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A compreensao e um dos niveis de leitura: experimentacoes e sensacoes--itinerarios de literatura e clinica.

Golem e uma palavra que aparece uma so vez na Biblia, no salmo 139:16, e que quer dizer: sem forma, o informe. Golem (Scholen, 1994, p.57-59) e um ser feito de argila e, conta a cabala, que os judeus poloneses o fabricaram depois de certas oracoes e dias de jejum, na forma de um homem de barro. Sobre este homunculo, pronunciaram o sheruramphuras miraculoso--o nome de Deus--e este ser adquiriu vida. Embora nao pudesse falar, ele compreendia suficientemente o que lhe ordenavam e executava trabalhos domesticos. O Golem nao deveria jamais sair da casa e, em sua fronte, estava escrito: Emeth --(E.M.E.TH) que em hebraico quer dizer: Verdade. Ele crescia rapidamente a ponto de se tornar maior do que todos os que viviam na casa, mesmo tendo sido fabricado bem pequeno. Entao, eles apagavam a primeira letra do nome inscrito em sua testa, e ele se tornava Meth (M.E.TH), que quer dizer: morto. De EMETH (verdade) para METH (morto). Entao, ele caia e se transformava novamente em argila. Diz a lenda que, certa vez, um homem deixou crescer em demasia o seu golem. Ele ficou tao grande que ja nao era mais possivel alcancar a sua fronte. Entao, o homem ordenou que o golem lhe tirasse as botas. Quando o golem curvou-se, ele pode enfim atingir-lhe a testa, mas tao logo retirou a primeira letra de emeth, todo aquele peso de argila caiu sobre ele e o soterrou.

As experimentacoes do projeto Literatura e Clinica lembram, as vezes, por sua precariedade, essa versao de um golem sempre inconcluso. A literatura e os encontros, na sua fragilidade e forca, com suas verdades, num processo sempre de reconstrucao a partir do informe, dos destrocos anteriores, tambem precisam, para sustentar-se, de muita engenhosidade, acaso e, repetidas vezes, de uma boa dose de torcida desejante. Aquela que nos podemos oferecer a partir dos dispositivos de escuta, leitura, conversacao, passando todos eles pelas modalidades mais diversificadas de encontro. Mas nada esta dado de antemao, nenhuma verdade, e o que se da em cada encontro jamais esta garantido. Apagar muitas vezes o e de emeth pode ser pouco, e, frequentemente, dez vezes e ainda insuficiente para problematizar nossas verdades domesticas e domesticadas.

Com esses apontamentos iniciais, nos aproximamos um pouco da espessura das questoes desse projeto de extensao, para apresentar algumas experimentacoes, na verdade uma serie de vinhetas e notas um pouco ziguezagueantes. Ele teve inicio em outubro de 2006 e ja passou por duas etapas. A primeira foi mais focalizada no publico interno da Universidade Federal de Sao Paulo--Campus Baixada Santista. Participavam das rodas de leitura e discussao, quase que exclusivamente professores, estudantes e tecnicos. Os encontros tinham periodicidade quinzenal e consistiam na leitura coletiva e discussao de contos, poesias, fragmentos literarios de autores como: D.H. Lawrence, Borges, Virginia Woolf, Kafka, Oscar Wilde, entre outros. Questoes como: politica, morte, vida, diferenca, o inusitado e as "saudes frageis", que marcam certas literaturas, ofereceram possibilidades para distintas sensacoes e percepcoes na vizinhanca do trabalho da clinica. Essa etapa do projeto Literatura e Clinica durou tres anos e foi encerrada em meados de 2009.

O projeto agenciou encontros entre estudantes de varios cursos de graduacao na area da saude (Educacao Fisica, Nutricao, Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Psicologia), os diversos grupos populacionais de Santos, e contos, poesias, hai-kais e fragmentos literarios. A finalidade foi instigar sensibilidades, sensacoes, encontros permitindo a constituicao de novas faixas de escuta.

A partir de agosto de 2009, continuamos com os encontros abertos a frequentadores do campus, quando as atividades eram realizadas na Unifesp, e a novidade, no segundo semestre de 2009, foi a realizacao de encontros fora da universidade, em diversos estabelecimentos da cidade de Santos. Nesse momento o projeto ganhou um carater itinerante, sempre com cinco a seis estudantes, um professor e o coletivo do local. Ocorreram dois encontros em cada estabelecimento, com duracao de aproximadamente duas horas, onde obras ou trechos de obras literarias foram lidas, seguidos de conversacoes. A ideia nao foi fazer critica literaria ou falar sobre a literatura, mas permitirse a experimentacao e o encontro com as obras e os usuarios dos estabelecimentos publicos e equipamentos de saude de Santos.

