Printer Friendly

A Africa na ordem internacional do seculo XXI: mudancas epidermicas ou ensaios de autonomia decisoria?

Africa in the 21th century's international order: epidermic changes or essays of decisory autonomy?

Introducao

O objetivo do presente artigo e o de suscitar novos conceitos acerca do lugar da Africa na ordem internacional que se desenha no inicio do seculo XXI. (1) Merecerao destaque as atuais formas de insercao internacional dos seus Estados nacionais, criadas de dentro para fora das soberanias africanas, bem como o envolvimento crescente de antigos e novos atores globais que participam, de forma interessada e crescente, na gestacao do futuro daquele continente. (2)

A hipotese aqui examinada e a de que o continente africano assiste transicao positiva para um novo patamar de insercao internacional no inicio do novo seculo. Tres conceitos centrais alimentam o exame dessa hipotese: a) o avanco gradual dos processos de democratizacao dos regimes politicos e a contencao dos conflitos armados; b) o crescimento economico associado a performances macroeconomicas satisfatorias e alicercadas na responsabilidade fiscal e preocupacao social; e c) a elevacao da autoconfianca das elites por meio de novas formas de renascimentos culturais e politicos.

Os argumentos centrais estao organizados em torno de quatro unidades. Na primeira apresentam-se argumentos que comprovam a elevacao do status na Africa no mundo e o paradoxo da baixa apreciacao, no Brasil, do novo lugar da Africa na sociedade internacional. Em segundo lugar, abordam-se alguns dos desafios das cinco decadas da formacao dos Estados independentes da Africa. Em terceiro lugar, tratam-se algumas visoes depreciativas e positivas disponiveis na literatura universal acerca do papel da Africa no sistema internacional contemporaneo bem como os movimentos estrategicos de grandes Estados globais no coracao do continente nos dias atuais. Em quarto avalia-se, no contexto dos paises de lingua portuguesa na Africa, a elevacao gradual de status de Mocambique, caso emblematico da elevacao da autonomia decisoria na ordem internacional em construcao no inicio do seculo XXI. A guisa de conclusao, avaliam-se iniciativas de soberania politica na Africa que nao sao tributarias de criacoes politicas e economicas de fora para dentro.

A Africa na ordem internacional do inicio do seculo XXI: conceitos enviesados e necessidade de construcao de novos parametros de analise

A ordem internacional que se desenha no seculo XXI faz do mosaico africano uma necessidade umbilical da sua configuracao. Ha uma fronteira mundial cuja linha demarcatoria esta no triangulo africano de mais de trinta milhoes de quilometros quadrados.

A Africa subsaariana, ou Africa negra, considerada a regiao mais pobre do mundo, cresce entre 5% e 6% ao ano desde 2003. (3) Adaptacoes macroeconomicas a globalizacao moveram as economias de todo o continente para equilibrios na area da gestao dos negocios dos Estados. Alvissareiras sao a inflacoes medias, contidas na faixa de 6% desde 2003, e as exportacoes que avancam, em 2006 e 2007, na proporcao de 43% a 45% do PIB. Reformas economicas liberalizantes e reducao de vulnerabilidades externas geradas por saldos exportadores e crescente atracao de investimentos externos diretos sao fatos, entre outros, celebrados como de sinalizacao de sustentabilidade economica pelos africanos e que ainda surpreendem aos elaboradores dos relatorios das agencias internacionais, como o Fundo Monetario Internacional e o Banco Mundial. (4)

Ha razoes para otimismo em todas as regioes da Africa. O ambiente anima a confianca dos mercados. Na media da Africa negra, os investimentos internos equivalem a 19,4% do PIB, percentual muito proximo do Brasil, embora considerado baixo para a sustentabilidade do crescimento economico. O vetor da elevacao do crescimento interno e visivel desde 2002 e tende a crescer nos proximos anos, mesmo ante a crise financeira que se desenha no contexto do capitalismo norte-americano. A Africa vem sendo escolhida como parte das prioridades para novas areas e carteiras de emprestimos do Banco Mundial.

