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A literatura em busca de um lugar neste seculo: apresentacao.

As mudancas na sociedade global ocorridas desde o final do seculo XX as duas primeiras decadas do XXI caracterizam-se pela celeridade e pelo impacto provocado no campo social e das ideias. A tecnica, sem duvida, descortinou um mundo novo, comprimido entre a promessa moderna de progresso e felicidade e o (des) cumprimento da jura. Se, por um lado, o imperativo tecnologico reduziu distancias, aproximou povos e culturas, por outro, ele e tambem responsavel por uma nova ordem global que exclui, desemprega, controla, impoe. Em todas as formas de expressao artistica e cultural, a avassaladora invasao do mundo da tecnica vem fazendo com que os novos paradigmas de forma celere se apresentem e se liquefacam. Essa rapidez pode ser observada nas estrategias das empresas de tecnologia da informacao para convencer o mundo de que o mantra da novidade e a marca de nosso tempo.

No campo historico-social, assistimos a queda das grandes ideologias politicas, especialmente a partir da dissolucao da Uniao Sovietica, mas a nova ordem surgida esta longe de significar apaziguamento das tensoes, ao contrario, ela incrementa o apetite voraz de um capitalismo de efeitos devastadores, enquanto no campo social observamos o recrudescimento de antigos e conhecidos fundamentalismos que pensavamos inoculados. A dissolucao da crenca na politica como possibilidade de transformacao social, alem da eleicao do mercado e do consumo como os novos totens da sociedade de hoje completam parcialmente o quadro. Com o campo literario nao seria diferente, e obvio. As circunvolucoes sociais e politicas e as formas de representacao literaria nao escaparam a vertigem da industria cultural, com impactos na reflexao fictional, seja no drama, na poesia ou na narrativa, bem como nas formas de producao, distribuicao e difusao dos produtos artisticos. Do mesmo modo, novos ordenamentos criticos surgem como respostas a revolucao constante operada no mundo da mercadoria e que impactam na reflexao plural das mais diversas expressoes literarias.

Ao propormos este dossie sobre o lugar na literatura neste inicio de seculo XXI, sabiamos da impossibilidade de abarcar os fenomenos da escrita, o papel dos escritores e a complexidade do campo literario de agora. Algumas questoes foram se impondo, a medida que selecionavamos os artigos enviados. Poderiamos destacar no conjunto de reflexoes escolhidas o discurso das minorias, a questao da religiao, os processos migratorios em escala global, o recrudescimento de diversas formas de fundamentalismo, alem dos efeitos das guerras, como o drama da diaspora. Alem dessas, questoes "petreas", como as relacoes entre literatura, historia e representacao, de certa forma, ainda estimulam pensar as estruturas sociais, politicas e culturais do presente. As transformacoes globais acentuam desigualdades, expoem assimetrias a que paises perifericos, principalmente, sao expostos. No caso da cultura, as mudancas ocorridas nos ultimos vinte anos mostram que na cena atual nem tudo e catastrofe ou destruicao. Atentos as possibilidades daquilo que Milton Santos (2002, p. 148) propoe como "consciencia universal", possivel de ser alcancada por uma outra globalizacao resultante da superacao do modelo atual e que assegure a maioria da populacao "a satisfacao das necessidades essenciais a uma vida humana digna", talvez possamos superar as "necessidades fabricadas, impostas por meio da publicidade e do consumo conspicuo".

A expansao global possibilitou o desenvolvimento de uma serie de redes culturais no campo da literatura, mas esse crescimento tambem beneficia a poucos. Nestor Garcia Canclini (2002, p. 60-61) diz que a assimetria da globalizacao nao gera apenas desigualdades na satisfacao das necessidades basicas da populacao. No campo cultural, ela tambem propicia a formacao de grandes conglomerados de cultura, com fusoes de editoras, livrarias e redes de comercio, o que facilitaria o acesso aos bens simbolicos, como no caso dos livros, mas isso tambem nao se verifica na pratica. A crise no ensino e o acesso cada vez mais restrito aos locais da chamada alta cultura, aliado ao preconceito contra a producao das camadas marginalizadas da populacao, acentuam o fosso entre as camadas socioeconomicas, especialmente, repetindo a politica de exclusao vigente por aqui e nas demais nacoes subalternizadas. A isso alude o escritor cubano Alberto Guerra Naranjo (2018, p. 269), ao comentar o panorama literario da Cuba de hoje:
   Cuba contiene en si una productiva y poderosa zona literaria en la
   actualidad. Coexisten varias generaciones de escritores
   intercambiando textos y visiones que van desde los escritores que
   tienen ochenta y tantos anos hasta los que andan escribiendo buenos
   textos y solo cuentan con una veintena de anos. Creo que es un
   panorama muy rico y desconocido para el lector de otras regiones
   del mundo y de latinoamerica y eso es lo lamentable, pero a traves
   de las redes sociales y de proyectos como el de ustedes el
   desconocimiento sera menor en la medida en que nos empenemos en
   mostrar nuestras literaturas e intercambiarlas como debe ser.


Nao se trata apenas de estimulo a comercializacao em grande escala, mas de rever a forma como beneficios sao partilhados na economia de mercado. No caso da literatura, o surgimento de novos suportes para o texto literario, a pirataria, o compartilhamento digital de textos apontam interessantes e inusitados rumos para o acesso e a difusao do livro e da leitura, com efeitos em areas tradicionais do comercio livresco, como e de se notar pelo fechamento gradual das livrarias fisicas. A conversao da frase-problema colocada como titulo deste dossie ("A literatura em busca de um lugar neste seculo") em pergunta-problema que inaugura a reflexao teorica neste espaco ("A literatura tem lugar neste seculo?") nos provoca inumeras indagacoes, visto que lugar e literatura sao sintagmas dominantes nestas duas proposicoes. A partir da questao levantada por Lucia Helena (2018), podemos perguntar inicialmente o que se entende por "lugar", como ele se estrutura e a partir de quais premissas e concepcoes.

Em sua experiencia de leitora e consumidora de literatura, Lucia Helena observa, em visita a livrarias, algumas muito tradicionais e de grande porte, que os livros com maior potencial mercadologico sao praticamente um unissono nas prateleiras desses espacos, enquanto que obras de teoria e critica ou mesmo as de ficcao tidas como mais complexas restringem-se a espacos menos nobres, no interior das lojas, e sua exposicao e limitada ao tempo de lancamento, com a presenca dos autores. Helena verifica esta tendencia em Buenos Aires, nos Estados Unidos e no Rio de Janeiro, onde livreiros mais tradicionais e alguns estabelecimentos vem gradualmente desaparecendo. A moda da reflexao benjaminiana, poderiamos dizer que o flaneur literario--aquele que porventura compreendia a ida as livrarias nao apenas como momento de consumo, mas principalmente como realizacao de uma experiencia unica--e membro de um grupo restrito, especie de confraria dos que circulam pelos poucos espacos de convivencia intelectual e humana remanescentes, que representam algo mais do que um balcao de compra e venda de mercadorias. Nos encontros virtuais, embora haja uma especie nova de reuniao, a presenca se da, ao mesmo tempo e paradoxalmente, em distancia e em ausencia, isto e, sem a interacao olho a olho, sem o afeto e o calor da troca pessoal que a flanerie propiciava.

Ao examinar o discurso literario como um dos lugares privilegiados da reflexao critica, Helena mostra como os espacos de complexidade configurados no texto literario e a reflexao critica que deles decorre estao sendo partilhados cada vez menos. O consumo restrito a certa demanda da producao literaria aponta para uma lacuna sensivel no universo leitor, visto que o estranhamento e a complexidade proprios a literatura sao relegados a um segundo plano, fruicao de um grupo de iniciados e/ou nostalgicos. Por outro lado, nota- se que o mercado privilegia a busca frenetica do mesmo, do facil, das tendencias da moda, fenomeno ditado pela logica do consumo. A questao levantada por Helena e produtiva e nos leva imediatamente a interrogar a propria definicao do que chamamos de "lugar", mais especificamente, o "lugar" da literatura. As respostas talvez sejam menos essenciais, pois nao ha uma "terra a vista" onde possamos desembarcar. O problema esta em jogo e neste jogo dependemos da contribuicao dos muitos apostadores, que lancam seus dados a partir de lugares determinados, e de seus loci de fala, que dizem muito acerca do panorama que queremos tracar.

Uma primeira provocacao a questao levantada por Helena poderia ser: existe um "lugar" da literatura? O que ha neste lugar? Quais forcas estruturam este espaco simbolico e multifacetado que chamamos de campo literario? Quem sao os sujeitos que o compoem, teorizam e problematizam? Que interesses eles representam? A literatura, porque e uma instituicao, nao reproduz, acentua e repete posicionamentos, a rigor, ideologicos? Falar de um lugar do literario nao requer problematizar as contradicoes, impasses e limitacoes deste campo? Para discutirmos o alcance dessas questoes, a avaliacao de Terry Eagleton (2006, p. 24), em obra conhecida, nos servira de fio condutor para a apreciacao critica dos textos que os leitores encontrarao neste dossie:
   Se nao e possivel ver a literatura como uma categoria "objetiva",
   descritiva, tambem nao e possivel dizer que a literatura e apenas
   aquilo que, caprichosamente, queremos chamar de literatura. Isso
   porque nao ha nada de caprichoso nesses tipos de juizo de valor:
   eles tem suas raizes em estruturas mais profundas de crencas, tao
   evidentes e inabalaveis quanto o edificio do Empire State.
   Portanto, o que descobrimos ate agora e que a literatura nao existe
   da mesma maneira que os insetos, e que os juizos de valor que a
   constituem sao historicamente variaveis, mas esses juizos tem, eles
   proprios, uma estreita relacao com as ideologias sociais. Eles se
   referem, em ultima analise, nao apenas ao gosto particular, mas aos
   pressupostos pelos quais certos grupos sociais exercem e mantem o
   poder sobre outros.


Depreendemos das afirmacoes de Eagleton que nao se pode debater o campo literario fora de uma perspectiva essencialmente politica. Rossi Alves e Marildo Jose Nercolini, em "A cultura urbana periferica: silenciamentos e taticas", partem de uma concepcao do literario como pratica social, a partir do pensamento de Raymond Williams, para afirmar que a complexidade das praticas deve ser investigada nos contratos, negociacoes e embates travados no campo literario. A literatura nao pode ser isolada do campo social e das atividades outras integradas ao universo estetico do texto ou que com ele dialogam, a partir das condicoes materiais de producao, circulacao e legitimacao. Dai o conceito aberto de literatura com o qual os autores refletem acerca das Rodas Culturais e dos Bailes Funk, producoes essencialmente perifericas de areas urbanas do Rio de Janeiro.

Tanto as Rodas Culturais quanto os Bailes Funk sao modalidades de arte urbana, manifestacoes de habitantes das cidades, em espacos publicos geralmente abertos, consumidas a preco modico e que nao dependem do apoio de instituicoes hegemonicas, publicas ou privadas, de poder. Para estas manifestacoes, importam menos os lugares prestigiosos do consumo. As praticas ali desenvolvidas e os produtos partilhados por centenas, milhares de pessoas, jovens, em sua maioria, abracam o literario de diversas maneiras. O trabalho de Alves e Nercolini nao advoga para estas manifestacoes reconhecimento academico ou atencao das esferas da chamada alta cultura para suas praticas. Os autores questionam por que meios a producao cultural literaria se manifesta e expande, o que nao pode ser feito sem o devido questionamento dos espacos. E se formos atentar para as diversas manifestacoes literarias nao captadas pelo radar da academia, veremos que a nocao dura de literatura, muitas vezes, e insuficiente. Voltando a Eagleton (2006, p. 365), podemos dizer que uma concepcao aberta de literatura nos permite abrir caminhos para entendermos com mais amplitude a materia literaria e como "em um mundo dividido e fragmentado, ainda e possivel incorporar um senso de valor universal", significando que "em um mundo sordidamente material, ainda se pode vislumbrar um raro lampejo de transcendencia".

A cultura, obviamente, integra o universo problematico que chamamos de vida social. Ela e parte de um problema, conforme Eagleton, e nao solucao para ele. No caso das Rodas Culturais, o embate constante com o poder publico, que detem a autorizacao do uso dos espacos citadinos, e um entrave as manifestacoes culturais fira do eixo hegemonico. A fala rimada das ruas estudada por Alves e Nercolini depende, portanto, da maneira como as politicas publicas encaram a cultura.

As Rodas Culturais compreendem que a arte deve ocupar os espacos da cidade, recusando a ideia de individualizacao e passividade impostas pelos poderes constituidos ao cidadao. Se ha poder e repressao, deve haver tambem resistencia, como entendem os autores, em consonancia com o que pensa Michel Foucault, em Microfisica do poder (1979). As Rodas procuram revitalizar locais degradados, promover encontros, buscando sensibilizar o comercio, a prefeitura e os moradores para as possibilidades de cada regiao. Com isso, ha uma contraordem, dizem os autores, a qual, ao inves de apagar o local, chama a atencao de seus habitantes para ele, especie de interacao afetiva em que sentimentos comuns sao partilhados. A dificuldade de negociacao com o poder publico, as Rodas desenvolvem estrategias de resistencia: se o som for proibido, o evento se fara sem a tecnologia; se houver controle do espaco, as redes ajudam na programacao e difusao dos eventos, de forma rapida e um tanto sigilosa, para que o poder nao tenha tempo de articular formas de repressao. Nesta agora contemporanea, as questoes, obviamente, se distanciam, porem, curiosamente, se tocam, em comparacao como consumo da arte em espacos tradicionais.

Se o desaparecimento das livrarias e um fenomeno gerado pelas regras de consumo de um mundo cada vez mais guiado pelo mercado, as trocas culturais na modalidade arte de rua sao marcadas essencialmente pela resistencia e pela tentativa de driblar o instituido, partindo do pressuposto de que nao se pode conceber um "lugar" da arte, que tambem nao contemple as manifestacoes culturais perifericas. Se o livro e a livraria dependem da venda dos produtos culturais, dentre outras atividades que as viabilizem, como os cafes, as vendas de CDs, videos, roupas e outros produtos, a repressao e os entraves a uma manifestacao artistica gratuita e ampla revelam um vies preconceituoso e reducionista com que se busca definir a funcao e o consumo da arte. Sob este prisma, uma obra de valor seria aquela que galgaria os degraus da legitimacao, como no caso de um Gregorio de Matos, por exemplo. Podemos questionar, por exemplo, em que se difere a poesia pornografica, satirica e marginal do autor baiano--que eram lidas pelo proprio nas ruas da entao capital do pais--da poesia dos jovens de periferia, igualmente recitadas nas ruas das grandes capitais? O que torna a obra de Matos altamente valorizada, enquanto a dos jovens poetas e estigmatizada?

Estes sujeitos e suas manifestacoes artisticas se veem, com razao, expulsos da atividade economica, como entende Nestor Garcia Canclini. Porque nao obedecem a logica do mercado, a insercao das culturas perifericas em circuitos de mais reconhecimento e valor sera, para Canclini (2002, p. 86) muito limitada. Poderiamos perguntar, em tom de provocacao, se uma manifestacao cultural que reune por vezes dois ou tres milhares de pessoas necessitaria dessa legitimacao, especialmente se sabemos que uma obra "legitimada", e de sucesso, quando muito, consegue atrair umas duas ou tres centenas de interessados. E ai teriamos que fazer uma provocacao inversa: o valor de uma obra deve ser definido somente por seu local de fala e de escuta e pela quantidade de consumidores que ela porventura amealhe? Ou seja, a complexidade do problema continua residindo na pergunta, com mais forca e peso, do que nas respostas.

As falas rimadas das ruas e a fala bailada do funk servem para ampliar o debate, como entendem Alves e Nercolini, porque trazem a discussao a pergunta sobre o lugar da literatura e da propria questao dos usos do lugar, demandando uma analise critica dessas praticas culturais que, ao final, e politica:
   Mesmo que as Rodas de Cultura e os Bailes Funk sejam expressoes
   culturais distintas, conectadas, respectivamente, ao Hip Hop e ao
   Funk, com suas diferencas e embates, ambas sao criacoes feitas por
   jovens perifericos e em um contexto de cidade que, historicamente,
   discrimina, criminaliza e desvaloriza a periferia e os sujeitos que
   nela vivem.


Em relacao a escrita das periferias, Ricardo Oliveira de Freitas e Sandra Andrade dos Santos (2018, p. 128) entendem que
   [...] a producao literaria da e sobre a periferia, sobre os
   juridicamente minoritarios, sobre comunidades subalternizadas e
   desprestigiadas tem assumido importante papel ao contrapor modelos
   de pensamento canonicos, forcas hegemonicas e, combativamente,
   atribuir novos sentidos politicos as causas, aos problemas e as
   prioridades das comunidades no contexto do neoliberalismo.


Situando a reflexao na obra de Conceicao Evaristo, Freitas e Santos (2018, p. 129) mostram que a dupla mao que leva a escritora a pensar sua obra como expressao de seus interesses particulares, tambem a direciona a produzir uma "literatura feita para a comunidade, para fortalecer a comunidade de brasileiros descendentes de africanos, brasileiros negros". Dai os autores denominarem Evaristo representante- integrante de uma cultura negro-brasileira. Neste sentido, toda obra, e com a de Evaristo nao e diferente, compoe-se de uma serie de outras, na angustia da influencia que leva o escritor negro a afirmar-se no cenario contemporaneo e, no mesmo movimento, a recuperar e valorizar toda uma poetica ancestral de autores e autoras afro-brasileiros que carregam em seus textos esse passado encharcado de identidades, lutas, historias e memorias. Essa pratica e essencialmente politica em sua natureza.

Quanto a isso, Claudio do Carmo (2018) nos mostra que se levamos em conta que a politica e movida por interesses e negociacoes, trocas, perdas e ganhos, "e necessario cuidar que a literatura nao esta imune a isto, seja no texto literario, a ficcao propriamente dita, seja no aspecto exterior ou fisico da autoria". A essas questoes nao escaparam Mario de Andrade e Machado de Assis, dentre outros, para ficarmos nos mais prestigiosos. Claudio do Carmo recorta aspectos da relacao entre literatura e politica e conclui que essas discussoes (seculares, diz) permanecem residuais no debate atual sobre as politicas literarias. Este problema diz respeito a autor e obra. E a ficcao, propriamente dita, pode nos ajudar a pensar essas relacoes. Ao analisar os meandros da intersecao entre obra e autoria em Orhan Pamuk, Ewerton de Freitas Ignacio e Emile Cardoso Andrade (2018, p. 238) acentuam o vinculo entre autobiografia, escrita ficcional e historia:
   Pamuk e sua personagem--o poeta Ka--viveram a experiencia do
   deslocamento, uma vez que estiveram, cada um a seu modo, na
   condicao de exilados. Pamuk fez uma estadia nos Estados Unidos
   depois de suas polemicas consideracoes sobre o massacre de armenios
   e os embates com a guerrilha curda em seu pais. Ja o poeta de Neve
   esteve exilado na Alemanha por muitos anos, o que para ele se
   constituiu em uma experiencia traumatica que, por seu turno,
   resulta em um travamento criativo, em razao do qual a personagem
   nao conseguiu produzir sequer um poema no periodo compreendido por
   seu exilio.


Entre a experiencia e sua ficcionalizacao, existe o mundo em que ambas as atividades se dao. A literatura esta inserida neste mundo com que lida de forma a dar organizacao e sentido a ele, o que nao quer dizer que nos, leitores (e) criticos, tenhamos a ultima palavra, a nao ser que ela seja expressao de nos mesmos e daquilo que entendemos particularmente como o "nosso" mundo. Porque se le de determinada forma e nao de outra, parece que as reacoes criticas estao ligadas a pre-conceitos particulares e de grupos, e tambem a nossas praticas que, por vezes, nos impede de reconhecer as atividades culturais diversas de nosso raio de compreensao, sejam elas as de prestigio, como no caso de Pamuk, ou as pouco valorizadas, conforme o exemplo das Rodas de Cultura e dos Bailes Funk. Toda manifestacao artistica e, portanto, food for thought, expressao de lingua inglesa bastante utilizada pelos cientistas e que significa "alimento para o pensamento". Uma boa contribuicao a essas indagacoes e a fala de Julian Fuks, o premiado autor do romance A resistencia, lancado em 2015 pela Companhia das Letras, em entrevista a esse dossie:
   E muito dificil voce olhar pra um presente da literatura e da
   narrativa e nao enxergar diversidade, multiplicidade, etc. E um
   tempo em que nada se assentou, nada prevaleceu sobre o outro, nada
   se esqueceu, esta tudo convivendo simultaneamente. De partida, e
   possivel dizer que essa e uma das marcas do contemporaneo, mas tem
   que ter muita cautela com essa nocao, porque em qualquer tempo voce
   tem essa multiplicidade de discursos e de projetos esteticos, ou
   essa multiplicidade. A partir disso, no cenario brasileiro
   contemporaneo, penso que, perfis que antes nao tinham tanto espaco
   no meio literario, lentamente tem ganhado vozes. Nesse ponto, a
   literatura brasileira tem sido mais diversa pelos perfis dos
   autores e das autoras, como, por exemplo, mais mulheres escrevendo,
   mais literatura de autoria negra, a presenca de uma literatura de
   periferia que vai ganhando forca, talvez nao tao bem abarcada e
   assimilada ainda pelo mercado ainda, mas de outras maneiras, como a
   forca que emerge dos saraus de periferia, Slam Poetry e essas
   coisas que voce ve e que sao elementos que estao ganhando bastante
   forca e vida no cenario contemporaneo. Mas ha, tambem, um tipo de
   literatura mais ligado ao mercado editorial, mais assimilado e mais
   aceito, e que tem pra mim como fenomeno mais interessante o
   hibridismo, ou melhor, a narrativa que nao se constitui mais como
   pura (FUKS, 2018, p. 273).


Como se ve, tambem a percepcao de alguns escritores, como Fuks, e a de que os espacos multiplicados na contemporaneidade representam um avanco, o que nao significa que os produtos mais sintonizados com o mercado editorial devam seguir essa tendencia e nem a enfase em autores mais comprometidos com a criacao implica necessariamente sucesso de vendas. Entretanto, Fuks nao deixa de acentuar que mesmo um tipo de literatura mainstream flerta com um interessante hibridismo. Autores laureados, como John Maxwell Coetzee e Orhan Pamuk, agraciados com o Premio Nobel, trazem a cena literaria instigantes reflexoes sore a criacao literaria como forma de reflexao e questionamento politicos. Sobre a questao do hibridismo, Helena (2018, p. 28) dira que, no romance Verao, Coetzee "toma a seu cargo pensar e repensar a relacao dinamica e capitalista estabelecida entre a sociedade e o mercado e, destes, com a assinatura implicita de um pacto selado cada vez mais voraz e antropofagico em que o mercado engolfa a literatura". Verao trata de uma suposta biografia de Coetzee, ja morto, a ser escrita pela personagem Vincent, que nao tem sequer uma ideia precisa de quem seja o biografado. A autoironia--Coetzee esta vivo--e marcante, e estabelece uma critica voraz as regras do mercado, a cultura das celebridades, de que se vale o escritor para repensar "a relacao dinamica e capitalista estabelece entre a sociedade e o mercado" (HELENA, 2018, p. 28).

Essas questoes inserem o autor no circuito critico que pensa o papel dos escritoresintelectuais na contemporaneidade. Orhan Pamuk, de acordo com Ignacio e Andrade (2018, p. 237), "discorre sobre a dupla identidade da Turquia e os choques culturais entre Ocidente e Oriente, que se configuram como caracteristica marcante do pais natal de Pamuk". No Brasil, autores como Milton Hatoum, Michel Laub e Bernardo Carvalho, para ficarmos em alguns mais conhecidos do publico, tambem se preocupam com as questoes de identidade em suas escritas migrantes, em uma especie de reapresentacao do real a partir dos embates e polarizacoes do mundo contemporaneo que, frequentemente, estimulam os fundamentalismos e provocam guerras.

O problema da migracao e um dos efeitos deste campo de lutas culturais, economicas, religiosas e politicas. Andrea Correa Paraiso Muller apresenta um exemplo bastante sintomatico destas possibilidades de escrita: a autora analisa O caso Mersault, do argelino Kamel Daoud, escrito em frances e em dialogo intertextual com O estrangeiro, classico romance de Albert Camus em que o franco-argelino estruturou atraves da personagem Sr. Mersault uma visao do absurdo da existencia.

Como se ve, o dialogo de Daoud com Camus retoma as questoes coloniais ja investigadas por este, desta vez sob o prisma dos estudos pos-coloniais, tracando um paralelo entre a historia individual--representada por Daoud na figura de Moussa, irmao morto do narrador, que a ele procura dar voz--e a historia tout court. Muller vai mostrar que a intertextualidade proposta por Daoud com Camus rende mais do que simples jogos de escrita: e vao alem, expandindo o discurso para a problematizacao mais ampla sobre os efeitos do colonialismo e das complexas relacoes criadas no ambito da cultura e da politica. Para Muller (2018, p. 231), o romance de Daoud "revive a historia da literatura argelina de lingua francesa, problematizando e trazendo para o presente muitas das questoes abordadas por seus antecessores, entre elas, a lingua e a relacao dessa literatura com Camus".

Neste sentido, as narrativas do trauma e das catastrofes produzidas ao longo dos processos de exploracao colonial e a descolonizacao que sucede esses momentos obscuros da historia sao poderosos instrumentos para se repensar os diversos e complexos lugares de fala na literatura contemporanea. Temos em maos uma serie de obras literarias narrativas que investigam os arquivos individuais e coletivos, como pensa Shirley de Souza Carreira (2018). Elas operam, em seus relatos ficcionais, uma incursao obsessiva e com um que de urgencia que vai se transfigurando, ao final, em uma alegoria de nossa era das catastrofes, para usar uma expressao cara a Eric Hobsbawn.

Falar de memoria e igualmente tratar do esquecimento. A experiencia, porque nao volta, entretanto, pode ser relatada, mas a memoria tem seus lapsos, enganos, limitacoes. A historia so retornaria, desta forma, em ruinas (licao benjaminiana), por meio de fragmentos, residuos coletados em momentos de perigo, nos quais o individuo e sua historia passam a representar o corpo social. Sonata em Auschwitz (2017), de Luiza Valente, O cisne e o aviador (2015), de Heliete Vaitsman, e Nas aguas do mesmo rio (2005), de Giselda Leirner sao tres momentos deste corpus literario que investe na questao dos processos migratorios, do trauma e dos locais de fala reconduzidos pela memoria ao escrutinio do presente. Carreira estuda a Shoah ressignificada por estas tres escritoras que distendem o campo limitado dos registros historicos para conduzi-los, no espaco aberto do discurso literario, ao patamar da critica das ideias, pelas quais se abrem passagens para uma reflexao ampla sobre as consequencias da barbarie, materia-prima das ficcoes do trauma.

Estamos diante de narrativas de/em transito, ficcoes que entrecortam a geografia e a historia mundiais, inventariando o sistema das catastrofes modernas cujos efeitos sao sentidos ainda hoje. A poesia nao esta indiferente ao questionamento do lugar dos povos e de sua autodeterminacao. Se a ficcao pode inventariar historias de forma a esmiucar, em um universo mais amplo e com inumeros personagens, as origens, transformacoes e reapropriacoes do trauma seja pela memoria ou atraves da critica aos arquivos, a poesia, com sua capacidade de concentracao do maximo no minimo, nos leva tambem a compreender o processo de formacao dessa cultura pos-colonial, como no caso da literatura dos paises africanos que tem o portugues como lingua oficial.

Igualmente traumatica, a colonizacao portuguesa deixou como heranca aos espoliados uma lingua dominante que se misturou com as linguas locais e essa simbiose, longe de poder ser desfeita, precisa ser compreendida em toda a sua extensao. Por meio de quatro poetas contemporaneos de Mocambique--Ana Mafalda Leite, Sangari Okape, Sonia Sultuane e Hirondina Joshua--Vanessa Riambau Pinheiro (2018) entende haver uma motivacao epicocoletiva a guiar as autoras, o que os versos de Ana Mafalda Leite bem sintetizam: "Talvez alguem tenha ouvido tua voz caminhando rente ao deserto/ e rente ao mar Indico/ do outro lado do tempo, num outro mar e num outro continente/ Aqui no deserto a geografia do amor e um estranho desenho" (PINHEIRO, 2018, p. 154). Por meio dessas vozes, a historia do individuo se ve impregnada pelo destino historico, pela reminiscencia dos eventos do passado na promessa do presente.

Riambau destaca as mulheres-esfinge, imprevisiveis, conscientes da multiplicidade da heranca e da impossibilidade de se desmisturar. Sobre Okapi, Riambau afirma que "ao definir-se, a exemplo de Ana Mafalda Leite, o poeta ja nao encontra mais suas fronteiras, diluidas nas aguas do Indico, ciente de sua incompletude: "Eis o que sou: ilha/ ou corpo cercado/ de gente/ por todos os lados" (PINHEIRO, 2018, p. 155). E que lugar esta essa literatura a buscar? O processo de descolonizacao e as lutas pela independencia provocam os poetas a pensar espacos de liberdade que vao alem da impossivel rejeicao da heranca do passado colonial em favor de uma literatura de raizes fincadas na terra espoliada, mas que e generosa o suficiente para incorporar o golpe e pensar o futuro de um projeto humano amplo.

A justa indignacao contra o passado colonial pode levar, obviamente, a polarizacoes do tipo dominadores e dominados, porem, ao avancar a historia, a complexidade das relacoes entre o que foi e o que permanece leva os poetas a situarem sua reflexao na rememoracao de catastrofes, traumas, reconstrucoes identitarias, com vistas a construcao de futuros que nao desconhecam o passado nem as porosidades do hoje. O carater acentuadamente politico da literatura de hoje requer perguntas complexas e respostas plurais, como aponta Carmo (2018, p. 51): "Em todo caso, o que se tem, mesmo que veladamente, e uma subjetividade que em tempos atuais se transforma explicitamente numa literatura de ideias, afastando remotamente qualquer carater ludico, estetico, num termo: ficcional".

Claudio do Carmo alude ao ficcional no sentido amplo de um campo em que as ideias se expressam atraves das formas literarias, mas nao se descolam de uma politica textual contestadora. Em "O direito a literatura", Antonio Candido (2017, p. 174) nos ensinava que devemos pensar os direitos humanos a partir do pressuposto de que precisamos "reconhecer que aquilo que consideramos indispensavel para nos e tambem indispensavel para o proximo". Por isso, a distribuicao dos bens, sejam eles compreensiveis, como Candido os chama--educacao, comida, casa, vestuario etc. -, ou incompreensiveis, como no caso da literatura, um bem simbolico, e um direito. Direito a liberdade, a poesia, "em todos os niveis da sociedade" (CANDIDO, 2017, p. 176). O que pode, entao, a literatura, sendo um bem "incompreensivel", portanto, singular, se concordarmos com mestre Candido que ela e um direito de todos? O que pode o poema "a partir de uma perspectiva mais voltada para os eventos menores da existencia, as coisas insignificantes do cotidiano", em que a poesia articula memoria e esquecimento, como no exemplo de Ana Martins Marques, estudada por Mariane Pereira Rocha e Aulus Mandagara Martins (2018):
   Se houvesse
   um museu
   de momentos

   um inventario
   de instantes

   um monumento
   para eventos
   que nunca aconteceram

   se houvesse
   um arquivo
   de agoras

   um catalogo
   de acasos

   que guardasse por exemplo
   o dia em que te vi atravessar a rua
   com teu vestido mais veloz


O museu de momentos, de instantes inventariados, eventos inexistentes compostos de agoras, acasos e momentos fugidios contrasta com a imagem utilitaria dos museus como repositorios de um conhecimento acumulado e arregimentado, o que significa reconhecer a barbarie historica que eles simbolizam. O museu de Marques, ao contrario, e um catalogo da experiencia que se vive e esvai; apaga-se com o ser, com a memoria e, ao final "desestabiliza, portanto, a concepcao de museu como o templo dos grandes acontecimentos e obras representativas do passado" (ROCHA; MARTINS, 2018, p. 186). Ve-se que o lugar das ideias e politico por excelencia, conforme Carmo, o que Rocha e Martins reafirmam, na possibilidade de a poesia (a literatura) exercer um papel critico em que os objetos ganham nova significacao. Debora Chaves e Fernanda Aquino Sylvestre (2018, p. 166), em outra mirada, a das cronicas, sao certeiras:
   [...] a contemporaneidade exige de nos uma atualizacao ou uma
   atualidade; ha uma constante necessidade de revisitarmos o passado
   a fim de atualiza-lo em relacao ao presente e, consequentemente,
   desconecta-lo do seu tempo aparente para em seguida oferece-lo a
   nossa necessidade de contextualizacao.


Em dialogo com Giorgio Agamben, Chaves e Sylvestre estudam a cronica de Joao Ubaldo Ribeiro e o exemplo nao poderia ser mais caracteristico desse universo de "agoras" de que tratamos neste dossie. Se a cronica esta ligada a uma temporalidade dada e a um campo literario um pouco mais restrito ou determinado do que o do romance, visto que a cronica e geralmente destinada a ser veiculada em espacos midiaticos. A cronica nasce, vive e sobrevive no tempo, descolando-se de sua origem e destinacao, passando a figurar nao apenas como documento, memoria, mas especialmente como obra de prestigio. Olhar para o passado e olhar para o presente: na dialetica afastamento/proximidade ocorre "uma percepcao em relacao ao passado que o aproxima da necessidade de subscrever o tempo, isto e, o contemporaneo deseja registrar aquilo que so pode ser observado a partir de um olhar diferenciado ou mesmo singularizado, a respeito daquilo que se quer examinar" (CHAVES: SYLVESTRE, 2018, p. 167).

O museu de momentos fixado pela poetisa Ana Martins Marques dialoga com a possibilidade de uma "agoricidade" que nao se restringe ao registro de objetos em um local dado--o museu, no caso -, mas se expando para os locais em que se articula uma geografia invisivel a uma historia do porvir. Chaves e Sylvestre, na mesma direcao, entendem, concordando com Tiphaine Samoyault (apud CHAVES; SYLVESTRE, 2008, p. 169), que "desde a origem, a literatura esta duplamente ligada a memoria. Oral, ela e recitada, seus ritmos e suas sonoridades sao organizados de maneira que se inscrevam por muito tempo na memoria". Dai que seus conteudos nao se dissociam de uma "obrigacao de memoria: coletivamente, e preciso recolher a gesta fundadora, coletar e registrar os altos feitos, as acoes resplandecentes, uma estoria constitutiva e constituinte. A origem esta la, na necessidade absoluta de precisar uma origem".

Esses paradoxos e essas ilusoes de origem e de centro provocam a tese de Ana Martins Marques: se a funcao do museu e preservar o passado, a memoria ali colocada e exposta estaria preservada; no entanto, retirados do mundo do sujeito, os objetos lembrados nao estariam mais disponiveis a todos, inclusive para o poeta que ali os aloca. O museu tem a funcao de preservar a ideia de origem, entretanto, ele retira daquele que ali deposita sua memoria sua possibilidade de usa-la com liberdade. De modo semelhante, sem esquecer suas particularidades, ha um desejo impossivel de origem que faz com que o fenomeno literario seja sempre um evento de instauracao no presente de um passado impossivel de ser recuperado. Por isso o contemporaneo, como se ve no texto de Chaves e Sylvestre, e o cerne do problema a ser investigado, justamente na especie literaria que focaliza o tempo: a cronica. Escritores inquietos, como Joao Ubaldo Ribeiro, articulam a memoria da experiencia vivida a uma apropriacao da historia que amplia a visao "acerca do papel da ficcao contemporanea dentro do universo formador de opinioes e escolhas" (CHAVES; SYLVESTRE, 2018, p. 180).

Uma poderosa imagem alegorica do contemporaneo e bem descrita por Lara Luiza Oliveira Amaral e Luzia Aparecida Berloffa Tofalini (2018, p. 196):
   O seculo XXI guarda uma menina de poucas palavras que esta a
   procura do seu pai. Ela caminha a esmo pelas ruas a procura de
   alguem que a ajude, que possa ouvir o silencio das suas falas
   desconexas. Como um flaneur que vislumbrava as vitrines de
   Baudelaire, a menina assiste a vida turbulenta das pessoas que
   correm pelas esquinas, ruas e cafes. O relogio da catedral corre
   com os seus ponteiros, estamos todos atrasados demais, atarefados
   demais, preocupados demais.


No inicio de nossa reflexao, aludimos ao flaneur descrito por Walter Benjamin como um simbolo de um passeador que, entre os objetos da cultura, nao se deixa cooptar pelo fetiche da mercadoria enquanto produto, mas a entende como materializacao de varias forcas culturais e esteticas a serem apreciadas e nao simplesmente consumidas. Na flanerie de Uma menina esta perdida no seu seculo a procura do seu pai, de Goncalo M. Tavares, a diferenca daquele sujeito descrito pelo filosofo alemao, busca-se refugio no silencio, segundo Tofalini. Goncalo retoma, sob novo angulo, a questao da tecnica no mundo dos objetos e da multidao: com o dominio da natureza, o homem corre o risco de ser tragado pela tecnica, por conta de uma especie de cegueira interior que o impede de vislumbrar os valores autenticos.

A questao do silencio remete a diversas formas de silenciamento. O escritor Goncalo M. Tavares pergunta como alcancar a palavra em um mundo de tanto alarido, diz Tofalini (2018, p. 215): "O mundo moderno, com seu ensurdecedor passo da grande massa, faz com que os medos, receios e angustias do personagem calado sejam silenciados pelo ritmo alucinante de um povo desconhecido". A resposta, que nao vem no romance de Tavares, aponta, curiosamente, para a ultima questao candente deste dossie: o problema da religiao.

Recordemos o modo com que Walter Benjamin, em suas teses "Sobre o conceito de historia" (2012), ja havia apontado os grandes temas da modernidade, em uma revisao critica que promove o encontro entre tecnica e religiao, entre materialismo historico e teologia. O anjo da historia de Benjamin ve como barbarie o que para nos e progresso e pensa a questao religiosa em sua relacao com a ordem profana. A novidade de Benjamin reside no seu distanciamento das visoes iluministas e marxistas da religiao, sem necessariamente se alijar das duas, buscando na relacao entre materialismo historico e messianismo uma possibilidade de se pensar o homem comum e o comum do homem atraves de uma palavra compreensivel. Pensar a palavra e o que torna a literatura uma atividade humana especifica. A literatura e um como se, uma forma aberta de dizer o que os discursos filosoficos e historicos nao podem, ao menos da forma com que o discurso literario opera.

Em "Preguntar por Dios o un problema de pertinencia semantica", Roberto Onell entende que essa pertinencia se explica por conta do problema do divino ter sido deixado de fora do espaco publico por uma visao ilustrada europeia moderna. O divino foi restringido aos espacos delimitados do templo e da consciencia individual, mas no caso latino- americano, ao contrario, as ordens religiosas se estabeleceram nos espacos abertos que hoje chamamos de publicos, onde se desenvolveu uma experiencia religiosa diferida, justamente na esfera publica, de onde a visao iluminista havia procurado retirar a religiao. A literatura produzida nas Americas Latinas tambem se caracteriza por esta diferenca em relacao ao modelo europeu. A fe crista motivou na Europa diversos generos literarios e gerou escolas de pensamento, como a Teologia. Entre nos,

[...] las ordenes que evangelizaron la America no solo carecieron de territorios propios, sino que promovieron la experiencia religiosa en la abierta espacialidad de campos y aldeas, con lo cual se desenvolvieron en lo que hoy llamamos espacio publico y, mas aun, fueron sus artifices(ONELL, 2018, p. 65).

A lacuna no pensamento teologico desenvolvido entre nos fez com que o paradigma literario se apresentasse como campo privilegiado da pergunta sobre Deus. Douglas Rodrigues da Conceicao, citado por Onell, discutiu a questao da promessa em Machado de Assis, entendendo-a atraves de uma semantica do futuro iluminada por uma transcendencia que visava ao humano, assim como na proposta benjaminiana um modo de se pensar o homem comum atraves daquilo que e compreensivel a ele nos remetia a religiao, tema que o homem comum compreendia com clareza. Quanto a isso, Onell (2018, p. 72) diz:
   Decimos que la literatura refiere al mundo, dice el mundo, y que,
   al decirlo, lo recrea por revelacion; nos lo devuelve renovado,
   reiluminado, redescrito, reformulado; nos lo entrega como un hecho
   del lenguaje. Eso decimos, pensamos, creemos, practicamos.


Ao compreender "A religiao como materia prima da poesia", Douglas Rodrigues da Conceicao aponta que, embora efetiva, a presenca da literatura no campo das Ciencias da Religiao, e recente, o que abre para ambos os discursos possibilidades nao exploradas de investigacoes tematico-conceituais. De certa forma, "o reconhecimento de que para certos dominios do fazer cientifico a significacao desempenha um papel fundamental" (CONCEICAO, 2018, p. 75) e tambem um problema de pertinencia semantica, realizado a partir do potencial teologico que a questao assume no discurso literario, como no caso do Gregorio de Matos--em que Conceicao detecta certa cristologia ao lado da elaboracao criticoteologica--lido por Antonio Candido na Formacao da literatura brasileira, obra posteriormente questionada por Haroldo de Campos, em O sequestro do barroco. Nao nos cabe adentrar aqui na polemica Candido-Campos, mas sim apontar, seguindo os passos de Conceicao, a discussao estetico-critica que toma a religiao como objeto e que segue seu curso na reflexao de importantes nomes, como o de Jose Guilherme Merquior, por exemplo.

Representante do vies contemporaneo que estuda a literatura sob o abrigo das Ciencias da Religiao, Conceicao avalia neste dossie a obra de Luis Augusto Cassas. Uma pequena passagem de um dos poemas investigados e exemplar:
   ele e a ovelha que foi perdida e reencontrada
   good i$ money god i$ money
   a ovelha que extraviou a todo$ e foi extraviada
   a ovelha que por todo$ foi penitenciada
   e agora clama e chama por todo$ na estrada


Para Conceicao (2018, p. 81), ao substituir o "S" pelo cifrao, "Cassas habilita sobre o poema uma regiao semiotica de ordem visual. Simbolo inconteste do dinheiro, cuja religiao que lhe rende um altar nao e outra senao a do consumo e a do mercado, o cifrao torna-se a principal insignia desta religiao". A critica, a satira e a linguagem ferina nos lembram, obviamente, de nosso Boca do Inferno, mas a leitura de Conceicao quer concluir por uma critica solar de Cassas ao Aufklarung, ao "logos que repreende e acusa o homem contemporaneo de viver enclausurado numa forma outra de delirio religioso", que faz da poesia de Cassas uma especie de critica que toma o poetico-estetico como gesto primordial.

Talvez seja neste cenario de encontro entre a poiesis e a aesthesis que a "Teopoetica" defendida por Eli Brandao da Silva e Huerto Eleuterio Pereira Lima (2018), em "Teopoetica do traste em Manoel de Barros" e a "Mitopoetica", de Cesar Octavio Carbullanca Nunez, no artigo "Mito-poietica de Pablo de Rokha" (2018), possam fechar com exito o circuito critico em torno das relacoes entre literatura e religiao. A leitura do termo "Teopoetica" por Eli Brandao e Lima mostra que ha uma relacao entre poesia e teologia cujas origens nos remetem as antigas narrativas miticas, no espaco geografico hoje denominado Grecia--de onde o problema do conceito de literatura tambem se instaura no pensamento filosofico e perdura ate hoje como questao. A essa tradicao, a visao judaico-crista constitui-se outro importante vies da cultura ocidental, o que implica dizer que na America Latina, herdeira dessas imbricacoes, e de se estranhar a relativa ausencia da analise sobre as relacoes entre literatura e religiao.

A ideia de ausencia tambem marca o trabalho de Cesar Octavio Carbullanca Nunez, que a observa no esquecimento da poesia de Pablo de Rokha, um dos grandes poetas da moderna poesia chilena. Se Eli Brandao e Lima apontam para um poema especifico de Manoel de Barros ("Teologia do traste"), Nunez (2018, p. 93) procura compreender como "de manera semejante a la comprension de Huidobro, acerca del poeta como "pequeno dios", Rokha "registra al poeta como un lugar de revelaciones, en quien ocurre las grandes gestas de la humanidad.

Vemos que as grandes gestas e as narrativas miticas surgem como ponto de contato em que a palavra de origem e perseguida de forma a que possamos tracar um percurso historicoteologico-literario que compoe o circuito da transtextualidade em Barros e Rokha. De Rokha, Nunez aponta o ateismo que nao se furta, embora de forma burlesca e irreverente, a dialogar com o transcendente. Para Rokha, em seu lugar de fala, o Chile, e "hecho poeta por la gracia de Dios" (Cf. NUNEZ, 2018, p. 97).

Nunez divide a poesia de Rokha em quatro caracteristicas dominantes: o enigma da arte; o fazer artistico como ato politico; a arte como organismo vivo; e atividade metaconceitual. Com Manoel de Barros, Eli Brandao e Lima (2018, p. 118) afirmam que
   A grande materia da poesia manoelina sera mesmo os despojos
   humanos, incluindo o proprio homem, aqueles que, assim como as
   fezes, sao considerados como dejetos pela sociedade do sublime e do
   higienizado: os loucos, os sem-teto, as prostitutas, os andarilhos;
   as coisas desimportantes: latas, sucatas; a lingua inculta que o
   autor, metaforicamente, chamou de: desperdicios verbais. Toda essa
   gama de referencias ao traste ja se faz presente em sua obra
   primeira, assim como o poeta apontou em sua fala. Sua poesia esta
   voltada para o mundo, nao para o sideral, o celeste, o sublime, sua
   materia e a pessoa humana.


Destaca-se na avaliacao destes dois importantes poetas latino-americanos seu carater politico, que pode assumir uma analise teologica da literatura como se, ao dizer que o poeta e um pequeno Deus, um Deus vivo e da palavra, Rokha estivesse redimensionando a questao da secularizacao da religiao, conforme proposta por Walter Benjamin; ou em que o Messias retorna para redimir os loucos, os sem-teto, as prostitutas e os rejeitados da sociedade, evocados por Manoel de Barros em sua "Teologia do traste". Em Barros, ha uma perspectiva do Cristo revolucionario que os poderes querem aprisionado nos templos e na consciencia individual, conforme Roberto Onell muito agudamente indicara.

Nesses espacos de discussao sobre as relacoes entre literatura e religiao, os textos aqui trazidos ao leitor certamente requerem uma disposicao para a abertura critica acerca de um terreno que, como se ve, mostra-se ainda inexplorado e com potencial para grandes expedicoes conceituais. Esse processo de (re) descoberta da palavra e de suas manifestacoes, na literatura e na religiao, ou melhor, na intersecao critica entre as duas, faz jus ao titulo de nosso dossie e a nossa reapropriacao do livro de Canclini, em cujo titulo inserimos o iniciante seculo XXI e a pergunta sobre os rumos da literatura.

Com suas contribuicoes polemicas e instigantes acerca do momento atual da reflexao acerca da literatura, esperamos que este dossie possa contribuir para uma resposta plural, ainda que precaria e provisoria a importante frase de Roland Barthes (1987, p. 22): "O real nao e representavel e e porque os homens querem constantemente representa-lo por palavras que ha uma historia da literatura". A palavra literaria, seja ela politica, feminista, teologica, estetica, etica, religiosa, desenha um cenario investigativo que, ao ser entregue o leitor atento, o impele a tentar resolver o enigma da Literatura-Esfinge: "Decifra-me ou devoro-te".

DOI: https://doi.org/10.12957/soletras.2018.37316

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Claudio do Carmo (1)

Douglas Rodrigues da Conceicao (2)

Paulo Cesar S. Oliveira (3)

(1) Doutor em Ciencia da Literatura/ Poetica (UFRJ). Professor Titular de Literatura junto ao Departamento de Letras e Artes / DLA, da Universidade Estadual de Feira de Santana / UEFS. Pos- Doutor em Estudos Comparados pela Universidade de Lisboa. E-mail: claudiodocarmog @ gmail.com.

(2) Doutor em Ciencias da Religiao, UMESP. Estagio Pos-Doutoral, Universite Paris Nanterre. Professor Adjunto IV da Universidade do Estado do Para. Atua como docente permanente do Programa de Pos-Graduacao em Ciencias da Religiao (PPGCR) da Universidade do Estado do Para (UEPA), Belem, PA, Brasil. E-mail: abismos @ gmail.com. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior--Brasil (CAPES)--Codigo de Financiamento 001.

(3) Doutor em Ciencia da Literatura (Poetica) pela UFRJ. Professor Adjunto de Teoria Literaria da Faculdade de Formacao de Professores da UERJ. Coordenador Adjunto do Programa de Pos- Graduacao em Letras e Linguistica da FFP/UERJ.
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Author:Carmo, Claudio do; Conceicao, Douglas Rodrigues da; Oliveira, Paulo Cesar S.
Publication:Soletras
Date:Jul 1, 2018
Words:8390
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