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A DISCURSIVE ANALYSIS OF MEMES ENEM 2015/UMA ANALISE DISCURSIVA DE MEMES DO ENEM 2015/ UNA ANALISIS DISCURSIVA DE MEMES DEL ENEM 2015.

VAMOS COMECAR A ZUEIRA

A internet trouxe e continua trazendo a tona uma serie de materialidades discursivas diferentes, dentre elas, os memes que emergiram nos ultimos anos e ficaram famosos. Utilizando imagens e textos produzindo efeitos de sentido de humor, os memes tem uma intensa propagacao no meio virtual. Quando algum assunto ou imagem viraliza, as redes sociais tomam para si esse conteudo e o "reinventam" com o objetivo de produzir um efeito de humor. Praticamente tudo pode dar origem a um meme, seja uma foto, uma noticia ou um video.

De acordo com Zoppi Fontana (2016), meme e um objeto paradoxal por excelencia e legitima uma replica pela repeticao. Pelo seu funcionamento, desestabiliza o lugar comum e estabiliza novos sentidos transgressivos, ou melhor, o proprio movimento de transgressao, dado que os sentidos sao divergentes e dispersos. A partir desses apontamentos, emerge o problema, seguido das perguntas de estudo: como se dao as construcoes de sentido dos discursos memicos no meio virtual? Quais as condicoes de producao dessas discursividades? Como os sentidos instaurados pelos memes se sustentam?

Este estudo foi desenvolvido de acordo com a perspectiva teoricometodologica da Analise de Discurso (AD), de linha francesa, assim, mobilizaremos as nocoes de interdiscurso, intertextualidade, memoria metalica, formacoes imaginarias, discurso ludico e discurso polemico.

As redes sociais estao repletas de memes e a dimensao que eles podem tomar e incontrolavel. Nao ha regras para criar, promover ou acabar com eles, pois, a cada novo acontecimento, surge uma nova materialidade digital. E como se eles tivessem vida propria, alimentando-se das curtidas, comentarios e, principalmente, dos compartilhamentos.

De acordo com Dias (2007, p. 1)
   O discurso sobre a lingua nasce, na Internet, sobretudo, como uma
   reacao a um modo de escrita que surge com a expansao da comunicacao
   nas comunidades virtuais e redes sociais, o que, de modo geral, tem
   se chamado internetes e, de modo especifico, encontra subdivisoes,
   dependendo, sobretudo, do fator idade e tribo.


A realizacao deste trabalho objetivou compreender as construcoes de sentido do papel desempenhado por componentes memicos em espacos virtuais, como forma de representacao ideologica e buscou analisar as producoes de sentidos que as construcoes memicas proporcionam, partindo de discursos de personagens do mundo real que postam comentarios em redes sociais, fomentando, assim, discussoes que cooperam para a sobrevivencia e propagacao dos memes.

A Analise de Discurso objetiva realizar uma reflexao sobre as condicoes de producao e apreensao do significado de textos produzidos em diferentes campos. Os pressupostos basicos dessa analise podem ser resumidos em dois: (1) o sentido de uma palavra ou de uma expressao nao existe em si mesmo; ao contrario, expressa posicoes ideologicas em jogo no processo socio-historico no qual as relacoes sao produzidas; (2) toda formacao discursiva dissimula, pela pretensao de transparencia e dependencia, formacoes ideologicas (PECHEUX, 2009; ORLANDI, 1996).

Para o desenvolvimento de nossa reflexao, constituimos um corpus com memes referentes ao Enem3 2015. Desse corpus selecionamos recortes discursivos que nos permitiram analisar a producao de sentido dos discursos memicos que circulam nas redes sociais. Nesse percurso, o objetivo da analise, segundo Orlandi (2012a), e a de-superficializacao da imagem enquanto texto, buscando, assim, compreender o processo de producao de sentidos nos memes.

Tendo em vista nossa filiacao teorica, consideramos como essencial a nocao de condicoes de producao, a fim de compreendermos como cada materialidade se constitui, atentando, em especial, ao modo como a historia se inscreve na lingua, produzindo determinados efeitos de sentidos (ORLANDI, 2012a).

Consideramos tambem as formacoes imaginarias (i) e (ii), as quais funcionam quando compreendemos e analisamos a materialidade digital meme. Sendo

(i) A formacao imaginaria que diz respeito a quem sao os estudantes que realizam o Enem que funciona no momento da producao do meme.

(ii) A formacao imaginaria que funciona ao pensar no leitor desse meme, pois se esse leitor nao possuir um intertexto para dialogar com o que esta sendo dito, a producao de sentido nao sera materializada da forma esperada.

Ao considerarmos que os memes funcionam pela desestabilizacao do sentido historicamente constituido, tivemos como objetivo principal, neste estudo, analisar a producao de sentido dos discursos memicos que circulam nas redes sociais, assim como compreender as condicoes de producao dos memes selecionados; e analisar como os sentidos instaurados pelos memes sustentam-se.

SOBRE MEMES? VEJAMOS O QUE TEMOS A DIZER

O termo meme

Nao encontramos registros precisos do momento em que o termo meme passou a ser utilizado na Internet. Acredita-se que, aproximadamente por volta dos anos 2000, a palavra ganhou prestigio em um evento que discutia acontecimentos e assuntos virais na web. A partir desse momento, formulou-se uma nova concepcao semantica que condiz com o que temos nos dias de hoje, que indica tudo o que se tornou viral na web, ou seja, que se propagou e se destacou rapidamente no espaco cibernetico, seja por meio de compartilhamento ou hiperlinks.

Se voltarmos nosso olhar para o campo de estudos da linguagem, de acordo com Souza (2013), o termo meme foi usado pela primeira vez na obra O Gene Egoista, de Richard Dawkins. Em sua obra, Dawkins (1976) classificou os memes como "replicadores", ou seja, capazes de multiplicar e propagar, gerando assim elementos com as mesmas caracteristicas, que, por sua vez, repetirao o processo em um ciclo perpetuo. O autor postula a ideia de meme--unidade de informacao cultural que e replicada de pessoa para pessoa--em analogia ao gene. Dawkins (1976) propos a palavra meme para designar essa nova entidade. O termo vem do grego mimeme (imitacao), reduzido a duas silabas para que soasse parecido com "gene".

Conforme Martino (2015, p. 177-178), "imagens, sons, gestos, palavras, melodias, jeitos de se vestir e ate mesmo elementos complexos como crencas ou rituais se disseminam pela sociedade na forma de meme". Ele ainda cita Shifman que na sua producao Memes in digital culture, define meme como a facilidade de manipulacao e divulgacao de materiais na web, transformando-o assim em um fenomeno cultural. Corroborando, Carvalho e Kramer (2013, p. 86) citam que os memes "sao modismos usados durante um periodo de tempo, muito populares nas comunicacoes por redes". Candido e Gomes (2015, p. 1298), ao analisa-los, apontam ainda que "retratam geralmente situacoes do dia a dia de forma comica e satirica".

Partindo para o vies da AD, compreendemos o meme como uma materialidade digital, nos termos de Dias (2013), materialidade digital e a escrita na Internet tomada na sua relacao com o mundo. Essa "forma material" do texto na internet e compreendida a partir de suas condicoes de producao.

Coelho (2014) desenvolveu uma dissertacao intitulada Brace yourselves, memes are coming: formacao e divulgacao de uma cultura de resistencia atraves de imagens da internet, na qual visou abordar a utilizacao de imagens da internet, conhecidas como memes, buscando compreender seus efeitos como elemento de divulgacao cultural. Conforme o autor,

[...] meme e um gesto de interpretacao frente a memoria metalica, filiado a memoria discursiva da chamada cultura dos memes. Assim dizendo, a utilizacao de um determinado meme para uma situacao especifica cria um posicionamento politico frente a rede, uma leitura possivel de um elemento produzido em serie (COELHO, 2014, p. 19)

Como afirma Coelho (2014), os memes apresentam-se como unidades fragmentadas de um fato, ou seja, o sentido do meme nao e superficial, nao esta na imagem e no texto materializado, mas, sim, na contextualizacao com outros fatos

Partindo do pressuposto que os discursos circulam em diversos meios e produzem sentido, Coelho (2014) explica que a internet cria grupos proprios formados por sujeitos historicos e ideologicamente constituidos que se agrupam por afinidade e por compartilhar dos mesmos pensamentos. Esses grupos criam linguagens proprias com fortes tracos de suas ideologias. Utilizando essa linguagem especifica, cria-se uma relacao entre sujeito e sentido, pois se o sujeito nao fizer parte desse grupo podera nao entender o sentido que o meme produz.

Levando em consideracao a longevidade e sucesso dos memes, aponta Coelho (2014) que os memes tem vida curta, nem todos alcancam sucesso, pois estao ligados a fatos e ocorrencias cotidianas. Esse tipo de materialidade, por estar associado a fatos novos, possui um tempo de vida, o seu tempo de sobrevivencia tambem esta associada ao seu poder de replicacao e propagacao. Um meme pode ser criado e sua linguagem nao ser entendida nas redes pelo leitor, dessa forma, sua longevidade e muito curta e em questao de horas pode sumir.

Meme: linguagem e materialidade digital

Os discursos produzidos no espaco virtual e materializados em forma de memes, sendo estes compreendidos como recortes discursivos replicados por meio de redes sociais, apresentam concordancia e apropriacao por parte dos sujeitos das falas de personagens do mundo real. Essa linguagem e utilizada como pratica social e ideologica. Compreendemos, neste artigo, como recortes discursivos, a manifestacao discursiva dos memes, compreendendo que podem ser formados de linguagem verbal e nao verbal. Assim, "o discurso dos memes revela-se como uma linguagem em uso, a pratica social que se manifesta sob a forma de imagens e textos que possuem uma vasta intencionalidade discursiva". (COELHO, 2014, p.5).

Como ja sinalizamos na introducao deste trabalho, tomamos como fio condutor os pressupostos teorico-analiticos da Analise de Discurso, de vies frances, tal como vem se desenvolvendo no Brasil. A AD propoe que o discurso e efeito de sentido entre locutores--sujeitos socio-historicos e ideologicamente constituidos.

Assim, o discurso e marcado ideologicamente, submetido a historia e acontece em e a partir de condicoes determinadas. (ORLANDI, 2012a). As principais categorias analiticas mobilizadas neste trabalho foram as nocoes de intertexto, interdiscurso e condicoes de producao. No caminho teorico-metodologico empreendido, nao ha separacao entre teoria e analise, ja que "[...] o dispositivo teorico-metodologico da analise de discurso se constroi num movimento pendular entre teoria e analise". (PETRI, 2013, p. 45). Desse modo, nosso percurso e marcado por um "vai-e-vem continuo" entre as analises e a propria explicacao de fundamentos teoricos que sustentam o estudo. (CASTELLANOS PFEIFFER, 2000, p. 10).

Os memes do Enem 2015 analisados foram organizados a partir de temporalidades, considerando as discursividades que sao criadas e compartilhadas antes, no dia e depois da realizacao do exame.

Conforme Dias (2015, p. 975), a temporalidade e:
   [...] constituida por outros paradigmas que escapam a cronologia. O
   tempo do digital e o do acesso. Um arquivo digital e sempre atual
   ou, melhor dizendo, passivel de atualizacao pelo acesso. (Ex. ao
   comentar uma postagem do facebook, independentemente da data em que
   foi postada, ela se atualiza na linha do tempo).


Essas temporalidades foram construidas a partir das temporalidades que sao encontradas no site do Enem, conforme a ilustracao 1: Cronograma de aplicacao da prova:

Compreendemos que essas temporalidades tem relacao com as condicoes de producao dos memes.

Segundo Petri (2004, p.157),
   [...] quando falamos de condicao estamos nos referindo a
   circunstancia, a algo que resulta de determinada "situacao", algo
   que nao nos da liberdade de escolha: a condicao que se impoe e se
   aceita, ela esta dada, essa e a sua propriedade essencial. A
   condicao e anterior a producao, ela determina a constituicao do
   produto, pois interfere no processo de producao.


Consideradas em um sentido mais amplo, as condicoes de producao incluem o contexto socio-historico e o aspecto ideologico. E pelo discurso que melhor se compreende a relacao entre linguagem/ pensamento/ mundo, porque o discurso e uma das instancias materiais concretas dessa relacao (ORLANDI, 2012c), por meio das condicoes de producao que se podem compreender, os sujeitos e a situacao, relacionados a memoria.

Segundo Orlandi (2012c), podemos considerar as condicoes de producao tanto em sentido estrito, quando nos referimos ao contexto imediato, isto e, o agora, a enunciacao, quanto em sentido amplo, quando nos referimos ao contexto sociohistorico e ideologico. As condicoes de producao em contexto amplo remetem a um conjunto de formulacoes ja feitas e esquecidas, que trabalharao de modo a determinar o que dizemos. Para a Analise de Discurso, as condicoes de producao e a memoria discursiva trabalharao de forma conjunta, pois a memoria e o saber discursivo que torna possivel todo dizer.

O funcionamento concomitante das temporalidades antes, durante e depois pode ser visualizado no Meme 1:

A partir da perspectiva teorica da AD, compreendemos que os memes nao sao discursos prontos ou imagens especificas ou mesmo um texto, sao um tipo de linguagem que compreende o uso de linguagem verbal e nao verbal e, na maioria das vezes, produzem efeitos de sentido ironico que e utilizado para se dizer o que pensa de uma forma humoristica, e um recorte que permite a textualizacao do discurso.

Assim como aponta Coelho (2014, p. 19), estamos compreendendo que
   [...] utilizacao de um determinado meme para uma situacao
   especifica cria um posicionamento politico frente a rede, uma
   leitura possivel de um elemento produzido em serie. Os sentidos,
   atraves da replicacao, se espalham e transbordam, e e atraves deste
   gesto que o meme se altera, e se ressignifica.


A producao de sentidos na leitura do Meme 1 nao se restringe somente ao que esta exposto na imagem, tem um sentido mais amplo. Para entender esse meme, o sujeito, consequentemente, precisa compreender o sentido instaurado tendo conhecimento do que supostamente inspirou a formulacao do mesmo, bem como sua utilizacao, sobrevivencia e entao a replicacao nas redes sociais. Nesse vies, entram em funcionamento as nocoes de interdiscurso e intertextualidade.

Nas palavras de (ORLANDI, 2012c) o interdiscurso e o conjunto de dizeres ja ditos e esquecidos que determinam o que dizemos, sustentando a possibilidade mesma do dizer. Para que nossas palavras tenham sentido e preciso que ja tenham sido ditas. Dessa forma, para instaurar um sentido para o Meme 1, o sujeito que o le precisa ter o interdiscurso sobre a saga O senhor dos aneis e O Hobbit, do escritor J.R.R. Tolkien, ja dito e esquecido em sua memoria, o interdiscurso tem intima ligacao com a memoria. Para Orlandi (2012b), a memoria tambem faz parte do discurso, logo, a maneira como ela surge induz as condicoes de producao do discurso, e assim a memoria e considerada "interdiscurso".

Afirma Orlandi, em seu livro Discurso e Leitura:

De forma bastante resumida, podemos dizer que ha relacoes de sentidos que se estabelecem entre o que um texto diz e o que ele nao diz, mas poderia dizer, e entre o que ele diz e o que outros textos dizem. Essas relacoes de sentido atestam, pois, a intertextualidade, isto e, a relacao de um texto com outros (existentes, possiveis, ou imaginarios). Os sentidos que podem ser lidos, entao, em um texto nao estao necessariamente ali, nele. O(s) sentido(s) de um texto passa(m) pela relacao dele com outros textos. (ORLANDI 2012b, p. 11).

Assim, os memes fazem parte da rede de discursos de internautas e estabelecem uma relacao de dependencia com o interdiscurso e mesmo pretensamente livre de amarras institucionais, os memes sao oriundos e constituintes do interdiscurso (SCHONS; FUKUE, 2012).

Dessa forma, como o texto memico dialoga com outros textos ja existentes, vamos ao encontro com a intertextualidade da leitura citada por Orlandi.

Ha varios elementos que podem determinar a previsibilidade das leituras de um texto. Os sentidos tem sua historia, isto e, ha sedimentacao de sentido, segundo as condicoes de producao da linguagem. Um texto tem relacao com outros textos (a intertextualidade). (ORLANDI, 2012, p.42)

E possivel observar no Meme 1 a ocorrencia da intertextualidade do discurso. Ela traz como texto nao verbal a imagem do personagem dos romances O senhor dos aneis e O Hobbit, representando sua decadencia com o passar da narrativa, associando ao texto verbal antes, durante e depois do Enem. A ocorrencia do meme tem como objetivo representar o processo de realizacao da prova, caracterizada como cansativa e desgastante, por exigir do aluno mais de cinco horas e meia para a resolucao das questoes. A questao e bastante priorizada e compartilhada nas redes sociais. Como consequencia, inumeros memes nesse sentido sao criados para representar e criticar, humoristica e ironicamente, esse episodio.

Levando em consideracao que os memes sao compostos por recortes de outros textos, dando origem a uma nova formulacao, para que a producao de sentido seja concretizada e imprescindivel que o sujeito que o le tenha tido algum contato com esse texto da escritora J.R.R. Tolkien. E interessante notar que os memes, de modo geral, apresentam como caracteristica a ironia, sendo que ela so sera entendida e materializada na interacao que se estabelece entre os tres sujeitos citados por Orlandi (2012). Sobre a ironia, a autora explica que:

Na "interlocucao", na pratica discursiva, quando as palavras constituem um determinado universo do dizer, ha ironia. Ela nao esta no locutor, nao esta no ouvinte, nao esta no texto: esta na relacao que se estabelece entre os tres. Mesmo o que nao parece ironico, pode se-lo; depende da relacao que se estabeleca. Para sermos mais incisivos, diriamos que, na ironia, joga-se com a relacao entre o estado de mundo tal como ele se apresenta ja cristalizado--os discursos instituidos, o senso comum--e outros estados de mundo. Essa e uma caracteristica basica da ironia. (ORLANDI, 2012, p. 26)

Assim utilizam-se os memes, que nao sao discursos prontos e produzem efeitos de sentido ironico, para se expressar de forma suavizada, um recorte que permite a textualizacao do discurso.

Realizando esse movimento de entender o intertexto dos memes e o sentido que se instaura com o passar dos tempos, compreendemos que e importante trazer a baila a nocao de memoria metalica. Para Orlandi (2006), a memoria metalica e aquela produzida por um construto tecnico (televisao, computador, etc.) e sua particularidade e ser horizontal, nao havendo, assim, estratificacao em seu processo, mas distribuicao em serie, na forma de adicao, acumulo: o que foi dito aqui e ali e mais alem vai-se juntando como se formasse uma rede de filiacao e nao apenas uma soma. A memoria metalica produz, pois, um efeito de filiacao.

Encontra-se na materialidade metalica uma horizontalidade, que e estavel, perene, e pode ser materializado na tela de um computador atraves de um botao de busca. Antes de ser buscada em um site, ou acessada a esmo, ela e um codigo armazenado em um servidor, desprovido de sentidos fora de sua existencia numerica. Ao assumir a materialidade metalica, o meme abandonou seu estado abstrato, que poderia ser fadado ao esquecimento, e buscou uma forma talvez mais duradoura, mais perene. (COELHO, 2014, p. 11).

Trata-se da memoria que e acumulada, que tudo cabe, numerica, e por isso nao e baseada no esquecimento, e sim na soma quantitativa de seus elementos. (DIAS, 2012). Nao historiciza, mas acumula. (ORLANDI, 2006). Assim, os memes do Enem, que sao reformulados todos os anos na epoca de realizacao das provas, sao criados, recriados e replicados no/pelo meio eletronico e nao ficam fadados ao esquecimento em funcao de se configurar como uma materialidade metalica, podendo gerar outros efeitos de sentido.

Vejamos outro meme:

Mesmo apos dois anos do ocorrido, ao ler o Meme 2 e possivel relembrar ou buscar na memoria metalica a repercussao polemica que foi o divorcio entre os cantores Joelma e Chimbinha nas midias e redes sociais, inumeros foram os memes que surgiram com esse assunto. O Enem tambem nao ficou fora disso.

Todos os anos, alguns meses antes da realizacao do exame, o assunto principal e qual sera o tema da redacao. Repleto de ironia, devido ao alto nivel de repercussao que o fato causou, temos o Meme 2 afirmando que seria esse o tema da redacao fazendo com que os sujeitos, no momento que realizam a leitura, coloquem em funcionamento o ja-la.

O interdiscurso e algo que fala antes, que surge de um lugar independente, e o que Orlandi chama de memoria discursiva, e algo que ja foi dito e que causa efeito no que esta sendo dito. O fato e que ha um ja dito que sustenta a possibilidade mesma de todo dizer, e fundamental para se compreender o funcionamento do discurso, a sua reacao com os sujeitos e com a ideologia. A observacao do interdiscurso nos permite remeter o dizer do meme "[...] a toda uma filiacao de dizeres, a uma memoria, e a identifica-lo em sua historicidade, em sua significancia, mostrando seus compromissos politicos e ideologicos". (ORLANDI, 2012b, p. 32).

No entanto, compreendemos que os compromissos politicos e ideologicos funcionam discursivamente no Meme 2 pela negacao dos mesmos, pelo fato de se produzir um efeito de sentido de banalizacao do possivel tema de redacao do Enem. Bem como constroi uma critica ao despreparo dos estudantes que realizarao o exame, remetendo a ideia de que os estudantes sabem tudo sobre os artistas e noticias banais do dia a dia e, na maioria das vezes, nao possuem conhecimentos basicos de geografia, historia e cultura para dissertar na redacao do Enem.

Assim, compreendemos que o que e dito pelos sujeitos esta inscrito em uma formacao discursiva e nao em outra e e disso que o discurso se constitui em seus sentidos. Entendemos, dessa ocorrencia, que as palavras derivam seus sentidos das formacoes discursivas nas quais se inscrevem. (ORLANDI, 2012b). Por exemplo:

O Meme 3 faz referencia a serie literaria Game of Thrones, o primeiro livro da serie de fantasia epica As Cronicas de Gelo e Fogo, do escritor George R.R Martin. O cenario da serie e Westeros, uma terra reminiscente da Europa Medieval, na qual o inverno dura por anos ou ate mesmo decadas. A historia acontece em torno de uma batalha entre os Sete Reinos, desses reinos, duas familias dominantes lutam pelo controle do Trono de Ferro, que a posse possivelmente e uma garantia de sobrevivencia durante o inverno que vira. Na serie, repleta de nobres, os reis possuem muitos relacionamentos fora do casamento, um deles gerou o bastardo Jhon Snow, figura central do meme em analise. Os bastardos dos reinos deveriam subir a muralha, fazer os votos de defender a corte, pois la o frio era tao intenso que os tornaria estereis, dessa forma, nao aumentariam o numero de bastardos pelo reino.

Assim, o meme, ironicamente, faz um convite, relacionando como os bastardos sao tachados de fracassados e inuteis na serie, aos sujeitos que nao atingiram sucesso na prova do Enem e que possuem uma relacao com a serie, provavelmente sujeitos que a assistiram ou que leram os livros sobre as As Guerra dos Tronos. Compreendemos que e pela juncao de todos os elementos mencionados que se instaura um efeito de sentido para o discurso memico.

Como mostra o Meme 3, essas materialidades sao repletas de sentidos e foram criados em condicoes diferentes, pois os sentidos inscritos na materialidade discursiva possuem uma estrita relacao com essa nocao de condicoes de producao.

As condicoes de producao remetem a exterioridade, ao contexto socio-historico e ideologico em que o sujeito se situa, sendo este lugar que possibilita ao sujeito uma determinada tomada de posicao diante do seu discurso, produzindo determinados efeitos de sentidos. (ORLANDI, 2012a).

SOBRE MEMES: THE ZOEIRA NEVER ENDS

Como citado anteriormente, os memes sao recortes que podem ser imagens, textos, videos ou qualquer discurso que tenha como principal objetivo comunicar de forma engracada e divertida.

Os memes relacionados ao Enem buscam, de forma ironica, expor o grau de dificuldade das provas e o quao desgastante e passar por esse momento que envolve, muitas vezes, o futuro academico/profissional dos alunos que apostam todas suas fichas na expectativa da aprovacao, fazendo, apos a prova, varias criacoes apresentando o que sentiram no Enem.

Zoppi Fontana (2016) explica que os memes podem ser entendidos como a uniao do discurso ludico mais o discurso polemico, sendo assim definidos a partir de Orlandi:

O discurso ludico e aquele em que seu objeto se mantem presente enquanto tal (enquanto objeto, enquanto coisa) e os interlocutores se expoem a essa presenca, resultando disso o que chamariamos de polissemia aberta (o exagero e o non sense). O discurso polemico mantem a presenca do seu objeto, sendo que os participantes nao se expoem, mas ao contrario procuram dominar seu referente, dando-lhe uma direcao, indicando perspectivas particularizantes pelas quais se o olha e se o diz, o que resulta na polissemia controlada (o exagero e a injuria). (ORLANDI, 1996, p.15).

Os memes sao compostos de textos curtos, com elementos visuais simples e repetidos em serie, sendo que ha sites para producao de memes, e os sentidos, por meio da replicacao, espalham-se e transbordam, e e por meio desse gesto que os memes alteram-se e ressignificam-se. Zoppi Fontana (2016) tambem aponta que um dos objetivos primarios na criacao de memes e o humor, assim como o imbricamento de diferentes materialidades significantes: imagem (estatica ou em movimento) escrita --som.

Considerando o funcionamento dos memes, com sua capacidade de reconfigurar-se e replicar-se na producao de sentido, empreendemos a tarefa de pesquisar, organizar e analisar as discursividades seguindo o antes, durante e apos a realizacao do exame.

Seguindo o movimento pendular entre teoria e analise, compreendemos que os memes que sao materiais digitais, compostos por imagens e textos, tendo relacao com algo cotidiano, possuem em seu sentido a intertextualidade de um discurso que ja foi proferido em outro momento e que esta ligado ao presente. Os memes possuem a ironia como caracteristica marcante, bem como possuem o objetivo de divertir caracterizado como discurso ludico e o discurso polemico que se apresenta em forma de critica presente no intertexto do discurso que so sera instaurada considerando o gesto de leitura. Tambem precisamos considerar:

[...] a efemeridade deste discurso, o seu modo e meio de difusao, a sua materialidade digital de carater plastico, fluido, hipertextual, interativo e virtual (LEVY, 1999), e a interacao com o conteudo que e mediada pelo computador.(BRASIL, 2017, p. 16).

Os memes analisados apresentam a reformulacao do nome do exame, colocando em jogo a credibilidade que o exame possui, assim como apresentam certas regularidades. Devido as condicoes de producao em que sao criados, ano apos ano, os memes reconfiguram-se, mas apresentam as mesmas imagens e textos, replicam-se como algo novo, sendo que, na verdade, possuem as mesmas imagens e textos de anos anteriores, seguindo o antes durante e depois do Enem. Constatamos materialidades com as mesmas imagens nas diferentes fases do exame, afirmando a ideia de que os memes reconfiguram-se, por isso as relacoes interdiscursivas e intertextuais sao tao importantes para a compreensao do discurso memico. Para tanto, consideramos que a nocao de memoria metalica e importante para explicar esse funcionamento:

Falar em memoria metalica nao quer dizer que ao enunciar o dizer nao esteja determinado pela memoria discursiva, quer dizer que ao circular na materialidade digital, esse dizer se filia a uma memoria metalica para significar. E essa memoria metalica produz uma evidencia do sentido e do sujeito uma vez que nao diz respeito a existencia historica do enunciado, mas a sua existencia tecnica, replicavel. (DIAS, 2014, p. 8)

Compreendemos que os memes sao discursos produzidos na e pela internet e no desenvolvimento das analises nos deparamos com um efeito de nao autoria, pois os memes nao tem um "nome de autor" ou autor especifico. E nessa perspectiva que nos arriscamos em dizer que ha, entao, a tentativa de producao de um efeito de nao autoria. Sobre esse funcionamento, Orlandi explica que "[...] um texto pode ate nao ter um autor especifico, mas, pela funcao-autor, sempre se imputa uma autoria a ele." (2012a, p. 75).

De acordo com Orlandi (2012a), a assuncao da autoria implica uma insercao do sujeito na cultura, uma posicao dele no contexto historico-social, ou seja, ha determinadas condicoes de producao dos memes que implicam pensar o contexto/situacao e os possiveis leitores. Nesse sentido, Brasil (2017, p. 98) explica que "[...] as referencias ao repertorio da cultura popular dizem respeito as formacoes discursivas compartilhadas entre os autores e determinados grupos". Assim, nos memes analisados, compreendemos que as referencias fazem mencao a produtos culturais, principalmente, literatura e series que tem como publico alvo, possivelmente, os mesmos sujeitos que realizam a prova do Enem. Isso tambem pode nos indicar as formacoes imaginarias acerca dos sujeitos que realizam a prova, ou seja, leitores e espectadores de determinados produtos culturais.

Nossa tentativa e de encerrar dizendo que "nao ha ritual sem falhas" (PECHEUX, 1988, p. 301), por isso, muitas vezes, os memes podem nao ser compreendidos. Mesmo partindo da reconfiguracao e replicacao de memes ja existentes e de serem discursos ludicos e ironicos, ha a possibilidade de que sujeitosleitores nao entendam tais discursividades, em decorrencia de que "Os memes sao enunciados oriundos do agrupamento de outros discursos, que possuem no seu autor a origem das suas significacoes e a sustentacao da coerencia do sentido." (BRASIL, 2017, p. 106).

REFERENCIAS

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CANDIDO, Evelyn Coutinho Rother; GOMES, Nataniel dos Santos. Memes--uma linguagem ludica. Revista Philologus, Rio de Janeiro, ano 21, n. 63, p. 1293-1303, set./dez., 2015.

CARVALHO, Nelly; KRAMER, Rita. A linguagem no Facebook. In: Linguistica da Internet. Tania G. Shepherd e Tania G Sales. (Organizadoras).--Sao Paulo: Contexto, 2013

CASTELLANOS PFEIFFER, Claudia. Bem dizer e retorica: um lugar para o sujeito. 2000, 174 f. Tese (Doutorado em Linguistica)--Instituto dos Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

COELHO, Andre Luis Portes Ferreira. Brace yourselves, memes are coming: formacao e divulgacao de uma cultura de resistencia atraves de imagens da internet. Campinas, SP : [s.n.], 2014. Dissertacao (mestrado). Disponivel em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000938032

DIAS, Cristiane. A lingua em sua materialidade digital. Seminario de Estudos em Analise do Discurso (3. : 2007 : Porto Alegre, RS) Anais do III SEAD--Seminario de Estudos em Analise do Discurso [recurso eletronico]--Porto Alegre : UFRGS, 2007. Disponivel em: ISSN 2237-8146

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DOI: 10.12957/periferia.2019.36362

Marcia Ione Surdi (1)

UNOCHAPECO

Andressa Cristina Oliveira da Silva (2)

Universidade Federal da Fronteira Sul

(1) Doutora em Letras--Estudos Linguisticos, pela Universidade Federal de Santa Maria. Professora titular da Unochapeco, vinculada a Area de Ciencia Humanas e Juridicas. E-mail: misurdi@unochapeco.edu.br

(2) Graduada em Letras pela Universidade Comunitaria da Regiao de Chapeco--Unochapeco, Chapeco, Santa Catarina, Brasil. Estudante Programa de Pos-Graduacao em Estudos Linguisticos (PPGEL), da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). E-mail: dressadasilva@unochapeco.edu.br

(3) O Exame Nacional do Ensino Medio (Enem) avalia conhecimentos obtidos ate o termino do Ensino Medio. Ele e usado como parte do processo seletivo de mais de mil Instituicoes de Ensino Superior (IES) publicas e privadas. (GUIA DO ESTUDANTE ABRIL, 2017).

Caption: Imagem 1: Fonte: http://enem.inep.gov.br/#/antes?_k=bwa1fn. Acesso em: 27 nov. 2015.

Caption: Imagem 2: Fonte: http://g1.globo.com/educacao/enem/2015/noticia/2015/10/memes fazem-enem-ter-mais-de-um-milhao-de-mencoes-no-twitter.html. Acesso em: 27 nov. 2015.

Caption: Imagem 3: Fonte: http://g1.globo.com/educacao/enem/2015/noticia/2015/10/memes fazem-enem-ter-mais-de-um-milhao-de-mencoes-no-twitter.html. Acesso em: 27 nov. 2015.

Caption: Imagem 4: Fonte: http://g1.globo.com/educacao/enem/2015/noticia/2015/10/memes-fazem-enemter-mais-de-um-milhao-de-mencoes-no-twitter.html. Acesso em: 27 nov. 2015.
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Author:Surdi, Marcia Ione; da Silva, Andressa Cristina Oliveira
Publication:Periferia
Date:May 1, 2019
Words:5425
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