Printer Friendly

A constituicao do realismo psicologico em As Meninas, de Lygia Fagundes Telles.

A obra de Lygia Fagundes Telles e normalmente lida, juntamente com a obra de Clarice Lispector, como ponto alto da literatura feminina no Brasil, destacando-se o comentario sobre o texto confessional, que privilegia a esfera privada e processos psicologicos de personagens predominantemente femininas. Falar das instancias do inconsciente em sua literatura nao configura, por si so, uma novidade. O que proponho neste ensaio e pensar o uso do realismo psicologico em um romance especifico de Telles, no qual o foco na interioridade parece ser quebrado ao final, suscitando questoes quanto as relacoes entre confessionalismo e realismo.

O romance em questao, As Meninas, tem como caracteristica marcante o fato de remeter a circunstancias historicas bastante especificas--nao so foi publicado em 1971, durante o periodo mais repressivo da ditadura militar de 1964-1985--, mas tambem tem como uma das protagonistas uma estudante envolvida com as lutas politicas e a guerrilha. O alcance da inclusao do universo politico em uma obra predominantemente confessional ja foi convincentemente discutido por Renata Wasserman (1989). Em minha analise, procuro privilegiar o processo de construcao do realismo psicologico no romance, e oferecer uma interpretacao do que considero uma mudanca de tom no desfecho da narrativa. Antes, porem, mapeio o uso das descricoes de sonho, devaneio e delirio no romance, uma vez que considero o uso desses temas e da tecnica do monologo interior neste livro um dos pontos altos da bibliografia da autora.

Itinerario interior

Seguindo uma tradicao na literatura brasileira que reune romancistas como Machado de Assis, Cornelio Pena e Cyro dos Anjos, a obra de Lygia Fagundes Telles tem sido frequentemente alinhada ao intimismo e a literatura psicologica. Alfredo Bosi, na sua Historia concisa da literatura brasileira, inclui Lygia Fagundes Telles na gama de romancistas pos-1930 que tendem a localizar a tensao entre o "heroi" e seu mundo em termos subjetivistas, no que ele denomina "romances de tensao interiorizada". O heroi, nesses romances, "nao se dispoe a enfrentar a antinomia eu/mundo pela acao: evade-se, subjetivizando o conflito" (392). Bosi cita como exemplos os romances psicologicos em suas varias modalidades--memorialismo, intimismo, auto-analise, etc.

Essa caracterizacao opoe-se ao que o critico denomina romances de tensao critica, nos quais as personagens se definem por sua resistencia perante o meio. A prosa subjetivizante teria como caracteristica justamente o deslocamento do conflito do meio social para os processos interiores das personagens. Inserida nessa constelacao de escritores, a escrita de Lygia Fagundes Telles parece se destacar pela importancia dada aos processos mentais das personagens (principalmente aos narradores em primeira pessoa) e a enfase na atmosfera ou tom criado pela diccao da escrita, o que faz com que varios contos e trechos de romances tenham um carater fantastico. Um exemplo e o conto "Natal na barca", em que a narrativa em primeira pessoa engendra a ambiguidade de interpretacao que possibilita uma leitura fantastica do conto. O teor impressionista e derivado de varias tecnicas, sendo uma delas o recurso constante de uso das cores, o que torna o texto visualizavel por meio da tonalidade (como no conto "Antes do Baile Verde"). Outro recurso caro a escrita de Telles, e que contribui para o efeito difuso que predomina no ato de leitura, e o uso constante do monologo interior e, dentro dessa tecnica especifica, o fluxo de consciencia que obedece a estruturacao dos devaneios ou de estados de semiconsciencia, sonho e delirio.

Se e verdade que esses recursos sao recorrentes na obra de Telles, tanto as narrativas longas como nos contos, e tambem certo que no romance As Meninas o uso do fluxo de consciencia adquire amplitude ainda maior, constituindo um elemento predominante, e nao apenas incidental. O uso da primeira pessoa intercalado com o da terceira pessoa e a alternancia entre as personagens Lorena, Lia e Ana Clara confere um carater flutuante a narrativa, que oscila entre as consciencias das tres personagens como uma invencao a tres vozes. Sem uma organizacao preestabelecida, essas vozes ora se alternam, ora se sobrepoem, parecendo tambem funcionar sob a regencia da associacao livre, o que confere a obra como um todo uma configuracao similar a do funcionamento psiquico.

