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A TEORIA E A HISTORIA DA LITERATURA, E O MANEIRISMO/LITERARY THEORY AND HISTORY, AND "MANNERISM".

Produzida junto a redacao de sua Teoria da Literatura, a tese doutoral de Aguiar e Silva (1) trazia uma provocacao as velhas historias literarias positivista e estetica:
Este esquema periodologico que, com algumas variantes, tem conhecido
largas aceitacao e difusao, envolve graves problemas e dificuldades. O
mais espinhoso desses problemas e sem duvida o seguinte: como
conceituar este classicismo que se estende do seculo XVI ate aos
alvores do seculo XIX? Que especie de literatura classica e esta que se
subdivide numa escola seiscentista, gongorica ou culterana?. Nunca
Mendes dos Remedios e Fidelino de Figueiredo se preocuparam com
perguntas como estas ou outras semelhantes, mas e obvio que os modernos
estudos sobre o barroco, tao numerosos e tao importantes sobretudo
desde os finais da decada de quarenta, haviam de provocar o exame
critico deste esquema periodologico e determinar mesmo a sua
dissolucao, tal como aconteceu com outras literaturas europeias. (1971,
p. 193. Italicos do autor.)


Noutras palavras, assume que seu Maneirismo e barroco na literatura portuguesa nao apenas era de uma metodologia moderna, como lograria decisivas consequencias da cooperacao com o movimento mais amplo de renovacao dos estudos literarios. A consistencia de sua investida esta evidenciada na incursao da categoria em outros manuais disciplinares de igual importancia, a exemplo do da Historia da Literatura Portuguesa de A. J. Saraiva, e o sem conta de estudos que posteriormente apendem "Maneirismo" ao titulo.

O que decidiu da produtividade do trabalho nao foi apenas a vitoria da fundamentacao teorica sobre obstaculos encontrados, senao tambem a reflexao das inquietacoes de uma geracao cujo conceito do literario ja se livrava das peias nacionalistas e morais, isto e, das coordenadas do ensino literario da primeira metade do seculo. "Maneirismo", assim, nao somente designava o objeto de pesquisa do jovem professor, mas portava consigo todo um quadro institucional. Sem sofrer grandes variacoes a partir dos recortes nacionais, os usos dessa categoria periodologica parecem mesmo ocupar, arriscariamos dizer, um espaco continental de renegociacao de tradicoes investigativas e transmissao cultural semelhante ao que na academia anglofona foi preenchido em parte pela explosao da "theory", em parte pela variedade de "studies" que se multiplicaram dos anos 1980 a 2000. Maneirismo renegocia, mantendo, uma tradicao. Para mencionar alguns manuais em que se conserva a mesma matriz teorica, vejam-se os conhecidos titulos de A. J. Saraiva, Massaud Moises, ou tambem o bem mais recente (e distante) Manuale di letteratura italiana medievale e moderna, de Santagata e Casadei, o qual inclui tambem uma discussao sobre o Maneirismo; e, em suas linhas teoricas, como diziamos, a Historia concisa de Alfredo Bosi, Antonio Candido (e sua triade), J. G. Merquior--em que o Barroco como crise do Renascimento e raiz espiritual do Brasil (2). Como dissemos, a escolha por tomar o argumento de Aguiar e Silva como fio condutor deve-se sobretudo a sua exemplaridade, a maturidade lograda com anos de ensino e orientacao, a partilha de preocupacoes com seu contexto institucional e ao papel preceptor que tem, e sua geracao, junto as reformas que configuram os atuais programas curriculares de Letras.

Apesar da relativa estabilidade do catalogo descritivo de manuais academicos de ampla circulacao, haveria "literaturas europeias" ou em qualquer sentido comensuravel com o conceito propriamente teorico corrente? Parafraseando aquela questao: "que especie de literatura e a que vai da decada de 1980 do seculo XX ate o XVI, e entao Homero, etc.?" Nao e novidade que o conceito teorico de literatura tende a destacar a coisa literaria daquelas instituicoes que lhe fatoram, reduzi-la a semiose textual e suspender sua temporalidade. Tanto faz se, com isso, se advoga o papel ativo do leitor na construcao do sentido ou a imanencia do texto em sua forma "organica"; o que determina o sucesso disciplinar da Teoria e seus desdobramentos e a compreensibilidade que imprime sobre as coisas. Seus conceitos e categorias perfazem a colonizacao hermeneutica das Letras, a esse proposito remodelando a ideia de Historia literaria. Na primeira parte do trabalho, dedicar-nos-emos as consideracoes de Aguiar e Silva sobre como se deve fazer essa historia, sobretudo por sua exemplaridade e autoridade argumentativa. Questionamos como a fundamentacao teorico-literaria limita a abordagem historica quando exacerbado o criterio compreensivo que esta em sua base. Na segunda parte, procuraremos uma alternativa junto a bibliografia sobre o periodo a que sua contribuicao doutoral se refere. Para isso, importa entender a divergencia entre o modelo de Historia que constroi e hoje integra a ciencia comum dos estudos literarios e outra abordagem, nao necessariamente hermeneutica, mas passivel de construcao sistematica.

Uma historia da literatura baseada na textualidade "literaria"

A teoria da historia da literatura de Aguiar e Silva--doravante "AS"--mobiliza uma resposta aquela pergunta, que literatura e essa. O compromisso etico na intencao de cientificidade do projeto faz com que essa teoria da historia responda a circunstancias do magisterio. De um lado, o conceito teorico de literatura da legitimidade "cientifica" ao campo de estudo e abre um horizonte disciplinar comum para negociar valores. A Teoria e preocupacao tipica de uma geracao que se educa entre uma ultima onda do pessimismo cultural associado a sociedade de massas e a euforia do acesso ao ensino universitario no contexto do pos-guerra--isso fica muito claro na recolha de ensaios As Humanidades, os Estudos Culturais. Ensino da Literatura e a Politica da Lingua Portuguesa (2010). Do outro lado, o estudo da historia literaria justifica a existencia da area, que depende do ensino e, portanto, dos interesses politicos e, onde houver fracassado o projeto da escola publica nacional, do mercado. Mediando a metarreflexao disciplinar e o quadro socioinstitucional e economico, o ensino da historia literaria e o lugar privilegiado de escoamento teorico (3).

Ao mesmo tempo, essa historia justifica a concepcao de literatura como manifestacao cultural de valor formativo (2010, passim), num processo assegurado pela Teoria. A periodizacao serviria, diz tambem, para a "elaboracao de modelos de inteligibilidade do processo literario" (2011, p. 404). Em momento algum AS se poe de assombro e adota uma formula como "literatura e linguagem" a aplicar sem mais a textos do passado. Ao contrario. Junto a semiotica de Iuri Lotman e de Itamar Even-Zohar (2011, p. 107, 393), procura dar atencao a cultura num quadro nao redutor, considerando uma matriz "polissistemica" em que fatores semantico-pragmaticos organizam sucessivas dimensoes textuais, por fim entendendo a entidade texto literario como policodigo. E de se notar que uma historia da literatura esta ja implicada na construcao da ideia de "texto" que se possa predicar "literario". Frise-se historia da literatura, no sentido de que AS assume sem reservas a memoria da instituicao "literatura", num compromisso hermeneutico valido tanto para o objeto como para o sujeito. No polo do objeto, e literario o que se realiza conforme as convencoes estabelecidas por uma certa "tradicao"; no polo do sujeito, a condicao para a devida apreciacao dessas convencoes depende do reconhecimento de sua validade. Seria preciso, no entanto, que o pacto hermeneutico fosse entendido como apenas um momento da investigacao literaria, talvez nem mesmo o mais importante. AS, num argumento brilhante, distingue a "literatura" da "paraliteratura" (2011, p. 113) nao pela remissao aos codigos por meios dos quais os textos se constituem, posto que o paraliterario mimetiza o policodigo literario e sua articulacao com o diassistema linguistico no polissistema da cultura--isto e, e a imitacao (as vezes "pobre") das tecnicas com que a literatura intervem no espaco da lingua e da cultura--, mas remetendo ao milieu semantico-pragmatico da arte. Apesar de parcial, e boa solucao: paraliterario e tudo o que nao faz o pacto da tradicao e, portanto, o que a academia nao reconhecera como legitimo nesse interim. Observemos ainda que a construcao de uma narrativa fundada na categoria teoricamente reelaborada do "texto literario" leva a uma circularidade epistemica, uma vez que essa categoria e ela mesma abstraida do conjunto de objetos que nos antes de tudo predicamos literarios. O problema nao e apenas a historia ser construida a partir de uma tese, pois a critica e ineludivel. O problema e o excesso de coerencia interna: e como se um dos eventos da historia se tornasse, elevado em forma, a unica chave interpretativa possivel, a qual todas as demais entidades--supondo que de entidades se trate--tivessem de se conformar. Isso da origem a prosopopeia das variacoes dessa entidade--"avatares", nos dizeres de Damaso Alonso (AGUIAR E SILVA, 2011, p. 474). Maneirismo e o desengano do Classicismo, o qual se opunha a mentalidade artesanal medieval, e mais, depois surge o esplendor do Barroco...