Ha preocupacoes, no entanto, no campo social, que variam de pais a pais, por meio de politicas de construcao de metas de reducao da pobreza. Ha tambem a atencao dos setores financeiros em alguns paises africanos com a eventualidade de um novo ciclo de endividamento interno advindo principalmente das politicas financeiras engendradas pela politica chinesa na Africa, que tem interesse estrategico no continente para compra de petroleo, commodities agricolas e exploracao de recursos minerais.

Mas ha, sobretudo, o sentimento de que nos ultimos sete anos, justamente os primeiros do novo seculo, a Africa vem superando o drama historico das guerras intestinas e internacionais. (5) O numero de paises africanos com conflitos armados internos caiu de 13 para 5, nos ultimos seis anos, apesar da dramaticidade do caso do Darfur. (6) Os conflitos foram a mais importante causa imediata da pobreza no continente. A reducao dramatica dos mesmos faz pensar que os recursos, quase da ordem de US$ 300 bilhoes queimados nos conflitos entre 1990 e 2005, podem agora ser dirigidos as politicas de reducao da pobreza e da miseria. (7)

Ha, ao mesmo tempo, uma onda democratizante dos regimes politicos em varias partes da Africa. Mesmo os criterios duvidosos da construcao de variaveis para a taxonomia de democracia no mundo, propostos pela Freedom House, demonstram esse avanco inconteste. Um processo tardio, mas relevante, de consolidacao de instituicoes e governos na Africa com bases menos autocraticas e com algum apelo as nocoes da democracia e fato relevante para a elevacao da confianca internacional. (8)

No Brasil, a reflexao acerca dos desafios africanos e modesta e tardia. A interpretacao dominante acerca do futuro do continente e plasmada por olhares enviesados que se repetem com regularidade gritante. Meios de comunicacao insistem em apresentar uma Africa indolente e ditatorial, onde o Brasil quase nada tem a fazer. (9) Empresarios e empresas nacionais, mesmo acumulando ganhos comerciais no momento, ainda duvidam das possibilidades do agir em terreno africano de forma mais duradoura, a impulsionar a logistica que a Africa requer e que o Brasil pode bem aproveitar. (10) As escolas continuam afonicas de historias da Africa. (11) As tragedias e genocidios ganham a cor espetacular das telas televisivas enquanto as experiencias de estabilizacao e crescimento economico assim como as iniciativas politicas de reducao da pobreza e das doencas endemicas na Africa sao silenciadas.

Quando aparece a Africa no Brasil, chega enviesada e embalada por caleidoscopio de discursos intermediarios que apenas envergam a vara para a percepcao da Africa envolta nas questoes de discriminacao racial e dos preconceitos domesticos brasileiros. O prisma que vincula a reducao da reflexao da Africa contemporanea a dimensao da afro-brasilidade e interessante pois permite comunicar as Africas que existem dentro do Brasil com a diaspora e os africanos do outro lado do Atlantico Sul, porem e angulo incompleto ao esforco de entendimento dos grandes desafios da insercao africana na ordem internacional do seculo XXI.

O insuficiente acompanhamento dos debates africanos contemporaneos no Brasil conjuga-se a ausencia de significativos centros estrategicos voltados para o acompanhamento da nova corrida para a Africa. Dai a preocupacao legitima de setores responsaveis no governo e na sociedade: ha ainda um reumatismo cronico como forca impeditiva do avancar o pais na velocidade dos demais corredores na direcao do continente africano. Sem conhecimento estrategico nao ha tatica que permita avancar de forma duradoura e consistente um programa de acao do Brasil na Africa nas proximas decadas.

Em sintese, a percepcao da inteligencia africana acerca do seu proprio futuro e materia oculta, agua turva, no seio do conhecimento brasileiro hegemonico disseminado nas universidades, empresas, agencias de governo e meios de comunicacao, senao mesmo nas veias da acao pragmatica do Brasil para a Africa. A baixa apreciacao da Africa por parte da midia e de agentes sociais e economicos brasileiros, no entanto, nao corresponde a acao e a apreciacao do Executivo, mais elevada. Essa e uma area correta do governo Lula, que evoluiu nessa materia em relacao as dificuldades do governo Cardoso. (12)

