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A PECULIAR REPRESENTATION OF THE FEMALE BODY IN THE SOMALI DIASPORA/ UMA REPRESENTACAO SINGULAR DO CORPO FEMININO NA DIASPORA SOMALI.

Recentemente, em 14 de outubro de 2017, um violento atentado a bomba em Mogadiscio resultou em mais de 900 vitimas, entre mortos (mais de 300), feridos e desaparecidos. Porem, ainda que alguns dias depois as redes sociais tenham suscitado comocao, com a divulgacao das tags JeSuisSomalie, PrayForSomalia e SomosTodosSomalia, a cobertura jornalistica ficou muito aquem daquela dispensada aos ataques ocorridos, tambem este ano, em capitais europeias, como Londres ou Barcelona.

Com efeito, as declaracoes de condenacao da comunidade internacional so apareceram com dois dias de atraso, na segunda-feira, enquanto que, no Brasil, os noticiarios deram mais destaque a assuntos politicos nacionais e aos incendios em Portugal. E dificil entender essa dinamica editorial, pois, ainda que historicamente Portugal nos pareca mais proximo do que a Somalia, a tragedia dos incendios, apesar de ocasionar a morte de dezenas de pessoas, pelo que se investigou, teria causas naturais, talvez inevitaveis, ficando distante do que provocou o massacre na Somalia: uma acao "humana", planejada contra toda uma populacao.

Na verdade, o que acontece e que, aos olhos do Ocidente, a Somalia segue praticamente invisivel, a nao ser esporadicamente, como exemplo de seca, fome, miseria e pirataria. Assim, muitos ignoram que, ha cerca de 30 anos vivenciando o caos, a Somalia permanece com seu territorio controlado por milicias e ve prolongado o estado de guerra civil, alimentado por extremistas do Al-Shabad, grupo jihadista que teria sido o responsavel pela recente chacina--como tambem por atentados anteriores que, comportando um menor numero de vitimas, nem chegaram a ser noticiados.

Mas quem, de fato, conhece os meandros geopoliticos--tecidos por colonialismo, racismo, descaso e decisoes arbitrarias da diplomacia internacional--que caracterizam a historia da Somalia e que nos conduzem ao massacre do dia 14/10?

Sobre a situacao da Somalia, em uma entrevista de 2007, Cristina Ubax Ali Farah, autora de Madre piccola, que analisaremos neste trabalho, ja comentava:

Eu nao sei o que sera da Somalia, mas ja sao dezesseis anos de guerra civil. Uma parte consistente da comunidade somali vive no exterior e, alem disso, para quem ficou la, ha ainda essa onda de fundamentalismo islamico que, pessoalmente, me assusta muito, porque e, obviamente, uma instrumentalizacao politica. Para mim, se nao for criada uma consciencia politica e uma consciencia artistico-intelectual que permita trabalhar com esses temas, sera dificil, para a Somalia, sair da situacao atual. (Ali Farah apud Comberiati, 2011: 65-66) (1)

Nesse sentido, como outras escritoras da literatura pos-colonial italiana com origens na Somalia, Ali Farah demonstra "consciencia artistico-intelectual" e assume o compromisso de manter a Somalia viva, narrando-a nos seus livros, que abordam, seja a historia da colonizacao italiana na Africa oriental, sejam suas consequencias na contemporaneidade, como, por exemplo, a diaspora somali, seja na Italia, sua antiga metropole, seja em outros paises e continentes.

Dessa maneira, a producao da escritora reflete a sua propria experiencia pessoal como sujeito migrante, tendo em vista que essa e marcada pelo deslocamento entre diversos paises. De fato, Cristina Ubax Ali Farah nasceu, em 1973, na Italia, terra de sua mae, mas, em 1976, a familia se mudou de Verona para a Somalia, terra natal de seu pai. Mais tarde, em 1991, com o inicio da guerra civil, ela fugiu de Mogadiscio para Ecs, na Hungria. Dois anos depois, se transferiu para Verona e, a partir de 1997, viveu por muitos anos em Roma, onde se formou em Letras e foi uma das fundadoras da revista de literatura de migracao El-Ghibli. Atualmente, Ali Farah mora em Bruxelas, mas continua a escrever para jornais e periodicos italianos, como La Repubblica, Nigrizia e Internazionale. E, em 2007, ja experiente como poetisa e contista, abordando temas como migracao, mulheres, cultura e tradicoes da sua Somalia--a qual, de diferentes modos, sempre procurou dar voz--publicou seu primeiro romance, Madre piccola (Maezinha), que recebeu varios premios (2).