Nao temos ai uma historia "formalista", que acentuasse o carater transcendental da literariedade e postulasse uma dinamicidade propria como puro fator diacronico, ou seja, fazendo dai derivar logicamente toda a variacao dos fenomenos literarios, mas ficamos com uma afim imputacao aos fenomenos de uma logica intrinseca. Estilo, de um lado, e mundividencia, do outro. Essa imputacao se da como descricao de estados e explicacao de causas a um so tempo, ou seja, a mundividencia deve conformar o estilo--e isso e assegurado pelo que o teorico chama de " transcendentalia mitigados" (2010, p. 198) ou "universais epistemicos". Veja-se o que diz:
O modelo do sistema semiotico literario e do policodigo literario que
descrevemos no capitulo anterior representa mecanismos semioticos de
natureza pancronica (...) [que] sao transcendentes em relacao as
mutacoes historicas e as variacoes geograficas e sociais do fenomeno
literario. Quer na literatura renascentista, quer na literatura
simbolista, [etc.] (...) os diversos codigos constitutivos do
policodigo literario devem ser considerados como universais essenciais
da literatura, pois representam elementos racionalmente necessarios do
conceito de literatura. (2011, p. 255)


Dados esses "universais" necessarios ao conceito, isto e, "universais" supostos pela elaboracao teorica, os quais sao "nao determinado[s] e nao atualizado[s] empiricamente" como diz, resta que a historia ficaria a atualizacao, ou, melhor dizendo, os particularismos contingentes ao hardcore teorico. A formulacao iria bem se "literatura" fosse uma definicao a preencher por comutacao. A historia literaria seria uma sucessao descontinua, em que os universais do nosso conceito--nos de AS, a escala de "certo vocabulario, certos codigos e uma certa metalinguagem" (2011, p. 413)--permanecem emoldurando as figuras. Na decada tal, entre o grupo (geografico e) social tal, o texto literario usou tais palavras-chave, de tal modo, a vista de tal expectativa. Ela nao se interessaria pelo processo interno da cultura, e tampouco explicaria a historia da constituicao do proprio "sistema" literario--a historia literaria nao pensa a si propria. E nao ha problema nesse modelo de sincronizacao, ja que, como construto sem a pretensao de ir ao "ser" da coisa, sem a pretensao de correspondencia "mimetica" (ou isomorfica, ou objetiva, ou ontologica), ele pode realizar funcoes propedeuticas uteis e necessarias, a exemplo do ensino de literatura na escola. Periodologia e estilo de epoca, lembremos, sao esquemas cujo proposito e antes de tudo didatico. Resta e determinar do que e que se trata quando se trata de literatura na escola ou quando se pesquisa com essas ferramentas.

"Num dado momento historico e numa dada comunidade literaria", diz, "nao se pode escrever nem se pode ler um texto literario de qualquer modo" (2011, p. 413). E preciso estar atento ao predicado literario ai, que nao e fruto de uma intencao determinativa especifica. Basta perguntar: textos nao literarios serao lidos "de qualquer modo"? E evidente que qualquer instituicao se responsabiliza, eficiente e finalmente, pelos processos que lhe constituem. O que o eco "comunidade... texto literario" atesta, no entanto, e a regressao infinita entre as categorias da Teoria e aquelas da historia literaria. Talvez interesse o non confundar que o autor exprime em relacao a Michel Foucault. O modelo "arqueologico" d'As Palavras e as Coisas seria "radicalmente incompativel com o principio do poliglotismo semiotico e com a fenomenologia, historicamente observavel, da dinamica dos sistemas semioticos" (2011, p. 419). E a tomada de partidos que produz as discrepancias especificas entre uma periodologia homogeneizada pelo conceito, como seria a de Foucault, e outra assumidamente fluida e feita de sobreposicoes como a que pretende avancar AS, muito embora os elementos discretos de que se compoe sejam mais ontologizados. O autor assume uma fenomenologia das obras, remetendo as materializacoes da linguagem a entidades ideais mais ou menos em disputa ("mundivisoes") num determinado espaco civilizacional, ao passo que Foucault tenta esbocar certos transcendentalia historicamente configurados que permitiriam, em primeiro lugar, as disputas e, com isso, determinariam tambem a norma no interior de instituicoes. O construto foucaultiano epistema atina a uma forma de relacao discursiva, uma ratio a servico da legitimacao institucional caracteristica de uma epoca. A divergencia de "epistemas", como aquela que o proprio AS pareceria exibir em relacao a Foucault, impossibilitaria o entendimento reciproco sobre o qual e assente a comunicacao. A introducao subita de Foucault e sintomatica da oscilacao entre a Teoria como construcao e a Historia como referente empirico. Seria improdutivo, nesse passo, avancar que os universais essenciais sao eles mesmos historicos, de acordo com a matriz epistemologica e institucional do contemporaneo conceito de literatura (e de AS), pois de nossa parte nao passaria de ninharia logico-semantica. A rica dificuldade do programa historico-teorico e explicar como o preenchimento empirico do conceito se da a partir de uma dinamica intrinseca as obras e, por conseguinte, ao "sistema" de que as obras literarias "necessariamente" participam. Noutra palavra, explicar como o particular e contingente e mediado em sua genese pelo universal que a Teoria apreende, aceite com fins heuristicos. Sem essa ancoragem na realidade empirica, no que AS chama de realismo minimo, a questao e toda um desproposito, pois qualquer conceito de literatura seria inocuo se nao pudesse sustentar sua historicidade efetiva (2011, p. 222). Mas o conceito transcendentalizado do texto literario, de que modo "minimamente realista" sera preenchido?

AS tem tambem um modelo para a dinamica historica. Fala numa "entropia" como perda progressiva da capacidade das "formas e significados (...) de modelizar os realia e de produzir informacao, tornando-se por isso inevitavel a sua substituicao" (2011, p. 426), uma senescencia natural das formas a ser superada num "conflito intergeracional" sociologicamente determinado. Ora, aqui se da um salto da ideia de periodo como construcao hipotetica--e do conceito necessario de literatura como modelizacao--para uma ontologia da historia e da sociedade, em que agentes reais como autores e leitores devem ser apreciados. Esse plano contingente deve ser acolhido pelo que e postulado como essencial, e por isso cada estilo se deve entender como expressao de uma mundividencia particular (2011, p. 476 ss.), disponivel ao investigador por meio da interpretacao reconstrutiva e, entao, destinada a explicacao teorica. O enquadramento hermeneutico mais amplo permanece algo romantico: o que vemos sao formas e temas cujo desgaste experiencial e sempre disputado no ambito privado pelos autores, que ficam assim incumbidos de renovar a tradicao. E uma projecao metalogica da historia da tecnica do estrato industrial do capitalismo, em que a inovacao determina a obsoletizacao do maquinario e a perda do monopolio em virtude dos lucros auferidos. O papel que a inovacao tem contra o status quo parece incompativel com a doutrina da entropia (4). Um movimento desbanca o outro, cada geracao questiona a precedente, todas sao, por necessidade logica, "absolutamente modernas"--desconte-se o epigonismo--porque as mundividencias progridem ou porque uma delas ha de ser mais verdadeira ao curso das coisas. Desgaste e substituicao ditam a dinamica das formas textuais que envelopam mundividencias. De uma perspectiva nao-hermeneutica, porem, a historia do conceito de literatura, comensuravel com a da propria instituicao, apontaria outra hipotese: a saturacao do conceito por meio de usos discrepantes e convencionalizacoes, num "percurso" que vai de normas em si mesmas contingentes a neutralidade regulativa da Teoria. Esse e o problema originario a que se dedica a disciplina e que a situa na universidade, e a razao tambem da persistencia regulativa de axiomas da estetica romantica--o criterio da nacao, a vocacao social, o conceito de autoria, etc.--em seu discurso.

AS sustenta sua obra num lugar dificil entre uma intencao referencial forte e uma compreensao construtivista, tambem um pouco entre Karl Popper e Wittgenstein, tambem um pouco entre a Poetica e a Hermeneutica--ou Historicismo e Formalismo, como certa vez disse Eduardo Prado Coelho sobre a estilistica de Alonso (COELHO, 1982, p. 410). E dificil localizar o quid, quer na propria coisa literaria, quer no entendimento que dela e feito. Aquelas entidades espirituais em disputa, resultarao de um recorte investigativo ou serao propriedade objetiva emergente da pratica de escrita? Na "Revisao" que AS propoe do seu Maneirismo:
Os periodos nao sao pois invencoes nominalistas nem universalia ante
rem, porque sao construidos poetologica e historiograficamente com uma
base empirica constituida pelos autores e pelas suas obras, prestando
especial atencao a sua poetica explicita e a sua poetica implicita, as
metalinguagens que circulam no espaco estetico, aos discursos criticos
e hermeneuticos que acompanham a producao dos objectos artisticos e
analisando as respostas e reaccoes dos publicos destinatarios. A funcao
e a logica heuristica dos periodos sao semelhantes as do circulo
hermeneutico: o periodo como totalidade deve iluminar a interpretacao
de cada texto e a interpretacao de cada texto deve


E nesse ponto que precisamos entender que a periodologia de AS permanece como um compromisso entre a disciplina teorica que o autor avanca e o lugar social reservado a literatura, o ensino. Aparece, assim, demasiado vinculada a memoria institucional pre-teorica para levar a cabo as transformacoes que a Teoria promete--sua obra esta desde o inicio comprometida e empenhada em restaurar uma nocao de literatura eticamente vocacionada (2010). Podemos resumir alguns problemas que herda: a exacerbacao da figura autoral como criterio de validade do saber sobre a epoca (1999, passim); o parcial desprezo da pragmatica historica, pois nao diferencia entre o trabalho teorico-descritivo e a normatividade inerente ao sistema de comunicacao; o preconceito da unidade necessaria do "sistema das artes" e da "literatura nacional" (como "racionalidade da cultura"), que so mediante complexos mecanismos dialogaria com outros ambitos da cultura nacional e do estrangeiro; uma ancoragem factualista, embora nao propriamente causal (2011, p. 469); inversoes fenomenologicas, como na ideia de que "racional e irracional" se amalgamam para produzir estilemas (tropos e figuras) (2011, p. 498), quando aqueles seriam efeitos da linguagem aplicada. Mais de uma vez AS enfatiza a premencia de fatores semantico-pragmaticos (2011, p. 415)--portanto, o espaco institucional que se projeta e se deixa entender nos textos literarios--, mas o esquema basico que oferece para a abordagem dos periodos em sua obra Teoria da Literatura depende ainda de uma fenomenologia de textos e da "visao de mundo" (2011, p. 416), ainda remetendo ao programa de Afranio Coutinho como suficiente para essa questao disciplinar (2011, p. 433).

As dificuldades surgem sobretudo da matriz hermeneutica. Pensemos naquela figura do circulo. Ele nao a emprega apenas para considerar a funcao propedeutica de periodo. O todo do periodo daria ao leitor coordenadas para a compreensao da obra particular, e a obra particular, por sua vez, permitiria compreender melhor o todo. Isso tambem serviria a sofisticacao progressiva da explicacao periodologica, isto e: a investigacao avanca conforme a globalidade do saber for corrigida pela imersao no particular num processo de refutacao e corroboracao, e a imersao no particular e a cada vez novamente propiciada pelo avanco global. AS estabelece uma analogia incompleta entre genero e periodo para explicar a cientificidade, em modo popperiano, do programa investigativo. Eles seriam
construcoes teoreticas elaboradas hipotetico-dedutivamente a partir de
um conjunto de dados observacionais, isto e, de fenomenos literarios,
artisticos e culturais, e que podem, como qualquer construcao
teoretica, ser corroboradas ou informadas por via intrateorica
(coerencia interna), por via  interteorica (adequacao, ou contradicao,
com outras teorias nao  infirmadas) e atraves de provas de
testabilidade empirica (existencia,  ou inexistencia, de capacidade
descritiva e explicativa em relacao aos  fenomenos sob analise) (2011,
p. 415)


Mas nao seriam os generos historicos dotados de uma consabida normatividade? E com ela incompativel o principio descritivo implicado na ideia de ciencia da literatura, e, por conseguinte, tambem o sao as suas ferramentas investigativas (periodo, "codigo" semiotico, etc.). Ainda hoje, poetica tem conotacao normativa, ja teoria, nenhuma. Alem disso, essa definicao ampla nao diferencia a autorreferencia antitetica regulativa, como as "querelas", os arrivismos de vanguarda e, mais recentemente, os entusiastas do pos-etc., e descricoes ex post facto com algum proposito especifico, com premissas necessariamente nao isomorficas a autorreferencia da epoca. Isso lhe leva a nao especificar a pragmatica historica da escrita (CHARTIER et al., 1996; cf. tambem PECORA, 2001), cujo uso nao se pode reduzir ao testemunho da epoca, embora este seja sem duvida preliminar para seu conhecimento. Isso esta muito claro em uma formulacao como a da necessidade de se atender "as metalinguagens que circulam no espaco estetico" (2012, p. 22), ja que nao apenas a definicao e o conceito respectivos sao em si destemporalizados, como tambem a escolha por essas categorias coloca a reconstrucao do passado numa dependencia conceitual estrita relativamente ao presente. Existira "metalinguagem" no seculo XVI que seja comensuravel ao nosso aparato teorico ou ainda "espaco estetico" no entorno de qualquer texto anterior a constituicao do moderno conceito de literatura? "Maneirismo" prometia articular essa ponte entre um conceito-chave da epoca e a nossa compreensao. Por fim, a dinamica da infirmacao-confirmacao funciona para teorias cientificas porque leis precisam ser estabelecidas de modo a gerar previsoes e assegurar o interesse do experimento, mas, no conhecimento humanistico, o que podem ser "resultados esperados", quando adotamos o modelo investigativo das ciencias duras, senao a supressao dos fatores que nao se adequam ao pressuposto teorico? A historia literaria, para fazer jus ao seu proposito cognitivo mais fundamental, nao pode se servir de meios compreensivos, visando a solucao de objetos historicos numa hermeneutica "fusao de horizontes". Por essa razao, a infirmacao intra ou interteorica nao e seu instrumento investigativo primario.

A fusao entre hermeneutica e ciencia, entre historia e teoria, tem duas consequencias epistemologicas: 1) a dinamica da relacao entre todo e particular corrobora de modo logicamente necessario aquele "essencial" sem o qual o particular nao se deixa ver, e, com isso, faz surgir elementos estranhos, residuais, nao incorporaveis ao todo; 2) quando a imagem do todo e derivada das categorias que foram assumidas como constitutivas da coisa particular, entao o proprio todo se limita a reproduzir suas imagens residuais. O predicado repete extensionalmente o sujeito, projeta uma serie de variacoes do mesmo. Na pratica, a segunda consequencia se ve naquela metafisica das "constantes" historicas (racional vs irracional, maneirismo vs classicismo, etc.), como na obra de Heinrich Wolfflin, nos "eons" de Eugeni d'Ors, em Gustav Hocke, um pouco em Eurich Auerbach, a contragosto em E. R. Curtius, de modo mais asseptico nos binomios e oposicoes fundamentais dos varios estruturalismos, mas tambem medra nos topicos post hoc ergo propter hoc "o autor antecipa", "primeiro moderno", como em Erwin Panofsky, Arnold Hauser, A. J. Saraiva e todos os que de algum modo fazem recurso a historia numa hermeneutica do presente. O anacronismo e a peticao de principio em si nao sao problemas, mas o sao as restricoes intelectuais que tais modelos investigativos condicionam no processo de transmissao de saber.

Em grande medida, e sobretudo no caso das manifestacoes literarias anteriores ao conceito romantico ou burgues de literatura, o amalgama teorico-historico deriva da equivocidade que ainda soa na palavra "estilo", que em artes plasticas e na retorica designam objetos ontologicamente diversos e os quais apenas com o trabalho de uma fantasia historica--derivada da (re-)adaptacao da retorica a tratadistica da pintura ou por via horaciana--e uma abstrata semiotica da cultura se correlacionam. Ao dizer que uma caracteristica literaria e "equivalente" a uma pictorica (2011, p. 475), por exemplo, falta dizer em que base poderiam se-lo senao em alguma dimensao como "sentimento vital" (2011, p. 468), por sua vez nao passivel de observacao ou verificacao. Por outro lado, devemos reconhecer que, nessa insistencia pela unidade espiritual do sistema da cultura, ha uma tentativa, em grande medida um gesto herdado e comum as disciplinas de Literatura, de reconciliar as esferas cindidas do espaco publico e privado, bem como, nesse processo, de acolher as transformacoes por que a Universidade democratizada passava. Noutras palavras, as simplificacoes explicativas procuram uma legitimidade hermeneutica porque, alem de tudo, desempenharam uma funcao na historia recente dos estudos literarios. Entretanto, outra vez, o problema esta nos resultados ultimos. Com alguma frequencia, AS busca desmerecer os "nominalistas" por desacreditarem a "racionalidade" da cultura, mas, apesar da legitimidade do argumento no quadro a que nos referimos, nao sera essa suposicao de racionalidade tambem responsavel por erros de que a disciplina teorica queria livrar o estudo e a critica da literatura? Dela derivam a metafisica "hegeliana" de essencias que se concretizam e a teleologia marxista, contra as quais repetidamente fala o autor (2011, p. 405). O ideal de unidade espiritual da cultura e sua relativa autonomia faz com que a segmentacao periodologica permaneca aquem dos sucessos da Teoria.

Porem, ha ainda outras duas implicacoes. A primeira e a problematica algo "zenoniana" da periodologia. Resulta do paradoxo teorico a contraposicao ja algo consagrada nas historias literarias, e fundamental a tese de AS, entre o que se designa por "Maneirismo" e o que seria o "Classicismo renascentista". Defendida nos anos 1950 por Jorge de Sena (1980) com proparoxitona grandiloquencia (e um germanissimo entusiasmo (5)), essa categoria recolhe os elementos residuais estranhos que nao cabiam no conceito muito reduzido de "Classicismo" que J. Burckhardt e depois H. Wolfflin elaboraram, e que AS resume a obra de Pietro Bembo (1470-1547) sentenciosamente (2011, p. 466). Surge, assim, por defeito. Quando se inquirem as generalizacoes associadas ao Renascimento, dificultam a dissolucao desse conceito tanto sua utilidade discursiva--pois designa a transicao dos mundos da vida feudal-catolico e burgues-secular--, por um lado, quanto, por outro, o relativo consenso que ele gera, oferecendo um ponto mais ou menos a partir do qual divergencias podem ser sustentadas e confrontadas. No entanto, quando Renascimento ganha significacao mais especifica, na forma de uma poetica inferida por via do esquema teorico, a categoria se mostra insuficiente e, por isso, para que de algum modo a disciplina literaria possa continuar seu dialogo com os estudos da historia e da cultura em geral, passa a solicitar corretivos menores. E assim que de dicotomias estilisticas redutoras do seculo XIX a abordagem teorica passa a uma complexa engrenagem de codigos, resultando dai que a historia literaria seja uma narrativa da entidade "texto literario", cujo preenchimento empirico determina a fenomenologia da "epoca", e de uma correspondente "mundividencia" sempre mais ou menos sujeita a renegociacao no tempo historico. Novamente, a base para isso e o colapso do uso reflexivo da categoria--que permitiria, com a construcao hipotetica de um "ismo", mensurar um quadro historico da cultura--e o seu uso determinante, isto e, quando uma hipotese explicativa vira regra de compreensao. Outro exemplo, para demonstra-lo, encontramos numa tese doutoral como a de Rita Marnoto sobre o petrarquismo de Quinhentos. Embora obra de inquestionavel merito, quando em certo passo da obra a autora se refere a outro periodo de transicao entre Maneirismo e Barroco (2007, p. 43, 2015, passim), fica claro que a premissa teorico-historica e assegurada a partir de emendas menores ao esquema, que nao o modificam no todo. O efeito zenoniano e tao comum que ainda podemos exemplificar com um "tardo-quinhentismo" a que se referiu Barbara Spaggiari, lexema que se compoe de cronologia e hermeneutica historica sem maior carater explicativo que dizer "no final de Quinhentos". Esse uso ressoa e ratifica, mantem coerencia relativamente a sua construcao (que remete a W. Bouwsma) do Outono do Renascimento (2011)--Outono, tardo--, crise.

Seja como for, esse modelo de historia literaria, que acata de pronto os qualia da textualidade como fio condutor de explicacoes--com a intencao de se preservarem os valores institucionais das Letras, sob a indeterminada rubrica do "estetico"--, esse fenomenologismo e pratica normal na investigacao da literatura, nao se restringe apenas ao estudo do objeto cronologicamente afastado como constitui quase toda a critica contemporanea. A narrativa hermeneutica transforma a historia literaria numa memoria que precisa ser a cada vez renegociada. A segunda implicacao e, assim, mais danosa: na medida em que todas as categorias empregadas para a abordagem do fenomeno sao de tipo "compreensivo", isto e, como os fenomenos sao "explicados" em conformidade com os "essenciais necessarios" ao conceito que se faz da coisa, aqueles elementos que permitiriam pensar a historia como algo de outro ou aparecem deformados pelas expectativas compreensivas atuais ou nao aparecem. Sua matriz teorica nao esta tao distante da critica do canone e das reivindicacoes de representacao alavancadas com os cultural studies--basta ressuscitar aquela "ninharia", a de que o universal a partir do qual se perspectiva o objeto e, ele mesmo, um particular determinado historica e institucionalmente. Exemplos de articulacao a gosto corrente como literaturamais-alguma-teoria ou ainda a-figura-social-na-obra-tal tem, afinal, respaldo disciplinar, apesar do infimo alcance de seus resultados (decerto chamariam a literatura aqueles que estao envolvidos com uma ou outra pauta, mas o que diriam da literatura senao o que ja se espera encontrar?). A restricao do estudo do artefato a injecao de temas contemporaneos e colateral a sensacao de que a investigacao acabou com os estudos exemplares da area e que nao ha mais que fazer, dados os rigores epistemicos, senao tirar quantos autores ao esquecimento. E seria ainda necessario faze-lo incluindo os autores no catalogo de que dispomos.

Algumas observacoes para uma longue duree literaria, suas instituicoes e praticas

Voltando a pergunta que o jovem doutor lancava aos antigos. Existe uma incomensurabilidade entre a ontologia do objeto literario, orientada pela possibilidade de sua caracterizacao sistematica e sob um interesse cognitivo atual, e a materialidade das instituicoes e processos historicos implicada no arcaico esquema periodo-escolas, que visa capturar quadros comunicacionais que medeiam os artefatos literarios do passado, esses sendo demasiado amplos e complexos para se deixar reconduzir ao esquema. Ou seja, o empenho teorico apenas com dificuldades se imiscuiria, de um modo ou de outro, ao historico. Essa seria outra forma de pensar a divida das obras de Fidelino de Figueiredo e Mendes dos Remedios para com a disciplina da Historia. Em vez de lhes censurar a pouca elaboracao de seu conceito de literatura e o enorme peso que criterios nao-literarios sobre eles exerceria--nao havendo mesmo um que sistematizasse o campo de forcas de suas abordagens--, poderiamos confrontar aquele "espinhoso" Classicismo que alcanca o seculo XIX com discussoes atuais sobre o esquema periodologico. O quadro pre-teorico e um ecletismo desconcertado, em que fatores explicativos da historia do seculo XIX e categorias destemporalizadas tipicas da reformulacao das instituicoes de saber levada a cabo pelas burguesias nacionais (e.g., "estetica") se fundem (6). Hoje temos melhores condicoes para a reconstrucao aproximada do espaco etico-retorico desse "branco" temporal pre-burgues, cujo desconhecimento obrigou a historia literaria a prosopopeia hermeneutica. E preciso, porem, abrir mao da especificidade literaria dessa historia, entende-la algo afim a "historia social", reconstruir seus agentes institucionais e seus usos protocolares, se queremos repensar o que foi e o que veio a ser a escrita literaria, os autores e obras "canonicos", as praticas de leitura e producao de textos artisticos.

Podemos partir da observacao cautelar de que o relativo apagamento da preceptiva na memoria da critica--i.e., das instituicoes e praticas comunicacionais que produzem textos--leva ao excesso teorico que de algum modo o compensaria, determinando o impeto homogeneizador sobre o passado e, no plano de sua logica interna, a producao autocorroborante das categorias periodologicas da Historia Literaria. Nao devemos limitar a compreensao da cultura escrita aquilo que se toma por "literario", apenas sob ressalva admitindo mencoes--lugar comum dos primeiros manuais brasileiros--aos textos "informativos". Talvez nao tenhamos ja um programa disciplinar de "Historia literaria" cujo objeto seja "o texto literario" enquanto algo em devir historico, com seus universais e categorias necessarias, mas um corpo de saberes e metodos que elucida praticas de comunicacao que, em virtude do moderno conceito de literatura, assumimos como relevantes para os interesses do presente. Se nao e possivel fazer historia de formas e temas num continuum de transformacoes, e razoavel pensar as convencoes que regulam usos da comunicacao. Ainda que aplicassemos aqueles universais teorico-literarios, porem, "certo vocabulario, certos codigos e uma certa metalinguagem" (2011, p. 413), nao seria possivel diferenciar "estilos" no interior de alguns contextos senao em virtude da exacerbacao de fatos idiomaticos, a exemplo da imitacao de usos autorais normativa no seculo XVI, e da contingencia "nao-literaria" dos temas sobre os quais uma obra versa. Diferenciar tendencias como epocas sui generis, porem, e hipertrofiar oposicoes estruturantes, criando ou ratificando limitacoes de leitura, a exemplo do anacronismo reconhecidamente depauperante do recorte "nacional" e vernacular para as praticas de escrita anteriores ao nacionalismo burgues. O estudo das convencoes poderia evitar os impasses hermeneuticos. Seria produtivo determo-nos com mais demora, por exemplo, sobre os nexos que a literatura portuguesa do periodo mantem nao apenas com o quadro iberico como sobretudo ao filao novilatino das Letras, que se manteve ate o despontar do seculo XVIII. Ha trabalhos recentes sobre essa producao literaria mais ou menos transcontinental, como o de V. Wels, Der Begriff der Dichtung in der Fruhen Neuzeit (2009), centrado sobre a preceptiva poetica dos humanistas norte-europeus, e o de M. Korenjak, Geschichte der Neulateinischen Literatur (2015), cujo merito e fazer uma historia da producao artistica seguindo o modelo habitual dos manuais, ou tambem o compendio organizado por Tom Deneire, Dynamics of Neo-Latin and the Vernacular (2014), em que abunda a preocupacao quanto a metodologia a adotar para o pretendido estudo, ou ainda, sem os mencionar em particular, alguns daqueles que adotam o sintagma "Republica das Letras". O titulo Humanismo em Portugal, de Sebastiao Tavares de Pinho (2006), nao diz prontamente que sua investigacao se dedica a humanistas portugueses que produziram em latim mais do que a construcao conceitual de um "humanismo" com cor local. Na sequencia, nao esquecamos a colecao Portugaliae Monumenta Neolatina, organizada pela Associacao Portuguesa de Estudos Neolatinos para a Imprensa da Universidade de Coimbra.

Embora nao seja de hoje questionar a validade da designacao "Renascimento", uma tendencia e enfatizar sua continuidade em relacao aos seculos anteriores. Jacques Le Goff, por exemplo, insistiu que o periodo fosse compreendido no desenvolvimento final duma Idade Media de longa duracao, estendida ate o terco final do seculo XVIII (LE GOFF, 2015). O autor pensa o marco historico--no caso a Encyclopedie (1751-1772) de Diderot e d'Alembert--como necessariamente pertencendo ao fim de um quadro e ao inicio de outro. A ideia de um "Classicismo" ate o seculo XIX portugues apresenta muito maior afinidade com essa solucao, alem de, por si so, parecer algo mais epistemologicamente adequado do que reivindicar a genese da Modernidade conforme aquele criterio compreensivo que ha pouco acusavamos. A intervencao de Le Goff, nao bastando a serie de estudos que elenca sobre a cultura material, pode tambem em parte ser corroborada por argumentos tao distintos em amplitude como os do estudo de Belmiro Fernandes Pereira sobre a Retorica e Eloquencia em Portugal na Epoca do Renascimento (2012) e um trabalho de outra area e de mais ampla circulacao como Mudanca Estrutural da Esfera Publica (2014 [1962]), de Jurgen Habermas. Mencionemo-lo aqui en passant a proposito do lugar que a literatura ocupa no quadro social de que trata Habermas, a nosso ver precisamente aquele registrado, como discutimos, no conceito teorico de literatura e na teoria da historia literaria de Aguiar e Silva. A conformacao burguesa da cultura emergiria, seguindo sua tese, junto a disseminacao das praticas de escrita e coletivizacao da cultura aristocratica como patrimonio nacional, nao sem que, para isso, um certo estrato conceitual dessas praticas fosse subtraido (HABERMAS, 2014, p. 100, 384 et passim)--a marcha institucional burguesa depende da usurpacao da cultura elite. Com isso, ha uma interna solucao de continuidade entre essas duas dinamicas culturais, a Modernidade politicamente burguesa e a longa Idade Media. A distincao nos "mundos da vida" da sociedade de corte e da burguesia, que em suas linhas gerais parece tributaria ao conhecido argumento de Norbert Elias, faz bastante justica aos interesses de Aguiar e Silva quanto ao tipo de estudo que ele concebe como legitimo para a elucidacao do "periodo" literario--com a ressalva, como ja exploramos, ao uso da expressao algo porosa "mundividencia" e a hipertrofia do estilo como fator da literariedade e fio condutor historiografico.

O argumento nao esta distante de historiadores como Peter Burke, especialmente em Uma historia social do conhecimento (2003), ou Roger Chartier, em A mao do autor e a mente do editor (2014). Nenhum concordando com a periodizacao de Le Goff ou seguindo Habermas, ambos endossariam a diferenca que existe entre as praticas socioculturais--da organizacao do saber as motivacoes da comunicacao--daqueles circulos letrados e as atuais, confirmando a necessidade de uma melhor adequacao do estudo teorico da literatura as obras que nesse conceito hoje incluiriamos. Se a exposicao de Burke responde, como tambem a de Le Goff, a questoes de carater geral, tem alcance mais particular e interessante a de Chartier, ao fazer derivar as praticas associadas ao moderno conceito de literatura de questoes materiais florescentes no seculo XVIII, relativas a difusao da impressao e ao problema juridico dos direitos autorais (CHARTIER, 2014, p. 103 ss.). Essa materia ganha em rigor pelo dialogo com outras areas, mas, na Teoria Literaria, Franco Moretti (2007 [1983]) argumentou a necessidade de historicizar as transformacoes sofridas pelos generos, que, como convencoes de producao, respondem diretamente aos aspectos materiais da culturamente, e, com isso, podem oferecer referencias mais epistemologicamente estaveis para a discussao quando os contrapomos as entidades dependentes de processos inferenciais-no fundo, como tambem ja esbocara Siegfried Schmidt (1979). Na Teoria da Historia, por exemplo, a Begriffsgeschichte forneceria algumas ferramentas para mapear as diferencas semanticas internas a determinados conceitos, de modo a solucionar inercias discursivas. Dois trabalhos de H. U. Gumbrecht, de sugestivos titulos "A Midia Literatura" (1998b) e "Patologias no Sistema da Literatura" (1998a) fornecem narrativas das transformacoes pragmaticas da escrita literaria e, dessa feita, experimentam prismas para perspectivarmos hoje o nosso interesse no estudo da producao escrita de outras epocas. De resto, o proprio R. Wellek, em tantos passos acompanhado por Aguiar e Silva, confessava em "The Fall of the Literary History" (in KOSELLECK; STEMPEL, 1973) a necessidade de dar uma enfase institucional a historia. Por fim, e de se notar tambem que e com um pequeno elogio ao genero como ferramenta investigativa que Aguiar e Silva apresenta a tese doutoral, publicada pelo CIEC, de Maria do Ceu Fraga sobre Os generos maiores na poesia lirica de Camoes (2003).

Ja a obra de Belmiro Pereira merece atencao mais detalhada. Por um lado, o seu argumento tem algo do aspecto autocorroborante que queriamos evitar--sua figura total esta ja contida nas premissas investigativas--e o seu texto por vezes sofre a introducao subita de categorias da historia literaria, embora nao em seu nivel mais fundamental. Por outro, certamente traz a tona problemas mais especificos e alarga o quadro que precisa ser construido para uma melhor compreensao da literatura pre-burguesa no espaco iberico. O autor parte, com efeito, de uma perspectiva que nao toma o Renascimento como ruptura com a Idade Media e, assim, como uma genetica "Baixa Modernidade", mas apenas como fase final do processo historico-cultural. O argumento se refere aquele encontrado no verbete "Renascimento" do Dicionario de Historia de Portugal (1985) e ao de Paul O. Kristeller, sobre os cultores das Humanidades surgirem a partir dos dictatores medievais (KRISTELLER, 1978), e difere da intervencao de Le Goff apenas no estatuto de que o designativo "Renascimento" goza. Pereira desenvolve uma abordagem de compendios escolares, orationes e epistolas que revela como a preceptiva retorica sofre influxos diversos a partir das principais instituicoes com que a Corte travava contato e, tambem em sua variedade, acolhe os conflitos temporaneos que ocupam o concilio de Trento. O trabalho nao cede a polarizacao Classicismo-Maneirismo, nem mesmo a ideia de "crise" de valores que lhe subjaz, pois a reconstrucao historica limita os conceitos-chave hermeneuticos ("euforia renascentista", "antropocentrismo" e congeneres) que dao suporte a esses argumentos. O autor refere-se a variedade das questoes como derivando de tres estratos temporais: a incepcao disciplinar com a influencia de rhetores italianos, a maturacao pela participacao de mestres portugueses e estudantes nos Colegios franceses, e novamente a determinacao italiana, ou romana ou jesuita. Alem disso, incluam-se entre essas "fases" nao homogeneas tambem o lugar muito particular de Erasmo de Roterda e, em menor escala, do questionamento da autoridade de Aristoteles e Cicero no espaco norte-europeu. Podemos recordar aquela normatividade que atribuimos ao genero, elucidavel a partir de dois expedientes abordados por Pereira: o heretico Philip Melanchton tentou no seculo XVI introduzir na preceptiva um genero proprio a pregacao, e foi em geral rechacado; pior aconteceu a Pierre de la Ramee em sua reordenacao dos canones da retorica e do trivium--o circuito de ensino da Gramatica, da Retorica e da Dialetica. O primeiro caso era um erro metodologico menor, pois as engrenagens da maquina retorica funcionavam entao bem demais para acatar novidades (7). Ja o caso de de la Ramee consistia em submeter a inventio e a dispositio retoricas a "Dialetica", acentuando sua natureza meramente processual, e, com isso, reduzindo "Retorica" a uma doutrina do ornato. Essa tendencia "beletristica", hoje a todos familiar, derivava de uma epistemologia linguistica incompativel com a tradicao aristotelico-ciceroniana, que ainda preceituava--"teorizava", legalizava--a adequacao estrita dos uerba a res, das palavras a coisa.

Ainda seguindo Belmiro Pereira, a Retorica--a um so tempo disciplina, doutrina e arte--progressivamente dominaria as demais artes sermocinales pelo valor distintivo adquirido no espaco da Corte, estando desde o inicio indissoluvelmente ligada a religiao e, como as mais reformas da Casa de Avis, a vida politica. O olhar micrologico sobre a oratoria sacra nao permite que acolhamos o sermao, por exemplo, "apenas excepcionalmente" como literario, mas o coloca no cerne da vida cultural da elite, como avanca Alcir Pecora no Teatro do Sacramento (2008), sem descontar as implicacoes politicas do projeto teologico jesuitico e as implicacoes escato e soteriologicas dos eventos especificos ao Portugal da Restauracao (8). Nos seculos XVI e XVI, Retorica define e da coesao a todo o horizonte da comunicacao social, sendo ai a linguagem inseparavel das coisas dos homens e da verdade sagrada. No espaco peninsular, Pereira salienta o interesse do De Eloquentia do ex-jesuita Tome Correia (1536-1595), para quem a Retorica levaria a superacao do dissidium linguae et cordis, reconciliando os homens. Essa concepcao psicagogica cada vez mais central nos tratados e manuais do seculo XVI, caracterizada por um relativo crescimento das secoes dedicadas a questoes de etologia--o estudo da invencao do carater do orador como mecanismo que asseguraria aquele proposito--parece encontrar reflexo nos livros de civilidade. Ou seja, a constituicao de qualquer simulacro enunciativo subjetivo, longe de caracterizar a expressao de estados de alma (nao se pondo ainda o problema do estatuto da pratica imitativa), passa por um projeto institucional cujas linhas fundamentais escapam, como vemos, ao bojo etico do moderno conceito do literario. Especialmente em se tratando das instituicoes ibericas, ao menos conforme o mapa oferecido por essa tese, e exiguo o espaco para imaginar a autonomia do "poetico" como algo diferenciado das demais praticas de conversacao civil. Assim, entender um "Classicismo" que vai ate o seculo XIX, pace o designativo, e distinguir "escolas" em seu interior e talvez melhor acerto: ha um ordenamento de saberes relativamente ao qual "Poetica" nao tem prerrogativas como nos modernos movimentos literarios, e, assim, ha ainda menos garantias para a equiparacao por meio dos esquemas diacronicos que mapeariam suas flutuacoes no interior daquele quadro institucional. A designacao "escola" sugere uma dinamica de grupo (mestre e aprendizes) que tampouco se sustenta quando avaliada em sua constituicao mais concreta, embora seja topica recorrente nos quadros em que uma autoridade precisa ser reclamada com propositos de legitimacao e normalizacao. No entanto, retenhamos sua tentativa de ancoragem referencial, ja que destacar esses circuitos em nome de uma fenomenologia de textos produz um horizonte insatisfatorio para a investigacao critica da cultura, apesar de util para a atualizacao memorial caracteristica da legibilidade literaria.

Alem disso, seria possivel argumentar ainda que a subteorizacao da poesia lirica e a decorrente dificuldade de estabilizar designacoes como Classicismo ou Maneirismo apenas por referencia as obras do periodo devemse sobretudo ao fato de que esse genero nao gozava do estatuto

que hoje a historia literaria lhe atribui. Aquela "metalinguagem" que e preciso estabilizar por via da Teoria nao sera reconstruida sem que antes se entenda como a comunicacao funcionava, e, com isso, se perceba como modos diferentes de funcionamento produzem artefatos diversos. Nas retoricas--como se sabe, quase todas--fieis a base aristotelico-ciceroniana, os "generos discursivos" e "estilos" (genera causarum e dicendi) eram preceituados numa estrita adequacao a interesses previamente codificados, polarizados entre os uerba e a res. Antes mesmo, porem, da aplicacao direta de preceitos na escrita, a partir do qual poderiamos reconstruir uma mais ou menos segura (embora nao unica) metalinguagem, havia uma enfase a aquisicao do usus por via da imitatio, ou seja, uma especie de normatividade consuetudinaria. E um dos sentidos de decoro. Essa caracteristica obriga a leitura da poesia lirica a trilhar os processos inferenciais que levam, destacados da preceptiva retorica, a necessidade de designacoes periodologicas para sanar a instabilidade. Em sua tese doutoral, a que ja aludimos, Maria do Ceu Fraga esteve atenta a essa "fragilidade" da teorizacao retorica de Quinhentos, um pouco em virtude da qual justifica sua empresa investigativa (2003). Porem, herdada a historia literaria, em seu comentario ela opta por submeter a investigacao poetico-retorica dos generos aquelas categorias periodologicas--primeiro as de Aguiar e Silva (1971) e entao o "petrarquismo" estudado por Rita Marnoto (2015)--e se ocupa de questoes de indole filologico-hermeneutica. O problema poetico-retorico do lirico nao e muito enderecado. O mesmo nao se passa, por exemplo, com a muito mais formalizada poesia epica, ja que as transformacoes que suas convencoes e esquemas sofrem foram mais criticadas em sua recepcao imediata--ate em virtude das condicoes materiais da producao livresca--, criando um sistema de referencias que prescinde, ressalvado o apagamento historico, de qualquer ulterior elaboracao hermeneutica. Como demonstrou Helio Alves a proposito da epica humanista (2001), nao apenas ela obedecia a codificacao especifica de conhecimento escolar geral, ditado pela preceptiva a partir do modelo bipartite virgiliano, como o principio da imitacao mediava, como norma, todo o plano da inventio, indo ate os expedientes de vituperatio que deram ao poema camoniano a alcunha de "maneirista", e o premio heroico do himeneu ("euforia renascentista", etc.), este por contaminatio com o romance. O procedimento--uma dinamica de enriquecedora usurpacao de textos que Alves explica como "substituicao" (2001, p. 43)--engendra a coerencia que autoriza o estudo "sistematico" (9).

Com a atencao que detinha o poema heroico como cronica rimada, a lirica e os outros generos textuais e dramaticos seriam um recreio de Corte ou popular--ocupacoes menores que quase pertenceriam a algum "reino da liberdade" pre-romantico, nao fosse tao clara a impositividade de seus modelos e a necessidade de defender tais passatempos com base na sua cota de "erudicao, doutrina e filosofia", como disse na Decada Oitava Diogo do Couto (1542-1616) do Parnaso de Camoes, ou como um seculo antes Cataldo (1455-1517) defendia a poesia (e "ate mesmo" a satira) para "a emenda e a correcao da vida" (RAMALHO, 1994, p. 43). Obliterar as convencoes que medeiam o conjunto das representacoes literarias, ainda que elas nao se enquadrem naqueles universais do conceito, com o fito de derivar de suas formas e temas uma "mundividencia" assente em dados historico-biograficos, isso mais produz um conceito novo de poesia do que reconstroi o entao em uso. A escrita cumpre um fim social lancando mao dos meios a disposicao, no interior de atividades hierarquizadas e num quadro etico estavel. So o ideal romantico redimensiona a relacao da escrita a sua finalidade, com o recalcamento da coordenada etica e a autonomizacao dignificante da "criacao artistica", mais tarde universalizados pela elaboracao teorica do conceito. Apesar disso, talvez aqui conte algo daquela "entropia" de Aguiar e Silva: sem fixacao preceptiva extensiva, a difusao da lirica pela Corte nao era homogenea, pois nem se associava em particular a um programa curricular, nem estava isenta das questoes que se colocavam na tratadistica--a exemplo da tendencia a demissao da moral entre os rhetores norte-europeus, que deixaria, segundo Pereira, tracos em retoricas peninsulares. A variedade solicitava entao intervencoes ordenadoras. Podemos aceitar aqui que os seculos XVI e XVII se diferenciam um do outro sobretudo pelo incremento normativo (CARVALHO, 2004, p. 222) que avanca com as instituicoes escolares ibericas, e nao tanto por questoes de "estilo" ou por sua tematica. Do processo seriam representantes a obra ja mencionada de Tome Correia, os tratados de Manuel Pires de Almeida (1597-1655) a que ja se dedicou Adma Muhana (2006; 2002), e mesmo um livrinho como Corte na Aldeia (1619). O declinio do decorum--a descontinuidade percebida entre os modelos disponiveis e o que se poderia postular como unica norma aceitavel--foi tambem objeto de vituperio poetico, como no celebre poema de Baltazar Estaco (1570-?) contra os "olhos verdes" ou ja na caricatura que Camoes glosa do namorado galante (10).

Para resumir nosso apanhado, havemos de reconhecer que, perante qualquer historia literaria de base teorica, como o texto a partir do qual fazer surgir o sistema de caracteristicas "literarias" nao esta no centro desse tipo de estudo, essas abordagens nao ofereceriam solucoes imediatas para os problemas do ensino da historia literaria. Mas nao sera a hipertrofia do "literario" como fator explicativo e sua aplicacao a uma multidao de manifestacoes culturais diacronicamente diversas que torna dificil a compreensao, por um lado, daquilo que e especifico a essas manifestacoes e, por outro, o que poe em xeque a validade do proprio conceito de literario (11)? Nao e pequena a emenda a ser feita. Essas categorias de carater hermeneutico colocam textos do passado numa relacao com a cultura e resolvem necessidades a seu tempo, promovendo um tipo de inteligibilidade cujo alcance nao e universalizavel. De fato, imprimem uma legibilidade literaria por uma reducao ao mesmo tempo metodologica e "transcendentalmente" epistemica, em virtude da coextensividade do ensino de literatura as praticas sociais de leitura. Com isso, uma solucao particular se enraizou como um problema geral.

Diante do exposto, como convem falar em periodo? Nao como algo a predicar "literario". Mesmo nos "ismos" menos recentes, de um contexto em que ja a literatura se deixa explicar como um sistema social de cujos usos o atual ensino literario e herdeiro direto, nada parece haver neles que os torne comensuraveis com o conceito de "epoca" a qual correspondesse uma "mundividencia" especifica e cuja existencia afinal justifique a imputacao retroativa de designativos estruturalmente analogos. O conceito de Maneirismo nao goza de legitimidade, adequacao referencial e alcance descritivo, como a seu modo o fazem os de Romantismo, Realismo e demais conceitos de uso autorreferencial apos eles modelados, e muito menos como os ismos concebidos como palavras de ordem. Tambem nesses todos, sem duvida, a unidade cultural a que pretendem remeter ou o programa que de algum modo descreveriam e mais um problema para a critica do que uma solucao. Seja como for, a imediata sobreposicao entre "escolas" ou "movimentos" e historia muitas vezes justificou o mal-estar social que os intelectuais sob a maxima do progresso jeremiavam--talvez ainda--na forma de uma defasagem, de uma falha de adaptacao da "literatura nacional" as tendencias recentissimas da epoca. Isso se percebe de Mendes dos Remedios a A. J. Saraiva, passando tambem--essa tendencia--para alguns criticos brasileiros. Mas esse pano de fundo etico sera ainda necessario quando estudamos objetos tao afastados quanto os que se designam por Maneirismo, Barroco, etc.? Com efeito, as designacoes, depuradas dos conteudos particulares, serviriam ainda como estenografia, como ao falar em "periodo maneirista" ou Barroco situar algo entre os anos tais e tais. Mas entao para que? Aqui cabe dobrar o bom senso exibido por Mendes dos Remedios na apresentacao ao seu manual de historia, pois essas elaboracoes, contrapostas a complexidade das referencias hoje possivel, aos materiais bibliograficos disponiveis, ao amadurecimento teorico..., enfim, essas elaboracoes ja nao se "salvam em suas linhas gerais". Se esperamos alternativas discursivas que sejam mais do que simples capitulacao da heranca disciplinar sob quaisquer imperativos, e preciso, como tentamos fazer ao abordar os argumentos de Aguiar e Silva, entender o quadro complexo em que a Teoria e a Historia se entretecem. Por fim, o estudo especializado de questoes retorico-poeticas da poesia anterior ao seculo XIX avancou muito, nao faltando no contexto mais amplo das Letras trabalhos modelares que, embora nem sempre oferecam pronta informacao para a complementacao dos hiatos, nao deixam de fornecer solidos subsidios para a renovacao das praticas investigativas.

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WELS, Volkhard. Der Begriff der Dichtung in der Fruhen Neuzeit. Berlin & New York: Walter de Gruyter, 2009.

Matheus de Brito. Licenciado em Portugues con laudabiliter et honorifice pela Universidade de Coimbra (2011). Doutorado summa cum laude em Materialidades da Literatura pela Universidade de Coimbra, e em Teoria e Historia Literaria pela Universidade Estadual de Campinas, sob cotutela (2017). Realiza atualmente investigacao pos-doutoral na Universidade Estadual de Campinas, com o projeto "O ethos do dissidio na lirica camoniana", financiado pela Fundacao de Amparo a Pesquisa do Estado de Sao Paulo. E membro do Centro Interuniversitario de Estudos Camonianos (Universidade de Coimbra).

E-mail: theosdebrito@gmail.com

Recebido em: 16/09/2018

Aceito em: 01/04/2019

Matheus de Brito

Universidade Estadual de Campinas Campinas, SP, Brasil

ORCID 0000-0003-3889-3345

(*) Apoio: FAPESP

(1) Sobre o tema, veja-se o volume das comunicacoes das Conferencias do Cinquentenario (Coimbra e Braga, 2017); pensamos sobretudo no comentario de Rita Patricio sobre seu magisterio (PATRICIO; SILVESTRE, [no prelo]).

(2) Suprimimos as referencias a essas obras de, se nao cabe dizer ampla circulacao, relativa constancia curricular. A outras, apesar de aqui figurarem como mencoes menores, ocorrera de oferecermos referencias completas.

(3) Veja-se a coletanea que Andre Cechinel organizou (2017) sobre o tema no ambito brasileiro.

(4) A nao ser que para isso se postule ainda que a entropia chega a um nivel de saturacao tal que promove a reversao do sistema, seguindo uma teoria da catastrofe--mas a transposicao do argumento, em alguma medida capitaneada por Umberto Eco (Obra Aberta, 1971), requer imensa inclinacao para o bizantinismo.

(5) O lugar politico da ideia de Maneirismo como crise do status quo representado pelo Classicismo, subscrita pelos historiadores da cultura de profissao marxista como A. Hauser ou marxista a maior parte do tempo como Antonio Jose Saraiva, e com seu porta-voz num Sena insurgente e entao autoexilado, precisa de uma discussao a parte.

(6) Para um comentario a historia literaria em Portugal, veja-se Cunha (2011).

(7) Intervindo nos tria genera causarum de origem aristotelica (epiditico, deliberativo, judiciario), a proposicao de um genero proprio ao oficio do pregador cristao se deixava refutar pelas demais estruturas triadicas, a das provas (pisteis), e, conforme a contribuicao de Cicero, dos officia do orador e correspondentes (tres) genera dicendi.

(8) O quadro pressupoe, como demonstra a referida tese, tanto a maior uniformizacao da preceptiva por obra do ensino da Companhia enquanto braco tridentino, quanto a maturacao de uma "mentalite pathetique" cujo resultado e, na oratoria de Vieira, uma essencializacao da historia enquanto material e campo sobre o qual intervir.

(9) De resto, a importancia do epico esta extensivamente documentada, quer na tratadistica (ALMEIDA; MUHANA, 2006; 2002), na representacao corrente do poeta laureado, na frequencia do topico do servico de armas e letras (cf. e.g. RAMALHO, 1994).

(10) E curioso retrato de costumes da Corte, o que faz Camoes numa carta que segue a topica do elogio ao campo: "Uns vereis encostados sobre as espadas, os chapeus ate os olhos e a parvoice ate os artelhos, cabeca entre os ombros, capa curta, pernas compridas; nunca lhes falta uma conteira dourada, que luz ao longe. (...) carregam as pernas para fora, torcem os sapatos para dentro, trazem sempre Boscao na manga, falam pouco, e tudo saudades, enfadonhos na conversacao pelo que cumpre a gravidade de amor" (2008, p. 791-2). Continua com esses estarem especialmente sujeitos aos ardis das alcoviteiras.

(11) Talvez aqui possamos introduzir uma observacao extemporanea: e mais economico, considerando os quadros institucionais da universidade democratizada as pressas, como a especializacao e a aceleracao da maquina, etc., dar as coisas por resolvido ao se chegar num nivel de generalizacao "otimo", isto e, com o criterio do espirito nacional de um lado e a regra do "estilo" do outro. Por um lado, como algures sustentou Alcir Pecora, trata-se de elidir o trabalho descritivo pormenorizado; por outro, quantos sao hoje os que ainda se encontram em condicoes institucionais favoraveis a investigacao, com o engrossamento do corpo discente e da carga horaria, e o lugar economico secundario das Humanidades?

https://dx.doi.org/10.1590/1517-106X/212273297
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Author:de Brito, Matheus
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:May 1, 2019
Words:11421
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