Cinco decadas de independencia africana e desafios dos Estados novos: renascenca e nova partilha internacional

A Africa caminha mais celere e autoconfiante nos dias que nos cercam que o que se colhe nas manchetes dos jornais. Caminhara o continente, ao longo dos proximos anos, nas trilhas do cinquentenario da sua liberdade politica. Sao Estados novos, ainda infantes, quando comparados com as velhas democracias europeias ou os Estados latino-americanos de 200 anos. Em todo caso, o ano de 2007 trouxer valor simbolico: e o meio seculo da independencia da Costa do Ouro (Gana de hoje), a primeira da Africa Negra, liderada por N'Krumah em 1957. O ano de 2008 inaugura uma sequencia de atos e reflexoes acerca do lugar da Africa no mundo, fora e dentro do continente. As mensagens nao de algum otimismo cauteloso.

Iniciativas politicas e culturais convocam a comunidade internacional para o compartilhar do renascimento africano, embora nao mais aquele das nascentes independencias em fins dos anos 1950 e inicio da decada de 1960, povoada por rancores anti-coloniais, romantismos revolucionarios e jargoes de libertadores ingenuos. Nem e o renascimento pos-apartheid apenas, alardeado pelo governo de Pretoria, embora seu proprio renascimento nacional esteja na moldura mais ampla do que aqui chamo de renascimento africano. Tambem nao se esta falando do renascimento politico dos anos 1960 e 1970, que ja ficou para tras, nos debates recorrentes das elites africanas entre as ideias de Senghor e Cabral. (13)

A Africa nao quer remoer o passado a cata de culpados. Quer caminhar para frente. O renascimento do inicio do seculo XXI e mais altruista, evidencia uma outra forma de renascer, mais eficaz que a anterior, mais pragmatica, a fazer referencia a outras formas obliteradas de africanidade pelos discursos politicos engendrados pelas ideologias da Guerra Fria e do nacionalismo teorico e politico da primeira geracao das independencias. Ha um outro renascimento, novos consensos, com outras referencias culturais, politicas e sociais, com resultantes a serem alcancadas no mundo que vem ai.

Icones da profundidade de campo historico da Africa (para utilizar as imagens de Abdel Malek (14) e C. A. Diop) vem sendo trazidos para a discussao do futuro do continente. E este, a titulo de exemplo, o caso de Tombuctu, cidade antiquissima nas margens do Niger, que se revitaliza nos dias de hoje nao como memoria do classicismo africano, mas como lugar do presente da cultura africana e imaginacao de um devir politico soberano e altruista do continente. (15) A outra e o renascimento que bebe da historiografia de Heinrich Barth, revista na obra recente de Mamadou Diawarq, Paulo Fernando de Moraes Farias e Gerd Spittler. (16) Ou mesmo da recuperacao das obras de Ibn Haldun ou, alguns seculos depois, de Edward Blyden.

Animados por um conjunto de atividades academicas, politicas e culturais, os africanos relembram, em varias partes do continente, o soleil des independances, mas em especial passam em revista os descaminhos de varias experiencias de importacao de modelos, como as reformas estruturais conduzidas pela "genialidade liberal", os planos de reestruturacao conduzidos pelos economistas do Ocidente ou mesmo a copia em papel carbono do socialismo real e do modelo do partido unico de matriz stalinista. Passarao em revista os 53 Estados nacionais da Africa, de forma critica, nos proximos anos, a evolucao mais recente das cinco decadas de autonomia juridica, ainda que na politica apenas de forma relativa, pois necessitam preparar suas casas para uma insercao mais altaneira na ordem internacional do seculo XXI. (17)

O renascimento africano coloca aquele continente na berlinda da cena internacional contemporanea. Afinal, esta-se a falar de quase um quarto da superficie do planeta (22,5% das terras do globo), com 30 milhoes de quilometros quadrados, com 10% da populacao do mundo, mas que devera dobrar ate 2050. (18)

Senhora de recursos minerais globais, a Africa e fonte de cobica por cerca de 66% do diamante do mundo, 58% do ouro, 45% do cobalto, 17% do manganes, 15% da bauxita, 15% do zinco e 10% a 15% do petroleo. Sao aproximadamente 30 os recursos minerais do mundo que a Africa guarda em seu subsolo. Mas so participa de 2% do comercio mundial e possui apenas 1% da producao industrial global. Ha, portanto, um enorme desafio de elevacao desses itens.

