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A FORMA DE UMA CIDADE: O SPLEEN DE PARIS/THE FORM OF A CITY: THE SPLEEN OF PARIS.

Mais de um seculo apos a publicacao dos Pequenos poemas em prosa foi o tempo necessario a critica francesa para que a importancia da obra baudelairiana, publicada postumamente (1869), se tornasse evidente. Foi preciso que surgisse a questao do Pos-moderno com Francois Lyotard (1) (LYOTARD, 1979) para que se formalize na Franca o aspecto inovador e revolucionario da obra.

Por outro lado, se os "tracos" da modernidade, tais como Antoine Compagnon os delineia (2) (COMPAGNON, 1990, p. 34), se aplicam a producao artistica da epoca, eles sao particularmente eloquentes em relacao ao poema em prosa, enquanto manifestacao mais significativa desse movimento. Os poemas em prosa, com o seu alto teor de polissemia, contem com efeito todos os tracos identificados como modernos, segundo Antoine Compagnon, retomando Baudelaire sobre Constantin Guys (3) como o "in-acabado", o "fragmentario" (atencao aos detalhes), o "insignificante" (a recusa da unidade e da totalidade organicas) e a "circularidade" (ou "autonomia" ou ainda "a reflexividade") (4), aos quais se pode acrescentar o carater "urbano"--o homem, a cidade, a sociedade da epoca--, o que ja foi amplamente analisado por Walter Benjamin (BENJAMIN, 2002) para a obra baudelairiana em geral, ou como sugere Compagnon (COMPAGNON, 1990, p. 34) "Le monde moderne est encore caracterise par ce qui echappe a la culture d'elite, par son aspect trivial, populaire et urbain. Textos dificilmente classificaveis, os poemas em prosa representam, como ja assinalava Georges Blin (BLIN, 1948, p. 168), "um comeco absoluto", e frequentemente intrigaram a critica.

E verdade que, desde Trieophile Gautier (5) (GAUTIER, 1868, p. 175) em 1868, houve varias tentativas para defini-lo, mas os comentarios sobre essas pecas, tambem chamadas de Spleen de Paris, permaneceram em geral bastante "circunscritos", ou mesmo prudentes. Apesar de seus leitores levarem em conta simultaneamente o desejo do autor de adotar o modelo de Aloysius Bertrand (6) (o que ele proprio confessa nao conseguir) e o desejo de uma prosa "musical, sem ritmo e sem rima, flexivel e desencontrada o bastante para adaptar-se aos movimentos liricos da alma, as ondulacoes do devaneio, aos sobressaltos da consciencia" (BAUDELAIRE, 1996, p. 25), a tendencia foi de compara-los aos poemas em verso, e ate mesmo de procurar quando possivel o poema em prosa correspondente.

A dificuldade da critica em comentar esses poemas provem menos dos "temas" abordados (muitos dos quais proximos aos de Edgar Poe, como a multidao, a deambulacao...) do que da heterogeneidade aparente das formas nas quais eles se inscrevem (7). Theophile Gautier fala de "quadros, medalhas, baixos relevos, estatuetas, ourivesaria, pinturas, camafeus que se sucedem como as vertebras da coluna dorsal de uma serpente (GAUTHIER, 1868)", imagem que o proprio Baudelaire sugere de certa maneira em sua carta a Houssaye:
Enlevez une vertebre, et les deux morceaux de cette tortueuse fantaisie
se rejoindront sans peine. Hachez-la em nombreux fragments, et vous
verrez que chacun peut exister a part. Dans l'esperance que
quelques-uns de ces troncons seront assez vivantspour vousplaire et
vous amuser, j'ose vous dedier le serpente tout entier. (8)


Georges Blin nota que Baudelaire e consciente da sua novidade; e o critico propoe, por sua vez, uma definicao bastante multiforme do conjunto evitando atribuir-lhe caracteristicas ja existentes, combinando etica, divertimento, desespero, manifestacao do inconsciente, estetica... Ele insiste na presenca da Cidade que "toma posse progressivamente da inspiracao de Baudelaire", pois ve nisso uma concordancia entre as observacoes do poeta sobre Constantin Guys, as pecas urbanas das Flores, as palavras de Baudelaire a Sainte-Beuve a respeito de uma "excitacao bizarra"--"que necessita de espetaculos, multidoes, musica, postes luminosos" (BLIN, 1948, p. 169)--, enumerando os elementos urbanos que transparecem nos poemas em prosa (o gas, os lampioes, os brinquedos, a vestimenta, o vidraceiro, as carruagens...), elementos reunidos por Walter Benjamin como "temas baudelairianos", contemporaneos do Segundo Imperio.

Segundo Andre Hirt (HIRT, 2000, p.95), um critico mais proximo de nossa epoca, "a escritura do lirismo avanca ao passo dos acontecimentos, na propria aventura de escrever, numa estrategia decidida do aleatorio". Ele acrescenta que Baudelaire escreve a maneira de um croquis de Guys, "uns tracos, um detalhe, o pensamento do dia, tudo com um ar de prosa dentro de um quadro estruturado" (comprimento das frases, assonancias, "ondulacoes", tudo ao mesmo tempo continuo e descontinuo). Walter Benjamin, ao se referir a Historias extraordinarias e Outros Contos, mostrou de maneira magistral como Baudelaire foi influenciado pela escrita de Edgar Allan Poe atraves de sua traducao (9); e se, segundo o filosofo alemao, Baudelaire esta mais proximo do assassino (e nao do policial) do genero policial, ou do anarquista, ou mesmo do "putschista", podem-se ler nos poemas em prosa a ironia, a parodia solene, a contradicao, a intertextualidade com os textos do poeta americano sob forma de pastiches, narrativas, cenas, quadros, meditacoes.

Laco que nota igualmente Jacques Derrida, ja num momento posmoderno (DERRIDA, 1991). Com efeito, um dos efeitos dos poemas de Baudelaire, segundo o filosofo, consiste em ultrapassar a modernidade. Se definirmos um de seus tracos como o da indeterminacao semantica ou seja, a destruicao das formas pre-existentes, o exercicio no qual no decorrer da prosa encontramos o poema (imagens, cadencias)--, se observarmos as modificacoes de registro, de velocidade (mudanca de tom, ruptura, irrupcoes), o cruzamento de temas (quadros esbocados, retratos), em outras palavras, todos os componentes de uma obra em movimento, "work in progress", poderemos entrever um dos suportes da teoria derridiana da disseminacao ou da diferanca, na qual o sentido nunca e fixo, definitivo. Derrida estabelece, dessa maneira, uma relacao entre o Poe da "Carta roubada" e o Baudelaire da "Falsa moeda", cujo incipit e inspirado pelo texto de Poe e com o qual o texto de Baudelaire apresenta tracos comuns (simulacro de processo de verdade, situacao narrativa associada a um resto, o troco da moeda). Aqui, segundo Derrida, a literatura se apresenta como a falsa moeda, isto e, uma ficcao que tenta passar por "verdadeira" num texto "sem pe nem cabeca", e que funciona como uma "maquina de provocar eventos" (10).

A leitura luminosa de Barbara Johnson (JOHNSON, 1979) (11), de tendencia desconstrutivista, alimentada pela psicanalise e anterior a de Jacques Derrida, oferece a vantagem de se ater ao texto, propondo uma analise textual de varios poemas entre os quais os pares verso/prosa.

A partir de um paralelo com Ferdinando de Saussure, cujas duas obras sao antiteticas, a segunda subvertendo a primeira (12) e na qual o funcionamento paragramatico dos textos poeticos contradiz a uniao do significante e do significado estipulado no Cours, Barbara Johnson parte do postulado que a obra poetica em prosa de Baudelaire se contrapoe a obra em verso, que ela subverte, nao sem insistir igualmente no carater "sem pe nem cabeca" do conjunto, "un moulin qui finit par pulveriser toutes les definitions qu'on essaie d'en extraire (13)".

Comparando os dois poemas "La Chevelure" (em verso) e "Un hemisphere dans une chevelure" (em prosa), Barbara Johnson chega a varias conclusoes interessantes. A primeira e que os textos poem em cena varias questoes de espacamento e de temporalidade que constituem nao so a leitura mas a escritura deles.

Comparando as duas variantes do verso 30:
De l'huile de coco, du musc et du goudron.
e
du goudron, du musc et de lhuile de coco (14),


ela observa que a diferenca entre os dois enunciados e praticamente nula. O primeiro fragmento, porem, nao somente comeca com uma letra maiuscula, mas apresenta uma cesura apos a sexta silaba, o que acarreta no significado "alexandrino", enquanto que o segundo fragmento, com letra minuscula e a preposicao "e" intercalada, quebrando o ritmo, alcanca 11 silabas, e nao as 12 do verso alexandrino. O primeiro fragmento e nitidamente um verso de poesia, enquanto que o segundo e uma frase de prosa.

Varias questoes sao levantadas: a diferenca entre prosa e verso se afirma entre duas especies de marca ou entre a presenca e a ausencia de marca? Outra questao: se o poema em prosa se constroi sobre o verso que ele deixou de ser e so pode se afirmar em relacao ao que ele nao e mais, entao o poema em prosa deriva, na realidade, igualmente de dois codigos a escolha?

Em presenca de dois tipos de oposicoes binarias (presenca/ausencia de marca; referencia ao codigo "poesia"/ referencia ao codigo "prosa") que se anulam, ela pode afirmar que "le poeme em prose est le lieu apartir duquel la polarite - et donc la symetrie - entre presence et absence, entre prose et poesie, dysfonctionne, (15)", o que lembra as premissas de Jacques Roubaud sobre o verso de Baudelaire que veremos a seguir.

Uma comparacao exaustiva entre os dois poemas ja tendo sido efetuada (16), a pesquisadora se interessa pelos tracos "subversivos" da passagem do verso a prosa.

a. O poema em prosa "Um hemisferio numa cabeleira", no inicio, tinha o mesmo nome que o poema em verso (1857), mas em 1862 ele recebe o titulo atual com a transformacao de algo essencial ("A Cabeleira") em um lugar com uma denominacao geometrica. Para a pesquisadora, pode-se ver ai uma neutralizacao da retorica em que a especificacao generica "poema exotico" manifesta a ironia do poeta.

b. O aspecto altamente metaforico das imagens que remetem a cabeleira do poema em verso ("O toison, moutonnant jusque sur l'encolure// O boucles! Oparfum charge de nonchaloir..") (17) deixa lugar ao que Jakobson chama de passagem do eixo paradigmatico ao eixo sintagmatico (18) no poema em prosa. Os cabelos e o perfume sao empregados literalmente. Ha um abaixamento do regime retorico.

c. No poema em prosa as lembrancas ("les souvenirs"), sao lembrancas do poema em verso, um poema que lembra um anterior, e a circularidade mencionada por Antoine Compagnon.

d. Enfim, o que aparece como literalidade pode ser considerado como uma nova figura, o texto se espelha em si mesmo: reflexividade. A ultima estrofe permite estabelecer uma conclusao surpreendente. Enquanto no poema em verso encontramos "Longtemps ! Toujours ! ma main dans ta criniere lourde// Semera le rubis, la perle et le saphir,// Afin
qu'a mon desir tu ne sois jamais sourde... (19)"--que se refere a um
"tu"o qual, mais do que a mulher amada, remete, segundo Barbara
Johnson, ao passado do proprio poeta--, no poema em prosa a "harmonia
metaforica se desloca" e desvenda "o carater ilusorio das
correspondencias que a constituem" (20): "Laisse-moi mordre longtemps
tes tresses lourdes et noires. Quand je mordille tes cheveux elastiques
et rebelles, il me semble que je mange des souvenirs". (21) O poema em
prosa, prossegue a critica, substituindo correspondencias por
diferencas, elimina as primeiras e suprime as personificacoes que elas
veiculam. (22)


Em conclusao, ela afirma que "loin d'etre um defaut stylistique, l'aplatissement hyperbolique et la litteralisation systematique du langage du poeme em prose est ainsi um deplacement strategique du langage poetique en tant que tel". (23) Em outras palavras, ao subverter a oposicao binaria prosa/poesia, "le poeme em prose n'est ni exterieur ni interieur a la poesie... ". (24)

Atraves dessa analise dos dois poemas, Barbara Johnson afirma o carater subversivo da empresa baudelairiana. Baudelaire desconstroi a retorica que, de certo modo, ele denuncia como artefato; mas, ao faze-lo, ele traz a prosa para a poesia, como pretende Jacques Roubaud (25).

B--Spleen de Paris

Horrible vie! Horrible ville! (26)

Embora todos os textos que compoem o conjunto das PPP nao se refiram diretamente a cidade de Paris (27), o que fica claro e que Baudelaire e profundamente parisiense, e como tal ele exprime direta ou indiretamente o que a cidade lhe inspira. Nao so Paris e a sua cidade, que ele percorreu a pe no decorrer de suas inumeras mudancas (28), mas e uma cidade em transformacao devido ao programa de renovacao inspirado pelo prefeito Haussmann, entre 1852 e 1870.

Essa renovacao concerne ao centro de Paris mas tambem aos bairros perifericos, e consiste essencialmente na substituicao das ruelas pitorescas por grandes avenidas. O objetivo do programa e oficialmente higienizar a cidade por meio de canalizacoes de agua e de esgoto, mas colateralmente destruir a possibilidade de organizar barricadas (levantes), impossivel em grandes avenidas (29).

Em meio a esse caos, o poeta deambula nao sem experimentar, como o assinala Walter Benjamin, os tramites economicos e sociais do seculo, que sao o desenvolvimento de uma sociedade industrial de massa, o aparecimento do proletariado, a experiencia da multidao na grande cidade, o choque, a mercadoria, a "perda da aureola do poeta", criando assim a figura do "heroi moderno (BENJAMIN, p. 20)".

Segundo Benjamin ainda, o leitor avanca como numa galeria de vitrinas e divaga. E, com os olhos de Baudelaire, ele observa essa Paris do Segundo Imperio em plena revolucao moderna.

Ja segundo Pierre Jean-Jouve (JOUVE, 1956, p. 38) (30), Baudelaire
pour peindre le spleen de Paris, choisit de mettre au premier plan la
sensibilite et la memoire des humbles choses quotidiennes pour leur
faire exprimer au second plan, la vie du symbole, ce symbole qu'il
cultive lui seul. Les sixyeux despauvres, comme la chevelure de Jeanne
Duval, les verres du vitrier, comme le rat vivant avec lequel joue um
enfantserventa l'investigation approfondie--queffectue le poete--ou
plutotforment son incantation.


A esse simbolo Walter Benjamin da um nome, alegoria, e uma significacao e reificacao num mundo em mutacao. Para o filosofo, o "genio alegorico" do poeta transforma Paris, sua paisagem urbana com suas galerias abertas, os panoramas, a iluminacao dos lampioes a gas, a moda, a publicidade, o colecionador, a prostituta, o "flaneur"... em objetos de poesia lirica; a alegoria e um antidoto contra o mito romantico (BENJAMIN, 2012, p. 209).

Ora, como na grande cidade, sao multiplas as orientacoes e as relacoes que caracterizam os poemas em prosa. Barbara Johnson tira conclusoes muito interessantes ao comparar os poemas, raros, que se correspondem de modo evidente ("A Cabeleira"/ "Um hemisferio numa cabeleira"; "Convite a viagem"/ "Convite a viagem"). Seu objetivo e mostrar a maneira pela qual o poeta desfigura e denuncia pelo poema em prosa, o poema em verso, num gesto subversivo e metacritico. O exercicio, apesar de brilhante, atinge seu alvo na medida em que os textos se prestam a ele, o que nao diminui o valor da empresa. O exercicio nao teria sido possivel com os dois "Crepuscule du soir", embora ambos se refiram a cidade de Paris: o primeiro, poema 95 dos "Tableauxparisiens" (BAUDELAIRE, 1975, p. 94), e o segundo, peca 21(BAUDELAIRE, 1975, p. 311) dos poemas em prosa.

Com efeito, no poema em verso, o crepusculo e a hora do criminoso, a hora do repouso do cientista e do trabalhador, mas tambem e a hora em que os demonios despertam:
On entend ca et la les cuisines siffler,
Les theatres glapir, les orchestres ronfler;
Les tables d'hote, dont le jeu fait les delices,
S'emplissent de catins et d'escrocs, leurs complices
Et les voleurs qui n'ont ni treve ni merci,
Vont bientot commencer leur travail, eux aussi (31)


O poeta, por seu lado, longe da multidao, se recolhe no calor do lar e do amor. No poema em prosa, o crepusculo e tambem uma hora especial, que "excita os loucos", mas aqui tambem e a hora tranquila, em que as cores do ceu imitam veus transparentes que deixam entrever formas delicadas e anunciam a vinda das estrelas "vacilantes de ouro e de prata (32)".

Alguns poemas em prosa, raros, deixam entrever ao leitor lugares tipicamente parisienses, como e o caso de "Les Yeux despauvres" (peca 26):
Le soir, um peu fatiguee, vous voulutes vous asseoir devant um cafe
neuf qui formait le coin d'um boulevard neuf, encore tout plein de
gravois et montrant deja glorieusement ses splendeurs inachevees. Le
cafe etincelait. Legaz lui-meme y deployait toute l'ardeur d'um debut,
et eclairait de toutes ses forces les murs aveuglants de blancheur, les
nappes eblouissantes des miroirs, les ors des baguettes et des
comiches... (33)


Temos aqui o testemunho da renovacao da cidade, e podemos reconhecer os cafes-restaurantes tipicos do seculo XIX remanescentes, embora o assunto do texto seja o desprezo da mulher, que acompanha o narrador, pelos pobres cujos olhos espiam todo esse luxo atraves da vitrine do cafe, o comportamento da amada provocando a ira do poeta.

Certos poemas sao consagrados aos pobres, com quem o poeta se identifica, como "Le joujou dupauvre" (O brinquedinho do pobre), "Assommons lespauvres" (Espanquemos os pobres), ou as mulheres solitarias ("La petite vieille", A Velhinha; "Les veuves", As Viuvas), por quem ele manifesta uma certa compaixao. Em seu ensaio, Benjamin nota o laco irredutivel que une Baudelaire nao so a cidade mais aos habitantes (as velhinhas, o garrafeiro, os assassinos e os bebados, as cortesas...) nem sempre, como o mostra Meschonnic, numa relacao cumplice, mas por vezes de maneira pejorativa (em relacao a moda ou ao gosto do publico). A forma dos textos, como as formas urbanas, e variada, indo da confissao, da descricao, da narrativa, ao texto lirico.

Na realidade, como ja apontaram Walter Benjamin ou Pierre Jean-Jouve, a evocacao baudelairiana de Paris e abstrata: Baudelaire se comportando como um "interprete", seus textos funcionando de maneira indireta, apesar de o tom, o estilo e os temas serem absolutamente pessoais. Assim, a tensao entre forma e conteudo, a reflexividade, o paradoxo, a intertextualidade, a antifrase, a alegoria, a heterogeneidade que atravessam os poemas em prosa vao, a partir de sua obra, caracterizar os tracos da modernidade, uma modernidade "sincretica", como a define Meschonnic (MESCHONNIC, 1988, p. 105). A palavra designa, com efeito, a supremacia do criterio existencial (relacao a vida) sobre o criterio estetico (34); a diferenciacao entre modernidade, enquanto "vida presente" (se referindo a Guys), e o moderno (atual, o que falta); a contradicao entre o eterno e o transitorio.
La tout nest qu'ordre et beaute,
Luxe, calme, volupte (35).


Em 1999, o poeta frances Jacques Roubaud (36) publica uma antologia cujo titulo remete a um poema de Baudelaire. Trata-se da antologia << La forme d'une ville change plus vite, helas, que le coeur des humains >> (37), conjunto de 50 poemas em prosa escritos entre 1991 e 1998 sobre a cidade de Paris. Roubaud retoma um verso do << Cisne >>, de Charles Baudelaire, no qual este ultimo exprime sua nostalgia diante das transformacoes que atingem sua cidade substituindo "mortels" por "humains", sem conotacao lirica.

Trata-se aqui mais do que uma homenagem, hipertextual, ao poema de Baudelaire e, em seguida, a sua invencao revolucionaria, emblema da modernidade, o poema em prosa. Roubaud confirma o que ja afirmara em 1978 em seus estudos teoricos e criticos sobre o verso e a poesia (ROUBAUD, 1978, p. 25) (38). Assim, utilizando um verso de Baudelaire, ele ilustra de maneira eficaz o que ele chama de tumulto, (motim) baudelairiano ("emeute") em relacao ao poema em prosa que e o genero da antologia: "En rompant l'identification de la poesie au vers, la naissance du poeme em prose, loin de preparer l'effacement de la distinctionprose/poesie, vise a lapreserver em lui donnant um statut absolu, en essence. (ROUBAUD, 1978, p. 108-110). (39)"

Em outras palavras, apropriando-se do poema versificado de Baudelaire e utilizando-o como titulo de uma antologia de poemas em prosa, Jacques Roubaud ilustra pela pratica o que ele afirma de Baudelaire: a distincao entre prosa e verso dilata as fronteiras da poesia e "l'identification implicite des deux polarites poesie/prose, vers/ non-vers est, par ce geste, deplacee: la prose est non-vers, mais ele est non-vers aussi dans la poesie" (ROUBAUD, 1978, p. 108-110) (40).

Baudelaire e ciente de sua novidade. Inspirando-se na obra de Aloysius Bertrand, o inventor do genero poema em prosa (41), ele pensa nao ter conseguido imitar o modelo: "(...) je m'apercus que non seulement je restais bien loin de mon mysterieux et brillant modele, mais encore que je faisais quelque chose (si cela peut s'appeler quelque chose), de singulierement different (...) (BAUDELAIRE, 1975, p. 25) (42)

Na verdade, trata-se do resultado de uma busca continua, de uma pesquisa sempre contrariada pela necessidade de completar As Flores do Mal, alguns poemas saficos tendo sido censurados, de que se lamenta numa carta a sua mae.

E, mesmo se os temas e os motivos da obra em verso e da obra em prosa sao proximos, os textos do Spleen de Paris visam a um objetivo diferente: se, por um lado, eles representam a busca de uma nova forma em adequacao a imaginacao e ao pensamento modernos, por outro eles tentam apreender as inumeras relacoes que se entrecruzam numa grande cidade, no caso a cidade de Paris em plena reconstrucao. Assim, ao mesmo tempo em que diz: "Quel est celui de nous qui n'a pas, dans ses jours d'ambition, reve le miracle d'une prose poetique, musicale, sans rythme et sans rime, assez souple et assez heurtee (BAUDELAIRE, p. 22-25) (43) (...)", Baudelaire acrescenta: "C'est surtout de la frequentation des villes enormes, c'est du croisement de leurs innombrables rapports que nait cet ideal obsedant" (BAUDELAIRE, 1996, p. 25) (44).

Ora, uma grande diferenca existe entre as obras dos dois poetas. Se, por um lado, com efeito, Jacques Roubaud evoca diretamente a cidade de Paris, seus monumentos, seus metros, suas ruas, sua topografia, seus proprios percursos enfim, por outro trata-se aqui de proceder a exercicios de poetica. Assim, por exemplo, a segunda parte da antologia e consagrada a uma reformulacao da forma soneto (14 versos), com mencao a pracas, a Torre Eiffel, a Maison de la Radio, ao canal Saint Martin, etc., que alternam com descricoes sobre o tempo, sobre sua propria rua (rua d'Amsterdam) ou sensacoes, "etats d'ame"...

Em Baudelaire, como foi amplamente analisado por Walter Benjamin em varias de suas obras (45), o problema da forma permanece implicito, alem de os poemas em prosa evocarem raramente a cidade de Paris nomeada somente no titulo. Baudelaire procede de maneira intertextual, transformando alguns de seus poemas versificados em poema em prosa, como no caso do "Convite a viagem" (Invitation au Voyage) (46).

Nesse sentido, Roubaud (ROUBAUD, 1978, p. 109) acrescenta que a escrita nitidamente contrastada de poemas como "L'Invitation au Voyage" (em verso e em prosa) manifesta que: "composer le 'meme' poeme a la fois comme poeme de vers et poeme de non-vers ne veut pas du tout dire que la separation formelle entre les deux est indifferente, mais exactement le contraire. (47) "

Roubaud propoe, por seu lado, uma versao "pos-moderna" do "Convite a viagem". Os dois primeiros versos sao quase uma copia dos primeiros versos do poema em verso:

Baudelaire: "Mon enfant, ma soeur,//Songe a la douceur//D'aller la-bas vivre ensemble!" (48)

Em Roubaud: - Songez a la douceur//d'aller" (49)...

Que continuam num outro tom, semijocoso, "a Abbeville// a Aboukir, a Ajaccio// a Alencon, a Alesia, a Alexandrie,// a Alger",... e que se interrompem, apos uma enumeracao de cidades em "B", para re-introduzir Baudelaire dessa vez nos dois ultimos versos do poema: "La, tout n'est qu'ordre et beaute//Luxe calme et volupte" (50), com a repeticao: "Ah la douceur d'aller,// d'aller la-bas, d'aller" retomando a ordem alfabetica ate a letra C. Nova interrupcao e retomada dos versos baudelairianos: "voir sur ses canaux// dormir ces vaisseaux//dont l'humeur est vagabonde (51)" (Baudelaire diz: " (tu) vois", se dirigindo a mulher amada). O poema continua enumerando cidades, indo da letra D a J, e uma nova interrupcao intervem: "la ou// les soleils couchants,// revetent les champs// les canaux, la ville entiere// d'hyacinthe et dor" (52)...//, que retomam os versos 7, 8 e 9 da terceira estrofe baudelairiana. A enumeracao prossegue ate a letra W (Washington) e alterna com listas, citacoes e dialogos. O final acrescenta uma nota de humor: "Et tout ca// - Avec l'Orient-Exptress?//- Non//avec une simple carte Orange 2 zones". (53)

Sobre o mesmo poema, num outro interessante estudo sobre o poema em prosa baudelairiano, inspirado de certa forma no pensamento derridiano, Barbara Johnson (JOHNSON, 1979, p. 103-106), apos retracar o percurso negativo da recepcao do poema, de Susanne Bernard a Crepet, analisa a versao em verso e a versao em nao verso do poema.

Ela conclui, apos uma analise estilistica, que o poema em verso, lirico se desenvolve sobre dois planos: o plano da seducao (o convite) e o plano da figura de retorica (atraves da convergencia entre metafora e metonimia (JOHNSON, 1979, p. 114).

O poema em nao verso, por seu lado, ja se inicia com a perda do locutor:

De um lado "Mon enfant, ma soeur//songe a la douceur//D'aller la-bas vivre ensemble: (54)" e enderecado a "tu", seguido de um imperativo que e mais um convite; de outro lado "Il est um pays superbe, um pays de Cocagne, dit-on, que je reve de visiter avec une vieille amie." (BAUDELAIRE, 1996, p. 95) (55) A interlocutora, nota Barbara Johnson, nao so nao e mais a destinataria do texto, mas aparece como "une vieilleamie", como complemento circunstancial. Nao existe mais intimidade entre o poeta e a mulher.

Mau grado a presenca do pronome "tu" da segunda pessoa, o dialogo parece desaparecer em prol de um destinatario tornado "nao pessoa".

Ela observa igualmente, como Michel Deguy (DEGUY, 1970, p. 421), que a metafora e substituida pela metonimia, atraves da preposicao "comme" (como):
Um vrai pays de Cocagne, te dis-je, ou tout est riche, propre et
luisant, comme une belle conscience, comme une magnifique batterie de
cuisine, comme une splendide orfevrerie, comme une bijouterie bariolee!
(56)


E a comparacao e posta em questao. Ou melhor, a viagem ao Oriente cessa de ser uma questao sentimental para se tornar uma "viagem de negocios" (JOHNSON, 1979, p. 130), tudo--como diria Walter Benjamin--tendo se transformado em bem de consumo, mercadoria, o que Baudelaire intuiu de maneira extremamente lucida.

A unica saida desse mundo mercantil se faz pela poesia:
"Elevee a sa plus haute puissance, la poesie semblerait donc sortir du
modele economique, pour s'etablir dans une transcendance esthetique
pure et incomparable" (JOHNSON, 1979, p. 134) (57).


De que maneira? Ao se opor ao sistema economico de equivalencia e de troca: "Qu'ils cherchent, qu'ils cherchent encore, qu'ils reculent sans cesse les limites de leur bonheur, ces alchimistes de l'horticulture! Qu'ils proposent desprix de soixante et de cent mille florins pour qui resoudra leurs ambitieux problemes ! Moi, j'ai trouve ma tulipe noire et mon dahlia bleu! (58)" (BAUDELAIRE, 1996, p. 96), diz Baudelaire de maneira intertextual citando um romance de Alexandre Dumas e uma cancao de Pierre Dupont, contemporaneos, (59) alem de proceder por associacao metonimica (Holanda= tulipa; tulipa= dalia).

A referencia banal a esses autores populares indexa, segundo Barbara Johnson, que sua "lingua natal" fala por si, tem seu inconsciente, diriamos. Trata-se, entao, de um "devir cliche" (JOHNSON, 1979, p. 142) que insere o ato de linguagem ou a fala, numa historia intertextual e heterogenea.

O poema em prosa poe em questao a linguagem poetica, e metacritico, como o poema anterior, antecipando ja Mallarme no sentido em que, segundo Barbara Johnson retomando Georges Blin: "(si) les Petits Poemes em prose contiennent ce qui est exclu des Fleurs du mal, c'est en explicitant non seulement ce qui est exclu, mais l'acte meme d'exclure" (JOHNSON, 1979, p.157) (60). Ou seja, o movimento de vai e vem entre os dois textos acaba ilustrando o fato de que cada um dos dois serve de pre-texto ao outro, mas nao de maneira simetrica. O poema em prosa e o simulacro do poema em verso; mas, sem ser simetrico, em espelho, ele faz aparecer o Outro da poesia.

Jacques Roubaud, compondo um poema sobre o poema de Baudelaire, ilustra o que o poeta intuiu de maneira genial: se as inumeras relacoes que se entreveem na grande cidade se entrecruzam nas formas e motivos variados, elas se sedimentam atraves dos seculos: Paris foi construida sobre Paris, o poema em prosa de hoje se constroi sobre o Spleen de Paris.

Referencias

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BAUDELAIRE, Charles. Le Spleen de Paris, O. C, Paris, Gallimard, 1975.

BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa, ed. bilingue, UFSC, 1996 (trad. Dorothee Bruchard).

BAUDELAIRE, Charles. Les Fleurs du mal, O.C., Paris, Gallimard, 1975.

BENJAMIN, Walter. Baudelaire, Paris, Ed. du Cerf, 2012.

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BLIN, Georges. Le Sadisme de Baudelaire, Paris, Corti, 1948.

COMPAGNON, Antoine. Les Cinq Paradoxes de la modernite, Paris, Seuil, 1990.

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DEGUY, Michel. La Poesie em question. Modern Language Notes, t. 85, n. 4, maio, 1970.

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GAUTIER, Theophile. Baudelaire, Paris, Michel Levy Freres, 1868.

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ROUBAUD, Jacques, La Vieillesse d'Alexandre, Paris, Maspero, 1978.

Ines Oseld-Depre e professora emerita de literatura geral e comparada na Universidade de Aix-Marselha, onde realizou a maior parte de sua carreira. Especialista de traducao literaria, e autora de obras como Theories et pratiques de la traduction litteraire (Armand Colin, 2006- 2a edicao, traduzido em arabe, traducao brasileira prevista); De Walter Benjamin a nos jours (Honnore Champion, 2006); Traduction et Poesie (Maisonneuve et Larose, 2003), e de varias traducoes do frances em portugues (Escritos, de Jacques Lacan; Algo: Preto, de Jacques Roubaud) e principalmente do portugues em frances (autores como Guimaraes Rosa, Antonio Vieira, Fernando Pessoa, Lygia Fagundes Teles, Haroldo de Campos). Recentemente publicou La Raison anthropophage, coletanea dos artigos mais importantes de Haroldo de Campos sobre a traducao (2018). Criou o Master de traducao literaria na Universidade de Aix-Marselha, foi diretora de pesquisa, fez varias missoes no exterior. A reedicao de Galaxies, de Haroldo de Campos, esta prevista para 2019.

E-mail: inesoseki@gmail.com

Recebido em: 15/01/2019

Aceito em: 01/04/2019

Ines Oseki-Depre

Universidade Aix-Marseille Aix-en-Provence, Franca

ORCID 0000-0001-5064-1904

(1) Ver tambem Jurgen Habermas, que critica o pos-moderno enquanto ideologia conservadora, Ecrits Poetiques, Paris, Ed. du Cert, 1990. Criou-se, assim, uma oposicao radical entre o moderno (utopico) e o pos-moderno (pos-utopico).

(2) Antoine Compagnon evoca poetas e tambem artistas plasticos, Les CinqParadoxes de la modernite, Paris, Seuil, 1990, p. 34-38.

(3) Constantin Guys, pintor, desenhista frances,(Flessingue, Pays-Bas, 1802-Paris 1892), especializado na caricatura do meio parisiense da epoca (dandys, mulheres elegantes), tornou-se famoso por incarnar, segundo Baudelaire, o pintor da vida moderna, (Ver << Le Peintre de la vie moderne >>, (Euvres Completes, vol. II., Bibliotyeque de la Pleiade, Paris, Gallimard, 1976, p. 682-724).

(4) Em frances, "le non-fini", "lefragmentaire", " l'insignifiance", "la circularite" ou "" l'autonomie" ou "la reflexivite".

(5) Theophile Gautier, Baudelaire," (il est tres difficile) de donner une idee juste de ces compositions: tableaux, medaillons, bas-reliefs, statuettes, emaux, pastels, camees qui se suivent, mais un peu comme les vertebres dans l'epine dorsale d'un serpent, Paris, Michel Levy Freres, 1868, P. 175.

(6) Aloysius Bertrand, (Louis Jacques Napoleon Bertrand), e um poeta, dramaturgo e jornalista frances nascido em 20/04/180 em Ceva (Piemonte), morto em 29 avril 1941 em Paris, criador oficial do genero << poema em prosa >>.

(7) Nas Obras completas de Baudelaire, Ed. da Pleiade, Paris, Gallimard, 1975) a maioria dos comentarios e dedicada aos poemas em verso.

(8) "Retire uma vertebra, e os dois pedacos desta tortuosa fantasia irao se juntar sem dificuldade. Lacere-a em diversos fragmentos, e vera que cada um deles pode existir a parte. Na esperanca de que algumas destas postas tenham vida suficiente para agrada-lo e diverti-lo, ouso dedicar-lhe a serpente inteira". Charles Baudelaire, Pequenos poemas em prosa, dedicatoria a Arsene Houssaye, S.C., Editora DAUFSC, 1996, tr. Dorothe Bruchard, p. 23.

(9) Ver Ines Oseki-Depre, " Subjectivite et sujet de la traduction", in De Walter Benjamin a nos jours, Paris, Honore Champion, 2007, p. 177-197. Esse ensaio mostra a maneira como Baudelaire, traduzindo Poe (os contos e o poema "O Corvo"), encontra seu estilo na prosa.

(10) "Ce texte est aussi lapiece, unepiece de fausse monnaieprovoquant um evenemenf. Jacques Derrida, op. cit, loc. cit., p. 114.

(11) Barbara Johnson, Defigurations du langagepoettique, Paris, Flammarion, 1979.

(12) Cours de Linguistique Generale, Paris, Payot, 1966 e Les Mots sous les mots, Paris, Gallimard, 1971

(13) "Um moinho que acaba pulverizando todas as definicoes que tenta se obter", Barbara Johnson, op. cit, loc. cit, p. 28. O moinho se refere a Dom Quixote ao qual ela compara Baudelaire.

(14) "De oleo de coco, musco e alcatrao".

(15) "..o poema em prosa e o lugar a partir do qual a polaridade--e portanto a simetria--entre presenca e ausencia, entre prosa e poesia, disfunciona". Barbara Johnson, op. cit., loc. cit., p. 37.

(16) Cf. J. Crepet e G. Blin, Etude sur le style de Baudelaire, J.-B.. Ratermanis, Bade, Editions Art et Science, 1949. J. D. LYONS, << A Prose Poem in the Nominal Style >>, L'Esprit createur, vol. XIII, n. 2 (ete 1973), cites par B. J., p. 39.

(17) "O tosao a ondular ate tua cintura// O cachos/ O perfume a que o ocio e intenso! >> (anonimo), http://psique-noir.blogspot.com/2013/04/baudelaire-cabeleira.html

(18) "Lafonction poetique projette le principe dequivalence de l'axe de la selection sur l'axe de la combinaison", Roman Jakobson, Problemes de Linguistique Generale, Paris, Ed. Minuit, 1963, p. 220.

(19) "E sempre a minha mao, nesta crina soturna// Perolas semeara, rubi, safira e jade// Para que nunca mais te cales, taciturna"... idem (traducao anonima algo livre...).

(20) Barbara Johnson, op. cit., loc., cit., p. 46.

(21) << Me deixe morder, por longo tempo, suas trancas pesadas e negras. Quando mordisco seus cabelos elasticos e rebeldes, me parece estar comendo lembrancas. >>, op. cit., loc., cit., p. 93.

(22) Barbara Johnson, op. cit., loc., cit., p. 49.

(23) "Longe de ser um defeito estilistico, a reducao hiperbolica e a literalizacao sistematica da linguagem do poema em prosa constitui um deslocamento estrategico da linguagem poetica enquanto tal", p. 54.

(24) "o poema em prosa nao e nem exterior nem interior a poesia", op. cit., loc., cit., p. 55.

(25) Jacques Roubaud, La Vieillesse d'Alexandre", Paris, Maspero, 1978. Trata-se de um dos mais famosos escritos teoricos do autor sobre a remanencia do metro alexandrino na poesia francesa desde o seculo 19.

(26) Charles Baudelaire, "A une heure du matin', Le Spleen de Paris, O.C., op. cit., loc., cit., p. 287.

(27) Segundo Claude Pichois, o comentador da obra baudelairiana nas edicoes da Pleiade, alguns poemas tem como contexto outros lugares: Le Gateau, os Pireneus; Le Joujou dupauvre, um lugar descampado; Le Crepuscule du soir, uma montanha; La Belle Dorothee, as Ilhas Mascarenhas; Deja, o Oceano; Le Port, Honfleur; Les Bons Chiens, Bruxelas.

(28) Baudelaire conheceu 40 domicilios na maior parte parisienses, concentrados nos mesmos bairros (6, 4, 8 << arrondissements >> (bairros). O poeta mudava constantemente de casa, perseguido pelos credores.

(29) Por exemplo, a construcao do eixo Norte-Sul vai do Boulevard de Sebastopol ate o Boulevard Saint-Michel, acarretando no desaparecimento de numerosas ruelas e becos. Do Chatelet, passando pelas Tuileries, uma avenida vai ate a rua Saint-Antoine. A Ile de la Cite e demolida. A Rive gauche conhece obras desde 1854. Largas avenidas e pracas (Italie, Denfert-Rocherau, Etoile, Hotel de Ville, entre outras) sao construidas nessa epoca (Fonte : Wikipedia)

(30) "Baudelaire para pintar o spleen de Paris opta por colocar no primeiro plano a sensibilidade e a memoria das humildes coisas quotidianas fazendo-as exprimirem num segundo plano a vida do simbolo, esse simbolo que so ele cultiva. Os seis olhos dos pobres, assim como a cabeleira de Jeanne Duval, os vidros do vidraceiro assim como o rato vivo com o qual brinca um menino servem para a investigacao profunda--efetuada pelo poeta--ou melhor, formam sua encantacao." Pierre-Jean Jouve, Tombeau de Baudelaire, ed. Baconniere, 1942, reed. Paris, Seuil, 1956, p. 38.

(31) "Ouve-se em cada canto a cozinha assobiar./ O teatro estremece, a orquestra ressonar/ Nas mesas dos cafes sonoras de remoques/Vao conversando as cortesas com os escroques/Os ladroes que nem merce nem tregua alguma tem/vao principiar seu trabalho tambem." <http://penelopeswhisper.blogspot.com/2012/05/o-crepusculo-da-tarde-charles-pierre.html>

(32) PPP, op. cit., loc. cit., p.119.

(33) "A noite, um pouco cansada, voce quis sentar-se na frente de um cafe novo, que formava a esquina de uma avenida nova, ainda repleta de cascalhos e ja gloriosamente mostrando seus esplendores inacabados. O cafe reluzia. Ate o gas ostentava ali todo o ardor de um inicio, e iluminava com todas as suas forcas as paredes ofuscantes de brancura, as extensoes deslumbrantes dos espelhos, os ouros das molduras e das cornijas"... PPP, op. cit., loc., cit., P. 135.

(34) "... l'existence--nos actes--est le seul reel qui nous soit ouvert" ("a existencia--nossos atos--eo unico real que nos esteja aberto") Ver "Baudelaireparlant a Mallarme" de Yves Bonnefoy in Entretiens sur la poesie, Paris, Payot, 1981, p. 88.

(35) Charles Baudelaire, O. C., op. cit., loc. cit., p. 53.

(36) Jacques Roubaud, poeta, ensaista, matematico, nascido em Coliures (sul da Franca) em 1932, membro do Oulipo (Ouvroir de la Litterature Potentielle), publicou mais de 60 titulos entre poesia, prosa, ensaios (ver bibliografia) entre os quais se destaca La Vieillesse d'Alexandre, p. 108 e sq.

(37) O titulo remete a um poema de Charles Baudelaire "Le Cygne": << la forme d'une ville / Change plus vite, helas ! que le cour d'un mortel >>, transformado em La Forme d'une ville en : << la forme d'une ville change plus vite, on le sait, que le cour des humains >>. A forma de uma cidade muda mais depressa, infelizmente, que o coracao dos seres humanos.

(38) Jacques Roubaud, op. cit., loc. cit: "A identificacao implicita das duas polaridades poesia/prosa, verso:nao verso, e, por esse gesto, deslocada: a prosa e nao-verso mais ela e nao-verso igualmente na poesia." (traducao nossa).

(39) "Ao romper a idenrificacao da poesia ao verso, o poema em prosa, longe de preparar o desaparecimento da distincao prosa/poesia, tende a preserva-la atribuindo-lhe um estatuto absoluto, essencial" (traducao nossa).

(40) "A identificacao implicita das duas polaridades poesia/prosa, verso nao verso, e, por esse gesto, deslocada: a prosa e nao verso mais ela e nao verso igualmente na poesia."(traducao nossa).

(41) Louis Jacques Napoleon Bertrand, dit Aloysius Bertrand, poeta, dramaturgo, jornalista (1807-1841), inaugurou o genero poema em prosa com seu famoso Gaspard de la Nuit, 1842 (postumo).

(42) (...)"Percebi que nao somente eu permanecia bem distante do meu misterioso e brilhante modelo, como tambem estava fazendo algo (se e que isto pode ser chamado de algo) singularmente distinto (...)".

(43) "Quem dentre nos nao sonhou, nos seus dias de ambicao, com o milagre de uma prosa poetica, musical, sem ritmo e sem rima, flexivel e desencontrada (...)"

(44) "E sobretudo da frequentacao das cidades enormes, e do cruzamento de suas inumeraveis relacoes que nasce este ideal obsedante."

(45) Walter Benjamin, Paris, capitale du XIXemesiecle, Paris, Editions du Cert, 2002, pp. 247-404; Baudelaire, un poete lyrique a Vapogee du capitalisme, Paris, Petite bibliotheque Payot, 2002 ; Baudelaire, Paris, La Fabrique, 2013.

(46) Poema que com A Cabeleira e o O Crepusculo da tarde existe em verso e em prosa.

(47) "Compor o 'mesmo' poema ao mesmo tempo como poema de verso e poema de nao-verso nao significa absolutamente que a separacao formal entre os dois e indiferente, mas exatamente o contrario".

(48) "Minha doce irma//Pensa na manha//em que iremos numa viagem... ", traducao de Ivan Junqueira, R. J., Nova Fronteira, 1985. Existem varias outras traducoes desse poema.

(49) "Pense na docura, de ir... " (traducao nossa)

(50) "La tudo e paz e rigor,// luxo beleza e langor", op. cit., loc. cit. (Note-se que o tradutor toma liberdades...)

(51) "Ve sobre os canais//Dormir junto aos cais// Barcos de humor vagabundo", op. cit., loc.cit.

(52) "Os sanguineos poentes//Banham as vertentes,//Os canais, toda a cidade,//E em seu ouro os tece" (acrescimo e supressao de "jacinto"), op. cit., loc., cit.

(53) "E tudo isso// Com o Oriente Express?// - Nao//com uma mera carta Orange 2 zonas" (traducao nossa).

(54) "Minha doce irma// Pensa na manha// Em que iremos, numa viagem... " As Flores do mal, Ed. bilingue, R.J., Nova Fronteira, 1985, trad. Ivan Junqueira (Notar as substituicoes em prol da rima.)

(55) "Existe uma terra fantastica, uma terra de promissao, e o que dizem, que eu sonho em visitar com uma velha amiga."

(56) "Uma verdadeira terra de promissao, estou dizendo, onde tudo e rico, limpo e lusente, como uma bela consciencia, como uma magnifica bateria de cozinha, como uma esplendida ourivesaria, como uma joia salpicada!", PPP, op. cit., loc., cit., p. 97. Notar como o elemento comparado e prosaico, ilustrando a nocao de mercadoria alegorica a qual se refere Walter Benjamin.

(57) "Elevada a sua mais alta potencia, a poesia parece portanto se extrair do modelo economico para se estabelecer numa transcendencia estetica pura e incomparavel." (traducao nossa).

(58) "Que busquem, que busquem ainda, que estendam sem cessar os limites de sua felicidade, estes alquimistas da horticultura! Que proponham premios de sessenta e de cem mil florins para quem resolver seus ambiciosos problemas! Quanto a mim, encontrei minha tulipa negra e minha dalia azul!", PPP, op. cit., loc. cit., p. 97.

(59) La Tulipe noire e um romance de Alexandre Dumas escrito em1850. Le Dahlia bleu e uma cancao de Pierre Dumont escrita em 1853. Ambos sao autores populares contemporaneos de Baudelaire.

(60) "(Se) os Pequenos Poemas em prosa contem o que foi excluido das Flores do mal, e explicitando nao somente o que esta excluido mas o proprio ato de excluir."

https://dx.doi.org/10.1590/1517-106X/2127997
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Author:Oseki-Depre, Ines
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:May 1, 2019
Words:7555
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