Entretanto, a despeito de tantos recursos a processos mentais e a indefinicao criada pela atmosfera impressionista, a marca de realidade nao deixa de estar presente na obra de Telles. As Meninas e exemplo maior desse fenomeno: considerado por Wilson Martins um livro "corajoso" para a epoca, por retratar fatos de uma realidade altamente repressiva, o romance oscila entre a psicologia e o ambiente social. Mais intrigante, entretanto, e o desfecho do romance, no qual a enfase nos processos mentais cede lugar a acao, quase em moldes de romance noir, em um contraste visivel com a narrativa anterior. A questao que se coloca entao e a seguinte: como funciona a articulacao entre uma linguagem tao intimista e alusiva e uma circunstancia historica e social tao determinada como a da ditadura brasileira no inicio dos anos 70? De que modo a fantasia e a imaginacao das narradoras em primeira pessoa se relaciona ao mundo exterior? Como confluem a realidade exterior e a ambientacao psicologica?

Intimismo e realismo: efeitos de real

Usualmente, opoe-se a corrente literaria intimista a escola realista, sendo a primeira marcada por uma subjetividade que enfatiza questoes existenciais, enquanto a segunda se definiria por uma tentativa de representacao mimetica do mundo exterior. No entanto, os processos mentais, com seus devaneios e sonhos, tambem fazem parte da realidade existencial humana, e um romance que lide primeiramente com essas questoes pode igualmente ser "realista", uma vez que consegue captar certos aspectos de uma experiencia humana real.

Antonio Candido, em ensaio sobre Proust intitulado "Realidade e Realismo (via Marcel Proust)", aponta justamente para o aspecto restritivo do rotulo "literatura realista":
   Se considerarmos realismo as modalidades modernas, que se definiram
   no seculo xix e vieram ate nos, veremos que elas tendem a uma
   fidelidade documentaria que privilegia a representacao objetiva do
   momento presente da narrativa. No entanto, mesmo dentro do
   realismo, os textos de maior alcance procuram algo mais geral, que
   pode ser a razao oculta sob a aparencia dos fatos narrados ou das
   coisas descritas, e pode ser a lei destes fatos na sequencia do
   tempo. Isso leva a uma conclusao paradoxal: talvez a realidade se
   encontre mais em elementos que transcendem a aparencia dos fatos e
   coisas descritas do que neles mesmos. E o realismo, estritamente
   concebido como representacao mimetica do mundo, pode nao ser o
   melhor condutor da realidade. (123)


Assim como nossa experiencia de mundo transcende a realidade empirica, assim tambem a literatura que abrange outras areas alem da descricao objetiva possibilita uma empatia maior do leitor em termos de identificacao com a realidade retratada. A esse tipo de representacao nao realista da realidade Antonio Candido chama "transrealismo", considerando-o "literariamente mais convincente do que o realismo referencial, por permitir o uso livre da fantasia [...] como se ela criasse uma realidade alem da que experimentamos" (125).

Ainda em relacao a empatia entre leitor e personagens, uma analise instigante e a de Dorrit Cohn no livro Transparent Minds: Narrative Modes for Presenting Consciousness in Fiction, que analisa a relacao entre narrativa e realidade atraves da representacao da consciencia nas personagens. Segundo ela, as personagens de ficcao serao tanto mais verossimeis ao leitor quanto mais se distanciarem do modelo pelo qual nos comunicamos na vida real. Pois se nas relacoes interpessoais e impossivel saber o que se passa na mente dos outros, na ficcao e exatamente essa possibilidade que torna as personagens mais reais. Assim, as personagens mais "redondas", mais concretas, sao aquelas a cujas mentes temos acesso, fato impossivel na vida cotidiana. A verossimilhanca, na ficcao, depende exatamente daquilo que e impossivel na vida real: penetrar na mente alheia e ver como essa mente funciona. A "irrealidade" do monologo interior acaba por acarretar um maior efeito de "realidade" na medida em que a caracterizacao dos personagens parece a nos, leitores, mais palpavel, mais plausivel, uma vez que reconhecemos em seus processos mentais o funcionamento da nossa propria subjetividade.

Essa parece ser a dinamica no romance As Meninas, no qual a descricao desses estados de consciencia--que na vida real sao inacessiveis--ocupam posicao central, e dao maior "realidade" as personagens. Mas e preciso elaborar melhor como esse "efeito de real" funciona, uma vez que a impressao de leitura pode se dar por meio da confusao e da indefinicao, dada a sobreposicao das narrativas das tres protagonistas em terceira pessoa, bem como a presenca oscilante de um narrador em terceira pessoa que nao se delimita facilmente durante a leitura. Tentaremos ver se justamente aqueles processos que sao considerados uma evasao do real--o devaneio, o sonho e o delirio--funcionam para conferir esse "efeito de real" no caso especifico do romance em questao.

As Meninas

O livro compoe-se de doze capitulos, dentro dos quais as vozes em primeira pessoa de Lorena, Lia e Ana Clara se alternam, cedendo lugar por vezes a um narrador em terceira pessoa que aparece e desaparece sem aviso previo. Esse entrelacamento de vozes e tao importante para a narrativa que poderiamos dizer que consiste num dos aspectos mais proeminentes do romance. O enredo, que poderia ser resumido no cotidiano de tres meninas, seus relacionamentos amorosos e suas ambicoes de vida, bem como seu posicionamento frente a realidade que as cerca, vai se configurando simultaneamente a construcao formal da narrativa. Os estados psicologicos e a memoria prevalecem sobre a descricao de fatos, que aparecem mediados pela descricao dos estados de consciencia. Em termos musicais, seria possivel comparar a tessitura do romance com a fuga, uma vez que as vozes se alternam e indicam um relacionamento muito proximo entre as tres meninas, embora as vozes nunca se encontrem--Lorena, Lia e Ana Clara nunca aparecem juntas no momento de enunciacao na narrativa, excecao feita ao capitulo final. A interacao interpessoal entre elas e importante porque a erupcao da atividade mental das tres meninas e tanto mais visivel quando ha o contraste entre o dialogo e o fluxo de consciencia, entre a fala e o pensamento.

Se tracarmos uma comparacao entre cada personagem e seu relacionamento com o mundo "real", ou com os acontecimentos externos, teremos uma gradacao: Lia, ligada a guerrilha contra a ditadura militar, e a que mais se envolve com a realidade politico-social que as cerca. Lorena, por sua vez, transita entre o mundo externo e seu quarto no pensionato de freiras, que e descrito como uma redoma, uma torre isolada da vida mundana, cujo banheiro, repleto de perfumes e promessas de purificacao, simboliza a "concha" em que a personagem vive, protegida parcialmente da vida concreta. Ana Clara, em meio a fantasias sobre sua propria ascensao social, e a que mais se afasta de uma posicao consciente do eu no mundo, sendo suas impressoes sobre a realidade mediadas pelas drogas e pelo alcool.

Essa gradacao a corresponde tres processos basicos de representacao da consciencia: o sonho, o devaneio e o delirio, os quais atravessam a fala/escrita das tres personagens e configuram um maior ou menor distanciamento da realidade exterior. Em termos de predominancia, vemos que o devaneio ocupa posicao central, sendo tambem a forma de narracao preferencial de Lorena, personagem que em termos quantitativos se destaca (e tambem por ser a tipica personagem de Telles). Lia se insere num mundo onirico, pautado pela narratividade e pela ideia da possibilidade de uma outra realidade--sonho tambem no sentido de ideal, de uma paixao politica. Ana Clara, que fala atraves de um discurso fragmentado e marcado por distorcoes, encarna a fala/escrita do delirio.

Obviamente esse esquema estanque se pauta pela predominancia que cada personagem faz desses procedimentos mentais, uma vez que todos os tres se entrelacam no discurso de todas elas. Essa divisao formal, entretanto, torna-se util para analisar de que modo as formas de representacao da consciencia se articulam na economia interna do romance.