Madre piccola se constroi em nove capitulos que altemam, como titulo, o nome de seus tres protagonistas: a somali Barni, a italo-somali Domenica Axad e o somali Taageere. Barni e Domenica sao primas coetaneas por parte de pai e cresceram juntas em Mogadiscio ate a partida de Domenica para Roma, com a mae italiana, aos nove anos de idade. Mais tarde, aos vinte e um, ela volta a Somalia, com o intuito de rever o pai e a prima, mas, com o inicio da guerra civil, sua permanencia dura apenas tres dias, e seu deslocamento fica restrito a embaixada italiana, de onde retorna ao aeroporto, para embarcar novamente para Roma. Enquanto isso, Barni, orfa dos pais, se muda para a Italia, mas as duas nem chegam a se ver, pois, a partir daquela experiencia frustrada, Domenica comeca a vagar, sem um destino preciso, por varios paises, seguindo os fluxos da diaspora somali. Dez anos depois, as primas se reencontram: Domenica esta gravida de Taageere, que conhecera nos Estados Unidos, e Barni, que havia se estabelecido como obstetra em Roma, fara o parto e sera escolhida como habaryar (madre piccola) do menino Taariikh, cujo nome quer dizer historia. Assim, ao menos em parte, as primas voltam a unir, na Italia, os fios de um passado indelevelmente marcado pela campanha colonial italiana.

Historicamente, a colonizacao da Somalia teve inicio em 1905, mas a empreitada colonial italiana na Africa comecou em 1882, na Eritreia, e, nos anos '30 do seculo XX, a Libia e a Etiopia tambem foram conquistadas. Com a derrota na Segunda Guerra mundial, a Italia perdeu todas as suas colonias, mas, no caso especifico da Somalia, houve um prolongamento da influencia politico-cultural da metropole, pois, se o imperio colonial italiano teve uma conclusao oficial com o Tratado de Paris, dois anos depois, em 1949, as Nacoes Unidas confiaram a Italia a Administracao Fiduciaria da Somalia (AFIS), que durou ate 1 de julho de 1960, quando a Somalia se tornou independente. A partir dai o pais foi governado pela Liga de Juventude Somali ate o assassinato de seu lider, em 1969, quando, com um golpe militar, o ditador Siad Barre assumiu o poder. Em 1991, Barre, apelidado de Af Weyne (Boca Grande), foi deposto, estourou a guerra civil e nao houve mais estabilidade politica, apesar de alguns esforcos, a partir de 2009, de se estabelecer um governo central.

Em Madre piccola, Ali Farah recupera parte dessa historia e, alternando os narradores, em um mosaico de relatos que se aproximam da oralidade, revela as sequelas do colonialismo sobre os somalis, tanto na Somalia quanto na diaspora. Para o pesquisador Daniele Comberiati: "A escritura tem, entao, um valor testemunhal importante, se torna um modo de dar voz a quem, daquela historia, nunca pode falar" (Comberiati, 2011: 37) (3).

Entre os efeitos contemporaneos daquele passado, esta a errancia dos somalis, que, em sucessivas ondas de migracao, se transferem de sua terra natal para diferentes destinos: para campos de refugiados na Africa, para a antiga metropole, para outros paises europeus e ate mesmo para o Canada (4), em um movimento continuo, para o qual ainda nao se tem solucao. Ali Farah, em Madre piccola, tematiza esses deslocamentos e denuncia--por meio de personagens forcados a diaspora, seja apos o golpe de estado de Siad Barre, seja, definitivamente, com o inicio da guerra civil--a responsabilidade historica dos ex-colonizadores em relacao a dispersao compulsoria dos somalis.

Constroi-se, dessa forma, uma narrativa de existencias amputadas, de destinos interrompidos, de pertencimentos perdidos ou impedidos, entre os quais se destaca o exemplo de Domenica Axad, a experiencia mais extrema e complexa de todas, como anuncia seu nome duplo, metade italiano, metade somali, que da titulo ao primeiro capitulo do livro. Na verdade, esse segundo nome (Axad) e acrescentado por Barni, que percebe que a prima sente vergonha de seu nome italiano, quando na terra de seu pai, como narra Domenica: "Entao eu lhe digo:--Abbaayo, eu nao quero mais me chamar assim, ter esse nome que faz rir a todos. E ela diz:--Nao se preocupe, de hoje em diante voce se chamara Axad (5), como o principio". (Ali Farah, 2007: 3) (6)

No entanto, o uso dos dois nomes, que poderia resultar na afirmacao positiva de uma identidade composta, longe de ser a solucao para que a personagem se sinta completa, so acentua sua biparticao identitaria e, nos dois outros capitulos em que a italo-somali e a voz narrante, em um deles o titulo e apenas Axad e, no outro, simplesmente Domenica, o que demonstra a permanencia da ruptura.

Assim, a partir do inicio da guerra civil, que ela presencia em Mogadiscio, como mencionamos, a personagem leva seu corpo feminino fragmentado, sucessivamente, da Italia para a Holanda, para a Inglaterra, para a Finlandia, para a Alemanha e para os Estados Unidos, sentindo-se, contudo, sempre inadaptada e alienada, como revela na seguinte passagem:

Sabe aqueles anos? O que eu nao consigo fazer e descrever os lugares. [...] Para mim, para nos todos, era indiferente. Voce so tinha que se habituar com as placas diferentes, os precos diferentes e reconstruir o mapa: mapa das ligacoes com os outros e lugares-chave onde se encontrar, onde telefonar, onde comprar, como se perenemente transportados na bolha de ar [...]. Alienando-nos, viviamos. (Ali Farah, 2007: 112) (7)

De fato, sua dupla origem--pai somali e mae italiana--ao inves de testemunhar a riqueza do encontro entre culturas, intensifica seu sentimento de inadequacao, visto que e discriminada tanto na Somalia, quanto na Italia.

