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A RELACAO HOSTIL ENTRE POETA E PUBLICO--UMA LEITURA DE "O CAO E O FRASCO", DE CHARLES BAUDELAIRE/THE HOSTILITY BETWEEN POET AND PUBLIC--A READING OF "LE CHIEN ET LE FLACON" DE CHARLES BAUDELAIRE.

Na obra de Charles Baudelaire uma certa violencia, hostilidade ou "desencontro" tendem a surgir nos poemas que abordam a ligacao com o leitor. O dialogo entre autor e publico, um dos sustentaculos da poesia baudelairiana, e retratado nos textos do poeta revestido de provocacoes e ironia, figurando uma especie de convite ao confronto bastante ambivalente. Os golpes, que tem como alvo nao apenas o leitor, mas tambem o proprio autor, aparentam estar envoltos em artificios sedutores e agressivos, construindo uma relacao contraditoria. Reunidos nesse paradoxo, artista e publico parecem tramar a obra poetica por meio de atos brutais. No poema em prosa "Espanquem-se os pobres", o narrador apresenta uma luta que faz com as duas personagens se tornem "iguais"--e como um "semelhante" que Baudelaire se refere ao leitor no poema dedicado a este em As Flores do Mal ("--Hipocrita leitor, meu igual, meu irmao!" LARANJEIRA, 2011: 24). Talvez o texto com a abordagem mais direta a dificil relacao com o publico seja o poema em prosa "O cao e o frasco", provavelmente "o poema mais agressivo que Baudelaire ja escreveu (1)" (THELOT, 1993, p. 19). A ultima de suas frases compara o leitor a um cao "a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados que o exasperem, mas somente imundicies cuidadosamente escolhidas" (MOTTA, 1995, p. 31), sentenca que costuma ser empregada pela critica para reafirmar o divorcio existente entre o poeta e seus leitores. O texto foi publicado como o oitavo da primeira serie de nove poemas em prosa reunidos sob o titulo "Pequenos poemas em prosa", veiculada em 26 de agosto de 1862 no jornal de grande circulacao La Presse, precedida da dedicatoria a Arsene Houssaye. Retomado na edicao postuma O Spleen de Paris, que foi organizado em 1869 e reuniu 50 poemas em prosa, "O Cao e o Frasco" ocupa a mesma posicao e, junto a outros textos do autor que consideram a alianca com o publico, parece contribuir para a constituicao dessa relacao como um espaco permeado pela violencia, ou o descompasso. Porem, mais que reiterar o desentendimento entre autor e leitor, esse laco agressivo seria capaz de criar ambiguidades interessantes, que constituiriam os pilares de uma poetica fundada na contradicao, ligada nao apenas a indeterminacao dos sentidos, mas tambem a uma modalidade de espirito critico direcionada a maneira como a lirica se estabelece.

Para nos concentrarmos no comentario mais detido desse aspecto de "O Cao e o Frasco", iremos inicialmente desenvolver alguns elementos que consideramos centrais para a compreensao da forma pela qual a agressividade e empregada na poetica baudelairiana. A principio, e preciso lembrar que esse tipo de hostilidade, "combate", ou "desencontro" nao e uma invencao de Baudelaire ou do seculo XIX. A sugestao de que poeta e publico nao se compreendem, de que fazer literatura e uma "batalha" ou um ato agressivo pode ser considerada um topos literario que remonta a Antiguidade grega e latina (2). Na tradicao em lingua portuguesa, o lugar-comum surge nos versos finais de Os lusiadas, poema epico de Camoes do seculo XVI. Na estrofe 145, o poeta se lamenta por ter "a Lira destemperada" e a "voz enrouquecida", nao em razao da longa extensao do poema, mas por cantar para "gente surda e endurecida", envolvida no "gosto da cobica e da rudeza", e que por esse motivo nao ouve ou da valor ao que e oferecido pelo autor.

Em Baudelaire, no entanto, a relacao desencontrada entre poeta e publico parece ser atravessada por outras duas vertentes: a violencia contra si proprio e em direcao a criacao da obra. O "carrasco de si mesmo" e abordado em um conhecido poema do autor, "O Heaut ontimoroumenos", parte da secao "Spleen e Ideal", de As Flores do Mal. Baudelaire possivelmente teve acesso ao termo, que tem o sentido de "algoz de si proprio", por intermedio de Joseph de Maistre, que o emprega na terceira palestra de As Noites de Sao Petesburgo (3). No poema, o autor lista uma serie de atitudes violentas dirigidas contra o outro e contra si:
L'HEAUTONTIMOROUMENOS

A J. G. F.

Je te frapperai sans colere
Et sans haine, comme un boucher,
Comme Mofse le rocher!
Et je ferai de ta paupiere,

Pour abreuver mon Sahara,
Jaillir les eaux de la souffrance.
Mon desir gonfle d'esperance
Sur tes pleurs sales nagera

Comme un vaisseau qui prend le large,
Et dans mon caeur qu'ils souleront
Tes chers sanglots retentiront
Comme un tambour qui bat la charge!

Ne suis-je pas un faux accord
Dans la divine symphonie,
Grace a la vorace Ironie
Qui me secoue et qui me mord?

Elle est dans ma voix, la criarde!
C'est tout mon sang, ce poison noir!
Je suis le sinistre miroir
Oo la megere se regarde.

Je suis la plaie et le couteau!
Je suis le soufflet et la joue!
Je suis les membres et la roue,
Et la victime et le bourreau!

Je suis de mon caur le vampire,
--Un de ces grands abandonnes
Au rire eternel condamnes
Et qui ne peuvent plus sourire! (4)(OC I: 78-79)


Os versos sao ricos em imagens que compoem a estetica de Baudelaire, mas o que vale ressaltar neste trabalho e uma de suas ideias principais, que surge na parte final, de "agressor de si mesmo". Questionando-se sobre seu "descompasso" ("Nao sou acaso um falso acorde") com origem na "Ironia" --escrita com a capitular, sugerindo o potencial alegorico do termo--, o eupoetico afirma ser o "espelho deformante", apos o qual se sucedem as imagens de agressao a si mesmo multiplicadas por meio do "Eu sou...". Em linhas gerais, o sujeito poetico inicia os versos dirigindo sua violencia ao outro, traz para dentro si os efeitos do sofrimento alheio, questiona-se a respeito da Ironia que o "sacode", e pluraliza-se pelo reflexo em figuras que voltam os ataques para si mesmo. No poema, parece estar em jogo a consciencia da hostilidade contra o outro, "espelhada" ou mediada pela agressividade contra si mesmo. O critico Jean Starobinski faz uma leitura bastante detida do poema, pela chave da melancolia, e indica que nele "Baudelaire substitui uma agressividade humoral pela agressividade de um ato de consciencia" (STAROBINSKI, 2014, p. 29), transmutando a melancolia e privilegiando sua ponta mais afiada, fazendo com que assuma feicoes bestiais. Ou seja, por meio dessa conversao da melancolia em um ato lucido, o poeta se reconhece, identifica a atividade do eu-poetico e se torna tambem alvo dos proprios ataques.

Esse ato de consciencia agressivo em relacao a si repercute tambem no modo como o poeta trata a criacao de suas obras. O gesto de construir um poema e visto como um trabalho dificil e violento, descrito nos poemas e ensaios do autor como uma "luta" ou uma tarefa dolorosa, em que o autor se fere na medida em que compoe e carrega as marcas do "combate". Uma das imagens empregada pelo escritor para descrever a atividade literaria e a "fantastica esgrima", que surge na primeira estrofe de "O Sol", poema da secao "Quadros Parisienses" de As Flores do Mal:
Le long du vieux Faubourg, ou pendent aux masures
Les persiennes, abri des secretes luxures,
Quand le soleil cruel frappe a traits redoubles
Sur la ville et les champs, sur les toits et les bles,
Je vais m'exercer seul a ma fantasque escrime,
Flairant dans tous les coins les hasards de la rime,
Trebuchant sur les mots comme sur les paves,
Heurtant parfois des vers depuis longtemps reves. (5) (OC I: 83)


A imagem recompoe a maneira como o sujeito solitario se dedica a uma especie de esgrima, uma luta ritmada em que os participantes visam atingir o oponente e se proteger dos ataques alheios. Nessa tarefa, os "golpes" necessarios a criacao artistica acabam ferindo nao apenas a obra, mas tambem o poeta. Na edicao de 1857, "O Sol" era o segundo poema de As Flores do Mal (parte de "Spleen e Ideal"), posicao que, em 1861, foi ocupada por "O Albatroz". Ambos, portanto, podem ser lidos como representacoes da figura do poeta. A ideia da esgrima, dos ataques direcionadas aos versos e do tormento infligido ao artista durante a atividade criativa esta tambem em "O Pintor da Vida Moderna", no conhecido trecho em que Baudelaire aborda a atividade do pintor Constantin Guys:
[...] s'escrimant avec son crayon, sa plume, son pinceau, faisant
jaillir l'eau du verre au plafond, essuyant sa plume sur sa chemise,
presse, violent, actif, comme s'il craignait que les images ne lui
echappent, querelleur quoique seul, et se bousculant lui-meme (6). (OC
II: 693)


Na passagem, em que a tarefa de criar se torna um arduo trabalho, o artista e figurado como alguem violento, agitado e cujas estocadas sao direcionadas a obra e a si proprio, em um penoso esforco durante a composicao. Essa imagem do poeta que se esforca e tropeca a procura da poesia e recuperada tambem em "O vinho dos trapeiros" (7), poema CV de As Flores do Mal (secao "O Vinho"), publicado pela primeira vez em 1854, e tambem no texto "Do vinho e do haxixe" (8), de 1851.

Seria interessante mencionar que esse gesto hostil contra si e que tambem compoe a atividade de criacao e um ato de consciencia estreitamente relacionado a visao baudelairiana do martirio. A percepcao do poeta em relacao ao sacrificio parece se constituir em um gesto contraditorio e ambivalente, que consiste em reconhecer a entrega incondicional ao suplicio e tambem em assistir conscientemente ao proprio aniquilamento (9). Ou seja, o sacrificio seria um ato consentido e apreciado pela vitima. A posicao de Baudelaire em relacao ao martirio nao estaria baseada no modelo cristao da conquista da redencao ou, como em Joseph de Maistre, da restauracao da ordem natural das coisas--em si mesmo, o sacrificio seria esse ato duplo, oximorico e consciente. A constituicao da subjetividade poetica estaria, assim, calcada nesse gesto ambiguo de enxergar-se como vitima, entregar-se ao sofrimento e contemplar a propria imolacao. Esse processo, resgatado pelas palavras, fundaria o poema. A "contradicao ou o oximoro da morte vivida", de acordo com os termos do critico Marcos Siscar (2010, p. 44), seria o dispositivo pelo qual a engrenagem poetica de Baudelaire estaria refletindo a existencia moderna, em que o eu-poetico e a poesia se reconhecem como vitima e algoz de si mesmo, simultanea e conscientemente.

Ao que parece, reunindo a hostilidade contra si e a violencia contida na criacao da obra, por meio da perspectiva singular do sacrificio, Baudelaire retoma o topos, a figura da luta em literatura e do desencontro entre autor e leitor da tradicao, promovendo uma releitura do lugar-comum e abrindo uma especie de fenda critica em seus poemas. Sao alguns desses principios, constituintes da poetica baudelairiana, que aparentam estar em jogo em "O Cao e o Frasco", poema em prosa que traz a espinhosa relacao com o publico e costuma ser citado para exemplificar a furia que o poeta podia demonstrar contra os contemporaneos e os leitores que nao lhe faziam justica:
"--Mon beau chien, mon bon chien, mon cher toutou, approchez et venez
respirer un excellent parfum achete chez le meilleur parfumeur de la
ville." Et le chien, en fretillant de la queue, ce qui est, je crois,
chez ces pauvres etres, le signe correspondant du rire et du sourire,
s'approche et pose curieusement son nez humide sur le flacon debouche;
puis, reculant soudainement avec effroi, il aboie contre moi, en
maniere de reproche.
"--Ah! miserable chien, si je vous avait offert un paquet d'excrements,
vous l'auriez flaire avec delices et peut-etre devore. Ainsi,
vous-meme, indigne compagnon de ma triste vie, vous ressemblez au
public, a qui il ne faut jamais presenter des parfums delicats qui
l'exasperent, mais des ordures soigneusement choisies." (10)(OC I: 284)


Em linguagem aparentemente simples, composto por invectivas diretas, o texto resultaria em um conjunto tao banal e evidente, que dispensaria longos comentarios, levantando ate mesmo a duvida se poderia ser chamado de poema em prosa. Para parte da critica, ele seria um dos "menos interessantes" (HIDDLESTON, 1987: 88) da reuniao de O Spleen de Paris. Uma porcao consideravel das leituras do texto tende a considera-lo como uma alegoria bastante clara da situacao do artista no seculo XIX, como exemplificam os comentarios das Obras Completas francesas, bem como da edicao dos Pequenos Poemas em Prosa, organizada e anotada pelo critico Robert Kopp: "Esse poema, alegoria e boutade de uma so vez, retoma um tema de que a obra e a correspondencia de Baudelaire oferecem inumeras variacoes: o do isolamento e da impopularidade do genio, do divorcio entre o artista e o publico". (BAUDELAIRE, 1969, p. 207)

E a mesma posicao de Sonya Stephens, que afirma que o texto, que parece ter um sentido bastante claro, pode ser lido como uma "alegoria da recepcao" (STEPHENS 1999: 21). Stephens retoma as palavras do critico Henri Lemaitre que, em sua edicao dos Petits Poemes en Prose (11), considerou "O Cao e o Frasco" como um "poeme-boutade", uma especie de genero literario em que toda a desilusao e rancor do poeta se expressam de maneira breve e incisiva. Em seu rapido comentario, Stephens cita este poema em prosa como constituinte de uma entrada textual que parece representar o "limite mais baixo da poesia, nao mais sugestiva, mas fortemente explicada" (STEPHENS, 1999, p. 22).

Alem da critica a linguagem trivial e obvia, o comentario especializado ressalta a relacao com o leitor, claramente figurada pelo texto. Sabe-se que a ligacao com o publico ocupa um papel central na obra de Baudelaire, um autor que "pretendia ser compreendido; por isso dedica seu livro aqueles que lhe sao semelhantes" (BENJAMIN, 1989: 103). Desde sua primeira edicao, As Flores do Mal trazem em sua abertura o poema ja citado dedicado ao leitor --"hipocrita", "semelhante" e "irmao"--, colocando a figura do publico em posicao fundamental e inaugurando a provocacao ambivalente e sarcastica que marcaria a ligacao do poeta com seu publico. E tambem na primeira serie publicada em periodicos que Baudelaire posiciona "O Cao e o Frasco", ressaltando a relevancia da solicitacao do destinatario, da relacao dialogica de sua poesia, bem como da violencia e ironia que constituem esse laco. Face ao convite do poeta, o leitor e instado a sair de uma posicao confortavel e reagir aos textos.

Comentando a obra poetica de Baudelaire, o critico Claude Pichois afirma que no autor
a poesia nao e mais um jogo, o mais nobre dos divertimentos; ela se
torna agressao. O leitor nao pode se contentar em ser o espectador
inteligente e sensivel do que oferece o poeta [...] Ele deve 'entrar no
jogo'. Ele deve viver o sofrimento, purifica-lo por seu proprio canto,
recriar o extase, experimentar o longo remorso, maldizer, rezar e
suplicar. (PICHOIS, 1967, p. 216)


O critico afirma que Baudelaire transformou o poeta em um artista responsavel por uma poesia feita pelo poeta bem como pelo leitor, conceito que remonta as origens antigas da poesia e e, por sua vez, bastante moderna. E nesse sentido que poderia ser entendido o verso final do poema "Ao Leitor": um convite urgente a comunicacao poetica ou a "acao poetica" feita em conjunto por autor e publico.

Essa atitude ativa do leitor se da, principalmente, por intermedio da hostilidade. A violencia de que trata "O Cao e o Frasco", no entanto, esta nao apenas na provocacao, na comparacao mais explicita do publico ao cao farejador de excrementos, mas tambem no conflito entre os interesses do narrador-dono e do leitor-cao: o narrador oferece um "excelente perfume", presente que e rejeitado e cujo doador e reprovado. So entao o narrador classifica o cao de "miseravel" e o compara ao publico.

Os termos que Baudelaire emprega para compor esse embate podem ser aproximados a um trecho de "Meu coracao desnudado", tambem agressivo, em que o poeta descreve "o Frances" com quase as mesmas palavras que utiliza para retratar o cao do pequeno poema em prosa:
Le Francais est un animal de basse-cour, si bien domestique qu'il n'ose
franchir aucune palissade. Voir ses gouts en art et en litterature.
C'est un animal de race latine; l'ordure ne lui deplait pas dans son
domicile, et en litterature, il est scatophage. Il raffole des
excrements. Les litterateurs d'estaminet appellent cela le sel galois.
Bel exemple de bassesse francaise, de la nation qui sepretend
independante avant toutes les autres. (12)(OC I: 698)


No fragmento, Baudelaire compara "o Frances", um modo de se referir aos franceses em geral--e a si proprio, pois o poeta tambem e frances--, a um "animal de galinheiro" com gostos artisticos e literarios pouco arrojados, a quem as imundicies sao agradaveis. Em literatura, "o Frances" e escatofago, ou seja, ingere excrementos e sente prazer nisso. Alem da aproximacao dos compatriotas aos animais, a passagem tambem compara a literatura aos excrementos consumidos pelos franceses. O trecho, que contem textos escritos por volta de 1859, nao exime o poeta e a obra composta por ele dos proprios insultos: alem de frances, Baudelaire e produtor de textos literarios--os excrementos ingeridos com gosto pelos franceses.

A analogia entre obra literaria e as "imundicies" e tambem empregada pelo poeta nos projetos de prefacio para o que seria a segunda ou terceira edicao de As Flores do Mal:
J'avais mis quelques ordures pour plaire a MM. les journalistes. Ils se
sont montres ingrats. (Projet [II] OC I: 183)

Car moi-meme, malgre les plus louables efforts, je n'ai su resister au
desir de plaire a mes contemporains, comme l'attestent en quelques
endroits, apposees comme un fard, certaines basses flatteries adressees
a la democratie, et meme quelques ordures destinees a me faire
pardonner la tristesse de mon sujet. Mais MM. les journalistes s'etant
montres ingrats envers les caresses de ce genre, j'en ai supprime la
trace, autant qu'il m'a ete possible, dans cette nouvelle edition (13).
(Projet [III] OC I: 184)


As passagens, que juntamente ao excerto de "Meu coracao desnudado", foram inicialmente identificados a "O Cao e o Frasco" pela edicao critica francesa dos Journaux Intimes, de Crepet et Blin (BAUDELAIRE, 1949: 385-386), revelam de que maneira Baudelaire chama alguns de seus poemas de "imundicies" oferecidas ao publico (ou aos "jornalistas", expressamente mencionados nos trechos) com o objetivo de lhes agradar, gesto que, contudo, nao e valorizado, pois seu publico se mostra "ingrato". Em vez de criar objetos de arte, o poeta se dedica a composicao de "imundicies" ("ordures") e "excrementos" ("excrements"), violentando a obra que talvez pudesse ser inspirada por belos ideais esteticos.

Em um dos esbocos de prefacio, o autor escreve ainda que nao resistiu ao "desejo de agradar" a seus contemporaneos e menciona algumas "adulacoes" a democracia que foram adicionadas ao volume e outras "imundicies"--"caricias" nao reconhecidas. E possivel perceber o menosprezo ou desrespeito em relacao ao poema e ao processo criativo, permeado pela relacao descompassada com o publico. Nos trechos, assim como em "O Cao e o Frasco", a hostilidade que atravessa a relacao com o leitor se mescla a dificuldade em relacao a apresentacao da obra literaria: por um lado, ha violencia nas maos do autor, que cria "imundicies" ou "adulacoes" e as dirige a seu leitor esperando que ele as aceite como "caricias", e de outro lado ha um leitor que nao as reconhece e se mostra ingrato.

Mais que uma mera confissao de orgulho ferido, a atitude do poeta que trata sua obra como "imundicies" e a relaciona ao irresistivel "desejo de agradar" (nao correspondido) posiciona a arte no campo da seducao e da adulacao, parecendo inserir um significativo questionamento do papel da poesia. Em linhas gerais, a adulacao e parte da doutrina classica da civilidade--sistema artificial elaborado nos cursos italianos do seculo XVI e nos saloes parisienses do seculo XVII, composto de sofisticadas regras por meio das quais a violencia intrinseca as relacoes humanas poderia ser nao apenas sufocada como transformar-se em fonte de prazer (14). Por meio da artificialidade, as relacoes adquirem aspectos teatrais e construidos, que os individuos passam a administrar. Sendo assim, o jogo da civilidade ganha a possibilidade de se tornar puro divertimento estetico, quando apenas as aparencias e a prazerosa imagem ficticia que os sujeitos constroem para si e para o outro sao consideradas. Na medida em que os participantes se esquivam de qualquer responsabilidade moral e abrem mao da essencia verdadeira das relacoes, tem lugar a "adulacao". Ela designa uma especie de negociacao em que "palavras" (lisonjeiras e elogiosas) sao trocadas por "favores". Alem do prazer do jogo estetico, ha o interesse que se soma ou se sobrepoe as relacoes.

Na historia literaria, o adulador e o adulado sao aproximados a figuras de animais e relacionados a semantica do apetite e da alimentacao--aquele que recebe as lisonjas se "alimenta" da ilusao fornecida pelo adulador e oferece, em retribuicao, algum favor. As fabulas de La Fontaine, como "A raposa e o corvo", trazem pistas da aproximacao dos termos, que e tambem sugerida pela etimologia da palavra latina adulari, da qual provem "aduler" em frances e "adular" em portugues. "O verbo parece ter tido na origem um sentido concreto, como o grego aodvcu, e ser dito dos animais, particularmente dos caes, que, para testemunhar sua alegria ou adular seu dono, se aproximam (ad-) movendo a cauda." (15)

O cao abanando a cauda para lisonjear o dono e bastante semelhante a imagem descrita por Baudelaire em "O Cao e o Frasco". O poeta, entretanto, parece transpor a adulacao para o campo literario e representar a ligacao autor-publico (16) como uma relacao de bajulacao ambivalente e sem sucesso. A figura do cao remete ainda a canaille, cuja etimologia remonta ao termo latino canis, de onde se origina "chien", cao, em frances e tambem em portugues. A palavra era constantemente empregada por Baudelaire ao mencionar certas figuras do campo literario, tratadas por vezes de maneira claramente hostil, por vezes de forma ambivalente, com desprezo e o apreco:
Par Canaille j'entends les gens qui ne se connaissent pas en poesie.
(OC II: 233)

Portrait de la canaille litteraire.
Doctor Estaminetus Crapulosus Pedantissimus. Son portrait fait a la
maniere de Praxitele. (OC I: 688)

Les directeurs de journaux, Francois, Buloz, Houssaye, Rouy, Girardin,
Texier, de Calonne, Solar, Turgan, Dalloz.
--Liste de canailles. Solar en tete. (17) (OC I: 694)


A canaille, tida como aqueles que tem dificuldades em compreender poesia, seriam as figuras com os quais o poeta convivia no ambito artistico, individuos que Baudelaire agride, mas aos quais precisa submeter sua arte (como A. Houssaye, a quem o poeta dedica o ambiguo texto publicado como prefacio aos Pequenos Poemas em Prosa, em 1862).

A figura do cao, portanto, parece ter mao dupla: na medida em que rebaixa aqueles que sao o alvo do poema, colocados na posicao de quem apenas pretende receber lisonjas do autor, denigre tambem o poeta, que precisa forjar sua obra de maneira artificial para que ela seja agradavel aqueles a quem sera submetida. Os adjetivos carinhosos empregados pelo autor no inicio da primeira frase de "O Cao e o Frasco", que parecem cliches ordinarios de seducao, atuariam de maneira a testemunhar a inscricao do poeta no ambito da adulacao: "Meu belo cao, meu bom cao, meu querido toto (...)".

Por meio dessa perspectiva, seria possivel entrever a razao pela qual a hostilidade contida no poema em prosa de Baudelaire se torna tao evidente: a literatura, desmascarada como uma relacao de bajulacao entre autor e publico, transfigura-se em um ato agressivo e ambiguo--de um lado parte do poeta, que pretende seduzir seu leitor, porem deixa claro que lhe oferece um engodo ("um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade", presente adquirido e que nao seria conveniente aos "caes"; ou "imundicies cuidadosamente escolhidas", "excrementos" produzidos com o unico objetivo de agradar); de outro parte do publico, que trata o autor nao como um artista, mas como alguem que teria como o objetivo banal de lisonjear seus leitores, sendo assim digno tambem de ser adulado. Nesse sentido, as funcoes de poeta e publico estariam distantes da verdadeira fruicao estetica, resumindo-se a uma vazia troca de afagos.

No poema, no entanto, essa permuta de beneficios e revestida pela ironia. O critico Steve Murphy chama a atencao para o papel do "presente" ou "dadiva" em O Spleen de Paris, raramente envolto em boas intencoes e, em sua maior parte, representando armadilhas (MURPHY, 2003, p. 73). Em "O Cao e o Frasco", o presente nao e um oferecimento gratuito, mas algo entregue para que o doador se sinta reconhecido--uma gentileza ardilosa, ofertada com o objetivo de recebe-la em troca. Como em "O Heautontimoroumenos", o sarcasmo parece entrar em cena para gerar um curto-circuito na ligacao entre autor e destinatario, entremeando o gesto ambivalente e violento do poeta em relacao a si mesmo e a obra. O autor reconhece seu papel de adulador, resiste a entrar nessa funcao e opera de maneira ironica e contraditoria, entregando um simulacro de "presente", inadequado; o leitor, por sua vez, percebe o embuste e reage ativamente com a agressao e reprovacao.

Visto sob esse prisma, a relacao agressiva entre poeta e publico parece permitir a eclosao, neste pequeno poema em prosa, de uma aguda reflexao sobre o papel e os sentidos da lirica. Os tres pequenos poemas em prosa que encerram a primeira serie publicada em La Presse, "O Bobo e a Venus", "O Cao e o Frasco" e "O Mau Vidraceiro", parecem tratar do que Edward K. Kaplan chamou de "busca artistica" (KAPLAN, 2015, p. 63). O critico caracteriza os tres textos como reflexoes esteticas, nas quais o artista em geral busca um ideal permanentemente inalcancavel. Em "O Cao e o Frasco", contudo, mais que a procura de um belo inatingivel, o autor parece estar questionando a essencia desse ideal, sua composicao e seus fins. Das fendas do texto sobressai a meditacao estetica sobre a natureza da obra literaria, representada pela dupla contraditoria perfume--imundicies, composta para funcionar como simples objeto de troca entre autor e publico, em um jogo de seducao ambiguo e mal-sucedido. O texto problematizaria a criacao artistica como um "presente" comercializado ou uma "lisonja", em que autor e publico estariam em um acordo tacito de aceitacao de embustes.

Vale mencionar que, nos poemas em prosa, a questao da violencia costuma estar ligada a situacoes de ordem economica (valor de produtos, posicao social ou trocas monetarias), deixando claro quao ambigua e discutivel seria a insercao da poesia, bem como de seus participantes, nesse sistema de trocas. O entendimento da arte como uma relacao de adulacao incluida nesse sistema demonstraria ainda o que ha de paradoxal e contraditorio na ligacao entre autor, obra e leitor: o poeta oferece ao publico uma trapaca com o objetivo de agrada-lo e seduzi-lo, mas, ao faze-lo, violenta sua obra e, ao mesmo tempo, violenta-se. Como o sujeito de "O Heautontimoroumenos", a agressividade dirigida ao outro retorna: o poeta assume a posicao de inocente e de culpado, assim como o publico, que busca e rejeita a caricia do poeta.

E preciso ressaltar, entretanto, que a postura do poeta e, em si mesma, profundamente ambivalente--a reflexao dirigida as relacoes entre autor, obra e publico nao exibe conclusoes ou solucoes unicas. Em meio ao involucro aparentemente banal da linguagem do pequeno poema em prosa "O Cao e o Frasco", a meditacao em relacao a poesia provoca o colapso dos criterios esteticos tradicionais, que se fundem em poderosos oximoros: o autor compoe para ser aceito e para ser rejeitado, exige e despreza a boa-vontade do leitor, questiona e assume a logica das trocas em que a criacao artistica se inscreve, traz perfumes que sao imundicies, desfere golpes em seu publico e em si mesmo. Esse ato poetico, fundado na contradicao, impede o estabelecimento de sentidos inequivocos para o texto, colocando a indeterminacao como condutora da poesia. Atuando dessa forma, implodindo as bases esteticas pelas quais se institui a poesia, e possivel dizer que Baudelaire promoveria algo como o martirio que alguns de seus poemas retratam (18). O autor parece dar indicios de que, para que a poesia se constitua como tal, ela tenha a tarefa de minar-se, apresentando-se como vitima voluntaria e testemunhando conscientemente sua aniquilacao. Transposto em palavras e imagens, o processo torna-se o poema, gerador de surpreendentes ruidos criticos que seriam os suportes constituintes de uma certa poetica moderna. Por meio desse dispositivo, desafiando as bases tradicionais pelas quais a arte se constitui, a lirica seria, assim, o espaco privilegiado para discuti-la, colocando em xeque a forma como artista e publico se relacionam com a poesia e a instituem. Em ultima instancia, esse gesto poetico de concepcao da poesia seria um modo singular de refletir e considerar a propria existencia como tal.

Referencias

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STAROBINSKY, Jean. As mascaras da civilizacao: ensaios. Traducao de Maria Lucia Machado. Sao Paulo: Companhia das Letras, 2001.

STAROBINSKY, Jean.A melancolia diante do espelho: tres leituras de Baudelaire. Traducao Samuel Titan Jr. Sao Paulo: Editora 34, 2014.

STEPHENS, S. Baudelaire's prose poems--The Practise and Politics of Irony. Oxford: Oxford University Press, 1999.

THELOT, Jerome. Baudelaire, Violence et poesie. Paris: Editions Gallimard, 1993.

Rita de Cassia Bovo de Loiola. Doutoranda em Teoria Literaria e Literatura Comparada, pela Universidade de Sao Paulo.

E-mail: rita.loiola@gmail.com

Recebido em: 14/01/2019

Aceito em: 01/04/2019

Rita de Cassia Bovo de Loiola

Universidade de Sao Paulo Sao Paulo, SP, Brasil

ORCID 0000-0002-9986-1737

(*) O presente texto e desenvolvimento de alguns topicos abordados em comunicacao apresentada no Congresso Internacional da Associacao Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), em agosto de 2018.

(1) Os textos em lingua estrangeira terao a traducao da autora, salvo excecoes, como os textos e poemas em prosa e em verso de Baudelaire, em que o tradutor sera mencionado com a indicacao entre parenteses do sobrenome seguido pelo ano e pagina da edicao.

(2) O critico Antoine Compagnon tratou da maneira como diversos autores abordaram o topos da "batalha" literaria ao longo da historia em um curso chamado Da literatura como esporte de combate, no College de France, em Paris, entre 2016 e 2018. O resumo do curso traz alguns exemplos de como a "luta" em literatura rende frutos: "De uma pena de ferro sobre um papel de aco", e dessa maneira que Ronsard, combatente da causa catolica e real, se dirige a Catarina de Medicis em 1562. 'A caneta e mais forte que a espada', resume Edward Bulwer-Lytton em seu drama Richelieu, em 1839. Gautier dizia de Scudery, o capitao Fracasse, que ele "deixaria a espada pela pena e nao usaria pior uma que a outra". Desde Homero e Hesiodo, a poesia e tambem uma agonistica [termo que designa, na Antiguidade greco-romana, a ciencia e pratica dos combates ou lutas corporais; na retorica, diz respeito a antigos jogos dialeticos, tecnica de argumentacao usada para fazer valer uma opiniao]. No seculo XIX, a questao do duelo, das duras criticas literarias esta por toda a parte. No seculo XX, ela foi substituida pelo boxe em Hemingway ou Montherlant. A longa historia da metafora da "pena de ferro", depois da "esgrima", do "boxe literario" sera explorada." Disponivel em <https://www.college-de-france.fr/site/antoine-compagnon/course-2016-2017.htm>, consultado em 10 de janeiro de 2018.

(3) De acordo com o comentario ao poema da edicao francesa das Obras Completas, com notas e comentarios de Claude Pichois da colecao "Bibliotheque de la Pleiade" : BAUDELAIRE, C. OEuvres Completes, Org. Claude Pichois. Paris : Gallimard, 1975 (reimpressao em 2010), 2 volumes. A obra sera utilizada como referencia para os textos em frances de Baudelaire e citada com a abreviacao "OC", o algarismo romano designa o volume, e o numero arabico a pagina. Pichois reproduz a citacao de J. de Maistre em As Noites de Sao Petesburgo: "tout mechant est un Heautontimoromenos", indicando que o termo e tambem o titulo bastante conhecido de uma comedia de Terencio, dramaturgo e poeta romano que viveu entre 185 a.C.-159 a.C. (OC I: 985).

(4) Sem colera em ti baterei/ Como o acougueiro, sem sanha,/ Como Moises na montanha,/ E de tua pupila farei,// Para molhar meu Saara,/ Brotar as aguas do sofrer./ Meu desejo com esperanca/ No amargo pranto nadara// Como um navio no mar vaga,/ E no peito que embriagarao/ Teus caros ais reboarao/Como um tambor que bate a carga.// Nao sou acaso um falso acorde/ Nessa divina sinfonia,/ Gracas a vivaz ironia/ Que me sacode e que me morde?// Esta na minha voz gritante!/ E o sangue que negro gira!/ Sou o espelho deformante/ Em que a megera se mira.// Eu sou a chaga e a espada!/ Sou o rosto e o bofete atroz!/ Sou o membro e a roda dentada,/ E sou a vitima e o algoz!// Do meu coracao um vampiro,/--Um desses grandes largados/ Ao riso eterno condenados/ E que nao tem mais sorriso! (LARANJEIRA, 2011, p. 97-98).

(5) Pela velha avenida, onde pende aos tugurios/ Muita persiana, abrigo de atos espurios,/ Quando esse sol cruel bate em raios fatais/ Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,/ Exerco-me sozinho a fantastica esgrima,/ Cheirando em todo canto os acasos da rima,/ Tropecando em palavras como em chao calcado,/ Chocando muita vez em verso ja sonhado. (LARANJEIRA, 2011, p. 104)

(6) [...] esgrimindo com seu lapis, sua pena, seu pincel, respingando no teto a agua do copo, limpando a pena na camisa, apressado, violento, ativo, como se temesse que as imagens lhe escapassem, brigando sozinho, debatendo-se consigo mesmo.

(7) "On voit un chiffonnier qui vient, hochant la tete,/ Butant, et se cognant aux murs comme un poete,/Et, sans prendre souci des mouchards, ses sujets,/ Epanche tout son coeur en glorieux projets." (OC I: 106) "Ve-se um trapeiro vir, a cabeca meneando,/ A bater nas paredes qual poeta, tropecando,/ E sem se preocupar com espioes, seus sujeitos,/ Expande o coracao em gloriosos projetos." (LARANJEIRA, 2011, p. 130).

(8) "Il arrive hochant la tete et butant sur les paves, comme les jeunes poetes qui passent toutes leurs journees a errer et a chercher des rimes" (OC I: 381) "Chega meneando a cabeca e tropecando nas pedras. Como os jovens poetas que passam os dias a errar e a procurar rimas."

(9) "La peine de Mort est le resultat d'une idee mystique, totalement incomprise aujourd'hui. La peine de Mort n'a pas pour but de sauver la societe, materiellement du moins. Elle a pour but de sauver (spirituellement) la societe et le coupable. Pour que le sacrifice soit parfait, il faut qu'il y air assentiment et joie de la part de la victime. Donner du

chloroforme a un condamne a mort serait une impiete, car ce serait lui enlever la conscience de sa grandeur comme victime et lui supprimer les chances de gagner le Paradis." (OC I: 683).

"A pena de morte e o resultado de uma ideia mistica, totalmente incompreendida hoje em dia. A pena de morte nao visa a salvar a sociedade, ao menos materialmente. Ela visa a salvar (espiritualmente) a sociedade e o culpado. Para que seja perfeito o sacrificio, cumpre haver assentimento e alegria, por parte da vitima. Dar cloroformio a um condenado a morte seria uma impiedade, pois implicaria tirar-lhe a consciencia da propria grandeza como vitima e suprimir-lhe as oportunidades de ganhar o Paraiso." (BUARQUE DE HOLANDA FERREIRA, A., 1981, p. 72)

(10) "Meu belo cao, meu bom cao, meu querido toto, aproxime-se e venha respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade."/ E o cao, mexendo o rabo, o que e, acho, nesses pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e curiosamente pousa o umido nariz no frasco aberto; depois, subitamente recuando de pavor, late para mim, a guisa de reprovacao./ "Ah, miseravel cao, se lhe tivesse oferecido um embrulho de excrementos o teria farejado com delicia e talvez devorado. Assim, ate voce, indigno companheiro de minha triste vida, se parece com o publico, a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados que o exasperem, mas somente imundicies cuidadosamente escolhidas. (MOTTA, 1995, p. 31)

(11) BAUDELAIRE, C. Petits Poemes en Prose. Introduction, notes, bibliographie et choix des variantes par Henri Lemaitre. Paris: Garnier, 1962.

(12) O frances e um animal de galinheiro tao bem domesticado que nao ousa transpor nenhuma palicada. Ver os seus gostos em arte e em literatura./ E um animal de raca latina; a imundicie nao lhe desagrada, no seu domicilio, e, em literatura, e escatofago. E doido por excrementos. A isso as literaturas de botequim chamam o sal gaules. Belo exemplo de baixeza da Franca, da nacao que se pretende independente acima de todas as demais. (BUARQUE DE HOLANDA FERREIRA, A., 1981, p. 114).

(13) "Eu tinha colocado algumas imundicies para agradar aos jornalistas. Eles se mostraram ingratos." "Pois eu mesmo, apesar dos esforcos mais louvaveis, nao soube resistir ao desejo de agradar aos meus contemporaneos, como atestam, em alguns lugares, aplicadas como uma maquiagem, certas baixas adulacoes dirigidas a democracia, e ate algumas imundicies destinadas a fazer com que me perdoem a tristeza de meu assunto. Mas, como os jornalistas se mostraram ingratos com as caricias desse tipo, retirei todos os seus vestigios, tanto que me foi possivel, nesta nova edicao."

(14) A intencao aqui nao e trazer uma analise profunda da doutrina da civilidade e do significado da adulacao, mas mencionar apenas alguns aspectos que possam trazer pistas da relacao estabelecida entre autor, obra e leitor em Baudelaire. Jean Starobinski dedicou-se ao assunto no ensaio "De la Flatterie", disponivel em portugues no capitulo "Sobre a adulacao" em STAROBINSKI, J. As mascaras da civilizacao: ensaios. Traducao de Maria Lucia Machado. Sao Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 57-85.

(15) A. Ernout e A. Meillet, Dictionnaire etymologique de la langue latine, Paris, 1939: 15, apud STAROBINSKI, 2001: 71.

(16) Dirigindo-se a um publico coletivo e anonimo, seja o leitor de periodicos, jornalistas ou criticos, Baudelaire faz seu enderecamento de maneira diversa dos poetas que direcionavam suas obras aos soberanos ou a outras figuras individuais, aos quais as lisonjas eram orientadas. Boileau e um dos exemplos em lingua francesa, dedicando um longo poema ao rei em Discours au roi. BOILEAU, N. Oeuvres completes de N. Boileau etsuivie du Bolaeana (Nouvelle edition). Precedees de la vie de l'auteur d'apres des documents nouveaux et inedits par M. Edouard Fournier ; nouvelle edition illustree par M. Emile Bayard... de M. de Losme de Monchesnay (1873), disponivel em <http://www.gallica.bnf.fr>, consultado em 10 de janeiro de 2018.

(17) Por Canalha entendo as pessoas que sao incompetentes em poesia.

Retrato da Canalha literaria.

Doctor Estaminetus Crapulosus Pedantissimus. Seu retrato feito a maneira de Praxiteles. (BUARQUE FERREIRA DE HOLANDA, 1981: 82)

Os diretores de jornais, Francois Buloz, Houssaye, Rouy, Girardin, Texier, de Calonne, Solar, Turgan, Dalloz.

Lista de canalhas, encabecada por Solar (BUARQUE FERREIRA DE HOLANDA, 1981: 102)

(18) Como nos poemas de As Flores do Mal "Uma martir" (OC I: 111) ou "Uma viagem a Citera" (OC I: 117).

https://dx.doi.org/10.1590/1517-106X/212142157
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Author:de Loiola, Rita de Cassia Bovo
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:May 1, 2019
Words:7391
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