Em outras palavras: cultura, poder e economia comecam a caminhar juntas e de forma mais organizada para os africanos que estao na Africa do seculo XXI, mais do que para aqueles outros que, em nome de uma Africa onde jamais pisaram ou estudaram, querem guardar, fora da Africa, nos seus paises, uma Africa imaginaria ou politizada por razoes de demandas internas e sociais de ascenso social. A Africa nao se interessa tanto por isso. Os africanos nao querem que seu continente do seculo XXI seja lido como fonte da imaginacao politica dos outros, mesmo de seus descendentes nas Americas, apenas como um lugar sagrado do passado, de dividas historicas espalhadas por todo o mundo e do dialogo global dos afro-descendentes informado da nocao da diaspora. Embora tais temas sejam relevantes, nao sao as prioridades do momento vivido pelas sociedades africanas no novo seculo.

Em meados da primeira decada do novo seculo, as amarras da velha colonizacao cedem lugar as iniciativas das liderancas africanas. Ha uma percepcao que se generaliza de crescente responsabilidade das elites domesticas com o encaminhar do futuro. O discurso da vitimizacao da historia continental e substituido por raciocinios mais pragmaticos. A ideia do aproveitamento de oportunidades ineditas abertas pela quadra historica da primeira decada do seculo XXI permeia o novo discurso interno da inteligencia africana.

Por outro lado, seria inocencia intelectual e irresponsabilidade politica imaginar que o destino africano pertence, de forma exclusiva, a esfera da autonomia decisoria de seus lideres nacionais. Ha um novo mapa africano, nao aquele desenhado pelos colonizadores de antes, mas nao menos inquietante ante a forca incontestavel de seus desenhistas. Desfilam em Abuja, Adis Abeba. Lagos, Luanda, Cartum, Pretoria, Cairo ou Maputo autoridades chinesas, norte-americanas, brasileiras, agentes de empresas multinacionais e organizacoes nao-governamentais.

Atores internacionais de toda ordem, cada vez menos as organizacoes naogovernamentais humanitarias dos paises ricos e cada vez mais atores economicos e estrategicos globais, querem dividir, com os africanos, balancos e projecoes que ja se preparam, no seio dos institutos africanos e mundiais, acerca da ultima fronteira territorial da internacionalizacao economica do capitalismo. (19)

Ha, portanto, uma relacao biunivoca, mas tambem dialetica, entre o interno e o externo. Se por um lado e desejavel que a Africa supere o drama historico do colonialismo e do atraso (lugar do discurso do renascimento africano das primeiras decadas das independencias), ha, por outro, a preocupacao de que novos arranjos entre as elites locais e internacionais nao tragam a autonomia decisoria nem o desenvolvimento sustentavel ao continente (locus do discurso do novo renascimento africano). (20) E do nigeriano Claude Ake, em seu ensaio Democracy and Development in Africa a seguinte preocupacao:
   The problem in not so much that development has failed, as that it
   was never really on the agenda in the first place. (21)


Ha o temor, por tras da internacionalizacao crescente do continente africano, de que o "carater exogeno" do Estado africano pos-colonial, como gosta de definir Carlos Lopes, (22) o sociologo onusiano nascido na Africa de lingua portuguesa -- se perpetue com novas mascaras. A preocupacao legitima do ilustre africano vai ao ponto focal: como diminuir a distancia mental e real, produzida pelos proprios governantes de grande parte dos Estados africanos modernos, entre os abismos sociais e politicos que separam ricos de pobres, elite de povo, na Africa das proximas decadas do seculo XXI?

Nota-se desde ja ate mesmo reacoes de agentes economicos, politicos e intelectuais africanos contra a logica de sua reinternacionalizacao, sob o manto de uma nova partilha africana, um novo Congresso de Berlim em curso, mantendo as formas de dominacao e estratificacao social e concentracao de poder dos Estados pos-coloniais na Africa. Esse sobressalto veio a tona recentemente por meio de varias vozes importantes da inteligencia africana como o filosofo senegales Yoro Fall. Tambem chamou a atencao Ali Mazrui, um dos mais prestigiados politologos africanos contemporaneos, que a Africa esta a busca de sua propria Doutrina Monroe, da Africa para os africanos. (23)

Para Mazrui, ate a reducao de conflitos armados internos ou que envolvem relacoes internacionais na Africa nao podem ser resolvidos por solucoes puramente exogenas, necessitam solucoes domesticas e dirigidas por novo consenso entre povo e elites locais. Provoca-nos abertamente o velho mestre da arte politica africana:
   The pursuit of Africa's peace by African themselves, however, is not
   just an extension of international peecekeeping, but rather is a
   process of Pax Africana. (24)


A Africa entre teleologia, deontologia e escatologia. A saida para um lugar alvissareiro no seio da ordem internacional do seculo XXI

A Africa e uma das regioes do mundo que, historicamente, mais esteve proxima as tentacoes de interpretacoes apaixonadas acerca das relacoes entre passado e futuro. Escrutinada sob as oticas da teleologia, da deontologia e da escatologia, as vezes simultaneamente, a Africa segue sendo um lugar para o teste da razao critica contra o monumento de preconceitos que foram erigidos pela fraca ciencia e pela opiniao desinformada.

O nivel teleologico de analise, ao animar a avaliacao das acoes por meio de suas consequencias, condenou o agir da Africa a um eterno desterro e o passado africano a mera preparacao da obra civilizatoria inconclusa do Ocidente. A consequencia dessa logica no seio da historiografia e da sociologia nacionalista africana foi obvia: todos os males de hoje adviriam, entao, de um pecado original, o do colonialismo e suas consequencias. E esse o raciocinio que amarra a reconstrucao do passado a um presente infertil, plasmado por "afro-pessimismo" que vigorou ate pouco e que ainda persegue mentes cultas e especializadas nos assuntos africanos em varios centros de estudos estrategicos no mundo, mesmo no Brasil de poucos estudos.

O nivel deontologico, ao julgar acoes conforme regras formais em funcao da distincao entre o bem e o mal, encapsulou a Africa no plano do mal, reduzindo-a a incapacidade historica das elites e do povo de constituir la sociedades burguesas civilizadas e integradas aos fluxos da economia politica global. Ha uma velha marcha hegeliana, amplamente cantada pela literatura especializada, que empurrou a Africa para o campo dos povos sem historia, de um "passado inenarravel", o qual Farias recentemente reviu. (25) A maldicao da Africa, para os ceticos, seria a impossibilidade de narrar o passado e, portanto, construir o futuro, reduzindo-a a eterna infancia. Ate o Dr. Watson, premio Nobel de medicina do inicio dos anos 60 com o tema do DNA, em pleno inicio seculo XXI, na terceira semana do mes de outubro de 2007, acaba de pronunciar, para depois desdizer, que "Africans are not so intelligent such as Westerns". (26)

A sucessao de ilogicidades, de ausencia de razao critica, herdeiras elas do discurso hegeliano, empurrou bastante a ciencia e a opiniao publica, nas ultimas decadas, ao discurso da inviabilidade da Africa. E o plano escatologico, plasmado por imagens, autores e meios da corrente afro-pessimista dos anos 1990.

Teses vem sendo utilizadas, nessas bases esquematicas, e em varias partes do mundo, na logica da "marginalidade" africana e de sua desimportancia para o quadro geral da acao externa dos Estados e das relacoes internacionais do seculo XXI.