Tentaremos, a principio, delimitar cada um desses processos. E importante destacar o fato obvio de que sonho, devaneio e delirio sao fenomenos distintos, e sua descricao tambem obedece a codigos diferentes, embora as definicoes se sobreponham. E interessante comparar as definicoes de "devaneio", "sonho" e "delirio" no modo como sao dicionarizadas. Devaneio e o "produto da fantasia, da utopia; sonho, quimera", ou a "falta de tino; desvario, delirio" (Dicionario Houaiss, 1025). Note-se a relacao de sinonimia entre "devaneio" e "sonho" e entre devaneio e delirio. Os tres verbetes confluem em sua relacao estrita com a fantasia, com a oposicao em relacao a realidade exterior. Nesse sentido, poderiamos falar deles em termos gerais, como maneiras de evasao da descricao factual e documental, sendo a diferenciacao entre eles posta em termos de grau. Antes, entretanto, torna-se necessaria a mencao a Gaston Bachelard, que dedicou grande parte da sua obra a estudar o devaneio e os sonhos na literatura, distinguindo-os da seguinte maneira: "Um devaneio, diferentemente do sonho, nao se conta. Para comunica-lo, e preciso escrevelo, e escreve-lo com emocao, com gosto, revivendo-o melhor apos transcreve-lo" (Bachelard, A poetica 7).

No nivel do enredo, temos acesso ao que as personagens pensam, mesmo sabendo que seu devaneio nao se concretiza como forma escrita dentro do universo diegetico. Isso aponta para o fato de que so o devaneio literario e passivel de comunicacao, ao contrario do devaneio na vida real: "O devaneio poetico escrito, conduzido ate dar a pagina literaria, vai [ao contrario] ser para nos um devaneio transmissivel, um devaneio inspirador, vale dizer, uma inspiracao na medida dos nossos talentos de leitores (Bachelard, A poetica 7)." Novamente, aqui, justamente o que e tomado como impossivel na vida real--a comunicabilidade do devaneio e o que torna a descricao do devaneio mais verossimil na literatura. Mais uma vez, a fantasia, que mais se afasta do real, funciona como mola propulsora de uma verossimilhanca que permite tracar um paralelo entre a experiencia psicologica e o efeito de real em As Meninas.

A propria personagem Lorena se refere a transposicao entre a fantasia e o texto escrito, aludindo a normatizacao da escrita que nao esta presente no movimento da consciencia. Ao afirmar seu desejo de, na velhice, escrever as proprias memorias, ela lamenta o fato de que, ao rememorar o passado, "o pensamento delirante, tao lindamente desgrenhado, acaba penteadissimo" (156). A tentativa parece ser exatamente a de nao "pentear" a narrativa, e deixar que os fios narrativos se emaranhem e embaracem. Por isso ha a preferencia pela descricao do devaneio no momento mesmo em que acontece, e nao como rememoracao.

O devaneio mimetiza-se na composicao do romance porque nao constitui a excecao, mas a regra na estrutura narrativa do livro. Sob este aspecto, cabe uma comparacao entre o que chamo aqui de devaneio e as digressoes. O devaneio esta embutido de tal forma na narrativa que e mais dificil isola-lo, dificultando ate mesmo a citacao de um trecho destacado--ao contrario da digressao, mais facilmente delimitavel. Vejamos o trecho inicial do livro, narrado por Lorena:
   Sentei na cama. Era cedo para tomar banho. Tombei para tras,
   abracei o travesseiro e pensei em M.N., a melhor coisa do mundo nao
   e beber agua de coco verde e depois mijar no mar, o tio da Liao
   disse isso mas ele nao sabe, a melhor coisa mesmo e ficar
   imaginando o que M.N. vai dizer e fazer quando cair meu ultimo veu.
   O ultimo veu! Escreveria Liao, ela fica sublime quando escreve,
   comecou o romance dizendo que em dezembro a cidade cheira a
   pessego. Dezembro e tempo de pessego, esta certo, as vezes a gente
   encontra as carrocas de frutas nas esquinas com o cheiro de pomar
   em redor mas concluir dai que a cidade inteira fica perfumada, ja e
   sublimar demais. (9)


A descricao se inicia objetivamente e logo menciona nomes e situacoes que so farao sentido para o leitor retroativamente, depois de juntar os pedacos que permitam tracar as personalidades e historias de cada uma das meninas. Quem e M.N.? Quem e Liao? Que romance e esse que esta a ser escrito? O romance comeca, por assim dizer, da unica maneira como podia comecar: num mergulho aleatorio dentro das vidas e mentes das personagens.

Em As Meninas, a coincidencia entre o tempo da fala e o tempo do desenrolar dos fatos descritos propicia uma confusao entre nivel factual e o devaneio. Por isso, por exemplo, e que o famoso delirio descrito no inicio de Memorias Postumas de Bras Cubas de Machado de Assis se diferencia tanto dos delirios de Ana Clara. Notamos no primeiro que a descricao da experiencia aparece delimitada por um capitulo especifico, e o leitor e capaz de delimitar com certeza o inicio e o fim do delirio de Bras Cubas, com a ajuda do proprio narrador, que termina a descricao da seguinte maneira:
   Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram,
   outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro
   cobriu tudo-menos o hipopotamo que ali me trouxera, e que alias
   comecou a diminuir, a diminuir, a diminuir, ate ficar do tamanho de
   um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato
   Sultao, que brincava a porta da alcova, com uma bola de papel ...
   (524)


A descricao do delirio como rememoramento permite separar o real e o imaginario de uma forma inconcebivel para quem relata o delirio no momento mesmo de seu acontecimento. Para Machado, a inverossimilhanca da narracao da propria experiencia fantastica deriva de uma concepcao da narrativa enquanto texto escrito-seu romance se compoe como a memoria registrada, em papel e caneta, do curso da vida do protagonista. As Meninas, ao contrario, apresenta um tipo de linguagem que tenta mimetizar os processos mentais como se os traduzisse oralmente, sem mediacao. Como diz Ana Clara, "Falar. E preciso falar tudo e ir falando o tempo todo deixar correr a confissao como vai correndo o mijo". (89)

A descricao dos delirios, sonhos e devaneios deriva da experiencia, e nao da narrativa, uma vez que nao ha indicios de que o delirio esteja a ser escrito. Machado inicia seu capitulo com a seguinte frase: "Que me conste, ainda ninguem relatou seu proprio delirio; faco-o eu, e a ciencia mo agradecera" (520). Telles eliminaria a etapa do "relato" tentando representar o proprio momento, como no trecho abaixo, narrado por Ana Clara:
   Os diabinhos ainda voam por aqui e brincam comigo e eu dou
   beliscoes em Max que nem sente nem sente. E festa? Esqueca esqueca.
   Levanto a cabeca e entro na estratosfera podre de azul grito azul e
   deslizo azul ate o chao rastro veludo-e-ventre a gente devia andar
   so assim liquefeita e azul colada ao chao escorrendo os bracos de
   rio sem nenhum perigo de cair nem nada. Tanta coisa no chao olha
   ai. A brasa trinca os dentes e se apaga na agua mas o gafanhoto
   adulto vem vindo e me olha com seus oculos redondos e me estende as
   maos juntas e fica na minha frente com seus sapatos pretos de
   amarrar e meias brancas. (84)


O entrelacamento entre a experiencia e a linguagem que a descreve e tao intima que a fragmentacao, a nivel sintatico, apresenta cortes e elipses nao caracteristicos do discurso escrito, como e frequentemente o caso na fala da personagem Ana Clara, que passa todo o romance sob efeito de drogas:
   Muito lindo o meu amor. E dai. Ano que vem voce vai ver. Nao fico
   sentimental so porque ela. E isso que a senhora nao compreende. Nao
   quero botar a culpa em ninguem nao vou ficar o resto da vida
   acusando mas. Sei la. (81)


E entao justamente a confluencia entre a fala e a experiencia que garante uma ligacao a mais entre os fenomenos mentais e a realidade, marcando por assim dizer um deslocamento do realismo documental para um certo "realismo psicologico".