Na Somalia, as vezes ela era chamada de missioni, mas so percebe que era um insulto, quando descobre a origem do uso dessa palavra, como explica a seguir:

Discriminados pelas leis raciais, os italosomalis das geracoes anteriores eram criados geralmente pelos missionarios, completamente isolados do resto da populacao. Eis porque a denominacao tinha um valor negativo, ja que era ligada a ideia de paternidade nao reconhecida. (Ali Farah, 2017: 227) (8)

Ou seja, embora Domenica nao tivesse, como a maioria dos italo-somalis, pai italiano e mae somali, e fosse de uma geracao posterior, o epiteto negativo ainda a atinge, demonstrando a permanencia do mesmo, ao longo de decadas, como heranca do colonialismo.

Cabe esclarecer ainda que, no inicio da campanha colonial na Africa, a convivencia entre colonizadores e nativas foi tolerada e ate mesmo incentivada, como comenta Igiaba Scego: "o paralelismo entre a terra a ser penetrada e a mulher a ser possuida foi posto em acao quase que imediatamente. As mulheres eram terra conquistada. Eram o botim de guerra que o Estado [...] havia prometido aos soldados [...]". (Scego, 2014: 105-106) (9).

Expandindo a discussao e tratando de outros imperios coloniais, em Cartografias contemporaneas: espaco, corpo, escrita, Sandra Goulart de Almeida tambem chama a atencao para esse "paralelismo" entre o territorio colonial e o corpo feminino, quando afirma que:

[a] terra conquistada e simbolizada por meio da imagetica do corpo feminino, remetendo a um intricado paralelo entre o encontro dos dois mundos e as oposicoes de genero em termos binarios, justificando assim a empreitada colonizadora e supostamente civilizatoria. Mais do que isso, estabelecese, dessa forma, um equivocado movimento metonimico que desliza do dominio territorial para a possessao das mulheres nativas [...]. (Almeida, 2015:97)

Porem, mais tarde, a Italia, pressionada a promulgar as Leis Raciais, passou a lancar diversos decretos que proibiram as relacoes conjugais entre italianos e nativas, anularam os casamentos ja existentes e vetaram ao pai italiano o reconhecimento dos filhos mesticos, que eram confinados em comunidades missionarias, onde eram educados e obrigados a trabalhar. Dai o termo missioni, utilizado na Somalia.

Tambem pertinente e pouco divulgada e a denuncia do escritor Nuruddin Farah, em Rifugiati: voci della diaspora somala, de que: "O colonialismo italiano foi desastroso, humilhante [...], visto que, enquanto colonizadores, [os italianos] aviltaram as pessoas que subjugaram, considerando-as nao como seres humanos, mas, como eles diziam, 'negros', criaturas primitivas, sem civilizacao, semelhantes a animais da selva". (Farah, 2003: 98) (10)

Alem disso, em outras passagens, Domenica e chamada, tambem pejorativamente, de mezzo gaal (meio branca) ou mezzo western (meio ocidental), reforcando a ideia de metade, ou seja, de fragmentacao ou incompletude. Ampliando a reflexao, seu corpo mezzo gaal seria a propria representacao da Somalia apos a colonizacao italiana, visto que, segundo o estudioso argelino Karim Metref:

Tambem os sucessos e as desgracas do seu pais sempre eram mezzo gaal, pelo menos desde que [esse] sofreu o estupro cometido pela chamada aventura (ou desventura, depende dos pontos de vista) colonial italiana no Chifre da Africa. Mais ou menos como aquela empresa italiana que, por um lado, fazia as estradas asfaltadas para construir o futuro do pais, mas, por outro, escondia ali lixo toxico para envenena-lo definitivamente. (Metref, 2007) (11)

Ja na Italia, por outro lado, quando Domenica vai a escola, o motivo de discriminacao e sua "cor em abundancia e o emaranhado de cabelos crespos" (Ali Farah, 2007: 234) (12), que ela herdara do pai, como narra a protagonista:

Ser metade somali se tornou um enorme problema, ja que eu tinha sempre que "justificar" que minha proficiencia linguistica e minha cor de pele nao eram incompativeis [...]. Eu estava acostumada a perguntas parecidas, porem, no sentido contrario [...]. Quando eu era crianca, os meus primos me achavam branca como a neve e, revendo-me depois da guerra, a primeira coisa que todos notaram e que eu lhes parecia muito mais escura do que como se lembravam de mim [...] dando a entender como o contexto circunstante modifica a percepcao da realidade. A mudanca para a Italia ocasionou a remocao total do meu breve passado. (Ali Farah, 2001: 243) (13)

O "breve passado", ao qual se refere, seria sua primeira infancia, vivida na Somalia em companhia dos pais e de Barni. No entanto, embora haja lembrancas felizes, a personagem nao pode sequer lamentar saudade de uma epoca de completude, porque, desde sempre, sua formacao foi binaria. Ate mesmo a matricula na escola somali, visto que estava impedida de frequentar a escola italiana em Mogadiscio, foi intercalada com as aulas em italiano da Irma Ernestina, como explica da seguinte forma:

Como o nivel de instrucao nas escolas somalis era muito fraco, meu pai Taarikh e seu irmao Sharmaarke, tendo recebido uma educacao em italiano, decidiram oferecer as suas filhas a mesma oportunidade. Nas aulas da Irma Ernestina, eramos todas meninas de idades semelhantes com a caracteristica comum de sermos filhas de pais que haviam estudado na Europa. (Ali Farah, 2007: 226-227) (14)

De fato, pelo que indica a narrativa, na geracao dos pais de Barni e Domenica, quando a Somalia era um protetorado italiano, eram comuns as bolsas de estudo para o exterior, principalmente para a Italia, como parte da "preparacao" dos somalis para a independencia, sendo que, antes disso, no periodo colonial, todas as escolas na Somalia eram italianas. No entanto, nos anos '70, quando as primas comecam a estudar, as escolas italianas remanescentes so podiam ser frequentadas por italianos.

Assim, embora filha de uma italiana, Domenica nao podia ser matriculada, porque ainda nao tinha a cidadania, visto que, como ela diz: "Na epoca, nao requerer os documentos italianos era motivo de orgulho para meu pai" (Ali Farah, 2007:224)

Tambem em relacao a religiao, a personagem se divide entre as duas influencias culturais, como veremos no excerto, e experimenta sentimentos de culpa por "oscilar" entre as duas fes monoteistas:

Minha mae era, e imagino que ainda seja, catolica praticante, me deu o nome de Domenica (15) e ia a missa todos os domingos, mesmo em Mogadiscio, onde certamente nao era influenciada pelo ambiente. Hoje acredito que [...] a religiao fosse uma tentativa de proteger a propria identidade, de preserva-la da confusao. Eu, ao contrario, continuava a oscilar na escolha da minha devocao: estudava o Corao, cumpria o Ramada por algumas horas junto com meus primos e, ao mesmo tempo, acompanhava minha mae a missa. (Ali Farah, 2007: 237) (16)

Como exemplos das ambivalencias sobre o corpo da personagem, duas experiencias de reacoes fisicas, separadas por cerca de cem paginas, podem ser lidas como simbolos de sua inadaptacao e/ou de resistencia, seja na Somalia, seja na Italia.

Na Somalia, diz a protagonista:

O tio Foodcadde [...] as vezes nos leva ao interior para beber leite de camelo. E bonito ali, a areia que nunca acaba e o sol que queima. Dentro da cabana, ao contrario, e fresco, e o leite fica em recipientes grandes. Servem o leite, um copo de lata por cabeca, para nos criancas. [...] O leite tem um sabor doce e e tambem um pouco denso. A primeira vez que tomei, me deu dor de barriga. Segundo meu pai, minha mae me mima com os requintes de italiana e, por isso, eu nao tenho o estomago dos nomades. Eu digo que, com o tempo, vou me habituar. Ao leite de camelo, quero dizer. (Ali Farah, 2007: 5) (17)

Por outro lado, na Italia, para onde volta apos transitar por varios paises, seguindo os rumos da diaspora dos somalis, Domenica interpreta suas nauseas--na verdade devidas a gravidez--da seguinte forma: "desde que voltei, todas as manhas sinto a necessidade de vomitar. Como se o meu corpo rejeitasse estes meus lugares". (Ali Farah, 2007: 133) (18)

Porem, o exemplo mais contundente dos efeitos de sua dupla origem sobre sua corporeidade e a pratica da autoflagelacao, que surge em um momento de extrema angustia, quando a personagem se questiona: "Eu deveria continuar a me sentir inoportuna sempre e em qualquer lugar? [...] Eu pertenco? Porque dosar, ajustar os ingredientes que nos compoem e muito, muito perigoso". (Ali Farah, 2007: 123) (19)

Domenica desenvolve, entao, o habito de ferir a propria pele, o que procura explicar, por escrito, para uma terapeuta da seguinte forma:

Posso lhe dizer que o fato de me cortar se tornou quase um prazer morbido, comprava as laminas no supermercado, planejando o lugar e a hora em que as usaria. Eram, na maioria, feridas lineares, cortes nitidos, dos quais observava o sangue fluir, incisoes que eu reforcava meticulosamente, ate desenhar uma teia de aranha de fios finos sobre a pele. Seria, talvez, para me declarar, que eu me feria com tanto furor? Nao e para marcar uma presenca que existem os ritos de iniciacao? (Ali Farah, 2007: 245-246) (20)

Sandra Goulart de Almeida, no livro ja citado, ao abordar poemas de Adrenne Rich e Aurora Levins Morales, formula uma analise, com base nos estudos de Boehmer (2005) (21), que parece dar conta da escritura de Cristina Ali Farah. Ela afirma que:

O corpo da voz poetica de Rich inaugura um ato de resistencia, nos termos propostos por Boehmer, que descreve "os corpos das mulheres como espaco de protesto", destacando a corporificacao das historias de deslocamento (2005, p. 255). Em alguns casos, as narrativas da diaspora de autoria feminina falam por meio de um corpo gendrado, bem como elaboram um discurso de resistencia por meio do corpo da escrita e tambem da escrita desse corpo gendrado e diasporico [...]. (ALMEIDA, 2015: 96)

De modo similar, o corpo de Domenica se torna "espaco de protesto", e as marcas das incisoes --que formam, como descrito, "uma teia de aranha" --mimetizam os percursos diasporicos seguidos apos ter sido, com o inicio da guerra civil, "evacuada de Mogadiscio", como narra a prima:

Vida de diaspora, peregrinacoes sem destino. Como aconteceu? Eu te contava da derradeira viagem. Cheguei em uma cidade que devia ser evacuada, a Mogadiscio do meu nascimento. Foi Libeen que me salvou. [...] Voltamos para Roma juntos, no ultimo voo de linha. So uma pequena pausa. [...] Eu buscava, dentro de mim, as raizes das minhas existencias. Queria recuperar, desordenadamente. Desordenada foi a minha vida. (Ali Farah, 2007: 98, grifos nossos) (22)

Domenica, entao, apos a "pequena pausa" em Roma, inicia seu percurso diasporico em companhia do primo Libeen, seguindo para o Norte: ele, somali, com documentos falsos; ela, italo-somali, com os documentos italianos validos, como narra a seguir:

Nao lembro quase nada daquela viagem. O fato e que Libeen viajava com documentos falsos e eu nao precisava me preocupar com os meus. Os meus documentos--documentos italianos--eram validos, sempre e em qualquer lugar. Sao documentos do forte (23). Libeen? Foto diferente, rosto diferente. A toda hora eu achava: vao perceber. Mas, para os policiais da alfandega, os negros pareciam todos iguais. Eu, ao contrario, achava que iriam perceber. (Ali Farah, 2007: 100) (24)

Ai esta a proposta inusitada e original de Ali Farah: a personagem Domenica vive a diaspora de modo singular, tendo em vista que nao sofre a principal limitacao dos sujeitos diasporicos contemporaneos, ou seja, a falta de documentos em dia, o que os forca a uma vida de refugiados e/ou clandestinos. O romance adquire maior intensidade em sua denuncia, porque, se por um lado, para Domenica, a posse dos documentos facilita seus deslocamentos e a possibilidade de trabalhos regularizados, por outro, intensifica e cela definitivamente sua identidade cindida.

Assim, de modo inovador, a autora escolhe a situacao de refugiada para uma personagem que tem a cidadania europeia. E Domenica, em silencio, ve seu corpo mestico em deslocamento, sem uma meta precisa, como conta a seguir:

Eu e Libeen de carro rumo ao Norte. [...] Moleza da viagem, sem dizer nada, esvaziava os meus pensamentos. [...] Tinha muito o que escutar. Libeen me contaria. Dos nossos projetos, do futuro. De como tudo seria sempre imprevisivel. [...] E eu podia parar em qualquer lugar, indiferentemente. [...] Menos deixar me render ao comum, prisao de imobilidade. (Ali Farah, 2007: 101) (25)

Provisoriamente na Holanda, a personagem procura a companhia de outros italo-somalis e revela: "Eu estava curiosa para entender como tinham resolvido o dilema. Eles eram cheios de contradicoes". (Ali Farah, 2007: 110) (26)

Sem respostas para "o dilema", como percebemos, ela passa a narrar suas primeiras experiencias de trabalho:

[C]omecei a trabalhar. Trabalhos variados: ensinar italiano, garconete em pizzaria. Achava facilmente trabalhos que tinham a ver com a Italia. A parte de mim que nao tinha a ver com a aparencia: naqueles locais nao se faziam muitas perguntas. Bastava que eu declarasse minha origem. (Ali Farah, 2007: 111) (27)

Depois da Holanda, Domenica passa breves periodos na Finlandia e na Inglaterra. E, contudo, na Alemanha que ela define um projeto de trabalho: filmar a diaspora somali, como vemos no excerto:

Apos Londres: trama intricada de deslocamentos. [...] Conheci Saciid Saleebaan na Alemanha. Tinha [...] um projeto fascinante. A ideia louca de filmar a diaspora somali. Um video, um documentario, um filme, ainda nao sabia; de certo so tinha o projeto. [...] Eu, que via a passagem dos anos, tentando desesperadamente me redefinir, finalmente encontrei, com ele, um objetivo. (Ali Farah, 2007: 121) (28)

Esse projeto a leva para os Estados Unidos, onde conhece Taageere, o unico somali que a chama pelo nome italiano, Domenica. E e justamente por causa dessa sua metade ocidental que ela volta a Italia: a irma de Taageere, Luul, havia desembarcado nas costas de Lampedusa e o irmao gostaria de acolhe-la em Roma, mas so Domenica tem os documentos que permitem a viagem.

Na Italia, a personagem explica como se encerra seu percurso diasporico de "refugiada":

Como refugiada, segui o fluxo de uma diaspora que me dizia respeito so marginalmente, interiorizando suas modalidades, a ausencia de projetos, a falta de metas. Peregrinei por quase dez anos, entre Europa e America, seguindo as ondas que moviam as massas de jovens da minha idade de um continente a outro [...]. Situacoes provisorias que se seguiram por anos. Tornei-me poliglota, desenterrei a lingua somali e a atitude atavica do nomadismo, reconectei os fios e os soldei. Essa era a minha fenda, esse o meu destino. [...] Tinha que voltar a Italia, porque era o lugar onde eu poderia juntar todos os pedacos. Depois, poderia partir de novo, mas antes tinha que arrumar o que tinha deixado em suspenso. (Ali Farah, 2007: 251-252, grifos nossos) (29)

Se a experiencia de diaspora de Domenica e inusitada, posto que ela possui a cidadania italiana, tambem peculiar e modo como se expressa no final da narrativa, por meio de uma carta, ou seja, atraves da palavra escrita, em um romance construido muito proximo da oralidade. Assim, em um italiano formal, a personagem aceita a proposta de tratamento de sua terapeuta, como lemos a seguir:

[E]stou certa de que a opcao escolhida me ajudara a reconstruir um percurso existencial complexo, para enfrentar com integridade o papel de mae que hoje me compete. Para mim e mais simples narrar os fatos por escrito, ja que a minha relacao com a palavra ainda e emotiva e fragmentaria. Muitas vezes me acontece de perder o fio do discurso ou seguir o fluxo de um pensamento que acaba voltando-se sobre si mesmo. Como a senhora me ajudou a compreender, isso acontece muitas vezes com as pessoas que carregam nas costas uma historia de migracao. Mesmo eu nao sendo propriamente uma imigrante, concordo plenamente com as suas consideracoes, porque vivi as separacoes e as readaptacoes proprias daquela condicao. [...] Encerro aqui esse preambulo e espero que o ato de contar a minha historia por escrito possa me ajudar a me tornar aquela pessoa inteira e adulta que desejo ser. (Ali Farah, 2007: 223-224) (30)

Com efeito, a personagem passa a narrar "por escrito" toda a sua historia, do nascimento aos anos de exodo sem destino, como parte da terapia que visa a compreensao de um presente que nao pode prescindir da analise de um passado insubstituivel.

Nesse sentido, a construcao da personagem ultrapassa a ficcao narrativa e se aproxima tanto das inquietacoes iniciais do presente artigo quanto da proposta da autora que, segundo Michele Pandolfo, quer "reconstruir uma imagem da Somalia, seja para os proprios somalis, seja para o resto do mundo que nao tem uma justa percepcao da realidade somali [...] desde 1991". (Pandolfo, 2011) (31)

Assim, a leitura e a analise do romance tem o merito ulterior de ajudar a entender o passado somali e de fornecer os instrumentos necessarios para uma compreensao mais acurada da atual situacao da Somalia, invisivel para o Ocidente, como pudemos perceber na baixa repercussao do recente atentado de 14 de outubro de 2017.

Referencias Bibliograficas:

ALI FARAH, Cristina. (2007). Madre piccola. Trento: Frassinelli.

ALMEIDA, Sandra Regina Goulart. (2015). Cartografias contemporaneas: espaco, corpo, escrita. Rio de Janeiro: 7Letras.

COMBERIATI, Daniele. (2011) La quarta sponda: Scrittrici in viaggio dall'Africa coloniale all'Italia di oggi. Roma: Caravan.

FARAH, Nuruddin. (2003). Voci della diaspora somala. Roma: Meltemi.

METREF, Karim. (2007). La non-epopea di un popolo smarrito. Letteranza. Disponivel em: <http://www. letterranza.org/recensione-n-6-la-non-epopea-di-un-popolo-smarrito/>. Acesso em: 15 nov. 2017.

PANDOLFO, Michele. (2011). Le voci femminili della diaspora somala nella letteratura italiana. El-Ghibli. Disponivel em: <http://archivio.el-ghibli.org/index. php%3Fid=0&issue=08_34.html>. Acesso em: 15 nov. 2017.

SCEGO, Igiaba. (2014). Roma negata: Percorsi postcoloniali nelle citta. Roma: Ediesse.

Data de recebimento: 15/10/2017.

Data de aceitacao: 20/12/2017.

(1) Sao minhas todas as traducoes do italiano para o portugues. Texto original: "Io non so che cosa ne sara della Somalia, ma ormai sono sedici anni che c'e la guerra civile. Una parte consistente della comunita somala vive all'estero e in piu c'e anche, per chi e rimasto li, questa deriva del fondamentalismo islamico che a me personalmente spaventa molto, perche e ovviamente una strumentalizzazione politica. Secondo me se non si crea una coscienza politica e una coscienza artisticointellettuale che permetta di lavorare su questi temi, per la Somalia sara difficile uscire dalla situazione attuale".

(2) Seguindo as mesmas tematicas, em 2014, lancou seu segundo romance: Il comandante del fiume (O comandante do rio).

(3) Texto original: "La scrittura ha cosi un valore testimoniale importante, diventa un mezo per dare voce a chi, di quella storia, non ha mai potuto parlare".

(4) Deve-se considerar que, antes do veto migratorio do Presidente Trump a paises de maioria muculmana, recentemente substituido por um decreto de restricoes (o que, para a Somalia, nao trouxe nenhuma alteracao), muitos somalis iam para os Estados Unidos.

(5) Considerem-se os significados, em lingua somali, de abbaayo: irma, e Axad: domingo, o mesmo de Domenica, em italiano.

(6) Texto original: "Allora io le dico, abbaayo io non voglio piu chiamarmi con questo nome che fa ridere tutti e lei dice, non ti preoccupare d'ora in avanti ti chiamerai Axad, come il principio".

(7) Texto original: "Sai di quegli anni? Quello che non riesco a fare e descrivere i luoghi. [...] Per me, per noi tutti, era indifferente. Ti dovevi solo abituare alle insegne diverse, i prezzi diversi e ricostruire la mappa: mappa dei legami con gli altri e luoghi-snodi dove incontrarsi, dove telefonare, dove comprare, come perennemente trasportati nella bolla d'aria [...]. Alienandoci, vivevamo".

(8) Texto original: "Discriminati dalle leggi razziali, gli italosomali delle generazioni precedenti alla mia crescevano perlopiu presso i missionari, completamente isolati dal resto della popolazione. Ecco perche l'appellativo aveva una valenza negativa, legato com'era all'idea della paternita negata".

(9) Texto original: "il parallelismo tra la terra da penetrare e le donne da possedere venne messo in atto quasi subito. Le donne erano terra di conquista. Erano il bottino che lo Stato [...] aveva promesso ai tanti soldati [...]".

(10) Texto original: "II colonialismo italiano fu disastroso, umiliante [...], dato che, in quanto colonizzatori, svilirono le persone che assoggettarono, considerandole non esseri umani, bensi, come dicevano loro, 'negri', creature primitive, incivili, alla pari delle bestie della giungla".

(11) Texto original: "Anche le fortune e le disgrazie del suo paese erano sempre mezzo gaal, almeno da quando ha subito lo stupro compiuto dalla cosi detta avventura (o disavventura, dipende dei punti di vista) coloniale italiana nel Corno d'Africa. Un po' come quella ditta italiana che da una parte faceva le strade asfaltate per costruire il futuro del paese ma dall'altra ci nascondeva rifiuti tossici per avvelenarlo definitivamente".

(12) Texto original: "colore in abbondanza e quei ricci che si ingarbugliano!"

(13) Texto original: "Essere per meta somala divenne un'enorme scocciatura per la quale mi trovavo sempre a dover 'giustificare' padronanza linguistica e carnagione [...]. Ero gia abituata a domande simili in sendo inverso [...]. Quand'ero bambina i miei cugini mi consideravano bianca come il latte e, rivedendomi dopo la guerra, la prima cosa notata quasi da tutti e stata che sembravo loro molto piu scura rispetto a come ricordavano [...] si capisce come sia il contesto intorno a modificare la percezione della realta. Il trasferimento in Italia comporto la totale rimozione del mio breve passato".

(14) Texto original: "Siccome il livello d'istruzione nelle scuole somale era piuttosto scadente, mio padre Taariikh e suo fratello Sharmaarke, avendo ricevuto un'educazione in italiano, decisero di offrire alle loro figlie la stessa opportunita. Alle lezioni di suor Ernestina eravamo tutte bambine di eta simile con la comune caratteristica di essere figlie di padri che avevano studiato in Europa".

(15) Como ja tivemos oportunidade de comentar, Domenica significa domingo em italiano, e vem do latim: dies dominica, ou seja, Dia do Senhor.

(16) Texto original: "Mia madre era e immagino sia tuttora cattolica praticante, mi ha chiamata Domenica e andava a messa tutte le domeniche persino a Mogadiscio, dove certamente non era indotta dalle circostanze. Oggi credo che [...] la religione fosse un tentativo di custodire la propria identita, di preservarla dalla confusione. Io invece continuavo a oscillare nell'attribuire la mia devozione: studiavo il Corano, facevo il Ramadan per qualche ora insieme ai miei cugini e, contemporaneamente, accompagnavo a messa la mamma".

(17) Texto original: "Lo zio Foodcadde [...] ogni tanto ci porta nell'entroterra a bere il latte di cammello. E bello li, la sabbia che non finisce e il sole che scotta. Dentro la capanna invece fa fresco e il latte sta nei recipienti grandi. Lo versano, un bichiere di latta a testa per noi bambini. [...] Il latte ha un sapore dolce ed e anche un po' denso. La prima volta che l'ho bevuto mi e venuto mal di pancia. Secondo mio padre, mia madre mi vizia con le raffinatezze da italiana e per questo non ho lo stomaco dei nomadi. Io dico che con il tempo mi ci abituero. Al latte di cammello voglio dire".

(18) Texto original: "da quando sono tomata, ogni mattina sento il bisogno di rivoltarmi lo stomaco. Come se il mio corpo rigettasse questi miei luoghi".

(19) Texto original: "Dovevo continuare a sentirmi inopportuna sempre e dovunque? [...] Io appartengo? Perche dosare, calibrare gli ingredienti che ci compongono e molto, molto pericoloso".

(20) Texto original: "Posso dirle che quello di tagliarmi divenne quasi un piacere morboso, mi compravo le lamette al supermercato, programmando il luogo e l'ora in cui le avrei utilizzate. Erano, per lo piu, ferite lineari, tagli netti da cui osservavo il sangue defluire, incisioni che ripassavo meticolosamente, fino a disegnare una ragnatela di fili sottili sulla pelle. Era forse per dichiararmi che mi incidevo con tanto accanimento? Non e per segnare una presenza che esistono i riti di iniziazione?"

(21) BOEHMER, Elleke. (2005). Colonial and Postcolonial Literature. Oxford: Oxford University Press.

(22) Texto original: "Vita di diaspora, peregrinazioni senza destino. Come e accaduto? Ti dicevo del viaggio postumo. Sono arrivata in una citta da evacuare, Mogadiscio dei miei natali. E Libeen che mi ha salvata. [...] Siamo tornati a Roma insieme, sull'ultimo volo di linea. Fermarci, per poco. [...] Cercavo, dentro di me, le radici delle esistenze. Volevo recuperare, disordinatamente. Disordinata e stata la mia vita".

(23) N. T. : O vocabulo forte, roccaforte, em italiano, esta aqui como substantivo, e nao adjetivo, a representar a metropole, ou seja, a Italia que faculta o transito de seus cidadaos na comunidade europeia e em outras continentes.

(24) Texto original: "Di quel viaggio non ricordo quasi nulla. Il fatto e che Libeen viaggiava con documenti falsi e io non dovevo pensarci. I miei documenti--documenti italiani--valevano, sempre e ovunque. Sono documenti della roccaforte. Libeen? Foto diversa, faccia diversa. In tutti i momenti pensavo: se ne accorgeranno. Ma ai doganieri i neri sembravano tutti uguali. Credevo che se sarebbero accorti, invece".

(25) Texto original: "Io e Libeen in una macchina verso il Nord. [...] Morbidezza di viaggio, senza dire niente, svuotavo i miei pensieri. [...] Avevo tante cose da ascoltare. Libeen mi avrebbe raccontato. Dei nostri progetti, del futuro. Di come sarebbe stato sempre tutto imprevedibile. [...] E ovunque potevo fermarmi, indifferentemente. [...] Salvo evitare che diventi il comune, prigione di immobilismo".

(26) Texto original: "Io ero curiosa di capire come avevano risolto il dilemma. Loro erano pieni di contraddizioni".

(27) Texto original: "ho cominciato a lavorare. Lavori vari, quello che trovavo: insegnare italiano, cameriera in pizzeria. Trovavo facilmente lavoro legato all'Italia. La parte di me che non era legata all'apparenza: in quei luoghi non si facevavo tante domande. bastava che dicchiarasse le mie origini".

(28) Texto original: "Dopo Londra: trama intricada di spostamenti. [...] Io ho conosciuto Saciid Saleebaan in Germania. Aveva [...] un affascinante progetto. L'idea folle di filmare la dispora somala. Un video, documentarlo o film, non sapeva ancora; di certo aveva solo il progetto. [...] Io che avanzavo negli anni, tentando disperatamente di ridefinirmi, finalmente trovavo, insieme a lui, un obiettivo".

(29) Texto original: "Come profuga seguii il fluire di una diaspora che mi riguardava solo marginalmente, interiorizzandone le modalita, l'assenza di progettualita, la mancanza di mete. Ho peregrinato per quasi dieci anni, tra Europa e America, seguendo le mode che muovevano le masse dei giovani della mia eta da un continente all'altro [...]. Situazioni provvisorie che si sono susseguite per anni. Sono diventata poliglotta, ho riesumato il somalo e l'atavica attitudine al nomadismo, ho riallacciato i fili e li ho saldati. Questo era il mio solco, questo il mio destino. [...] Dovevo tornare in Italia, perche era il luogo dove potevo rimettere insieme tutti i pezzi. Poi me ne sarei potuta anche andare di nuovo, ma prima dovevo riaggiustare le cose che avevo lasciato in sospeso".

(30) Texto original: "sono sicura che la scelta intrapresa mi aiutera a ricostruire un percorso esistenziale complesso, per affrontare con integrita il ruolo di madre che oggi mi compete. Mi e assai piu semplice raccontare i fatti per iscritto, giacche la mia relazione con la parola e ancora emotiva e frammentaria. Non di rado capita che io perda il filo del discorso o segua il fluire di un pensiero che finisce con il ripiegarsi su se stesso. Come lei mi ha aiutato a comprendere, questo accade con frequenza nei soggetti che hanno una storia di migrazione alle spalle. Anche se non sono propriamente un'immigrata, riconosco appieno le sue considerazioni per aver vissuto distacchi e riadattamenti propri di quella condizione. Chiudo qui questa mia premessa e mi auguro che raccontare per iscritto la mia storia possa aiutarmi a diventare quella persona intera e adulta che desidero essere".

(31) Texto original: "ricostruire un'immagine della Somalia sia per i somali stessi, sia per il resto del mondo che non ha una percezione della realta somala [...] dal 1991".

Marcia de Almeida

Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

E-mail: marcia.almeida@ufjf.edu.br
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Author:de Almeida, Marcia
Publication:Revista Artemis
Date:Jul 1, 2017
Words:6065
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