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A concepcao de psicologos sobre o rural nas politicas sociais/La concepcion de psicologos sobre lo rural en las politicas sociales/The Conception of Psychologists on the Rural in Social Policies.

Introducao

As politicas sociais constituiram-se ao longo dos anos como locus significativo de insercao profissional para psicologos no Brasil. Trata-se de um campo complexo, contraditorio, diverso e permeado de desafios, racionalidades e intencionalidades (Behring & Boschetti, 2007; Draibe, 1989), que precisa ser aprofundado por essa categoria profissional para qualificar sua capacidade de analise e intervencao, alem de considerar os limites impostos pelo modo como essas politicas foram conformadas no pais.

O contexto capitalista, com seus meios de exploracao e individualizacao intensificados em sua fase monopolista, trouxe a tona a "questao social" enquanto expressao de um conjunto multifacetado de desigualdades economicas, politicas e culturais, resultando na marginalizacao de amplas parcelas da sociedade em relacao aos bens materiais e simbolicos produzidos pela civilizacao (Ceolin, 2014). Como consequencia, a pauperizacao, exclusao, violencia, analfabetismo, trabalho infantil, desemprego, fome, falta de moradia, alem de outras iniquidades acabaram por acarretar impactos diversos nas condicoes de vida e de saude da populacao (Santos, 2008). As lutas sociais e da classe trabalhadora exigiram respostas e interferencias do Estado tanto para o reconhecimento e legalizacao dos seus direitos, quanto para implementacao de politicas que atendessem aos interesses e ao amplo conjunto de necessidades sociais da populacao brasileira (Iamamoto, 2007).

Sendo um tipo de politica publica, as politicas sociais sao entendidas como "desdobramentos e ate mesmo respostas e formas de enfrentamento--em geral setorializadas e fragmentadas--as expressoes multifacetadas da questao social do capitalismo" (Behring & Boschetti, 2007, p. 51). No Brasil, essa intervencao estatal e especifica e pluralizada, como politicas sociais, porem, permeada de contradicoes (Draibe, 1989).

A institucionalizacao da seguridade social, por exemplo, inaugurada na Constituicao de 1988, e constituida pela triade: previdencia, assistencia social e saude, destaca que independentemente de o individuo estar ou nao inserido na esfera do trabalho, a ele sera garantido protecao social por estar inserido no rol de direitos providos pelo Estado (Monnerat & Souza, 2011). Por esse aspecto, a seguridade social representa tanto um movimento de reorganizacao e ampliacao de politicas existentes, como tambem a introducao de novos direitos. Nesse sentido, universalidade, uniformidade, irredutibilidade, diversidade, carater democratico e descentralizado, dentre outros, sao principios que deveriam orientar a operacionalizacao da seguridade social no pais (Behring & Boschetti, 2007). Porem, muitos tem sido os obstaculos para efetivar esses ideais de protecao social universal, coordenada e integrada. De acordo com Mota (2008), as politicas que integram a seguridade social brasileira nao conseguiram formar um amplo e articulado mecanismo de protecao, sendo conformadas como uma unidade contraditoria, fragmentada e focalizada, intensificadas ainda mais sob a esteira do receituario neoliberal implementado na decada de 90 no Brasil.

No caso da saude, isso pode ser verificado com a persistencia do modo fragmentado de produzir acoes de atencao e cuidado; com a hegemonia do paradigma biomedico que determina os modelos de atencao e gestao em saude; bem como com os interesses pessoais que permeiam o sistema; e a pouca articulacao com outras politicas sociais. Tais fatores acabam por impor limites e dificuldades para avancar na area (Mendes, 2010).

Apesar da ampliacao da assistencia social, como principal mecanismo de protecao social nos ultimos anos, por meio da criacao de uma nova arquitetura institucional e etico-politica que permitiu de maneira efetiva a realizacao de um sistema de protecao social ofertado na esfera publica, o setor ainda carrega forte heranca assistencialista (Behring & Boschetti, 2007). Nesse sentido, varios tem sido os desafios para a efetivacao da politica de assistencia social. De acordo com Mauriel (2010), "o lugar cada vez mais privilegiado que a pobreza assume no debate sobre politica social faz com que as formas adotadas para o enfrentamento da questao social impecam a generalizacao dos direitos sociais" (p. 174). Pobres sao nomeados e tratados pela via da fragilidade, sendo desconsiderados em sua historia, contextos e capacidades, contribuindo para uma visao reduzida de questao social. Por sua vez, Oliveira et al. (2014), dentre outros, entendem que existem divergencias e precariedades na forma de organizacao e execucao dos servicos, nas instalacoes dos equipamentos de atendimento, enfim, nas condicoes de trabalho. Tais dificuldades tem interferido no desenvolvimento das praticas profissionais, que nao tem provocado mudancas na realidade de usuarios desses servicos, constituindo-se, na maioria das vezes, como um conjunto de acoes paliativas. Associa-se a esse, o desafio do Estado em propiciar condicoes de respostas para alem do emergencial e do imediato, gerando inumeras dificuldades para a concretizacao da politica de assistencia social enquanto um sistema solido de protecao social, devido ao padrao hegemonico de manutencao das politicas publicas como mantenedoras da ordem a favor do capital (Bazza & Carvalho, 2013).

Tais aspectos sao importantes e precisam ser considerados pelos psicologos ao se inserirem e atuarem nesses cenarios, pois determinam as possibilidades de acao da profissao. De acordo com Pires e Braga (2009), verifica-se um consideravel aumento do numero de psicologos no setor da saude. Em um levantamento no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saude (ONES), existem 78.334 mil psicologos vinculados ao Sistema Unico de Saude (SUS), sendo 44.9% ligados a administracao publica. Os estabelecimentos de saude que concentram maior percentual de profissionais sao: centros de saude/unidades basicas de saude (33.92%), centro de atencao psicossocial (21.69%), ambulatorios especializados (11.88%) e unidades hospitalares--Geral e Especializado--(11.41%) (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saude, s. f.). Um numero expressivo de profissionais estao associados a equipes com enfase na promocao da saude e prevencao de doencas, que abrem novas dimensoes para a compreensao dos fenomenos da saude a partir das determinacoes sociais do processo saude-doenca. Ademais, sao servicos compostos por equipes multiprofissionais, portanto, que exigem atuacoes interprofissionais, demonstrando uma maior oferta de acoes em todos os niveis de atencao, particularmente os de base territorial e comunitaria. Por ser uma area de atuacao recente para psicologos, dados do Censo do Sistema Unico da Assistencia Social (SUAS) indicam o total de 40.400 psicologos atuando no setor de assistencia social, sendo 9.937 em Centros de Referencia da Assistencia Social (ORAS), 4.392 em Centros de Referencia Especializados de Assistencia Social (OREAS), 2.617 em Centros de Convivencia, 3885 em Unidades de Acolhimento, 309 no Centro Pop, 253 em Familia Acolhedora, 1.688 em Centros Dia, e 447 e 16.872 na Gestao Estadual e Municipal, respectivamente (Ministerio do Desenvolvimento Social, 2018).

Essas informacoes ajudam a identificar que a saude e a assistencia social constituem-se como um campo no qual psicologos tem-se inserido de maneira expressiva e sistematica no ambito das politicas sociais (Yamamoto & Oliveira, 2010; Macedo et al., 2011). Sao politicas que tem cumprindo o papel de convocar esses profissionais a estarem presentes nos mais diversos lugares e regioes do pais, aproximando-os de novos campos, inclusive com destaque para os contextos rurais, por meio da interiorizacao e regionalizacao dos servicos em municipios de medio e pequeno portes. Neste caso, as populacoes dessas localidades, especialmente aquelas que vivem em contextos rurais, tem tido acesso de maneira mais efetiva aos servicos prestados por psicologos por meio das politicas sociais (Leite, Macedo, Dimenstein & Dantas 2013).

Por outro lado, estudos relatam e refletem sobre as insuficiencias teoricas e praticas da profissao para atuar no ambito das politicas sociais (Yamamoto & Oliveira, 2010; Macedo & Dimenstein, 2012). Associado a inseguranca teorica, tecnico-interventiva e politico-administrativa, a insercao de psicologos nas politicas sociais notadamente nas localidades do interior, tem sido marcada pelo estranhamento, frustracao, impotencia, mal-estar e rotatividade nos servicos, considerando serem realidades nao discutidas na formacao, alem da precarizacao das condicoes de trabalho (Macedo et al., 2011; Macedo & Dimenstein, 2012; Dantas, 2013).

Isso se acentua, especialmente, no caso de areas rurais, pois no Brasil, psicologos tem pouco estudado e compreendido a categoria rural (Albuquerque, 2001; 2002), sendo um desafio inserir-se em meio as necessidades e condicoes de vida dos sujeitos que vivem nessas realidades, com suas identidades, diversidades de formas de organizacao e valores socioculturais, alem da existencia da pluriatividade do meio rural e da precarizacao das politicas publicas.
Pode ser visualizada por meio de um mercado de trabalho que abrange
desde a prestacao de servicos manuais ate o emprego temporario nas
industrias tradicionais (agroindustrias, textil, vidro, bebidas, etc.)
e pela combinacao de atividades tipicas do meio urbano do setor
terciario com o management das atividades agropecuarias. Isso faz com
que os campos passem a ser olhados como oportunidade para novos
negocios (Silva, 1997; Wanderley, 2000).


Sobre o chamado meio rural brasileiro, tem sido pensado por uma ampla producao que perpassa diversas areas do conhecimento, sendo o rural uma categoria de reflexao teorica, tomada a partir de varios sentidos, tornando-se objeto de estudos de forma inaugural desde a passagem do seculo XIX para o seculo XX (Queiroz, 1973 como citado em Moraes & Vilela, 2013).

Inicialmente, o rural foi entendido por meio de uma logica binaria em contraposicao com o urbano, numa visao dicotomica entre cidade e campo (Moreira, 2005a; do Carmo, 2009). No entanto, a partir de 1930, a continuidade entre esses dois espacos foi ressaltada, porem, resguardadas as suas particularidades em um continnum rural/urbano (Lindner, Alvez & Ferreira, 2009). De 1950 a meados de 1970 acentuou-se o entendimento de rural como sinonimo de agricola por meio da abordagem difusionista, tendo predominado a chamada perspectiva psicologico-behaviorista, que concebeu o agricultor como um ator que respondia aos estimulos das novas tecnologias, da educacao, das oportunidades ocupacionais e outras (Fliegel, 1993 como citado em Schneider, 1997). Ja nos anos 1980 houve um salto nos estudos rurais no Brasil (Wanderley, 2011) em termos do numero de producoes e em areas do conhecimento, seguido, nos anos 1990, por mudancas nas analises sociologicas deslocando o foco da agricultura e da dicotomia entre rural e urbano para pensar o rural sob novas bases conceituais, defendendo a existencia de um novo rural brasileiro.

Pelo argumento de Silva (1997), essa ampliacao de concepcoes trouxe o entendimento de que o rural nao poderia ser reduzido ao agricola considerando o crescimento de pessoas envolvidas em outras atividades produtivas, inclusive facilmente reconhecidas como tipicamente urbanas. Wanderley (2000), por sua vez, chamou atencao em seus estudos para diferencas espaciais e sociais na atualidade que "apontam nao para o fim do mundo rural, mas para a emergencia de uma nova ruralidade" (p. 4). Considerando as transformacoes sociais em curso. Nesse sentido, enfatiza a necessidade de pensar o rural brasileiro tanto a partir das relacoes com o urbano, quanto por meio de suas relacoes internas especificas, incluindo, alem dos aspectos economicos e produtivos, os modos de sociabilidade, de vida e trabalho que (re)produzem o rural. Assim, "estudar a ruralidade significa dar relevo a dinamica dos modos de vida das coletividades locais" (Schneider & Blume, 2004, p. 112).

Ja Carneiro (2012) aponta outra perspectiva que vem sendo reconhecida como nova ruralidade. Trata-se de pensar a ruralidade "como um processo dinamico em constante reestruturacao dos elementos da cultura local mediante a incorporacao de novos valores, habitos e tecnicas" (p. 50). Moreira (2005b) entende ainda as ruralidades como expressoes de identidades sociais no mundo rural. Por isso tematiza a existencia de um processo de ressignificacao (desconstrucao-construcao) do rural a partir das antigas oposicoes balizadoras das representacoes hegemonicas que configuraram os meios e os povos rurais: tradicional-moderna, rural-urbano, campo-cidade e agricultura-industria.

Por fim, Veiga (2006) sugere uma nova leitura a partir da abordagem territorial com o objetivo de contribuir com acoes de planejamento e desenvolvimento rural. Para o autor, e um equivoco associar ruralidade a tudo o que esteja fora do perimetro urbano, bem como discutir as relacoes rural/urbano a partir de antagonismos. O enfoque territorial de Veiga (2006) e pensado entao como alternativa para substituir as dicotomias rural/urbano. Nesse sentido, as acoes indutoras do desenvolvimento rural deveriam tomar o proprio territorio rural como ponto de referencia e nao o seu antagonico, o urbano, enquanto parametro a ser alcancado pelo rural. Para Alcantara Filho, Silva e Silva (2009), o desenvolvimento rural sob a perspectiva da abordagem territorial seria:
Um processo de mudanca social, politico, economico e cultural, voltado
para uma valorizacao das atividades locais, distribuicao de renda justa
e erradicacao da pobreza, buscando alcancar uma melhoria do padrao de
vida da populacao, satisfazendo-a em suas necessidades humanas basicas
e respeitando os preceitos de sustentabilidade ambiental (p. 31).


Assim, alem das transformacoes e das novas dinamicas espaciais, regionais, sociais e simbolicas que tem dado uma nova face ao rural, e preciso tambem considerar a descentralizacao de politicas que tem incidido sobre essas realidades, no sentido de diminuir niveis de pobreza e outras fragilidades e iniquidades que marcam os territorios rurais brasileiros, a exemplo da valorizacao e fortalecimento da agricultura familiar, acompanhado da diversificacao das economias dos territorios, com destaque para o estimulo do setor de servicos e pluriatividade (Favareto, 2010; Schneider & Blume, 2004).

Entretanto, Favareto (2010) alerta que esse processo nao se da sem tensoes, considerando: "o carater territorial das novas orientacoes em contraposicao ao vies setorial das instituicoes existentes" (p. 313). A propria participacao de diversos organismos internacionais, a exemplo da Organizacao das Nacoes Unidas para Agricultura e Alimentacao (FAO), o Banco Mundial, a Comissao economica para a America Latina (OEPAL), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Instituto Interamericano de Cooperacao Agricola (Iica), a Organizacao para a Cooperacao e o Desenvolvimento economico (OODE), na definicao de politicas, sobretudo nos paises perifericos e em desenvolvimento, ao propor respostas fragmentadas e focalistas frente as diversas expressoes da questao social que aflige os povos e os meios rurais, faz com que as agencias multilaterais tenham lugar de destaque nesse processo, com a reproducao do vies setorial.

Em sintese, existem hoje no Brasil importantes interpretacoes sobre ruralidades, que de maneira geral tem destacado os contextos rurais como complexidades (Alentejano, 2003; Carneiro, 2005; Moreira, 2005a; Mattei, 2015). Certamente, o desafio que se coloca e lidar com particularidades sem perder de vista os processos mais amplos que as determinam, e sem associar as populacoes rurais a limites do que hegemonicamente e entendido por rural. Ha entre os territorios, rural e urbano, fronteiras moveis, que inclusive, podem ser deslocadas de uma espacialidade fisica. Nesse caso, individuos podem, mesmo estando fora de sua referencia espacial, expressar o seu vinculo com ela, ou seja, sua identidade territorial (Carneiro, 2005).

Diante disso, este artigo objetiva discutir sobre as concepcoes de psicologos que atuam nas politicas sociais a respeito do rural. Com isso, espera-se contribuir com novos elementos teoricos e criticos acerca do debate da psicologia nos contextos rurais, enriquecendo suas perspectivas e insercao nesse campo.

Metodo

Trata-se de um estudo qualitativo realizado com 06 psicologos do ORAS (n=2), da Equipe Volante do ORAS (n=3) e do Nucleo de Apoio a Saude da Familia (NASF) (n=1) de tres municipios de pequeno porte localizados no interior do estado do Piaui, no Brasil.

O Piaui esta localizado na regiao Nordeste do Brasil e conta com uma populacao de 3.118.360 habitantes distribuidos em 224 municipios. Dados oficiais indicam que 34.2% desse contingente populacional faz parte da zona rural. Porem, se considerarmos que 73.21% dos municipios piauienses contam com populacao com ate 10 mil habitantes e 15.62% entre 10.001 e 20 mil habitantes, entendemos que aquele indice de 34.2% pode ser bem maior ja que a maioria dos municipios piauienses possui estreita relacao com o meio rural.

Veiga (2001) alerta que o Brasil e mais rural do que demonstram os dados oficiais, pois segue uma regra unica no mundo que considera como urbano qualquer sede de municipio (cidade) e de distrito rural, nao importando suas caracteristicas estruturais ou funcionais. Nesse sentido, 80% dos municipios brasileiros seriam rurais e neles residem 30% da populacao. Tal entendimento foi fortalecido com a formulacao do Programa Territorios da Cidadania, criado por Decreto Federal no 40.117/2008, com o objetivo de promover o desenvolvimento economico e a universalizacao de programas basicos de cidadania, por meio de uma estrategia de desenvolvimento territorial sustentavel. Assim, define um territorio rural por sua identidade social, economica e cultural, tendo como requisitos: a) conjunto de municipios com ate 50 mil habitantes; b) densidade populacional menor que 80 habitantes/[km.sup.2]; c) organizados em territorios rurais de identidade; d) integrados com os Consorcios de Seguranca Alimentar e Desenvolvimento Local (OONSAD), do Ministerio do Desenvolvimento Social (MDS) e/ou Mesorregioes, do Ministerio da Integracao Nacional (MI) (Presidencia da Republica do Brasil, 2008).

Neste momento, parece-nos fundamental destacar que na medida em que rural nao diz respeito apenas a um local fisico, considerado por Moraes (2014) como uma categoria do pensamento teorico, do senso comum e de classificacao da vida social, defini-lo tendo por base somente os criterios quantitativos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), que dividem zona rural e zona urbana, torna-se insuficiente. E preciso entender que ha conexoes entre os territorios rural e urbano, (Carneiro, 2005).

Partindo dessa contextualizacao, como criterio de definicao dos locais e sujeitos da pesquisa, anteriormente referidos, foram selecionados municipios de pequeno porte com populacao de ate 10 mil habitantes que fazem parte do territorio denominado "Cocais" e que contam simultaneamente em sua rede de servicos com grupos e centros como: ORAS, Equipe Volante do ORAS e NASF. Os municipios que atenderam a estes criterios foram: Brasileira (7.966 habitantes), Sao Joao da Fronteira (5.608 habitantes) e Milton Brandao (6.770 habitantes) (IBGE, 2010).

Sobre o processo de investigacao, foram realizadas leituras e pesquisas que versam sobre rural e psicologia, a partir de levantamentos bibliograficos a respeito de rural nos campos da sociologia, antropologia, agronomia, dentre outros. Alem disso, foram feitos levantamentos documentais referentes as politicas do SUS e do SUAS e a profissao de psicologia e, por fim, foi realizada a pesquisa de campo, com a imersao nas realidades de trabalho dos psicologos nos municipios.

A pesquisa de campo foi realizada por meio de observacao participativa, conversas informais, entrevistas semiestruturadas e uso de diario de campo. Essas estrategias metodologicas possibilitaram acompanhar os movimentos nas falas e nas acoes dos participantes, constituindo-se como meios onde puderam relatar e demonstrar suas concepcoes e vivencias, sem nenhum tipo de impedimento, o que impossibilitaria a manifestacao de conteudos que pudessem contribuir para os resultados e, ate mesmo, para o proprio direcionamento do processo de pesquisa. Desta forma, os conteudos das observacoes, das entrevistas e das conversas informais foram registrados e transcritos durante toda etapa de campo no processo de pesquisa.

Quanto ao tratamento dos dados, trabalhou-se com a analise de conteudo na categoria analise tematica (Minayo, 1993), tendo como procedimentos as etapas de categorizacao, inferencia e interpretacao dos dados. O estudo teve aprovacao do comite de etica de pesquisa, atendendo aos aspectos eticos e metodologicos de acordo com as diretrizes do Conselho Nacional de Saude (no 466/12 e no 510/16), com OAAE: 56181416.0.0000.5214.

Resultados

Perfil dos psicologos que atuam nas politicas sociais em municipios de pequeno porte no Piaui

As tabelas 1 e 2 apresentam uma sintese do perfil profissional e formativo dos entrevistados. Identificamos que a maioria dos psicologos que trabalham nesses contextos rurais sao mulheres. Isso reflete na predominancia feminina na profissao--composta por 94.4% de mulheres--(Conselho Federal de Psicologia [CFP], 2016).

Nessa tabela ainda e possivel identificar que se trata de profissionais jovens, quatro entre os entrevistados se encontram na faixa etaria de 27 a 34 anos, os demais possuem mais de 50 anos. Quanto ao estado civil sao majoritariamente casados. Um dado que merece destaque e que a maioria dos entrevistados e natural de municipios pequenos do Piaui, que sairam de suas localidades para cursarem o ensino superior, e que atualmente ou retornaram para os seus municipios ou estao trabalhando em outros municipios com caracteristicas semelhantes. Com isso, nao se pode deixar de destacar que sao psicologos que tem uma trajetoria de vida marcada pela ruralidade, por conta da vivencia em seus pequenos municipios. Essa realidade e fruto da ampliacao do acesso ao ensino superior no Brasil, com os quais muitos estudantes de cidades de pequeno porte tem buscado o ensino superior nas capitais brasileiras ou cidades polo de desenvolvimento regional (Macedo & Dimenstein, 2011).

Em relacao a formacao (tabela 2), a maior parte tem entre 05 a 09 anos de formados (tres). Na sequencia estao aqueles com menos de 05 anos (dois), e um unico caso que possui 34 anos de graduacao. Destaca-se que as formacoes foram realizadas em Instituicoes de Ensino Superior (IES) privadas e publicas, em igual numero, localizadas nas capitais (cinco) e no interior (uma), o que contribui para maior heterogeneidade dos perfis formativos (Dantas, 2013).

Ainda em relacao a formacao (tabela 2) a maioria possui especializacao, majoritariamente em saude mental (tres). Outro profissional possui varias especializacoes, entre elas, tanatologia, educacao especial e mestrado em psiquiatria infantil. Outros dois profissionais estao cursando especializacao em psicologia clinica. No geral, chama atencao a formacao em saude mental e a nao referencia a cursos nas areas da protecao social basica do SUS e do SUAS. Nesse sentido, mesmo quando foi relatada experiencia de formacao relacionada ao servico (educacao continuada), esta foi considerada insuficiente: "nas capacitacoes vou com uma duvida e volto com duas" (P4). Essas constatacoes demonstram que apesar da importancia dos niveis basicos de atencao/protecao das politicas de saude e de assistencia social como campos de insercao para a psicologia, a graduacao e a formacao continuada ainda dialoga pouco com esses cenarios e realidades.

Outro dado importante refere-se a ausencia de estagios e disciplinas relacionadas a ruralidade na graduacao. Nesse caso e preciso problematizar a constatacao de que psicologos tem cada vez mais atuado em contextos rurais, mas por outro lado, sem possuir fundamentacao teorica-critica e experiencia pratica anterior nesse campo. Tal realidade se constitui como um desafio que passa antes de tudo pela limitada e deficiente formacao em psicologia voltada para as questoes que envolvem as proprias politicas sociais (Macedo & Dimenstein, 2012), notadamente em contextos rurais (Leite et al., 2013). Nesse sentido, cabe considerar o quanto a formacao em psicologia se relaciona diretamente ao projeto de profissao, sendo as questoes da formacao igualmente questoes da profissao (Rechtman, 2015), resguardadas, certamente, as particularidades entre uma e outra. Mas como se pode perceber, apesar de contar com a presenca expressiva de profissionais nesses contextos, nao tem sido contemplados com experiencias formativas com as ruralidades em suas graduacoes.

Concepcoes de psicologos que atuam nas politicas sociais em pequenos municipios do Piaui sobre o rural

No que diz respeito a concepcao sobre rural, a resposta preponderante dos entrevistados foi a associacao com a ideia de local fisico. De maneira mais detalhada o termo rural foi associado a aspectos fisicos e geograficos, com a utilizacao de expressoes como acesso, localidade, distancia, area rural, campo rural, ambiente comum, regiao, povoado e interior. Sobre esse ultimo, e importante mencionar que o termo "interior" relaciona-se com o imaginario sertao/litoral, significando distante da costa. Mas no Piaui, conforme Moraes (2007), ele foi "ressemantizado" tanto pelos moradores da capital quanto dos demais municipios do Estado para referir a alteridade em relacao ao urbano.

Apesar dessas compreensoes, o rural nao diz respeito apenas as imagens aludidas acima, como distante, agricola, arcaico e atrasado, enfim, em oposicao ao urbano. O rural e compreendido como "espaco" singular, diversificado e como construcao historica, que demanda novo compromisso institucional, como relata Wanderley (2000), pois ali encontram-se identidades em construcao. Nesse caso, e preciso que os profissionais tenham sensibilidade e embasamento teorico-metodologico para considerar a dinamicidade e heterogeneidade de processos que compoem o rural (e as ruralidades).

Mesmo considerando o primeiro conjunto de respostas a respeito de rural, tentamos explorar outras caracteristicas associadas, agora, as pessoas e relacoes nesses contextos. Assim, alem da referencia ao aspecto fisico que marca a qualificacao sobre rural no trabalho desses profissionais, tambem mencionaram o aspecto idilico ao representa-lo como sinonimo de tranquilidade, natureza e calmaria. A carencia foi outra compreensao utilizada para referir-se ao rural, inclusive as pessoas que ali vivem, percebidas como necessitadas, vulneraveis e com uma vida dificil. O trecho a seguir obtido de um entrevistado representa bem este entendimento: "--Gosto do contato com essa realidade. Sempre busquei trabalhar em cidades pequenas. Interesso-me em trabalhar com pessoas menos favorecidas. E assim que as vejo!" (P4). Essas concepcoes muitas vezes sao acompanhadas de estereotipos ao definir os moradores como leigos, sem informacao, alienados, sem paciencia, acomodados, e que requisitam a resolucao rapida dos problemas. Por outro lado, ha profissionais que concebem tais pessoas como acolhedoras, receptivas e participativas. Mas de todo modo, reforcam o rural como lugar de poucas oportunidades, sem informacao e distante do moderno. E importante lembrar que na modernidade burguesa, concepcoes como atrasado, tradicional, rustico, carente, dentre outros, constituiram imagens hegemonicas do rural subalterno e oposto ao urbano (Moreira, 2005a).

Para Favareto (2006) um dos principais dilemas da propria acao do Estado nas suas tentativas de promover o desenvolvimento rural, e exatamente ancorar-se na ideia de rural e de ruralidade como secundaria, dado a enfase no urbano/moderno. O aspecto residual do rural e sua associacao espontanea a pobreza e ao atraso reduzem as probabilidades de investimentos, tanto cientificos e politicos quanto economicos, contribuindo, portanto, para determinar uma situacao em que a posicao marginal do rural e continuamente reforcada, de maneira simbolica e material.

Vale destacar que nessa referencia ao rural houve uma homogeneizacao das concepcoes sobre o mesmo, entendido como constituido por pessoas adultas de vida dificil. Tal entendimento pode estar ancorado na imagem homogeneizadora e estereotipada acerca das pessoas que vivem em contextos rurais como trabalhador do campo. "--O homem, ele ainda acaba fazendo aqueles servicos: de mexer com agricultura, com bichos" (P5). "--Sao pessoas com poucas oportunidades, aquela vida dificil de trabalho duro, pesado mesmo, isolamento, porque ate a distancia de uma casa para outra e muito grande" (P5).

Tais concepcoes deixam de considerar entendimentos que tomam os povos rurais como seres de cultura, cujos corpos tambem expressam sistemas culturais, nao estando apenas relacionados as esferas do trabalho e produtivista. Um olhar mais ampliado por parte dos entrevistados poderia captar, por exemplo, subjetividades e posicoes economicas, politicas, sociais, de genero, geracional, dentre outras (Bourdieu, 2006), ajudando assim, a repensar essa associacao direta entre rural e trabalhador do campo. O que nos leva a indagar: de que maneira e em que direcao psicologos interagem com populacoes que vivem em contextos rurais, criancas, adolescentes, jovens, adultos e idosos? Quais valores e significados de infancia, juventude e velhice sao produzidos e reproduzidos nas suas atividades nesses contextos? Tais questoes precisam ser consideradas, como forma de romper com representacoes conservadoras e homogeneizantes acerca do rural, ja que este "engloba diferentes registros de sociabilidades e de identidades" (Paulino, 2005, p. 261).

Alem desses aspectos, os entrevistados fizeram referencia sobre as relacoes de sociabilidade presente nos contextos rurais. A marca dessa sociabilidade se expressa no acolhimento, no forte vinculo entre as pessoas, nas relacoes de ajuda e reciprocidade e nos fortes vinculos de vizinhanca que estruturam a vida nas realidades visitadas. Porem, no ambito domestico, foram referidas situacoes de violencia, relatadas por uma profissional e que, de acordo com ela, na "cultura" das localidades do interior nao existe "ligamento", afetividade e apego. A mesma citou um caso que lhe causou muita admiracao, de um pai que agredia seus seis ou sete filhos que acabaram saindo de casa antes mesmo de completarem os dezoito anos, e que falava, de acordo com ela, com naturalidade sobre essa situacao.

Aspectos culturais e comportamentais tambem foram utilizados para definir rural. Falaram a respeito de influencias negativas da vida urbana trazida por jovens quando retornam para casa depois de meses fora em funcao do trabalho em outras regioes do pais; situacoes de violencia contra mulheres, criancas e adolescentes, no ambiente domestico, entendidos como de ordem cultural; a imagem de lavrador representado como acomodado, timido, reproduzindo comportamentos engendrados pela falta de informacao e punicoes; ou ainda o fato dos jovens, principalmente mulheres, casarem cedo, por falta de alternativas e projetos, vendo no casamento uma alternativa mais viavel.

Porem nao da para tomar tais situacoes como hegemonicas. E preciso reconhecer, por exemplo, a complexidade que se expressa na vida de jovens no campo, pois "nao existe uma juventude rural, mas muitas juventudes rurais" (Weisheimer, 2013, p. 26). Assim, conhecer os processos de socializacao dos jovens nos contextos rurais acaba por romper com definicoes de carater substancialista ou mesmo definicoes ancoradas a partir de uma otica urbana, sendo a categoria juventude uma construcao social em disputa (Weisheimer, 2013).

Esse conjunto de compreensoes a respeito de rural demonstra o quanto psicologos tem reproduzido sentidos associados a dicotomia rural/urbano, em que o rural e separado do urbano e sinonimo de atrasado, carente e vulneravel, por exemplo: --"Sao pessoas distantes da civilizacao" (P4). --"O psicologo na zona rural tem que se mostrar nao tao elitizado como o da zona urbana" (P6); --"Rural e algo que nao esta relacionado com a cidade" (P3).--"Voce esta considerando rural a cidade tambem? Eu nao! Os povoados compoem zona rural, a cidade nao" (P2).

Os trechos acima expoem a clara separacao entre rural e urbano. Mas como destaca Moraes e Vilela (2013), "rural" diz respeito a uma categoria do pensamento e que vem enfrentando mudancas em diferentes esferas, socioeconomica, demografica, cultural, que tem levado a compreensao da relacao entre campo e cidade como construcoes simbolicas que ultrapassam caracteristicas paisagisticas, formas de uso dos bens naturais e base fisico-espacial, portanto, uma forma de percepcao e representacoes, cultural e identitaria.

Para Alencar e Moreira (2005) trata-se de um processo social complexo, com a inexistencia de uma mera atracao entre rural e urbano. Nas palavras de Moreira (2005a) trata-se de "complexas relacoes sociais contemporaneas que apresentam, ao mesmo tempo, fluxos culturais e materiais da ruralidade e da urbanidade" (p. 21). Essas relacoes sao tao marcantes na contemporaneidade que foram identificadas em discursos de certos profissionais, que por vezes se referiram a sede do municipio como rural, ou mesmo associaram a realidade da sede a mesma realidade de zonas rurais. Porem, isso nao constitui sua concepcao acerca de rural, pois foram apresentadas de maneira isolada ou mesmo captadas em ambiguidades nas falas.

[...] aqui particularmente em [municipio] eu sou responsavel pela sede. Se bem que a nivel de [municipio] nao se diferencia muito rural de sede. Ja no meu outro servico, que eu trabalhava no NASF, eu cheguei a ter contato com o "ruralzao" propriamente dito (P3).

Nesse caso, e possivel verificar que o profissional realizou um movimento em torno da nocao de rural como dicotomico e tambem como continuum, onde o discurso inicia fazendo referencia a separacao entre rural e urbano, em seguida o rural e associado ao urbano e depois novamente separado do mesmo. Ou seja, apesar de certo movimento em direcao a relacionar rural e urbano, reafirma-se a conclusao inicial a respeito da concepcao de rural prioritariamente como um local e oposto a cidade.

Apesar dessas compreensoes entre os profissionais entrevistados, nas observacoes em campo e conversas informais foram observados elementos que apresentam concepcoes inversas a essa ideia de estabilidade e separacao entre rural e urbano. Nos tres municipios, moradores tanto da sede quanto da zona rural direcionam-se constantemente para cidades vizinhas - das quais os municipios foram desmembrados--como, por exemplo, para realizar compras e acessar servicos. Por recorrerem constantemente a essas cidades vizinhas, especie de "fronteiras moveis" como diria Carneiro (2008), alguns moradores costumam dizer que estao "indo para a rua". Nesse transito, acabam levando e trazendo consigo representacoes e culturas.

De fato, nao se pode esquecer que as regioes rurais dependem das regioes urbanas para acessarem servicos e equipamentos sociais de maior complexidade. Isso tudo conforma uma "conectividade fisica e virtual" entre esses espacos, na conformacao de uma "trama territorial" (Favareto et al., 2015, p. 21). Nesse sentido, ruralidades seriam trabalhadas como representacao (Carneiro, 2008; Moraes & Vilela, 2013), considerando que as pessoas, em diferentes espacos, trazem sua vida, cultura e identidade. Com isso, rural, nao pode ser entendido somente como espaco geografico em oposicao ao urbano ou a sede do municipio. Se nao considerar a multiterritorialidade (Haesbaert, 2007), que e a vivencia concomitante de diversos territorios, os quais envolvem as dimensoes material, simbolica e do poder, os psicologos podem nao compreender ou aproximarem-se da complexidade dos elementos em jogo que constituem os povos e os meios rurais.

Por ultimo, e valido destacar outro aspecto que se sobressaiu com relacao a forma com que os psicologos concebem o rural, que trata sobre as dificuldades sentidas em relacao ao trabalho nas politicas sociais nesse campo, devido a precaria organizacao e parco financiamento das proprias politicas, resultando em diversas dificuldades para realizacao das atividades: falta transporte, material, estrutura fisica para desenvolver as atividades, articulacao e retaguarda de outros servicos, etc. (Oliveira et al., 2014). Nesse sentido, apesar da importancia dessas politicas na aproximacao de psicologos com os contextos rurais, suas diretrizes produzem discursos e sentidos alinhados a qualificacao dos servicos prioritariamente pela otica do urbano. Os principios, diretrizes e orientacoes dessas politicas, apesar da indiscutivel importancia, ainda nao contemplam analises e singularidades da relacao rural/urbano para a leitura das realidades.

Nao se pode deixar de considerar que os desafios na pratica de psicologos com as ruralidades, ganham amplitude devido a maior precarizacao das politicas sociais nos meios rurais. Assim, destacamos como desafios: a) a dificuldade da definicao de rural nas proprias politicas sociais e orgaos oficiais, a exemplo do IBGE; b) a necessidade de avancar na compreensao de desenvolvimento rural em termos territoriais, pois ainda e forte o vies setorial; c) as politicas do SUS e do SUAS nao contemplam a leitura da relacao rural/urbano (Favareto et al., 2014); d) a desproporcionalidade entre o numero de psicologos e a abrangencia territorial dos servicos da saude e da assistencia social nos municipios de pequeno porte no Brasil. Juntamente a isso, nao se pode deixar de mencionar o desafio de conhecer e materializar os objetivos, diretrizes e estrategias da Politica Nacional de Saude Integral das Populacoes do Campo e da Floresta (PNSIPOF), instituida em 2011 e voltada para o cuidado da saude dessas populacoes por meio de acoes embasadas em suas especificidades e na busca pela reducao das desigualdades de acesso ao SUS (Brasil, 2013).

Consideracoes finais

A tematica rural tem sido abordada por meio de um grande numero de producoes em diversas areas do conhecimento, o que tem levado a uma vasta discussao acerca do que e rural e sobre suas transformacoes. Profissionais da psicologia tem vivenciado alguns desafios, dado sua insercao no campo das ruralidades recentemente, principalmente por meio das politicas sociais. Dentre os principais desafios verificados nesta pesquisa, ressalta-se a limitada concepcao dos psicologos pesquisados sobre rural, compreendido preponderantemente como um local fisico isolado do urbano.

Assim sendo, e urgente a apropriacao dos profissionais da psicologia acerca das discussoes teoricas e criticas no ambito dos estudos rurais brasileiros para que haja uma maior maior qualificacao quanto a compreensao de rural como categoria do pensamento, ampliando assim as possibilidades metodologicas, tecnica-interventiva e etico-politica da profissao nesse campo. Torna-se necessario ampliar o entendimento sobre o rural, no sentido de considerar as relacoes entre rural e urbano para que se efetivem diretrizes, interesses e poderes, por meio da construcao de saberes e praticas coerentes com cada realidade e conjuntos especificos de necessidades.

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Fecha recebido: janeiro 12, 2017

Fecha aprovado: marco 20, 2019

Katya de Brito e Silva (*,**), Joao Paulo Macedo (*,***)

(*) Universidade Federal do Piaui, Departamento de psicologia.

(**) Correio eletronico: katyabrito.s@gmail.com

(***) Correio eletronico: jpmacedo@ufpi.edu.br

Doi: http://dx.doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.5200
Tabela 1
Perfil dos psicologos entrevistados

Caracteristica       Especificacao   N

Sexo                 Feminino        05
                     Masculino       01
                     27-31           02
Faixa etaria         32-36           02
                     53-57           02
Estado civil         Solteiro        02
                     Casado          04
Naturalidade/        Pequeno porte   05
Porte do Municipio   Medio porte     01

Tabela 2
Perfil de formacao dos psicologos entrevistados

Caracteristica          Especificacao                N

IES da graduacao        Publica                      03
                        Privada                      03
                        02-04                        02
                        05-07                        02
Tempo de formado        08-09                        01
                        34                           01
                        Especializacao               04
                        Mais de uma especializacao   01
Pos-Graduacao           Mestrado                     01
                        Em andamento                 02
                        Saude mental                 03
Area da Pos-Graduacao   Psicologia clinica           02
                        Psiquiatria infantil         01
                        Outros                       01
Estagio/disciplina      Sim                          00
Sobre ruralidades       Nao                          06
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Author:de Brito e Silva, Katya; Macedo, Joao Paulo
Publication:Avances en Psicologia Latinoamericana
Date:Jul 1, 2019
Words:8858
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