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A BRIEF OVERVIEW OF THE HUMOR IN SWEDISH FEMINIST COMICS FROM THE WORK OF NINA HEMMINGSSON, MALIN BILLER AND LIV STRONQUIST/UM BREVE PANORAMA DO HUMOR NOS QUADRINHOS FEMINISTAS SUECOS A PARTIR DA OBRA DE NINA HEMMINGSSON, MALIN BILLER E LIV STRONQUIST.

Introducao

Segundo Christophe Quillien, autor do livro Elles: Grandes aventurieres et femmes fatales de la bande dessinee (2014), durante muito tempo, as mulheres nao foram bem-vindas nos quadrinhos, nem como autoras, nem como personagens (QUILLET, 2015). A historiadora Michelle Perrot, em sua obra Minha Historia das Mulheres, chama a atencao para o silencio das mulheres, um silencio imposto por uma sociedade dominada pelos homens, que nao se interessavam em contar esta historia (PERROT, 2004: 17). Um silencio que, pelo que se pode perceber, foi imposto a todas as areas de atuacao humana.

Mas, este panorama vem mudando especialmente nas ultimas decadas, quando as mulheres tem deixado de ser a excecao, a excepcionalidade, para se tornarem protagonistas na cena dos quadrinhos, tanto na Europa quanto na America. A exemplo dessa ascensao das mulheres na cena dos quadrinhos no ocidente, trouxemos para este artigo o caso da Suecia, a partir da analise da obra e do percurso de tres quadrinistas: Nina Hemmingsson, Malin Biller e Liv Stromquist. Essas tres autoras destacam-se no campo do humor e tiveram um forte impacto sobre a producao de outras quadrinistas em seu pais, tanto pela versatilidade quanto pela militancia feminista.

Os quadrinhos feministas trazem a tona temas que fazem parte da vida daquele pais, das relacoes entre homens e mulheres em situacoes cotidianas que envolvem um emaranhado de relacoes de poder. E, para entender esse processo, vamos utilizar a categoria genero que, para Joan Scott (1989), e uma construcao, um universo simbolico a partir do qual definimos a forma como vamos enxergar a nos mesmos(as) e a realidade em que vivemos. Um saber, uma percepcao sobre as diferencas sexuais, e uma relacao de poder que vai muito alem da questao biologica (o sexo), alicercada em hierarquias sociais, valores culturais, simbolos e significados.

Nos quadrinhos de humor das autoras analisadas, podemos identificar essas relacoes de poder e uma constante construcao e reconstrucao dos papeis de genero que podem ser percebidas nas relacoes sociais mais basicas, como em uma conversa de bar, um passeio no parque ou uma ida ao supermercado. Um humor fortemente politizado e marcadamente feminista que pode causar estranhamento ao leitor brasileiro que emergiu em meio ao crescimento do movimento feminista na Suecia, notadamente nos anos de 1990.

Ainda pouco conhecida no Brasil, a producao de historias em quadrinhos da Suecia vem ganhando o mundo na ultima decada. Esta recente descoberta dos quadrinhos suecos foi possivel gracas a crescente publicacao de autores e autoras daquele pais tanto em paises europeus quanto nas Americas e ate no Japao. Os Suecos estao inovando em forma e narrativa e apostando na profissionalizacao de quadrinistas, que frequentam escolas de artes, onde sao oferecidos cursos especificamente sobre historias em quadrinhos, e em escolas de quadrinhos, sendo a mais prestigiada a Escola de Quadrinhos de Malmo (1), da qual sairam quadrinistas que atualmente fazem sucesso dentro e fora da Suecia.

Na Suecia, e notavel a participacao das mulheres na industria dos quadrinhos, principalmente a partir da primeira decada do seculo XXI. Esta participacao se deve, em parte, pela politica adotada pelo governo sueco a partir dos anos de 1970, com o objetivo de aumentar a participacao das mulheres no mercado de trabalho e combater o preconceito de genero. Houve tambem a influencia do movimento feminista, que, como veremos ao longo do artigo, encontrou nos quadrinhos um veiculo para retratar as perspectivas das mulheres, compartilhar traumas privados, abordar temas tabus, explorar a sexualidade ou desafiar papeis de genero.

As historias em quadrinhos, independentemente da tipologia (terror, humor, aventura, etc), podem ser tratadas como "tecnologias de genero", conceito cunhado por Teresa de Lauretis para quem o genero e um produto de diferentes tecnologias sociais, tais como internet, radio, televisao, cinema e jornais, que formam discursos, constroem e desconstroem a forma como homens e mulheres se percebem como tal (LAURETIS, 1994: 228). Os quadrinhos produzem discursos (2) que podem ser considerados uma tecnologia de genero.

Os varios tipos de quadrinhos, os de humor circulam amplamente em jornais e revistas, destacam-se como lugar privilegiado para se questionar o papel das mulheres na sociedade e expressar posicionamentos politicos. Esses quadrinhos ganharam o gosto do publico sueco ao trazerem um discurso contundente acerca do papel de homens e mulheres na sociedade. Uma caracteristica [da producao] de quadrinhos da Suecia e a presenca de [uma producao] fortemente politizada e influenciada pelo feminismo; a analise dos quadrinhos de humor feminista nos permite compreender a dinamica social daquele pais que pode, ao mesmo tempo, ser tao distante e tao proxima daquela que vivenciamos no Brasil. Mesmo quando o feminismo nao aparece como o foco central da narrativa, esta muitas vezes se constroi a partir da sua perspectiva, como veremos mais adiante.

1. A explosao dos quadrinhos suecos no final do seculo XX

No ocidente, os quadrinhos suecos possuem uma tradicao antiga, comparavel a de paises como Suica, Franca e Estados Unidos. Ja no seculo XIX, eles eram utilizados como recurso pedagogico naquele pais, inicialmente por uma mulher, Eva Ottilia Adelborg, que em 1882 publicou sua primeira ilustracao em um livro e na decada de 1890, voltada ao publico infantil (STROMBERG, 2010: 25). Em 1896, a mesma autora publicou a historia em quadrinhos Pelle Snygg och barnen i Snaskeby (Pelle Elegante e criancas em Snaskeby), onde ensinava nocoes de higiene para criancas (JONSSON, GREFVE, 2015: 17).

Atualmente, a producao sueca diferencia-se da franco-belga e da estadunidense, para citar alguns paises ocidentais no quais se concentra a atencao da maior parte dos pesquisadores da area, por um aspecto: a Suecia e um dos poucos paises onde existe um equilibrio nos numeros de homens e mulheres na industria dos quadrinhos. Isso se deve ao fato das editoras terem criado cotas para mulheres, o que possibilitou que muitas autoras pudessem publicar seus quadrinhos no formato album. A iniciativa partiu de uma das maiores editoras do pais, a Galago, que em 2009, decidiu publicar igualmente homens e mulheres, ou seja, 50% dos quadrinhos da editora passaram a ser assinados por mulheres. (LINDBERG, 2016: 06).

A criacao de cotas nao apenas deu visibilidade para as mulheres como ampliou consideravelmente o publico leitor, favorecendo as vendas e, em contrapartida, aumentando os lucros das editoras que acreditaram nas politicas de igualdade de genero, que comecou a ser implementada nos anos de 1970 e reforcadas no final da decada de 1990 com a criacao, em 1998, da Secretaria Sueca de Pesquisa de Genero, com o objetivo de fortalecer e disseminar o conhecimento e a pesquisa relacionados a igualdade de genero. Em 2005, formou-se Feministiskt Initiativ, um partido politico feminista e o governo atual, uma coalizao dos Sociais Democratas e do Partido Verde, declarou-se "o primeiro governo feminista do mundo" (SANDSTROM, 2017, p. 12). Em 2015, de dez autores de quadrinhos suecos destacados por Alexandra Sundqvist em uma publicacao do The Swedish Arts Council (3), apenas tres eram homens.

Embora os homens ainda sejam a maioria entre editores, professores e criticos de quadrinhos, este numero vem sendo equilibrado a cada ano devido, tambem, a acao de coletivos de quadrinhos feministas que foram formados na Suecia por volta de 2005, como Polly Darton e o Dotterbolaget. O objetivo desses coletivos de quadrinhos e funcionar como uma rede que possibilita a publicacao de quadrinhos feitos por mulheres e pessoas trans, incentivando quadrinistas a trabalharem juntas e apoiar umas as outras. Entre suas muitas atividades, eles publicam fanzines e albuns conjuntos (LINDBERG, 2016: 06). Destes coletivos, o que mais se destaca na Suecia e o Dotterbolaget, cuja militancia feminista teve grande importancia para reforcar a presenca feminina na cena dos quadrinhos suecos. Segundo Jeanette Sundhall,

(...) os coletivos ativistas estao tentando moldar o futuro dos quadrinhos a sua maneira. Um dos maiores e Dotterbolaget, um coletivo de mulheres trans e separatistas de quadrinhos que comemoraram seu 10 aniversario no ano passado. Seus objetivos sao trabalhar contra as estruturas patriarcais que acham evidente no meio dos quadrinhos a apoiar as mulheres e pessoas trans envolvidas nessa area. Eles realizam exposicoes, oferecem oficinas e publicam fanzines e quadrinhos (SUNDHALL, 2016: 78. Traducao da autora). (4)

Cabe ainda citar o status cultural conquistado pelas historias em quadrinhos naquele pais na ultima decada. Na Suecia, as historias em quadrinhos aparecem em programas de radio e de televisao em horario nobre. Foram adaptadas para teatro e cinema e sao avaliadas por criticos literarios. Muitos quadrinistas, inclusive, ja foram agraciados com premios literarios pela riqueza e profundidade de sua obra, e entre eles muitas mulheres que fazem quadrinhos feministas. Os suecos desafiam a regra geral da industria dos quadrinhos no ocidente ao dar importancia as mulheres como produtoras e pela forma como tratam os quadrinhos. As historias em quadrinhos de humor tem um importante papel nessa revolucao cultural, especialmente o humor das mulheres, que iremos conhecer nas proximas paginas.

A industria dos quadrinhos na Suecia nao seguiu a tendencia de outros paises da Europa como Franca e Belgica, onde no final dos anos de 1950 os quadrinhos comecaram a se firmar como midia e, posteriormente, como uma forma de arte (MAZUR, 2014: 16). No caso da Suecia, os quadrinhos foram conquistando um status maior na sociedade, cerca de tres decadas depois, justamente por conta do avanco das conquistas feministas. As mulheres encontraram na arte e na midia espacos para exprimir seus anseios com relacao a sociedade sueca e, principalmente, criticar aquilo que ainda precisava ser mudado. Uma das influencias neste campo foram os quadrinhos de Claire Bretecher, que comecaram a ser publicados na Suecia a partir da decada de 1980.

A francesa Claire Bretecher iniciou sua carreira como cartunista em 1963, com a revista Le Facteur Rhesus e atingiu o sucesso em 1969, com a personagem Cellulite, traduzida em sueco como Cellulis, publicada originalmente pela revista Pilote. Cellulite e um dos primeiros quadrinhos de humor da Franca a ter como heroina uma mulher independente, uma princesa que se cansou de esperar por um principe encantado. Embora ambientada na Idade Media, a historia em quadrinhos faz uma critica contemporanea a sociedade patriarcal (5) francesa.

Sobre o feminismo de Bretecher, a pesquisadora Mira Falardeau escreveu: "Ela zomba de todas as falhas contemporaneas com seu telescopio feminista, que nao e desprovido de uma certa ternura" (FALARDEAU, 2014: 1968. Traducao da autora) (6). Na Suecia, a HQ mais popular de Bretecher foi Les frustres, traduzido em sueco como De frustrerade, uma serie de cronicas em quadrinhos de homens e mulheres que confrontados com problemas cotidianos acabam refletindo sobre questoes como educacao, vida conjugal, emancipacao das mulheres, crises existenciais, politica, etc. Claire Bretecher abriu o caminho para a producao de quadrinhos na qual as mulheres exibiam sua capacidade detalhista de observacao fazendo humor a partir da grosseria (WIHLKE, acesso em: 22 mai. 2018).

No inicio do seculo XIX, fanzines, producoes independentes e as webcomics abriram espaco para que um numero cada vez maior de autores, amadores e profissionais, encontrassem um publico que desejava algo mais do que os quadrinhos mainstream (7), veiculados pelas grandes editoras. Embora a producao de quadrinhos feministas nao fosse uma novidade, no final dos anos de 1990, os temas que passaram a circular nessas producoes passaram a ser marcados pela diversidade, pela necessidade de enxergar as mulheres em sua pluralidade. Na Suecia, no "(...) final da decada de 1990, a comunidade de zines feministas suecas comecou a florescer e, no inicio dos anos 2000, as redes de zines comecaram a se mover em direcao a uma comunidade de zines principalmente nacional, com sua caracteristica distinta sueca" (SANDSTROM, 2017: 14. Traducao da autora) (8).

Enquanto no resto do mundo houve uma fragmentacao do movimento feminista, que se dividiu em varias correntes, na Suecia ocorreu o contrario. O conflito entre a nova e a velha geracao de feministas levou ao fortalecimento da ideia de sororidade (Sisterhood) (9) o que fez com que, mesmo havendo tendencias diferentes, o movimento feminista saisse fortalecido. Ou seja, as feministas suecas, mesmo que com ideias ideologicamente divergentes assumem a necessidade de uniao contra o patriarcado, deixando de lado suas diferencas para manter o movimento fortalecido (SANDSTROM, 2017: 17).

E e justamente o humor feminista que domina a cena dos quadrinhos na Suecia, atraves de tiras publicadas em jornais ou em coletaneas. Quadrinhos feministas, satiricos e politicos sao uma das leituras preferidas dos suecos. Uma segunda geracao de quadrinistas feministas entrou em cena nos ultimos dez anos com obras que conquistaram muitos leitores, fazendo com que fossem publicadas por grandes editoras suecas e o que antes eram fanzines feministas que circulavam de forma limitada passaram a ser publicados como album e a ocupar as prateleiras da grandes e tradicionais livrarias suecas. Segundo Stina Sandstrom,

As historias em quadrinhos sao agora reconhecidas como uma forma literaria legitima que tem o potencial de lidar com questoes que cercam a desigualdade de genero. Na cultura sueca de quadrinhos em particular, essa forma de entretenimento tem sido cada vez mais cooptada para enfrentar o desequilibrio social, atuando como uma arena de debate e discussao (SANDSTROM, 2017: 05. Traducao da autora) (10).

Para Fredrick Stromberg, apesar da historia das mulheres nos quadrinhos suecos nao ser recente, nos ultimos dez anos a entrada de uma nova geracao de mulheres na cena dos quadrinhos suecos provocou uma serie de mudancas que levaram esta midia a outro patamar. Segundo o pesquisador, as mulheres estao liderando o mercado de quadrinhos na Suecia no momento. Por um tempo, isso foi principalmente atraves de quadrinhos politicos, feministas, mas hoje em dia e em todos os tipos de generos (11). Para Stromberg esse fenomeno e resultado do amplo debate acerca da igualdade de genero que vem ocorrendo no pais ha algumas decadas.

(...) foi preciso ate o seculo 21 para que as mulheres entrassem completamente no negocio de quadrinhos e desafiasse o dominio masculino. Esse nao e, obviamente, um fenomeno insular, mas um sintoma de um debate publico ativo sobre igualdade na sociedade sueca por algum tempo. Olhando para a decada anterior do seculo 21, e evidente que as artistas femininas dominaram os quadrinhos suecos, e que ha muitos quadrinhos diferentes, interessantes e instigantes sendo feitos agora (STROMBERG, 2010: p. 97. Traducao da autora) (12).

Feita a devida contextualizacao, partiremos agora para a analise do humor feminista nos quadrinhos suecos. Para tanto, faremos a analise de uma parte da obra de tres autoras suecas da nova geracao de quadrinistas, Nina Hemmingsson, Malin Biller e Liv Stromquist, que conquistaram o mercado sueco e sao, inclusive, publicadas no exterior. Tres mulheres, tres estilos diferentes, que guardam caracteristicas dos quadrinhos feministas e do humor sueco que, pode-se dizer, e um humor feito partindo da ideia de que os quadrinhos possuem uma funcao social bem clara: de questionar, denunciar e apontar as maculas de uma sociedade que busca a igualdade, mas que ainda precisa superar muitos obstaculos.

2. O humor feminista das quadrinistas suecas

Antes de partir diretamente para a analise do humor nos quadrinhos feministas suecos, cabe aqui fazer uma pequena introducao sobre a questao do humor das mulheres. Embora ele nao tenha necessariamente que ser feminista, pois ha quadrinistas que trabalham com o humor, com a satira, sem ter como foco a agenda feminista, e mesmo recorrendo a formas de humor semelhantes ao humor masculino, vai ser o humor feminista que predominara na maior parte da producao de quadrinhos e outras formas de narrativa humoristica. Isso porque o humor feminista tende a atacar as formas estereotipadas das mulheres, presentes na literatura, no cinema, nas artes em geral e, claro, na propria sociedade.

Da mesma forma como acontece em outros campos culturais, as mulheres que fazem humor estao invisibilizadas. Por seculos se negou as mulheres o humor ou a capacidade de compreender o humor masculino. A elas tambem foi negada a capacidade de fazer humor como se apenas os homens tivessem a capacidade de fazer rir e como se o humor se circunscrevesse a uma pratica unica sob controle e monopolio masculino. No entanto, ha pluralidade no discurso humoristico que e marcado pela diversidade e possui diferentes significados em diferentes contextos. Sobre a exclusao do humor das mulheres e das mulheres que fazem humor pela historia, Mira Farlardeau afirmou em seu livro Femmes et humour

Quando falamos de humor em geral, estamos falando do humor dos homens. O genero masculino cruzando o genero feminino, nao nos incomodamos, nos varios tratados que abordam a filosofia do humor, em distinguir o publico, mais do que fazer uma separacao de acordo com o sexo dos criadores: a historia e extremamente mesquinha em relacao ao humor das mulheres (FALARDEAU, 2014: 224.Traducao da autora) (13).

O humor e subversivo, e por vezes agressivo e considerado uma forma de expressao da inteligencia do homem. Sim, do homem, nao mulher. Na sociedade patriarcal, reconhecer o humor da mulher e dota-la de sagacidade, de inteligencia e, sobretudo, permitir que ela seja subversiva. Ao permitir a subversao da mulher, os homens estao colocando em risco a propria ordem patriarcal e com ela a dominacao masculina. Negar o humor das mulheres e mante-las impotentes face a suposta superioridade masculina.

O humorista vai de encontro aos valores publicamente aceitos da cultura, ele mostra que os pes dos santos sao de barro, diz que nao apenas o imperador esta nu, mas tambem estao o politico, o piedoso, o pomposo. Para as mulheres, tomar tal atitude significa quebrar as regras da posicao pacifica e subordinada, que lhes foi conferida por seculos de tradicao patriarcal, e revelar as vergonhas, hipocrisias e incongruencias da cultura dominante. Ser uma mulher e humorista e confrontar e subverter o proprio poder que mantem a mulher impotente e, ao mesmo tempo, correr o risco de confrontar justamente aqueles de quem ela e dependente (SILVA, 2015: 61).

Como veremos a seguir, o humor e utilizado como forma especifica de expressao das mulheres em inumeras questoes que nao se limitam apenas a agenda feminista. Os quadrinhos feministas, em sua essencia, tornaram-se "algo mais". Sua estetica difere muito dos quadrinhos tradicionais, assinados pelos homens. As formas pelas quais as mulheres se representam e representam os homens sao outra caracteristica dos quadrinhos suecos, como veremos mais adiante. Pode-se dizer que os quadrinhos feministas se apropriam de um meio de comunicacao tradicional a partir de uma perspectiva diferente (BROSTROM, acesso em: 22 mai. 2018). Segundo Alba Valeria Tinoco Alves Silva,

para que o humor das mulheres adquira reconhecimento e abrangencia, e necessario que ela fale de coisas serias. Nao admira, portanto, que muito do humor feminino europeu e americano aconteca no rastro dos movimentos feministas. A luta pelo voto e pela igualdade de direitos da a mulher um poder sem precedentes na historia. E um certo senso de poder e necessario para a criacao do humor, que, por sua vez, gera mais poder para quem o faz (SILVA, 2015: 79).

E este poder e bem visivel nas producoes comicas suecas, como iremos ver a seguir. A partir da analise de tres quadrinistas suecas selecionadas para este artigo: Nina Hemmingsson, especificamente o album Jag ar dim Flick van nu, cuja traducao aproximada e Eu sou sua namorada agora, as tiras comicas de Malin Biller e o album A origem do mundo, de Liv Stromquist, que foi recentemente publicado no Brasil pela Companhia das Letras e cujo nome original e Kunskapens frukt. Elas fazem sucesso falando sobre suas experiencias, sobre feminismo, politica, meio ambiente e temas de interesse geral do publico sueco, alternando por vezes entre humor e drama.

2.1--Nina Hemmingsson

Nina Hemmingsson e considerada umas das pioneiras da nova geracao de quadrinistas suecas. Nascida em 30 de novembro de 1971, seus primeiros quadrinhos foram publicados em 2004 pela Kartago, empresa na qual assumiu o posto de editora em 2017. Hemmingsson tem formacao em artes pela Academia de Belas Artes de Trondheim, na Noruega (SUNDQVIST, 2015: 10). Os quadrinhos vieram mais tarde, assim como o reconhecimento da sua obra que inovou os padroes esteticos e narrativos dos quadrinhos suecos tornando-se uma das quadrinistas mais bem sucedidas daquele pais.

Seus quadrinhos sao curtos, muitas vezes apenas com um ou dois quadros e podem ser caracterizados por dialogos marcados por uma satira afiada, que desafia os padroes da sociedade patriarcal chegando mesmo a uma grosseria obscena, possivelmente chocante para os padroes brasileiros, mas que agrada aos leitores suecos. Em seus quadrinhos, ela critica normas sociais, reexamina as nocoes de amor, de sexualidade e os papeis de genero. Eu seu album Jag ar dim Flick van nu (Eu sou sua namorada agora), Nina Hemmingsson se autorrepresenta a partir da personagem principal de suas tiras, uma mulher morena, de olhos sem pupilas e com profundas olheiras. Seu corpo e rolico e sua boca se assemelha a uma vulva.

A questao da autorrepresentacao esta presente em muitos quadrinhos produzidos por mulheres, seja no humor ou em outros generos. Lauretes afirma que as midias, assim como o cinema, trazem representacoes e autorrepresentacoes da sexualidade feminina e masculina, nas quais geralmente prevalecem o olhar masculino devido, segundo a autora, a visao androgenica (14) da sociedade (LAURETIS, 1994: 223). Mas no caso dos quadrinhos suecos, esta visao e desconstruida e, notadamente nos quadrinhos de Nina Hemmingsson, a sexualidade feminina nao e necessariamente uma projecao da masculina.

O estilo de Nina Hemmingsson e expressionista, focados nos estados psicologicos dos personagens. Ela nao concebe personagens esteticamente perfeitos, embora nao lhe falte habilidade artistica para isso, mas propositalmente deformes. Sao mulheres francas e grosseiras, jovens e idosas. Essa autora transfere para suas personagens tracos tipicos do comportamento masculino e estabelece a partir dai sua critica a sociedade patriarcal. O objetivo do seu humor e principalmente chocar e fazer o leitor questionar as relacoes de genero e ate mesmo o comportamento sexual de homens e mulheres.

Mais comum nas historias em quadrinhos feministas suecas do que essas figuras sexualmente ambivalentes sao personagens que podem ser identificados como grotescos femininos. O corpo grotesco feminino; nua, aberta, obesa ou deformada e uma reacao contra, e uma alternativa ao corpo feminino hegemonico "saudavel" e "inatingivel" como representado pela cultura de consumo. Alem disso, o grotesco feminino joga com as expectativas das identidades heterossexuais de genero binario; o masculino e o feminino, invertendo-os e exagerando-os (SANDSTROM, 2017:25 - Traducao da autora) (15).

Outro traco caracteristico de sua obra e a despreocupacao com a sequencia narrativa. Nao ha um roteiro definido ou uma logica a ser seguida pelo leitor. Em uma pagina de seu album, por exemplo, temos um monologo (Figura 2) no qual uma personagem, a autorrepresentacao da autora, durante o encontro com um homem, oferece tres opcoes de respostas absurdas para a pergunta "Voce quer dancar?". A ideia e chocar o leitor com respostas que uma mulher nunca daria a um homem, rompendo assim com o comportamento normatizado imposto a figura feminina em situacao semelhante. Ja em outra historia em quadrinhos (Figura 3), temos um dialogo entre uma mulher e um homem que lhe apresenta a "esposa". A mulher, em resposta, lhe apresenta sua axila como uma forma de critica a representacao da mulher como objeto de posse do homem.

Estes quadrinhos de humor, acidos e grosseiros, foram responsaveis pela elevacao dos status cultural e social das historias em quadrinhos na Suecia e Nina Hemmingsson por esse processo inspirou muitas outras quadrinistas a inovarem em suas producoes, a criarem quadrinhos comicos e em outros estilos que criticam e apontam as mazelas da sociedade sueca que, apesar de todos o esforco feito pelo governo desde os anos de 1970, ainda e profundamente patriarcal.

2.2--Malin Biller

/Malin Biller e uma quadrinista sueca que vem se destacando nos ultimos anos. Nascida em 1979, em Helsingborg, cidade portuaria localizada ao sul da Suecia, e a mais jovem do grupo que esta sendo analisado. Biller e uma quadrinista que, pela sua propria trajetoria de vida, transita entre o drama e o humor, sendo que este ultimo e bem marcante na sua obra. Comecou a produzir quadrinhos aos 22 anos, quando entrou para a Escola de Quadrinhos de Malmo (NOGUEIRA, 2017: 08). Ficou famosa por sua serie de humor, chamada Biller, cujas tiras foram reunidas em um album e publicadas em 2005 pela editora Collage. Coleciona premios desde que comecou a publicar seus quadrinhos, em 2003.

Com uma historia familiar complicada, na qual foi vitima de um pai alcoolatra e abusivo, Malin Biller encontrou no humor uma forma de defesa e, mais tarde, ele acabou se convertendo em instrumento para que ela pudesse expressar suas opinioes acerca da sociedade sueca e denunciar, entre outras coisas o culto ao corpo perfeito e a gordofobia (16), tanto que uma das caracteristicas de seus personagens, via de regra, e a de estarem acima do peso. Suas tiras foram publicadas em varios jornais suecos com uma grande receptividade.

Apesar de ser uma artista que transita por varios generos dentro dos quadrinhos, o humor e o lugar em que ela se sente mais a vontade. Suas tiras mostram situacoes cotidianas de forma engracada e, ao mesmo tempo, fazem uma critica aos costumes, ao papel da mulher na sociedade, ao consumismo e a preocupacao exagerada com a aparencia feminina. Muitos dos seus quadrinhos de humor sao baseados em suas experiencias. Suas personagens femininas podem ser consideradas tao subversivas como as de Nina Hemmingsson, pois podem apresentar caracteristicas consideradas masculinas. Sao meninas que agem como meninos: falam palavrao, sao gulosas, obesas, grosseiras e adoram sexo.

Na figura 04, por exemplo, com sua tira "kvinnans utveckling", que pode ser traduzida como "evolucao da mulher", Malin Biller critica a sociedade por estereotipar o corpo feminino a partir de padroes impostos principalmente pela midia (as proteses enormes nos seios, o preenchimento excessivo dos labios, etc.), assim como os exageros que isso pode acarretar. Ela tambem mostra como as mulheres cedem as expectativas sociais e se curvam para serem aceitas, admiradas e vistas como bonitas. Ja em outra imagem (figura 5) ela mostra uma mulher em busca de sexo, imaginando um supermercado no qual ha uma "liquidacao de homens" e maliciosamente comenta que "pretende levar dois para casa", para aproveitar o fim de semana. O humor contido nesses dois exemplos revela a sagacidade da autora, que deixa bem claras suas intencoes ao brincar com padroes de comportamento de consumo. Da mesma forma, ela apresenta outro exemplo de inversao dos papeis de genero ao colocar em cena a libido feminina de forma espontanea e bem humorada.

A autora tambem recorre muitas vezes a autorrepresentacao e mesmo a autobiografia. Biller parte da sua experiencia cotidiana para satirizar comportamentos. Um caso de assedio no transporte publico, um homem urinando na parada do onibus, um comportamento improprio no supermercado, uma crianca malcriada num parque. Tudo serve como materia-prima para Biller criar suas tiras. Em poucos quadros, a autora faz uma cronica da vida social sueca e aponta aquilo que ainda precisa ser melhorado.

Esta postura feminista, que critica abertamente os estereotipos femininos e o machismo na sociedade, revela os limites da igualdade de genero na Suecia. A autora eventualmente recebe criticas ao seu trabalho, geralmente de homens mais velhos que, segundo ela, "nao gostam de mulheres cartunistas com opiniao forte" (17). Mas, uma grande parcela dos leitores, principalmente dos jornais, nao so aprovam como apreciam os quadrinhos feministas, prova disso e o fato de Malin Biller usufruir de uma situacao privilegiada entre os quadrinistas suecos: ela se sustenta apenas com seu trabalho com quadrinhos.

E como comecamos a falar sobre os limites da igualdade de genero na Suecia, cabe abrir aqui um parenteses para chamar a atencao para um obstaculo que as mulheres suecas ainda lutam para ultrapassar. Embora elas atualmente desfrutem de uma situacao privilegiada, se comparadas a profissionais de outros paises ocidentais, com relacao a sua participacao no mercado dos quadrinhos, ainda recebem, em muitos casos, uma remuneracao inferior a dos homens. Segundo a jornalista cultural, quadrinista e atualmente editora da Galago, Sofia Olsson, ainda existe uma grande disparidade entre o valor dos salarios pagos a homens e mulheres. (18) No entanto, esta situacao nao invalida as conquistas obtidas neste campo na ultima decada. Pelo contrario, ela tanto justifica a militancia feminista tambem atraves dos quadrinhos como alimenta a criatividade das autoras que "fazem humor".

2.3--Liv Stromquist

Liv Stromquist nasceu em Lund, em 1978. Assim como Malin Biller, comecou a fazer quadrinhos ja adulta, aos 23 anos de idade. Seu primeiro album, Hundra procent fett (Cem por cento de gordura) foi publicado em 2005. Sua formacao nao e em artes, mas em Ciencias Politicas e seus quadrinhos giram principalmente em torno de questoes sociopoliticas a partir de uma perspectiva feminista (STROMBERG, 2010: 97). Seu sucesso veio rapidamente, em 2006, com o album Einsteins fru (Esposa de Einstein). Liv Stromquist e considerada atualmente uma das quadrinistas mais influentes da Suecia (SUNDQVIST, 2015: 06).

Seus quadrinhos ja foram publicados em varios paises europeus e traduzidos para varios idiomas, tais como frances, portugues, ingles, holandes, dinamarques, alemao e finlandes. Publicar em outros paises tem sido a meta de muitos quadrinistas suecos, que costumam ter versoes em ingles dos seus trabalhos, pois o publico consumidor de quadrinhos na Suecia e pequeno se comparado a de outros paises, visto que a populacao do pais esta na casa dos 10 milhoes de habitantes. Alem disso, existe o proprio limite imposto pelo idioma, falado apenas na Suecia.

A internacionalizacao da sua obra fez com que Liv Stromquist se coloque num patamar superior aos demais quadrinistas suecos, homens e mulheres. Seu album Kunskapens frukt, originalmente publicado na Suecia em 2014, foi traduzido para o portugues e publicado em 2018 no Brasil sob o titulo A Origem do Mundo--uma historia cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado, o que a tornou a primeira mulher quadrinista sueca a publicar no Brasil. Antes dela, apenas o quadrinista Kim Andersson, em 2017, havia publicado uma historia em quadrinhos no Brasil, Alena, um quadrinho de terror cuja protagonista e uma jovem atormentada por fantasmas do passado.

A Origem do Mundo e um dos quadrinhos mais populares de Stromquist, cuja narrativa traz uma sintese da historia do patriarcado, analisado sob o prisma feminista, de forma bem humorada. E uma historia em quadrinhos que se compromete a falar sobre as relacoes de genero de forma divertida. O humor esta presente em cada pagina, seguindo uma sequencia narrativa que se divide em tres partes: a historia da vulva, a historia do orgasmo feminino e a historia da menstruacao. Liv Stromquist demonstra, baseada em uma intensa pesquisa, as formas como a sociedade tratou o corpo e o sexo das mulheres ao longo da historia.

Stromquist constroi sua critica feminista na suposicao de que e essencialmente o homem branco que escreveu a historia dominante a partir de uma perspectiva patriarcal, muitas vezes excluindo mulheres. Stromquist se esforca para apresentar outras nuances e interpretacoes do passado que desafiam ideias recebidas sobre os fundamentos da sociedade. Sua mensagem se torna convincente, pois mantem suas representacoes proximas de fatos reais (LINDBERG, 2016: 18--Traducao da autora). (19)

Sua obra e ao mesmo tempo informativa, didatica e explicitamente feminista, denunciando a dominacao masculina e a normatizacao das relacoes de genero pela sociedade patriarcal. Ela conclama as mulheres a se levantarem contra a colonizacao do seu corpo e a perderem a vergonha de ser mulher, a vergonha da vulva, da sua sexualidade. Em sua historia em quadrinhos, ela questiona comportamentos socialmente impostos e derruba mitos sobre a sexualidade e sobre o prazer sexual das mulheres. Cita exemplos da Biblia e tambem de propagandas que circulam nos meios de comunicacao, como a do uso do absorvente que, segundo ela, passa uma mensagem negativa sobre a menstruacao e o corpo da mulher. Na figura 08, podemos ver um quadrinho na qual ela denunciou o fato de que as empresas que produzem absorventes femininos sao responsaveis pela poluicao da terra e dos mares, mas dao a entender que a menstruacao e que e a verdadeira "sujeira".

A figura 08 tambem apresenta um dos recursos usados pela autora em suas obras, que e o da colagem, utilizada por muitos quadrinistas e tambem em fanzines. A tecnica da colagem e um procedimento intertextual que "nos remete a citacao, pois nela estao presentes os mesmos atos de retirada de um texto e insercao em outro" (FIGUEIREDO, 2013: 03), dando uma nova significacao ao texto introduzido. A historia em quadrinhos em si, usa tecnicas bem simples e nao se preocupa, assim como as outras autoras analisadas, com a perfeicao estetica. Em seu album, Liv Stromquist expoe contradicoes sociais e denuncia a dominacao masculina sobre o corpo e o comportamento das mulheres em seus quadrinhos e constantemente usa do termo "patriarcado" ao se referir a esta dominacao.

Consideracoes finais

Segundo a pesquisadora sueca Ylva Lindberg (2014: 85), as series de humor, invariavelmente, sao produzidas para os homens e pelos homens, sendo que as mulheres aparecem apenas como objeto do humor masculino e nao sao convidadas a participarem como sujeito ativo. Os homens marginalizam as mulheres que fazem humor e as colocam em uma categoria separada. Mas, na Suecia, esta regra nao se aplica. La as mulheres fazem humor com os homens.

Os quadrinhos de humor feministas suecos tambem demostram que as mulheres tem humor e que podem transformar temas importantes em piadas carregadas de critica social. No humor feminista, as mulheres nao apenas riem de si mesmas, mas tambem da sociedade em seu todo. Nina Hemmingsson, Malin Biller e Liv Stromquist sao alguns exemplos dessa producao, que e bem mais ampla e envolve uma geracao de mulheres, entre os 30 e 40 anos de idade, que vem inspirando os novos talentos, que enchem todos os anos as salas das escolas de quadrinhos suecas e os institutos de arte.

Se o movimento feminista, principalmente atraves dos coletivos, criou na Suecia uma legiao de mulheres empoderadas que passaram a denunciar as contradicoes de uma sociedade na qual, apesar de todos os avancos, ainda ha muito o que ser conquistado, notadamente no mercado de trabalho, no Brasil, por exemplo, tem crescido o numero de mulheres que, por meio de fanzines e historias em quadrinhos, vem combatendo o machismo e falando sobre aquilo que sempre foi considerado tabu pela sociedade: sexo, masturbacao e o proprio corpo feminino. Mulheres que estao se profissionalizando e transformando os quadrinhos em algo mais do que um mero entretenimento.

Apesar de todas as particularidades da trajetoria das mulheres suecas na cena dos quadrinhos e do proprio feminismo sueco, e impossivel negar as semelhancas entre os dilemas enfrentados pelas profissionais que atuam no mercado dos quadrinhos nos paises ocidentais. Se as suecas hoje constituem aproximadamente metade das produtoras de quadrinhos em seu pais, elas ainda precisam lutar por melhores salarios e por meios de se manterem financeiramente atuando apenas dentro de sua area. Os quadrinhos de humor suecos denunciam o patriarcalismo ainda reinante na sociedade sueca e os limites que a politica de igualdade de generos encontra naquele pais. A Suecia nao e ainda um paraiso para as mulheres, mas caminha no sentido de ampliar cada vez mais suas oportunidades e vem ganhando a batalha contra o machismo. Se ainda ha homens e mulheres que nutrem preconceitos de genero, atualmente eles sao em numero reduzido se comparado a decadas anteriores, tanto pelo papel que a educacao vem desempenhando naquele pais quanto pela vontade politica investida em acoes sociais e culturais pelo governo sueco.

E possivel verificar, no humor das tres quadrinistas analisadas, o desejo permanente de mudanca por parte de mulheres fortes e maduras que encontraram nas artes e na comunicacao nao apenas uma forma de sustento mas, sobretudo, um espaco no qual podem exercer seus direitos politicos, podem se expressar livremente e romper tabus que ha seculos estao arraigados na sociedade ocidental. O humor das mulheres e um dos caminhos para a sua libertacao.

Referencias

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FIGUEIREDO, Camila Augusta Pires de. Fazendo sentido a partir dos pedacos: a colagem em Art Spiegelman. Anais das 2- Jornadas Internacionais de Historias em quadrinhos, Escola de Comunicacoes e Artes--Universidade de Sao Paulo, ago. 2013, p. 01-15. Disponivel em: <http://www2.eca.usp.br/anais2ajornada/anais2asjornadas/ anais/5%20-%20ARTIGO%20-%20CAMILA%20AUGUSTA%20FIGUEIREDO%20 -%20HQ%20E%20ARTE.pdf>. Acesso em: 22 jul. 2018.

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Recebito: 05.07.2018

Aceito: 11.10.2018

Natania A. S. Nogueira

Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO). E-mail: nogueira.natania@gmail.com

(1) A Comic Art School localizada na cidade de Malmo e umas das mais importantes escolas voltadas para a formacao de profissionais ligados a area dos quadrinhos na Suecia. Seu corpo docente e formado por quadrinistas profissionais que ja possuem o nome consolidado na cena dos quadrinhos suecos. De la sairam artistas, editores e roteiristas que ganharam fama nacional e internacional. A escola oferece tres cursos com a duracao de um ano cada: o curso basico para a criacao de quadrinhos; um curso voltado para a producao de quadrinhos independentes; um curso voltado apenas para artistas profissionais com projetos avancados. Alem das disciplinas voltadas para a producao de quadrinhos, a escola ainda fornece orientacao aos alunos de como se inserir no mercado e promover seu trabalho.

(2) A categoria discurso e aqui tratada como "palavra em movimento, pratica de linguagem" que, segundo, Eni Olrlandi produz sentidos. (ORLANDI, 2009: p. 15).

(3) O Swedish Arts Council e um orgao do Ministerio da Cultura da Suecia, cuja tarefa e promover o desenvolvimento cultural e o acesso, com base nos objetivos da politica cultural nacional. O Conselho consegue isso alocando e monitorando o financiamento estatal, juntamente com outras atividades promocionais.

(4) "(...) the activistic collectives that are currently trying to shape the future of comics in their own way. One of the biggest is Dotterbolaget, a trans and women separatist comic collective that celebrated their 10th year anniversary last year. Their aims are to work against the patriarchal structures they think are evident in the comic world and to support the women and trans people involved in this area. They create exhibitions, hold workshops and publish fanzines and comic books"

(5) A categoria "patriarcado" e amplamente utilizada pelas autoras feministas suecas, seja nos quadrinhos, seja em boa parte da producao academica utilizada neste artigo. Ela e aqui utilizada para designar "uma formacao social em que os homens detem o poder, ou ainda, mais simplesmente, o poder e dos homens" (DELPHY, 2009: 173).

(6) "Elle se moque de tous les travers contemporains avec sa lunette feministe, non denuee d'une certe tendresse."

(7) Quadrinhos mainstream sao historias em quadrinhos tradicionalmente produzidas de forma industrial, em uma linha de producao (MAZUR, DANNER, 2014: p. 09).

(8) "By the late 1990s, the Swedish feminist zine community started to flourish and by the early 2000s zine networks started moving towards a principally national zine community with its distinctive Swedish characteristics."

(9) O termo sisterhood (sororidade) foi proposto no final dos anos 1960 pela escritora norte-americana Kate Millet, para se referir a uniao de todas as mulheres "sem fazer distincao de classes sociais ou origem etnica.

(10) Comics are now acknowledged as a legitimate literary form that has the potential to deal with issues surrounding gender inequality. In Swedish comic culture in particular, this form of entertainment has been increasingly coopted to confront to social imbalance, acting as an arena for debate and discussion

(11) Entrevista realizada pela autora com o pesquisador, historiador dos quadrinhos e jornalista Fredrick Stromberg, no dia 23 de abril de 2017.

(12) Even so, it took until the 21st century for women to fully enter the comics business and challenge the male dominance, This is of course not an insular phenomenon but a symptom of an active public debate about equality that has been going on in Swedish society for quite some time. Looking back at the forst decade of the 21st century, it is evident that female artists have dominated Swedish comics, and that there are a lot of different, interesting, thought-provoking comics being made right now.

(13) Lorsque l'on parle de l'humour en general, on parle donc en fait de l'humour des hommes. La genre masculin recoupant la genre femin, on ne prenda pas la peine, dans les divers traites abordant la philosophie de l'humour, de distinguer les publics, pas plus que de faire une separation selon les sexe des createurs: l'histoire est extremement avare en ce qui concerne les femmes humorites.

(14) O androcentrismo e a tendencia quase universal de se reduzir a raca humana ao termo "o homem". O seu oposto, relacionando-o com a mulher, designa-se por ginocentrismo.

(15) More common in Swedish feminist comics than these sexually ambivalent figures are characters that can be identified as female grotesques. The female grotesque body; naked, open, obese or deformed is a reaction against, and an alternative to, the hegemonic 'wholesome' and 'unachievable' female body as represented by consumer culture. Furthermore the female grotesque plays with the expectations of heterosexual binary gender identities; the masculine and the feminine by inverting and exaggerating them.

(16) Gordofobia significa aversao a pessoas gordas.

(17) Entrevista com a quadrinista Malin Biller, realizada no dia 02 de dezembro de 2016.

(18) Entrevista com a jornalista, editora e quadrinista Sofia Olsson, realizada em dia 03 de marco de 2017.

(19) Stromquist builds her feminist critique on the assumption that it is essentially the white man who wrote the dominant story from a patriarchal perspective, often excluding women. Stromquist strives to present other shades and interpretations of the past that challenge received ideas about the foundations of society. Her message becomes convincing since she keeps her representations close to real facts.

Caption: Figura 2--HQ retirada do livro Jag ar dim Flick van nu (Eu sou sua namorada)--Quadro 1--Tres exemplos para respostas socialmente inaceitaveis para a pergunta: Voce gosta de dancar? /Quadro 2--Sim, eu coloco meu intestino para dancar melhor do que sua horrivel ex-namorada. Nao, vamos dar uns passos de danca? /Quadro 3--Dancar? Nao exatamente. Mas se voce me der uma faca eu posso cortar meus pulsos no mesmo ritmo da musica./ Quadro 4--Sim, mas a minha especialidade e sexo oral. Tim tim! (traducao Ricardo Goncalves) [c] Nina Hemmingsson

Caption: Figura 3--HQ retirada do livro Jag ar dim Flick van nu (Eu sou sua namorada)--Oi, esta e minha esposa/--Sim. E essa e a minha axila (traducao da autora). [c] Nina Hemmingsson.

Caption: Figura 04--Tira cujo titulo e O desenvolvimento (evolucao) da mulher [c] Malin Biller.

Caption: Figura 05--A tira mostra a personagem de Biller imaginando como seria ir a um supermercado comprar "um homem" para o fim de semana:--Deveria haver um supermercado onde voce pudesse comprar um homem para o final de semana /--"Hmm ... Eu acho que vou levar dois--afinal e sexta-feira" (Traducao da autora) [c] Malin Biller.

Caption: Figura 06--Passagem do album A Origem do Mundo: uma historia cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado (Kunskapens frukt), em que a autora narra como durante os seculos XV--XVIII, durante a perseguicao as bruxas tornou-se comum examinar os orgaos genitais das mulheres em busca de marcas de bruxaria [c]Liv Stromquist.

Caption: Figura 08--Passagem do album A Origem do Mundo: uma historia cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado (Kunskapens frukt), no qual a autora faz uma critica as empresas que produzem absorventes femininos [c]Liv Stromquist
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Author:Nogueira, Natania A.S.
Publication:Revista Artemis
Date:Jul 1, 2018
Words:7704
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