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A higiene como tempo e lugar da educacao do corpo: preceitos higienicos no curriculo dos grupos escolares do estado do Parana/Brasil.

RESUMO: O trabalho procura discutir, atraves da analise de uma documentacao bastante diversa, como a retorica da moralizacao, higienizacao e civilizacao dos costumes tinha o corpo dos escolares e a sua educacao como um dos elementos mais significativos na afirmacao do modelo dos grupos escolares como veiculador do projeto da formacao integral da infancia brasileira nas primeiras decadas do sec. XX. Aqueles preceitos se referiam a higiene que deveria grassar nos novos tempos e espacos escolares urdidos com o fenomeno dos grupos escolares, ponto de culminancia da modernizacao do ensino que atingiria tambem o Brasil nos anos finais do sec. XIX e iniciais do XX. Registrados na imprensa pedagogica e diaria, em documentos como relatorios, correspondencias, materializados em materiais didaticos e nos codigos de ensino da instrucao publica, esses debates perseguiam argumentos que procuravam afiancar a necessidade do poder publico investir conhecimentos e recursos na formulacao e implantacao de um conjunto de dispositivos que teria como funcao precipua a educacao do corpo dos escolares pela via da inculcacao de preceitos higienicos.

PALAVRAS-CHAVE: Historia da educacao, historia do curriculo, higiene, educacao do corpo.

ABSTRACT: This work intends to discuss, by analysis of a varied data, the way rhetoric of moral, hygiene, and civilization achieved the bodies of students and their education as the most meaningful element to the school group model affirmation. A model took as the medium of integral formation project for Brazilian youth along the first two decades of the xxth century. Such precepts referred to hygiene as an element that was ought to prevail in the new age and space of schools, in a deeply relation to the phenomenon of school groups, the height of teaching modernization that also reached Brazil at late 19th and early 20th century. The debates were recorded in pedagogic and diary press, documents like reports and mails or materialized in didactic material and teaching codes of public school system; such debates followed reasons that aimed to warrant public investment on knowledge and resources for formulation and implantation of a complex of gadgets that ought to educate the bodies of students by implant of hygienic precepts.

KEY WORDS: History of education, curriculum history, hygiene, body education.

Hygiene as time and place for body education: hygiene precepts on the curriculum at school groups in Parana state

Introducao: multiplas dimensoes do curriculo e a educacao dos corpos dos escolares

O MOVIMENTO HIGIENISTA pode ser caracterizado como um dos mais ambiciosos projetos de intervencao social que conheceu a modernidade ocidental. Pretendendo mais que definir novos padroes de saude, tinha na educacao de novas formas de sensibilidade uma das suas principais motivacoes. Cobrindo uma gama muito ampla de saberes e praticas com claro fito de intervencao sobre a vida publica e privada, como movimento conheceu avancos e retrocessos e comportou uma dispersao discursiva que ganhava matizes diferencados nos tempos e lugares onde ressoava. As preocupacoes com a infancia --nascimento, lactacao, banhos, asseio corporal, vestuario--, com a vida domestica --saude e papel social da mulher, limpeza, prevencao de doencas e vicios como o alcool e o jogo-- e com o espaco publico --urbanizacao, ordem, combate a propagacao de molestias e epidemias-- formam um conjunto nada desprezivel sobre o que pode ser caracterizado como moderno e modernizador, ainda que iniciativas voltadas para a saude individual e social nao sejam prerrogativas apenas dos tempos modernos (Bolufer Peruga, 2000).

Parte substantiva do anseio de higienizacao social passava pela educacao do corpo no ambito escolar, na forma de exercicios fisicos, ginastica, canto, jogos e conhecimentos sobre o corpo e o seu funcionamento. Nas pistas deixadas por Paiva (2003), pode-se afirmar que alguns desses saberes sociais contribuiriam para o engendramento do campo da educacao fisica como area de conhecimento, no Brasil, desde a metade do sec. XIX. No entanto, na Europa os ecos desse movimento ja faziam sentir os seus efeitos sobre as praticas escolares, tanto na sua dimensao teorico-doutrinaria, quanto no ambito das praticas escolares propriamente ditas (Crespo, 1990; Gay, 1999; Vigarelo, 2005; Vinao, 2000).

Entrementes, a higiene como parte do projeto de educacao do corpo dos escolares nao se restringia a esse conjunto de praticas e saberes que se tornariam lentamente o que conhecemos hoje como a disciplina Educacao Fisica. Antes, sobretudo a partir da segunda metade do sec. XIX, inumeras outras dimensoes praticas e saberes ganhariam relevo no curriculo escolar de modo a tentar consignar um projeto de formacao que diferenciasse a escola nova das velhas formas de conceber o mundo da escolarizacao, que se pretendia estender naquele momento a parcelas cada vez mais amplas da populacao em diferentes paises.

Tambem no Brasil esse movimento se fez sentir. Inicialmente de forma parcelar no sec. XIX, dada a incipiente disseminacao da escola neste pais (Gondra, 2004). Mas a partir do ultimo quarto do seculo e, principalmente, nas tres primeiras decadas do secs. XX, o que se viu foi uma verdadeira cruzada higienica que mobilizou medicos, educadores, engenheiros e todos aqueles ligados de alguma maneira a causa da instrucao publica. O crescente movimento pela renovacao pedagogica oferecia o esteio propicio para que, pela via da biologia, da psicologia e da antropologia, principalmente, a higiene como corpo doutrinario ganhasse espaco no ambito escolar. Dai as iniciativas em torno da sua implantacao nas Escolas Normais, nas quais podemos localizar temas ou disciplinas tais como a propria Higiene, a Puericultura/Paidologia, Trabalhos Manuais, Prendas Domesticas, entre outras. De alguma forma todas elas relacionadas com os diferentes cuidados com o corpo da crianca, da mulher, da familia, da sociedade. Portanto, voltadas para um projeto de intervencao social que teria na escola um dos seus mais destacados vetores.

Naqueles anos finais do XIX e iniciais do XX, com as frequentes discussoes sobre a Instrucao Publica primaria por parte dos mais diferentes agentes ligados as causas do ensino, nos mais diferentes ambitos educacionais, os grupos escolares foram ganhando cada vez mais a atencao de diferentes grupos e governos tambem no Brasil. A escola tornava-se naquele contexto um lugar de disseminacao das pretensoes quanto ao progresso da nacao e a civilizacao da sociedade, visto que era na crianca que se identificava o meio mais proveitoso de se inculcar novos habitos e costumes, aspecto que tem suas raizes ja lancadas no sec. XVIII europeu (Bolufer Peruga, 2000; Guerena, 2000; Vigarelo, 2005; Vinao, 2000).

Entre os aspectos apontados por Vinao (1995) como mais relevantes na conformacao das culturas escolares ou, nos termos de Vidal (2005), como os principios ordenadores da escola, tiveram lugar de destaque no presente trabalho algumas dimensoes que ajudariam a definir o curriculo: os espacos e tempos escolares, bem como as praticas educativas prescritas que incidiriam sobre o corpo dos escolares, sob o ponto de vista da higiene. Ou seja, nos ativemos a uma articulacao entre o engendramento do curriculo da escola primaria brasileira e a educacao dos corpos dos escolares, notadamente no que se refere as prescricoes quanto aos tempos, espacos e praticas voltadas para a higiene dos escolares, para alem daquelas prescricoes restritas a rubrica Educacao Fisica. Entendendo a prescricao como apenas uma das dimensoes do curriculo (Goodson, 1995), nao pretendemos discutir a efetiva implementacao desses dispositivos no interior das escolas, ainda que reconhecamos que o estudo historico do curriculo exija a confrontacao entre o que foi prescrito e os usos ou formas de apropriacao das prescricoes pelos agentes escolares. No entanto, aquilo que se prescrevia estava diretamente voltado para a escola, o que nos da elementos para compreender, pelo menos, o que diferentes agentes sociais esperavam do mundo da escolarizacao. A distancia entre o que se esperava da e o que foi realizado na escola e uma das marcas do curriculo como construcao social, mas que nao serao abordadas neste texto.

Antonio Gomes Ferreira (2004), ao tratar do estudo que empreendeu sobre o controle medico da infancia nas escolas de Portugal, ressalta que as preocupacoes quanto a higienizacao da escola aconteceram em dois momentos diferentes, mas que se fundiram em busca da intervencao totalizadora sobre o individuo pelos medicos. De acordo com o autor, no final do seculo XIX e inicio do seculo XX, existiam duas linhas de abordagem em relacao a higienizacao escolar, tambem visiveis no Brasil: inicialmente foi objeto principal das prescricoes dos discursos higienistas a medicalizacao do espaco, principalmente em relacao a construcao do edificio escolar. Posteriormente, houve um deslocamento para uma preocupacao com a medicalizacao do aluno.

Se transpusermos para o Brasil aquela dupla dimensao, vemos que a primeira perspectiva teve papel relevante nas discussoes referentes aos predios que seriam construidos, sendo pensados exclusivamente para acolher um novo modelo educacional que surgia e que, aos poucos, compunha o cenario da capital paranaense. Era frequente nos relatorios de Instrucao Publica paranaense, como de resto em diferentes outros lugares, uma determinada retorica: <<lembro a necessidade de construccao de casas proprias, com todas as condicoes hygienicas convenientes de espaco, ar e luz, de forma a melhor garantir a saude dos alumnos>> (Xavier, 1909: 17). Assim, mesmo que a autoridade publica nao se compusesse especificamente de profissionais medicos, o discurso que sustentava a formulacao de varias politicas estatais propagava os preceitos higienicos e a chamada pedagogia moderna para as formas de localizacao e espacializacao do predio escolar, alem das praticas que ali deveriam ter lugar3.

Este investimento sobre o corpo dos escolares denota uma preocupacao com projetos que transcendem, por suposto, os discursos sobre a escolarizacao. Em uma sociedade que se modernizava de forma acelerada, novas praticas escolares ajudariam a forjar novas sensibilidades necessarias ate mesmo para definicao do tipo brasileiro, para a brasilidade. Assim, esse novo espaco escolar, juntamente com o tempo escolar e a redefinicao das praticas da escola, por sua vez, deveria incutir nos corpos dos escolares atitudes diversas que remeteriam a disciplina, a brincadeira organizada, ao recato, ao controle, a formas sutis de acao que definiriam um determinado modelo de formacao pela via dos costumes. Pode-se afirmar com alguma seguranca que esse projeto de formacao tinha a sua centralidade no corpo dos alunos. Dai o nosso entendimento que os projetos que intentaram reformar a escolarizacao primaria no Brasil e no mundo sempre tiveram o corpo infantil como o seu ponto de chegada fundamental.

O lugar da higiene na educacao do corpo: algumas prescricoes

Ao longo da historia tem sido varias as formas de se educar o corpo, como varias tambem tem sido as razoes para isso. Esse fenomeno vem associado a transformacoes nao so na cultura e na sociedade brasileiras, mas pelo menos em toda a modernidade ocidental, como vimos (Taborda de Oliveira, 2006). Sem duvida, uma das mais instigantes e, ao mesmo tempo, desafiadoras investigacoes historicas e aquela que se baseia na educacao do corpo como objeto de pesquisa. Isso porque, na esteira do que propoem Taborda de Oliveira e Vaz (2004: 17), <<As praticas corporais sao fugidias, dificeis de serem registradas e apreendidas, impossiveis de se reduzir a quaisquer formas discursivas que nao sejam as proprias praticas no seu momento de efetivacao. Portanto, tentar compreender a corporalidade na historia da escolarizacao e uma empreitada dificil, arriscada e, talvez por isso mesmo, desafiadora e fascinante>>.

Ja se observou que sao possiveis apenas aproximacoes daquilo que ocorreria nas escolas, no que se refere as medidas utilizadas pela higiene para a educacao do corpo do aluno, com o intuito de forma-lo segundo uma sociedade <<civilizada>> que se pretendia saudavel, higienizada e ordenada, como fez Pykosz (2007). No entanto, as formas de desenvolvimento das prescricoes de novos habitos e costumes podem, com frequencia, ser identificadas pelos discursos dos relatorios de Instrucao Publica e Saude Publica do Estado do Parana, bem como pelas teses apresentadas nos congressos ligados a educacao e a higiene.

A Higiene configurada como parte do programa escolar apresentava em seus conteudos, saberes que incidiam diretamente sobre a educacao do corpo do escolar, fazendo parte de um grupo de disciplinas com o mesmo objetivo, tais como Trabalhos Manuais, Prendas Domesticas, Ginastica, Exercicios Militares e Canto Orfeonico. Entretanto, alem de aparecem associados a algumas dessas disciplinas, os saberes da higiene tambem estavam associados a outras disciplinas que nao teriam, em principio, a educacao do corpo como finalidade ultima (4). Alem disso, ocorriam tambem em tempos e lugares nao necessariamente disciplinares.

A intencao dos formuladores de diferentes ideias sobre a importancia de uma educacao do corpo pela via da higiene era, sobretudo, romper com os costumes ditos improprios, vindos de casa. Ou seja: que a crianca levasse os bons habitos para o convivio de seus familiares, assumindo, tambem ela, o papel de educadora. Todavia, por que nao ensinar diretamente a familia?

Lembramos que as decadas iniciais do sec. XX eram de grandes alteracoes na cena societaria brasileira e paranaense. Acreditava-se que era mais dificil ensinar novos habitos de vida aos adultos <<quando os seus costumes actuaes nao lhes parecem ter sido prejudiciaes ao bem estar>>. Segundo o formulador deste diagnostico, o Dr. John H. Janney, da comissao Rockefeller e conferencista do I Congresso Brasileiro de Higiene, o investimento deveria se dar sobre as criancas: <<A geracao com que vamos lidar no futuro e a que frequenta hoje as escolas. E somente pela instruccao administrada as creancas que poderemos alcancar o nosso objectivo nos annos vindouros. O primeiro passo a ser dado, e proporcionar a creanca a vida hygienica na qual ella possa adquirir sua educacao>> (Janney, 1923: 250).

Essa aquisicao da higiene mediante a educacao abriria espaco para a insercao da medicina no ambiente escolar, uma vez que se percebia a escola primaria como principal foco de acao daquele servico, considerado profilatico. Era ressaltada a importancia da presenca dos medicos nas escolas para que se prevenisse a proliferacao de epidemias e molestias. Nao era incomum naqueles anos no Brasil o fechamento dos estabelecimentos escolares por um periodo indeterminado, caso a escola sofresse um surto de alguma doenca. Isso ocorreu, por exemplo, no ano de 1917, quando se encerraram as atividades das escolas simples, jardins de infancia e grupos escolares da capital paranaense no mes de outubro por medidas higienicas, devido ao <<mao estado sanitario da cidade>> (Silva, 1917: 178).

Como o fechamento dos estabelecimentos de ensino por motivos de insalubridade publica contrariava toda e qualquer retorica modernizadora, inclusive aquela que propugnava o acesso a escola para todos, medidas eram tomadas para combater aqueles tracos recalcitrantes de um mundo arcaico. Aquele esforco, revelado nas palavras do Diretor Geral de Instrucao Publica, Francisco Ribeiro de Azevedo Macedo: <<pondo ao seu [da crianca] alcance uma escola gratuita, e ate supprimindo a creanca pobre de todos os recursos para que nada a impeca de aprender>> (Macedo, 1914: 15), levava o governo a buscar o apoio de medicos e inspetores de ensino para auxilia-lo a manter as escolas em funcionamento. A presenca do medico na escola auxiliaria o controle das instalacoes fisicas, contribuiria com o professor na acentuacao dos valores higienicos e morais e reforcaria a necessidade da figura do medico no dia-a-dia das criancas, logo, das familias.

Uma das organizacoes responsaveis pela disseminacao dos preceitos de higiene nas escolas era a Organizacao Sanitaria Escolar do Estado do Parana. Esta foi assunto na revista O Ensino, na qual com frequencia escreviam intelectuais ligados a educacao e a saude, como o Dr. J. P. Fontenelle, do Departamento Nacional de Saude Publica. No texto o autor argumenta sobre a importancia do problema da saude na escola, sugerindo que a rapida correcao dos defeitos corporais (anormalidades da visao e da audicao, vegetacoes adenoides, hipertrofia das anudalas, carie dentaria, etc.) e a cura de doencas, permitiriam a aceleracao do crescimento e trariam uma melhora no aproveitamento escolar. Alem disso acrescentava: <<por outro lado, esta perfeitamente reconhecido o grande valor do ensino das nocoes elementares de hygiene e a indispensavel necessidade da criacao de bons habitos de vida, o mais cedo, possivel, esforco esse que pode e deve ser tentado desde a escola, e ate, em certos casos, na idade pre-escolar>> (Fontenelle, 1924: 141).

A educacao do corpo, aqui representada pela higiene, fazia-se fundamental para o desenvolvimento da escola e das criancas, tendo em vista que a ela era conferida uma condicao de destaque para o bom funcionamento desta, assim como para um melhor desenvolvimento dos alunos. As doencas, principalmente as enfermidades dos orgaos dos sentidos, eram os conteudos mais frequentes prescritos para o ensino nas escolas primarias do Estado, embora os programas da disciplina Higiene apresentassem no seu rol de conteudos atribuidos uma variedade maior de saberes, mas sempre relacionados direta ou indiretamente aos cuidados com o corpo. Nesse sentido, formulacoes como as de Fontenelle se tornariam senso comum nos cursos de formacao de professores, pois a educacao higienica e sanitaria passaria tambem a fazer parte das tarefas que as professoras primarias deveriam cumprir.

Ja no ano de 1909, em decorrencia da participacao de Miguel Santiago no IV Congresso Medico Latino Americano, era defendida, entre as funcoes do medico inspetor, a realizacao de curso de higiene elementar, que contaria <<com assistencia obrigatoria do professor, em cujo curso [o medico inspetor] demonstrara de um modo mais simples possivel as vantagens da hygiene individual>> (Santiago, 1909: 204). O destaque conferido ao tema era tal que o periodico Archivos Paranaenses de Medicina, em 1920, apresentou a programacao do Curso de Hygiene Elementar instituido pelo Servico de Profilaxia Rural, para os professores publicos. A materia publicada chegou a listar a relacao de conteudos abordados, bem como enaltecia a grande repercussao do evento: <<as sabbatinas foram assistidas pelo Inspector Geral do Ensino, Director do Gymnasio e Escola Normal, varios lentes desses estabelecimentos de ensino, inspectores escolares, representantes da imprensa e numerosas pessoas gradas>> (p. 240).

A relacao de conteudos lecionados nos cursos de formacao de professores para o ensino da higiene, solicitado pelo governo do Estado, indica que os professores deveriam ter conhecimentos quanto as doencas e males que poderiam afetar seus alunos e, consequentemente, seus tratamentos e cuidados. Entre os demais conteudos --todos relacionados as doencas--- a presenca de elementos que poderiam gerar vicios e que, nesse documento especificamente, sao tratados como doenca. Alem de se caracterizar como um caso de saude publica, a presenca desse topico aponta para a associacao da higiene com a cruzada moralizadora que tinha, principalmente na higiene escolar, importante sustentacao. Destaque-se que essa relacao entre higiene e moral e um dos motores de propagacao do higienismo por todo o mundo (Crespo, 1990; Bolufer Peruga, 2000; Gondra, 2004; Vigarello, 2005; Moreno, 2006). Alem disso, o destaque dado a presenca de autoridades publicas ao evento mostra como o tema era de grande importancia na pauta educacional daqueles anos, pois nao so os professores eram obrigados a frequentar os cursos, como as autoridades educacionais tambem acorriam aos mesmos. O que precisamos e aquilatar ainda os efeitos daqueles investimentos sobre a instrucao publica no Brasil, para alem daquelas finalidades declaradas pelos funcionarios do Estado.

No ano seguinte, eram ofertadas tambem palestras na ocasiao da reuniao de diretores dos grupos do interior e da capital promovida pela Inspetoria Geral de Ensino. Ofertando tres palestras, o Inspetor Cesar Prieto Martinez procurava incutir nos diretores, dotados de grande poder naqueles anos, o que representava uma renovacao educacional para a escolarizacao. O Inspetor expos seu entendimento sobre os grupos escolares: <<sua direccao e organisacao; cuidados relativos a disciplina escolar, conservacao do mobiliario e do edificio, hygiene do estabelecimento, regimen de trabalho, etc. Falei sobre a estabilidade dos methodos, amplitude dos programmas, escolha de livros, preparo das licoes e enthusiasmo pelo ensino, base de todo successo>> (Martinez, 1921: 26). Esses conteudos foram relacionados como prioridades para a reordenacao da Instrucao Publica paranaense. Na mesma ocasiao, aproveitando o agrupamento dos diretores dos grupos escolares do Estado, Mario Gomes, inspetor medico-escolar fez urna palestra <<sobre hygiene em geral, cuidados com as maos e os olhos, molestias da pelle e do couro cabelludo, curativos urgentes, medidas a empregar para se conseguir o desejado asseio nas escolas>> (Gomes, 1921: 26-27). Novamente a enfase foi dada as doencas, mas nao descuidando das instrucoes sobre a higiene pessoal do aluno e do espaco da escola.

Outro espaco de disseminacao dos conteudos para os professores seriam as conferencias e congressos que tinham participacao dos professores e diretores das escolas. Na I Conferencia Nacional de Educacao, de 1927, entre tantas teses que trataram da educacao do corpo, em uma delas foram expostas orientacoes para a educacao das criancas que combinam formacao fisica com preceitos morais. Aconselhava-se a crianca a educar-se fisicamente por meio da ginastica, principalmente a sueca; ter asseio, sobriedade e metodo; nao envolver-se com narcoticos ou frequentar lugares improprios; amar a pureza, a sociabilidade, a economia. Segundo o autor desses preceitos, somente assim a crianca poderia tornar-se <<um homem verdadeiramente culto, verdadeiramente digno das funcoes a que e chamado na sociedade>> (Xavier, 1997 [1927]: 69) (5).

A importancia das praticas corporais nas escolas foi discutida por varios organismos relacionados a educacao, saude e servico militar, todos acentuando os beneficios dessas praticas para os escolares. Em seus argumentos, defendia-se a importancia da pratica de exercicios fisicos sob o ponto de vista da higiene escolar, ainda que nos seus meandros sempre sobressaisse a formacao moral. O corpo parecia ser o sustentaculo de uma moral ilibada, a qual contribuiria para colocar em marcha uma nacao ordeira, equilibrada, limpa, enfim, moderna e civilizada. Percebe-se a aproximacao da ginastica, como meio para exercitar o corpo da crianca, com a busca pela formacao de atitudes pertinentes a saude, a moral e a sensibilidade do aluno pelo corpo, procurando manter a crianca longe de vicios. Linhales (2006) nos mostra como essas preocupacoes nao estavam restritas a poucos ambitos isolados, mas ganhavam forca no interior da propria Associacao Brasileira de Educacao ao longo da decada de 1920. Assim, a associacao da higiene com a moral merece maior atencao dos pesquisadores, visto que muitas das condutas defendidas pelos higienistas e educadores abarcavam questoes de forte assento moral. Uma outra frente de investigacao ainda a ser explorada refere-se as motivacoes daqueles anos no Brasil, no que se refere a disseminacao da higiene e da moral nas escolas. Trata-se de dimensionar se ela cumpriria um papel propugnado pelo

movimento renovador no plano mundial, ou apenas contribuia para atualizar formas de dominacao das elites politicas brasileiras que se ajustavam aos novos jogos de poder no plano interno e externo. Uma vez que havia o entendimento que, se crianca respondesse aos preceitos higienicos estaria satisfazendo tambem os preceitos morais, e de supor entre aquelas finalidades nao declaradas uma forma de educacao politica. A enfase na educacao do corpo estava inserida num projeto maior de moralizacao/civilizacao dos costumes, logo, de adestramento politico.

Mas nao devemos esquecer, como veremos nos topicos destinados aos espacos e tempos escolares dos grupos escolares curitibanos, que a higiene deu contribuicoes importantes tambem para o desenvolvimento de uma compreensao sobre a necessidade dos momentos de descanso da mente do aluno, dos intervalos entre as aulas, muitas vezes, como momentos de recreio, nos quais figuravam os exercicios fisicos, o canto, atividades manuais entre outras praticas. Essa preocupacao fazia parte da teoria da <<higiene mental>>, defendida por medicos higienistas, e tinha nos avancos cientificos do momento um grande avalista, pois se baseavam nos estudos sobre a fadiga mental, que poderia ser ocasionada por muitas horas de estudos consecutivos, os quais eram desenvolvidos largamente por medicos, fisiologistas, psicologos e pedagogos. Essas teorias eram correntes e representavam alguns dos maiores avancos da ciencia no que concernia a educacao das criancas, a ponto de serem um dos portos de ancoragem do movimento pela Escola Nova em todo o mundo (Pozo Andres, 2000). A defesa da introducao dos exercicios fisicos, da ginastica e do recreio nas escolas vinha, em todo o mundo, apoiada nos preceitos higienicos <<cientificos>> tidos por modernos.

Para o Inspetor Geral de Ensino do Parana, Cesar Prieto Martinez (1921: 58), a educacao fisica, considerada como base da educacao moral e intelectual, deveria ter a mesma atencao dada a educacao do espirito, desenvolvendo harmonicamente a robustez e a destreza do corpo, de acordo com as condicoes anatomicas e fisiologicas do educando. Para ele, <<si ha uma Sciencia da Educacao, ella abrange a aptidao physica e estabelece leis tao rigorosas, postulados os mais exigentes, para que essa aptidao realize verdadeira obra de aperfeicoamento>>.

A enfase que localizamos nos documentos paranaenses pode ser visualizada tambem em outros contextos brasileiros no mesmo periodo (Faria Filho, 2000; Rocha, 2003). Faria Filho (2000: 70), por exemplo, destaca a questao da educacao higienica no cenario belo-horizontino: <<cumpre lembrar, tambem, a importancia atribuida ao canto e aos exercicios fisicos, que, de acordo com as teorias higienistas apropriadas pelo pensamento pedagogico, sao "momentos" (tempos) de descanso, de repouso da mente>>. Ainda sobre Belo Horizonte, Vago (2002: 235) ressaltou a importancia dessas praticas entre as outras atividades escolares: <<A ideia de intercambiar os "Exercicios Physicos" e o Canto as demais disciplinas expoe uma preocupacao de carater higienico, revelada na pretensao de proporcionar as criancas um descanso (relaxamento) dos trabalhos considerados intelectuais, realizados nas outras cadeiras, em sala de aula>>. Os exercicios fisicos contribuiriam para a aquisicao de corpos sadios, como indicado pelo autor. Eles se fixariam nas escolas devido a <<crenca em suas possibilidades de transformar os corpos das criancas, representados como raquiticos, debeis e fracos, em desejados corpos sadios, belos, robustos e fortes>> (Vago, 2002: 219).

No caso paranaense, se associarmos as consideracoes do Inspetor Cesar Prieto Martinez com as de Lindolfo Xavier, ambas formuladas na decada de 1920, destaca-se a associacao da educacao physica com a educacao moral, principalmente a relacao com a higiene, sendo essa associacao vista como benefica para a afirmacao dos habitos higienicos nos alunos, os quais fomentariam novas formas de convivio social. No entanto, reiteramos o entendimento que os exercicios fisicos eram um dos elementos da educacao do copo, e o desejo de novos corpos sadios apenas uma das suas finalidades. A definicao de uma nova forma de sociabilidade, que nao poderia prescindir de uma outra (e nova) sensibilidade, nos parece um elemento norteador do amalgama entre educacao do corpo, educacao moral e educacao politica. Alem da correcao, pretendia-se a constituicao de novos corpos individuais e coletivos.

Ja nos anos iniciais do sec. XX e possivel observar a emergencia desses discursos de enaltecimento do corpo, da saude, da higiene, devidamente relacionados com a moralizacao dos costumes. Segundo a professora Julia Wanderley Petriche, responsavel por uma das cadeiras publicas femininas em Curitiba, era dever do professor primario <<encarar a educacao da crianca sob o seu triplice aspecto, cuidando simultaneamente do seu desenvolvimento physico, intellectual e moral. Mens sana in corpore sano e por isso considero de grande importancia a educacao physica pelo auxilio que incontestavelmente presta a educacao moral>> (Petriche, 1908: 13, grifo da autora). A triade que contemplaria a educacao integral do homem permanecia nas discussoes de intelectuais no seculo XX com o novo modelo educacional que culminou nos grupos escolares.

Alguns autores tem apontado para a relevancia da educacao do corpo entre esses aspectos. Para Taborda de Oliveira (2007: 272) <<foi sobre a educacao fisica que recairam os maiores esforcos e investimentos intelectuais>> no longo processo de afirmacao da escola elementar. Isso justificaria a inclusao nas escolas de praticas de educacao fisica, de educacao sanitaria, de ensino da higiene, assim como o exame medico regular no inicio do sec. XX, tal como ja ocorria no ambito escolar em outros paises: <<mas para se chegar a um resultado conveniente e satisfactorio, tendo-se em vista a natureza de cada alumno, na ministracao da gymnastica, bem como das outras medidas hygienicas preventivas, e imprescindivel, em nosso meio, o estabelecimento da inspeccao medica dos collegiaes, a exemplo do que se realisa com grandes vantagens e exito real em todos os centros adiantados>> (Xavier, 1909: 17).

Como se ve, a inspecao medica escolar --IME-- era foco de discussoes e reclames desde o inicio do seculo. Mas apenas em 1921 foi oficialmente implementada no Estado do Parana, ainda que tenha sido criada no Brasil no ano de 1889, pelo entao ministro do imperio, conselheiro A. Ferreira Vianna. Ela pode ser caracterizada, de acordo com Marques (1994: 113), com um <<carater de policia medica em consonancia com a medicina social da epoca>>.

A IME no Parana, conjuntamente com outras acoes da reforma do ensino elaborada pela Inspetoria Geral de Educacao, liderada por Prieto Martinez nos primeiros anos da decada de 1920, veio para exercer um papel na Instrucao Publica do Parana ha tempos reclamado pelas autoridades de ensino, visto sua pretensa utilidade para o progresso da educacao. Antes da reforma levada a cabo por Prieto Martinez, havia um controle escolar que se pautava nos preceitos higienicos, como e o caso da <<inspecao escolar>> encontrada no capitulo IX do Codigo de Ensino de 1917, mas que ainda nao tinha um carater de orgao regulador. Naquele caso, a preferencia por medicos para exercer o papel de inspetores escolares nao era fortuita, dada a importancia que aquele profissional e os seus servicos adquiriram naquela epoca de profunda redefinicao da paisagem urbana brasileira. Mas tratava-se de uma <<preferencia>>. No Parana, a inspecao no ambiente escolar ganhou respaldo com a criacao do servico de <<Inspeccao Medico-escolar>>, pela lei 2065 de 21 de marco de 1921. A partir daquele momento era obrigatorio o cargo de Inspetor ser ocupado por medicos. Este servico foi requerido, no Parana, com o intuito de prestar <<inestimaveis servicos a saude dos alumnos e professores>> (Martinez, 1920: 24), portanto, mudando o foco dos objetivos que tinham os inspetores escolares, que se centravam mais na higiene fisica dos estabelecimentos de ensino.

Importante dar destaque ao investimento feito pelo Governo para a compra de materiais para a realizacao de exames antropologicos, com a funcao de medir os corpos das criancas e assim, classifica-las. A Antropologia, uma das mais saudadas novidades cientificas da epoca, que ate pelo menos a decada de 1940 foi fortemente influenciada por um ideario de hierarquizacao evolucionista, trazia em sua pratica a pesquisa de dados antropomorficos: tamanho, peso, tamanho do cranio, membros, entre outros. Um dos anseios do movimento de renovacao educacional no mundo era o controle sobre todas as variaveis que poderiam intervir sobre o bom funcionamento e desenvolvimento do organismo dos alunos. Dai decorrem premissas niveladoras, assim como uma necessidade de hierarquizar a escola, como no caso da definicao de programas graduados e turmas homogeneas. Essa sanha pela padronizacao provavelmente tenha deixado suas marcas nos proprios processos de definicao das hierarquias socio-culturais, tais como a retencao e a exclusao escolares, assim como a selecao laboral a partir das competencias adquiridas no ambito escolar (6).

A insercao de observacoes, medicoes e classificacoes na escola por medicos e professores tinham associacao, ainda, com a tentativa de fazer da Pedagogia uma ciencia, incorporando a ela conhecimentos da Antropologia, Psicologia, Biologia, Medicina e Psiquiatria, <<cujas fronteiras nao eram muito nitidas>> (Carvalho, 1997: 273), mas procuravam assentar as bases do pensamento cientifico sobre os fenomenos educacionais.

No Parana, Mario Gomes empiricamente verificava que a maioria dos alunos era constituida de criancas <<robustas e sadias>>, mas relatava tambem: <<a impressao desagradavel que me causaram muitos alumnos que se apresentam a escola em estado de completo desasseio, tanto do corpo como das vestes, sem falar na falta de cuidado com os cabellos, unhas, dentes e pes>> (Gomes, 1921: 126). Dois anos depois, o inspetor medico-escolar, em consideracoes transcritas no relatorio de Cesar Prieto Martinez (1923: 67), ja apontaria uma melhora nas condicoes de higiene de algumas instituicoes escolares: <<Afora os conselhos hygienicos e as numerosas receitas medicas gratuitas para varias enfermidades, observei notaveis progressos em alguns Grupos e Escolas, no que diz respeito ao asseio dos alumnos e a limpeza das salas de classe; apezar disso, muito teremos ainda de lutar pela carencia de educacao hygienica e simples habitos de asseio, factores elementares da hygiene escolar>>.

Com esse servico foi possivel um maior controle das instalacoes e acoes nos grupos escolares e demais escolas, bem como do corpo do aluno, pois pela inspecao passava-se uma mensagem ao aluno de cuidados com o corpo e o espaco, intentando modificar-lhes os habitos e costumes. Com o tempo, o servico de IME, que antes centrava os esforcos no servico dentario e nas tematicas relacionadas as doencas, sua cura, seus cuidados e seu combate, foi se aproximando mais ao asseio, aquilo que dizia respeito a limpeza do corpo e das vestes, da educacao higienica e da consciencia sanitaria. Tambem estavam no horizonte preocupacoes com determinados padroes e classificacoes corporais, inclusive raciais. Esse movimento nao aconteceu apenas no ambito da escola, mas do conhecimento medico em geral (Herschmann e Pereira, 1994).

Mais que inspecionar, o papel educativo do Inspetor Medico-escolar foi ressaltado por Gomes (1926) como o principal dentro da escola, especialmente junto ao professorado, auxiliando-o para alcancar o maximo de eficiencia no servico de inspecao. Para ele, a preocupacao do medico-escolar deveria ser sempre de mostrar a necessidade do asseio com base na higiene, o valor da saude, conservada pela robustez e a profilaxia e tratamento das molestias, acrescentando sempre que possivel, informacoes aos alunos sobre nocoes de higiene geral (da alimentacao, da boca, da vista) e nocoes elementares sobre os principais sintomas das doencas infecto-contagiosas e meios de evita-las, alem dos comportamentos moral e socialmente aceitaveis.

O ponto de chegada dessas preocupacoes parece ter sido a utilizacao de fichas medico-antropometricas pelo servico de IME. As fichas por nos localizadas fazem supor que um ideario sobre o controle corporal que tinha alcance mundial, chega tambem as escolas paranaenses, como nao poderia ser diferente. Em 1933, foi instituido um regulamento relativo ao servico de carteira de saude, na qual eram apontados os resultados dos exames de capacidade fisica e mental do aluno. Sem duvida esses exames se caracterizavam como uma das principais formas de educacao do corpo na escola.

Conformar corpos e gestos. Era a partir da IME que se adequavam as acoes dos alunos; com seus dados se avaliava o desenvolvimento, seus pontos positivos e negativos. Dos pontos positivos, era importante o reforco do medico e do professor para que permanecessem e fossem ampliados; sobre os pontos negativos, a necessidade a sua modificacao para uma melhora a qual, era desejavel, deveria se apresentar na proxima secao de Inspecao Medico-escolar. Ambos contavam com um trabalho conjunto entre medico e professor, o qual inspecionava diariamente os alunos na sala de aula. E importante enfatizar o papel da IME na educacao dos corpos dos escolares, tornando-os, por meio do acompanhamento de suas medidas e condicoes de saude, conscientes da sua situacao e, com isso, tendo instrumentos para as acoes necessarias. Ainda que nao esteja no escopo deste trabalho essa verificacao, pode-se supor que o servico da IME contribuiu para imprimir nos alunos os habitos e comportamentos tidos como <<saudaveis>>.

Certamente a intencao principal era fazer do espaco escolar um meio de formacao de novos habitos e atitudes para os alunos, um espaco que educa, um territorio vivenciado e incorporado a experiencia e, consequentemente, a memoria dos alunos. Assim, aqueles ensinamentos se estenderiam as suas vidas fora do ambiente escolar. Essa pretensao fica evidente na fala de Jayme Dormund dos Reis destinada ao Secretario do Interior, Justica e Instrucao Publica Coronel Luiz Antonio Xavier, ainda no ano de 1909, quando destaca que os predios escolares, as salas e o mobiliario, como elementos de comparacao com o conforto que nao tinham nas suas casas, serviriam para que no futuro os alunos procurassem, se nao sobrepujar, pelo menos igualar <<nas condicoes de vida, aquillo que viram e observaram na casa destinada, nao so a lhes fazer conhecer as lettras do alphabeto, mas tambem os meios e modos de conseguir um sempre crescente bem estar physico, moral e intellectual>>.

Ainda: <<por isso a escola hodierna deve ter todos os requisitos exigidos pela sciencia, e si nao e possivel tudo fazer num momento, como reconheco, ao menos iniciemos uma reforma completa, dentro dos moldes mais amplos que a observacao quotidiana tenha indicado como melhores>> (Reis, 1909: 59).

Educacao do corpo: espaco e curriculo

A discussao sobre o predio e mobiliarios escolares era corrente nos ultimos anos do sec. XIX e primeiros do sec. XX em boa parte dos paises (Moreno, 2007). No que se refere ao espaco escolar ao longo dos anos finais do sec. XIX e os iniciais do sec. XX, em Curitiba discutiram-se inicialmente as possibilidades de localizacao dos predios escolares. Defendia-se que fossem em um local central, alto, de facil acesso, seguro e equipado com o servico de limpeza publica, dando enfase a sua ventilacao, distribuicao de agua e condicoes higienicas e, ao mesmo tempo, distante de lixos, cemiterios, enfim, locais insalubres de frequentes proliferacoes de molestias infecciosas, que poderiam afetar a saude dos escolares. Bencostta (2001: 114) lembra que os preceitos de higiene nas projecoes e construcoes dos edificios escolares incorporavam <<pressupostos de uma pedagogia compreendida como moderna, [a higiene] enfatizava a importancia do ar puro, da luz abundante e de uma adequada localizacao sanitaria, requisitos indispensaveis para o bom estado dos grupos escolares>>.

Constam no capitulo IX do Codigo de Ensino implementado no Parana a partir de inicio de 1917 as orientacoes com relacao aos predios escolares, principalmente no que diz respeito a higiene escolar, definindo requisitos externos e internos. Contemplamos este documento pelo grande destaque que da ao espaco escolar na sua dimensao higienica, mesmo 14 anos depois da instalacao do primeiro grupo escolar no estado. Quanto a primeira subdivisao, era previsto que a escola se encontrasse em local central em relacao a populacao que destinava atender, sendo que o predio deveria estar no centro do terreno, e limitado por muro ou gradil, circundado por patios de ginastica e recreio, lavabos, privadas e jardins. Estava previsto ainda, ser de facil acesso, seguro, longe de fabricas que emitissem ruidos e lugares insalubres e com solo drenado. Ja em relacao aos requisitos internos, as salas de aula deveriam ter forma retangular, destinando im.20 por aluno, com janelas retangulares, largas, altas e numerosas e serem afastadas das privadas, que deveriam ter agua e aparelhos de ventilacao. Outros espacos eram previstos, como um porao de altura nunca inferior a imao entre o solo e o soalho, um compartimento proprio para um museu escolar e acondicionamento de trabalhos manuais e materiais, vestibulo e entrada especial para sala de aula e comunicacoes interiores entre elas e <<ter, enfim, todas as condicoes recommendaveis pela pedagogia e pela hygiene>> (Parana, 1917: 52-53).

Em relacao ao ambiente externo, o documento recomenda a sua localizacao no espaco da cidade. Esse fator e um elemento indissociavel da questao curricular, pois, conforme Vinao e Escolano (2001: 28), <<a producao do espaco escolar no tecido de um espaco urbano determinado pode gerar uma imagem da escola como centro de um urbanismo racionalmente planificado ou como uma instituicao marginal e excrescente>>. A propria definicao daquilo que e urbano, e a inscricao da escola nessa definicao, denotam um dos vetores da modernizacao da instrucao publica e da redefinicao de novas formas de sensibilidade.

Antes daquele codigo, em 1917, no entanto, a principal discussao em relacao a localizacao dos predios escolares destinados aos grupos escolares na trama de Curitiba recaiu sobre o Grupo Escolar Xavier da Silva, em 1903, por ter sido construido no intuito de servir de modelo para posteriores fundacoes de outros grupos escolares na propria capital e em outras cidades do Estado. A sua localizacao foi colocada muitas vezes em discussao por integrantes da Diretoria Geral de Instrucao Publica por entenderem que o local nao fosse apropriado para tal estabelecimento. Isso porque, segundo o proprio diretor geral de Instrucao Publica Arthur Pedreira de Cerqueira (1907: 20), <<o Grupo Xavier da Silva nao satisfaz os fins a que foi destinado por estar situado distante do centro, na extrema meridional da cidade, onde se nota pequena densidade de populacao escolar>>. Alem disso o grupo estaria em terreno alagadico, o qual provocaria enormes transtornos para a comunidade da escola nos dias de chuva, comuns em Curitiba.

Entretanto, contraditoriamente, o Delegado Fiscal da 1.a circunscricao escolar, Dr. Laurentino de Azambuja, elogiava a localizacao, relatando ter ali uma populacao de 315 alunos de ambos os sexos, <<demonstrando esta elevada frequencia a excellente collocacao do predio com um centro de grande concurrencia de alumnos>>. Elogiava e destacava a falta de outras instituicoes como aquela, o que solucionaria os problemas das escolas publicas da capital (p. 63).

As consideracoes de Azambuja parecem nao fazer eco as preocupacoes governamentais, uma vez que a defesa pela localizacao do edificio escolar numa regiao central, ou numa regiao de grande concentracao habitacional era constantemente discutida nos relatorios de Instrucao Publica do Parana, com a justificativa de facilitar a acao dos inspetores de ensino, a presenca de um numero maior de criancas participantes no espaco escolar, bem como a fiscalizacao daquele espaco no que se refere aos preceitos de higiene. O fato e que, mesmo sendo retirado do centro da cidade naqueles anos, o Grupo Escolar Xavier da Silva recebeu um elevado numero de alunos, o que contribuiu para que, mais tarde, as reclamacoes se transferissem para as condicoes do predio e nao mais de sua localidade, para atender o grande numero de criancas que ali frequentavam (Gomes, 1921).

Em alguns estudos parte-se do pressuposto que os grupos escolares representariam um dos simbolos do progresso e enaltecimento da nacao, tao almejados com a Proclamacao da Republica. Encontrando-se num local de destaque no mapa da cidade, conciliaria as questoes politicas e educativas. Esse era muitas vezes o discurso encontrado nos relatorios e codigos de ensino brasileiros. Contudo, como se percebeu no caso do Grupo Xavier de Silva e de outros grupos escolares criados posteriormente, essa prescricao nao foi cumprida. Assim, deve-se ter o cuidado de nao transplantar as consideracoes de Vinao e Escolano quando analisam, sobretudo, a realidade espanhola, para Curitiba ou qualquer outro lugar, dada a diferenca entre o contexto analisado pelos autores e o aqui analisado. Ainda assim, e relevante entender como o urbanismo e a arquitetura eram responsaveis por oferecer <<uma completa cobertura para alcancar as finalidades da educacao, passando a ser parte do programa pedagogico>> (Vinao e Escolano, 2001: 32). A questao e procurar compreender tambem em que medida a arquitetura se materializava em conformidade com os projetos educativos nos contextos politicos que a formulavam.

Entretanto, mesmo que tomados esses cuidados, como entender a arquitetura escolar como parte do curriculo? Em primeiro lugar, e fundamental destacar o simbolismo que ela desempenha na vida social. Em Curitiba, a pretensao para a expansao do ensino primario e sua ascensao no modelo do grupo escolar era defendida dispondo, em tese, do que era de mais moderno na construcao dos predios destinados ao seu funcionamento. Nesse sentido, diretores, inspetores e professores conheciam varias experiencias tanto no Brasil quanto no exterior, fosse pela propria circulacao de livros, periodicos ou relatorios, quanto pela pratica de viagens em missao pedagogica. No entanto, os grupos escolares paranaenses ficaram muito aquem daquelas pretensoes de renovacao do espaco, tendo como principal motivo, segundo a documentacao, as precarias condicoes financeiras anunciadas por diferentes governos do Estado. Mas deve-se indagar tambem em que medida os grupos politicos dirigentes tinham preocupacoes efetivas com a qualidade da instrucao publica primaria, a comecar pela definicao do seu espaco proprio.

O predio escolar nao teria so funcao simbolica como tambem estetica, a qual desempenharia na crianca uma forma de educacao dos sentidos. Defendia-se que os predios escolares oferecessem um <<aspecto agradavel, porque a propria esthetica do edificio influe sobre o moral das creancas, contribuindo tambem para chamar as attencoes e sympatias, tornando assim a escola um ponto attractivo, como convem>> (Xavier, 1909: 17). Ainda compreendia-se a estetica como forma de <<despertar na creanca impressoes delicadas, tendentes a lhe desenvolver o sentimento do bello, apurando-lhe os sentidos na distribuicao e escolha dos ornamentos technicos e estheticos da classe, de modo que ella ahi se sinta a vontade, com o espirito aberto a aprendizagem, a missao desse modo se tornara mais real e mais productiva>> (Santos, 1912: 8). Destaque-se que a educacao estetica, em suas multiplas facetas, tambem era uma das dimensoes bastante disseminadas pelos ideais educativos desde o sec. XVIII, pelo menos, sendo destaque nas ideias da chamada Escola Nova. Novamente as consideracoes das autoridades da instrucao publica paranaense pareciam bastante afinadas com algumas das premissas da educacao renovada que percorriam varios paises, ainda que a sua realizacao nao fosse garantida na construcao dos grupos paranaenses (7).

A partir dos relatorios de Xavier (1909) e Santos (1912) e possivel perceber as mudancas nas finalidades da escola ao longo do tempo. De uma escola que no sec. XIX se constituia fundamentalmente pelos saberes elementares do 1er, escrever e contar, com o passar do tempo, alem do aumento quantitativo dos conhecimentos ensinados, a escola passava a compreender tambem a formacao dos sentidos nos alunos. Na prescricao, a estetica dos predios escolares passaria, entao, a desempenhar a funcao de envolver a crianca nao so espiritual como fisicamente, educando o seu corpo pelos seus sentidos.

O espaco escolar foi, sem duvida, um componente fundamental para a conformacao e o controle corporais necessarios para os objetivos da escolarizacao em um momento que se prognosticava a reforma da sociedade brasileira. Por meio dele, a crianca teria suas primeiras nocoes do conhecimento do proprio corpo alem da sua experiencia imediata, a partir da experimentacao das estruturas arquitetonicas, fontes de uma nova experiencia e aprendizagem (Vinao e Escolano, 2001; Bencostta, 2005). O espaco escolar teve tambem papel de destaque no controle dos movimentos e contatos, visto que suas demarcacoes limitavam, por muitas vezes, acoes e gestos. Nesse sentido o mobiliario escolar cumpriria um papel fundamental ao determinar formas de estudar, de 1er, de sentar, de escrever, de exercitar, de se mover, enfim, de estar no espaco da sala de aula, bem como no uso dos demais espacos da escola, tais como patios, refeitorios, seu entorno, areas de circulacao, laboratorios etc. Isso tudo sem esquecermos que o proprio metodo prescrevia a licao de coisas, a qual se daria pela exercitacao dos sentidos dos alunos: tato, olfato, paladar, visao e audicao.

Como exemplo desse investimento encontramos as prescricoes do Codigo de Ensino referentes ao espaco destinado aos recreios e a gymnastica. A pratica dos recreios e da ginastica era defendida como imprescindivel para evitar a estafa mental que poderia ser causada por secoes consecutivas de atividades intelectuais. Para isso, fazia-se necessario um espaco reservado para essas praticas, geralmente os patios das escolas (Meurer, 2008). Em relatorio da Inspecao Medico-escolar de 1921, Mario Gomes reclamava da falta de protecao e umidade do patio do Grupo Escolar Xavier da Silva, por exemplo. Alem disso, criticava sua localizacao no terreno, sendo que deveria estar <<situado em centro de terreno e nao a frente de duas ruas, exposto a poeira, ao ruido e aos outros inconvenientes de sua posicao central>> (Gomes, 1921: 125). Novamente o grupo escolar modelo nao coadunava com os anseios modernizadores de muitas das formulacoes adotadas pelas autoridades paranaenses, pois percebe-se que as orientacoes quanto a construcao dos predios escolares nao foram integralmente respeitadas nem mesmo no primeiro grupo escolar construido em Curitiba. Entre sua inauguracao em 1903 e o relatorio ora analisado, de 1921, houve varios outros momentos nos quais se reivindicava a reforma desse estabelecimento de ensino devido, tambem, a problemas apresentados quanto ao elementos foram adaptados ao modelo da educacao aqui proposto, perdendo muito do que propunham as doutrinas que os formulavam. Outras dessas prescricoes nem mesmo permaneceram nos curriculos, como a educacao artistica e o canto, por exemplo. Novamente e de se destacar a grande ocorrencia desses temas no Boletin de la Institucion Libre de Ensenanza e na Revista La Escuela Moderna, na Espanha. Como as duas publicacoes tinham em seu projeto editorial uma grande preocupacao com a divulgacao do que se fazia em termos educacionais em todo o mundo, podemos toma-las como emblematicas de um esforco mundial de reordenacao das praticas educativas. seu ambiente interno. Esse caso nao era excecao; era comum a acentuacao dos problemas fisicos e estruturais dos predios dos grupos escolares nos relatorios de inspecao e de Instrucao Publica, nao so no Parana (8).

Em 1920, ao assumir o cargo de Inspetor Geral de Ensino, Cesar Prieto Martinez elaborou um relatorio da situacao da Instrucao Publica do Parana quando chegou ao Estado. Os predios escolares, para ele, <<afastam-se dos preceitos pedagogicos modernos. Nas construccoes escolares nem mesmo os detalhes podem ser menosprezados para que possam alliar commodidade e conforto, economia e condicoes hygienicas>> (Martinez, 1920: 27). No ano seguinte, o inspetor de ensino persistiria no assunto: <<muitos dos predios escolares exigem reparos, alguns requerem modificacao de vulto, em virtude dos defeitos de construccao e da ma distribuicao das salas que se communicam entre si, que nao obedecem as devidas proporcoes e que sao mal iluminadas>> (Martinez, 1921: 23-24).

Ja observamos que em 1907 Laurentino de Azambuja enaltecia a construcao do Grupo Escolar Modelo, da Capital, em meio a tantos criticos. Sua postura talvez estivesse motivada pela observacao do espaco das outras escolas. Azambuja denunciava a incompatibilidade do numero de salas em relacao ao de alunos que frequentavam as escolas, concentrados em espacos reduzidos, <<muitas vezes sem a precisa ventilacao e sem a plena liberdade de movimento>>. Outro problema que dificultava a circulacao dos alunos nas salas de aula eram os <<bancos-carteiras>>, de antigo modelo, pesados e largos, nao oferecendo as exigidas condicoes pedagogicas, geralmente planas, de uma so dimensao e sem elevacao graduada e proporcional as idades das criancas, sem encosto, quando deveriam ter inclinacao de 40 para leitura e 15 a 20 para escrita e com encosto para evitar posicoes viciosas e conservar a correta. Azambuja ainda prescrevia a alteracao em algumas escolas da disposicao do mobiliario, para auxiliar no recebimento da luz solar pelo lado esquerdo, pois quando mal projetada podia ocasionar molestias do aparelho visual. No entanto, argumentava que em muitas escolas nao podia agir dessa forma, por funcionarem em predios particulares, nos quais a colocacao das janelas contrariava <<aos mais rudimentares principios hygienicos>> (Azambuja, 1907: 62).

A minucia do relato do delegado e tocante. Fosse a preocupacao com o posicionamento do mobiliario escolar em relacao a janela, devido a entrada da luz solar; fosse a propria estrutura do mobiliario, passando pela quantidade de alunos em uma sala e a sua postura para ler ou escrever, nada escapava ao escrutinio do zeloso servidor. Nao e demais, com os ensinamentos da Historia, observar que majoritariamente --excetuando-se algumas escolas que serviriam como modelo-- os predios escolares parecem trazer o signo do descaso da sociedade e de diferentes governos com a educacao, tal a sua precariedade generalizada ainda nos dias de hoje, se comparados com outros espacos publicos significativamente melhor projetados e cuidados que a escola publica.

No decorrer dos anos iniciais do seculo XX, houve inumeros avancos em relacao as discussoes referentes ao mobiliario escolar, e nao so no Brasil (Moreno, 2007). No caso paranaense, a professora Carolina Pinto Moreira empreendeu uma viagem a Sao Paulo, em 1907, para estudar a organizacao do ensino primario da capital paulista. Entre outros pontos, observou e trouxe catalogos e modelos para construcao de mobiliario para as escolas paranaenses: <<Em referencia ao mobiliario, ja nao havendo mais quem ponha em duvida que a hygiene das escolas depende em grande parte do mobiliario nellas usado, e intuitiva a necessidade da acquisicao de bancos e carteiras do typo americano [...]>> (Moreira, 1907: 11). Carolina Moreira trouxe de Sao Paulo dois exemplares.

Mas somente em 1920, o Inspetor Geral do Ensino, Cesar Prieto Martinez teve como resposta do presidente do Estado a aprovacao do pedido de verba especial para esse fim: <<com grande prazer vimos satisfeito o nosso pedido e tratamos de adquirir o material existente no mercado, ao mesmo tempo que faziamos encommenda as fabricas de moveis, typos de mobiliario escolar commodos e elegantes>> (Martinez, 1920: 13). Dada a parca disponibilidade financeira do Estado do Parana naquele momento, uma das alternativas encontradas pela Inspetoria Geral de Ensino foi a construcao dos bancos e carteiras escolares principalmente pela Penitenciaria do Parana. Aos poucos, o mobiliario era substituido por outro mais <<moderno>> e respeitando os preceitos da higiene escolar.

O mobiliario escolar tem relativo destaque nos estudos e publicacoes sobre higiene devido a sua importancia quanto a aquisicoes de habitos viciosos que ele pode causar, ja que incidem diretamente nos corpos dos escolares, principalmente pela questao da postura, dependendo do formato das carteiras escolares. Ha tambem a preocupacao com os aspectos fisicos diretamente relacionados com a disposicao dos moveis dentro da sala de aula, visto que, como apontado no documento citado anteriormente, a ma distribuicao de luz podia proporcionar aos alunos alteracoes em sua saude. Alem disso, a disposicao adotada nas salas de aula permite inferir que alem da saude dos alunos estava em jogo tambem uma determinada forma de organizar o espaco, a qual pressupunha um controle mais minucioso da parte do professor e dos inspetores escolares (Caruso, 2005). Todavia, ainda que fazendo parte das discussoes de medicos e arquitetos ligados a educacao desde o seculo XIX, pode-se notar a demora de decadas para adocao de varios dos preceitos higienicos no ambito do Parana, conforme ja mostrou Bencostta (2005: 104), o que apenas denota a distancia entre aquilo que se prescreve e aquilo que se efetiva, seja como politica de estado ou como definicao curricular.

Educacao do corpo: tempo e curriculo

A questao da organizacao e uso do tempo escolar tem relacoes estreitas com a construcao e os espacos escolares. Muitos autores defendem a indissociabilidade do tempo e do espaco, pois e pelo tempo que se prova o espaco, ou e em um determinado espaco que se percebe o tempo: <<a nocao de tempo, da duracao, nos chega atraves da recordacao de espacos diversos ou de fixacoes diferentes de um mesmo espaco. De espacos materiais, visualizaveis>> (Vinao e Escolano, 2001: 63). Com a implantacao dos grupos escolares, houve tambem uma reordenacao do tempo, ou seja, a implementacao de um <<novo>> tempo, assim como um <<novo>> espaco (Vidal e Faria Filho, 2005).

Em Curitiba, essa reorganizacao da Instrucao Publica primaria teve destaque no relatorio de Cesar Prieto Martinez, em 1920, sobre o regime dos grupos escolares.

O inspetor relata que foi apos os grupos passarem a um regime de <<inteira independencia>>, que passaram a funcionar com mais regularidade, distribuindo melhor o tempo, organizando mais criteriosamente suas classes e entregando-as aos professores de acordo com as exigencias pedagogicas. Note-se que tambem no caso do tempo se parte do pressuposto que os grupos escolares deixavam para tras velhas maneiras de organiza-lo, de geri-lo. No entanto, a individualizacao no tratamento dos grupos escolares pode ser entendida tambem como uma forma de controle mais efetivo desse modelo escolar a partir da figura do diretor e dos diversos niveis de inspecao. Ou seja, uma maior centralizacao das coisas da instrucao publica na esfera do Estado.

As discussoes sobre os tempos da escola tambem dizem respeito a definicao de novas sensibilidades. Basta compreendermos que o curriculo, na sua forma tradicional, representa um conjunto de fases a serem superadas (Hamilton, 1992) com o fito de atingir as finalidades da escolarizacao. Naqueles anos nos quais as retoricas mecanicas ganhavam destaque nos discursos pedagogicos (acao, atividade, trabalho), os tempos escolares eram pensados de maneira que pudessem dar conta de um ambicioso projeto de educacao integral. No entanto, as minucias da prescricao eram subvertidas pelos imperativos do cotidiano.

Localizou-se, do ano de 1917, uma solicitacao de aprovacao de uma proposta de horario para as escolas curitibanas --supostamente para o grupo escolar modelo, pois seu autor era o diretor desse estabelecimento de ensino-- levando-se em conta as necessidades pedagogicas e do meio curitibano (do ponto de vista climatico). Infelizmente, nao encontramos o documento que deveria estar anexo ao pedido. Mas dele podemos ter uma ideia, por meio da correspondencia trocada com as autoridades do ensino, das proposicoes que se faziam presentes na construcao de um horario escolar que tinha o <<intuito de satisfazer o mais sublime apanagio dos modernos cursos de instruccao primaria>> (Sigwalt, 1917, s. p.): 1. sendo um so periodo, impediria o aluno faltar depois de responder a chamada; 2. pedagogicamente seria o melhor periodo, pois a acuidade cerebral atinge o maximo de percepcao e atencao; 3. nao haveria prejuizo, visto que seria o mesmo numero de horas de aula; 4. o aluno nao teria outra preocupacao que nao o estudo; 5. no inverno o horario nao alteraria e o aluno nao sofreria os rigores da estacao; 6. os alunos que moram longe da escola, nao teriam dificuldades de chegar a hora precisa; 7. o organismo infantil nao sofreria com as consequencias de uma alimentacao feita as pressas.

Naqueles anos o ensino primario era dividido em quatro series graduais. No art. 56 a organizacao dos horarios pautava-se na divisao em duas secoes, havendo entre elas uma hora destinada ao almoco e repouso dos professores e alunos, sendo que a primeira secao funcionaria das 9 as 11 horas e a segunda das 12 e meia as 14 e meia, com 35 minutos de recreio para cada secao. Especialmente estava prevista a avaliacao de situacoes particulares, conforme as condicoes do meio social e do clima do lugar onde a escola funcionava, podendo o Conselho Superior estabelecer horario de excecao.

Entre as argumentacoes desenvolvidas pelo professor Sigwalt para a defesa da mudanca do horario para outro mais concernente a realidade das criancas (a distancia de suas casas ate a escola, menor sofrimento na estacao mais fria do ano, nao prejuizo do horario da alimentacao) e da escola (melhor aproveitamento do aluno, maior controle da frequencia escolar, destinacao dos alunos exclusivamente ao trabalho escolar), destacam-se as relativas a alimentacao e ao maior aproveitamento do aluno, ainda que nao levasse em consideracao os alunos que precisavam trabalhar, o que ainda e comum no Brasil nos dias de hoje.

A alimentacao apareceu como uma preocupacao dos medicos higienistas brasileiros desde o seculo XIX, preocupacoes estas referentes a nutricao eficaz da crianca, aleitamento materno e, num plano mais voltado a escola, a introducao no cotidiano das criancas de uma rotina alimentar. Segundo Gondra (2004), a Ingesta, a presenca da alimentacao no discurso medico, se justifica por ser esta <<variavel em virtude de climas, riqueza e civilizacao dos povos>> e, portanto <<configurar-se como um aspecto obrigatorio na agenda dos higienistas, e para a qual o medico nao poderia ficar indiferente, ja que se encontrava intrinsecamente vinculado a questao da saude publica ...>> (Gondra, 2004: 191).

Os registros daquele documento oficial que serve como prescricao organizadora da propria vida escolar, sao validos para compreendermos alguns dos elementos referentes ao tempo escolar, mesmo que nao fosse adotada essa nova organizacao do tempo nas escolas paranaenses naqueles anos. Uma indicacao da nao aprovacao daquela solicitacao do professor Sigwalt pode ser analisada a partir de outro oficio, do mesmo ano, do Inspetor Escolar Joao de Sousa Ferreira --respondendo a pedidos dos professores das escolas, o qual propoe a alteracao do horario do Grupo Escolar Pedrosa e da Escola Mista da Fazendinha para 8h as 121130. O Inspetor Escolar teve seu pedido negado com a justificativa de contrariar o Codigo de Ensino de 1917, embora estivesse presente nesse documento a possibilidade de modificacao.

Nesse Codigo de Ensino fica evidente a preocupacao com a necessidade de intervalos entre atividades intelectuais para o descanso da mente e o tempo destinado a cada atividade escolar, aparecendo esses dispositivos de forma bem definida no decorrer do documento. Destacam-se ainda os intervalos para o almoco, para descanso dos professores alunos e para o recreio. Esse conjunto de prescricoes e oriundo dos preceitos higienicos. O calendario, com seus cronogramas, era concebido no seu apuro de racionalizacao nao apenas por questoes de organizacao, mas tambem pensando na saude mental e fisica do aluno e do professor.

Assim, pode-se perceber que a higiene apareceu como integrante do curriculo escolar de diversas formas ao longo do processo de definicao da educacao primaria no Brasil. Muitas vezes nao definida como disciplina escolar, mas incorporada as questoes do controle, da disciplina e (con)formacao mediante espacos, tempos escolares e saberes. A higiene no curriculo seria um meio de inculcar novos habitos e costumes a classe escolar e, no plano mais amplo, seria um meio de disseminar determinados valores para um pais que alterava suas formas de sociabilidade. Aqui cabe o entendimento de Marta Carvalho (1997), quando compreende a higienizacao como um modo de disciplina, no sentido de comportamento, ordem, obediencia, sendo que disciplinar nao representaria mais a prevencao ou correcao, somente, mas teria a funcao de <<moldar>>. Permanece a pergunta: dado o modelo prevalecente de escolarizacao de massas, poderia ser diferente? Ou esse modelo ja seria uma impostura diante dos imperativos da formacao de um <<homem novo>> para um <<mundo civilizado>>?

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(1) Mestre em educacao pela ufpr. Professora do Departamento de Educacao Fisica da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

(2) Doutor em Historia e Filosofia da Educacao. Professor do Departamento de Teoria e Pratica de Ensino e do Programa de Pos-Graduacao em Educacao, linha de Pesquisa Historia e Historiografia da Educacao, da Universidade Federal do Parana. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico-CNPq.

(3) Ainda esta por se fazer uma historia das relacoes entre o movimento de renovacao pedagogica (Escola Nova) e a educacao do corpo. Os indicios que temos quando focamos os textos, projetos, discursos de diferentes intelectuais daquele movimento nao so no Brasil, mas como em todos os paises onde ele foi disseminado, permitem afirmar que a educacao physica era um dos fundamentos do projeto de renovacao da escola. Isso explica em parte porque diferentes e destacados intelectuais como Fernando de Azevedo e Lourenco Filho alem, e claro, daqueles com formacao medica, se ativeram, entre outros, tambem ao debate da educacao do corpo. Nossa hipotese e que, alem da defesa de uma educacao integral pelos propagadores do movimento, estava em jogo a forja de novas formas de sensibilidade que nao poderiam ser pensadas sem o consorcio ativo da educacao do corpo dos escolares. Essa sensibilidade <<nova>> teria entre os seus objetivos uma nova forma de conceber o papel da mulher na sociedade, o combate a guerra e o pacificismo e a propria disseminacao de um ideal de vida ativo. Dai a importancia dos esportes, dos jogos, das atividades junto a natureza, os quais sao recuperados como signo de uma sociedade que almejava a civilizacao.

(4) Como foi associada nos regulamentos de ensino do Parana de 1901 a Historia Natural e Elementos de Agronomia (para a Escola Normal), e de 1915 a Educacao Moral.

(5) A ginastica sueca, sistematizada no inicio do seculo XIX, compreendia um metodo de ginastica pautado na ciencia, com fins pedagogicos e sociais. <<Voltado para extirpar os vicios da sociedade, entre os quais o alcoolismo, o metodo sueco de ginastica se colocava como o instrumento capaz de criar individuos fortes, saudaveis e livres de vicios, porque preocupados com a saude fisica e moral>> (SOARES, 2001: 57). Esse metodo teve ampla aceitacao no Brasil no sec XIX e inicio do XX, sendo defendido por Rui Barbosa, Fernando de Azevedo e Lourenco Filho, entre outros intelectuais. Para o Parana, era assim justificada: <<que pela sua technica realisa a pratica solucao do maximo resultado com o minimo esforco>> (SANTIAGO, 1909: 203). Observe-se que no movimento de renovacao escolar conhecido na Espanha a ginastica sueca ganhava grande visibilidade em dois dos principais periodicos educacionais dos finais do sec. XIX e inicio do sec. xx, o Boletin de la Institucion Libre de Ensenanza (SERRA, 1998), e a revista La Escuela Moderna (MORENO, 2003).

(6) Sem contar um sem numero de <<desvios>> do padrao de normalidade esperado, tais como o <<deficit de atencao>>, a <<hiper-atividade>>, as <<dificuldades de aprendizagem>> variadas, alem dos <<problemas de comportamento>>, que se tornariam moeda corrente no discurso pedagogico, e permanecem ainda hoje como uma das retoricas mais disseminadas no ambito educacional. Este, como todos os discursos, tem a sua historia e julgamos ainda timidos os esforcos de compreender historicamente as influencias da Escola Nova, sobretudo na sua prevalente enfase psicologica, e as suas consequencias sobre o que seria a educacao escolar depois dos primeiros 30 anos do sec. XX.

(7) Entre outras, a educacao estetica, a <<volta a natureza>>, a educacao ativa, a educacao fisica, a enfase cientifica parecem compor um quadro que conferia o tom renovador da educacao escolar pelo menos desde o ultimo terco do sec. XIX no plano internacional. Em contraposicao se questionava o beletrismo e o intelectualismo, se afirmava a laicidade, se combatia o autoritarismo e a centralidade do professor. Trata-se de verificar o alcance dessas proposicoes na construcao do modelo escolar graduado no Brasil. Uma rapida observacao do curriculo ao longo do sec. XX mostrara que alguns desses

(8) Tania Cordoba CORREA (2007) nos mostra, ao analisar a implantacao dos grupos escolares em Lages/SC, como em poucos anos o grupo tido como modelo <<monumental>> exigia reparos estruturais de modo a nao comprometer a seguranca dos alunos.

Lausane CORREA PYKOSZ (1) * y Marcus Aurelio TABORDA DE OLIVEIRA (2) **

* Universidade Federal do Parana Correo-e: lausaneufpr@yahoo.com.br

** Universidade Federal do Parana. Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Ensino Superior-CAPES

Correo-e: marcustaborda@pq.cnpq.br

Fecha de aceptacion de originales: 2 de marzo de 2009

Biblid. [0212-0267 (2010) 29; 259-281]
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Title Annotation:ESTUDIOS
Author:Correa Pykosz, Lausane; Taborda de Oliveira, Marcus Aurelio
Publication:Historia de la Educacion
Date:Jan 1, 2010
Words:13882
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