Os primeiros dois encontros ocorreram em uma instituicao que atende pessoas com deficiencia visual. La trabalhamos com dois grupos distintos e propusemos a leitura de um pequeno conto de Franz Kafka--alias, nesse momento do projeto, propusemos varias experimentacoes com contos deste autor que nos pareciam captar certos movimentos subterraneos do seculo passado e deste. O primeiro conto foi "Diante da lei" (Kafka, 1999a), que disponibilizamos tanto em braile, para aqueles com perda total de visao, quanto em tamanho ampliado, para os com visao subnormal; os dois formatos foram preparados pela propria instituicao. Na roda de leitura, percebemos que todos ficaram a espreita de cada palavra; a impressao que tivemos era de que seus ouvidos pincavam os sons e as palavras lidas.

Na conversa, varias perspectivas surgiram em torno do conto, e foi atribuido, ao personagem de Kafka, o homem do campo, diversos rotulos identitarios: o inculto, o pobre, o brasileiro, o cego, todas as figuras cliches de um imaginario social apoiado na aspiracao a lei e que por ela espera ate o final. Varias situacoes do cotidiano dos cegos foram relatadas nesse momento.

Apos cada encontro, varias questoes eram discutidas na reuniao de articulacao do projeto de extensao; uma delas foi a de que nao seria interessante romantizar ou idealizar a cegueira. A experimentacao com alguns cegos havia sido potente, alguns deles, chegando a velhice, aprenderam, inclusive, a considerar a cegueira como uma saida das meras evidencias para uma especie de clareza maior e insubmissao. Um deles contou, por exemplo, que quando uma funcionaria do banco nao queria permitir que fechasse a conta, ja que por ser cego teria de faze-lo somente por telefone, ele nao aceitou a argumentacao burocratica e, indo adiante da lei, encerrou a conta. Os contrastes mais obvios nos assaltavam o pensamento; ocorria que, muitas vezes, nos e que estamos ofuscados pelo visivel, submissos as leis ou tomados de onipotencia.

No segundo encontro, um dos cegos praticamente monopolizou a discussao com uma apologia a Deus e a esperanca do homem diante da lei, o que nos pareceu uma especie de reacao ao conto, menos pelas suas conviccoes religiosas e mais pela dificuldade de coletivizar a experiencia. A cegueira na velhice, assim como qualquer ponto de estrangulamento vital, nao era uma garantia de tornar-se sabio, mas para alguns, em algumas situacoes, podia auxiliar na suspensao da visao ordinaria e seus referenciais, criando a possibilidade de um vazio germinador.

Outros dois encontros ocorreram na praia de Santos, na biblioteca do Posto 6. A divulgacao ocorreu atraves da agenda cultural da Secretaria Municipal de Cultura, o que atraiu um publico formado por funcionarios da biblioteca, professores, escritores e estudantes da Unifesp. Desta vez, utilizamos o conto "Chacais e Arabes" (Kafka, 1999b); e, apos a leitura, a discussao se ramificou e espraiou para diversas questoes--em ressonancia ou nao com o conto--e emergiram temas como a subordinacao ao poder e a servidao voluntaria. Os chacais sao uma especie de matilha intensa, que nao para de entranhar-se no deserto seguindo linhas de fuga. Apresentam bem o problema da "limpeza" e, nisso, algo da ordem da politica pareceu afetar as discussoes do grupo--o politicamente correto, as novas leis e os microrregramentos do cotidiano foram alguns desses assuntos; elementos do plano sensivel quase imperceptiveis. Em todos os encontros, nos interessava muito esse campo das sensacoes. Para os nossos habitos naturalizados parece que pensar e, inevitavelmente, raciocinar e compreender. Nesse dia tivemos a experiencia de que o pensamento e a afetacao sao encontros: de alguem com um chacal, um deserto, um som, uma politica, uma cor e, eventualmente, uma conversa. Em varios momentos, nas rodas de leitura, o que preponderava eram as regioes de sensibilidade. Eramos afetados por alguma coisa, independentemente de uma compreensao racional na leitura do escrito de Kafka. A compreensao era somente um dos varios niveis de leitura (Deleuze, 2008). Por exemplo, para apreciar um quadro de Cezanne, Gauguin ou outro grande artista, nao e preciso conhece-lo profundamente. O conhecimento profundo de um conto de Kafka, assim como dos termos tecnicos da pintura, pode ajudar, mas tambem ha sensacoes intensas, fortes e violentas na ignorancia total da pintura. E claro que alguem pode ficar abalado, afetado por um conto, fragmento literario ou um quadro, e nao saber nada a seu respeito. Podemos ficar muito tocados por uma musica ou com uma determinada obra musical sem saber uma palavra de musica classica. Isso, de certo modo, marcou o encontro do Posto 6, e, mais do que tudo, pos em analise o dispositivo que tinhamos produzido, nos levando a essas questoes e suas multiplas possibilidades.

Sao em momentos como esses que podemos acompanhar pequenos exercicios de invencao, de paciencia, de lentidao, de gratuidade, de angustia aceita, de duvida, enfim, exercicios de literatura e clinica.

Esses foram os encontros iniciais, e alguns outros ja ocorreram em situacoes diversas, com a presenca destes mesmos participantes em configuracoes grupais diferentes. Atualmente, o trabalho ocorre transversalmente, em colaboracao com o estagio de quarto ano do curso de psicologia, com outro projeto de extensao ligado a redes sociais, e um modulo de segundo ano de trabalho em saude que envolve os seis cursos do campus. Sabemos que, a seu modo, este projeto e quase imperceptivel, um fio tenue e potente em sua pequena circunscricao, que sinaliza efeitos e problematiza formas e formatacoes, impacta a superexcitacao academica, a aceleracao, e as coisas em sua suposta naturalidade.

Essas foram algumas notas, um percurso rapido por algumas experimentacoes que esses encontros puderam propor. Retomando a formulacao inicial deste escrito, a figura do golem convem a este projeto na medida de sua instabilidade na instauracao de verdades. Finalizaremos esse breve percurso de alguns itinerarios de literatura e clinica com um fragmento do livro "Revolucao eletronica" de William Burroughs, cujas ressonancias com o projeto Literatura e Clinica sao as que tentam deixar em desuso verdades definitivas e cansativas dicotomias, usos imperativos de artigos definidos (o, a) e relacoes de exclusao (ou isso ... ou aquilo). Diz o trecho:
   O E da Identidade. Tu es animal. Tu es um corpo. Ora sejas tu o que
   fores nao es um 'animal', nao es um 'corpo', porque isso sao
   rotulos verbais. O E da identidade compreende sempre a implicacao
   disso e de mais nada e compreende tambem [...] uma condicao
   permanente. Permanecer assim. Toda a apelacao pressupoe o E da
   identidade. Este conceito e desnecessario numa lingua hieroglifica,
   como o antigo egipcio, e e de fato frequentemente omitido. Nao e
   preciso dizer que o sol E do ceu. Sol no ceu basta. Podemos

   facilmente omitir o verbo qualquer que seja a lingua, o que fizeram
   os discipulos do conde Korzybski eliminando o verbo ser em ingles
   [...]. Os artigos definidos O A OS AS (the). "O" compreende a
   implicacao de um so e unico: O Deus, O universo, O caminho, O
   certo, O errado. Se existe um outro, entao


ESSE universo, ESSE caminho nao sao mais O universo, O caminho. O artigo definido sera eliminado e substituido pelo artigo indefinido UM UMA. Todo conceito de OU/OU. Certo ou errado, fisico ou mental, verdadeiro ou falso, todo o conceito de OU sera [...] substituido pela justaposicao, por E. (Burroughs, s/d, p. 87-9)

Colaboradores

Todos os autores participaram, igualmente, de todas as etapas de elaboracao do artigo.

Referencias

BURROUGHS, W. A revolucao eletronica. Trad. Maria Leonor Telles e Jose Augusto Mourao. Lisboa: Vega, s/d.

DELEUZE, G. N. de Neurologia. In: DELEUZE, G. L'Abecedaire de Gilles Deleuze. Entrevista concedida a Claire PARNET, realizada em 1988 e transmitida em serie televisiva a partir de novembro de 1995, pela TV-ARTE, Paris. 2008. Disponivel em http://www. oestrangeiro.net/esquizoanalise/67-o-abecedario-de-gilles-deleuze. Acesso em: 19 out. 2011.

KAFKA, F. Chacais e arabes. In: KAFKA, F. Um medico rural. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1999a. p.30-5.

--. Diante da lei. In: KAFKA, F. Um medico rural. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1999b. p.27-9.

SCHOLEN, G. O. Golem, Benjamin, Buber e outros justos: judaica I. Sao Paulo: Perspectiva, 1994.

Alexandre de Oliveira Henz (1)

Danilo Alves da Cruz (2)

Ana Beatriz Franceschini (3)

Aurelio Keiji Miyaura (4)

Fernanda Braz Tobias de Aguiar (5)

Gabryell Tavares de Barbosa (6)

Mauricio Hideo Inamine (7)

Natasha Porto Scavone Joukhadar (8)

Rafaela Camargo Baldo (9)

Rui Teixeira Lima Junior (10)

(1) Departamento Saude, Clinica e Instituicoes, Curso de Psicologia, Universidade Federal de Sao Paulo (Unifesp). Rua Iperoig, 864 -34. Sao Paulo, SP, Brasil. 05.016-000. alexamdrehenz@uol.com.br

(2) Discente bolsista do projeto de extensao Literatura e Clinica. Curso de Psicologia, Unifesp.

(3,4,6-10) Discentes, curso de Psicologia. Unifesp.

(5) Aprimoranda em Saude Coletiva, Escola de Educacao Permanente, Hospital das Clinicas, Faculdade de Medicina, Universidade de Sao Paulo.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Henz, Alexandre de Oliveira; da Cruz, Danilo Alves; Franceschini, Ana Beatriz; Miyaura, Aurelio Keij
Publication:Interface: Comunicacao Saude Educacao
Date:Jan 1, 2012
Words:2139
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