Mas e interessante como o livro parece abandonar gradativamente os tres processos mentais de devaneio, sonho e delirio para culminar no capitulo 12, que, ao contrario dos anteriores, nao apresenta quase nenhum tipo de fluxo de consciencia, pautando-se por dialogos e descricoes de movimentos ou acoes. A morte tragica de Ana Clara opera em Lorena e Lia um mergulho na realidade exterior, e nao ha espaco para as divagacoes costumeiras dos capitulos anteriores. A necessidade de retirar o corpo da amiga do pensionato para nao comprometer as freiras exige acao imedia ta, e a narrativa assume outro tom. Como poderiamos interpretar essa mudanca de enfoque? Estaria o final do romance apontando, atraves do contraste entre imaginario e real, para a necessidade de um maior envolvimento na realidade fisica? Ou seria uma tentativa de unir as duas pontas do espectro, a literatura intimista e a literatura dita social?

A cena em que Lorena e Lia vestem e retiram o corpo de Ana Clara do pensionato a fim de abandona-lo numa pracinha, numa madrugada nevoenta, e tao diferente do restante da narrativa que parece pedir uma leitura mais atenta. A "boneca" que gostava de se enfeitar vira agora uma bandeira fincada no mais coletivo dos espacos: a praca publica. A morte de Ana Clara, e sua vida determinada pelas experiencias da infancia, todo o seu esforco para negar o passado culminam com o abandono de seu corpo, seu alijamento do pensionato, simbolo da seguranca em meio a um mundo caotico. Em suma, o livro termina contrastando a imagem de fragilidade do corpo de Ana Clara e a de certo modo surpreendente tomada de decisao de Lorena, que age com determinacao ao contrario de Lia, que tinha sido caracterizada como mais ativa durante toda a narrativa. O final, assim, retoma a questao do real versus imaginario, pois a realidade que parece invadir a narrativa subitamente e tao ou mais fantasiosa que os devaneios dos capitulos anteriores. A cena da praca, cercada de neblina, tomada de uma atmosfera fantastica a despeito da maior objetividade na narracao, compoe um contraste vivo com o restante do livro.

Ao inverter certas posicoes--tornando os processos imaginarios mais "reais" e terminando com um capitulo em que a acao parece imaginaria--o romance As Meninas consegue transgredir algumas nocoes estaticas que rotulam as producoes ficcionais em termos de realidade versus imaginacao, e apresenta a possibilidade da representacao de uma realidade mais geral, na qual a imaginacao e o funcionamento do pensamento nao se subordinam a uma realidade empirica supostamente objetiva.

OBRAS CITADAS

Assis, Machado de. Obra completa. Vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Bachelard, Gaston. A Agua e os sonhos. Ensaio sobre a imaginacao da materia. Trad. Antonio de Padua Danesi. Sao Paulo: Martins Fontes, 1989.

--. A poetica do devaneio. Trad. Antonio de Padua Danesi. Sao Paulo: Martins Fontes, 1988.

--. O Direito de sonhar. Trad. Jose Americo Motta Pessanha. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

Bosi, Alfredo. Historia concisa da literatura brasileira. 36 ed. Sao Paulo: Cultrix, 1994.

Candido, Antonio. "Realidade e realismo (via Marcel Proust)". Recortes. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1994.123-129.

Cohn, Dorrit. Transparent Minds. Narrative Modes for Presenting Consciousness in Fiction. Princeton: Princeton UP, 1983.

Houaiss, Antonio and Mauro de Salles Villar. Dicionario Houaiss da lingua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Telles, Lygia Fagundes. Antes do baile verde. 3 ed. Rio de Janeiro: Livraria Jose Olympio Editora, 1975.

--. As Meninas. 32 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

--. Verao no aquario. 11 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Wasserman, Renata R. Mautner. "The Guerilla in the Bathtub: Telles's As Meninas and the Irruption of Politics." Modern Language Studies, 19.1 (Winter 1989). 50-65.

Marilia Scaff Rocha Ribeiro

Michigan State University
COPYRIGHT 2014 University of North Carolina at Chapel Hill, Department of Romance Languages
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2014 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Rocha Ribeiro, Marilia Scaff
Publication:Hispanofila
Date:Dec 1, 2014
Words:3885
Previous Article:A insularidade real e imaginaria em Ilhas Contadas de Helena Marques.
Next Article:The vitality of discourse: shifting approaches in Latin American cultural studies.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters