Printer Friendly

A Iliada e a Odisseia. Uma arte narrativa em transicao.

A Iliada e a Odisseia partilham uma mesma tradicao de deuses e uma mesma arte narrativa que os tera modelado e se projecta em tempo anterior ao seculo VIII a. C., apontado normalmente como o seculo em que a Iliada tera tomado o aspecto aproximado que hoje lhe conhecemos. Os varios elementos que, em ambos os textos, denunciam a existencia de uma tecnica narrativa previa, formada em seculos anteriores, mostram a conveniencia de se classificar os dois poemas dentro de um mesmo genero literario, o da epopeia. De tal modo os poemas se assemelham no tocante a essa tecnica, que por vezes pode ficar esquecida a pertinencia de contudo se considerar a Odisseia como exercicio de distanciamento critico, que torna muito evidente a oportunidade de se situar esta narrativa no seculo subsequente ao da composicao da Iliada. Tem havido, porem, alguns criticos que acentuam a diferenca, embora partindo de elementos diferentes e apresentando perspectivas diversas (1). Com efeito, entre os dois poemas ha uma distancia significativa no tocante a arte de narrar. Relativamente a Odisseia, pode-se mesmo dizer que o seu modo de significar acontece mediante nao apenas uma relacao do discurso com o real, mas tambem com um discurso previo. Com a Odisseia surge de facto uma realidade diferente; sendo novo o modo de significar, sera adequado pensar-se que tambem qualquer coisa na sua mundividencia se altera, mesmo se quase imperceptivel.

Na Iliada, as coisas passam-se de modo diferente, pois ai mesmo o simile parece ostentar uma relacao quase cristalina e isenta de problema do discurso com o real. E certo que este artificio mostra como a lingua pode significar muito para alem de uma relacao com o real isenta de problema, de tal modo que o relato da queda do heroi em combate nao esta isento de possibilidades de sentido alem da dimensao fisica da accao narrada. Ao ser assemelhada a morte do heroi a um carvalho de belo porte na queda, ha todo um acrescimo de sentido portador de nobreza e dignidade que se liga ao guerreiro. No entanto, ate mesmo no seu artificio, a lingua da Iliada parece manter uma relacao quase limpida com o real narrado. Bem visivel me parece ser a imagem que se projecta no espirito do receptor quando o texto se refere ao guerreiro que cai morto sobre a poeira depois de ter sido traspassado pela lanca do heroi mais ilustre, num movimento semelhante ao do carvalho ou choupo na sua queda, os que os carpinteiros cortaram com machados afiados para serem um navio (2). Com efeito, aos olhos do que, crente e disponivel, le os versos homericos parece ser tambem o belo e grandioso porte de um carvalho admiravel que diante de si se desmembra, cedendo ao agudo golpe do bronze que penetra a madeira robusta de brilho amarelado no seu amago e ainda sonora a deslassar-se nas suas nervuras. Noutros casos, atraves do simile na Iliada, torna-se tambem visivel em dimensao panoramica todo um mundo de labor e trabalho e portanto como ser rei semelhante a Priamo em Troia ou a Ulisses em Itaca implica uma forte ligacao com a terra.

A comparacao parece, pois, mostrar a possibilidade de uma relacao quase directa e imediata entre o discurso e o real. No entanto, esta relacao, mesmo na Iliada, pode ser ja problematica. Deste modo, ainda antes de me debrucar sobre a Odisseia, tendo em vista aquela sua diferenca fundamental, comeco por uma breve referencia as possibilidades da Iliada. Relativamente a esta epopeia primeira, seria dificil surpreender o jogo do seu discurso, tal como nos chega em forma escrita, com a modelacao narrativa precedente, a situar num estadio de tradicao exclusivamente oral, para o qual ambos os poemas apontam, mas cuja verdadeira natureza e essencia, mesmo por comparacao com situacoes contemporaneas como a que foi feita com os bardos jugoslavos (3), dificilmente se deixa reconstituir. Para tras da Iliada, ha um mundo de cores e movimentos que nos chega fragmentado em diversos frescos capazes todavia de suscitar no leitor hodierno um raro efeito de encantamento; ha, por certo, tambem todo o testemunho dos Poemas Homericos, que efectivamente levantam um veu sobre a imensidao de uma vasta e variada tradicao narrativa, relativamente a qual a Iliada parece ser um canto vespertino de despedida (4). Ha, alem destes, outro tipo de testemunhos, mas o mundo que se projecta multiplo anterior a Homero apresenta-se-nos hoje com um traco essencial de mudez que contrasta com a verdadeira natureza da sua narrativa--oral, portanto, na sua essencia, audivel, musical. Nao obstante, o discurso da Iliada, se observado de determinada perspectiva, tambem pode nao ser o de uma inteira limpidez no tocante a sua relacao com o real.

Desde os tempos da Iliada ate aos nossos dias, muitos seculos de escrita e de pensamento mostraram o que se tornou problematico naquela relacao (5). Com efeito, mesmo ainda a partir do texto da Iliada, se por exemplo tomarmos um modelo de leitura dita pos-estruturalista, e possivel questionar essa relacao. Nos antipodas deste movimento, que a comparacao da Iliada parece exibir, poder-se-ia pensar um outro movimento do discurso que, segundo a concepcao do texto em Derrida, se torna traco (6). Se assim procedermos, acontece que aquela relacao do discurso com o real, aparentemente imediata, directa e isenta de problema, comeca a tornar-se pouco clara. Os limites da tonica ou do significado do texto podem tornar-se esquivos. Para clarificar a minha ideia, tomo como exemplo a Iliada, II, 421-480 (7). Se nos questionarmos sobre o "objecto" representado, relatado, transportado para o discurso ou mesmo sobre o que nele e "comunicado", a resposta pode nao ser muito clara. No caso de ainda a queremos considerar como clara, torna-se necessario ao menos conceder que o texto aponta para um "objecto" plural, na medida em que nao e possivel, em ultima analise, garantir se o texto "representa" a organizacao dos guerreiros para a guerra ou se "representa" cenas do mundo do trabalho em tempos de paz. A um certo ponto, naturalmente, se pensarmos numa intencionalidade, a aferir no plano do seu contexto referencial, esta ultima possibilidade e absurda. No entanto, nao se pode ignorar que, neste lugar do texto em particular, o simile nao e de modo nenhum a excepcao, pois o que se encontra entre os versos 455-483 e uma longa sequencia de similes, de tal modo que dissimulada fica no enunciado a possibilidade de se considerar esta sequencia como uma "interrupcao" mais ou menos assignificativa (no sentido em que esta seria meramente ornamental) da accao no seu cenario de guerra (8). Paralelamente a esta situacao, a totalidade do texto da Iliada, embora mostre em maior percentagem cenas de guerra, onde os herois lutam valentemente, a sua narrativa tem um movimento particular, que, atraves do simile, traz a tona do discurso, de forma recorrente, as cores dos labores do homem em tempo de paz. A questao nao e insignificante. Na verdade, torna-se ate mais visivel se pensarmos que a transposicao deste pequeno troco narrativo para uma outra arte mimetica ou de representacao levanta um novo problema, espelho do primeiro: que "objecto" devera ser representado na tela, as cabras, os campos e o fogo na floresta ou os guerreiros a organizarem-se (9)?

O discurso da Iliada, de facto, mostra ja o que de problematico pode haver na relacao entre o discurso e o real; no entanto, tal nao poderia decorrer da consciencia do seu sujeito narrativo, mas e a leitura da Iliada a partir de uma perspectiva sobre o texto formada no pensamento teorico-filosofico do seculo XX que o permite. Na verdade, um segundo olhar sobre esse movimento da narrativa, cuja inteireza se estilhaca e difere entre dois planos aparentemente opostos, tambem nos poderia levar a encontrar nela a coesao de um sentido uno e de regras permanentes que precisamente a sua cadencia de repeticao asseguraria. Deste modo, o texto apresenta uma natureza circular de repeticao ao encontro do mesmo. No plano da economia da narrativa, da-se a mudanca, sem duvida, no seguimento das accoes diferenciadas umas no encalco das outras, mas a cadencia repetida de retorno ao simile e a um novo deus que se insurge em cada acontecer garantem a estabilidade do sentido e a sua seguranca.

A mudanca operada com a Odisseia e, no entanto, de mais vasto alcance, porquanto, embora ainda incipiente, encontra-se aqui reflectida uma certa consciencia do poeta relativamente a arte de narrar, aspecto que nao devera deixar de ter sido em consideracao em qualquer perspectiva sobre o genero da epopeia (10). Com efeito, relativamente a Odisseia, pode-se falar ja, mesmo se com alguma medida, de um certo distanciamento critico do narrador relativamente a sua arte. Na verdade, se a possibilidade de se aceder ao real relatado nao pode ja estar isenta de um discurso previo (sobre si), por relacao com o qual o novo discurso forma o seu significado, o mundo e os deuses que nele sao permanente acontecer reconfigura-se necessariamente.

Nao pretendo, de modo nenhum, afirmar que o discurso da Odisseia reflecte qualquer consciencia de que o sentido do real e do mundo nao lhes e imanente e que portanto dependeria de um sujeito e do seu discurso. Isso seria anacronico. Mesmo a afirmacao de Protagoras, que situa o homem como mediador, nao esteve isenta de controversia, no seculo V a. C. Em tais questoes, a esta distancia, nao e facil discernir qual a verdadeira consciencia do poeta relativamente a sua arte atraves do sujeito poetico projectado no texto, apenas sendo possivel afirmar alguma coisa com certa seguranca quando este se refere explicitamente a sua arte. Na Odisseia, cuja narrativa parece nao ter fundura (11), tudo o que se pode inferir relativamente a uma consciencia poetica do poeta encontra-se implicito no texto; e tambem o cruzamento de uns elementos com outros a confirmarem-se entre si que torna possivel encontrar no texto uma certa densidade que transporta, implicito, um distanciamento do poeta relativamente a sua arte (12). Este problema--este nao saber hodierno--e da mesma ordem daquele que nos coloca perante a relacao do homem grego com o [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]. A esta distancia, torna-se muito dificil perceber qual era o sentimento dos gregos relativamente as narrativas que lhes moldavam o pensamento. Um poeta como Sofocles pode ser considerado "muito tardio" (13), por se encontrar ja demasiado proximo da nossa nocao de literatura. Deste modo, as origens da saga de Laio, de que temos noticia pelos escassos fragmentos e referencias de terceiros ao ciclo tebano, sao-nos inacessiveis. Nao so porque delas apenas nos chegam esses fragmentos, mas porque efectivamente e dificil vislumbrar, na sua autenticidade primeira, a natureza da relacao de verdade que estas mantinham no espirito grego, pois os testemunhos dos ciclos lendarios estao igualmente distantes das origens em que aquela narrativa ganhou forma. Do mesmo modo as coisas se passam para, a partir de uma narrativa que, aparentemente, repete a da Iliada, no sentido em que os ciclos lendarios bem como alguns aspectos da sua tecnica narrativa num e noutro texto sao os mesmos, se avaliar o tipo de relacao do poeta da Odisseia para com a tradicao que modela o seu pensamento. Essa diferenca fundamental da Odisseia, embora alguns elementos muito concretos apontem no seu sentido, deve ser tambem, em certa medida, intuida.

Tal como a Iliada, tambem o texto da Odisseia revela de facto um mundo vasto de tradicao narrativa oral. Multiplas historias vao sendo convocadas ao plano principal da narrativa da viagem de Ulisses, como tambem na da guerra de Troia. Quando Glauco responde a Diomedes que lhe perguntava pela sua linhagem, o heroi conta ao adversario uma historia--a dos seus antepassados--que nada tem a ver com o cenario principal da narrativa. Em contrapartida, as historias contadas por Ulisses, embora de algum modo o seu protagonista se assemelhe ao heroi da Odisseia, transportam o ouvinte para outros lugares com outros herois alheios ao ja intrinsecamente alheio e estrangeiro percurso do mareante. Tambem o facto de Ulisses ter encontrado no Hades muitos daqueles que, como Aquiles e Agamemnon, combateram em Troia contribui para estreitar fortemente o laco entre os dois poemas. Outro tanto se podera dizer sobre o canto de Demodoco, cuja narrativa dos [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] se refere aos herois caidos em Troia (14).

A ligacao entre as duas epopeias e de facto muito forte. As historias sao as mesmas. Ate algumas das figuras que nao pertencem ao ciclo troiano podem aparecer em ambas as epopeias (15). A ocorrencia de formulas como [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] (16) aponta tambem para uma mundividencia comum. Outro tanto se poderia dizer sobre os epitetos. Apesar da evidente ligacao entre a Iliada e a Odisseia, creio, porem, ser possivel e desejavel vislumbrar a diferenca fundamental da Odisseia, que anuncia um desenvolvimento da narrativa na Grecia, trazendo consigo novas possibilidades. Logo a partida, justamente na figura de Demodoco a narrar os [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] ocorridos em Troia, esboca-se uma diferenca importante que bem enquadra uma segunda visivel no plano formal, no modo como a tecnica narrativa herdada e usada. A figura de Demodoco e alias abundantemente notada pela critica. De um certo ponto de vista, o facto de este aedo cantar os feitos em Troia aproxima muito as duas epopeias. No entanto, a sua perspectiva, bem como a dos ouvintes e a de Ulisses em particular, pode nao ser a mesma de Aquiles sobre os [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], ao entoa-los com o acompanhamento da lira diante de Patroclo, que o ouve em silencio (17). Que accao exactamente narram esses cantos? A que tempo ascende? O que sabemos e que essa accao e antiga e que tendo a sua narrativa a modelacao da distancia epica, por certo em muito dista do narrador principal, de Aquiles e de Patroclo. O caso da Odisseia, porem, e diferente. Relativamente ao narrador principal, de facto, tanto a viagem de Ulisses quanto os acontecimentos em Troia sao distantes. Este narrador, porem, projecta dentro da sua narrativa outros aedos e/ou narradores--Femio, Demodoco e Ulisses. Para estes, e em particular para Ulisses, que, ao contrario de Patroclo, o silencioso ouvinte de Aquiles, se inquieta e chora ao ouvir o canto de Demodoco, onde ve tracada a sua identidade, esses acontecimentos sao assombrosamente proximos. Digo assombrosamente e nao creio tratar-se de exagero. O valor da distancia epica, a este tempo, quer do ponto de vista do aspecto permitido pelo perfeito, quer da terceira pessoa verbal indiferente, no sentido do seu nao envolvimento com a accao narrada, e tao fulcral que se mantem como marca distintiva do genero no discurso teorico contemporaneo (18). Mesmo numa epopeia como Os Lusiadas, cujos heroi mareante e parte da accao sao praticamente contemporaneos do poeta, a distancia mantem-se (19).

Poder-se-a desvalorizar este aspecto centrado em Demodoco, justificando-o com razoes da ordem do que se entendera por uma "economia" da narrativa do mito. Como a guerra se segue o regresso de Ulisses, a figura de Demodoco aparece-lhe ao caminho, permitindo ao heroi ouvir um canto sobre si proprio, apenas por ser essa a sequencia da historia. Se esta justificacao nos bastar, podemos concluir neste ponto a nossa leitura. Creio, porem, ser aqui justamente que pode comecar propriamente uma leitura. Na verdade, nao so esta razao nos deixa sem sabermos que [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] seriam exactamente os narrados por Aquiles, embora com a certeza de que nao seriam os da guerra de Troia, como de facto, alem de o poeta por em evidencia a figura do aedo (atraves de Femio, Demodoco e Ulisses), parece estar aqui em causa um modo de narrar. A projeccao de Ulisses como narrador na primeira pessoa mostra tambem como a valorizacao de Demodoco nao e acidental. Atraves da sua figura, fica em evidencia nao so o distanciamento critico do narrador como tambem a possibilidade de os acontecimentos narrados serem proximos do ouvinte, mas ate daquele que os narra.

E neste aspecto da distancia epica e nos similes que de forma mais clara e significativa se pode observar como um novo modo de narrar implica uma diferenca substancial de concepcao sobre a arte narrativa, que necessariamente acompanha outras mudancas na mundividencia homerica e nomeadamente no tocante a perspectiva sobre os deuses (20).

E, porem, necessario o uso de alguma cautela no tocante aos deuses. Conceber-se a possibilidade de se encontrar alguma mudanca de perspectiva sobre os deuses na Odisseia nao implica deixar de reconhecer que tambem neste ponto--tal como se viu em alguns aspectos de ordem formal--a mundividencia herdada pela Odisseia e a mesma da Iliada. O que julgo ser possivel sugerir e que o modo como os dois aspectos formais aparecem na Odisseia--a distancia epica e os similes--sugerem a pertinencia de se pensar que, sendo ai notorio que no novo discurso o modo de significar passa a ser feito tambem por relacao com um discurso previo, este texto pode desencadear uma alteracao de perspectiva sobre os deuses, ainda que no proprio texto da Odisseia esta seja praticamente imperceptivel. Embora nao de modo tao evidente como na Iliada, os deuses movimentam-se tambem na Odisseia entre o espaco humano. Poder-se-a dizer relativamente a ambas as epopeias que os deuses sao propriamente acontecer. A figura de Atena que aparece entre os guerreiros a organizarem-se para o combate, no episodio da Iliada, II, atras aludido, e ainda a mesma que se encontra na Odisseia desde o inicio. A morosidade da narrativa, propiciada por toda uma panoplia de adjectivos designativos do brilho dourado da deusa que, com demoras, surge acontecendo entre os homens, e a mesma tanto naquele episodio da Iliada quanto, por exemplo, na Odisseia, ao dirigir-se ao palacio de Ulisses, onde aquela categoria morfologica se mantem como marca de uma concepcao de divindade (21):

[TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]. (22)

A narrativa demora-se em oito longos versos--alguns deles formulares e presentes tambem na Iliada--para exprimir o trajecto da deusa. Para dizer ela dirigiu-se ao palacio de Ulisses, mais do que apontarem o movimento de Atena, os versos poem a descoberto a sua luminosidade. Como a deusa dourada, na Iliada, avanca, esplendida, entre os guerreiros, onde a sua presenca e possibilidade de o [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] se fazer [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], a mesma deusa rasga os ceus trazendo consigo, no brilho da geracao olimpica a que pertence, a delimitacao de sentido face a um anterior cenario de trevas governado por deuses mais antigos. Ser [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] e, pois, propriamente acontecer mediante uma luz que outorga contorno as formas e aos seres. A Odisseia partilha de facto este sentido de [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] que me parece bem sintetizado nos versos acima citados. Tambem nesta narrativa, a presenca constante de uma deusa ao ritmo do desdobrar cadenciado dos versos, em fluxos e refluxos, acompanha o movimento dos seres e acontecer no mundo ao qual preside (23).

Tambem em relacao aos deuses, a ligacao entre as duas epopeias e, pois, muito forte. No entanto, a Odisseia esboca, ainda que milimetrica e portanto quase imperceptivel, uma diferenca que, mau grado a sua espessura minima, constitui um passo de consideravel importancia no dominio da narrativa. Os deuses sao os mesmos. Em ambos os casos a accao dos deuses--que ao olhar grego se apresentam como naturais, no sentido em que excluem na sua evidencia qualquer possibilidade de descrenca--influencia a vida dos homens (24). Contudo, qualquer coisa se altera. Na Odisseia, a presenca dos deuses entre os homens sofre de facto uma mudanca, que me parece bem assinalada na subtileza da linguagem de Snell (25), ao distinguir os sentidos de "determinar" e "acompanhar", para se referir a sua accao relativamente ao homem, na Iliada e na Odisseia, respectivamente (26). Este aspecto da Odisseia antecipa mudancas importantes nos seculos subsequentes, no que diz respeito ao modo de o homem perspectivar a sua propria accao. Nao obstante, parece-me dificil falar de duas mundividencias distintas. Em ambos os casos, a certeza de que todas as manhas, na sua evidenca, a Aurora se levanta, como bem ilustra o seu aparecimento recorrente em ambos os textos, ilumina a accao do heroi tornando-a significante. Na obra de M. Parry, as duas epopeias exemplificam, como disse no inicio, um mesmo modo de narrar (27). As tecnicas de uso das formulas e epitetos encontram-se nos dois poemas, que efectivamente partilham um fundo comum. Na Odisseia, porem, o uso dos similes, algo diferente do que se encontra na Iliada, indicia uma diferente concepcao no ambito da narrativa. Alem dos similes, a reconfiguracao da distancia epica na Odisseia, em particular, suscita a possibilidade ou mesmo a necessidade de se postular uma diferente visao dos deuses nao no plano da historia narrada, como se viu, mas no plano do modo de narrar.

