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A cultura medicalizante e os processos transgeracionais.

The medicalizing culture and the transgenerational process

La cultura medicalizante y la proceso transgeneracional

Introducao

A contemporaneidade tem sido objeto de investigacao de diversos campos do saber, tendo em vista os complexos fatores que marcam significativa presenca no cenario atual. Cada vez mais, observamos a proliferacao de diagnosticos psiquiatricos que incidem sobre a infancia, cujos sintomas passaram a ser reconhecidos como manifestacoes de desordem da bioquimica cerebral e, portanto, mobilizam a prescricao e o consumo, muitas vezes abusivos, de psicofarmacos. A partir da clinica psicanalitica com criancas, podemos notar o crescente entrelacamento entre os sofrimentos psiquicos dos pacientes e o discurso medicalizante. E frequente recebermos na clinica pacientes portando diagnosticos psiquiatricos, queixando-se de sintomas diversos que, em geral, fazem parte do discurso medico e sao atrelados a essa forma excessivamente fisiologica para nomear o sofrimento.

Com o avanco das neurociencias e a disseminacao cultural do discurso medico, a linguagem para designar o mal-estar inerente a condicao humana parece estar profundamente atravessada pelo materialismo biologico, desconsiderando outros aspectos relevantes da existencia do sujeito, inclusive, o contexto no qual ele esta inserido. Em funcao disso, torna-se relevante estudar a transmissao transgeracional relacionada aos cuidados dispensados as criancas e a producao de sintomas. Esta reflexao enfatiza a importancia das relacoes familiares tanto na formacao como nos desdobramentos dos sintomas.

Com efeito, a familia destaca-se por ser a matriz privilegiada por onde perpassa o processo de transmissao geracional. Para Travaglia (2003), o grupo familiar e o lugar da colagem imaginaria e das dinamicas identificatorias. Entretanto, por ocasiao das particularidades que atravessam os individuos na contemporaneidade como a terceirizacao dos cuidados com as criancas, a cultura medicalizante, a medicalizacao da infancia e dos sintomas infantis, entre outros, cabe pensar a existencia de um hiato, uma falta no que tange a transmissao da funcao parental. De acordo com a teoria psicanalitica, os cuidados fazem parte da funcao parental, no entanto, a tarefa de cuidar tem sido cada vez mais delegada aos especialistas, que a realizam partindo de uma suposicao de patologia.

Diante disso, esta reflexao visa investigar a articulacao entre a cultura medicalizante, a transmissao transgeracional e os sintomas infantis. Para tanto, inicialmente serao apresentadas consideracoes sobre a cultura medicalizante e sua repercussao na infancia para, posteriormente, articularmos as nocoes de sintoma infantil e transgeracionalidade.

Os efeitos da cultura medicalizante na infancia

O conceito de medicalizacao foi inicialmente proposto por Irving Zola, em 1972, ao se referir a expansao da jurisdicao da profissao medica para novos dominios, em particular aqueles que diziam respeito aos problemas considerados da ordem moral, legal ou criminal. Os teoricos criticos da medicalizacao consideravam a medicina como um agente de controle social ao passo que ela transformava fenomenos sociais como o alcoolismo, a homossexualidade, o aborto e o uso de drogas, em conceitos medicos, incluindo essas questoes no dominio do saber e das instituicoes medicas. Paulatinamente, na modernidade, a medicina foi assumindo uma funcao de regulacao social que antes era exercida pela Igreja e pelo judiciario (Aguiar, 2004).

Birman (2012) pontua que a modernizacao ocidental se fundou no projeto de medicalizacao social, de modo que os discursos medicos--permeados pelas categorias de normal, anormal e patologico--foram os modelos arqueologicos para a constituicao dos diferentes discursos das ciencias humanas.

Embora o poder da medicina nao opere pela coercao ou pela violencia, ele produz realidades, criando praticas e discursos que engendram novas maneiras de os individuos entenderem, regularem e experimentarem seus corpos e sentimentos. A medida que os discursos e praticas da medicina se difundem e penetram no tecido social, os individuos e a sociedade vao sendo produzidos por eles e se moldando ao saber medico. O proprio viver passa a ser capturado pelo discurso medico: quase toda tristeza passa a ser vivenciada como sinal de depressao (Aguiar, 2004).

Duas mudancas no pensamento psiquiatrico na decada de 50 contribuiram significativamente para a constituicao e difusao da cultura medicalizante. Em primeiro, a criacao do DSM-I, em 1952, que elencou sintomas e formas diagnosticas e sofreu sucessivas reformulacoes. Este manual permite que muitos acontecimentos cotidianos, sofrimentos passageiros ou outros comportamentos sejam registrados hoje em dia como relacionados a transtornos mentais. Em seguida, destacamos a deseoberta do primeiro neuroleptico, a clorpromazina.

Atualmente, a producao de saber sobre o sofrimento psiquico tem sido associada a industria farmaceutica, cujos medicamentos prometem aliviar os sofrimentos existenciais. A ampla gama de sintomas presentes nos manuais, bem como as formas diagnosticas propostas por eles permitem que muitos acontecimentos cotidianos, sofrimentos passageiros ou outros comportamentos, possam ser registrados como sintomas proprios dos transtornos mentais (Guarido, 2007).

Nos ultimos trinta anos, reforcou-se uma tendencia de pensar todos os conflitos e dificuldades em termos medicos, mais especificamente psiquiatricos. Baseada nos avancos das neurociencias, a psiquiatria supoe dominar os melhores instrumentos cientificos para regular com mais eficacia o mal-estar (Caponi, 2012).

Lima (2005) ressalta que a psiquiatria e suas categorias diagnosticas tem sido um meio de transmissao da cultura ao cotidiano dos sujeitos. Nas duas ultimas decadas, ao privilegiar as concepcoes biologicas dos transtornos mentais, a psiquiatria reforcou o processo de medicalizacao de condutas e estados emocionais. Um numero progressivamente maior de categorias psiquiatricas tem sido criado a cada nova classificacao diagnostica, cujas descricoes tem avancado sobre areas que nem sempre foram tidas como passiveis de abordagens fisicalistas.

Por exemplo, o denominado "Transtorno de deficit de atencao/hiperatividade" (TDA/H), cuja grande presenca no discurso medico e na midia atuais reflete e alimenta uma atmosfera social permeavel, seduz pais, educadores e outros individuos. Fortemente associado a prescricao de psicofarmacos e supostamente localizado no cerebro e determinado pela genetica, este transtorno tem substituido leituras psicologicas, pedagogicas e morais na descricao de comportamentos considerados inadequados. Nos seus dominios, condutas e afetos sao reduzidos a epifenomenos das atividades das redes neuroquimicas cerebrais na medida em que eventos psiquicos como a atencao sao tomados como meros acessorios da fisiopatologia neural (Lima, 2005).

Whitaker (2016) corrobora o pensamento de Lima (2005) acrescentando que o diagnostico de TDA/H, durante os anos 1980 e inicio dos anos 1990, foi um fenomeno majoritariamente americano. No Brasil, o diagnostico de TDA/H abriu caminho para a medicalizacao da infancia e para a criacao de um mercado global para os estimulantes como tratamentos do Transtorno.

O metilfenidato, comercializado como Ritalina, aumenta a atividade da dopamina no cerebro, bloqueando as moleculas que removem a dopamina da fenda sinaptica entre os neuronios e transportando-a de volta para o neuronio pre-sinaptico. De fato, os estimulantes produzem uma mudanca caracteristica nas criancas. As criancas tratadas desse modo se movem menos, socializam menos e sua atencao pode se tornar mais focada em uma tarefa especifica. Esta mudanca e vista como uma reducao dos sintomas de TDA/H (Whitaker, 2016; Lima, 2005).

O discurso medico difundido amplamente naturaliza o sofrimento infantil e se apresenta na escola de forma marcante. E comum que educadores utilizem diagnosticos diante da observacao de certos problemas de aprendizagem e as encaminhem para avaliacao psiquiatrica, neurologica ou psicologica (Guarido, 2007).

Diante desse panorama, consideramos que a presente discussao suscita mais perguntas do que respostas. Pensar que os processos psiquicos se ancoram na biologia nao significa dizer que se restrinjam a ela. De fato, sem o aparato biologico, a existencia nao e possivel. Contudo, os processos provenientes do funcionamento organico, cerebral, se complexificam e se desdobram em outros fatores que nao se restringem a determinada localizacao cerebral ou aos marcadores biologicos. A propria representacao neural do corpo no cerebro e mediada pelo imaginario. Sendo assim, diferentemente da visao em que a subjetividade e efeito da biologia, compreendemos a constituicao da subjetividade a partir das relacoes, das identificacoes, das fantasias, entre outros fatores que se apresentam desde os primordios da vida. A familia entra em cena em funcao da extrema relevancia que assume nesse jogo de forcas, posto que desempenha um papel estrategico no engendramento de individuos.

Para Caliman (2016), faz-se necessario fortalecer no cuidado a infancia uma constelacao de sensibilidades e praticas sempre inscritas na trama cotidiana das relacoes intersubjetivas. Sendo assim, pensar nos processos de medicalizacao tambem significa pensar nas estrategias de cuidado com as criancas. Temos um campo complexo que adquire caracteristicas distintas, onde se entrelacam os desafios dos gestores de politicas publicas, dos profissionais (da saude e da saude mental, da educacao, da assistencia social, da cultura, etc.), dos pesquisadores, dos familiares e das proprias criancas.

Na historia recente, a cultura medicalizante incide no tratamento do sofrimento psiquico. O diagnostico passou a nomear a relacao entre o individuo e o sofrimento, marcando um ponto crucial na constituicao subjetiva. Assim, observamos a presenca de diagnosticos psiquiatricos que passam a estabelecer as bases biologicas do sofrimento psiquico. A acao desses fatores teve por efeito a perda da nocao de sentido/significado dos sintomas e dos sofrimentos subjetivos. Devemos repensar os avancos da medicalizacao como forma majoritaria de intervencao terapeutica, bem como a dimensao do seu alcance, tendo em vista que os cuidados com a populacao adulta foram estendidos as criancas.

Especificidades do sintoma infantil e a transgeracionalidade

A clinica psicanalitica, desde a descoberta do inconsciente por Freud, comporta uma especificidade distante do enfoque medicalizante, em especial, no que tange ao sintoma infantil. Se o discurso medico, por um lado, atribui uma materialidade biologica a origem do sintoma, sobre o qual incidem suas intervencoes, por outro lado, a psicanalise atribui, a ele, um sentido intimamente articulado a existencia particular da qual o sujeito e portador. Freud atribui uma historicidade existencial ao sintoma, inaugurando, assim, o campo da psicanalise.

Desse modo, nao rejeitando todo e qualquer uso de psicofarmacos, o sintoma infantil pode ser compreendido para alem do sentido estrito do discurso medico. Com o intuito de dar voz a crianca, considerando o contexto cultural em que ela esta inserida, bem como as suas relacoes com a escola e com a familia, estudamos--a luz da teoria psicanalitica--as especificidades do sintoma infantil, propondo uma articulacao entre o sintoma e a transgeracionalidade. Nesse sentido, cabe refletir sobre o enlace entre a medicalizacao, o sintoma apresentado pela crianca e a transmissao psiquica.

Rudge (2012) afirma que o saber analitico e um instrumento construido por Freud para interrogar a logica inconsciente subjacente a um sintoma, ou seja, aquilo que incomoda e que causa certo dano ao sujeito que dele padece. Por sua vez, Travaglia (2003) aponta que os lacos familiares sao os mediadores entre o sujeito e a linguagem, fornecendo os significantes com que cada um vai tecer a sua historia, construindo uma sintaxe particular, a sua trama gramatical. Assim, a posicao subjetiva vai definir-se pela maneira como o sujeito e afetado pelo significante. Os detritos de linguagem marcam o psiquismo de forma particular, transcendendo o sentido, ordenam e determinam os alicerces das cadeias significantes que serao construidas. Os sons que o sujeito ouve, que se presentificam no discurso familiar, com os quais ele tera que lidar para interpreta-los, constituirao os fundamentos do seu inconsciente e de seu sintoma.

De outro modo, Meyer (1983) destaca que o padrao de atitudes parentais tambem estara relacionado ao meio ambiente cultural, ao mesmo tempo em que ira definir os papeis dos membros da familia e estabelecer as bases de suas interacoes. Diante dessa perspectiva, a dinamica do relacionamento do casal tem a propensao de tornar-se a dinamica familiar; assim, o casal recem-formado e o "veiculo de transporte" das expectativas e necessidades que foram cunhadas em uma situacao ancestral.

A familia enquanto grupo especifico, caracterizado por vinculos de alianca de parentesco e filiacao, pelas proibicoes que regem estes vinculos, articula as relacoes entre os diferentes membros e entre as diferentes geracoes, em funcao da historia e dos proprios mitos. Contudo, a familia tambem pertence ao conjunto social e cultural e, desse modo, deve articular o lugar de cada um dos seus membros com seu lugar no conjunto social.

Feres-Carneiro (1980) pontua, em seu estudo a respeito da relacao conjugal e suas repercussoes no comportamento dos filhos, que--na maioria das vezes--os disturbios apresentados pela crianca encontram suas raizes na relacao dos pais. A autora ressalta que uma intervencao com o casal pode ser suficiente para que haja uma remissao de grande parte dos sintomas apresentados pelos filhos.

Lancamos a hipotese de que na base de um sintoma infantil existiriam elementos genealogicos transmitidos em estado bruto, atraves da transmissao transgeracional. Nesse ponto da discussao, cabe supor que estaria havendo uma lacuna, uma falta sendo transmitida de geracao em geracao, a saber, a falta da capacidade de cuidar, tao importante e necessaria, aqueles que desempenham funcao parental, para a constituicao dos sujeitos. Esse hiato que vem sendo transmitido se encontra aliado a uma cultura medicalizante e a terceirizacao dos cuidados com as criancas.

Dolto (1988) compreende que a crianca encarna e presentifica--atraves dos seus sintomas--as consequencias de um conflito vivo, familiar ou conjugal, camuflado e aceito por seus pais. Cabe a ela suportar, inconscientemente, o peso das tensoes e interferencias da dinamica emocional sexual inconsciente em acao nos pais, cujo efeito de contaminacao morbida e tanto mais intenso quanto mais se guarda, ao seu redor, o silencio e o segredo. Logo, seguindo a teoria psicanalitica, os sintomas infantis manifestos sao uma ressonancia as angustias ou aos processos reativos as angustias dos pais.

A neurose dos pais tem um papel crucial na eclosao dos sintomas da crianca, pois esta fixa a sua existencia num lugar determinado pelos pais no seu sistema de fantasias e desejos. A crianca procura responder ao enigma dos significantes obscuros propostos pelos adultos, identificando-se com o que julga ser o objeto materno, tentando preencher a falta estrutural e evitar a angustia de castracao.

No texto "Nota sobre a crianca" (1969), Lacan afirma que a funcao de residuo exercida (e mantida) pela familia conjugal, na evolucao das sociedades, destaca a irredutibilidade de uma transmissao. Esta seria da ordem de uma constituicao subjetiva. Na concepcao de Jacques Lacan, o sintoma da crianca acha-se em condicao de responder ao que ha de sintomatico na estrutura familiar. O sintoma, dado fundamental da experiencia analitica, neste contexto se define como representante da verdade, podendo representar a verdade do casal familiar. Em uma das posicoes que a crianca pode vir a assumir, ela realiza a presenca do "objeto a" na fantasia materna.

Em outro momento de seu ensino, Lacan (1938) postula que a especie humana caracteriza-se por um desenvolvimento singular das relacoes sociais, sustentado por capacidades excepcionais de comunicacao. A conservacao e progresso da especie, por dependerem da comunicacao, sao acima de tudo uma obra coletiva e constituem a cultura. Esta introduz uma nova dimensao tanto na realidade social como na vida psiquica. Nessa conjuntura, a familia desempenha um papel primordial na transmissao da cultura, estabelecendo a aquisicao da lingua (legitimamente chamada de materna), a repressao dos instintos, a manutencao dos ritos, dos costumes e das tradicoes. Atraves destes processos fundamentais para o desenvolvimento psiquico, a familia transmite estruturas de comportamento e representacoes cujo funcionamento ultrapassa os limites da consciencia.

A continuidade psiquica entre as geracoes se revela desde o totem ate o nome patronimico, se manifestando como uma transmissao a inclinacoes psiquicas. O complexo de Edipo coloca em relevo as particularidades das relacoes familiares para a constituicao psiquica. O movimento do Edipo opera por um conflito triangular no sujeito. As formas sob as quais se perpetuam os seus efeitos podem ser designadas como supereu e ideal do eu. Uma analise mais estrutural da identificacao edipiana permite observar que, em razao de uma identificacao do sujeito com a imago do genitor do mesmo sexo que o supereu e o ideal do eu podem revelar a experiencia tracos segundo as particularidades dessa imago (Lacan, 1938).

Sob uma outra perspectiva, Lahaye, Desmet e Pourtois (2007) afirmam:

(1) Qui sommes-nous? D'oo venons-nous? Oo allons nous? Depuis longtemps, l'homme se pose trois questions existentielles. L'homme vise ainsi a maitriser le present, a connaitre ses origines et a prevoir son avenir. Parmi les reponses possibles a ces questions, deux tendances se distinguent. Elles conduisent a deux philosophies differentes. La premiere est celle de la liberte. La seconde privilegie de determinisme. La philosophie de la liberte met accent sur le changement. (...) Le monde est en perpetuel changement et le sujet ne peut traverser ces mutations sans etre lui-meme transforme. (...) A l'inverse de la conception liberatrice, la philosophie deterministe met l'accent sur a continuite. La liberte n'est jamais qu'une illusion que se donne l'homme. Elle lui laisse croire qu'il maitrise son destin mais en fait, il est prisonnier de son histoire et il reproduit les habitudes de vie, les valeurs, les pratiques sociales et culturelles dont il a herite. La continuie serait done plus ancree dans les rapports humains que ne le seraient la rupture ou le changement et cela vaudrait egalement pour le developpement des societes a long ternne (...) En tant que premier lieu d'education, la famille est au centre des deux philosophies qui traversent l'histoire des hommes. Elle soumet I'enfant a une double injonction qui releve a la fois de la liberte et du determinisme. D'une part, l'education transmise comprend un message d'emancipation (sois different de nous, sois mieux que nous), d'autre part, la pedagogie des families transmet a I'enfant un modele a reproduire (sois comme nous, respecte nos valeurs). Paradoxalement, ce deux conditions de l'education ont tendance a se renforcer au cours de temps (p.43).

Conforme a compreensao destes autores, a familia encontra-se no centro de duas tendencias filosoficas que atravessam a historia humana. Ao passo que as familias acentuam o efeito de rupturas sobre varias geracoes, elas tambem garantem a transmissao da continuidade, ou seja, a passagem de uma heranca sociocultural. Assim, as mudancas sociais interferem na transmissao de conteudo entre as geracoes. O imperativo de transmissao que acompanha a ordem de filiacao permite a sociedade se perpetuar respeitando, porem, as mesmas regras fundadoras.

A genealogia permite colocar os sujeitos em uma ordem simbolica para que eles possam se diferenciar uns dos outros. Esta ordem simbolica da genealogia justifica a transmissao que se opera atraves de uma cadeia geracional. Essa funcao de transmissao se impoe como a regra de uma ordem social. De uma geracao a outra, os pais nao educam as criancas da mesma maneira. A pedagogia operatoria e racional das familias modernas deu lugar a educacao relacional e emocional da geracao pos-moderna. Essa transformacao dos processos de aprendizagem traduz uma mutacao de valores. Assim, a sociologia e a clinica se cruzam, estabelecendo uma sinergia entre a historia e o sujeito afim de que o ator possa, em algum momento, ter consciencia do que lhe foi transmitido (Lahaye, Desmet & Pourtois, 2007).

Segundo as pontuacoes de Lahaye, Desmet e Pourtois (2007), em um estudo longitudinal, as praticas educativas permanecem estaveis de uma geracao a outra, ou seja, o capital social, pedagogico, cultural e simbolico das familias. Nesta leitura, a vida cotidiana do grupo familiar e um modo privilegiado de inculcacao dos habitos. A repeticao de rituais cotidianos (refeicoes, lazer, leituras, conversas, tarefas domesticas etc.) sao realizacoes que se impregnam nos membros da familia e formam habitos. Estes, enquanto estruturas psiquicas predispoe o individuo a pensar, a agir ou reagir de determinada maneira, apreciar ou depreciar certos objetos, atos ou pensamentos. De outro modo, os habitos orientam a maneira como o individuo apreende os eventos que se apresentam ou que vao se apresentar. O habito molda a forma de antecipacao e, esta antecipacao modelada pelo habito e designada pelo termo "protension" (Lahaye, Desmet, & Pourtois, 2007).

Ao pensar sobre o lugar privilegiado da familia, Lima (2005) compreende que ela nao consegue mais proporcionar um espaco protegido, no qual a transmissao de valores morais nao se mostre subjugada a logica do consumo, das relacoes superficiais, da exploracao e da inconstancia permanente. A crianca passa a julgar os pais de acordo com sua possibilidade de proporcionar-lhe os produtos que deseja e, por seu turno, os proprios pais passam a pautar sua autoridade na capacidade de prover o lar de bens materiais. Assim, a logica do proprio interesse e da eficacia economica destroi a logica da organizacao familiar baseada na deferencia e inviabiliza a sua sustentacao apenas pelo vinculo afetivo.

A decadencia da autoridade parental faz decair tambem a influencia dos pais sobre os filhos e o potencial de identificacao destes com os primeiros. Como resultado, temos jovens que descartam a mediacao de seus genitores com a cultura, posto que nao os consideram em sintonia com as exigencias sociais. Partindo deste ponto de vista, haveria uma permissividade que testemunha a impossibilidade de os pais atuarem como modelos de identificacao para os filhos. Desse modo, a unica saida seria abdicar a transmissao de preceitos tradicionais da cultura em nome da moldagem de personalidades adaptadas a realidade do mundo e a logica de consumo (Lima, 2005).

A propagacao avassaladora da cultura medicalizante (e de consumo)--assim como sua ressonancia sobre a familia--podem produzir inumeros desdobramentos que merecem ser minusciosamente aprofundados. Contudo, enfatizamos que e preciso que se compreendam os diagnosticos como processos extremamente complexos, sem circunscreve-los em um vies que tende a biologizar as relacoes sociais, afetivas e a legitima-lo nas escolas, nas familias e na sociedade. Os processos medicalizantes delimitam o individuo, normatizam-no, minando suas possibilidades de se posicionar historica e politicamente. Pode-se compreender a medicalizacao como uma necessidade de se silenciar o sofrimento a qualquer custo, como se nao devesse fazer parte dos processos de desenvolvimento humano.

Consideracoes finais

Conforme foi visto nesta reflexao, e de suma importancia nao restringir a sintomatologia apresentada pela crianca a perspectiva medica, visto que a resposta sintomatica da crianca tem a marca das suas construcoes enquanto sujeito, com as suas respectivas responsabilidades e implicacoes. Nesse sentido, torna-se imprescindivel se fazer operar uma clinica que coloque a crianca numa posicao de sujeito perante sua historia e perante sua vida, sem recorrer a solucoes simplistas que desconsiderem sua insercao no discurso parental e social/escolar. Por isso, e necessario compreender o lugar que foi designado a crianca em uma historia feita de diversos acontecimentos, desejos e palavras ditas e nao ditas para, por fim, entendermos o que poderia ter alienado a crianca a determinados significantes.

Na clinica com criancas, e crucial procurar escutar o que significa para ela seu sintoma, qual o sentido fundamental da dinamica do mesmo e quais as possibilidades que ele preserva ou compromete. Entender que a crianca e sujeito de um grupo coloca para o psicanalista uma questao fundamental: de que modo conceber e tratar o sujeito como tendo a si mesmo como o proprio fim e como elo, servidor, beneficiario e herdeiro de uma cadeia intersubjetiva a qual ele esta submetido? Assim, escutar analiticamente certas historias das criancas e de seus pais lhes concede a oportunidade de serem compreendidos e de construirem conjuntamente novos significados.

Finalmente, enfatizamos a importancia e a necessidade de serem articulados os saberes medicos, pedagogicos e psicologicos com o intuito de promover saude, salientando que o trabalho interdisciplinar nao deve prescindir jamais da participacao familiar, para a construcao de uma etica do cuidado que transcenda a medicalizacao de adultos e criancas.

Referencias

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Luciana Jaramillo Caruso Azevedo [1] [ORCID], Terezinha Feres Carneiro [2] [ORCID]

Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro--PUC-Rio Brasil

Fecha correspondencia:

Recibido: marzo 13 de 18 de 2017.

Aceptado: noviembre 29 de 2018.

DOI: http://dx.doi.org/10.21615/cesp.12.2.9

Sobre los autores:

[1.] Doutoranda em Psicologia Clinica. Mestre em Psicologia Clinica. Especialista em Psicoterapia de Familia e Casal. Psicanalista clinica e participa de pesquisas no Laboratorio de Pesquisas em Familia e Casal na PUC-Rio.

[2.] Pos-doutoranda Terapia Familiar e de Casal. Doutora Psicologia Clinica. Professora Titular do Departamento de Psicologia (PUC-Rio) e Coordenadora do Curso de Especializacao em Psicoterapia de Familia e Casal da PUC-Rio.

(1.) "Quem somos? Do onde viemos? Aonde vamos? Ha muito tempo o homem se faz essas tres perguntas existenciais. Desse modo, o homem visa controlar o presente, conhecer suas origens e prever seu futuro. Entre as possiveis respostas a essas perguntas, duas tendencias se destacam. Eles levam a duas filosofias diferentes. A primeira c a da liberdade. A segunda favorece o determinismo. A filosofia da liberdade enfatiza a mudanca. (...) O mundo esta em perpetua mudanca e o sujeito nao pode passar por essas mutacoes sem ser ele mesmo transformado. (...) Ao contrario da concepcao libertadora, a filosofia determinista enfatiza a continuidade. A liberdade e apenas uma ilusao que o homem se da. Ela o deixa acreditar que ele domina seu destino, mas na verdade, ele e prisioneiro de sua historia e reproduz os habitos de vida, os valores, as praticas sociais c culturais que ele herdou. A continuidade estaria, portanto, mais ancorada nas relacoes humanas do que a ruptura ou a mudanca, e isso tambem se aplicaria ao desenvolvimento das sociedades no longo prazo (...) Enquanto lugar primeiro de educacao, a familia esta no centro dessas duas filosofias que atravessam a historia dos homens. Ela submete a crianca a uma dupla injuncao que diz respeito, ao mesmo tempo, a liberdade e ao determinismo. Por um lado, a educacao transmitida inclui uma mensagem de emancipacao (seja diferente de nos, seja melhor do que nos), por outro lado, a pedagogia das familias transmite para a crianca um modelo a ser reproduzido (seja como nos, respeite nossos valores). Paradoxalmente, essas duas condicoes de educacao tendem a se fortalecer com o tem po (p.43)."
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Author:Jaramillo Caruso Azevedo, Luciana; Feres Carneiro, Terezinha
Publication:Revista CES Psicologia
Date:May 1, 2019
Words:5244
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