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A historia de uma historia: terrorismo extraterrestre a favor do governo, Brasil 1968/A history of a history: extraterrestrial terrorism in favor of the government Brazil 1968.

"Qualquer semelhanca com fatos reais ou irreais, pessoas vivas, mortas
ou imaginarias, e mera coincidencia" O Bandido da Luz Vermelha, filme
de Rogerio Sganzerla

"Eta planetinha metido a besta" Sem essa, Aranha, filme de Rogerio
Sganzerla


ROTEIRO DE LEITURA

Dadas as escolhas narrativas deste texto, estas notas iniciais sao necessarias, uma vez que essas escolhas refletem a procura por uma escrita que apresente uma pluralidade de interpretacoes possiveis, diferentes, ainda que nao contraditorias entre si, da historia do grupo de Aladino Felix; a rigor uma discussao sobre dispositivos do terror durante a Ditadura Militar e mesmo, mais amplamente, as relacoes entre Estado e violencia, tambem a que a filosofia politica moderna chamaria de "ilegitima".

O caso de Aladino Felix tem aspectos um tanto quanto delirantes, quase psicodelicos - mais para uma bad trip de acido lisergico, ao mesmo tempo em que toca em aspectos centrais da historia da Ditadura Militar, dadas as conexoes entre Aladino e setores estrategicos do governo, ou seja, temos um caso, a primeira vista, extravagante -um grupo terrorista liderado por um ufologo-, mas situado em jogos politicos decisivos, sobretudo em torno da decretacao do Ato Institucional 5 (AI-5) em dezembro de 1968, quando o governo ditatorial ampliou o alcance de seus poderes excepcionais. Essa trama sugere a possibilidade de uma escrita historiografica que abarque linguagens politicas diversas das pressupostas por ideias acerca da racionalidade do poder e da "normalidade liberal", uma vez que desvela aspectos despotico-paranoicos dos dispositivos estatais (FARIA 2015). Essas ideias em torno de uma "normalidade liberal", como o mostra, entre outros, Nicolas Guilhot (GUILHOT 2005), tem presenca marcante na literatura internacional sobre "transicoes democraticas". Essa literatura se baseia na tese de que as ditaduras sao uma especie de passado irracional, superado a partir de intervencoes reformadoras guiadas por especialistas competentes, capazes de conduzir uma sociedade ao seu destino civilizatorio: uma democracia controlada por mecanismos de representacao, pautada pela minimizacao dos conflitos e pelo respeito aos direitos humanos.

Embora o tema tambem pudesse ser abordado por uma narrativa mais usual, optei por uma configuracao narrativa que me pareceu mais condizente com a explicitacao do estado de perplexidade em que o caso de Aladino nos coloca. Isso nao apenas por uma questao estetica, inclusive porque nao ha como separar a estetica de um texto de suas taticas de inteligibilidade; mais precisamente, a questao e sobre os limites colocados para uma narrativa historica pautada em modelos cristalizados de verossimilhanca e o enfrentamento da propria logica de um poder ditatorial que mascara o seu absurdo em simulacros verossimeis, que dissimula a excecao pela proliferacao de leis, a ditadura pelo aparente funcionamento "normal" das instituicoes, a violencia pela sensatez do poder que atinge "apenas" os inimigos internos da nacao (CARDOSO 1997). Fiz isso sem abrir mao do cuidado com as fontes, a pesquisa e a relacao com a historiografia. Nesse aspecto especifico, esse trabalho segue linhas bem tradicionais.

A escolha narrativa tem duas diretrizes principais. A primeira, dividir o texto em diferentes narradores. Sai, assim, do consagrado "modo objetivo" da historiografia profissional (JABLONKA 2016). Basicamente, um modo de exposicao em que o narrador coincide com o autor, mas nao no sentido de um sujeito singular com suas dores e desejos, e sim no de uma subjetividade, por assim dizer, unificada institucionalmente pela metodologia. Um narrador que ve o passado como um todo e o explica aos seus leitores. Deixando, portanto, pouco espaco para a duvida, o inacabado e mesmo o inapropriavel pelo discurso historiografico. A alternativa proposta por Jablonka e a de um modo narrativo reflexivo, em que o historiador explicite o processo de investigacao, suas lacunas, suas perplexidades e, eventualmente, suas motivacoes mais subjetivas. No texto aqui apresentado, optei pela multiplicacao dos eus narrativos. Aqui cada uma das vozes narrativas e a de um historiador em potencial que reconheco, nao sem certo desencanto, em mim mesmo. O Narrador Historicista, o Academico Niilista e o Bestializado sao vozes para diferentes taticas de estudos possiveis sobre o caso de Aladino Felix.

Admito que ha uma certa ironia nesses nomes, beirando o caricatural, mas, de forma alguma, essa ironia pretende ser desqualificadora: em certo sentido eu sou e acredito nesse narrador historicista; sou e vivo nesse espaco academico em que o niilismo e composto pelo excesso de citacoes submetidas a uma logica pos-historica de modas que se sucedem. O narrador historicista tambem e aquele que mais se deixa contaminar pelo arquivo: procurei deixar isso implicito na escrita (sobretudo no uso de adjetivos)--alem de uma certa perplexidade, porque cada documento sobre o caso conta uma historia diferente. E isso nao por mero acidente ou pela variedade natural das fontes, e sim porque o caso e cercado dos misterios criados pelas politicas de silenciamento e segredo em relacao a memoria e aos arquivos da ditadura. O niilista acumula conceitos, todos potencialmente iluminadores, mas nao necessariamente coerentes ou mesmo compativeis entre si. Por fim, nao sou aqui o bestializado naquele sentido do livro de Jose Murilo de Carvalho, como se fosse traco sociologico de uma suposta incapacidade brasileira para a cidadania, mas me sinto bestializado no sentido mais imediato da expressao do documento (mal) usado no livro Os bestializados: assisto a tudo perplexo e so consigo expressar esse espanto inquieto, assustado e sem uma explicacao global coerente para a historia ou estrategia de saida. Nesse sentido bem particular, eu sim, e talvez o leitor tambem, assisto a tudo bestializado. Um leitor academico, provavelmente, privilegiara as vozes do historicista e do niilista, mas nao sao elas que fazem a diferenca neste texto. O fundamental aqui e a eclosao do bestializado, justamente a voz que nao teria lugar num contexto academico, blase, ironico e pretensamente sofisticado. Nao fosse pela voz do bestializado, este texto nao precisaria da estrategia narrativa adotada.

Essa opcao por vozes distintas por certo da ao texto aquele aspecto caricatural, quase como um roteiro cinematografico em que personagens exagerados, estilizados, alternam-se, de modo esquematico. Porem, o texto e assim nao com o intuito de definir o que e um historicista ou um niilista, nao ha aqui essa pretensao teorica. Trata-se apenas de mascaras possiveis e estranhas para uma historiografia perplexa. Dai a segunda diretriz, que remete a quarta voz presente no texto: a de falas do filme O Bandido da Luz Vermelha, dirigido por Rogerio Sganzerla, lancado em 1968. O filme e baseado num personagem real, o assaltante Joao Acacio Pereira da Costa, e trata, de maneira fragmentaria e grotesca, de sua trajetoria no mundo do crime, explorando aspectos sensacionalistas da cobertura midiatica sobre o bandido. Ao longo da trama, o bandido da luz vermelha tem seus passos registrados por telejornais, revistas e encontra pelo caminho personagens tambem caricaturais, como policiais violentos e politicos corruptos. A montagem do filme e marcada pela combinacao de diferentes registros, passando pelo melodrama, por filmes de acao e pela simulacao de reportagens, compondo uma especie de repertorio de estilos midiaticos e esteticos do periodo. Ha, ali, um aspecto proposital de inacabamento e explicitacao dos artificios da producao do filme--tudo confluindo para uma visao estilizada sobre a violencia urbana, o sensacionalismo, o panico social e as fronteiras tenues entre crime e lei, bandidos e policiais, num quadro de miseria social, uma "estetica do lixo" que vale como uma alegoria da historia e da sociedade contemporanea (XAVIER 2014).

As frases citadas, tirei do roteiro do filme (SGANZERLA 2008), Mas, mais que isso, tentei pegar um pouco do clima do filme, que mistura a violencia policial, truques de politicos picaretas, "submundos" do crime, exaltacao a violencia, num vies tragicomico. O filme me ofereceu aquilo que nao encontrei na historiografia academica: uma estrategia formal que tambem funciona como interpretacao, producao de inteligibilidade, para o caso Aladino Felix e, evidentemente tudo que ele evoca sobre 1968, como marco contracultural e, paradoxalmente, de intensificacao dos poderes ditatoriais em meio ao terror politico. Optei por cenas intercaladas, em que o historiador vai a sala de cinema a procura de elucidacao das tramas do politico.

Rogerio Sganzerla escreveu um Manifesto em 1968, durante as filmagens de O Bandido da Luz Vermelha. Reproduzo aqui algumas passagens por as considerar elucidativas para o teor desse meu texto:
O Bandido da Luz Vermelha persegue, ele, a policia enquanto os tiras
fazem reflexoes metafisicas, meditando sobre a solidao e a
incomunicabilidade. Quando um personagem nao pode fazer nada, ele
avacalha.


Porque o que eu queria mesmo era fazer um filme magico e cafajeste, cujos personagens fossem sublimes e bocais, onde a estupidez--acima de tudo--revelasse as leis secretas da alma e do corpo subdesenvolvido. Quis fazer um painel sobre a sociedade delirante, ameacada por um criminoso solitario. (SGANZERLA 2008, p. 15).

Sobre o caso de Aladino, existem alguns trabalhos de referencia. O primeiro, e mais importante para o meu texto, e a dissertacao de Claudio Suenaga (SUENAGA 1999). O trabalho de Suenaga nao trata, exclusivamente, do caso de Aladino. A dissertacao e mais voltada para a ufologia e para os OVNIS como mito contemporaneo. Ha extensas reproducoes de documentos, textos de jornais e de livros de Aladino, alem de o pesquisador ter entrevistado alguns membros do grupo envolvido nos atentados, bem como o filho do Aladino, Raul Felix. Nao compartilho aqui da linha de discussao desse autor sobre a questao da ufologia, mas sua dissertacao, com certeza, e referencia fundamental para quem quiser conhecer melhor o caso de Aladino Felix.

Quando eu terminava de escrever este texto, saiu uma reportagem sobre o caso de Aladino, baseado em documentacao do SuperiorTribunal Militar (QUADROS 2018). A materia e menos centrada na questao da ufologia e mais no tema da relacao do terrorismo de direita com a ditadura militar e a decretacao do AI-5. A materia e excelente, apesar de se apresentar aos leitores como se fosse um furo de reportagem. Uma simples pesquisa teria revelado ao autor da reportagem a existencia da dissertacao de Suenaga que, ao seu modo, apresenta de modo convincente essa mesma tese: a de que o grupo de Aladino tinha vinculos com setores do governo, que suas acoes nao foram autonomas e que elas visavam a criacao de pretextos para o "endurecimento" do regime; uma pesquisa na hemeroteca da Biblioteca Nacional tambem teria revelado ao autor da reportagem que essa mesma tese ja era apresentada, com outros fundamentos, pelo periodico Movimento, em materia da edicao de 04 a 10 de dezembro de 1978, que tratava mais especificamente de Erasmo Dias, entao Secretario de Seguranca Publica de Sao Paulo e denunciado por atuar junto a grupos terroristas de extrema-direita. Ali casos como esse, o de Aladino, e o caso Para-sar, plano de atentados e execucoes denunciado em 1968, em que o responsavel era o brigadeiro Joao Paulo Burnier, eram comparados ao incendio do Reichstag. Segundo a materia, Aladino Felix era "um estranho individuo conhecido por falar em discos voadores e interpretar profecias de Nostradamus" e que teria assumido a autoria de varios atentados, em 1968, dizendo estar sob ordem do general Jayme Portella, chefe do Gabinete Militar do presidente Costa e Silva, conhecido por ser um dos mais arduos defensores do endurecimento do regime, o que viria no final daquele mesmo ano, 1968. No item "Os embalos terroristas de Sabado Dinotos" (Sabado Dinotos era um dos pseudonimos de Aladino) Movimento afirmava que Aladino Felix nasceu em Piquete, Sao Paulo, e que teria sido operario de uma fabrica de explosivos do Exercito nessa cidade (informacao que nao vi em nenhum outro lugar).

Por fim, observe-se que havia militares que tambem se preocupavam com o fenomeno dos objetos voadores nao identificados, nao necessariamente por acreditarem que se tratasse de discos voadores tripulados por extraterrestres. Esses objetos aparentemente se multiplicaram no posguerra e suas aparicoes tem fortes vinculos com a questao da tecnologia militar, nao somente em seus aspectos tecnicos, mas tambem as ansiedades, o panico e os traumas decorrentes da militarizacao do espaco aereo, bem como a logica politica da Guerra Fria (SCHRAMM 2016). No pos-guerra, houve uma intensa mobilizacao do imaginario politico em torno desses objetos voadores, ora sob esse prisma das tecnologias militares, ora mediante a tese de que os objetos eram tripulados por seres extraterrenos. Nesses seres, por sua vez, eram projetados anseios e medos catastroficos, tingidos pelos climas asfixiantes do anticomunismo e da hecatombe atomica (SANTOS 2015).

Abertura

Sao Paulo, seculo XX, la embaixo esta o predio da delegacia do Departamento de Ordem Politica e Social (DOPS); seu telhado sujo e carcomido contrasta com a imponencia vista do chao pelos simples transeuntes. Observando-se assim, de cima, nao entendemos como esse predio, por si so, impoe tanto respeito, medo mesmo. Quando passam em frente, as pessoas ficam em silencio, param de rir, tomam ares de seriedade, como se alguem mal-intencionado as estivesse observando meticulosamente, sao obrigadas a mudar de calcada, indo ao outro lado da rua. Descendo mais um pouco, chegamos a altura das amplas janelas. Pelo vidro, vemos delegados e policiais conversarem animadamente, andando de um lado para outro, orgulhosamente exibindo seus revolveres na cintura. Um homem, numa sala fechada, atulhada de pesados arquivos de madeira escura, senta-se a maquina de escrever e olha para a janela, para o ceu, em aparente devaneio. Nos entramos pela janela e percorremos os corredores do predio. Ele parece um daqueles predios de escritorios comuns, em que pese a arquitetura triunfal da fachada. Mas num canto, algumas salas se destacam das outras, pelas portas pesadas, pelos cadeados e pelas correntes de metal. Numa das celas, com o corpo marcado de queimaduras, socos e pontapes, deitado numa cama muito apertada e suja, outro terraqueo parece tentar dormir.

Sim, e ele mesmo, o homem que ia explodir o planeta, o unificador das 12 Tribos de Israel, o enviado de Jupiter e vingador de Venus. Agora, ele espera numa cela. Espera o que? Eles viriam em seu socorro? Eles, quem? Os militares? Os alienigenas? Quem, afinal de contas, e esse terraqueo? Que pais e este? Num momento historico terrivel, um verdadeiro faroeste intergalatico de outro mundo.

O narrador historicista, ou o sofredor do mal-dearquivo: Dezoito de dezembro de 1968, o delegado de policia do Departamento de Ordem Politica e Social de Sao Paulo, Benedito Sidney de Alcantara, fundador da loja maconica de Aguai-SP nos idos de 1954, portanto um homem iniciado nos misterios orientalistas do culto a razao e nos prazeres do pertencimento de uma seita de autoproclamados notaveis, concluia seu relatorio sobre o inquerito movido contra o "grupo terrorista liderado por Aladino Felix, vulgo Sabado Dinotos." (1)

Escrito em meio a arquivos que continham milhares de fichas sobre subversivos, ao lado de celas em que presos lidavam com suas feridas e conjecturavam sobre o amanha, num predio cujo complexo de onipotencia se concretizava em suas estruturas de ferro e em que as janelas amplas apenas permitiam que o calor abafado vindo da rua atingisse de modo ainda mais inclemente aquelas figuras, que mais pareciam fantasmas saidos de um conto policial. O relatorio, nem por isso deixou de lado as artes literarias e os devaneios liricos e metafisicos, que a lida com o crime tantas vezes proporciona a seres brutos e impressionaveis. Delegados de policia, coroneis, generais, homens da lei, forjados no utilitarismo do terror e da violencia, nem por isso deixam de se admirar com a solidao das estrelas e a vigencia da lei e da ordem em escalas cosmicas, frente ao coracao insondavel dos terraqueos, sobretudo os subversivos.

Ungido com o nome santo de Benedito, o delegado iniciava seu opusculo (nao era alta literatura, mas o que esperar de um relatorio escrito numa quarta-feira ensolarada, dias depois de ser anunciado pelas televisoes de todo o pais que o terrorismo obrigara os governantes a concederem a si mesmos poderes extraordinarios?), com consideracoes historicas sobre o terrivel ano de 1968:
Conquanto seja finalidade precipua do presente relatorio expor tudo
quanto foi possivel investigar e apurar, no que tange ao impatriotico
movimento terrorista quo vem preocupando todos que desejam um Brasil
engrandecido o ordeiro (...)


O Narrador Historicista, ou o sofredor do malde -arquivo: (...) "necessario se torna, embora seja do conhecimento geral, se trace o quadro historico que nos trouxe, como consequencia, reacoes sangrentas que, a todo custo, nos empenhamos em debelar." Sem revelar em seu relatorio de que reacoes sangrentas se tratava, e quem eram os responsaveis por essas mesmas reacoes, o delegado prosseguia: depois de vitoriosa a "Revolucao de Marco do 1964", o governo adotara "medidas saneadoras", colocando o pais"no verdadeiro caminho da ordem e da democracia", aplicando sancoes contra aqueles que pretendiam transformar o Brasil em mais um "satelite de Moscou", corruptos e subversivos, insatisfeitos com a derrota de seus planos maleficos procuraram entao, por todos os meios, realizar sua revanche.

Na leitura do delegado, esse quadro historico ensejara a emergencia de duas forcas, a direita e a esquerda, essa procurando, por todos os meios, levar a Nacao para o regime comunista; aquela pretendendo que se adotassem medidas drasticas e radicais para derrotar os comunistas. Como criaturas dessas forcas, alertava o delegado Benedito, "tem surgido autores audazes, que instituiriam no Pais um clima do terror". Dai a extensa lista de atentados: roubos de armas, assaltos, bombas; ao todo 30 investidas, entre dezembro de 1967 e agosto de 1968.

O grupo liderado por Aladino estaria entre aquelas forcas indoceis da direita, sendo responsavel por atentados como o da bomba lancada nas proximidades do Quartel General do II Exercito a 15 de abril de 1968; a explosao de bomba na noite de 15 de maio de 1968 na Bolsa de Valores; a detonacao de explosivos nas "dependencias sanitarias" do predio onde funcionava o Departamento de Alistamento das Forcas Publicas de Sao Paulo; bem como um assalto ao Banco Mercantil a 01 de agosto de 1968. No caso do assalto, escrevia o delegado, ficara patente a responsabilidade intelectual do soldado da Forca Publica, Jesse Candido do Moraes, bracodireito de Aladino Felix, e a participacao direta dos terraqueos "Ica", "Corisco" e "Baixinho", "todos maconheiros e conhecidos malandros."

Quem e este terraqueo que se assina com o peculiar pseudonimo de Sabado Dinotos? Perguntava o relatorio. Em um de seus livros, anotava o reflexivo delegado da ordem social e politica, sob as ondas de calor abafadas pela frente fria que se avizinhava, Aladino asseverava que os chamados Discos Voadores que atormentaram a humanidade nas decadas seguintes as guerras mundiais vinham de Jupiter, planeta habitado por uma raca superior, cuja missao era livrar a humanidade da maldicao em que ela recaira desde os tempos biblicos - salvacao que, para Aladino, se daria por meio de uma hecatombe redentora.

Somente os puros sobreviverao a catastrofe, escrevia o delegado, sentindo a tentacao de recair em devaneios metafisicos que o desviariam de seu dever de defensor da ordem. Os demais povos perecerao nas chamas, "por serem impuros e em virtude de originarem de Venus, Marte, Saturno e outros planetas considerados de categoria inferior." Devido a esses contatos mais que especiais, Aladino Felix soube de planos secretos de conspiradores revanchistas contra o "movimento de 1964", advertindo imediatamente seus conhecidos no exercito, como o terraqueo e general da reserva do exercito Paulo Trajano da Silva. Este, por sua vez, informara outros militares, chegando a diretoria da Policia Federal, na pessoa do terraqueo Florimar Campello e a chefia do II Exercito, na figura do coronel Edgar Barreto Bernardes, e mesmo ao Gabinete Militar da Presidencia da Republica, orgao de extrema relevancia, uma vez que abarcava a Secretaria do Conselho de Seguranca Nacional, a cargo do general Jayme Portella--conspirador sensacional, braco-direito do ditador, no cargosimulacro de Presidente Costa e Silva. Como numa verdadeira transmissao de alarmes telepaticos, um braco-direito passara a informacao para outro braco-direito, levando o panico a todo o governo--pelo menos de acordo com o relatorio do delegado. A senha para a explosao da rebeliao revanchista seria dada por Carlos Lacerda, um dos maiores instigadores do golpe de 1964, entao em conflito com o Governo devido as suas pretensoes pessoais - Lacerda queria ser, ele mesmo, o ditador e acabou sendo colocado em segundo plano pelos militares-, em discurso em janeiro de 1968, razao pela qual as Forcas Armadas se colocaram em prontidao, realizando manobras que, dias depois, a imprensa cinica tratou com deboche, taxandoas de ostentacoes ridiculas e paranoicas do poder. Depois disso, Aladino decidira partir para acoes mais audazes, com o objetivo de implementar o clima de terror, defendido pelos grupos radicais defensores da ordem que acreditavam que o governo precisava ser mais duro, implacavel e ditatorial.

O delegado, e macom, Benedito Sidney de Alcantara, postulou em seu relatorio questoes do mais alto grau de especulacao mental. Sobre Aladino,
seria ele uma mescla de genio e louco, um visionario, um mistico, um
paranoico, um mitomano, um profeta, ou entao... nada mais que um
CHARLATAO? Somente um exame psiquiatrico poderia revelar essa
personalidade de tao estranhas qualificacoes.


Os seguidores de Aladino, qual a razao do fascinio que sentiam por seu lider, "os elementos de seu grupo, mesmo depois de presos, nao aceitam a hipotese de Dinotos ser um debil mental."
Face ao conteudo do relatorio elaborado por Dinotos conclui-se ser ele
um visionario, com fertil poder imaginativo, baseandose raras vezes em
informacoes procedentes, outras expedindo conceitos duvidosos, mas as
vezes externando situacoes reconhecidamente existentes, conseguindo
impressionar qualquer pessoa que se disponha a ouvi-lo. O cabedal de
conhecimentos que tem acerca de varios assuntos, principalmente os
atinentes as esferas reservadas, tornava-o um homem de certo
valor--pelas informacoes que possuia e fornecia. Com essas
qualificacoes conseguira penetrar em alguns setores reservados da
administracao do pais, ja que passara a ser considerado elemento util,
e verdade e, que colaborara com as causas da Revolucao de 31 de Marco."
Para seus seguidores, era o proprio "Salvador da Patria" e o assunto
sobre discos voadores era a "isca dourada" que ele usava para angariar
adeptos. Pelos oficiais era ouvido, mas considerado pessoa com "ideia
fixa sobre subversao, atentados e conspiracoes", o que explicaria os
documentos em sua posse, dados por oficiais do Exercito e que agora ele
usava para implica-los como cumplices e mesmo autores intelectuais de
seus "atos sinistros". (2)


O historiador na sala de cinema. O Bandido da Luz Vermelha: Depois de uma cena em que o Bandido da Luz Vermelha assassina impiedosamente uma vitima indefesa, um noticiario luminoso expoe uma chamada sensacional sobre o criminoso: "O Monstro Mascarado, o Zorro dos Pobres".

O narrador historicista ou o sofredor do mal-dearquivo: Em documento do Servico Nacional de Informacoes (SNI), o orgao que central da espionagem em nome da Seguranca Nacional, agencia de Sao Paulo, datado de 03 de marco de 1970, constam prontuarios de 19 cidadaos, entre eles, Aladino Felix. (3) A 13 de setembro de 1968, o misterioso terraqueo, depondo na 9a Vara Criminal, declarou que ele, suspeito de ter mandado explodir uma bomba em frente ao DOPS e duas outras nos foros de Santana e da Lapa, estava a servico da Casa Militar da Presidencia da Republica, mandante direta desses atos. Essas afirmacoes seriam repetidas pelo vidente ao longo daqueles meses. Ao Jornal do Brasil, segundo consta no prontuario, teria sido passada a informacao de que Aladino dizia que a causa de sua prisao tinha sido a recusa de colocar bombas em unidades da Marinha e da Aeronautica --a recusa seria motivada por uma especie de pudor, porque ele considerava essas explosoes em particular como acoes temerarias e violentas.

Jayme Portella de Mello, por sua vez, nao era terraqueo menos enigmatico do que Aladino. A respeitabilidade da farda de general e o fato de Jayme Portella nunca ter relatado um contato com extraterrestres vindos de Jupiter, fazem dele uma daquelas figuras adequadas a sensatez (de quem?). As aparencias enganam mesmo os pesquisadores mais atentos. Poucos anos depois desses acontecimentos de 1968, ele escreveria um livro para justificar a si mesmo, ao governo Costa Silva, a "revolucao de 1964" e ao AI 5 como medida necessaria para salvaguardar a todos os tres (PORTELLA 1979). A escrita detalhista do livro parece ser composta por excertos de um homem-maquina, um general metodico e constantemente preocupado com as artimanhas da conspiracao. Em meio a mudancas caoticas de tema, sem enfase num assunto ou outro, ou mesmo foco narrativo, o general falando de si mesmo na primeira e na terceira e mesmo na quarta pessoa, com registros obsessivos--mas nem por isso sem mentiras ou omissoes, pelo contrario.

Seria Jayme Portella um maniaco da informacao e contrainformacao, mentindo a si mesmo, ao publico e sobretudo aquele a quem dizia servir, quando o conduzia ardilosamente aos seus proprios fins, ninguem menos que o ditador Costa e Silva? Falando de si mesmo em terceira pessoa, aqui tratando das disputas internas do governo em torno da questao do "endurecimento" do regime, Portella dizia que o Secretario Geral do Conselho de Seguranca Nacional apresentou ao Presidente um relatorio, com base nas apuracoes de todo o sistema nacional de informacoes, mostrando que o plano de agitacao tinha muita profundidade e recebia apoio externo.

Donde que, "a certa altura, o Secretario Geral do Conselho de Seguranca Nacional, ja sugeria ao Presidente a decretacao do Estado de Sitio", isso em reuniao a 04 de julho de 1968. (PORTELLA 1979, p. 566)

O Academico Niilista, perdido entre tantas citacoes: Em entrevista realizada pouco depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, Jacques Derrida (BORRADORI 2003) indicava uma necessaria, e mesmo urgente, reflexao sobre o campo conceituai do terrorismo. Afinal, onde esta a linha divisoria entre conceitos como guerra, politica e terrorismo? O que, por outro lado, diferenciaria o "terror" do panico, da angustia, do medo? Isso, considerando que a propria filosofia politica moderna instaura esses afetos e sentimentos como fundadores do exercicio do poder legitimo. Nesse sentido, a propagacao de imagens e termos associados ao terrorismo nao seria, ela tambem, uma reafirmacao do poder soberano por meio daquilo que Derrida nomeia como poder "tecnoeconomico da midia"? Ou seja: os atentados nomeados como terrorismo nao se alimentam do proprio mecanismo politico e midiatico que, aparentemente, denunciam o horror? De modo que o terrorismo "legitima" o outro terror, considerado legitimo, porque em nome do Estado? A vulnerabilidade de nossos corpos diante de maquinas que movem forcas diante das quais nos apequenamos nao e o que faz de nos uma populacao cativa entre dois ou mais terrores que supostamente se excluem? A logica dessa proliferacao do terror e lida por Derrida no sentido de uma especie de "perversao autoimune" do poder. No caso dos atentados aos Estados Unidos, os "terroristas", em sua maioria, foram treinados e organizados durante a guerra do Afeganistao, quando os Estados Unidos alimentaram uma jihad norte-americana contra o "Imperio do Mal" sovietico. A propria declaracao de guerra contra o "terrorismo" alimenta o terror que se quer combater, numa logica suicida. Aladino Felix poderia, assim, ser pensado como um desses eventos em que o Estado entra num circuito suicida, autoimune.

O historiador na sala de cinema. O Bandido da Luz Vermelha: Na tela do cinema, mais titulos simulando um noticiario luminoso, dessa vez anunciando a natureza daquele filme, como uma advertencia ao espectador: "Os personagens nao pertencem ao mundo, mas ao Terceiro Mundo".

O Bestializado: Sim, eles nos amam. Eles se compadecem de nossa miseria. Eles se perguntam: ate quando? Mesmo quando estao com os olhos roxos de vinho, eles nos reservam um pensamento ("carmesi, cor que a gente tanto preza", eles recitam em nossa memoria). O mundo assusta. A vida e cruel. A cidade e inospita. Nossos sonhos, insolitos. Mas podemos dormir seguros, ao menos quanto a isso. Eles se importam. E preciso que todos saibam: eles se preocupam com nossa ma sorte.

O Narrador Historicista, ou o sofredor do malde -arquivo: Historiadores perdidos entre os incontaveis documentos do Servico Nacional de Informacoes, o "monstro" que o "bruxo" general Golbery criou em 1964, retornemos aos "Prontuarios de 19 cidadaos, entre eles, Aladino Felix". (4) Nesse prontuario, uma nota, datada de 23 de dezembro de 1968, afirmava que Aladino tinha sido solto "por equivoco", saindo da Casa de Detencao, onde estivera preso, por ordem de um desavisado juiz de direito. Fuga da prisao mais facil do que essa, so a do renomado cabo Anselmo, o agente infiltrado por meio de simulacros em organizacoes da luta armada da esquerda.

Em outra nota do Jornal do Brasil, a 30 de agosto de 1968, constava que o inquerito da Forca Publica de Sao Paulo sobre a bomba explodida em seu Quartel General "misteriosamente desapareceu". Do mesmo jornal, o prontuario reproduzia a materia intitulada "Conclusao policial nao convence", de 01 de setembro de 1968; ali, sem se citarem nomes, dizia-se que "setores do governo do estado" nao estavam satisfeitos com a atribuicao ao "ilusionista" Aladino do papel de "cerebro dos atentados e assaltos em S Paulo", tendo em vista a explicacao dada pelo proprio vidente de que o objetivo das acoes era forcar uma intervencao federal em Sao Paulo e o consequente "endurecimento" do regime. A tese da lideranca de Aladino Felix seria, na visao "dessas autoridades" cujos nomes a materia preferia nao revelar, uma saida facil, porque tudo sugeria a participacao de pessoas com responsabilidades maiores:
O comentario de que a responsabilidade do mistico Sabado Dinotos e o
mais conveniente as pessoas que pretendem colocar uma pedra sobre o
assunto, parte da suposicao de que ele, mais que um homem com ideias
escatologicas ou ideologicas, e um paranoico. A colocacao de seu nome
em evidencia o enquadra, segundo o raciocinio daqueles informantes,
como uma peca comoda para que se deite um manto de silencio e misterio
sobre o assunto. Os setores insatisfeitos com os resultados das
investigacoes ponderam que--estranhamente--nao se fez, ou se foi feito
nao se deu conhecimento do resultado, nenhum exame do equilibrio mental
do principal personagem dos atos terroristas. Para esses setores, um
homem que diz ter viajado ao planeta Venus, conversado com marcianos,
atravessado paredes, e recebido de anjos a chave da lingua universal e,
afinal para ser visto com certas reservas.


Aladino Felix, depois de solto por "equivoco", em dezembro de 1968, foi capturado e preso novamente. Em sentenca do Conselho de Justica da 2a Auditoria da 2a Regiao Militar, encaminhada ao Servico Nacional de Informacoes a 17 de abril de 1970. (5) considerava-se que o relatorio do DOPS-SP era mal fundamentado, uma vez que as provas elencadas se resumiam a confissoes de Aladino e membros do seu grupo. Confissoes, por sinal, isso a sentenca nao diz, conseguidas mediante torturas. O unico crime comprovado teria sido um furto de armas da Forca Publica de Sao Paulo. Levada pela emergencia e pela pressa, a autoridade policial paulista teria se precipitado, quando capturou Aladino e seu grupo, ao alegar que tinha desmantelado a "gang do terrorismo".

Acrescentou a defesa que fatos antes atribuidos a Aladino Felix e seu grupo sao hoje, pela mesma Policia, atribuidos aos grupos comunistas em perigosa militancia subversiva, de cuja existencia nao se pode, hoje em dia, ter a menor duvida. O proprio Aladino Felix, interrogado pelo Conselho, afirma que todos os atos de terrorismo que lhe foram atribuidos e aos seus companheiros, foram praticados pela Ala Marighela. O valor logico dessa argumentacao e irrecusavel.