Comeco pelo factor da distancia epica. Poder-se-a tambem pensar como irrelevante, do ponto de vista da sua influencia na mundividencia homerica, remetendo-o ao estatuto de mero aspecto de uma tecnica narrativa, o facto de na Odisseia esta categoria epica nao apresentar exactamente o mesmo aspecto que tem na Iliada. Sendo conexo da sugestao implicita na Odisseia da possibilidade de os feitos narrados serem proximos do narrador e do ouvinte, este aspecto parece-me ter implicacoes muito significativas no modo como todo o mundo dos deuses e da verdade que encerram terao sido perspectivados. O teorico M. Bakhtine postula na sua obra, fundamental para o estudo da narrativa, como um dos tracos que distingue a epopeia do romance o factor da "distancia" (28). Este traco fundamenta necessariamente a sua concepcao da epopeia como genero "acabado", por contraste com o romance, considerado como genero "em devir". Mas o que e que exactamente fundamenta esta distancia? Podera o desaparecimento disso que esta por detras da chamada "distancia epica" ser um factor que efectivamente motiva a situacao do romance como "genero em devir"? A distancia epica podera decorrer de uma mundividencia no ambito da qual se manifesta a conviccao de que, num passado longinquo e luminoso, mais originario, se configura uma verdade mais radicalmente verdadeira sobre o homem e o mundo--de convivencia proxima entre homens e deuses--que a accao da Musa podera "des-ocultar". De facto, a partir da invocacao as Musas presente na Iliada, II (29), pode-se concluir que estas deusas sao capazes de desvelar um qualquer sentido de verdade de outro tempo ou lugar, na medida em que elas ai estiveram ou estao presentes. Distinguem-se assim dos homens, pois elas conhecem e sabem todas as coisas, ao passo que dessa verdade que se da a presenca da divindade e desse lugar aqueles apenas ja so chega um rumor. Compreende-se tambem, por esta razao, que a verdade da poesia (ou facultada pela poesia), uma verdade nao isenta de deuses, seja inerente, aos olhos do poeta, uma certa distancia. Se de facto este e um elemento de que decorre a neutralidade do narrador relativamente ao narrado, essa distancia consubstancia qualquer coisa mais funda do que aquilo que a categoria formal entendida em sentido tecnico muito estrito, portanto independente da sua relacao com a materia ou o pensamento, permite. Mais do que isto, e a possibilidade de se conceber um qualquer sentido de verdade para o homem que se encontra dependente do postulado de que ha uma distancia entre si e esse lugar (de verdade) onde apenas as Musas estao presentes. Deste modo, uma vez que o narrador principal projecta uma figura de narrador a contar a sua historia na primeira pessoa, opera-se necessariamente uma reconfiguracao da perspectiva sobre o mundo dos deuses e do sentido de verdade que encerram--unica materia do canto das Musas, a qual garante a razoabilidade de se manter aceite a equivalencia entre a verdade e o canto (30). Com isto, ha-de ser tambem uma diferente forma de contar e modelar (estruturar, dar forma) a verdade que surge, pois o que experimentou os factos pode ser tambem, tal como a Musa, um mediador da materia a narrar e portanto da verdade, uma vez que se considere aquela equivalencia. Uma primeira diferenca de perspectiva sobre os deuses situa-se no ambito das Musas e tem a ver com o modo como o poeta as ve. Se o narrador principal projecta varios narradores, mediante os quais postula a possibilidade de os factos narrados ficarem mais proximos daquele que os narra, qual o papel da Musa, cujo saber, face a ignorancia do homem, justamente se distingue por estar presente e participar dos acontecimentos longinquos nao presenciados pelos mortais e aos quais o poeta, mortal, justamente quer aceder? Que verdade vem a deusa desocultar? De facto, o poeta mantem associada ao canto de Demodoco a invocacao a Musa (31). Mas sera esta ainda a mesma deusa? Nenhuma questao neste ambito tem resposta que possa ser comprovada a partir de um discurso explicito. Julgo, porem, que nao se pode desvalorizar toda a tonica da Odisseia, cujo discurso narrativo principal se abre ao aparecimento de uma figura de aedo que pode contar acontecimentos que lhe sao proximos. E certo que em Demodoco se mantem um dos importantes tracos constitutivos da epopeia, pois o aedo nao relata a sua experiencia pessoal, mas uma narrativa cujos factos sao de interesse colectivo (32). No entanto, a narrativa da Odisseia mostra que esses acontecimentos estao proximos de um dos ouvintes e, posteriormente ate, atraves desse ouvinte particular, como a verdade modelada na narrativa pode ser a experimentada por aquele que a canta. Este, por seu turno, podera, nesta situacao, dispensar a mediacao da Musa enquanto deusa que participa dos acontecimentos relativos a esse "passado absoluto". Nestas circunstancias, se porventura Ulisses se dirigisse a Musa antes de dar inicio a sua narrativa (33), esta por certo aproximar-se-ia ja, pelo menos em parte, das deusas invocadas por Solon, cujos motivos de apelo a divindade se situam no plano do presente (34).

Nao pretendo dizer que a Odisseia reflecte qualquer consciencia da relatividade do passado. O passado mantem-se isento de relatividade e inacessivel a formacao de opinioes sobre si. Neste sentido tambem, mantem-se a categoria do epico e da distancia que lhe e intrinseca, mas e forcoso admitir que alguma coisa comeca a mudar. O que muda de facto e a nocao de que apenas no discurso sobre o lugar e o tempo longinquo (ao qual a Musa pode aceder) se pode encontrar o verdadeiro. A Odisseia mostra, pois, como possivel a modelacao de um discurso a partir da experiencia do narrador; assim, a materia narrada nao e formada exclusivamente a partir da accao de um passado absoluto em lugar inacessivel ao homem. As alteracoes patentes na Odisseia no tocante a distancia epica indiciam assim uma mudanca de perspectiva sobre o 0eoc, uma vez que, desaparecendo aquele factor na modelacao da verdade em discurso, o papel da Musa ja nao tera o mesmo significado. Alias, o narrador principal, que de inicio invoca a Musa, sendo paradoxalmente o mesmo que projecta no protagonista uma figura de narrador capaz de mediar o sentido a partir da sua experiencia, nao sera decerto um ouvinte passivo da palavra da Musa. Ele proprio e um modelador e mediador de sentido. O modo como recria o uso dos similes, como adiante se vera, mostra-o bem. O lugar da Musa na Odisseia, ja ele proprio uma recriacao, podera assim projectar a configuracao de um futuro topos da literatura.

Em contrapartida, a verdade, uma vez que pode ser modelada em discurso relativo ao espaco proximo acessivel ao homem, tera forcosamente uma natureza diferente, tendo deixado de se formar a partir de uma lingua unica portadora de uma verdade inabordavel, que justamente parece ser interpelada35. Neste aspecto, e muito significativa no plano da historia narrada a proximidade do presente e o seu realismo (36). Mas porventura mais inesperado e que a Odisseia parece mostrar uma confusao entre o mitico / lendario e o tempo presente, atraves de um movimento fluido entre os dois espacos centrado na figura de Ulisses. Por um lado, o heroi apresenta uma dimensao mitica nao so na perspectiva do poeta, mas de algum modo tambem na dos ouvintes do canto de Demodoco, em cujo espirito Ulisses, apesar de nao muito longinquo, se afiguraria de modo pouco claro e definido, pois escassa era a noticia que lhes chegava sobre o destino do heroi [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]. Por outro, porem, presente entre os Feaces, Ulisses irrompe da sua dimensao de figura mitica, sobre a qual versa o canto do aedo, para o tempo presente, ao dar-se a conhecer na corte do rei Alcinoo (37). Com o prosseguimento da narrativa, projectada a partir do canto IX na voz da primeira pessoa do protagonista, torna-se mais clara uma descentralizacao do discurso mitico intocavel, a qual repousa sobre a figura de Ulisses: a viagem que o conduz atraves de caminhos habitados por deusas confronta-o, porem, a todo o momento, com o que e substancialmente outro e diferente. Tambem neste aspecto fica visivel a possibilidade de uma diferente forma de modelar a verdade. As deusas--Musas ou Circe e Calipso--que servem de mediacao entre esse espaco primordial longinquo e de verdade e o heroi do tempo presente sao substituidos ou sao agora a propria experiencia do mareante que atravessa os mares. A verdade, primeiramente una, na medida em que conexa de um passado absoluto e inabordavel, torna-se, na sua essencia de presente inacabado, flexivel e fluida (38).

Importante mudanca com efeitos significativos tambem no modo de formar o sentido consiste no facto de a narrativa poder funcionar mediante um discurso previo, cujos elementos remodela de tal modo que significam de forma diversa. Este aspecto, nao sendo imperceptivel na nova configuracao da distancia epica, e tambem visivel no modo como os similes sao introduzidos na narrativa. Se as formulas e os epitetos se mantem inalteraveis entre um e outro poema, de tal modo que e ainda reconhecivel na Odisseia a mesma linguagem de uma tradicao oral a partir da qual se desenha uma certa mundividencia, todavia a apropriacao dos similes que integram a linguagem da Iliada, onde, sem duvida, pela sua ocorrencia muito frequente marcam o ritmo da narrativa, e na Odisseia de molde a introduzir diferencas com significado apreciavel.

Porventura a primeira diferenca que salta a vista na nova ocorrencia dos similes e a reducao do seu numero (39). Dir-se-ia que o novo poeta tinha ja passado a fase da experimentacao das possibilidades da lingua. Em outra perspectiva sobre a literatura, poder-se-ia talvez ate dizer que este aspecto denunciaria na Iliada uma maior proximidade com uma fase literaria estritamente oral, podendo, neste caso, o simile surgir naturalmente de uma necessidade de apoio para o pensamento do aedo (40).

Importa-me, porem, o aspecto do proprio tecido da narrativa que agora fica despojado daquele seu elemento, sem duvida essencial na Iliada, porquanto quase marcava, por assim dizer, o acontecer do texto, tal como cada figura de [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] que ali vai presidindo a cadencia dos versos ao trazerem, como na volta do arado, sempre, repetidamente, um novo mas semelhante acontecer. O facto de os similes agora serem em menor numero so aparentemente esta isento de significado. Uma tal perspectiva sobre as mudancas operadas no uso do simile na Odisseia so seria possivel se o seu estatuto fosse reduzido ao de um mero ornamento. De facto, este artificio da narrativa, que tem ja sido considerado como o mais antigo da literatura europeia, e frequentemente considerado com algum preconceito em favor da metafora, perspectiva com origem decerto na sua valorizacao em Cicero (41). Entendo, porem, que na Iliada, nao obstante o seu uso ostentar porventura um certo grau de experimentacao--situacao que, em todo o caso, carece sempre de comprovacao--, o simile tem um significado e uma dinamica particulares que o tornam um artificio com valor proprio independente da metafora. Com efeito, o simile integra o movimento da narrativa da Iliada, onde, longe de poder ser entendido como estrito ornamento, efectivamente significa, a par de outros artificios como a [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], processos de demora do discurso epico, que, deste modo, se pode constituir como discurso panoramico. Pelo simile passa a expressao de uma certa mundividencia: por um lado, este projecta, no seu termo de comparacao, para alem da natureza, imagens da vida do trabalho em tempos de paz, por outro, a sua comparacao da a ver uma concepcao de heroi. A reducao deste artificio na Odisseia, porem, mostra tambem como o seu significado e mais fundo e intrinseco ao seu uso. Na verdade, o novo aspecto da narrativa parece ter o efeito de uma interrupcao daquela sua cadencia circular e repetitiva. Na Iliada, um mesmo movimento parece trazer o [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] e o simile, nao porque ocorram a par, mas porque ambos sao repetidamente "re-correntes" e, nesse seu aspecto de repeticao que os assemelha, constituem, cada um a seu modo, uma seguranca de que o texto, na volta do seu verso, traz sempre significado a accao humana: se o primeiro garante sentido ao acontecer, marcando-o com a sua presenca, o segundo confere a narrativa uma densidade tal que a accao narrada pode significar muito para alem do que e visivel na sua dimensao estritamente fisica. Com este aspecto, que faz da epopeia um genero intrinsecamente demorado, a Iliada constitui-se como muito mais do que um relato sobre a crueza da guerra e da morte. A mesma narrativa que, desde o seu inicio, se faz canto de morte, marcado que vai sendo o seu ritmo pelo anuncio da morte proxima de Aquiles (42), ilumina, marcando-a, a accao do [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]. Ao comparar a morte do guerreiro a queda de uma arvore de grande porte, o discurso da Iliada, em primeiro lugar, torna-a plena de significado, porquanto faz dela acontecimento estrondoso. Deste modo, enobrece a morte, resgatando-a de um destino de neutralidade, apagamento e trevas; atraves do esboco de uma morte heroica (43), a lingua epica engrandece o [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], cuja vida, heroica e plena de sentido, passava, luminosa, a ocupar os versos do aedo e a memoria dos vindouros. A par do [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], mas em distinta dimensao, e, pois, desta linguagem que se desprende uma possibilidade de sentido para a vida e o gesto humanos.

Vistas as coisas desta forma, sera mais dificil reconhecer a reducao dos similes na Odisseia como um aspecto isento de significado. Com efeito, deste modo, e a accao humana que parece ficar despojada, uma vez que carece de um discurso que a todo o momento, repetidamente, a ampara e levanta, conferindo-lhe significado. Mas nao ganhara a accao humana mais realce? Mesmo tendo a todo o instante a seu lado a deusa de olhos garcos, nao ficara Ulisses mais so? Tambem Calipso, que primeiramente o retinha, aconselha o heroi, tal como Nausicaa, a jovem filha do rei Alcinoo, a cujos olhos seria Ulisses o melhor marido, o acolhe. Tambem Circe, deusa feiticeira, o avisa, de modo a evitar o canto mortifero das Sereias. E Ulisses ouve-o, de tal modo que dali saira mais sabedor. No entanto, sendo abissal o risco de exposicao a morte, porquanto, embora imensamente sedutor, na sua promessa de docura, deleite e saber, este e, inevitavel e fatalmente, um canto de morte, a narrativa destes acontecimentos aparece com um aspecto porventura estranhamente despojado, pelo menos aos olhos daquele cujo horizonte se formara com a Iliada. Diferentemente da narrativa da Iliada, onde se apresenta a morte do heroi as maos do mais nobre adversario, tornando-o semelhante a um magnifico carvalho que tomba, as palavras de Ulisses, ao relatar este seu confronto com aquelas criaturas femininas, tal como de um modo geral a restante narrativa da Odisseia, dispensa aquele artificio. A simplicidade do relato e tal que, depois de realcar o aspecto do canto feminino de morte, descrevendo esse outro com o qual se confronta--de certa forma o que na Iliada seria o inimigo--, apenas se refere as ordens dadas aos companheiros, abstendo-se quase de descrever como teria resistido a tal poder de atraccao (44). O narrador parece assim sobrepor a tentacao de um simile o gesto do heroi, que, tambem ele conhecedor do artificio, como alias o mostram os versos XII, 251-255 do seu proprio relato, parece colocar-se no lugar do que sozinho tornara a sua accao significante45. O heroi e decerto apontado pela divindade que o protege, mas o narrador, que, neste caso, ate coincide com Ulisses, parece sobrepor o proprio gesto do heroi ao enleio de um simile, como se porventura considerasse a possibilidade e a vantagem de moderar o uso deste artificio. Determinante na accao do homem parece ser agora nao apenas a presenca do deus, mas o proprio gesto do heroi. Compreende-se assim a subtil distincao de Snell, ao dizer que, na Iliada, os deuses "determinam" a accao dos homens e que na Odisseia a "acompanham".

Tao importante como a sua reducao e a diferenca de alguns dos similes da Odisseia. A sintaxe que os estrutura e a mesma, mas diversa pode ser, em certos casos, a natureza do seu termo de comparacao, a qual nao tem, por vezes, paralelo na Iliada. Quando nao, e a sua ocorrencia em um ponto preciso que indicia uma outra complexidade, porquanto permite um jogo de conexao desse simile nesse ponto com outro, de tal modo que a comparacao nao e circunstanciada, mas reflecte a totalidade da narrativa.

No canto XXI (404-411), o simile mediante o qual o olhar de Ulisses ao segurar o arco se transforma no de um aedo, ilustra bem essa primeira diferenca. Neste caso, o termo de comparacao para o arco, uma lira, nao e um elemento proveniente da natureza, como sao as arvores ou as aves, e, mesmo podendo ser integrado na ordem do labor humano, aquele instrumento nao se enquadra no contexto da actividade primaria indispensavel ao sustento do homem, como acontece com a cana de pesca ou com o arado. A lira pressupoe uma sociedade com tempo para o cuidado do espirito e portanto com certa actividade intelectual. Num contexto como este, cabe alias tambem a Iliada. Porem, a colocacao de uma figura deste objecto na situacao de termo de comparacao parece-me implicar um grau de familiaridade tal com ele que propicie um distanciamento critico relativamente a arte do aedo. O uso deste simile parece mostrar como o discurso da Odisseia podera nao ser perceptivel apenas enquanto repeticao assignificativa de uma tecnica previa, porquanto, recriando-a ou reinventando-a, este significa tambem por relacao com um discurso anterior. Outro tanto se podera observar a respeito da comparacao de Ulisses a um aedo (46). Poder-se-a desvalorizar este aspecto com o argumento de que, na Iliada, e a natureza do seu tema que nao propicia este tipo de simile (47). Creio, porem, que, se na Iliada tantas sao as situacoes em que o poeta, atraves do seu simile, traz a tona do discurso o trabalho do homem em tempo de paz, decerto nao faltaria o ensejo para a ocorrencia de um simile semelhante ao da Odisseia, se a situacao da composicao da Iliada fosse exactamente a mesma que a daquela epopeia. As razoes que justificam esta situacao poderao ser mais fundas. Na verdade, o uso do simile, precisamente neste ponto particular do texto --crucial para a identificacao de Ulisses--, permite tambem mostrar o heroi mareante como aedo. Numa narrativa onde esta outra faceta do heroi e salientada de outros modos, este aspecto nao pode ser desvalorizado (48).

Esta importante diferenca nao invalida a ocorrencia na Odisseia de similes cujo termo de comparacao e constituido por elementos oriundos da natureza. No primeiro simile da Odisseia, que ocorre apenas no canto IV (49), a situacao relatada por Menelau, alusiva ao confronto futuro entre Ulisses e os pretendentes, e comparada a uma outra protagonizada por uma corca com as suas crias e um leao. Neste caso, porem, o simile transporta um certo grau de complexidade:

[TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]. (50)

O simile assemelha-se aos da Iliada. O contraste entre um animal mais forte e um mais fraco e indefeso ilustra muitas vezes situacoes diversas de confronto entre guerreiros na Iliada (51). Apesar da semelhanca, porem, o simile da Odisseia apresenta a possibilidade de se considerar nele um interessante movimento de ambivalencia. Numa leitura que me parece consensual, os pretendentes, porque sao fracos ([TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]), sao comparaveis a corca e suas crias, as quais, frageis, ocupam a toca de um poderoso leao, ao qual sera comparavel Ulisses. De facto, a sintaxe confirma esta correspondencia; o mesmo e sugerido pela semelhanca entre os dois segundos membros dos versos 339 e 340. A comparacao de Ulisses a um leao e dos pretendentes a uma corca, para ilustrar a forca do heroi que destruira os segundos, necessariamente mais fracos, funciona, pois, com clareza. O que nesta correspondencia poderia ser problematico e o facto de a accao da corca ao deixar as suas crias na toca do leao nao ser comparavel a qualquer accao dos pretendentes. Este dado, porem, pode ser encarado nao como elemento inibidor da interpretacao, mas como um desajuste aparente que permite a consideracao de um movimento inverso para o simile como plausivel. Com efeito, o poeta poderia referir-se do mesmo modo a relacao de desigualdade entre os dois animais evitando a alusao ao momento inicial em que a corca deixa as crias na toca, limitando-se a fazer referencia a perseguicao--aspecto que com mais acuidade corresponde a situacao da Odisseia. Os pretendentes de facto estao na toca do leao como ocupantes indevidos, mas o momento em que a corca vai la deixa-los e que dificilmente podera corresponder a qualquer um dos movimentos daqueles homens. Deste modo, assim percorrido, o simile deixa um dos seus elementos por explicar. Esta situacao, porem, nao constitui necessariamente um defeito, pois, justamente a partir deste ponto, poder-se-a fazer o simile funcionar em movimento contrario, isto e, fazendo corresponder a corca a Ulisses e as crias, porque indefesas, a Telemaco e Penelope. Neste caso, o termo [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] poderia ate designar um veado. Tambem neste segundo movimento do texto fica um elemento por explicar, pois e talvez mais problematico aceitar que Ulisses, ao vencer os pretendentes, possa nao corresponder ao leao, e tanto mais que o texto ate se refere aqueles homens como [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], isto e, como sendo destituidos daquela [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] que faz de Ajax o melhor dos Aqueus, quando nao esta Aquiles a combater. Porem, a possibilidade de o simile funcionar simultaneamente em movimento inverso nao deixa de se insinuar, ainda que de forma tenue, por ser quase imediata uma associacao de Penelope e de Telemaco as crias indefesas, na ausencia de Ulisses. Esta e, alias, a situacao narrada logo no inicio do poema. Do ponto de vista morfo-sintactico, o pronome o, no verso 338, poderia ate corresponder a [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], a interpretar, neste caso, com o sentido de veado. Em rigor gramatical, esta possibilidade so nao e aceitavel, porque na frase se encontra a forma de pronome possessivo [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], a concordar com [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]. Ora, o complemento [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] so pode referir-se a toca do leao. Tal nao invalida, porem, o valor da sugestao que se insinua por detras da primeira interpretacao. Com efeito, a cena inicial da corca que deixa os filhos a merce do mais forte tambem integra a pequena narrativa deste simile. Este movimento nao pode ser comprovado no plano da sintaxe. O enunciado do simile, porem, parece ser uma teia mais complexa. Mas que interesse teria considerar tambem esta outra possibilidade? Qual o seu sentido? De facto, este segundo movimento do texto permite encontrar ali uma alegoria de todo o movimento de Ulisses. Seguindo por um caminho sinuoso ([TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]), o heroi vai errando em busca do alimento, que e o seu regresso, tendo deixado a sua familia indefesa, como as crias a merce dos que lhe devoram os bens, aparentando assim serem leoes. Deste modo, o simile aponta nao para uma situacao pontual e isolada, mas para a totalidade da accao. Com efeito, atraves do segundo movimento do simile, e possivel esbocar o desenho minimo do movimento de Ulisses: partida, em virtude da qual Penelope e Telemaco se encontram indefesos em Itaca (IV, 335-336), errancia (337-338) e regresso com desenlace (339).

Esta valorizacao, porem, nao implica a obrigatoriedade de se optar em definitivo por um dos movimentos do texto, excluindo o outro. Julgo que o texto se revela ainda mais subtil do que a primeira vista aparenta. A ser considerada em simultaneo a segunda possibilidade, os pretendentes, [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], mostrar-se-iam como um leao, mas apenas diante das criaturas indefesas --Telemaco e Penelope--deixadas pelo veado na toca a merce do leao. Neste caso, o termo [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], revelaria tambem a cobardia daqueles homens insolentes. O curioso neste simile e que ate torna aceitavel esta outra possibilidade de leitura e que precisamente o elemento inoperacional, porque sem enquadramento no primeiro sentido do simile, corresponde perfeitamente a situacao de Ulisses que deixara indefesa a sua familia, a merce dos pretendentes, os quais, face a obvia fraqueza da mulher e do filho de Ulisses, sem voz em Itaca, se julgariam semelhantes a um leao. Seguindo esta leitura, porem, e dificil explicar a ultima parte do simile, porquanto a sintaxe do texto indica ser o leao que vence e nao o veado. No entanto, se porventura se considerar que, tal como os pretendentes, sendo fracos, podem ser vistos como leoes apenas em aparencia devido a sua cobardia, Ulisses, sendo na aparencia um veado que nao pode, em forca, vencer o mais forte, podera vir a revelar-se como leao. E que Ulisses, tal como Penelope, distingue-se tambem pela sua [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]. Neste sentido, o heroi podera ser considerado como agil veado que futuramente podera revelar-se como leao. Deste ponto de vista, o texto nao apresenta um unico movimento que fosse possivel fixar, pois, subtilissimo, mostra como de futuro a situacao em Itaca, narrada no inicio da Odisseia (onde quer a perspectiva de Penelope (52) quer a propria atitude de arrogancia dos pretendentes indicam como estes de facto podem ser leoes aparentes), se ha-de inverter. No futuro, para o qual o simile tambem aponta, o texto mostrara como aqueles nao apresentavam o verdadeiro vigor do leao, pois apenas tinham por si a cobardia. Tambem por isso sao [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]. Ulisses apresenta-se assim tambem a chegada a Itaca como nobre e agil veado; com a sua mftic, maquina previamente a derrota dos pretendentes, podendo assim, por fim, assemelhar-se a um leao no combate com aqueles. O facto de este simile se repetir no canto XVII (53) mostra ainda como o seu sentido so se completa e clarifica depois da accao desenrolada. Neste momento da narrativa, Telemaco, que ouvira estas palavras a Menelau, ao proferi-las agora, esta ja ciente de que, se a principio os pretendentes poderiam assemelhar-se a leoes, porquanto lhe devoravam os bens, toda a sua coragem podera transformar-se brevemente em cobardia, pois esta proximo o momento em que o agil e astuto Ulisses revelara tambem a sua valentia de leao.

Por fim, importa-me ainda convocar um ultimo simile que, embora em diferentes aspectos, difere tambem da generalidade dos da Iliada. No canto XXIII, quando Penelope mostra ter ja reconhecido no estrangeiro o marido que tardava, liberta agora de enleios, confiante, estende os seus bracos em redor do pescoco de Ulisses. Neste ponto do texto, quando a heroina pode descansar da tensao sentida pela necessidade constante de ter activa a mftic de que e dotada, e o narrador que, paradoxalmente, parece contrariar um ritmo discursivo marcado pela escassez de similes, socorrendo-se ele proprio deste artificio. Tudo para, pois, abrindo-se de novo a narrativa ao tema do naufragio:

[TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] (54)

Diferentemente do simile anterior, este nao se deixa percorrer por uma inversao de sentido que tornasse o seu movimento ambivalente. De certo ponto de vista, este simile assemelha-se mais ao da comparacao entre o arco e a lira, na medida em que o seu termo de comparacao aponta para algo mais que implica o labor humano para alem do estrito trabalho do seu sustento. Neste caso, mais do que o homem (aedo) e o instrumento (lira) indispensaveis a organizacao do discurso modelador do conceito, fica agora em evidencia no simile a propria concepcao de [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] tracada na Odisseia.

Alem deste aspecto, que notoriamente o distingue, porquanto sintetiza, como numa situacao de mise-en-abyme, o motivo central da narrativa, este simile apresenta ainda uma certa subtileza propicia a uma inversao de papeis entre Ulisses e Penelope que, longe de ser casual, entendo nao dever ser ignorado no sentido do conjunto da narrativa. De acordo com o verso 232, e Ulisses que, recentemente chegado a Itaca, assume a posicao de naufrago, situacao que se harmoniza com o desenvolvimento da narrativa desde o seu inicio, onde este heroi protagonista e, por excelencia, o mareante, compreendendo-se assim a sua posicao de naufrago no verso 232. Sem se perder o valor obvio de complementaridade entre Ulisses e Penelope--visivel atraves do fino e fundo sentido da mftic desenvolvida em cada um dos herois--, no entanto, os seus papeis sao distintos. Na Iliada e na Odisseia, homens e mulheres desempenham diferentes funcoes, situacao que e alias extensiva a jovens e anciaos. Porem, justamente desta clara distincao de papeis resulta, entre Ulisses e Penelope, uma complementaridade que e dificil deslacar. Penelope, silenciosa, senta-se ao tear, onde tece uma teia tao fina e subtil quanto o permite o seu espirito prudente, de modo a suster os avancos dos pretendentes e assim manter vivo o sentido do regresso do rei de Itaca, seu marido que tarda; Ulisses, que partira para a guerra, com a sua [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], cumpre-se agora na condicao de naufrago em busca do regresso. Ha porem, qualquer coisa de surpreendente neste simile que, de forma inesperada, reune, numa sintese admiravel, o sentido da accao da Odisseia. Quando porventura se esperava que a narrativa situasse o motivo da condicao de naufrago em Ulisses, o texto move-se, inesperadamente, como uma serpe, sem aviso, passando a mostrar Ulisses preferencialmente como porto de abrigo, no momento em que transfere para Penelope a situacao de naufrago. No verso 233, nao e ainda claro que o termo [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] se refere a Penelope, sendo ate natural associa-lo a Ulisses; porem, subitamente, no fim da pequena narrativa deste simile, onde ocorre a forma [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] (v. 237), percebe-se que e Penelope a figura comparada a estes nadadores naufragados, sendo portanto colocada a heroina na situacao de naufrago a cuja vista Ulisses se apresenta como um porto seguro. Deste modo, o simile nao so sintetiza, numa micro narrativa, o motivo central do poema, como transfere a condicao de naufrago para Penelope, invertendo assim os papeis dos dois herois. Poder-se-a pensar tratar-se apenas de uma situacao de verosimilhanca do texto, pois nao seria estranho que tambem Penelope estivesse na situacao de quem desejaria avistar porto seguro. Creio, porem, que tal nao invalida a obvia valorizacao desta inversao de papeis. Ulisses e propriamente o mareante protagonista, mas a pequena narrativa do simile detem-se afinal sobre Penelope, fazendo mesmo de uma mulher um naufrago, o que implica uma inversao de papeis entre homem e mulher, pois a esta concederam os deuses o destino de permanecer em casa. O simile, subtil, transporta assim qualquer coisa de mais significativo, pois parece sugerir que, tal como Ulisses so pode ser porto de abrigo e, tambem enquanto tal, rei em Itaca, na condicao de assumir a posicao do naufrago, tambem Penelope so pode ver em Ulisses um porto de abrigo na condicao de se deixar morrer, fazendo-se a si propria naufrago. Com efeito, ja no inicio do poema, a heroina poderia, de certa forma, assemelhar-se a um naufrago, no sentido em que, na ausencia de Ulisses, se abstem de tomar para si qualquer outra identidade que nao seja a do par Ulisses-Penelope, mantendo-se por isso a margem do lugar que socialmente lhe cabe em Itaca e, com isso, deixando provisoriamente suspensa a sua identidade. A mulher de Ulissses dilui-se assim na identidade de um naufrago que por condicao a tem adiada, para posteriormente se poder diluir na do naufrago que chega --Ulisses, rei de Itaca e seu marido.

O significado aqui implicado e muito mais vasto, pois complementa o sentido do regresso, por seu turno correlato do valor da legitima ocupacao do poder soberano do rei de Itaca. Nao cabe aqui, porem, desenvolver este aspecto (55). Importa antes mostrar que a Odisseia apresenta uma complexidade narrativa estranha a Iliada. Nada disto, porem, equivale a uma avaliacao qualitativa dos poemas. A Iliada mantem sempre intacta a elegante nobreza do seu canto de morte heroica--generosa celebracao de vida. Esta apenas em debate a delimitacao de uma diferenca que aponta para um novo contexto de composicao que parece ficar reflectido na Odisseia.

MARIA MAFALDA DE OLIVEIRA VIANA

CEC-FLUL

maria.viana@campus.ul.pt

(1) Ja no principio do seculo XX, J. A. SCOTT (Homer and his Influence (1925), Cooper Square Publishers, New York, 1963, pp. 65-67), embora reconhecendo que o ardor e a paixao da Iliada nao tem paralelo na Odisseia, chamava a atencao para a superioridade do manuseamento da tecnica e do material narrativo na Odisseia. Entendo, porem, diferentemente de Scott, que este aspecto nao constitui argumento para a veracidade da nocao antiga de que a Iliada teria sido composta por Homero na sua juventude e que a Odisseia seria obra da maturidade, perspectiva que se harmoniza com todo o seu estudo The Unity of Homer, 1921. Parece-me que a distancia e de outra ordem. O labor dos anos que imperceptivelmente vao reconfigurando a perspectiva de uma epoca sobre a arte do canto aparece de certa forma reflectido na Odisseia, de tal modo que esta se apresenta conceptualmente diferente em alguns aspectos. H. FRANKEL (Dichtung und Philosophie des fruhen Griechentums, 1951: Early Greek Poetry and Philosophy, Basil Blackwell, Oxford, 1975) torna mais patente essa diferenca, mostrando, alias, que a sua abrangencia e mais lata, num capitulo que lhe e especialmente dedicado: "The New Mood of the Odyssey and the End of Epic", pp. 85-93. Significativas sao as observacoes de B. SNELL (Die Entdeckung des Geistes: A Descoberta de Espirito, traducao de A. Morao, Lisboa, Ed. 70, 1992), quer no que diz respeito a perspectiva sobre as diferentes formas como em cada um dos poemas os deuses influenciam a accao humana (p. 56), quer no modo como introduz o movimento da lirica arcaica, situando-o ainda na Odisseia (pp. 84-85).

(2) Cf. Il., XIII, 389-391, versos que se repetem em Il., XVI 482-484: [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]. Ha outros similes semelhantes a este, como Il., XIII 178-180. Todas as citacoes e traducoes da Iliada e da Odisseia sao feitas a partir das edicoes de D. B. MUNRO e T. W. ALLEN, Homeri Opera. Iliadis Libros, 2 vols., Oxford, s. d. e de T. W. ALLEN, Homeri Opera. Odysseae Libros, 2 vols., Oxford, s. d.

(3) M. PARRY, "Whole Formulaic Verses and the Southslavic Heroic Song", The Making of Homeric Verse, Oxford, 1971, pp. 376-390.

(4) B. SNELL, op. cit., p. 82, considerando que as origens da epopeia grega se perdem na "obscuridade dos tempos pre-historicos, situa as duas epopeias homericas como o seu cume".

(5) Com inicios ainda no seculo XIX, intensifica-se ao longo do seculo XX, em certos dominios da filosofia e da hermeneutica, a nocao de que a linguagem nao e uma ferramenta ao servico do pensamento e da comunicacao; nao sendo secundaria neste processo, ela propria e densa, podendo o que nela aparenta ser excedente conduzir a um numero infinito de interpretacoes. E neste contexto que a nocao de autor perde o seu valor classico, para dar lugar ao de sujeito. O ensaio "The Intentional Falacy" (1946) de Wimsatt e Beardesly tornou-se emblematico. Seguiram-se-lhes, na mesma linha, R. Barthes, "La mort de l'auteur", Le bruissement de la langue, 1968 e M. Foucault, Qu'est-ce qu'un auteur, 1969. Todos estes se integram num contexto mais alargado em que a filosofia, com Nietzsche (e. g. Das Philosophenbuch), se convertera em interpretacao; a partir de Heidegger (e.g. Die Frage nach dem Ding, [section] 10-13), e da sua consciencia da historicidade do conhecimento, Gadamer (Wahrheit und Methode, II, 2) valorizara o movimento dos seculos como aspecto positivo do compreender.

(6) J. DERRIDA, "Signature, evenement, contexte", Marges de la Philosophie, Paris, Les Editions de Minuit, 1985, pp. 365-393. A nocao de traco, a qual da lugar o logos de regras permanentes, tem enquadramento mais alargado na obra de Derrida (De la grammatologie), sendo decorrente de uma concepcao de escrita entendida nao enquanto derivacao secundaria, mas como arquiescrita que tem implicito o diferimento da presenca ("differance"). O traco dissimula-se infinitamente e nao permite fixar o significado. Descendendo da desconstrucao heideggeriana da metafisica ocidental, trata-se de uma desconstrucao do pressuposto, com origem em Platao, de que a voz e a palavra exprimem, sem qualquer intermediario, o pensamento, enquanto portadoras directas de sentido. Nesta perspectiva, a escrita nao e secundaria relativamente ao significado, conforme e entendida no Fedro (275 a; 275 d-e) de Platao, onde e vista como perigo para o pensamento.

(7) Seria extenso transcrever estes versos. O texto mostra uma cena de organizacao para o combate, cuja narrativa podera ser dividida em duas partes distintas: numa primeira, a narrativa e assegurada pela ocorrencia bastante do aoristo, de modo a assegurar o desenvolvimento e progressao da accao; numa segunda parte, o modo narrativo da a impressao de a accao ter parado, porquanto uma longa sequencia de similes ilustra a organizacao dos guerreiros. Entre uma e outra parte lampeja, moroso, o brilho da deusa Atena que se insurge entre os guerreiros. Neste ponto, a narrativa abranda notoriamente para dar lugar ao desdobramento posterior do discurso numa sequencia de similes.

(8) O verso 467 ([TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]: "colocaram-se entao no prado florido do Escamandro") e ainda um vestigio da narrativa convencional que permite uma ligacao a primeira parte do texto; ja no canto III, apos a longa enumeracao dos guerreiros e lugares da sua proveniencia, depois de uma nova invocacao, o verso 1 ([TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]: "Entao depois que se organizaram, cada um juntamente com o seu chefe") obriga a uma ligacao a mesma primeira parte do texto em analise. No entanto, a sugestao do movimento e colorido proporcionada pelos similes e muito forte, pois de facto traz a tona do discurso um outro cenario. Em semelhante proporcao, a enumeracao dos guerreiros, nao permitindo uma saida do contexto do campo de batalha, introduz um abrandamento da narrativa analogo.

(9) Na verdade, uma leitura tao demorada como morosa e a narrativa mostra bem o jogo entre o que se poderia chamar, sem duvida antes do tempo, uma "narrativa convencional", onde o aoristo assegura a possibilidade de prossecucao efectiva da accao, e um outro modo de narrar que nao se pode dizer "nao convencional", mas que ao tempo dos dois poemas significa experiencia com a lingua--um modo de narrar que poe em evidencia para nos hoje como, na verdade, toda a relacao entre o discurso e o real parece ser por inerencia metaforica. (Dizer o movimento da guerra, transpor a realidade da guerra para o discurso, narrar a guerra e ja em si, antes de se fazer arte poetica, um exercicio de metafora.) No seu grau zero, poderiamos dizer que a Iliada possibilita uma construcao discursiva narrativa, cujo significado e formado por relacao nao exclusiva com o real, mas tambem com um discurso previo sobre este, porquanto a sua lingua narrativa nao e um utensilio neutro, pois transporta, como um destino, desde o inicio, uma densidade que a faz significar inevitavelmente para alem da sua dimensao utilitaria. O discurso narrativo da Iliada parece, pois, mostrar como a lingua e ja metafora.

(10) De modo a situar a diferenca de concepcao sobre a arte narrativa reflectida na Odisseia, importa lancar alguns tracos definidores de epopeia. Tomo como base a Iliada e a Odisseia, de modo a enquadrar aqueles aspectos que, de uma forma ou de outra, estarao envolvidos nesta reflexao. 1) A epopeia e um poema de ritmo unico (o hexametro), em modo narrativo, onde o uso, no caso do grego, do aoristo (de aspecto pontual) e da terceira pessoa verbal podem sugerir nao so a neutralidade do sujeito (narrador) em relacao ao real narrado, e, com isto, um efeito de distancia epica, mas tambem uma relacao cristalina nao mediatizada do discurso por eles formado relativamente ao real. 2) O aspecto pontual do verbo, que estrutura a narrativa (apesar de ser intercalado por outros aspectos verbais), situando a sua accao em tempo preterito, inviabiliza qualquer contacto e interferencia do tempo presente (o do narrador e dos ouvintes). 3) A terceira pessoa verbal, que favorece a sugestao de neutralidade do narrador relativamente ao narrado, permite projectar um assunto de interesse colectivo. 4) A accao da epopeia modela e tem como pano de fundo um quadro onde se reflecte uma determinada mundividencia, que outros elementos, para alem do verbo e da pessoa verbal, ajudam a compor: os discursos das personagens, os similes e a abundancia de adjectivos--elementos que demoram a narrativa e, nesse processo, apresentam, em visao panoramica, o quadro de valores em que tem lugar a accao. Nao pretendo apresentar de forma exaustiva a epopeia, o que, devido a sua vastidao e complexidade no tocante a reuniao de um consenso, nao caberia nas dimensoes deste trabalho, mas enquadrar dois aspectos sobre os quais incidira esta reflexao. Refiro-me ao efeito de distancia epica e ao modo de funcionamento dos similes, pois estes aspectos apontam para importantes mudancas de concepcao narrativa na Odisseia. Ficam assim de fora outros aspectos importantes como o da ausencia de uma introspeccao no heroi homerico, ou o elevado estatuto das personagens, sobre os quais, nao obstante a sua importancia, nao incide preferencialmente esta reflexao. De facto, tambem o aspecto do elevado estatuto das personagens aparece de algum modo reconfigurado na Odisseia, onde uma personagem como Eumeu tem importancia consideravel no desenrolar da narrativa, apesar de nao ser um protagonista. A presente reflexao, no entanto, confinada as dimensoes de um artigo, incide em particular sobre o factor da distancia epica e sobre o simile. Para o tracado destes aspectos, baseio-me, alem dos poemas, sobretudo em Aristoteles (Poetica, 1449 b), G. F. HEGEL (Esthetique, vol. 4, trad. fr. S. Jankelevitch, Paris, Flammarion, 1979, p. 101), M. BAKHTINE ("Recit epique et roman", Esthetique et theorie du roman, trad. fr. D. Olivier, Gallimard 1978, p. 449).

(11) Aludindo a correspondencia trocada entre Goethe e Schiller, E. Auerbach mostra como a narrativa homerica nao apresenta a fundura que um plano de retaguarda poderia conferir-lhe. Tudo e apresentado com clareza, a uma "luz uniforme", de tal modo que os seres se movimentam num espaco em que tudo e visivel. Neste enquadramento, toda e qualquer referencia e imediatamente contextualizada. Assim, a proposito da cicatriz de Ulisses, atraves de uma oracao relativa, a narrativa desenvolve imediatamente uma outra em menores dimensoes, para que nada fique na sombra. Este processo diferencia-se da possibilidade de o poeta introduzir a mesma historia, mas situando-a no pensamento de Ulisses. Tal, porem, nao acontece, pois, na epopeia homerica, tudo e dito as claras. A introspeccao (como tambem a tensao) e alheia aos poetas epicos que assim se opoem aos tragicos; cf. E. AUERBACH, Mimesis (Bern, 1946), traduit de l'allemand par Cornelius Heim, Gallimard, 2007, pp. 11-34. Creio, em todo o caso, que, apesar deste aspecto, e possivel considerar a existencia de uma certa fundura, mas em outro sentido. Na sombra nao fica o pensamento das personagens, mas pode ficar o do narrador sobre a sua arte, porquanto fica implicito no cruzamento entre uns e outros lugares do texto.

(12) Sobre este assunto, veja-se M. M. VIANA, "O canto de Ulisses", Euphrosyne, XXXIX, 2011, pp. 215-226.

(13) Cf. G. STEINER, Antigonas, trad. de M. S. Pereira, Lisboa, Relogio d'Agua, 1995, p. 140.

(14) Od, VIII, 73-75: o canto inspirado pela Musa e sobre o conflito entre Aquiles e Ulisses; Od, VIII, 499-520: Demodoco canta o dolo do cavalo maquinado por Ulisses e a tomada da cidade.

(15) A titulo de exemplo, veja-se o caso de Ariadna. A heroina, filha de Minos, cuja figura ascende a civilizacao minoica, e avistada por Ulisses no Hades (Od., XI, 321-325) e aparece na narrativa do escudo de Aquiles (Il., XVIII, 590-592).

(16) "Quando apareceu a filha da manha, a Aurora de dedos roseos". Esta formula aparece muito frequentemente nos dois poemas.

(17) Il., IX, 185-191.

(18) M. BAKHTINE, op. cit., pp. 441-473. A "distancia epica", na perspectiva de Bakhtine, e um de tres tracos constitutivos do genero epico. Esta "distancia epica absoluta" implica que, como sugere a sua cadencia em perfeito (absoluto), a narrativa nao tem margem para ser reinterpretada, alterada ou reavaliada, pois o aspecto da sua accao, que lhe e conferido em boa medida pelo perfeito, e inabordavel, devendo portanto ser aceite com reverencia. Tambem R. BARTHES ("L'ecriture du roman", Le degre zero de Vecriture, Paris, 1979, pp. 25-32), embora a proposito da proximidade entre o Romance e a Historia (no sec. XIX), se refere a certo sentido do "passe-simple" que se harmoniza bem com o de Bakhtine, porquanto aponta para uma realidade nao misteriosa nem absurda. A par do "passe-simple, Barthes refere-se, tambem neste capitulo, a importancia da terceira pessoa.

(19) Logo a partida, a distancia mantem-se tambem porque o interesse do ouvinte e do narrador em relacao a essa accao e da ordem do colectivo e nao do particular. Alem disso, a narrativa contada por Vasco da Gama ascende a um passado--com inicios em Luso e Viriato--relativamente ao qual a perspectiva do narrador, mesmo sendo este Vasco da Gama, so pode ser idealizada. Ate do ponto de vista formal, os deuses da cultura greco-latina--que nao tem valor religioso embora nao estejam isentos de significado--contribuem para dar a accao esse efeito de distancia.

(20) Outros aspectos, porem, enquadram, valorizam e confirmam a pertinencia destes e o significado que pretendo dar-lhes, na medida em que denunciam tambem uma certa complexidade da elaboracao narrativa. Refiro-me, por exemplo, ao lancamento da accao in medias res, que, na Odisseia, nao apresenta exactamente o mesmo contorno que tem na Iliada. Julgo, porem, que a inclusao deste aspecto na presente reflexao a alongaria de tal modo que se perderia o seu enfoque.

(21) Os adjectivos que apontam para a luminosidade e o brilho dos deuses, mais do que constituirem um adorno, permitem esbocar uma concepcao de [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] distinta da que aparece, por exemplo, no livro do Genesis, cuja narrativa e despojada deste tipo de adjectivacao. A titulo de exemplo, a caminhada de Abrao relatada em 12, 4-9 contrasta bem com o excerto da Odisseia citado acima.

(22) Od., I, 96-103: "Tendo assim falado, nos pes calcou as belas sandalias, / imortais e douradas, que a levam ora sobre o humido elemento / ora sobre a terra ilimitada, com o sopro do vento. / Pegou na forte lanca munida de bronzea ponta, / grande lanca pesada e robusta, com a qual subjuga fileiras de homens / herois, com os quais se enfurece, filha de poderoso pai. / E avancou, lancado-se dos cumes do Olimpo, / e ficou a porta do palacio de Ulisses em Itaca".

(23) Este aspecto enquadra-se na perspectiva de W. OTTO ("Religion et mythe archaiques", Les dieux d'Homere, Preface de M. Detienne, pp. 35-58), em meu entender das que melhor penetram o espirito homerico.

(24) Cf. B. SNELL, op. cit., pp. 47-65.

(25) Cf. op. cit., p. 56.

(26) Neste aspecto, parece-me significativo o facto de ficar patente na Odisseia uma diferenca importante, ainda que nao directamente dependente do modo de uso da tecnica narrativa. Na Odisseia, nao e tao salientado que a forca da [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] antecede o poder de Zeus como acontece na Iliada (XVI, 431-458). De facto, a [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], fiada pelas Moiras, mantem-se actuante na Odisseia, de tal modo que dela depende a vida de Ulisses (Od., VII, 195-198). O que o texto da Odisseia nao mostra explicitamente e o drama de Zeus, cuja vontade na Iliada nao pode suplantar a forca da aiaa. Deste modo, em relacao a Odisseia, infere-se, pela logica, que o soberano dos deuses estara na dependencia do destino, mas ha uma grande diferenca no facto de aqui isso nao ficar explicito do mesmo modo que na Iliada. Igualmente significativo e o facto de tambem na Odisseia o heroi nao declarar abertamente uma culpa, como o faz Agamemnon, situando-a no plano dos deuses (Zeus, Moira, Erinia e Ate). Tal nao implica uma atitude de desresponsabilizacao, mas reflecte o sentimento do homem que sente a sua accao na inteira dependencia da decisao dos deuses. A accao de Ulisses e acompanhada pela presenca da deusa, que a marca de significado e merito, mas este heroi nao faz na Odisseia afirmacao semelhante a de Agamemnon em Il., XIX, 86-88.

(27) M. PARRY ("The Traditional Epithet in Homer", op. cit., pp. 1-91) lembra que tudo o que se pode saber e apenas que esta tradicao de diccao bardica e mantida nos dois poemas, mas nada disto prova a sua unidade. Embora me pareca que, a partir de outros aspectos, se pode encontrar uma certa unidade nos poemas--questao que nao me importa aqui tratar pareceme tambem que os aspectos relativos a diccao nao comprovam essa unidade. Ora, tal como nao comprovam a existencia de uma unidade, nao constituem tambem obstaculo a que se considere uma diferenca da Odisseia relativamente a Iliada. Embora situe a diferenca da Odisseia em outros pontos, parece-me oportuna a leitura de C. R. BEYE, The Iliad, the Odyssey and the Epic Tradition, Gloucester, 1972, p. 158: "The Odyssey is quite a different work from the Iliad. The difference does not lie, however, in the mechanics of the lines. The impression is that two poets created these poems, both using a common style".

(28) BAKHTINE (loc. cit., p. 453) considera que a distancia epica existe nao so em relacao ao "material epico" e os herois representados (o narrado), mas tambem em relacao ao ponto de vista sobre eles.

(29) Il. II, 484-486: "Eapete vOv poi, [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]: "Dizei-me agora, o Musas, da Olimpia morada detentoras, / pois vos sois deusas, estais presentes e sabeis todas as coisas, /e nos so um rumor ouvimos, nada sabemos".

(30) Sobre esta equivalencia e uma primeira distincao entre poesia e verdade, veja-se M. H. ROCHA PEREIRA, "O conceito de poesia na Grecia arcaica", Humanitas, XIII-XIV, Coimbra, 1960-61, pp. 336-357.

(31) A Musa aparece associada ao canto de Demodoco no relato do canto deste aedo, na Odisseia, VIII; no verso 488 do mesmo canto, Ulisses refere-se a presenca possivel da Musa por detras do canto do aedo.

(32) M. BAKHTINE (loc. cit., p. 449) apresenta tres tracos constitutivos da epopeia: procura o seu objecto no passado epico nacional, o "passado absoluto" segundo a terminologia de Goethe e Schiller; encontra a sua fonte na lenda nacional (nao numa experiencia individual e de livre invencao); o mundo epico e isolado pela "distancia epica absoluta" relativamente ao tempo presente: o do aedo, o do autor, o dos seus ouvintes.

(33) O heroi nao o faz, porque, do ponto de vista da economia da historia, Ulisses nao e um aedo; e o narrador ou o poeta que, por vezes, atraves do discurso das outras personagens e nao so, vai sugerindo essa possibilidade. Cf. M. M. VIANA, op. cit

(34) Frag. 1 D (Adrados), 1-5: [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]: "Agradaveis filhas de Mnemosine e de Zeus Olimpio, / Musas Pierides, ouvi-me, suplicante; / concedei-me a fortuna da parte dos deuses bem-aventurados e da parte de todos / os homens ter sempre boa fama; / ser doce para os amigos e amargo para os inimigos". Estas Musas nao sao convocadas enquanto deusas mediadoras de uma verdade longinqua; na Elegia as Musas, comeca a ser perceptivel como a Musa se transformaria num recurso literario. As deusas mantem valor religioso. O facto de poder mudar a natureza daquilo que e facultado por esta entidade e que constitui diferenca assinalavel, pois anuncia a possibilidade de outras mudancas.

(35) Na perspectiva de BAKHTINE ("Deux lignes stylistiques du roman europeen", op. cit., pp. 183-233), a "descentralizacao verbal" implica a formacao de linguas de diferentes grupos sociais e suas profissoes e portanto uma relacao de tensao entre as suas vozes. A Odisseia nao corresponde exactamente a esta situacao. No entanto, quer a valorizacao do presente quer do saber do heroi oriundos da sua experiencia de errancia e de sofrimento abrem caminho, se nao de imediato ao romance, pelo menos a um novo genero poetico. O que me parece adequado pensar e no movimento de uma arte em transicao.

(36) Este e um dos aspectos mais valorizados por FRANKEL (op. cit., pp. 85-93) no capitulo dedicado ao novo tom da Odisseia. Antes, porem, o autor reconhece mesmo que a sua intriga e essencialmente a do romance (op. cit., p. 48).

(37) Ate esse ponto da narrativa, a identificacao de Ulisses mantem-se apenas no dominio dos deuses. O destino do heroi permanece longinquo para os mortais--Penelope, os pretendentes em Itaca, Telemaco, que parte em busca de noticias. No canto V, Ulisses aparece na ilha de Ogigia, mas apenas aos olhos dos deuses, do narrador e do ouvinte / leitor.

(38) A distancia epica e parcialmente cortada, na medida em que o "passado absoluto" sofre de algum modo uma interferencia do presente. Nao se trata de uma interferencia directa do plano do narrador principal nesse passado; o que me parece digno de registo e que esse narrador principal projecte uma figura de narrador (Ulisses) que nao so irrompe do canto onde e protagonista, dando-se a conhecer na corte dos Feaces, como e um mediador de verdade, o que sugere a possibilidade de agora o discurso radicar na experiencia do narrador. Posto isto, poder-se-a pensar que na Odisseia aflora incipiente uma categoria do romance enquanto genero em devir, uma vez que o presente, por natureza inacabado, comeca a aparecer como categoria narrativa, atraves de Ulisses que sobre si mesmo nunca narra a mesma historia. O mundo fechado do passado absoluto abre-se assim a possibilidade do confronto com o presente mas tambem com o outro. No entanto, a Odisseia mantem-se dentro do genero epico. Entre outros aspectos, porque nao desvaloriza o passado nem reflecte propriamente uma consciencia da sua relatividade. Uma aproximacao ao romance e feita ja por A. Lang (Homer and the Epic, 1893, p. 7), com a observacao de que a epopeia se faz romance na Odisseia.

(39) Segundo W. C. SCOTT (The Oral Nature of the Homeric Simile, Lugduni Batavorum, Brill, 1974, p. 120) a Odisseia conta cerca de um terco dos similes da Iliada.

(40) Alguns similes sao integralmente repetidos, como e o caso do que citei anteriormente, onde se compara a queda do heroi a queda de um carvalho ou de um pinheiro (cf. Il., XIII, 389-391; XVI, 482-484). Em outros casos, e o motivo do segundo termo de comparacao que se repete, como acontece neste caso especifico. Deste modo, o aedo teria armazenado na memoria alguns [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] de temas aos quais poderia recorrer.

(41) Cic., De orat., III, 39, 157-158 valoriza a metafora, salientando o seu poder de concisao (breuitas). Cicero nao diz que a metafora e preferivel a comparacao, mas fica claro que a valoriza, na medida em que apenas se refere a similitudo como componente da metafora (De orat. III, 162-163). Aristoteles mostra a maior brevidade da metafora relativamente a comparacao, mas nao se pode dizer, a partir das suas palavras, que o filosofo encontra nessa brevidade uma virtus: Rh., 1406, b, 20 (ed. W. D. Ross, Aristotelis Ars Rhetorica, Oxford, 1975 r): [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] "Tambem a comparacao e uma metafora, pois pouco difere dela: quando se disser [sobre Aquiles] que "ele se lancou como um leao", e uma comparacao; quando se disser que "um leao se lancou", e uma metafora. Por serem ambos corajosos, atraves deste (processo), chamou leao a Aquiles".

(42) Il, I, 352, 414-418.

(43) Para uma concepcao da morte heroica, veja-se J. P. VERNANT, "La belle mort et le cadavre outrage" , L'individu, la mort, Vamour. Soi meme et autre en Grece ancienne, Gallimard, 1989, pp. 41-79.

(44) Cf. Od., XII, 184-200. Entre os versos 184-190, o narrador descreve o canto destas mulheres e o doce efeito que provoca; a informacao sobre o seu caracter mortifero encontra-se em XII, 39-46, versos correspondentes ao aviso de Circe.

(45) Os similes nao desaparecem da narrativa, mas sao mais escassos. Uns versos adiante, alias, ainda no relato de Ulisses (Od., XII, 251-255), encontra-se um simile. Curiosamente, este, cujo termo de comparacao e constituido pela figura de um pescador com a sua cana e o peixe a palpitar depois de este o ter apanhado, descreve nao o movimento de Ulisses, mas o dos companheiros.

(46) E, neste caso, vistos os dois similes em correlacao, e perceptivel que a sua ocorrencia nao constitui um mero retorno ao mesmo, mas aponta para uma associacao nao casual da arte do aedo a Ulisses. Cf. Od, XVII, 318-321. O porqueiro Eumeu compara Ulisses, quando este narra as suas historias, a um aedo; na pequena narrativa, fica pintado um cenario semelhante ao da corte do rei Alcinoo, onde os convivas desejam ardentemente ouvir Demodoco. Igualmente significativo e o simile (XXIII, 159-162) onde a accao de Atena sobre Ulisses e comparada a de um artifice.

(47) Este e o tipo de argumento de W. S. SCOTT (op. cit, pp. 120-125). Em seu entender, a accao da Odisseia difere tao radicalmente da Iliada que a aparente discrepancia pode ser explicada pela diferenca das historias.

(48) Sobre este assunto veja-se M. M. VIANA, op. cit.

(49) Refiro-me aos similes de maior extensao, onde ocorre uma pequena narrativa, que sao aqueles que de facto introduzem um efeito de contraste na narrativa, alterando o seu aspecto. Nao incluo portanto pequenas comparacoes como a de Atena a uma ave, ao afastar-se de Telemaco (Od., I, 320), embora tambem estes possam ser incluidos entre os similes (cf. W. S. SCOTT, op. cit., pp. 96-97).

(50) Od, IV, 333-340: "Ah, e com toda a certeza foi no leito de um poderoso homem de coragem / que quiseram deitar-se, mesmo nao tendo eles muita forca. / Mas tal como quando a corca no abrigo denso de arvores do forte leao / deitou as crias recem nascidas, que ainda mamam, / e pelas montanhas e vales verdejantes procura / pastar, aquele em seguida entra na sua toca / e sobre ambos lanca um destino de morte vergonhoso, / assim Ulisses lancara sobre aqueles um destino de morte vergonhoso".

(51) A corca e o leao aparecem, por exemplo, na Il., XI, 113-121, versos onde o leao corresponde a Agamemnon e a corca aos Troianos, presas de Agamemnon, que nao podem ser socorridos pelos seus companheiros. Na Iliada, XXII, os versos 304-311 ilustram a ousadia de Heitor, cuja investida contra Aquiles e comparada a de uma aguia que se lanca sobre um tenro cordeiro ou sobre timida lebre. A comparacao procura ilustrar a ousadia do heroi que, ciente da sua morte proxima as maos de Aquiles, procura conquistar a sua gloria maior no confronto com o inimigo. O texto nao deixa de ser ironico, pois, neste caso, Aquiles seria notoriamente a aguia e Heitor o cordeiro.

(52) Esta apreciacao sobre as atitudes dos pretendentes e perceptivel quer a partir da perspectiva de Penelope (Od, IV, 681, 766) quer da do narrador (Od., 627).

(53) Cf. Od., XVII, 124-131.

(54) Od, XXIII, 232-238: "Chorou abracando a sua mulher agradavel ao seu coracao e de sabia prudencia. / Como quando a terra pode aparecer acolhedora aos nadadores, cuja nau bem construida Posidon, no alto mar, / quebrou, impelida pelo vento e pela vaga compacta, / alguns escapam do branco mar--os que ate a margem nadam e, com o sal espesso em volta da pele, / contentes, chegam a terra, aos piores males tendo escapado--/ pois assim tambem a ela lhe pareceu acolhedor o marido a sua vista / e ja nao largou do pescoco dele os seus bracos".

(55) Nao cabe aqui, porem, desenvolver este aspecto que por si so propicia uma reflexao independente. O que pretendo sublinhar e a subtileza do texto nas possibilidades de sentido que traca.
COPYRIGHT 2012 Universidade de Lisboa. Centro de Estudos Classicos da Faculdade de Letras
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2012 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:I COMMENTATIONES
Author:de Oliveira Viana, Maria Mafalda
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2012
Words:13363
Previous Article:C.A.L.M.A: Compendium Auctorum Latinorum Medii Aevi (500-1500).
Next Article:Da origem do ser segundo a Teogonia, de Hesiodo (abordagem filosofica).

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters