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A PRESENCA E O DESVANECIMENTO DA FIGURA PATERNA: O CASO DA NARRATIVA DE MILTON HATOUM E CRISTOVAO TEZZA.

Edgar Salvadori de Decca, em seu artigo "Tal pai, qual filho? Narrativas historicoliterarias da identidade nacional," em uma alusao a Memorias de um sargento de milicias (1854), propoe que o Brasil "e ainda satiricamente falando, aquele sargento de milicias, crianca meio orfa e meio abandonada por um pai bonachao e por uma mae meio libertina, que mantem, mesmo assim, a expectativa de um dia ser reconhecido e medido pelos mesmos valores do universo cultural do pai" (103). A proposicao determina que a Europa estaria para a figura paterna enquanto o Brasil estaria para o filho. Em sua analise, Decca menciona "a negacao do nome do pai" a partir da recuperacao de como se deu a passagem do pais de pai para filho pela literal transicao entre Dom Joao VI e seu filho Dom Pedro, que, depois de 7 de setembro de 1822, tornou-se Dom Pedro I, recusando o nome do pai e assumindo a nova nacao. A relacao que vai sendo estabelecida por Decca ecoa a sindrome de menor abandonado, os primos pobres da Europa, que encontramos em tantas analises. (1)

Ao mesmo tempo que se deseja encontrar um universo cultural proprio, nota-se que a regua pela qual este deve ser medido ainda e a europeia. A mesma relacao e apontada por Flora Sussekind, ao examinar os diversos movimentos do Naturalismo na literatura brasileira, em Tal Brasil, qual romance? (1984), que, alias, foi inspiracao para o titulo do artigo de Decca. Segundo a autora, estudos do estilo se voltam a comparacao do Naturalismo brasileiro a vertente estrangeira, "a maneira de um pai vigilante, a referencia ao modelo estrangeiro e a sua marca. Como se ate para criticar o texto latino-americano se tivesse que pedir uma bencao europeia" (56). A ideia de heterogeneidade, portanto, apresenta-se intrinsecamente, uma vez que a producao de uma literatura nacional esta cravada pelos espectros das anteriores e, quanto mais se busca um distanciamento, mais se avalia o sucesso a partir de um suposto modelo. Em seu artigo, Decca sugere, em termos historicos, que falta ao Brasil um modelo propriamente nosso, no qual possamos nos espelhar para que nos, tambem, possamos dar a patria filhos.

Neste trabalho, partindo do pressuposto da ausencia de modelos (Decca), da necessidade de pedir a bencao (Sussekind) e das consideracoes de Jeremy Lehnen acerca da crise da masculinidade a partir da representacao desta em dois romances de Daniel Galera, examinamos as figuras paternas fragmentadas e enfraquecidas delineadas nos romances Dois irmaos (2000) (2), de Milton Hatoum, e O fotografo (2004), de Cristovao Tezza. Argumenta-se que a leitura dos dois romances de maneira comparativa e alegorica desvenda figuras paternas que em muitos momentos se assemelham, permitindo que se vislumbre um padrao. Embora tradicionalmente a figura paterna se associe a controle, autoritarismo e ordem, nos dois romances aqui analisados, ve-se que essas caracteristicas relacionadas a um "paradigma masculino tradicional e hegemonico" (Lehnen 278) estao enfraquecidas, quase apagadas. Isso e evidente porque nos romances as personagens paternas nao tem figuras com as quais aprender a como serem pais, falta-lhes um modelo. Ao mesmo tempo, porem, que se afastam desse paradigma, em alguns momentos sao atravessadas por rompantes deste, por exemplo, quando exercem sua autoridade por meio da agressao fisica (no caso de Halim de Dois irmaos). Alem disso, uma vez que ambas as narrativas trazem em seu escopo fragmentos das ansiedades politicas de determinados periodos--em Dois irmaos, a ditadura militar brasileira (1964-85); e em O fotografo, a primeira eleicao de Luiz Inacio Lula da Silva, em 2002, marcando uma mudanca de modelo (3) de governo na fragil e ainda adolescente democracia-, cre-se na possibilidade de leitura das figuras paternas associadas ao eterno questionamento acerca da identidade nacional brasileira, buscando respostas para a pergunta quem somos nos? a partir das afirmacoes e das negacoes dessas figuras, tanto como o reflexo dos pais acerca do exercicio da paternidade quanto dos filhos em relacao ao exercicio de serem filhos ou se tornarem pais.

Elisabeth Badinter em XY: sobre a identidade masculina menciona que as ansiedades em tomo do papel masculino ideal sao inauguradas como questionamento pelos teoricos das ciencias humanas nos Estados Unidos, sendo a decada de 1970 o marco temporal dos primeiros estudos sobre a masculinidade. A estudiosa comenta ainda que embora os pesquisadores franceses tenham atuado com discricao--e aqui ela destaca o trabalho precursor de Emmanuel Reynaud (191)--, os romancistas, "em troca, sentiram a acuidade dessas questoes e falam da sua perplexidade com clareza" (5). Para ilustrar o seu ponto, ela menciona Phillipe Dijan e seu romance Lent dehors. Assim como Dijan e apontado por Badinter como um expoente dessas discussoes em torno de uma masculinidade diversa e em cambio, propoe-se que as obras aqui analisadas servem a mesma dinamica, mas para pensar os cambios na sociedade brasileira desde o ponto de vista cultural e literario, ate as ansiedades politicas descritas nos romances em questao. Nesse sentido, as figuras paternas observadas em Dois irmaos e O fotografo servem para ilustrar esse cambio nao apenas como exemplos, mas tambem como construcoes e questionamentos dessa mudanca.

Ao se observar a literatura brasileira desde obras emblematicas de cada periodo literario, nota-se que a figura paterna nao aparece de maneira tao perene em muitas narrativas. Se considerado, por exemplo, o inicio do romance brasileiro, ve-se que as personagens centrais, geralmente, sao os filhos. Nao se trata de afirmar que figuras paternas sejam inexistentes, mas que ali estao como uma consequencia, isto e, sao presencas secundarias, raramente postas como protagonistas da narracao. Nesse sentido, ve-se uma clara ausencia da figura paterna como corpo, mas uma presenca dela como autoridade e lei. Para ilustracao, recorre-se a alguns exemplos de obras da literatura brasileira. No caso do romance A moreninha (1844), que e considerado como o marcador do inicio do genero no Brasil, as personagens centrais sao Augusto e Carolina. Ainda que o pai de Augusto apareca na narrativa como a figura autoritaria que deseja que o filho estude, sua presenca nao e bem desenvolvida. Tambem em Alencar, ha varios exemplos da figura paterna secundaria exercendo seu poder em torno do destino de suas filhas, como em O guarani (1857) e Luciola (1862). Em Dom Casmurro (1889), Bentinho e criado pela mae, Dona Gloria, e tem a identidade formada com o auxilio do agregado da familia. Uma vez que ele se torna pai de Ezequiel, nao exerce a paternidade, antes a nega por nao se ver no filho, mas ver o amigo. Do mestre Machado, tambem temos Memorias postumas de Bras Cubas (1881), que traz a paternidade como negacao a partir da celebre frase "nao tive filhos, nao transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miseria" (263).

Entre os representantes do Naturalismo, temos Bom-crioulo (1895), com a ausencia da figura paterna, ainda que esta possa ser recuperada de algum modo na relacao entre Amaro e Aleixo, na protecao e na camaradagem sendo depois transmutada em paixao por parte do primeiro. Em Triste fim de Policarpo Quaresma (1911), a figura paterna surge como fantasma. Por um lado, como a leitura do estado nacao, a patria que Policarpo Quaresma tenta tao quixotescamente descobrir pura e preservar. Por outro, como os ecos da biografia de Lima Barreto cuja loucura paterna inspirou a personagem (Arantes 876); contudo, o pai, em si, esta ausente. Macunaima (1928), de Mario de Andrade, uma das obras mais importantes do modernismo brasileiro, tem como seu protagonista o "filho do medo da noite" (Andrade 15), apagando completamente a figura paterna ou, como argumenta Urania Tourinho Peres, Macunaima e "o heroi sem pai" (65). Em seu estudo, Peres coloca em paralelo a ausencia da figura paterna com a ausencia de carater do protagonista.

Ainda no modernismo brasileiro, pode-se comentar sobre a galeria de personagens femininas que predominam na obra de Rachel de Queiros, especialmente em O quinze (1930), e como a paternidade e representada como inabil e impossivel, uma vez que Chico Bento, na travessia para Fortaleza, perde dois de seus filhos (um desaparece e o outro morre por ter comido mandioca crua). Na mesma linha de impossibilidade e inaptidao, temos a figura de Fabiano em Vidas secas (1938). Em A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector, o protagonismo e das personagens mulheres, incluindo-se ai a principal, Macabea, que tambem surge desprovida do signo paternal, embora, no caso dessa narrativa, possamos dizer que o autor, Rodrigo S.M., e a alegoria dessa presenca, ainda que bastante fragil e conflituosa. Ha ainda narrativas cuja representacao da figura paterna e as relacoes estabelecidas por esta com a familia servem como alegoria a um so tempo de resistencia (4) e de desmantelamento do poder patriarcal. E o caso de Lavoura arcaica (5), de Raduan Nassar escrita em pleno regime militar.

Esse curto panorama de obras emblematicas de periodos da literatura brasileira apresenta a figura paterna de maneira periferica nas narrativas, ressaltando que sua presenca ocorre como alegoria, fantasmagoria ou como referencia a partir do exercicio de alguma forca e poder retomados por parte das personagens centrais. Um dos exemplos mais ilustrativos dessa presenca e a figura ausente do pai no conto de Guimaraes Rosa, "A terceira margem do rio" (1962). Na narrativa, o filho, na sua incapacidade de tomar o lugar do pai na canoa, questiona-se "De que era que eu tinha tanta, tanta culpa?" (Rosa 36). Impossibilitado de reproduzir o destino paterno, ve-se uma ruptura entre pai e filho, mas a presenca esta ali por meio da culpa sentida e nao assimilada.

Em muitos momentos, a partir de alguns dos exemplos paternos ate aqui capturados, nota-se que, mesmo quando ausente, ha circunstancias nas quais o pai se apresenta como uma figura repressora, e isso e corroborado pelo fato de que a sociedade brasileira, conforme as colaboracoes de Gilberto Freyre, e fundada nos pressupostos do patriarcado. Segundo o estudioso, "a formacao patriarcal do Brasil explica-se tanto nas suas virtudes como nos seus defeitos, menos em tennos de 'raca' e de 'religiao' do que em termos economicos, de experiencia de cultura e de organizacao da familia, que foi aqui a verdadeira colonizadora" (Casa grande e senzala 202). Nesse sentido, o pai era uma figura centralizadora, agindo como um triangulo fundante ao exercer os seus papeis de provedor, dominador e agregador da empresa familiar em decorrencia de ser a figura no poder que lhe fora conferido pela monocultura, o latifundio e a escravidao (Sobrados 2003).

Com o enfraquecimento desse ritmo social e a passagem da sociedade para a modernidade, alem da concrecao de movimentos de resistencia como o movimento feminista dos anos 60 e outros ligados a direitos humanos, observa-se que a figura paterna recuperada nos pressupostos patriarcais, associada a virilidade, violencia e dominio, vai perdendo a sua forca entrando em colapso. Como aponta Jeremy Lehnen (2016), o macho esta em crise. O critico analisa as crises identitarias sofridas pelos protagonistas de dois romances de Daniel Galera, Maos de cavalo (2006) e Barba ensopada de sangue (2012), lendo-as como "simbolicas do estado instavel da masculinidade na sociedade atual" (278). Para o estudioso, essas narrativas sao marcadas "pela ambiguidade que, por um lado, representa esta crise duma forma critica, atraves de protagonistas socialmente desarraigados e, por outro, lamenta a perda de um paradigma tradicional e hegemonico que os guie" (278). Seria nessa ambiguidade que a "crise do macho" residiria, uma vez que por ela "entrevemos a sua ansiedade frente ao declinio da dominacao masculina e o questionamento da configuracao tradicional da masculinidade baseada nesta dominacao" (Lehnen 278-79). No caso especifico da figura paterna, nao se trata de uma ausencia que exerce poder sobre as personagens, como vimos no breve panorama apresentado, mas de uma presenca cujas caracteristicas de um modelo primevo de masculinidade perderam forca, desvaneceram, mesmo que nao sem fissuras, sem os proprios espectros que se sobressaem quando da retomada da violencia ou da autoridade por parte dessas figuras.

No romance de Milton Hatoum que narra a historia dos irmaos Yaqub e Omar, bem como de todos que os ladeiam, ha duas figuras paternas potenciais que interessam mais neste momento. A primeira e Halim, que de todas as personagens seria a figura paterna mais desenvolvida porque e aquela que assume a paternidade, sabe-se pai de Omar e Yaqub. A segunda e a juncao Omar-Yaqub como pais potenciais do narrador, Nael. Seria possivel, ainda, falar de outros pais presentes, como o amigo de Halim, pai de Zahia e Nahda, ou o pai de Zana; contudo, dada a natureza deste trabalho, o foco sera as personagens principais. Ja o romance de Tezza narra a historia de um fotografo quarentao perpassado por uma melancolia e uma solidao profundas. As demais personagens ou sao conectadas a ele por um laco familiar--sua esposa, Lidia, e a filha, Alice, seu pai e a companheira deste--, ou vao se conectando a ele por meio dessas pessoas. Alguns exemplos dessa rede de interconexoes podem ser vistos quando Lidia inicia um relacionamento extraconjugal com o professor dela, Duarte. Este, por sua vez, e casado com Mara que e tambem a terapeuta de iris, a jovem que o fotografo e contratado para seguir e fotografar. Assim, de um modo ou outro, todas as personagens estao interligadas ao fotografo por meio de uma relacao direta ou indireta. Diante dessa imbricada relacao entre as personagens, na obra de Tezza serao observadas mais detalhadamente tres relacoes paternas: a do fotografo em relacao a sua filha, Alice; a relacao dele com o proprio pai; e a relacao de iris, a jovem capturada pelas lentes do fotografo, com o pai dela. Alem disso, serao tambem trazidos outros exemplos de representacao de figuras paternas. O primeiro deles se conecta a alguns dos romances emblematicos da literatura brasileira apresentados como panorama neste trabalho, isto e, figuras cujos corpos estao ausentes, mas cuja autoridade se faz presente. O segundo ilustra fissuras na expressao da cultura patriarcal por meio de marcas do discurso ou por observacoes desse fenomeno a partir do olhar das proprias personagens umas para as outras ou para si mesmas em O fotografo.

Pensando no modelo tradicional de paternidade e na sua representacao, temos a seguinte definicao para o termo pai, "simbolo da geracao, da posse, da dominacao, do valor. Nesse sentido ele e uma figura inibidora; castradora, nos termos da psicanalise. Ele e uma representacao de toda forma de autoridade: chefe, patrao, professor, protetor, deus" (Chevalier e Gheerbrant 678). Ve-se com os adjetivos aplicados a figura paterna que esta se liga, sobretudo, a nocao de autoridade e poder, pressupondo-se, com isso, que existam os filhos que sao os subjugados, aqueles que sao influenciados por essa figura. Ainda de acordo com Chevalier e Gheerbrant, a influencia paterna "pode entao aparentar-se a do atrativo exercido pelo heroi ou pelo ideal. O pai e nao somente o ser que alguem quer possuir ou ter, mas tambem que a pessoa quer vir a ser, e de quem quer ter o mesmo valor" (678). Ha, portanto, um imaginario em torno da figura paterna que faz com que todas essas definicoes sejam agregadas a ela. Obviamente, estas surgem dos ecos dos discursos historicos e sociais dos quais somos fundadores e fundantes, uma vez que constituimos a sociedade. Logo, os sujeitos edificam a sua subjetividade a partir das conexoes que estabelecem com o meio social no qual estao inseridos e do qual sao constituintes. E atraves de uma intricada rede de conexoes que o eu e capaz de se diferenciar do outro, afirmando a sua individualidade. Contudo, como mencionado anteriormente, esta e contaminada pelos discursos socialmente construidos que servem de modelo para que se possa edificar a propria maneira de interagir no mundo. Partindo disso e da galeria de pais apresentados para analise neste trabalho, verifica-se que estes nao tem modelos com os quais aprender a como serem pais. Dessa maneira, como exercer a paternidade de maneira eficaz?

Comecando com Halim, nota-se, em diversos momentos da narrativa que ele nao queria ser pai, "os filhos haviam se intrometido na vida de Halim, e ele nunca se conformou com isso [...] foi o que se poderia chamar de pai, so que um pai consciente de que os filhos tinham lhe roubado um bom pedaco de privacidade e prazer" (Hatoum 53). Vale lembrar que essas observacoes sao feitas a partir do filtro de Nael, isto e, o modo como a paternidade de Halim e pensada e tambem a partir do modo como aquele observa a interacao do avo com o mundo no qual se insere. O uso do modal "poderia" acentua a questao entre o ser e o querer ser pai, revelando a distancia entre um e outro. O exercicio da paternidade por parte de Halim foge ao esperado socialmente, uma vez que sendo homem ele deveria, conforme a sociedade patriarcal descrita por Freyre, prover e multiplicar para preservar o cla ou, ainda, nao se submeter aos desejos da mulher dele, Zana, aos quais nao resiste porque a ama perdidamente. Uma vez que nao consegue se impor a mulher, que "golpeava ferinamente e decidia tudo, deixando o outro estatelado" (Hatoum 40), Halim vai descrevendo as suas fraquezas e a sua falencia em termos de pertencimento do que se espera dele como chefe de familia.

Durante a narrativa e possivel vislumbrar literalmente o desvanecimento de Halim. Este e conduzido pela maneira como Yaqub fala dele ja nas partes iniciais da narrativa, "por pouco nao esquecera o rosto do pai, os olhos do pai e o pai por inteiro" (11). A medida que a autoridade, e a marca do pai, aos moldes de um "paradigma masculino tradicional," vao sendo recuperadas--, seja nos rompantes de violencia, como ocorreu quando esbofeteou Omar (6); seja na atitude de querer evitar o confronto com a realidade--, percebe-se que Halim vai se tomando cada vez mais transparente na tessitura discursiva, ao ponto de quase desaparecer, culminando na sua morte. Seus momentos, porem, de exercer a paternidade, surgem de uma transferencia geracional, capturada na sua relacao com o neto Nael. Um exemplo disso e quando Domingas conta para o filho que Halim havia pedido para escolher o nome dele, "Nael, ele me disse, o nome do pai dele" (Hatoum 180). Na analise de Solange Rebuzzi, Halim, "quando surge no lugar do pai do pai (grifos no original), ou seja, do avo, aparece mais liberto e mais aberto em suas consideracoes e memorias" (2).

Com o desenrolar do enredo, conhecemos, tambem, a historia de vida de Halim e ficamos cientes de que ele provem de uma familia desmembrada e que nao tivera modelo paterno no qual se espelhar, "um pai... eu nunca soube o que significa... nao conheci nem pai nem mae... Vim para o Brasil com um tio (7), o Fadel. Eu tinha uns doze anos... Ele foi embora, desapareceu, me deixou sozinho num quarto da Pensao do Oriente..." (135). A passagem tanto remete as ideias aqui defendidas da dificuldade de reproduzir modelos nao conhecidos, como pode ser lida, tambem, em termos historico-alegoricos, porque e uma referencia a nocao de estar sem patria, isolado em pais estrangeiro. E possivel ainda ser vista como um eco de um passado anterior em um passado mais recente, haja vista que Yaqub tambem teve seu destino alterado, pois foi arrancado da patria que conhecia como sua e enviado ao Libano contra a sua vontade. Desse modo, a historia de vida de Halim ecoa na de Yaqub como se fosse o cumprimento de um destino, repetindo a negacao as origens e o desterro a forca.

De forma paralela e de certo modo antagonica, ao mesmo tempo que Halim desvanece como figura paterna, dando-se conta das falhas como modelo paterno para os proprios filhos e reconhecendo a falta de desejo de exercer a paternidade, ele tambem vai se descobrindo e se tecendo como pai a partir da proximidade estabelecida com o neto. No entanto, esse reconhecimento ocorre por meio das narracoes das conversas que tem com Nael, ou seja, a palavra assume poder de constituir a paternidade de Halim. Ao mesmo tempo, Nael experimenta, de algum modo, seu aspecto filial, quando ao ouvir as historias do avo consegue vislumbrar uma possivel figura paterna nos fragmentos de memoria que vai recuperando da relacao discursiva que tem com o avo e a mae. Destaca-se que Nael pode ser lido como uma alegoria de todas as criancas sem pai, simbolo de filhos que precisam constituir a si mesmos, tal e qual o proprio avo, mas que ja percebe, desde muito jovem, a fragilidade da fundacao familiar e historica da qual e ao mesmo tempo parte e elemento exterior. Assim, embora Nael se assemelhe aquele filho primevo da literatura brasileira, Moacir, o filho da dor de Iracema (America) e Martim, ele tambem se distancia. Nael e o filho sem pai que reconhece paternidades em historias que ouve, nas recuperacoes orais de sua mae e seu avo, fruindo para si mesmo. Moacir, por outro lado, mesmo simbolizando a propria origem da patria brasileira, esta "condenado a ver a propria terra de longe, com um olhar aculturado e semelhante ao do pai estrangeiro [...] nasc[ido] sob os escombros de uma cultura e uma terra devastadas" (Sussekind 196).

A respeito da maneira como Nael constitui a figura do pai, vemos que esta e edificada em uma dualidade, "um dos gemeos era meu pai," (54) "perguntfei] se Yaqub era o meu pai. Eu nao suportava o Cacula, tudo o que eu via e sentia, tudo o que Halim havia me contado bastava para me fazer detestar o Omar" (152). Desse modo, na ambiguidade, Nael nega e aceita o pai, inversao que tambem vai ser verdadeira mais ao fim do romance quando, ao fazer um balanco, ressalta o espirito calculista e sordido de Yaqub (Hatoum 196). No entanto, uma vez que a figura paterna esta alicercada em dois significantes, ele consegue fazer uma evolucao em relacao a Halim, pois ja nao tem o pai idealizado e inexistente que ecoa dos discursos historicos e sociais, mas um pai particular que e montado de acordo com o fino equilibrio entre os dois irmaos e a duvida fundante de sua origem. Desse modo, na ambiguidade entre aceitar e negar o pai, Nael consegue, como simbolo da nova patria, alicercar-se de modo contraditorio, aceitando a sua raiz hibrida, encontrando-se como patria de si mesmo. A um so tempo, ele nega a necessidade do conhecimento de um modelo a ser seguido e se descobre detentor potencial dele, haja vista que "alguns dos nossos desejos so se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nos mesmos" (Hatoum 196).

Ainda com relacao a Nael, destaca-se que embora realize durante o romance inteiro o dificil exercicio de costurar as memorias da familia para encontrar a sua raiz, ele consegue se libertar das amarras da rejeicao com um julgamento que ele mesmo profere, "hoje, penso [...]. O que Halim havia desejado com tanto ardor, os dois irmaos realizaram: nenhum teve filhos" (196). Ao afirmar isso, ele se apodera das proprias origens e nega, a um so tempo, os dois possiveis pais; afinal, mesmo que tenham sido pais biologicos, nao exerceram a paternidade no sentido do amor. Mesmo que Yaqub ainda tenha provido a ele alguns bens materiais, Nael tambem o nega com essa afirmacao. Ao final, nem Omar, nem Yaqub foram capazes de reproduzir os ideais do patriarcado e, com isso, tambem sao representantes da mudanca deste. Ainda existe a figura de Rania, que toma o espaco do trabalho na casa e se torna provedora, assumindo o lugar do pai. Ha, tambem aqui, um exemplo da reconfiguracao do patriarcado, uma amostra do declinio do dominio masculino.

A respeito das figuras paternas em O fotografo, representa-se com Rodrigo (8) um duplo movimento: por um lado, o seu exercicio como pai de Alice; por outro, o exercicio de ser filho, o modo como reflete sobre a relacao com o proprio pai e como o ve. Na primeira posicao, notamos que Rodrigo nao sente ter preparo para ser pai de Alice, a qual e crianca e e sempre capturada como sedenta da presenca dele, que nao parece pronto para o papel, "beijou [a filha] na testa e livrou-se de seus bracos com um misto de delicadeza e impaciencia" (Tezza 46); "nao tenho mesmo direito a minha filha--e afinal sempre poderei ve-la" (154). Nos trechos supracitados, alem de em outros momentos, verifica-se que a filha e representada como um peso na vida de Rodrigo, algo que e um laco eterno com a esposa, Lidia, mas que ele nao sente como parte de si mesmo. Quando nao capturada com enfado, a presenca da filha e descrita a semelhanca de um animal de estimacao, "Alice esperava-o com o nariz colado a janela [...] um pequeno animalzinho agitado agora surpreendentemente quieta, a cabeca enterrada no seu pescoco" (125) ou "Alice dorme profundamente, como um cachorro [...] um cao que se larga na sombra de um patio para dormir" (173). O modo como observa a filha aponta nao apenas o quanto ele se sente inapto para o exercicio paterno, mas tambem o distanciamento que tem da crianca. Esse comportamento pode ser justificado pelo fato de que Rodrigo, assim como Halim de Dois irmaos, expressa que nao queria ter concebido filhos, "sou um homem naturalmente desligado, ele pensou, nao indiferente. Eu nunca quis ter um filho; e como se estivesse ainda esperando preencher os requisitos minimos da paternidade, o certificado ISO 5000 de pai-padrao" (122). Se por um lado o trecho citado destaca o nao desejo do exercicio paterno, tambem revela a presenca de um imaginario do que significa ser um bom pai, cujos requerimentos minimos Rodrigo sabe que nao consegue cumprir. Desse modo, a paternidade e experimentada como falencia tanto no sentido do cumprimento de algo que ele nunca desejou como, tambem, no de uma inabilidade.

Assim como Rodrigo demonstra a dificuldade de exercer a paternidade, ele nao parece empenhado em ter um relacionamento com o proprio pai. Em diversas situacoes aponta por atitudes e pensamentos que gostaria de "ficar sozinho, em paz" (Tezza 51), em vez de passar tempo com o proprio pai e conversar sobre coisas cotidianas. Segundo Rodrigo, "o velho nao tinha o que fazer na vida" (50). O protagonista esta sempre apontando o desejo de preservar a solidao; entretanto nao sem antes detonar julgamentos aqueles que o rodeiam ainda que destaque que nao se queixava do pai (68). Se as reclamacoes nao surgem na narrativa explicitamente dirigidas ao progenitor, o modo como o descreve revela que ele o ve como uma figura fraca, "tudo em torno do meu pai [...] e mais forte do que ele" (68) e, de certo modo, patetica, "ouviu o pai mijando, emjatos lentos, intermitentes" (71). Esses olhares julgadores do filho servem como gatilhos para que ele se compare ao pai, pois considera que "talvez seja um pouco assim [como o pai]," aproximando-se do velho. No entanto, na sequencia, ele se distancia, "mas nao me aceitei assim como ele se aceitou" (68). A relacao paterna-filial, portanto, pelo ponto de vista do filho, da-se nao pelo que ele repete a partir do pai, mas pelo quanto e diferente dele, voltando-se para uma observacao e uma preservacao de si mesmo.

A narrativa, que apresenta somente titulos com verbos no presente simples e parece respaldar as conclusoes de Beatriz Resende em "A literatura brasileira na era da multiplicidade," com relacao aos aspectos da presentificacao, reverbera as conclusoes de Regina Pentagna Petrillo ao analisar a obra Era dos extremos: o breve seculo XX, de que nessa sociedade "individuos egocentrados sem nenhuma conexao entre si, em busca apenas da propria satisfacao imediata (o lucro, o prazer etc.) vivem numa especie de presente continuo, sem qualquer relacao organica com o passado publico de sua epoca" (2). Nesse contexto, o exercicio da paternidade nao e conveniente, e os pais que buscam uma forma de compreender a propria relacao individual com o mundo acabam nao permitindo que haja espaco para os filhos. Acredita-se que isso respalde a frase (e suas variantes (9)) que ecoa em todo o romance, "a solidao e a forma discreta do ressentimento" (Tezza 9); afinal, ainda que as pessoas procurem a solucao para a solidao ao tentar viver em grupo e constituir familia, ela esta presente nas falencias cotidianas, nas impossibilidades de corresponder aos ideais sociais que sao esperados e na ansia de obter sucesso em todos os papeis sociais que se propoem a desempenhar.

Ainda sobre o modo como Rodrigo ve o proprio pai, temos os momentos em que os pensamentos dele sao flagrados e evidenciam a porcao de desprezo que ele tem pela figura paterna, vendo nesta um pai fragil que necessita de assistencia e que, aparentemente, lembrao a todo instante da morte da mae e de como ele e incapaz de amar o proprio pai como a mae amara o companheiro. O pai, para Rodrigo, era "um pai sem densidade, felizmente; opaco, mas suave; um pai em meio-tom, de pouco contraste; um pai discretamente a espera; uma especie de sobrevivente na penumbra" (Tezza 68). Essa descricao feita pelo protagonista remete ao proprio desvanecimento da imagem paterna, como Yaqub o faz em Dois irmaos. O pai toma-se uma sombra, algo vago, quase uma mancha. A partir da maneira como Rodrigo descreve o proprio pai, e possivel aproxima-lo de Halim, pois assim como o patriarca de Dois irmaos, tambem nao tivera um modelo no qual se espelhar para a construcao da propria paternidade. No entanto, se a Halim esse modelo foi completamente negado, no caso de Rodrigo, ele o tem, mas o enxerga como um pai falido, um modelo "opaco" de pai. Ressaltase ainda que a visao que o fotografo tem do proprio pai, "no espelho via a imagem do velho apoiando-se no batente da porta" (52), e nao so o modo como enxerga o seu progenitor, mas tambem um resquicio da maneira como percebe a si mesmo e a sua impossibilidade de desempenhar o papel de pai de acordo com o que a sociedade espera dele. Tambem Rodrigo, nesse sentido, e um velho a se escorar no batente da porta. Pai e filho sao duas estruturas inaptas a constituirem parametros para que seja possivel o espelhamento da imagem primeva de pai. Eles sao, antes, exemplos da desestabilizacao da figura paterna, reproduzindo o seu desvanecimento. Por meio de iris, a personagem capturada pelas lentes do fotografo, tambem se acessa o desvanecimento de Rodrigo. Em um momento em que ela tenta se lembrar dele, ela nota que "nao conseguia se lembrar exatamente do rosto dele," adicionando que "ele parecia mais um vulto que uma pessoa [...] uma presenca tranquilizadora, que nao ocupa espaco" (74). Com isso, ele se assemelha ao proprio pai e tambem a Halim de Dois irmaos; e capturado como uma pessoa em meio-tom, opaca.

Com relacao a iris, a figura paterna pode ser recuperada de duas formas. A primeira, a partir de seu amante, Joaquim. Ainda que iris nao o compreenda como uma figura paterna em si, ela se sente submissa a ele, "Joaquim e o meu senhor e o meu proprietario, ja ha muitos e muitos anos" (Tezza 74). Embora iris nao se descreva como vitima dele, fica claro que sua figura autoritaria, atrelada ao dominio exercido sobre ela por indiretamente contribuir para o seu sustento, a toma prisioneira. A premissa paterna desse relacionamento, no entanto, e destacada porque o romance coloca nas reminiscencias de iris as conclusoes de seu primeiro analista de que a presenca de Joaquim em sua vida ocorreu porque ela precisava de alguem "para compensar a outra figura paterna" (76). Sua decisao de romper com Joaquim, depois de obriga-lo a lhe pagar mais de dois mil reais, nao apenas aponta o desejo de iris de comecar uma nova vida, mas tambem o desprezo que ela tem por sua figura e o que ele simboliza em sua vida. Essa decisao ilustra uma ruptura com uma estrutura de poder, iniciando com Joaquim, mas se fundindo com o pai, "o meu pai, ela poderia dizer, e mil vez mais rico que Voce... Eu nao preciso dele, ela insistiu, e corrigiu-se: eu nao preciso deles. Eu nao preciso: isso e liberdade" (20). Esse afastamento, portanto, que ilustra o comeco do dia no qual se centra toda a narrativa, se relaciona a segunda figura paterna, ausente, mas nao menos soberana.

Essa figura e o pai biologico de iris, em tomo do qual se centra o misterio de uma parte do enredo. A trama aponta que o fotografo foi contratado para tirar fotos da jovem e entrega-las ainda em seu estado primevo, isto e, sem que fossem reveladas, em troca de duzentos dolares por cada rolo de filme. Ao final da narrativa revela-se que o autor de tal solicitacao e o pai dela. Assim como algumas das figuras paternas emblematicas da literatura brasileira, que mencionamos neste trabalho, o pai de iris e um corpo ausente no romance, mas que se corporifica por sua autoridade, sua lei, espalhada e respeitada tambem pelo fotografo que se submete a ela em troca de dinheiro. Ainda que seu corpo nunca se presentifique, ressurge nas memorias do fotografo na negociacao para que tirasse fotos de Iris--"um homem gordo, de barba" (Tezza 213)--, e tambem em outras instancias, como, por exemplo, quando os leitores tomam conhecimento do abuso sexual sofrido por iris, a partir de suas proprias reminiscencias com o primeiro analista e quando Mara, a atual terapeuta, em um devaneio, reconta o momento em que a paciente lhe revelou a sua iniciacao sexual aos nove anos no quarto do pai, destacando que a descricao que iris fazia daquele momento no passado nao era exatamente "com frieza" (119).

Desse modo, o patriarca e posto como o fantasma que habita as memorias de iris pelo trauma, ao mesmo tempo em que se faz presente na imposicao da tomada de fotos. Uma vez que Rodrigo decide nao obedecer as ordens dele, fazendo revelacoes--tanto fisicas, porque ele revela as fotografias de um dos rolos filmicos, quanto discursivas, pois conta a Iris que fora contratado para fotografa-la--, os dois rompem, em alguma medida, com o circulo de dominacao que o pai exercia sobre ela. As cenas finais do romance, entre a entrega das fotos e a revelacao para iris de quem Rodrigo de fato era, permitem, tambem, que tenhamos acesso a nuance que sugere a violencia da qual iris fora vitima quando crianca e que so contara "para a mae, que a ignorou, e para a analista, e no mesmo instante, nos dois momentos, dez anos entre um e outro, arrependeu-se como alguem que, pelo sopro da palavra, perde a alma para todo o sempre" (Tezza 213). Assim, quando iris decide que ela e o fotografo devem fazer uma especie de acordo para que consigam receber mais dinheiro do pai dela, notamos uma inversao. O pai, que antes era o manipulador, passa a ser o manipulado. Desse ponto em diante, iris se liberta da figura paterna, vendo-a somente como fonte de lucro, e nao como provedor, o que ela tambem renega, mas como forma de demonstrar maior presteza do que a do proprio pai. Essa figura, assim como as demais, vai perdendo a sua forca, tornando-se tambem um pouco ridicula.

Da mesma forma como o pai de iris e essa figura ausente-presente no enredo de O fotografo, ressoando outras representacoes de figuras paternas na literatura brasileira, tambem a presenca do pai de Mara, a terapeuta de iris, e notada em partes do romance como uma figura que, embora morta, se faz presente nas reminiscencias da filha e de Duarte, seu esposo. No entanto, se e trazido ao corpo textual pela lembranca de autoridade e poder--"o velho era nazista" (185), como pensa Duarte--, surge tambem permeado por uma aura de fracasso. Isso e visto no trecho em que Mara lembra do pai a beira da morte resmungando que "o sangue preto do Duarte" nada tinha conseguido diante da forca germanica da raca dele, acrescentando que o pai falava como se fosse "um general das SS" (116). Ao mesmo tempo que despreza o genro, "o sujeito pardo que destruia a familia povoando-a de netas," o velho patriarca e ironizado pela filha por meio dessa lembranca, haja vista que ele tambem so tivera filhas mulheres e que, ao criticar o genro, tambem destilava a critica a si mesmo. Relembrar isso suscitava em Mara "o desejo da gargalhada" (117). O pai deixa de ser o sujeito temido por quem ninguem chorara quando morreu para o sujeito ridiculo e caricato que apenas Mara compreendia e a quem desejara esconder "ate o fun dos tempos, como a um animal de estimacao" (117). Mesmo quando ainda vivo e presente, o velho patriarca ja era visto pela familia como deslocado, fora de seu tempo, sendo necessario que fosse escondido para o mundo como forma de prevenir que outras pessoas tivessem acesso ao "horror de seus preconceitos contra tudo" (117). A morte dessa figura paterna, portanto, pode ser lida no contexto do romance como o desejo de que o patriarcado tambem morra e, com ele, morram tambem preconceitos.

Essa morte simbolica permeia um topico recorrente para ilustrar as ruinas do patriarcado, que e a ansiedade existente diante da ascensao das mulheres. Enquanto Gilberto Freyre, em Sobrados, ilustra a queda do sistema patriarcal a partir do distanciamento entre o velho e o jovem, haja vista que Dom Pedro II foi o "protetor do Moco contra o Velho, no conflito, que caracterizou o seu reinado, entre o patriarcado rural e as novas geracoes de bachareis e doutores" (Freyre 81), Tezza atualiza essa mudanca ao marcar as ansiedades contemporaneas, apresentando personagens masculinas incomodadas com a ocupacao de espacos pelas mulheres. Sobrados aponta a elevacao das figuras jovens, destacando a perda de prestigio da velhice, resultando na diminuicao do patriarcado rural. Essa queda e ate observada por Freyre no cambio linguistico, uma vez que de "Senhor Pai" passou-se para "pais" e ate "papais" (87). Na mesma linha, mais de um seculo depois, Tezza traz essa marca em seu texto quando Duarte reflete sobre o modo como sua filha o trata, simplesmente com o uso de "voce" (187). Se em Freyre a mudanca e o destaque para o sistema patriarcal que passa a ruir, em Tezza o cambio parece surgir ainda mais forte. Ainda que as mulheres nao sejam, necessariamente, descritas em posicao direta de poder, ha muitas evidencias no romance de que elas avancam em diversos sentidos. Alguns exemplos podem ser observados a partir das ansiedades postas pelas personagens masculinas. E o caso de Duarte, que se diz "um marido ornamental" (81) quando coloca sua relacao com Mara em perspectiva, acrescentando que ela ganhava tres vezes mais do que ele, alem de terem tres filhas mulheres, fantasiando que "as mulheres tomam conta do mundo" (82). Com discurso semelhante, um dos amigos de iris, em uma confraternizacao, anuncia que leu uma reportagem que o devastou. Segundo ele, "o mundo e so das mulheres agora," ao que completa se incluindo, "somos seres em extincao. Nao servimos mais nem pra fazer filho. Nao servimos mais literalmente pra porra nenhuma" (138). De certo modo, essas afirmacoes presentes no romance ressaltam o incomodo com uma perda de poder que emerge no enredo nos pequenos momentos de entretenimento, mas que de fato revelam muito do modo como a sociedade brasileira tem assimilado o avanco da luta das mulheres e o enfraquecimento do patriarcado. Assim, o sistema patriarcal como modo de inconsciente coletivo, essa ausencia-presenca, no romance, e enfrentado. Quando emerge, e contrastado com uma forca que nao o elimina em totalidade, mas o combate: "e o triunfo das mulheres sobre o mundo" (117), como menciona Mara ao finalizar a reminiscencia paterna que a acometera enquanto olhava um sapato na vitrine de uma loja. Essa forca aqui descrita, agente de mudanca, e tambem ilustrada no romance com as ansiedades associadas a direcao do pais, o proximo ponto a ser explorado na comparacao entre Dois irmaos e O fotografo.

Como previamente mencionado, ha mais um ponto relacionado a figura paterna em torno do qual os dois romances analisados entram em contato. Ao considerar as duas narrativas no ambito politico, partindo de alguns momentos historicos sobre os quais os romances se debrucam, conforme sugerido no principio desta analise por meio da leitura de Decca, ver-se-a que nas duas obras a questao da figura paterna pode ser relacionada a historia da identidade da nacao brasileira.

Em Dois irmaos, por exemplo, cada filho pode ser lido como simpatizante de um sistema de governo, haja vista as relacoes de Omar com a esquerda, por meio do seu relacionamento com o professor preso, e o apreco de Yaqub pela ordem, ilustrado de muitas formas, mas cujo apice e o episodio no qual ele desfilou fardado (31). O pai, Halim, pode ser visto como o sistema velho--o patriarca--que e pressionado entre duas forcas, falhando no seu papel de moderador desses opostos. Nael, por sua vez, poderia ser observado como um representante da nacao brasileira a partir da imersao e do colapso desses dois sistemas, a democracia que desponta da luta entre a ditadura e os movimentos de resistencia, alem da propria populacao que, por um lado, apoiou a subida dos militares ao poder com as marchas pela familia e liberdade; por outro, mais tarde foi se atentando para as acoes geridas por um estado repressor. Considerando, sobretudo, o fundo historico que a narrativa traz a tona, vemos que a leitura do Brasil como um menino orfao e perdido que, no entanto, aprende a circular e circundar a ordem, transitando em duas instancias, observado na figura de Leonardo de Memorias de um sargento de milicias, e agora transportado para a figura mais complexa e problematizada de Nael. Este tenta avaliar a si mesmo e a sua constituicao historica a partir do recontar da historia, ato que, como sabemos, e extremamente necessario em paises que passaram por muitos anos de ditadura, ficando tantos anos em reclusao silenciosa.

Por sua vez, em O fotografo, ha inumeras passagens nas quais as personagens se questionam se vao, ou nao, votar no Lula, "o senhor vai de Lula?" (188), "voce vai votar no Lula," (215), "minha mulher vai votar no Lula. Eu nao sei ainda" (216). Tambem iris, quando pensa em colocar a propria vida em ordem, que comecaria por parar de fumar (pelo menos maconha) e em seguida parar de beber e retomar os estudos de ingles alem da faculdade de Historia, aponta o voto em Lula em uma sequencia de aprumos para a propria vida, "Fazer as pazes com a analista. Votar no Lula. Assumir definitivamente os valores da civilizacao ocidental" (Tezza 28-29). O imaginario da eleicao de 2002 permeia todo o romance, desde as personagens centrais, como visto nos exemplos anteriores, as figurantes, como um taxista que tem em seu carro a estrelinha do PT (188). A mencao a essa questao coloca em pauta os diversos significados da candidatura de Luiz Inacio da Silva e de sua trajetoria de homem nordestino, simples e trabalhador ascendendo ate a presidencia do Brasil (10).

Alias, por uma parte da populacao, como aponta Perry Anderson em "O Brasil de Lula" (2011), ao falar de Fernando Henrique Cardoso e seus seguidores:
      Ainda dominantes na intelligentsia e na midia, Lula encarna as
   tradicoes mais retrogradas do continente, seu governo sendo apenas
   outra variante do populismo demagogico de um lider carismatico, que
   despreza tanto a democracia quanto a civilidade, comprando o favor
   das massas com caridade e bajulacao. No Brasil, esse foi o legado
   desastroso de Vargas, um ditador que voltou ao poder pelo voto
   popular como o 'pai dos pobres', e cometeu um suicidio
   melodramatico quando a face criminosa de seu regime foi exposta. Na
   Argentina, o reinado de Peron tinha sido ainda mais desastroso e
   corrupto. Nao menos manipulador e autoritario, mas em pequena
   escala, o lulismo e--no veredicto de Cardoso--'uma especie de
   subperonismo'. O elemento de rancor partidario nessa descricao nao
   e nenhum misterio; ter sido tao ofuscado na estima popular por Lula
   foi um duro golpe para seu antecessor. Mas, expresso de maneira
   mais moderada, a classificacao basica nao soa tao estranha assim e
   pode ser ouvida tanto entre os que respeitam a memoria de Vargas
   quanto entre aqueles que o detestam. (33)


Nesse sentido, de forma positiva ou negativa, Lula foi recuperado no imaginario coletivo como uma figura mais contemporanea do pai dos pobres, alcunha que ate entao remetia a Getulio Vargas. Acredita-se ainda que seja possivel fazer uma leitura extensiva que se aplica tambem a um toque de pessimismo associado a figura de Lula no periodo de campanha. Isso devido a sua historia em conjunto com a pouca experiencia politica e a falta de bons lideres (pais) da nacao brasileira que pudessem lhe servir de parametro. Para isso, pode-se notar a direcao da voz narrativa de O fotografo diante da representacao da paternidade falida. Nas palavras do pai do fotografo, a eleicao do inexperiente Lula era a receita para um "desastre" (Tezza 50). A esse comentario, a personagem ainda acrescenta em tom profetico: "escreva o que eu digo" (50). No periodo eleitoral, essa visao de catastrofe foi tambem fomentada pelo uso da imagem de Regina Duarte, famosa atriz brasileira, que, durante a campanha de 2002, afirmou ter medo do PT. (11) O romance, de alguma maneira, retoma essas ansiedades do periodo (12) por meio das tensoes entre as geracoes. Seja iris afirmando o voto em Lula, seja o pai questionando o filho a respeito de seu voto, acentuando a atmosfera de medo do periodo. (13)

Para encerrar, em ambas as obras, o extrato mais pungente e aquele relacionado a discussao de que o pai--como figura maxima--especie de deus (como apresenta Chevalier e Gheerbrant), em tempos pos-modernos e uma figura que esta em colapso, em crise, a desvanecer, perdendo a sua forca e sendo retratada pelas obras aqui analisadas como falha e rota. No entanto, esse movimento nao parece se refletir nos filhos como uma heranca, mas como modo de partida para, em um primeiro momento, questionar essa paternidade falha e, mais tarde, sinalizar a busca por alternativas a falta de modelos, resultando em uma maior independencia por parte dos filhos. Nesse sentido, ve-se o movimento de Nael ao tentar recolher e conciliar os cacos desse enorme mosaico que o forma, buscando nao apenas o encontro com as suas origens, mas a independencia delas, aceitando e negando a figura paterna. E possivel que o tracado das diversas figuras paternas da literatura brasileira, como apresentamos, especialmente por meio do foco em Dois irmaos e O fotografo, auxilie-nos a responder algumas perguntas acerca da maneira como representamos a nos mesmos e como nos abarcamos como nacao. Enquanto esse tracado e delineado, temos, nas obras analisadas, por meio de iris e Nael, filhos que conseguem evoluir desde o estado no qual se encontrava Leonardinho e, embora com menos ginga e graca, comecam a sinalizar outros caminhos possiveis para compreendermos as nossas origens e transforma-las.

Cristiane Barbosa de Lira

University of Iowa

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(1) Ver Silviano Santiago, "O entre-lugar do discurso latino-americano" e "O cosmopolitismo do pobre"; ver tambem Roberto Schwarz, "Nacional por subtracao".

(2) Todas as referencias ao romance Dois irmaos, de Milton Hatoum, presentes neste trabalho sao da edicao da Companhia das Letras de 2006.

(3) Marilena Chaui comenta que "em politica, ha acoes e acontecimentos com forca para se tomar simbolicos. E assim que podemos contrapor dois momentos simbolicos que marcaram a politica brasileira entre 1990 e 2002: o primeiro nos leva de volta ao 'bolo de noiva', que inaugurou a era Collor; o segundo, a pergunta singela feita pelo recem-eleito presidente da republica aos ancoras do Jornal Nacional da Rede Globo, na noite de 28 de outubro de 2002 [...]. O 'bolo de noiva' simbolizou a entrada do pais no modelo neoliberal. O pronunciamento e a pergunta do novo presidente da republica simbolizaram a decisao de sair desse modelo. Entre esses dois momentos, intercalaram-se os governos de Femando Henrique Cardoso, que tomaram esse modelo hegemonico ao realizar a chamada reforma e modernizacao do Estado, isto e, a adocao do neoliberal ismo como principio definidor da acao estatal (privatizacao dos direitos sociais, convertidos em servicos vendidos e comprados no mercado, privatizacao das empresas publicas, direcionamento do fundo publico para o capital financeiro etc.)" ("Uma nova classe trabalhadora").

(4) Rex P. Nielson em "Fading Fathers: Writing through Patriarchy in Contemporary Brazilian Literature" (2010) argumenta que Lavoura arcaica (1975) e uma obra de resistencia uma vez que o romance "not merely reflect a domestic world of patriarchy but refract it, that is [...] reveal[s] the monological vision of patriarchal authority and simultaneously tamper[s], distorts], double[s], and deflect[s] that authority" (17).

(5) Lembrando que a figura paterna de Lavoura arcaica e analisada em diversos trabalhos como autoritaria, simbolo do patriarcado, alem de, em muitas analises, ser considerada em termos psicanaliticos (sobretudo Freud e Lacan), como o desvio do desejo de Andre, personagem principal apaixonado pela irma, que e assassinada pelo pai. Ver, por exemplo, os apontamentos de Fabiana Rached de Almeida-Abi em "A imagem do pai em Lavoura arcaica" (2009).

(6) Nael conta que viu quando Halim pegou o filho que fingia dormir e lhe deu uma bofetada (68).

(7) O tio de Halim que o abandonara pode ser lido como mais uma figura paterna, de emprestimo, que falha com Halim. Desse modo, ele passa pelo abandono paterno mais uma vez, vendo-se completamente sozinho em um pais novo. Os modelos de paternidade aos quais teve acesso sao todos de negacao, ausencia e abandono.

(8) Adota-se aqui o nome Rodrigo como o fotografo e chamado por Otavio, um deputado que ele foi fotografar e que descobriu se tratar de um amigo seu de infancia. Embora durante a maior parte do romance o fotografo nao seja nomeado, aqui ele nao so recebe um nome como, mais tarde na narrativa, divaga sobre isso ao refletir sobre si mesmo, "nao ha nada espetacular sobre mim; nem mesmo o meu nome (o deputado so acertou o segundo nome, pelo qual o fotografo nunca foi chamado)" (Tezza 124).

(9) A mesma frase aparece em varios momentos do romance intercalada por pensamentos das personagens. Em dois outros momentos, porem, ela surge com variacoes, "A solidao e a forma suave do ressentimento" (18) e "A solidao e o charme discreto do ressentimento" (191).

(10) Vale destacar que as origens de Luiz Inacio Lula da Silva geralmente foram utilizadas nas diversas campanhas das quais participou (1989, 1994, 1998, 2002 e 2006), contudo sua imagem mudou muito entre uma campanha e outra. A respeito disso ver "A trajetoria imagetica de Lula: de lider sindical a presidente da Republica" de Cristiane Sabino Silva e Paulo Cesar Boni (2005).

(11) Sobre a imagem de Regina Duarte e a famosa frase proferida durante um programa eleitoral do concorrente de Lula, Jose Serra, ver o artigo de Patricio Dugnani, "Medo e midia na pos-modernidade: o discurso do medo na sociedade de consumo em duas eleicoes presidenciais" (2015).

(12) Em abril de 2018, enquanto este artigo estava sendo avaliado para publicacao, o ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva foi condenado e preso. Parece-nos interessante que ambos os contextos, embora distantes temporalmente, alimentem o mesmo sentimento de medo associado a figura de Lula. Se, em 2002, conforme apresenta o romance, o medo era, em parte, fomentado pela inexperiencia de Lula, agora, em 2018, parece se vestir de duas faces da mesma moeda. Por um lado, o medo da oposicao de que Lula chegue, novamente, a presidencia do Brasil, por isso um julgamento rapido e apenas com evidencias circunstanciais. Por outro, tomando de emprestimo as palavras de Marilena Chaui na Conferencia Lula Livre, realizada em Sao Paulo pelo PT, "o odio e a violencia [que] vem de cada um que tem no seu ser a ideia de que e pela competicao que se vive a vida. E isso que o capitalismo produz. E este odio vai escolher algo para se expressar, dai a perseguicao a Lula" (qtd. in "Efeitos do neoliberalismo").

(13) Lula, em entrevista concedida a Emir Sader e Pablo Gentili, ao falar sobre uma carta recebida por um pai que agradecia a formacao do filho dele em Biomedicina, comenta que "essas coisas [o numero de universidades e o acesso dos mais pobres ao ensino superior] aconteceram porque, na sua sabedoria, o povo conseguiu, depois de tanto medo, depois de tanto preconceito, testar um deles para governar este pais" ("O necessario, o possivel e o impossivel"). Para nos, de algum modo, o ex-presidente esta referenciando, ainda que indiretamente, a famosa frase que tanto reverberou no periodo. Embaixo da retorica do medo havia tambem muito preconceito de que Lula chegasse ao cargo de maior poder administrativo do pais.
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Author:Barbosa de Lira, Cristiane
Publication:Chasqui
Date:May 1, 2019
Words:10087
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