir mais o homem sabendo que ... Ave Maria! Quando era bem cedo ... Papai contava tudinho. Eu nao conto para voce porque Dona Maria ta aqui, e que eu respeito, mas chegava cheia de sangue de rasgada da coisa dos homens ... Isso era dos rico do tempo do cativeiro, que nao ia para rua para nao pegar doenca do mundo como tem deles que ainda alcancei quase tem acabado de comido, com a coisa comida daquela doenca. Ave Maria! Ave Maria! Ave Maria! Chama cancro. Onde voce mora nao tem isso, nao? Mas o homem nao passa sem mulher. E nenhuma mulher passa sem homem. Aqui tem mae que nem respeita as filhas ... Os lagoanos (11) sao fogosos. Nesse tempo tavam a mulher mais marido conversando ali quando dava fe agarrava a mulher e carregava no ombro ..."

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

A relacao inversa era tao inevitavelmente reprimida como a primeira era cotidiana, conforme atesta a seguinte historia do Baixo Parnaiba:

"O meu avo contou para minha mae: A filha do dono do Arraial (segundo outra versao o dono dessa fazenda de escravos era o Capitao Gentil) gostou de um negro. Quando foi descoberta ela ja estava buchuda. Ai ele mandou chamar o padre no brejo, encapuzado para ele nao saber aonde ia. Mandou cavar a sepultura dentro do quarto e ajuntou a filha dele com o escravo barriga com barriga, amarrado. Disse pro padre: 'E para voce confessar os dois marmanjo.' Enterraram os dois vivos, em pe. Botaram barro arriba e o outro batendo. Segundo outra versao, o padre, na hora de sair, lembrou de contar os degraus da escada: eram sete. E como so tivesse a casa grande do Arraial com sete degraus, o padre descobriu onde ele tinha ido. Mas o pai nunca teve nada (nao sofreu perseguicao)".

Raimunda Pio

Fazendinha/Santa Quiteria

Aparece, nessas concepcoes racistas de "sujar o sangue" toda a esquizofrenia senhorial: o senhor podia "sujar o sangue" mas a senhora nao podia ... O resultado mais tangivel foi, no imediato, o amulatamento das crias das escravas e o ressecamento do himen das iaias:

"Velho Castro teve 21 femeas. So filha. Casou so uma ..."

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

"Em Perizes de Cima tinha a fazenda de escravos dos mesmos Rocha. Ainda tem a imagem de Nossa Senhora da Conceicao. As filhas do Rocha nao casaram. Todas ficaram moca velha e loucas."

Dede Matos

Rosario

E importante ter em mente esta realidade do tempo do cativeiro, heranca que ainda hoje pesa sobre as relacoes sexuais no Maranhao, para assim poder apreciar com mais circunstancia as versoes da "honra ofendida" do Balaio como razao da Balaiada.

A memoria oral no Maranhao falava de maneira constante em senhores "bons" e "ruins". Pareceu-me, na epoca, importante procurar entender melhor esta distincao, pois nao me convencia a visao, frequente na biografia senhorial, de que, evidentemente, havia os senhores sadicos, mas havia tambem aqueles que eram tao bonzinhos, que eram verdadeiros pais para seus escravos. Essa dicotomia do bom senhor/mau senhor tambem estrutura as narrativas da memoria oral do cativeiro no Sudeste. Para Ana Lugao e Hebe Mattos, expressa uma "etica de tipo paternalista" que "organiza as possibilidades de afirmacao social dos narradores". Assinalam, ainda, que "as narrativas de torturas e maus-tratos se fazem em geral como historias genericas, com personagens nao identificados aos ascendentes do narrador". (12)

E certo que, no Maranhao tambem, era mais comum ouvir comentarios positivos sobre os senhores dos proprios antepassados escravizados. Mas, como ja assinalei, as genealogias nem sempre separavam tao nitidamente descendentes de escravos e de senhores, refletindo talvez um maior grau de "caboclizacao", no sentido da formacao de um campesinato "pos-plantation" nessa provincia. Alem do mais, no Maranhao, quando as pessoas lembravam do cativeiro em 1982, sempre falavam do cativeiro local, de referencia mais imediata, dando nomes (por exemplo, a fazenda tal onde os antepassados foram escravizados) e do cativeiro regional (as fazendas circunvizinhas mais importantes das quais tinham noticia), sempre catalogando estes e aqueles senhores de "bons" ou "ruins". Ou seja, as narrativas de maus-tratos podiam tambem ser identificadas com os ascendentes do narrador.

O que foi o senhor "ruim" ou "malvado" nao precisa ser explicado depois do exposto acima. O que foi entao um senhor "bom"? Um criterio sempre usado e o fato de nao ter sido abandonado por seus escravos apos a abolicao.

"Alcancei meus pais e avos. Meu avo por parte de pai era o Carreta, dono de escravidao. A avo era Anastacia, escrava e rapariga dele. Ela e mae do Joao Gare, que foi meu pai. Por parte de mae, a avo era escrava dos Ferro, Filomena Maria da Conceicao. O avo era Delfino Jose de Souza, liberto. Esse meu avo tocava tambor. Mataram ele de 'porcaria' (feitico). No dia da abolicao so os escravos do meu avo nao o largaram e tambem os do finado Ferro e do Lazaro Jose de Carvalho. Mas os escravos nas [outras] fazendas largaram. Os Leite, Ricardo e muitos outros foram largados porque eles eram ruim demais pros pretos. Os Leite e os outros surrava e depois metia navalha cortava e botava num banco e salgava. Os escravos ia judiado demais. Mas na feitoria do meu finado avo nao morria de fome fazia ate festa de tambor, como os Ferro."

Lazaro

Cachoeirinha/Nina Rodrigues

O raciocinio e claro: o senhor so podia ser bom, ja que o escravo podia ir, se quisesse gozar a sua liberdade pelo mundo afora. A memoria oral aqui talvez ignorou o peso dos costumes e da dependencia economica. Para onde iria um escravo velho quando da Alforria? O segundo criterio usado e que os senhores bons deixaram as terras para os escravos quando da Alforria, como ocorreu em diversos lugares.

"Senhores bons teve na Boavista, que era de um casal de portugueses. Tinha casa-grande, rampa e tudo. Eles foram pra Lisboa e deixaram pros escravos as terras."

Dede Matos

Rosario

Mas a terra nao tinha grande valor comercial naquela epoca, sobretudo terra sem mao de obra que a trabalhasse. Senhores "bons" eram tambem aqueles que faziam certas concessoes aos escravos, como permitiam bater tambor ou davam um resguardo para as mulheres:

"Na Cachoeira tinha senhores bons. Escrava prenha nao trabalhava um mes antes do parto".

Dede Matos

Rosario

Estas pequenas concessoes, porem, nunca foram contrarias ao interesse do senhor porque nao afetavam a produtividade do escravo. No caso do tambor, podia funcionar como desabafo e contribuir para que os escravizados se conciliassem com a sua condicao. Era uma concessao capaz de assegurar maior estabilidade ao sistema escravista. No caso do resguardo, era tambem do interesse do senhor, a longo prazo, pois a gestacao de filhos fortes pelas escravas era igualmente vantajoso para o dono. Outro argumento e que o "senhor bom" nao maltratava os seus escravos. Entao a violencia nao seria cotidiana, como se afirmou, nas fazendas dos senhores "bons"?

Os proprios depoimentos de memoria oral trazem respostas:

"Meu pai dizia: 'Eu conto o que eu vi. Mas eu nao sofri. Ja era perto da Alforria. Eu nunca apanhei, nao fui judiado, tenho o corpo limpinho. Gracas a Deus. Por isso eu acho que estou vivo - porque fui bem tratado. Tinha uma parte de senhor que era malvado demais. Tinha outra que nao era, era malvado, mas era melhor. Os malvados cortava de faca, aleijava. Os outros nao era malvado assim nao. Nao adoecia a pessoa. Tem deles que era cortado de faca, ia pro banco; os melhores so surrava de bolo. De palmatoria. De palmatoria apanhei demais. Todo mundo usava, ate na escola se usa. E pros menino ter medo para nao fazer erro (...) A coisa melhorou muito depois que acabou o cativeiro".

Raquel

Ferias/Magalhaes de Almeida

Essa visao pode falar em senhores bons porque normaliza a violencia cotidiana, pois justamente para o escravizado ela era a norma. Os depoimentos qualificam entao de ruim somente aqueles que cometiam os sadismos acima descritos. Mas, no fundo, o escravizado sabia, como diz Dona Raquel, que todos eram "malvados", bem que tinha uns que "eram malvados, mas era melhor".

A memoria oral registrou ate senhores que nao batiam, nunca:

"Esse branco diz que era muito bom. Nao batia - e quando soube que algum outro preto apanhava, procurava compra-lo. As vezes o preto ia trabalhar, mas cansado de trabalhar no canavial, ele fugia. Ai os outros diziam ao feitor e esse mandava atras e eles encontravam. Nesse tempo nao tinha estrada e se escondiam pelos matos. Na Prata, o senhor vendia entao esse escravo, porque nao batia: 'Meu preto, tu nao gosta de mim? Nao quer ficar comigo? Qual o senhor que tu queres?' Ai ele vendia. E nem todos os senhores eram bons. Diz que tinha um sumidor nas barreiras, onde hoje e a Ilha Nova (Ivar Saldanha)".

Dudu

Rosario

Este senhor "bom", em vez de recorrer a violencia diretamente, utilizava sutilmente a dos outros como ameaca. A venda do escravo como ameaca nao era incomum e e atestada pela memoria oral.

Mas ausencia de taca nao quer dizer ausencia de violencia, ja que a exploracao do trabalho tambem e uma violencia. Em todo caso, permaneceu, na memoria oral maranhense, a lembranca da sujeicao que foi a escravidao:

"Um negro do cativeiro. Eles ja tinham gritado a Alforria: era liberto. Ele tinha um cavalo. Ele foi encabrestar o cavalo que tava solto no patio (campo liberto) da casa de Santa Catirina (nome da morada). Ai ele foi, o outro companheiro dele mais ele. Ja tinha corrido de manha ate as cinco da tarde. Quando deu das cinco para seis, o companheiro disse: 'Rapaz, sabe cuma qui tu encabresta ele?' O outro: 'Cuma? 'Vamo gritar o cativeiro para ele: CATIVEIRO DE SANTA HELENA QUE TE PERSIGA NOITE E DIA!' Ai o cavalo virou-se e ficou em pe. Ai meteram o cabresto (Santa Helena era o cativeiro mais perseguido)".

Raimunda Pio

Fazendinha/Santa Quiteria

c) RESISTENCIA

A resistencia do escravo era registrada em toda parte pela memoria oral. Ela toma muitas formas, que vao do suicidio a malandragem, do apelo ao Divino ao mocambo na distante cabeceira de um riacho ...

O suicidio e a resistencia desesperada. So com a propria morte o escravo conseguia se vingar do senhor, frustrando-o de sua mao de obra ou trazendo-lhe os problemas relacionados com a sua morte que, como se ve pelo depoimento abaixo, nao iam alem de grande despesa para o senhor:

"O meu avo Avelino David era dono de escravatura, a familia dele toda tinha escravatura. Eles tinham feitoria nos Currais, no Pocao, no Sao Jose e na Santa Maria. Essa ultima era do capitao Mano Demetri. O capitao tinha um negro que vivia fugindo da Santa Maria para Sao Jose. Ele fugia e o capitao mandava atras. Uma vez mandou dar uma duzia de bolos para ele. Ai o negro entrou num quarto da casa- grande, la nos fundos, amarrou o reio de arrear bezerra na ripa e se enforcou. Ai tavam procurando ele, nao encontraram. Acharam ele pelos urubus que estavam sentado em cima da casa. Ele ja estava podrezinho, fedendo. Mandaram os outros escravos sepultar ele. Ai veio ao conhecimento dos Pires que estavam de cima [na politica], meu tio estava debaixo. Ai ele foi preso. Ele era Capitao da Guarda Nacional e foi preso na sala livre (a pessoa nao fica trancado nem amarrado). Gastou dinheiro de 100 novilha-vaca para a defesa, para ser absolvido. E ficou na casa dele nao se chamando pires [peca que acompanhava a xicara], mas so xicara rasa [o pires] e xicara funda, de tanto odio que ficou dos Pires".

Zeza

Mata Roma

Algumas vezes a vinganca teve que esperar o fim do cativeiro:

"O dono da feitoria criava um escravo de estima, para tirar as botas, calcar o chinelo. Um dia esse escravo, segundo o dono disse, abusou da bondade do senhor e ai ele fez uma carta mandando ele ser vendido para outra feitoria. Ele vinha ja com a roupa e uma espingardinha. O novo dono: 'Ah! negro safado! Amanha tu tens que apanhar um tanto de algodao'. Como ele nao soube dar a conta da tarefa: taca! Este rapaz entao criou a ideia de matar o senhor. Todo dia o branco vinha assistir o trabalho. Quando o senhor trepou na porteira para assistir o servico, o rapaz ja tava de tocaia, atirou nele e matou. Depois ele foi sofrer tanto, que nao tinha mais as carnes do lombo, o reio tirou tudo. Depois da Alforria ele quis matar o outro dono que vendeu. Chegou perto da casa dele no dia da visita da cova [visita do 7. dia]: 'Ah, desgracado, tu adivinhou!'".

Raimundo Erre

Sao Benedito

"Quando o preto ficou liberto, gostava de botar um susto no branco. Falava perto da casa do branco ou deitava em cima do jirau como se fosse senhor: '50 negros pra ca, 50 negros pra trabalhar acola'. [O branco]: 'Oh Meu Deus! Esse negro me mata de coracao!' Isso com zoadas nas latas velhas que ele carregava ..."

Domingos Raposo

Timbiras

Suicidar-se ou assassinar o senhor, que equivalia ao suicidio quando descoberto, eram opcoes extremas. Se a relacao de forca o permitia, a "impertinencia" era o primeiro grau da desobediencia do escravo:

"A filha da velha Francelina Pires, chamada Siara, botava agua no leite para vender, para aumentar. Vendia pro povo da vizinhanca. A velha escrava Sebastiana sabia, mas nao dizia nada. Ai o menino filho da escrava tambem um dia descobriu. Ai ele foi dizendo pros cabocos: 'Dona Siara bota agua no leite! Dona Siara bota agua no leite!' Ai a Siara trancou o menino dentro de um quarto e meteu a peia. Ai a mae do menino chegou e disse: 'Branca, Branca do Diabo, voce bota agua no leite, voce bota agua no leite, voce bota agua no leite e agora de em mim!' E mesmo ela nao fazia isso porque na epoca tava ela sozinha com um bando de escravo e a familia tava pro Rio".

Benedito Alves

Vazantinha/Magalhaes de Almeida

Neste caso, o isolamento da iaia em meio aos cativos punha limites ao arbitrio da iaia, espaco que logo foi aproveitado pela resistencia escrava. Mas o escravo malandro e o personagem principal dos atos de resistencia na plantacao. A malandragem era uma estrategia de sobrevivencia:

"Meu avo era Pio, o irmao dele era Matia. A iaia deles, na Catirina, tinha uma burra muito especial, de estrebaria, que foi do finado marido dela. Ai eles foram para uma festa de tambor na Passagem Funda. Eles levaram a burra escondido da iaia. Quando chegaram amarraram a burra na mata escondido. Pularam para dentro do tambor e foram brincar. Quando foi a primeira cantada do galo, Pio falou pro Matia: 'Vamo embora!' Foram para la onde tava a burra. A cobra tinha matado ela. Pio: 'Matia o que e qui nos faz?' Matia: 'Nos amarra os quatro pe e nos caca um pau e nos leva para estribaria!' Assim fizeram. Da Catirina a Passagem Funda da bem umas cinco leguas. De manha: 'Iaia! A burra de sinho [do finado marido dela] ta morta'. [E Iaia:] '- O meu filho que foi isso?' '- Iaia, foi cobra.' '- Pois, vai chamar o carroceiro para levar pro mato.' '- Nao senhora, se tem negro para levar nas costas!' Ai levaram de novo nas costas e levaram pro mato. So quando ela morreu, que eles foram contar pros outros".

Raimunda Pio

Fazendinha/Santa Quiteria

Percebe-se toda ironia final dos dois escravos querendo carregar a mula e fingindo ser escravos zelosos que so pensam no bem da senhora, quando na realidade estao zombando dela. Foram recolhidas varias versoes dessa historia, muito difundida nos municipios de Brejo, Santa Quiteria e Sao Bernardo.

Esconder o que sabe e outra malandragem que podia beneficiar o escravizado:

"Contaram meus avos. Esse negro era escravo do senhor. Entao ele criou muita raiva do negro. Quando foi um dia, ele perguntou ao negro, se o negro sabia ler. O negro disse que nao sabia. Ai ele disse, bem, pegou um papel e fez uma carta mandando dizer assim: Ai vai esse negro para voce prender ele e matar que ele e um ladrao, ele nao presta. Ai o negro levou a carta sem saber de nada. Quando ele chegou no caminho, talvez tocado de Deus, ele vai e pensou: 'vou abrir para ver o que tem nesta carta'. Ai achou assim, leu tudinho e achou deste jeito. Ai ele pegou aquela carta, jogou fora e botou assim: 'Amado Compadre, aqui vai este portador para voce me mandar tantos mil. Mande pelo mesmo portador'. Ai ele botou assim na carta, o negro botou. Ai quando ele chegou la e entregou, o homem so fez sacar o dinheiro e entregou para ele. E ele no bolso e clap! [bate as palmas] Se mandou e nunca mais! Ai ele mandou pedir o dinheiro, o homem. Ele mandou dizer o tempo que tinha que receber. Um tempo longo, nao sabe?, o negro, para nao dar tempo de ir atras. Ai ele foi simbora com o dinheiro, nunca mais, nunca mais. E o homem esperando, esperando. Nunca que lhe chegou aquele dinheiro. Ate que o homem, o compadre dele, foi saber do dinheiro que ele tinha mandado pedir e nunca mais. Para ele nao ficar zangado porque ja fazia muito tempo e ele queria saber onde tinha ficado esse dinheiro. Ai ele disse assim: 'Desse dinheiro? Nao sei desse dinheiro nao'. Mandando dizer que era pra mandar tantos milhoes. Ai ele disse assim: 'Ah nego! Ah nego! Se eu soubesse, eu tinha te dado o fim logo. Me enganaste aquele dizendo que nao sabia ler'. Ai pronto."

Francisca Rodrigues

Currais/Sao Bernardo

"O Legua Buji e um encantado que baixa no Tereco. (13) Se sumia um boi de carro, o dono falava e batia nos negros. Eles: 'Nao foi a gente, ioio'. Tinha sido eles que tinham comido, os pretos da senzala vivia roubando. Eles suplicavam Legua para defender eles. Ai aparecia o boi de novo no curral. O dono achava que tava errado e ai pedia desculpa, parava de bater. Mas no outro dia, cade o boi? Tinha sumido de novo."

Domingos Raposo

Timbiras

Nesta ultima historia ja entra o divino. O apelo ao divino podia ser ou a aparicao de um Santo protetor do escravo, ou a maldicao milagrosa do senhor. Sao Benedito tambem teve uma encarnacao local na Coroara:

"Era um menino pretinho que o Marcolino [dono da Caroara] criava. Ele era so para tirar capim pra cavalo e tratar da estrebaria. Quando foi um dia, outro menino disse para ele: 'Rouba para mim um pedacinho de carne e uma mao cheia de farinha que estou com fome'. Pois bem, quando ele foi tirar capim ele pega um pedaco de carne e uma mao cheia de farinha, porque ele podia tirar para ele. Ai ele tirou e foi levando. Quando foi saindo com a farinha e a carne ja arrumada na ponta da camisa escondida e o cofo por cima para tirar o capim, veio o Patrao e disse: 'O que e isso que estas levando, Benedito?' '- Isso nao e nada.' '-O que e isso?' -- '-E um bucado de fulores' '-Pois bota no chao!' Ai ele derramou no chao e virou fulores. Voltou pro rapaz: 'Nao deu para roubar'. E contou a historia. '- O rapaz, teu poder vai ser tao grande! Benedito, Benedito, Deus ajude que eu saia desse sofrer.' No outro dia, de manha, uma nega foi entrando no quarto de Benedito. Quando entrou ele tava de maozinha dada e o pescoco torto, ja tinha virado imagem. A imagem e dessa altura [mostra mais ou menos um metro]. Hoje ele esta na Parnaiba, porque os preto velho ja se acabaram tudo. Duas mocas velhas, Merinda e Mariquinha, levaram".

Raimunda Pio

Fazendinha/Santa Quiteria

Ao que parece esta festa de Sao Benedito era muito festejada na Ca roara:

"A festa de Sao Benedito da Caruara era em dezembro. Tinha a Capela do Santo. O Santo ia e vinha rodeando, quando chegava no pe do mastro fazia aquela festa. O vestido dele era um chambre branco com um cordao de Sao Francisco e as mangas cheias de flores. Sacudia aquelas flores no pessoal em volta do altar. Cantavam: 'Sao Benedito vem cheio de mangas de flores ...' e nao me lembro mais do resto. O velho Marcolino Rodrigues, dono da Caruara, fazia esse festejo todos os anos. Tinha o salaozinho de dois andares para dancar la em cima. Embaixo era o armazem. Os pretos dancavam na senzala. No salao dancava a familia dele e a gente de Santa Quiteria".

Maria Jose Fausto

Mata Roma/Santa Quiteria

A maldicao do senhor "ruim" ou "malvado" aparecia com frequencia na memoria oral. Atesta o sentimento de justica dessa memoria. Da morte o senhor tambem nao escapava. A morte aparece entao como a grande niveladora para o consolo do escravo. A maldicao do senhor na morte e a inversao que pode, in extremis, compensar as injusticas sofridas pelo escravo e sustentar, assim, os valores eticos proprios ao mundo campones da pos-abolicao. E o senhor sumindo do caixao, ou os dedos dele se cobrindo de "panarismo", ou a rede nova que leva o defunto se rasgando:

"O Lopes era o dono da escravatura da Guabiraba. Dizem que era muito ruim pros escravos. Quando ele morreu queriam levar o corpo pro Brejo. Mais nao foi. Nao puderam levar nao. Botaram ele numa rede nova, ai na Guabiraba. Quando chegava la, arriba, na chapada, ai, a rede rasgava com ele, caia no chao. Tornava a buscar outra rede, botava ele, chegava dentro, tornava a rasgar. Enterraram ele ai mesmo, ali no Cocal. E porque a rede rasgava nao sei que diabo era. Rasgava a rede nova com a pessoa morta dentro, devido aos pecados".

Avelino Goncalves

Pereira/Mata Roma

"Na Frexeira do velho Domingos Curico foi uma escravidao dura ... Dois escravos novos tava namorando dentro de casa. A velha, esposa do Domingo, descobriu. Ai cortou o cabelo e raspou a navalha a negra e deu uma pisa nela. Ai a negra saiu pro Bananal, se ajoelhou e pediu a Deus para a patroa ter uma filha de cabeca pelada. Ai ela teve duas de cabeca peladinha. E da velha secou o braco, so ficou com o couro em cima do osso."

Manuel Caldeira

Caruara/Santa Quiteria

A fuga podia ser individual ou coletiva:

"Felipe era escravo da fazenda do Ze Paulo. Nao queria trabalhar. Ele roubava de noite carne, toucinho, farinha, sal e fosforo e ia pro mato num lugar chamado Romao. No mesmo lugar tinha uma grota dentro de um mato fechado onde tinha agua o tempo todo. La era o lugar do escravo se esconder. Passava seis dias, oito dias so comendo o que roubava. Quando terminava um, ia roubar mais. Esse escravo foi preso, algemado pelo senhor dele, ate que, enfim, morreu deixando a dita grota do lugar, Romao, com o nome dele, Grota do Felipe [no municipio do Brejo]".

Manuel Messejano

Milagres/Brejo

"E, Felipe era escravo dos Candoz. Fugiu para Catirina. Vieram apanhar ele aqui. Levaram ele amarrado em cinza de rabo de cavalo. Quando chegaram la, deram muito nele."

Raimunda Pio

Fazendinha/Santa Quiteria

O escravo fugitivo, isolado, sempre dependia do furto para sua sobrevivencia. O quilombo, entao, era uma solucao que podia ser mais duradoura para se subtrair ao cativeiro:

"Um ia buscar os outros e de pouco aos poucos eles iam sumindo. Pulava de pedra em pedra para nao deixar rastro. E o senhor: 'O! Cade meus escravos?' Mandava o capitao-do-mato atras deles. Quando o capitao-do-mato, pretao da fazenda, encontrava um centro escondido, longe nas matas, a beira dum rio com rocas e bananas, ele olhava os pretos, os velhos, se tinha ferro. Os novos nao tinha porque eram nascidos no quilombo. Ai levava tudo".

Domingos Raposo

Timbiras

O quilombola procurava se fazer esquecer. Por essa razao quilombos nao descobertos nao constam da memoria oral. E o lado mais oculto do tempo do cativeiro. Em algumas comunidades negras, como na Santa Rosa (Municipio de Itapecuru-Mirim), por exemplo, existia a memoria dos "negros do mato", ou seja, escravos da fazenda que haviam se substraido ao controle do feitor e viviam escondidos nas proximidades, com a ajuda de alguns cativos. Contudo, a memoria oral registrava, sobretudo, a repressao aos quilombos. (14)

"O senhor deles [dos escravos] morreu. Ai ficou a senhora. Ai eles entenderam de largar ela, nao sabe? Ganharam os matos, pra la fizeram aquela aldeia dos negros. O Negro Velho que era o chefe da familia. Ai, la, eles quando de manha, dizia: 'Dez vai fazer fogo, dez vai fazer cafe, dez vai fazendo o almoco [...] e dez fica com ele causa do capitao-do-mato, que era para guarnecer o Negro Velho. Entao nessas alturas, o senhor, que a mulher tinha pedido para amansar os negros, ja andava procurando eles. Ai pegaram o negro, o Negro Velho. Pegaram, levaram para casa amarrado. Chegaram la, tiraram o couro do Negro Velho, espicharam e botaram bem na porteira do curral da fazenda do senhor deles que tinha morrido. Ai tinha escrito assim: 'Estas vendo ai o espelho? Se nao quizeram tambem ficar espichado, como esta esse ai, amansem e procurem a senhora de voces, senao morrerao do mesmo jeito e o couro vai espichado'. Ai os negros com isto comecaram a amansar e a chegar e ficar na casa da senhora." (15)

Francisca Rodrigues

Currais/Sao Bernardo

A historia daqueles que conseguiam escapar definitivamente do cativeiro e muito dificil de ser reconstituida. Mas, na regiao aqui estudada, e raro um municipio onde nao se encontrem alguns centros com nomes sugestivos, como Quilombo, Mocambo, etc. Da mesma maneira, sempre se tem noticias de algum centro isolado "onde so tem negros", mas que visivelmente nao foi feitoria.

O quilombola podia virar campones porque, ao lado do mundo da casagrande e da senzala, ja existia, na epoca da Balaiada, um campones livre com o qual ele procurava se confundir. (O capitao do mato, na historia anterior, nao precisava olhar se os velhos tinham ferro?) E e esse campesinato o principal ator da revolta dos Bem-te-vis, nome mais positivo que a memoria oral deu a essa guerra civil. Os escravizados tambem tiveram um papel de destaque na revolta. Aos quilombolas ja existentes nas matas de Codo, em 1838, foram se juntando mais escravos que aproveitaram a confusao para fugir. Quando Cosme Bento das Chagas assumiu a lideranca de dois ou tres mil quilombolas, estes passaram a jogar um papel mais ativo na revolta, que assim tambem foi a maior insurreicao escrava da historia do Brasil, tanto pelo numero de insurretos quanto pela dificuldade de serem derrotados, fato pouco assimilado pela historiografia sobre essa tematica. Dom Cosme teve uma visao politica excepcional e procurou a alianca com os bem-te-vis para lograr a liberdade para o seu povo. (16) Infelizmente nao encontrei registros significativos sobre ele na memoria oral. O que as pessoas ainda lembravam, em 1982, eram episodios da guerra onde os escravos foram protagonistas.

Os balaios aparecem na historiografia tradicional como terriveis sanguinarios que teriam cometido horriveis assassinatos, sem distincao de sexo nem idade. A memoria oral tambem registrou varios casos celebres, como o de Antonio Rulindo Garreto, sangrado pelos Bem-te-vis:

"Teve um frances aqui, o Antonio Rulindo Garreto, instalou-se na Santa Rita. Tinha serraria, quartos cheios de algodao. Nessa mesma guerra tinha os preto revoltosos. Ai sangraram ele em 1838 (o irmao do meu sogro lembrava). Diz que tinha um quarto cheio de pluma de algodao. Uma moca da familia se escondeu la e, quando aliviou o movimento, ela estava quase morta. No Anapurus tem um cemiterio de pedra. Uma velha me disse que ai ta o frances enterrado. Esse frances diz que correu da Vargem Grande e saiu no Tambor (nas cabeceiras do corrego Anapurus)".

Maria Garreto de Souza

Mata Roma

Mas quem era esse Rulindo? A seu respeito colheu-se o seguinte:

"Uma senhora que morava perto dos meus pais me contou: Antonio Rulindo Garreto pegava os preto, amarrava eles e botava em cima de um pau que pisava arroz. Ai mandava gritar que nem porco e sangrava eles. E ainda pegava mais as preta e preto, retalhava as nadegas, botava sal. Amarrava os pes e maos e atravessava num pau e dependurava na chapada e ia de vez em quando olhar para ver se estavam vivos".

Raimundo Passos Montelles

Anapurus

Dois outros habitantes do municipio de Anapurus contaram versoes parecidas, sempre associando a crueldade de Rulindo com o fim que os escravos revoltosos lhe deram. Uma versao ligeiramente diferente foi contada por seu Boaventura:

"O Bentinho Garreto, neto do Rulindo que me contou. Na Santa Rita tinha a feitoria do Rulindo Garreto. Ele tinha um genro que era muito malvado, chamado Faustino. Durante a guerra, vieram matar ele. Chegaram, ele pediu para comer primeiro. Botou a mesa, chamou os filhos, comeram. Ai o filho dele pegou uma imagem do Senhor, se ajoelhou no pe dos soldados: 'Por essa imagem, nao facam isso a meu pai!' Eles responderam: 'Por essa imagem e que a gente faz! Porque ele era malvado'. Pediu para ler um pouco na rede. Pegou o livro. Tava lendo, quando tava no ponto: 'Pode fazer!' Nenhuma arma pegou fogo. Ai disseram: 'Tu e bom para bala, mas nao e bom para faca e mataram ele de faca!'. O velho Rulindo caminhou pro Brejo, cacar recurso. Quando voltou, foi passar o rio Preto e, achando que nao ia se molhar, atravessou em cima do burro embotoado, ele vinha suado. Ai a agua entrou dentro das botas e estoporou ele".

Boaventura

Anapurus

Essa versao nao muda a estrutura fundamental da narrativa, so a transfere para o sogro do Rulindo. Em ambos os casos aparece claramente que a violencia revolucionaria dos Bem-te-vis e nada mais que a resposta a violencia da sociedade escravagista.

Perto da Manga teve o caso da escravocrata Don'Ana da Barra:

"Don'Ana da Barra (Barra do rio Munim com o Preto) foi se esconder nos morros do Anaja com um dos pretos dela pra fugir da guerra. Ai o preto saiu para mariscar (vir atras de mulher), ai pegaram ele, e ele teve que ensinar aonde ficava Don'Ana. Ai foram matar ela, pegaram tudo dela que ela tinha carregado, jogaram ela dentro do poco e botaram o forno em cima".

Francisco Martinho

Sao Roque/Vargem Grande

Outro caso famoso e o da portuguesa Eusebia Maria da Conceicao, que a Enciclopedia dos Municipios Brasileiros chama a "principal povoadora do Brejo" e que "foi barbaramente morta, com 21 facadas, quando da Balaiada no dia 13 de maio de 1839, no lugar Gameleira-Piaui, pelo balaio Antonio Bem-te-vi, que com mais de nove companheiros, depois de deceparem-lhe a mao direita, trouxeram-na em trofeu pelas ruas da vila alem de roubarem suas joias e Rs 1.200$000 em moedas de ouro". (17) Segundo a memoria oral, menos puritana que as enciclopedias, nao foi bem a mao que levaram em trofeu para o Brejo, foram as partes genitais:

"A Euzeba Maria, era chamada de Dona Cabana. Esticaram a coisa dela pro Severino olhar".

Januaria

Almas/Brejo

Euzebia Maria era a sogra do odiado prefeito do Brejo, Severino Alves de Carvalho, que logo no inicio da guerra fugiu para Parnaiba. Essa poderosa escravocrata tampouco era isenta de crueldade:

"O velho Hortencio, contando da velha Euzeba. Vinha um senhor tomando, por nome Antonio Joao mandou avisar que chegasse. Ela se valeu do Timoteo para salvar a situacao no Brejo. Se esconderam e, quando veio a turma do Antonio Joao -- ele vinha bem na frente, ai o Timoteo fez fogo nele com os tres filhos. Ai a Euzeba pisou na cabeca dele e dizia: 'Antonio Joao, tu e que vinha para acabar com o Brejo!'".

Zeca Lotide

Macambira/Buriti

Ja foi descrito como se "espichou o couro" de um negro aquilombado. Mais uma vez, nos parece que o fim dado a Euzebia Maria se inscreve no capitulo das vingancas pessoais contra os potentados escravocratas mais odiados da regiao.

Esses depoimentos demonstram, a meu ver, que a violencia dos escravizados revoltados e dos Bem-te-vis nao era cega nem indiferenciada. Pelo contrario, se dirigia contra aqueles prefeitos e donos de escravatura que tinham reconhecidamente praticado crueldades contra os cativos ou contra a populacao livre pobre. Nesse sentido, nao foi uma violencia primeira, foi uma reacao contra outras violencias, anteriores. A Balaiada representa assim um autentico momento de revolucao, onde o perseguido de ontem vira perseguidor e viceversa: quem sangrava seus escravos e sangrado, quem "espichava o couro" e espichado tambem. Os Bem-te-vis nao fizeram nada mais do que satisfazer as aspiracoes de justica das classes mais oprimidas da sociedade. Pena de taliao, sem duvida, mas havia outra opcao numa sociedade em que a justica ainda era subjugada aos interesses dos senhores de escravos?

A memoria oral do cativeiro no Maranhao e assim como uma janela oferecendo uma perspectiva privilegiada sobre a realidade concreta da escravidao nessa provincia. No primeiro plano dessa memoria vem as historias de vida dos antepassados diretos da familia, compartilhadas apenas por um numero reduzido de pessoas. No meio de campo, com mais visibilidade, a memoria oral das comunidades, sobretudo daquelas assentadas em "terras de preto". Sua origem legitima a posse e, junto aos episodios do seu desenvolvimento, tem a funcao de reforcar os lacos entre seus membros e a sua coesao interna. Finalmente, no pano de fundo, uma memoria regional, episodios que sao relatados em varios municipios. A perspectiva da memoria oral nao e neutra nem objetiva, mas exprime de maneira emocionante todo o sofrimento dos ancestrais escravizados, incluindo o estupro das escravas (ainda hoje negado por alguns politicos anticotas), e a maldicao aos seus torturadores -- os "malvados". Em alguns aspectos tambem espelha, de maneira ambigua, a incidencia do paternalismo ainda vigente ate hoje no interior do estado. Mas como vimos, a dicotomia entre o bom e mau senhor e bem mais sutil do que parece a primeira vista, e as perspectivas da memoria oral nao sao tao monoliticas. O interesse dessa memoria, entao, reside na sua incomparavel forca poetica de expressao, na sensibilidade com a qual retrata o cotidiano do cativeiro, e nos multiplos detalhes que permitem reconstruir com mais acerto essa experiencia singela, e ainda insuficientemente assimilada pela historiografia tanto brasileira quanto internacional, da escravidao dos africanos e de seus descendentes no Maranhao.

* Artigo recebido e aprovado para publicacao em marco de 2010.

(1) Matthias Rohrig Assuncao, Pflanzer, Sklaven und Kleinbauern in der brasilianischen Provinz Maranhao, 1800-1850, Frankfurt, Vervuert, 1993, p. 78-80.

(2) Para a pessima reputacao do Maranhao ver, entre outros, Bernardo Gama, "Informacao sobre a Capitania do Maranhao, dada em 1813 ao Chanceller Antonio Rodrigues Velloso". In: Projecao, Suplemento Cultural, Sao Luis, marco 1981, p. 14; Octavio da Costa Eduardo, The Negro in Northern Brazil. A Study in Acculturation, Seattle and London, University of Washington Press, 1966, p. 16; e Manoel Correia de Andrade, Dinamica de povoamento e a ocupacao do espaco geografico no Maranhao", Estudos universitarios, Recife, 7, 2/3 (1967), p. 46.

(3) Ver, por exemplo, Joao Antonio Garcia d'Abranches, Espelho critico-politico da provincia do Maranhao, dividido em duas partes: [...] por um habitante da mesma provincia, Lisboa, Tipografia Rollandiana, 1822, p. 40-41.

(4) Sobre essa categoria, ver Alfredo Wagner Berno de Almeida, "Terras de Preto, Terras de Santo, Terras de Indio -- uso comum e conflito", Cadernos do NAEA (Belem), 10, 1989, p. 163-196.

(5) Alem dos citados ver: Alfredo Wagner Berno de Almeida, A ideologia da decadencia: leitura antropologica a uma historia da agricultura do Maranhao, Sao Luis, IPES, 1983; Maria Januaria Vilela Santos, A Balaiada e a insurreicao de escravos no Maranhao, Sao Paulo, Atica, 1983; Jalila Ayoub Jorge Ribeiro, A desagregacao do sistema escravista no Maranhao, 1850-1888, Sao Luis, SIOGE, 1990; Maria Raimunda Araujo, Insurreicao de Escravos em Viana -- 1867, Sao Luis, SIOGE,1994; Regina Helena Martins de Faria, Trabalho escravo e trabalho livre na crise da agroexportacao escravista no Maranhao, Monografia do Curso de Especializacao em Historia Economica Regional, Universidade Federal do Maranhao, mimeo, 1998; Matthias Rohrig Assuncao, "Exportacao, mercado interno e crises de subsistencia numa provincia brasileira: o caso do Maranhao, 1800-1850", Estudos Sociedade e Agricultura, 14 (abril), 2000, p. 32-71; Josenildo de Jesus Pereira, Na fronteira do carcere e do paraiso: um estudo sobre as praticas de resistencia escrava no Maranhao oitocentista. Dissertacao de Mestrado, Programa de Pos-Graduacao em Historia, Pontificia Universidade Catolica de Sao Paulo, Sao Paulo, 2001; Judith Carney, "With grains in her hair: rice in colonial Brazil", Slavery and Abolition, vol. 25, no. 1, 2004, p. 1-27; Flavio dos Santos Gomes, A hidra e os pantanos. Quilombos e mocambos no Brasil (Seculos XVII-XIX), Sao Paulo, UNESP/Polis, 2005; Cristiane Pinheiro Santos Jacinto, Lacos & Enlaces: relacoes de intimidade de sujeitos escravizados. Sao Luis - Seculo XIX, Sao Luis: Editora da UFMA, 2008.

(6) Mario Maestri Filho, Depoimentos de escravos brasileiros, Sao Paulo, Icone, 1988; Agostinho Mario Dalla Vecchia, Os filhos da Escravidao. Memorias de descendentes de escravos da regiao meridional do Rio Grande do Sul, Pelotas, Editora Universitaria UFPEL, 1993; Maria de Lourdes Janotti e Zita de Paula Rosa, "Memory of Slavery in Black Families of Sao Paulo, Brazil". In: Daniel Bertaux e Paul Thompson (orgs.), Between Generations. Family Models, Myths, and Memories, Oxford University Press, 1993; Ana Lugao e Hebe Mattos, Memorias do Cativeiro. Familia, trabalho e cidadania no pos-abolicao, Rio de Janeiro, Civilizacao Brasileira, 2005.

(7) Matthias Rohrig Assuncao, A Guerra dos Bem-te-vis. A Balaiada na memoria oral, Sao Luis, SIOGE, 1988; 2a. Edicao, Sao Luis, Editora da UFMA, 2008.

(8) Maria Raimunda Araujo, Em busca de Dom Cosme Bento das Chagas -- Negro Cosme: Tutor e Imperador da Liberdade, Imperatriz, 2008.

(9) Ver a lista dos entrevistados, por municipio, no anexo de A Guerra dos Bem-te-vis.

(10) Forquilha que sustenta o telhado.

(11) Habitante da Lagoa do Bacuri.

(12) Lugao e Mattos, Memorias do Cativeiro, p. 52-53.

(13) Sobre esse personagem, ver Mundicarmo Ferretti, Encantaria de Barba Soeira: Codo capital da magia negra? Sao Paulo: Siciliano, 2001.

(14) Sobre quilombos no Maranhao, ver Gomes, A hidra e os pantanos; Araujo, Insurreicao de escravos; e Matthias Rohrig Assuncao, "Quilombos maranhenses". In: Joao Jose Reis; Flavio dos Santos Gomes (eds.), Liberdade por um fio. Historia dos quilombos no Brasil. Sao Paulo, Companhia das Letras, 1996, p. 433-466.

(15) Esta historia foi contada por D. Francisca, descendente de uma familia de senhores de escravos de Frexeira, no Baixo Parnaiba/PI.

(16) Sobre Cosme, ver Santos, A Balaiada; Araujo, Em Busca de Dom Cosme; e Matthias Rohrig Assuncao, "Cabanos contra Bem-te-vis: A construcao da ordem pos-colonial no Maranhao (1820-1841)". In: Mary del Priore & Flavio dos Santos Gomes (orgs.), Os senhores dos rios. Amazonia, margens e historias, Rio de Janeiro, Campus, Elsevier, p. 195-225.

(17) Rio de Janeiro, IBGE, 1957, verbete "Brejo".

Matthias Rohrig Assuncao, Senior Lecturer, Department of History, Essex University, Inglaterra, : assiincao@e,sse,x. ac.uk
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Author:Rohrig Assuncao, Matthias
Publication:Tempo - Revista do Departamento de Historia da UFF
Date:Jul 1, 2010
Words:15772
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