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A FARSA DO VILAO ARREPENDIDO: FRANCOIS VILLON E O TEATRO BURLESCO MEDIEVAL NA FRANCA/THE REPENTANT VILLAIN'S FARCE: FRANCOIS VILLON AND MEDIEVAL COMIC THEATRE IN FRANCE.

O corpus atribuido ao poeta frances medieval Francois Villon (1431-?) e constituido por dois poemas longos em forma de testamento e por aproximadamente vinte baladas esparsas, incluindo seis Ballades en jargon [Baladas em jargao]. Desde as suas primeiras edicoes modernas na primeira metade do seculo XIX, os seus editores consideraram a atribuicao tradicional do corpus a "Francois Villon" como autoevidente e, de acordo com a concepcao moderna de autor, pressupuseram que esse individuo fosse o criador empirico da obra. Com base nessa identidade entre a persona da enunciacao e o suposto autor das obras poeticas, a historiografia literaria do final do seculo XIX, por sua vez, consolidou a imagem de Villon como poeta lirico, ao elege-lo o criador do lirismo moderno na Franca.

Oriunda da recepcao da sua obra pelos seus editores e historiadores modernos, essa leitura anacronica de Villon como "o primeiro poeta moderno frances", no entanto, isolou-o da tradicao poetica medieval. A fim de restituir o corpus atribuido a Villon ao contexto literario da sua epoca, procurou-se estuda-lo (no ambito de uma longa pesquisa) a luz dos generos, preceitos e modelos que orientavam a invencao das letras na Franca da segunda metade do seculo XV. Neste artigo, pretende-se apresentar alguns dos principais resultados dessa pesquisa que, considerando os seus dois poemas longos como um monologo dramatico, interpreta-os como uma parodia das formas poeticas do testamento amoroso da epoca por um lado, e da estrutura narrativa das Sagradas Escrituras por outro.

Uma parte grave e outra burlesca

O corpus atribuido ao poeta frances Francois Villon foi objeto de uma recepcao extremamente diversificada, desde que foi publicado pela primeira vez no final do seculo XV ate a sua recente entrada para a prestigiosa colecao da Pleiade (VILLON, 2014). Apesar da enorme diversidade da sua recepcao, ela poderia ser dividida, grosso modo, em dois grandes grupos, os quais nao apenas oferecem duas imagens aparentemente opostas da persona poetica, como tambem classificam a obra de Francois Villon em generos inteiramente distintos: um grupo a insere na lirica cortes, e o outro no teatro burlesco. Cada um desses dois grupos, por sua vez, confere destaque a uma parte diferente de sua obra: enquanto a primeira insiste na parte grave--como os Regrets do Testament e diversas baladas esparsas--, a segunda destaca a parte burlesca--como as sequencias de legados dos dois testamentos.

Essa distincao foi proposta desde a primeira metade do seculo XVI pelo principal editor antigo de Francois Villon--o poeta lirico cortes Clement Marot. Ele realizou a primeira edicao exclusivamente dedicada a sua obra, intitulada CEuvres de Francois Villon de Paris (1532). No prefacio de sua edicao, Marot amplifica o delicado engenho do poeta de Paris, mas seleciona apenas a parte grave como digna de ser emulada pela lirica cortes da epoca. A parte burlesca, inversamente, e considerada indigna de ser imitada pelos jovens poetas cortesaos, em particular o desenvolvimento dos dois testamentos, chamado de "a industria dos legados" (VILLON, 1533, p. 73). Essa parte comporta materia baixa e se refere a pessoas reais e a casos particulares que, ocorridos em Paris na segunda metade do seculo XV, nao podiam mais ser suficientemente compreendidos a epoca de Marot.

Por outro lado, Marot elogia as sentencas, as descricoes e a verve heroica de suas baladas, bem como o grande artificio das suas descricoes, a sua elocucao plena de mil belas flores e a sua boa doutrina. Essa parte grave da obra foi efetivamente imitada nao apenas por poetas como Henri Baude e Coquillart, mas tambem pelo proprio Marot, que pode ser considerado como um dos principais representantes da lirica cortes da primeira metade do seculo XVI, ao lado de Saint-Gelais, Salel, Heroet e Sceve. Villon foi incluido no elenchus auctorum [elenco de autoridades] de diversos tratados retoricos da epoca, como, por exemplo, Le Quintil Horacien, de Barthelemy Aneau (GOYET, 1990). Foi preciso esperar pela ascensao dos jovens poetas da Pleiade, em meados do seculo XVI, para que Villon fosse destituido do canone da lirica cortes, juntamente com todos os poetas de lingua francesa (COSTA, 2014b).

Essa imagem de Villon como um poeta lirico foi consolidada pela critica moderna no seculo XIX na Franca, sob a perspectiva oferecida pela disciplina de historiografia literaria. O mais utilizado de todos os manuais de literatura francesa da primeira metade do seculo XX, Histoire de la litterature francaise (1894), de Gustave Lanson, baseia-se na vida de Villon para explicar a sua obra. Considerando que a carga pessoal da sua poesia lhe tivesse permitido emancipar-se dos temas poeticos medievais, Lanson (1923, p. 133) elegeu Villon o criador do lirismo moderno na Franca, segundo a concepcao romantica de poesia como expressao da subjetividade do poeta: "Par le fond de sa poesie, Villon n'est plus du Moyen Age: il est tout moderne, le premier qui soit franchement, completement moderne. Il porte en lui tout le lyrisme" (1).

Dessa perspectiva, as duas partes do corpus de Villon foram atribuidas a periodos distintos da biografia do poeta. Para Italo Siciliano (1973, p. 286), o mais importante critico biografico do poeta, o "bon folatre" da juventude teria sido sucedido pelo "pauvre Villon" da idade adulta. Embora essa hipotese biografica tenha sido posteriormente complementada pela analise textual realizada a partir dos anos 70 da construcao ficcional da persona poetica, tanto a critica biografica quanto a nova critica postulam a autoria empirica de Villon na origem da enunciacao (COSTA, 2014a). No entanto, esse postulado e arbitrario, ja que e impossivel determinar quem teria sido o suposto autor empirico daquele corpus poetico com base nas informacoes historicas atualmente existentes. Com efeito, nenhum dos seus manuscritos e autografo (escrito pelo proprio autor), e todas as suas edicoes sao postumas.

Abaixo, pretende-se mostrar que, ao contrario da imagem consagrada pelos editores e criticos modernos de Villon, os seus dois poemas longos em forma de testamento pertenciam ao genero burlesco medieval chamado monologue dramatique [monologo dramatico]. Essa hipotese se apoia em tres tipos de evidencias complementares entre si: 1) em evidencias materiais, como a historia da transmissao dos seus manuscritos e edicoes juntamente com outros dramas burlescos; 2) em evidencias textuais, como os recursos dramaticos utilizados nos poemas; 3) e, sobretudo, em evidencias historicas, como a imitacao dos testamentos por diversos generos burlescos da epoca, alem da unanimidade dos testemunhos e anedotas referindo-se a Villon como um farseur.

Evidencias materiais

A longa historia da transmissao do corpus atribuido a Francois Villon desde o final do seculo XV dependeu basicamente de dois suportes materiais: os manuscritos e as edicoes impressas. Os seus manuscritos e edicoes antigas nao foram organizados em torno da nocao moderna de autor, mas possuiam outros criterios de selecao, em particular o genero poetico. Com efeito, a propria nocao de autor era entendida na epoca como "autoridade" (auctoritas) e designava a excelencia em determinado genero de discurso (QUINTILIEN, 1933, p. 38). Ha quatro manuscritos principais do seu corpus. Em um deles, o ms. 1661, f. 236 (BNF, Paris), o Lais foi copiado com o Sermon joyeux de la Choppinnerie. Da mesma forma, o manuscrito da Bibliotheque Royale Albert 1er contem, alem de poemas de Villon, mais tres sermoes jocosos: o Sermon Plaisant, o Sermon de Saint Hareng e o Sermon de Saint Oignon.

Como afirma Paul Zumthor (1972), no caso de Villon, as suas edicoes impressas sao frequentemente anteriores aos manuscritos. A primeira edicao de Villon, realizada por Pierre Levet, foi intitulada Le grant testament Villon et le petit. Son codicille. Le jargon et ses balades (1489). A edicao Levet e uma coletanea que reune outras quatro composicoes: uma arte poetica, a Farce de Pierre Pathelin, e dois testamentos burlescos--o Testament de Barreiz, capitaine de Bretons e o Testament de Tastevins, roi de Pions (VILLON, 1489). A primeira edicao de Villon por Pierre Levet e ilustrativa, nao apenas porque e mais antiga do que os seus manuscritos, mas tambem porque possui uma longa tradicao editorial, tendo sido reeditada aproximadamente vinte vezes entre o fim do seculo XV e o inicio do seculo XVI (DOP-MILLER, 1991).

Desde a sua primeira edicao, o corpus de Villon foi incluido em diversas coletaneas reunindo obras pertencentes ao teatro burlesco medieval. Essa pratica persistiu ate as suas ultimas edicoes antigas, como testemunha a edicao Galliot du Pre (VILLON, 1532). Essa coletanea tambem inclui o monologo dramatico Franc Archer de Baignollet, avec son epitaphe, o dialogo burlesco Messieurs de Mallapaye et de Baillevant e o sermao jocoso Les repues franches de Francois Villon et ses compagnons (1995). Essa coletanea serviu como modelo para a edicao das CEuvres de Francois Villon (1723), realizada dois seculos depois por Antoine-Urbain Coustelier. Essa edicao nao apenas reune todos os dramas burlescos presentes na edicao Galliot du Pre, mas inclusive os atribui a Francois Villon, incluindo todas aquelas composicoes sob a sua autoridade.

Outro exemplo pode ser encontrado em uma edicao impressa em Lyon por Jacques Moderne contendo sermoes jocosos, como o Sermon du pouet de la puce e o Sermon joyeux de Saint Belin. Nessa edicao, o sermao de Saint Belin contem setenta e cinco versos e esta incompleto, juntando-se na ultima pagina a Ballade de l'appel, atribuida a Villon desde a edicao Levet. Nessa pagina, em que as duas composicoes se sobrepoem, faltam nove linhas do inicio dessa balada, que e precedida por treze linhas daquele sermao. Essa edicao foi estudada e reeditada por Jelle Koopmans e Paul Verhuyck (1987), que explicam a sobreposicao dos dois poemas nao como um acidente editorial, mas como uma montagem intertextual efetivamente representada na epoca. Esta e uma hipotese dificil de ser verificada, mas a publicacao da Ballade de l'appel juntamente com sermoes jocosos da epoca provavelmente nao foi gratuita.

A inclusao do corpus atribuido a Villon em manuscritos e edicoes dedicadas ao teatro burlesco medieval revela o criterio classificatorio adotado pelos seus editores antigos e copistas. Nesse sentido, alguns dos seus principais editores e copistas provavelmente consideraram os testamentos e as baladas de Villon como composicoes pertencentes ao teatro burlesco medieval. Desde a edicao Levet, as composicoes agrupadas em torno da etiqueta "Villon" sao designadas com o nome da personagem assumida nos testamentos, como aconteceu com o proprio testamento "de Barreiz" e o "de Tastevins". Como a coletanea de Levet e essencialmente constituida por testamentos burlescos, a etiqueta "Villon" tambem permitiu distinguir os seus testamentos dos demais. A diferenca dos testamentos de Barreiz e de Tastevins, os de Villon constituem um genero especifico de parodia, pois sao inteiramente constituidos por formas poeticas da lirica cortes da epoca.

Alias, foi justamente o dominio formal por Villon da sofisticada arquitetura estrofica da oitava quadrada e da balada comum que chamou a atencao de escritores modernos, como Michel Butor (1974) e Ezra Pound (1970). No entanto, o uso das formas liricas prediletas de Alain Chartier (o mais imitado poeta cortes de meados do seculo XV) nao significa necessariamente que Villon fosse um lirico, como concluiram um pouco rapidamente os seus editores e criticos modernos. O teatro do seculo XV era inteiramente composto em versos. O distico de octossilabos com rimas planas e o verso mais comum nas composicoes dramaticas da epoca, mas essas tambem emprestavam com frequencia formas poeticas proprias da lirica (KOOPMANS; VERHUYCK, 1987, p. 7). O sermao jocoso Les Repues Franches de Maistre Francois Villon et de ses compagnons, por exemplo, e composto principalmente por disticos de octossilabos, e inclui tambem baladas.

Villon parodia os testamentos amorosos pertencentes ao ciclo da Belle dame sans mercy, em particular La confession et testament de l'amanttrespasse de deuil (1982), de Pierre de Hauteville. Assim, nao e nem um pouco surpreendente que o poeta retome as proprias formas poeticas utilizadas pela tradicao poetica parodiada, como a oitava quadrada e a balada comum, que foram consagradas por Alain Chartier, autor da celebre Belle dame sans mercy. A exploracao, com intencao parodica, da estrutura estrofica--ou, no caso das cancoes musicadas, da melodia--de uma composicao lirica era entao chamada de contrafactum [contrafacao]. Os espectadores do teatro burlesco eram capazes de reconhecer as formas liricas emprestadas a poesia cortes e, portanto, a intencao parodica do poeta. A contrafacao por Villon da rigorosa estrutura estrofica daquelas formas liricas visa conferir um efeito ironico a sua parodia do testamento amoroso da epoca.

Evidencias textuais

Para que os criticos e especialistas comecassem propriamente a valorizar a parte burlesca dos testamentos de Villon, foi preciso esperar que a nouvelle critique [nova critica] na Franca deslocasse o interesse da biografia para a construcao ficcional da persona nos poemas. Um dos principais promotores dessa guinada foi o filologo Pierre Guiraud--o primeiro critico a ter questionado o pressuposto da critica biografica sobre a autoria empirica do corpus pelo celebre malfeitor da epoca chamado Francois Villon. Embora esse individuo historico seja, sem duvida, a fonte de inspiracao para a criacao poetica, qualquer poeta poderia ter assumido a persona desse individuo. Com base no detalhado exame dos calembours disseminados na obra, Guiraud sugeriu que o autor empirico pudesse ter sido um membro da basoche, cujas relacoes com o teatro burlesco da epoca sao conhecidas (KOOPMANS; VERHUYCK, 1987, p. 47).

O parentesco entre Villon e a poesia dramatica fora completamente negligenciado pela critica literaria ate entao, tendo sido notado apenas por alguns historiadores do teatro medieval, como, por exemplo, o bibliofilo Paul Lacroix Jacob (1859, p. 22): "Les jeunes poetes, a l'exemple de Villon et de Clement Marot, avaient surtout un penchant irresistible pour le theatre" (2). A partir dos estudos de Guiraud, diferentes criticos procuraram se concentrar na construcao ficcional da persona poetica de Villon. O principal representante dessa nova critica, o medievalista Jean Dufournet (1993, p. 24), conferiu destaque a analise dos subentendidos jocosos disseminados na industria dos legados do Lais e do Testament, interpretando os testamentos de Villon como uma inversao parodica dos ideais da tradicao poetica cortes, como o amor, a religiao, a cavalaria, segundo a concepcao bakhtiniana de "carnaval" na Idade Media (BAKHTIN, 1987).

Dufournet concluiu que os testamentos de Villon pertencessem ao genero burlesco medieval chamado de dit: "Les deux Luvres suivis de Villon, le Lais et le Testament, [...] appartiennent au genre du dit" (3) (VILLON, 1992, p. 10). Dufournet vinculou, com razao, os testamentos de Villon a este genero representado desde o seculo XIII pelos jongleurs, que enunciavam em primeira pessoa o discurso de uma personagem ficcional, como, por exemplo, o Dit de l'herberie, de Rutebeuf, que representa um vendedor charlatao de remedios. No entanto, o genero do dit [dito] passou dois seculos mais tarde a ser praticado por atores, que emprestaram diversos recursos a arte teatral, como a diccao, a expressao, o gesto, a mimica e o figurino, como afirma Pauphilet (1987). No seculo XV, esse genero do teatro burlesco da epoca representado por um unico ator foi chamado de monologue dramatique [monologo dramatico].

Dessa perspectiva, os testamentos de Villon seriam um discurso em primeira pessoa destinado a ser enunciado por um ator. Ao assumir a primeira pessoa da enunciacao, o ator vestia a mascara da personagem do celebre malfeitor no papel de testador. A hipotese de que os testamentos de Villon pertencessem ao genero do monologo dramatico e reforcada pela sua exploracao de formas proprias do teatro burlesco da epoca, como a sottie, o sermao jocoso, o debate e o exemplo. A subsecao do Testament intitulada Belle lecon aux enfants perdus [Bela licao aos meninos perdidos], bem como as celebres Ballades en jargon podem ser consideradas como sermoes jocosos que parodiam a peroracao dos sermoes serios em que se exortava o destinatario a virtude. No inicio do Testament, o exemplum [exemplo] de Alexandre, o grande, imita a vida dos santos utilizada como modelo de conduta no desenvolvimento dos sermoes serios.

Os testamentos de Villon tambem fazem uso de diversos recursos dramaticos que vinculam as suas circunstancias de desempenho as de uma peca teatral. O efeito dramatico e evidente no recurso frequente a interpelacao dos espectadores pela personagem, que utiliza repetidamente figuras retoricas como a antecipacao e a interrogacao, como mostrou o critico Tony Hunt (1996). No entanto, o mais evidente recurso dramatico reside, sem duvida, na utilizacao do epilogo tanto no Lais quanto no Testament. Assim como o prologo, o epilogo e um discurso extradramatico de carater expositivo em que um ator abandona a sua personagem e, rompendo a verossimilhanca dramatica, fala diretamente com o publico. O uso de prologos e epilogos e muito comum em generos dramaticos medievais, como misterios e moralidades, pois permite explicitar o sentido moralizante dos enredos, enquadrados pelo inicio e pelo fim da peca.

Na estrofe de conclusao do Lais, a narracao nao e feita em primeira pessoa pela personagem de Francois Villon, mas em terceira pessoa pelo proprio ator responsavel por representa-la: "Fait au temps de la dite datte/Par le bien renomme Villon" (4) (VILLON, 2014, p. 24). O epilogo do Lais imita os testamentos reais da epoca, que eram concluidos com a data de composicao e assinatura do testador. A expressao "dita data" retoma o seu prologo, cujo primeiro verso determina que o Lais foi escrito em 1456. A assinatura realizada pelo testador autentica a autoria do seu testamento; porem, em vez da primeira pessoa do prologo--iniciado por "Eu, Francois Villon" (VILLON, 2014, p. 28)--, o epilogo utiliza a terceira pessoa: "o bem chamado Villon". O epilogo do Lais rompe, assim, com a narracao em primeira pessoa pelo testador, pois o ator assume a palavra para descrever, em terceira pessoa, a data e a assinatura que anunciam o fim da representacao.

Na balada de conclusao do Testament, o ator tambem abandona a mascara da personagem de Villon para concluir em terceira pessoa a obra. A diferenca do Lais, a conclusao do Testament coincide com o momento em que o testador expira: "Icy se clost le testament/ Et finist du povre Villon" (5) (VILLON, 2014, p. 165). Assim, a conclusao do Testament e o proprio anuncio da morte de Villon. Como os testamentos so podem ser lidos depois da morte do testador, o fim do Testament coincide com o seu inicio, em uma mise en abime [disposicao em cascata]. Na conclusao dos dois poemas, o ator rompe a verossimilhanca do discurso em primeira pessoa pela personagem de Villon para anunciar, em terceira pessoa, o fim da representacao. Nessas passagens, o ator abandona a mascara da personagem de Villon, assumindo-se como tal, como no metateatro contemporaneo (ABEL, 1963).

Evidencias historicas

Villon foi um modelo poetico nao apenas da lirica cortes, como tambem da literatura burlesca. Em sua "primeira recepcao" (JAUSS, 1979, p. 21), ja na segunda metade do seculo XV, os testamentos e baladas esparsas de Villon foram imitados por diversas composicoes burlescas do final do seculo XV e inicio do seculo XVI, como Les repues franches de maistre Francois Villon et de ses compagnons, a Vie et trepassement de Caillette, a Legende de maistre Pierre Faifeu, Les motz dorez du grand et sage Caton, Le testament de Pathelin e Les vigiles Triburet. Essas composicoes imitam diversos elementos do corpus de Villon, desde a personagem do vilao ate passagens especificas, como, por exemplo, os legados burlescos dos dois testamentos, o seu Epitafio na conclusao do Testament e, sobretudo, as Ballades en jargon.

Como nome da personagem poetica, "Villon" nao apenas a identifica a um individuo historico, mas tambem representa o principal atributo dela: a vileza, sugerida pela paranomasia com vilain [vilao]. Tendo entrado para a lingua comum nos termos villonerie [trapaca] e villoner [trapacear], o nome proprio "Villon" tornou-se sinonimo de fripon [charlatao]. No epilogo do Lais (VILLON, 2014, p. 24), o poeta rima o nome proprio da personagem com "billon" (uma moeda sem valor). Essa rima foi imitada pela primeira vez no sermao jocoso Les repues franches de Francois Villon et de ses compagnons: "Venez y d'amont et d'aval/ Les hoirs du deffunct Pathelin/ Quis avez jargon jobelin/ Capitaine du pont a baillon/ Tous les subjectz Francois Villon" (6) (VILLON, 2014, p. 367). Essa passagem cristaliza as principais caracteristicas associadas a personagem de Villon.

Em primeiro lugar, a passagem retoma a rima entre Villon e billon, segundo a variante baillon. O "capitao da ponte do cambio" e uma metafora para o conjunto das praticas criminosas associadas a falsificacao de dinheiro. A mesma rima foi explorada por diversas composicoes da epoca, como Les motz dorez du grand et sage Caton, que compara alguem muito habil em conseguir dinheiro com Villon: "Et ne visoit a acquerir billon/ Si fin ne fut qu'estoit Francois Villon" (7) (apud GUIRAUD, 1970, p. 122). A Legende de maistre Pierre Faifeu joga com a associacao da personagem de Villon com o poeta, cuja capacidade de rimar com a palavra billon [tostao] e uma metafora para a habilidade linguistica do trapaceiro de enganar as suas vitimas: "Maistre Francois nomme Villon/ Bien scavoit rimez sur billon/ Tout jours ouvriers comme dimanches/ Quant il cerchoit ses Repues Franches" (8) (apud GUIRAUD, 1970, p. 122).

Em segundo lugar, a passagem acima associa Villon a personagem do advogado charlatao Pierre Pathelin. Como foi visto anteriormente, a Farce de Pierre Pathelin chegou ate mesmo a ser atribuida a Villon pela edicao Coustelier. Essa associacao se tornou muito comum na epoca, sendo realizada, por exemplo, na Vie et Trespassement de Caillette, onde, sobre a lapide de Pathelin, os seus feitos sao ironicamente elogiados pela comparacao nada honrosa com os de Villon: "Soubz le fardeau de cette dure Pierre/ Voyez gesir le plaisant Maistre Pierre/ Qui en ses faits passa partout Villon/ Et Pathelin, partant a reveillon" (9) (apud GUIRAUD, 1970, p. 123). Os testamentos de Villon sao os principais modelos do Testament de Pathelin, que tambem e uma parodia na qual o advogado charlatao lega os seus bens burlescos. Villon e Pathelin podem ser considerados como as duas principais personagens do teatro burlesco medieval na Franca.

Em terceiro lugar, a passagem acima vincula a lingua falada pela personagem de Villon ao jargon jobelin [jargao jobelin]. Retirado do jargao secreto utilizado por uma quadrilha de malfeitores da epoca chamada "os Coquillards", o lexico utilizado nas Ballades en jargon permite caracterizar a personagem de Villon como um membro dos Coquillards. As Ballades en jargon sao o principal modelo imitado pelo sermao jocoso Les repues franches de maistre Francois Villon et de ses compagnons. Alem disso, o seu lexico foi retomado por varios misterios do seculo XV, como o Mystere du Viel Testament, o Mystere de la Passion, o Mystere des Actes des Apotres e o Mystere de la Vie de saint Christophle. As Ballades en jargon foram as composicoes de Villon mais imitadas pela poesia dramatica da epoca, tendo sido decisivas para a consolidacao de Villon como a mais celebre representacao medieval da personagem do vilao.

Uma das mais conhecidas anedotas vinculando Villon a poesia dramatica esta no capitulo XIII do livro IV do Pantagruel, de Rabelais (1946). Nela, Villon e identificado a um poeta dramatico que, em seus dias de velhice, retira-se a Saint-Maixent (em Poitiers) para representar, na feira de Niort, Le Mistere de la Passion. Em vez do "Misterio da Paixao" de Cristo, Villon realiza uma "diabrura" para se vingar do sacristao, que se recusara a emprestar uma estola para a representacao cenica da personagem de Deus. A anedota de Rabelais tematiza claramente a parodia das Sagradas Escrituras pelos dois testamentos de Villon, como sera discutido abaixo; alem disso, ela ridiculariza a perseguicao pela Igreja do teatro burlesco medieval que, considerado como prejudicial aos "bons costumes", foi frequentemente objeto de censura pelo poder real durante todo o seculo XV na Franca.

Como aconteceu desde as suas primeiras edicoes antigas, o nome "Villon" foi frequentemente utilizado como metonimia para designar o proprio poeta, segundo a topica do oficio. Utilizado para designar o autor dos testamentos, Villon sempre foi associado, nos seculos XV e XVI, a um "farseur", isto e, a um ator ou autor de farsas, ja que ambas as nocoes sao recobertas pelo termo farseur em frances medio. Em uma cronica, Philippe de Vigneulles elogia um habilidoso farseur da epoca chamado Jean Mangin, definindo-o como um "segundo mestre Francois Villon de Paris": "C'estoit ung passe toutte pour juer fairce et mommerie, et estoit homme pour resjoier toute une cite. [...] Brief, un second maistre Francoys Willon de Perris" (10) (apud KOOPMANS; VERHUYCK, 1987, p. 51).

Finalmente, uma descricao notavel da obra de Villon foi realizada por Eloy d'Amerval na Grand Deablerie, na qual o poeta foi definido como um clerigo muito original e experiente em fatos e ditos que se deleitava em representar farsas: "Maistre Francoys Villon jadis/ Clerc expert en faictz et en ditz/ Comme fort nouveau qu'il estoit/ Et a farcer se delectoit/ Fist a Paris son testament" (11) (apud GUIRAUD, 1970, p. 122). Como parodias do testamento amoroso, os testamentos de Villon sao definidos na epoca como farsas destinadas a deleitar os espectadores do teatro burlesco medieval. Assim como na passagem citada, o nome Francois Villon e frequentemente precedido pelo qualificativo "maistre" [mestre] em edicoes do seu corpus posteriores a 1500, como acontece na edicao Galliot du Pre: Les CEuvres de Maistre Francoys Villon (1532). Utilizado pelos tratadistas para designar autoridades poeticas da epoca, esse qualificativo e indicio de que, no inicio do seculo XVI, Villon ja se transformara em uma das principais autoridades do teatro burlesco, antes mesmo de se tornar um modelo da lirica cortes e entrar para o canone poetico, como foi visto acima.

Representacao fantastica

A hipotese de que o corpus de Villon pertencesse ao genero do teatro medieval burlesco chamado de "monologo dramatico" coloca a seguinte questao: como e que um testamento poderia ser representado por um ator, se e um genero escrito por excelencia? Mais do que qualquer outro testamento poetico, Villon imita as formulas juridicas utilizadas nos testamentos reais da epoca, como demonstrou Van Zoest (1974). A forte insistencia nessas formulas visa produzir verossimilhanca na ficcao testamentaria. Essa verossimilhanca estava fundada na crenca de que o ator que representava o testamento era o proprio Villon, nao um simples ator a ler para os espectadores as palavras deixadas por escrito pelo testador morto. E justamente para fortalecer essa crenca que diversas passagens descrevem o contexto de composicao dos testamentos, com base na funcao referencial da linguagem (JAKOBSON, 1969).

Como afirma no epilogo (VILLON, 2014, p. 25), e o testador quem escreve o Lais com "pena" e "tinta". Ja o Testament e ditado a um redator oficial que, chamado de "Firmino" (VILLON, 2014, p. 82), redige as ultimas vontades do testador antes de ele expirar em seu leito de morte. As referencias a escrita, no Lais, e ao ditado, no Testament, permitem colocar em cena o proprio contexto de composicao da obra. No entanto, o Testament introduz, alem da escrita, um novo intermediario entre a composicao e o destinatario, fortalecendo o efeito parodico da composicao. Por outro lado, os testamentos reais da epoca eram efetivamente ditados em voz alta a um oficial de justica. Assim, a referencia a Firmino confere verossimilhanca a composicao, pois a leitura do ator aos espectadores das ultimas vontades deixadas por escrito pelo testador imita o ditado do testador ao oficial responsavel pela redacao do seu testamento.

Um testamento real e um genero escrito por definicao, como a epistola e o epitafio. Assim como nesses generos escritos, no testamento ha uma distancia entre o contexto de composicao e o seu destinatario real. O testador relaciona-se com o seu destinatario por meio da escrita, estabelecendo uma especie de dialogo in absentia [na ausencia]. Como um testamento so passa a ter validade juridica depois da morte do testador, ao abrir um testamento, esta-se diante das palavras de um morto. Segundo a narrativa implicita na representacao dramatica dos testamentos, as palavras que o ator le em voz alta para os espectadores foram as palavras deixadas por escrito pelo testador morto. No monologo dramatico, o ator assumia a primeira pessoa da enunciacao e, portanto, vestia a mascara da personagem do testador Francois Villon.

Se o ator assume a personagem do testador para "representar" (no sentido juridico e dramatico do termo) o autor morto, a representacao estava fundada na imitacao pelo ator da personagem de um morto, segundo o tipo de personagem chamado por Prisciano (1863, p. 557) de eidolopopeia [personificacao do morto]. No canto XI da Odisseia (HOMERO, 2011), por exemplo, Ulisses dialoga no Hades com a sombra de personagens miticas, como Sisifo e Narciso. A Nekuia [descida ao Hades] homerica foi parodiada na antiguidade pelo Dialogos dos mortos, de Luciano de Samosata, que encena o filosofo cinico Diogenes a conversar no Hades com as personagens mortas de herois, filosofos e tiranos. Na Idade Media, a personificacao de mortos foi retomada pela Divina Comedia, de Dante, cuja viagem ascendente pelas tres partes em que se divide o alem permite narrar o seu encontro com a alma imortal dos mortos.

A personificacao do autor morto nos testamentos de Villon e um monologo dramatico, sendo assim comparavel a aparicao do espectro no inicio de Hamlet, de Shakespeare. No entanto, o pai de Hamlet, assassinado repentinamente, nao teve tempo de se confessar, sendo lancado no purgatorio, enquanto Villon arrependeu-se antes da morte, como demonstra a sua confissao no inicio do Testament. Foi precisamente esse arrependimento que teria permitido a salvacao da sua alma, segundo a doutrina crista. Nesse sentido, o ator veste a mascara do testador apenas para pronunciar as palavras que, enunciadas do alem pelo espectro do autor morto, situam o presente da enunciacao na eternidade. A representacao pelo ator das palavras deixadas por escrito pelo autor confere a enunciacao dramatica a aparencia de um discurso feito pelo eidolon [espectro] de Francois Villon--no corpo morto, mas viva a alma.

Conclusao

Desde a primeira metade do seculo XIX, Francois Villon foi considerado, por seus primeiros editores e criticos, um poeta lirico, e sua obra foi unificada em torno da concepcao moderna de autor empirico. No entanto, a reconstituicao feita acima da estrutura interna (evidencias textuais), da tradicao manuscrita e do editorial (evidencias materiais) e da primeira recepcao (evidencias historias) dos seus testamentos e baladas esparsas indica que essas obras foram compostas no genero do monologo dramatico. O seu corpus anonimo e unificado nao em torno do seu suposto autor empirico pressuposto na origem da enunciacao, mas da personagem dramatica do vilao arrependido, cujo espectro narra da perspectiva do alem a sua vida exemplar em primeira pessoa.

Os dois poemas longos em forma de testamento possuem uma unidade narrativa que, apesar de ser evidente para os espectadores do teatro burlesco medieval, passou despercebida aos seus editores e criticos modernos. O Lais foi composto pelo testador ainda jovem, mas foi deixado inacabado, pois ele precisou fugir para o exilio depois do assalto ao colegio de Navarra. Situado cinco anos mais tarde, o Testament foi composto antes da morte do testador, condenado ao enforcamento pelo mesmo assalto. Na confissao introduzida no inicio do Testament, ele se arrepende pelos erros cometidos na juventude. O Testament completa a composicao anterior, incorporando o Lais a sua estrutura narrativa, como o testador deixa claro antes de iniciar os seus legados.

Portanto, nao ha oposicao entre a parte grave e a burlesca do seu corpus, que, como uma parodia, e justamente a mistura entre o grave e o burlesco. Alem de parodiar as formas poeticas da lirica cortes do ciclo da Belle dame sans mercy, os testamentos de Villon parodiam a estrutura narrativa das Sagradas Escrituras. Assim como o Velho Testamento foi corrigido pelo Novo, o Lais foi completado pelo Testament. Segundo a cosmologia crista, o Lais representaria a queda (iniciada no Genesis), e o Testament a redencao (selada na "nova alianca" dos evangelhos). No entanto, os testamentos de Villon narram a historia da salvacao da perspectiva do bom ladrao crucificado ao lado de Cristo (LUCAS, 23/32). A esperanca do bom ladrao na salvacao da sua alma e o acontecimento originario que, justificando a propria escrita dos dois testamentos de Francois Villon, permite conferir unidade ao enredo da "farsa do vilao arrependido".

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Daniel Padilha Pacheco da Costa. Professor do curso de Traducao e do programa de Pos-graduacao em Estudos Literarios do Instituto de Letras e Linguistica da Universidade Federal de Uberlandia (UFU). Doutor pelo Departamento de Letras Modernas da USP (Programa de Estudos Linguisticos, Literarios e Tradutologicos em Frances), com um estagio doutoral de um ano na Universite Paris-Sorbonne (Paris IV). Graduado em Filosofia pela Universidade de Sao Paulo e em Letras Francesas pela Universite Sorbonne Nouvelle (Paris III), com proficiencia em Lingua Francesa. Integrante de grupos de pesquisa sobre traducao e antiguidade classica. Tradutor profissional do frances, com enfase em Filosofia Francesa Contemporanea.

Daniel Padilha Pacheco da Costa

Universidade Federal de Uberlandia Uberlandia--Brasil

E-mail: dppcosta@hotmail.com

Recebido em: 05/01/2017

Aceito em: 15/06/2017

doi.org/10.1590/1517-106X/2017193588603

(1) Pelo fundamento de sua poesia, Villon nao e mais da Idade Media: todo ele e moderno, francamente o primeiro a ter sido completamente moderno. Ele carrega em si todo o lirismo (traducao nossa).

(2) Os jovens poetas, como Marot e Villon, tinham um pendor irresistivel para o teatro (traducao nossa).

(3) As duas obras em sequencia de Villon, o Lais e o Testament [...] pertencem ao genero do dit (traducao nossa).

(4) Feito na referida data/ Pelo bem chamado Villon (traducao nossa).

(5) Aqui se encerra o testamento/ E termina o pobre Villon (traducao nossa).

(6) Venham de toda parte/ Herdeiros do finado Pathelin/ E o capitao da ponte do cambio/ Iniciados no jargao/ Fieis a Franco Vilao (traducao nossa).

(7) E nao procurava adquirir nenhum tostao/ Senao fosse de modo taofino quanto Francois Villon (traducao nossa).

(8) Mestre Francois, chamado Villon/ Bem sabia rimar com tostao/ Todos os dias uteis, bem como domingos/Quando buscava almocos de graca (traducao nossa).

(9) Sob o fardo desta dura pedra/ Vede jazer o bom Mestre Pedro/ Cujos feitos superaram Villon/ E Pathelin, ao partir para o novo ano (traducao nossa).

(10) Enfim, ele era muito habilidoso em encenar farsa e parodia, e era um homem capaz de divertir uma cidade inteira. [...] Em uma palavra, ele era um segundo Mestre Francois Villon de Paris (traducao nossa).

(11) Mestre Francois Villon/ Clerigo experiente em fatos e ditos/ Que era muito original/ E se deleitava em representar farsas/ Fez seu testamento em Paris (traducao nossa).
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Author:da Costa, Daniel Padilha Pacheco
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:Sep 1, 2017
Words:7004
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