Mesmo assim, Aladino, na qualidade de mentor do grupo e lider ao ato terrorista do furto de armas, era condenado a 5 anos de reclusao. De acordo com as fontes disponiveis, depois de dezembro de 1968 seguiu-se um longo silencio sobre a historia de Aladino Felix nos jornais. Apenas notas curtas referentes a condenacoes e sentencas. Assim, no Jornal do Brasil, a 14 de janeiro de 1973, noticiava-se que o advogado de defesa Juarez Oncillon Aires de Andrade interpusera recurso contra decisao do Superior Tribunal Militar, que reduzira a pena de Aladino a 8 meses de prisao, por ser ele considerado, depois de laudo psiquiatrico, semi-imputavel, fronteirico. De acordo com o advogado, Aladino recusava essa conclusao do processo porque se considerava um homem de genio, de "quociente de inteligencia" acima da media de todos os outros cidadaos e, por isso, incompreendido pelos terraqueos, especialmente os terraqueos do territorio brasileiro. Por outro lado, seguia a noticia:
A Procuradoria-Geral da Justica Militar, em parecer ja emitido, afirma
que 'os frageis e incongruentes argumentos da defesa nao fazem
sentido.' Depois de aludir ao que chamou de 'processo da loucura', a
chefia do Ministerio Publico Militar declara que 'Aladino Felix, o
Sabado Dinotos, genio iluminado, reunificador das 12 tribos de Israel,
e Messias redivivo, como ele mesmo faz questao de se denominar,
arrastou de cambulhada, em suas fantasias, soldados da Forca Publica do
Estado de Sao Paulo, induzindo-os a praticar a subtracao de armas
daquela corporacao para uma reacao hipotetica ao golpe que se tramava
contra o governo Costa e Silva. Ate mesmo um general do Exercito caiu
no logro de Aladino, mostrando a forca de sua persuasao doentia.


"Lunaticos seguidores--os infelizes soldados da Forca Publica de Sao Paulo". Observe-se que a atribuicao de doenca mental a Aladino estendia-se a um poder doentio de conseguir adeptos e iludir as pessoas. Seria o poder persuasivo um sintoma da doenca? Ou a doenca um sintoma do poder persuasivo? Sim, porque, de acordo com a sentenca, homens racionais e saos, de certa forma, foram adoecidos pelo fascinio do vidente. Esses pobres defensores da ordem e mesmo o general, e o proprio diretor da policia federal, portanto, tambem se tornavam, de certa forma, semi-imputaveis. Sob efeito do encantamento pela figura de Aladino Felix, o proprio general Paulo Trajano da Silva tinha sido levado a conivencia com os atentados terroristas, sendo, por sua vez, por agir em boa fe e defesa da patria, nao apenas semi-imputavel, mas tambem inimputavel! Nao eram injustificadas as inquietacoes metafisicas do delegado do DOPS: entre os poderes extraordinarios de Aladino Felix e os poderes extraordinarios do Ato Institucional n.o 5, ha mais coisas do que sonha nossa va historiografia!

O bestializado: Nao ha bombas limpas, diz a poesia. Ja os inqueritos e relatorios sobre Aladino Felix parecem procurar justamente isso: a hipotese de que se tratava de bombas limpas.

O historiador na sala de cinema. O Bandido da Luz Vermelha: Vemos o bandido numa cena de perseguicao, um tanto insolita, uma vez que ele vai num taxi seguido por carros policiais. O narrador, simulando uma voz grave de apresentador de telejornais, diz ao fundo: "Ninguem sabe quantos assaltos, roubos, incendios e atentados ao pudor ele ja praticou. Com 22 anos e 22 mortes ele, o Bandido Mascarado, foi condenado a 167 anos 8 meses e 2 dias de reclusao--alem de multa de 15 contos, mas se for levado novamente aos tribunais podera pegar 480. So se safara dos seus crimes, se conseguir provar que e louco".

O Narrador Historicista ou o sofredor do mal-dearquivo: Nas paginas dos jornais de 1968, outros enigmas e arcanos do poder eram comentados por jornalistas em estado de choque, dando origem as mais variadas especulacoes, cosmicas, terrenas, cinicas e sordidas. O Brigadeiro Joao Paulo Burnier, o militar aeronauta responsavel pela criacao do CISA, servico de espionagem da Aeronautica, era acusado publicamente pelo capitao Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho de, em reuniao a junho de 1968, tentar fazer dos paraquedistas uma forca especializada em assassinatos politicos, alem de apresentar um plano de atentados terroristas de grande escala, um verdadeiro banho de sangue tingindo de vermelho o territorio nacional, que seriam atribuidos as esquerdas. A ideia de Burnier era a de que esses atentados terroristas revelariam ao publico distraido a verdadeira face dos comunistas. "Antes que os comunistas comecem seu reinado de terror, eu mesmo o faco, alertando o governo e pegando os comunistas de surpresa", e o que Burnier teria dito a um historiador, se ele tivesse o dom da onisciencia ou ao menos poderes telepaticos.

O historiador na sala de cinema. O Bandido da Luz Vermelha: Num assalto a uma mansao, o Bandido encontra uma farda militar dentro de um armario e diz em off: "Com essa farda da Aeronautica da pra passar mais de cinco milhoes em cheque, so em Belo Horizonte..."

O Academico Niilista, perdido entre tantas citacoes: Para pensar sobre a questao terror/terrorismo no Brasil da ditadura militar, vale a pena uma leitura no livro de Jose A. Argolo, Katia Ribeiro e Luiz Alberto M. Fortunato (ARGOLO; RIBEIRO; FORTUNATO 1996). Isso, tanto pelas virtudes da pesquisa, quanto pelos problemas que as opcoes narrativas centrais do livro trazem a tona, a comecar pelo nome de Grupo Secreto, assim mesmo, em maiuscula, dado pelos autores ao grupo de civis e militares responsaveis por alguns atentados, ao longo do periodo da ditadura militar, sobretudo nos momentos antecedentes ao AI-5 e o final da decada de 1970 comeco dos anos 1980.

A tese de outro autor, Flavio Deckes (DECKES 1985) e a de que os atentados praticamente desapareceram entre 1968 e 1977 porque as acoes dos grupos terroristas foram institucionalizadas em torno da estrutura do DOI-CODI a organizacao que uniu, a partir de 1970, policias e forcas militares no combate mais direto as organizacoes de luta armada e/ou de resistencia clandestina ao regime, operando a margem da hierarquia militar tradicional. De modo muito semelhante ao grupo de Aladino, esse grupo "secreto" era composto por civis e militares de baixa patente, tendo contato com oficiais, como o coronel Freddie Perdigao e o general Ferdinando de Carvalho. Deu-se tambem a dinamica de investigacoes superficiais e impunidade.

De acordo com os autores, a estrutura do "grupo" se baseava na teoria dos circulos concentricos: setores distintos, vinculados um so eixo ideologico; no anel externo, os que nao participavam das incursoes violentas, como o caso do coronel Mendonca, codinome Camoes, que provia armas e pecas sobressalentes, ex-diretor do deposito de municoes do exercito, em Paracambi; no segundo anel, aqueles que participavam das discussoes politicas, mas nao sabiam dados concretos sobre as acoes. Teoricos como Pedro Maciel Braga, general Camilo Borges de Castro, generais reformados Gerson de Pina e Ferdinando de Carvalho, e o anel interior era dos "iniciados", Pierre Richell, Hilario Corrales, Alberto Fortunato, Freddie Perdigao, Alexander Murillo Fernandes e outros. A imagem dos circulos concentricos pode ser interessante, mas nao a ideia, contradita pela propria estrutura desses "circulos", de que havia algo como um Grupo Secreto, fechado em si mesmo. Isso porque, nos diferentes patamares, esses circulos parecem se abrir para relacoes complementares, tensas, com instituicoes e agentes governamentais.

Esses personagens e situacoes fazem parte da historia da ditadura num sentido nao meramente acidental: eles mobilizam ideias, conceitos, discursos recorrentes no periodo, da Ditadura e da Guerra Fria: operam seus dispositivos nao com materiais exteriores aqueles estudados pela historiografia (como comunidade de informacoes, operacoes de contrainsurreicao etc)--sao instrumentalizados pelo Estado, ao mesmo tempo em que o instrumentalizam para seus proprios fins. Dai tambem a relacao tensa, conflituosa, implicita nos termos comuns em documentos sobre o caso de Aladino: de que se tratava de um paradoxal terrorismo a favor do governo.

Aladino Felix, por sua vez, parece ter realizado alguns gestos simples, mas de grandes consequencias. Se a ficcao cientifica, os filmes de invasao alienigena, faziam parte dos mecanismos da chamada Guerra Fria Cultural (CANCELLI 2017) e do aparato tecnomidiatico do terror, Aladino parece apenas ter tomado essas ficcoes ao pe da letra. Isso, alem de se considerar, ele mesmo, o ator principal--novamente, ao pe da letra, as advertencias da propaganda governamental diziam que o alvo principal da Guerra Fria eram as subjetividades, os sentimentos, as mentes de cada um. Gestos que podemos chamar de paranoicos, sem duvida, mas feitos com a mesma materia-prima da chamada normalidade imposta ditatorialmente.

A questao que fica e: em que ponto "comeca" a corrosao do aparato de repressao. Isso parece pressupor que existe uma repressao racional, comedida, sistematica e, em outra parte, grupos que se movem pelo caminho do terror e que, em alguns momentos, "saem do controle". Pensar assim pode ser tranquilizador, mas nao explica a disseminacao de praticas semelhantes. E preciso lembraraquiqueaexcecaoea regra. Masao mesmo tempo, seria um erro pensar que um controle central comandava tudo. Que os agentes da violencia, os herois do combate a subversao, pudessem mesclar motivos "oficiais" e outros motivos em suas acoes, desde ganhos financeiros a contatos com discos voadores. E preciso lembrar ainda que a propria "legitimidade" do governo derivava da tomada golpista do poder.
O historiador na sala de cinema. O Bandido da Luz Vermelha: Novamente,
a voz de apresentador de telejornal, com seus acentos caricaturais e
avacalhados, assume um tom meditativo: "Quem era este marginal
lendario, o mais famoso bandido nacional dos ultimos anos? Um espantoso
tarado sexual, um simples provocador, um gozador? Ou, entao, seria um
anormal, um magico sem lei, um monstro apenas?"


O Narrador Historicista ou o sofredor do mal-dearquivo: No Jornal do Brasil, a 20 de setembro de 1968, I Caderno, pagina 13, uma nota informava que um laudo a cargo do Instituto Medico Legal confirmava a denuncia de que houve torturas contra 3 dos 9 suspeitos de atos terroristas do grupo de Sabado Dinotos, entre eles o proprio Aladino. Havia lesoes em seu corpo, resultado de choques, socos, pontapes e de tortura no pau-de-arara. Um inquerito seria instaurado e a Corregedoria exigiria explicacoes sobre o ocorrido, a comecar pelo delegado do Departamento Estadual de Investigacoes Criminais, Ernesto Milton Dias. Claudio Suenaga (SUENAGA 1999, p. 286) reproduz trechos da denuncia publicada pela Folha de Sao Paulo, a 14 de setembro de 1968: "Membros da quadrilha do terrorismo voltam a dizer que foram torturados". Aladino Felix declarou:
Os policiais do DEIC, delegados e investigadores sao doentes mentais,
tarados, bestiais, ladroes, torturadores e assassinos. Fui levado para
uma sala pelo delegado Ernesto Milton Dias. Fui despido e surrado. Ate
dentes me arrebentaram. Ai, veio o suplicio nas maos. Meus dedos foram
torcidos e sovados com uma peca de madeira, ate que ficaram inchados.
Em seguida, fui posto no pau-de-arara. Primeiramente ligaram dois cabos
de bateria em meus pes e durante muito tempo fiquei sob aqueles choques
tremendos. Nem sei quanto tempo, porque cerca de meia hora apos
iniciarem os choques, desmaiei. Acordei depois que me tiraram do
suplicio, entre 10h30min e meia e 11 horas. Introduziram um fio na
minha uretra e outro no anus, e fecharam a corrente ao maximo da
amperagem. O aparelho que controla a amperagem ou a voltagem tem a
semelhanca de um pequeno piano, com cinco botoes. Os dois ultimos sao
vermelhos, indicando perigo de vida. Em mim, foi ligado ao maximo
durante cerca de 15 a 20 minutos. Antes, desferiram um chute nos meus
testiculos. Perdi a consciencia. Quando me voltou a razao, introduziram
um fio em cada um dos meus ouvidos. Diziam que, depois daquilo eu
morreria, ficaria cego ou louco, pois as minhas celulas cerebrais nao
resistiriam. A noite, voltei a ser supliciado. Amarraram um fio no meu
dedinho do pe direito, enrolado com um pano molhado, para aumentar a
corrente. O outro fio foi enrolado ao meu membro viril. Carga ao
maximo! Gritou um dos torturadores. Meu membro viril, sob o efeito da
corrente, chegou a queimar no lugar onde o fio foi enrolado. Perdi a
consciencia outra vez. Entao, para ver se eu estava morto, um dos
torturadores acendeu um isqueiro de gas e queimou o meu anus. Muitos
foram os torturadores, nao sei os nomes de todos. Tomaram parte o
delegado Ernesto Milton Dias e outros delegados, os investigadores
Salvio, Jose, Gaucho, etc., o soldado Lazaro da FP, um capitao do
Exercito, cujo nome nao sei e um coronel da FP.


O Narrador Historicista ou o sofredor do mal-dearquivo: No ja citado relatorio do DOPS/SP. (6) o delegado Benedito Sidney de Alcantara comentava a atuacao do general Paulo Trajano da Silva nessa trama (o general, ao que tudo indica, nao foi figura destacada no contexto politico da Ditadura Militar, mas serviu, nesse caso, de emissario, elo entre Aladino Felix e militares com grande forca dentro do governo, como o general Jayme Portella). Aladino e Paulo Trajano eram proximos e mesmo amigos de muitos anos. Numa conversa, o vidente teria revelado ao general o plano conspiratorio da contrarrevolucao dos revanchistas liderados pelo ardiloso Carlos Lacerda, no inicio de 1968. Seguindo sugestao do general, Aladino escreveu um relatorio, entregue ao Diretor Geral da Policia Federal, o terraqueo Florimar Campello. A peca literaria do DOPS reproduz um interrogatorio com Paulo Trajano da Silva, em que o general afirmava que, de fato, as autoridades do governo tinham acreditado na existencia do plano de eclosao de uma conspiracao nacional, a ser efetivada quando de discurso de Lacerda; dai as movimentacoes de tropas militares a 27 de janeiro de 1968 que causaram estranheza a imprensa, como se se tratasse de movimentos inquietantes de objetos nao identificados no ceu do Brasil. A Policia Federal de Sao Paulo fornecera, ainda segundo Paulo Trajano da Silva, informacao de que o terraqueo sob pseudonimo de Dinotos fora um "colaborador da revolucao do marco de 1964". Dizia mais, o general: que ele ouvira de Dinotos sobre o furto de armas da Forca Publica e que isso tinha sido antes do dia previsto para tal contrarrevolucao revanchista, a 25 ou 27 de janeiro. Negava, porem, que dera apoio ou o que seria mais grave, que tinha inspirado as acoes do grupo liderado por Aladino, ou ainda que era uma ponte de contatos imediatos de quarto grau entre Aladino Felix e altas autoridades do governo, bem como negava ter garantido impunidade ao grupo, dizendo que os livraria das investigacoes, mesmo que suas impressoes digitais estivessem marcadas nos estilhacos de bombas e nos cenarios dos atentados. Porem, escrevia o perplexo e lirico Benedito, acareacoes entre os outros acusados e o general confirmavam que eles falavam a verdade, uma vez que eles persistiram com sua versao, mesmo diante de alguem de posicao mais alta na hierarquia militar.

Qual era a versao do grupo de Aladino? Que o general Paulo Trajano da Silva era uma ponte entre o grupo e o governo. Mais ainda, que os atentados promovidos pelo grupo nao tinham sido idealizados pelo proprio Aladino e sim por essas pessoas ocultas dentro do proprio governo. Paulo Trajano era, portanto, apenas um garoto de recados a servico de forcas maiores, secretas, insondaveis. Que o objetivo dessas forcas ocultas era instaurar um clima de terror que tornasse inevitavel o fechamento do regime. E que eles se viam como soldados e defensores da "Revolucao de 64" e que, portanto, longe de serem inimigos do governo, estavam a seu servico. O proprio governo do Brasil era, portanto, a forca oculta que manipulava a tudo e a todos, visando a nada menos que, por meio de um sensacional autogolpe, conceder mais poder a si mesmo, o que se concretizaria em dezembro de 1968, com a decretacao do AI-5!

O Academico Niilista, perdido entre tantas citacoes: O historiador Michael Mcclintock escreveu um extenso trabalho sobre as estrategias, as taticas e os manuais de contrainsurreicao, luta armada, guerra contrarrevolucionaria e contraguerrilhas que tanto marcaram a Guerra Fria na America Latina (MCCLINTOCK 1992). Desse livro, destacam-se pontos que parecem iluminar, ainda que com uma luz vermelha, aspectos importantes da logica do terror como instrumento de controle social e mesmo como forma especifica de desenho institucional. Aquilo a que no Brasil chamamos de Ditadura Militar pode ser pensado como um modelo de Estado, o Estado contrainsurrecional experimentado na Guatemala, na Argentina, e tambem no Vietna e em outros paises ao redor do planeta Terra. Em primeiro lugar, nos manuais militares da Guerra Fria, havia toda uma teorizacao sobre o terror como governamentalidade. O pressuposto desses manuais era o de que os grupos de luta armada, as guerrilhas, conseguiam apoio de uma populacao por meio de politicas de terror, e que, portanto, esse metodo deveria ser imitado pela contraguerrilha, no sentido de que um terror difuso garantiria o consentimento por parte da populacao (MCCLINTOCK 1992, p. 54). Segundo Mcclintock, uma das fontes de inspiracao para esses manuais eram explicitamente reconhecidos como tais, os metodos da Wehrmacht e da SS na terrorizacao da populacao e sobretudo a cooptacao de membros da resistencia (MCCLINTOCK 1992, p. 59). O principal pressuposto derivado dessa experiencia alema era o de que a populacao somente apoiava os partisans sob coacao, colocando-se sempre em primeiro plano a questao da campanha por meio do terror, ou seja; o decisivo era saber quem tinha a iniciativa do terror. Paul Linebarger, um dos mais importantes teoricos do Exercito dos Estados Unidos sobre a guerra psicologica, propunha que as experiencias das guerras religiosas do passado fossem retomadas pelos estudiosos e estrategistas, devido ao fato de que a Guerra Fria seria, antes de tudo, questao de ideologia. Nesse horizonte, emergia o problema estrategico de como converter fieis de um "credo inimigo", de como combater hereticos, os "elementos subversivos" do pos-guerra. A guerra psicologica seria uma especie de gestao da fe, das conviccoes. (MCCLINTOCK 1992, p. 278-279).

O historiador na sala de cinema. O Bandido da LUZ Vermelha: O Bandido se dirige aos espectadores do filme: "Voces se lembrarao de mim como o mais perfeito dos bandidos encapucados. Fui campeao de tiro ao alvo em Cuiaba e invencivel pistoleiro profissional em Mato Grosso: com varias mortes."

O Bestializado: Aladino Felix devia mesmo ser doido. Mas sabia fabricar bombas. Alguns tratavam Aladino como um vigarista. Mas ele parece pouco pragmatico para ser um vigarista. Seria um vigarista messianico? Paulo Trajano diz que era a favor de fechar o governo. Que Aladino tinha ajudado, de alguma forma, em 1964. Mas nao tem nada sobre esse periodo de Aladino, entre 1964 e 1967. Ele ja aparece "pronto" em 1968 pra levar seus contatos com discos voadores a conclusao do terrorismo a favor do governo. Alias, ele era a favor do governo. Mas, e o governo? Estava a seu favor? O Bolivar Lamounier e os especialistas em democracia dizem que o lance e a estabilidade. O conflito, mas sempre dentro de regras. O governo, os partidos, as instituicoes, sao importantes porque sao como os tabuleiros que regulam essas regras. Ate porque, se a cada dia as regras do jogo mudassem, qual seria o nome do jogo? Mas esse caso ai do Aladino me deixa um pouco grilado. Sera que alem da estabilidade, os governos tambem precisam das crises? Sera que a paz e so um sintoma do medo de tomar porrada?

O historiador na sala de cinema. O Bandido da Luz Vermelha: J. B. da Silva, personagem caricatural do politico corrupto, oferece aos espectadores um distico: "Em politica o verdadeiro santo e o que chicoteia e mata o povo pelo bem do povo".

O Narrador Historicista ou o sofredor do mal-dearquivo: "Numa noite de 1959", nos conta Suenaga, "surgiu inesperadamente um fato que mudaria definitivamente o curso da vida de Aladino. Nas centurias de Nostradamus que ja vinha traduzindo e interpretando, pensou ter encontrado uma referencia a sua pessoa." (SUENAGA 1999, p. 220). O resultado disso foi a publicacao do livro As centurias de Nostradamus, traduzidas do original por Sabado Dinotos, publicadas em 1965. Aladino divulgava seus escritos na cidade de Sao Paulo, e fazia reunioes com seus seguidores e palestras abertas ao publico, em sua sala no Edificio Martinelli. Desde 1959 fazia algumas aparicoes publicas, dando inclusive entrevistas em programas da TV sobre seus temas prediletos: messianismo, profecias e discos voadores. Soldados e oficiais da Forca Publica e alguns militares faziam parte desse circulo de leitores e frequentadores das palestras de Aladino. A politica fazia parte dos temas discutidos--mais precisamente, as profecias, os discos voadores, o messianismo faziam parte desse tema mais amplo: a politica.

Quanto as profecias de Nostradamus, o que nos interessa aqui e o metodo de traducao de Aladino Felix. Esse metodo, em que pese seu aspecto delirante, nao diferia tanto assim dos metodos de investigacao e producao de informacoes dos agentes de governo sobre a conspiracao comunista internacional, presente em todos os aspectos da vida brasileira. Aladino se valia de comparacoes historicas, derivacoes semanticas, semelhancas foneticas, sempre a procura das forcas ocultas escondidas na superficie das coisas. No caso, as profecias de Nostradamus. Por se tratar das profecias, a traducao tambem implicava uma filosofia da historia que versava sobre o lugar do planeta Terra no sistema solar, o lugar do Brasil no planeta Terra, o lugar de 1964 no Brasil e o lugar do proprio Aladino Felix nesse drama de proporcoes cosmicas, em que os destinos da civilizacao eram decididos.
A preocupacao de Nostradamus foi indicar o lugar, a epoca e as
circunstancias em que o Grande Rei surgiria. Com esse proposito em
mente, desceu as minucias, chegando a indicar o seu nome, os membros da
sua familia, sua profissao, suas condicoes sociais, seus amigos e
inimigos, suas virtudes e seus defeitos. Para ele, o Grande Rei seria
brasileiro, paulista, escritor, de origem humilde, humilhado pelos
homens de sua epoca. (DINOTOS 1965, p. 3)


A traducao das centurias e extremamente intrincada. Vao aqui apenas algumas indicacoes da metodologia de traducao de Aladino Felix. O verso "Faulx a l'estang ioinct, vers le Sagittaire" e traduzido por "Faulx com o martelo junto, do lado do Sagitario". Ora, dizia Aladino, faulx era a forma provencal do latim falx, foice; estang era martelo, trabalho de ferreiro; na Biblia, estava indicado que Sagitario era a Italia. Portanto, a profecia era evidente: a foice e o martelo dirigira uma vigorosa campanha contra Roma (DINOTOS 1965, p. 15-16). Outro exemplo: o verso "la garde estrange trahira Forteresse" foi traduzido por "a guarda estranha traira a Fortaleza." Nos comentarios, Aladino aduzia que
Fortaleza e palavra usada em duplo sentido. Pode ser fortaleza, no
sentido lato, ou uma pessoa com esse nome. Talvez alguem que se chame
Castelo. Ele manda prender o Rei, porem, a guarda e substituida por
pessoas que pertencem ao partido do Rei, enganando a guarda que sai. O
Rei desfruta de confianca e protecao junto de pessoas de alta
categoria. (DINOTOS 1965, p. 48)


O Rei, no caso, era mesmo ele, Aladino, e nao Castelo. Ha nas traducoes de Aladino um fascinio pela catastrofe, pelo genocidio, pela morte instantanea e apocaliptica. De si mesmo, equiparando-se ao outro "mestre reconhecido pela humanidade", Aladino escrevia que: "um foi pacifico, isto e, Jesus. O outro, chamado Sabado ou Setimo, seria o sanguinario, que teria o seu poder aumentado e faria a terra desenvolver-se." (DINOTOS 1965, p. 65). Percebe-se que Aladino encontrava muitas referencias a politica brasileira nas profecias de Nostradamus. Do verso "L'un de plus grands fuyera aux Espaignes", Aladino deduzia que esse "grande que se refugiara nas Espanhas", so podeira ser o Fuehrer, revelado pela consonancia com o fueyra. Seria, portanto, possivel que Hitler estivesse escondido na America do Sul, "sob beneplacito de certos paises com tendencias nazistas conhecidas." (DINOTOS 1965, p. 84). Um "italo-argentino", colaborador de Peron, conhecido de Aladino Felix, garantiu ao autor que "Hitler fora seu vizinho na Patagonia. Hitler raspara o bigode, e usava uma peruca. Estaria vivendo na zona rural." (DINOTOS 1965, p. 155).

O historiador na sala de cinema. O Bandido da Luz Vermelha: As vozes de um telejornal sensacionalista anunciam que: "Atencao Senhoras e Senhores: os estranhos objetos em forma de bolas luminosas continuam sobrevoando os ceus de todo o Brasil, polarizando a atencao, sendo vistos nos mais longinquos recantos--Manaus, Recife, Porto Alegre, Natal, Paranacapicuiba e Ribeirao Preto. As autoridades continuam em estado de choque."

O Narrador Historicista ou o sofredor do mal-dearquivo: Tao intrincada quanto a traducao de Nostradamus, e a politica projetada no sistema solar pelos livros de Aladino Felix, ora sob pseudonimo de Dino Kraspedon, ora Sabado Dinotos. A dissertacao de Claudio Suenaga, ja citada, fornece descricoes detalhadas, com extensas reproducoes de textos do proprio Aladino e e a leitura recomendada para quem quiser conhecer melhor os detalhes do sistema politico-planetario de Aladino. Em linhas bem gerais, Aladino tinha a ideia de que a historia terrestre era reflexo de conflitos interplanetarios. Jupiter e Venus eram as forcas contrastantes. Jupiter, o planeta da raca superior, falante do hebraico. Venus, a planeta infernal; e Marte, a tendencia vermelha, comunista. Aladino, em suas palavras, era o contato direto das forcas jupiterianas no planeta. A isso ele somava uma leitura bem singular da Biblia, como relato das agruras raciais das tribos de Israel, em meio a discos voadores.

No livro publicado em 1967 sob o pseudonimo de Sabado Dinotos, A antiguidade dos discos voadores, Aladino escrevia que, depois de 1945, os discos voadores voltaram a aparecer com frequencia. O que se passava era uma luta, em escala interplanetaria, pelo "dominio universal", sendo esse um "imperativo da Natureza", tendencia de dominio registrada ate entre os animais. (DINOTOS 1967, p. 65-66)

O historiador na sala de cinema. O Bandido da Luz Vermelha: Ouvimos uma voz feminina, com entoacao de transmissao radiofonica, dizer sobre o Bandido: "Um barbaro minhas ouvintes... So pode ser um barbaro porque a ciencia nao preve tantos requintes de selvageria e perversidade... Um barbaro ou (tempo) entao um tarado. Nem os guerrilheiros de Belo Horizonte meu Deus, nem Brizola e Jango Goulart foram tao longe..."

O Bestializado: Ele passa garboso e saciado, um capuz diafano, perceptivel na sequencia de triangulos iridescentes que se desdobram sobre sua cabeca, como um poente em ceu poluido. Ele vai acompanhado pelo sequito mais lamentavel de animais nojentos ou detestaveis, como a coruja, o urubu e o gaviao, as tres crias do azul terrivel. A sua passagem, as pessoas nao conseguem se conter e riem desbragadamente, ate as lagrimas. A euforia e estranha, um lance de possessao demoniaca, comentam os jovens nas igrejas, entre risos cada vez mais descontrolados. Mas a sensacao de que seus musculos faciais estao sendo manipulados por dentro e, sei la, algo como uma mao invisivel nos forca a rir sem motivo, conduz a uma sensacao oposta: a desgraca. Suicidios se seguem, como as ondas que emanaram do capuz luminoso.

O historiador na sala de cinema. O Bandido da Luz Vermelha: Ao som de um bolero, cansado de sua vida de crimes, o Bandido se suicida, de modo espetacular, eletrocutando a si mesmo. Seu cadaver e encontrado por policiais. Final feliz? As vozes do telejornal sensacionalista anunciam que: "Sim naquela tarde os misteriosos discos voadores aproximavamse do centro de Sao Paulo vindos do leste para o poder. Os invasores, aqueles mesmos objetos nao identificados de forma circular e de cor amarelada, os invasores vieram para riscar o pais do mapa... Os discos voadores atacam... E o Brasil em panico... Sem nada a fazer... So um milagre, meus senhores, so um milagre pode nos salvar do exterminio total..."

Consideracoes Finais

Os temas deste artigo sao: as relacoes entre violencia e normalidade simulada; terror e legitimidade politica; panico social, teorias paranoicas da Guerra Fria e suas instrumentalizacoes pela Ditadura Militar. Nenhuma das vozes que compoem este texto tem uma posicao de superioridade hierarquica frente as outras, exceto pelo dado de que o filme O Bandido da Luz Vermelha foi adotado como matriz estetica--considerando-se que estetica e interpretacao se complementam, ou, mais ainda, que forma e exegese, o que nao redunda num esteticismo vazio, a nao ser que se considerasse que uma narrativa objetiva seria isenta de estetica, constituindo-se como pura inteleccao. Relembro, tambem, que a voz menos privilegiada por um leitor academico, a do bestializado, e justamente a que tornou necessaria a estrategia narrativa adotada. Historicistas e niilistas sao bem-vindos na chamada academia, bestializados nao.

Nao se trata, tambem, de um experimentalismo com pretensoes de transgressao. A aposta, aqui, e, pelo contrario, a de que uma exploracao na forma narrativa pode ampliar o alcance hermeneutico da escrita historiografica. Evidentemente, nada impedia que esse texto fosse escrito segundo as regras do canone--a nao ser que muitas das questoes aqui levantadas nao caberiam nessas regras. De resto, recordese, com o conhecido poema de Alvaro de Campos (Fernando Pessoa), "Lisbon Revisited", que nao existem conclusoes, "a unica conclusao e morrer", e que as pretensas conquistas da metafisica, da teologia, da ciencia e da moral nao sao conclusao alguma. Que sejamos tecnicos, mas isso apenas dentro da tecnica. Fora disso...

REFERENCIAS

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Daniel Faria

https://orcid.org/0000-0002-7925-1536 [iD]

AGRADECIMENTOS E INFORMACOES

Daniel Faria [iD]

krmazov@hotmail.com

Universidade de Brasilia

Brasilia

Distrito Federal

Brasil

RECEBIDO EM: 02/ABR./2019 I APROVADO EM: 17/JUL./2019

(1) - "Roteiro de inquerito CAMPO PSICOSOCIAL--Anexo, esta Agencia remete exemplar de um Roteiro de Inquerito, elaborado pelo DOPS/SP, sobre o grupo terrorista liderado por Aladino Felix, vulgo Sabado Dinoto". ASP ACE 6976 81. Arquivo Nacional, Fundo SNI.

(3) - "Frente a Ortega y Gasset no caben actitudes mezquinas. Lo que representa es demasiado para oponerle, como algunos ingenuamente pretendieron, la conjuration del silencio, o para rastrear contradicciones en la suprema consecuencia de su pensamiento". (BOFILL, 1946, p. 225).

(2) - Roteiro de inquerito CAMPO PSICOSOCIAL--Anexo, esta Agencia remete exemplar de um Roteiro de Inquerito, elaborado pelo DOPS/SP, sobre o grupo terrorista liderado por Aladino Felix, vulgo Sabado Dinoto". ASP ACE 6976 81. Arquivo Nacional, Fundo SNI.

(3) - ACE_ACE_SEC_ 12126570001(01). Arquivo Nacional, Fundo SNI.

(4) - ACE_ACE_SEC_ 121265_70_001(01). Documento do SNI, agencia de Sao Paulo, datado de 03 de marco de 1970. Arquivo Nacional, Fundo SNI.

(5) - AC ACE 28088 070. Arquivo Nacional, Fundo SNI.

(6) - ASP ACE 6976 81. Ministerio da Guerra. II Exercito. QG. EMG 2a Secao. Difusao CIE e SNI. Arquivo Nacional, Fundo SNI.

DOI 10.15848/hh.v12i31.1472
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Author:Faria, Daniel
Publication:Historia da Historiografia
Date:Sep 1, 2019
Words:11775
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