Ledo engano. A Africa jamais foi marginal, no passado nem no presente. O conceito da marginalidade africana e insustentavel, teorica e empiricamente. Nao sao apenas os africanos que se insurgem contra essa escatologia, mas a massa de literatura atualizada acerca dos desafios africanos no xadrez da politica internacional. E Jean-Francois Bayart, como tambem depois Ian Taylor e Paul Williams, no importantissimo livro intitulado Africa in Iternational Politics: Extermal Involvment on the Continent, (27) quem abre a critica a escatologia anti-africana nos temas da politica internacional para o inicio do seculo XXI:
   More than ever, the discourse of on Africa's marginality is a non
   sense discourse. (28)


O mundo esta atento a Africa como sempre estiveram as grandes potencias e as ex-metropoles. O peso da Africa na Guerra Fria nao se circunscreveu a ser margem do sistema internacional. Sao os dois autores anteriores que nos lembram:
   Africa has never existed apart from world politics but has been
   unavoidably entangled in the ebb and flow of events and changing
   configurations of power. (...) In practice, Africa cannot enjoy 'a
   relationship" with world politics because Africa is in no sense
   extraneous to the world. The continent has in fact been
   dialectically linked, both shaping and being shaped by international
   processes and structures. (29)


O mundo esta, portanto, acompanhando com a maxima atencao a reinsercao africana na politica internacional. Records e outlooks vem sendo lancados com profecias otimistas acerca das escolhas politicas e do novo perfil de desenvolvimento social que a Africa requer. Ve-se essa tendencia desde as avaliacoes produzidos pelos Royal African Society do Reino Unido. (30)

O mais recente desses documentos e o interessantissimo trabalho, com fins estrategicos, organizado pelos colegas professores Samantha Power (da Universidade de Harvard) e Anthony Lake (da Georgetown University), em fins de 2006, ladeando o ex-secretario de Estado assistente para Africa dos Estados Unidos, Chester Crocker. Lancado em 2007 pelo afamado Council of Foreign Relations, dos Estados Unidos, nota-se perfeitamente a retomada da prioridade africana na politica externa norte-americana. (31)

More than Humanitarianism, o titulo da estrategia norte-americana fala por si, ao lancar as bases conceituais para a acao dos norte-americanos para a Africa nas proximas decadas. Pragmatismo mais do que humanitarismo, disputa por recursos minerais, ampliacao da diversificacao no campo da energia, cooperacao com os governos democraticos e ocupacao de espacos na luta contra o terrorismo sao as linhas gerais de trabalho para os proximos 20 anos dos Estadus Unidos na Africa. Querem disputar a partilha com as ex-metropoles, particularmente Inglaterra e Franca, mas sobretudo querem enfrentar a potencia do dragao oriental.

Nenhuma polaridade estatal foi tao habil na elaboracao estrategica para a Africa quanto a China do primeiro ministro Li Peng, ja nos fins da decada de 1980 e inicio dos anos 90. O marco e o dia 4 de junho de 1989, o drama da Praca da Paz Celestial e o isolamento imposto pelo Ocidente ao regime politico de Pequim. Comecava a conexao Africa-China, que tem todas as condicoes de ser a mais duradoura sobre todos os demais intentos de qualquer unidade estatal, mesmo dos Estados Unidos, de estabelecer bases de cooperacao ativa como o renascimento africano.

A estrategia chinesa e explicita: a) exportacao para a Africa do modelo chines de tratamento dos temas da agenda internacional, apresentando-se como uma representante natural dos paises em desenvolvimento; b) exportacao de bens industriais e armas e importacao de produtos primarios; c) exploracao de todas as fontes possiveis e necessarias de recursos minerais, estrategicos e de energia que garanta a sustentabilidade do crescimento economico chines. O metodo tatico para a consecucao dos objetivos e multiplo: varia dos investimentos, emprestimos e doacoes a cooperacao tecnica e tecnologica, alem de exercicio de cooptacao politica das elites africanas. O ambiente politico da cooperacao abraca o economico como parte da grande engenharia estrategica que foi elaborada, empiricamente, na base do isolamento politico do regime chines depois do evento de 4 de junho de 1989 e a solidariedade conferida por grande maioria dos governos na Africa, depois de serem cortejados com recursos chineses.

Foi o primeiro-ministro Li Peng quem coordenou toda a operacao de aproximacao com uma das poucas regioes do mundo que nao se movera contra o massacre de jovens na China: os governos africanos. Para exemplificar, a China oferecia, em 1988, apenas US$ 60 milhoes de ajuda direta a 30 paises da Africa, mas em 1990, depois do apoio dos governos africanos ao regime de Pequim, receberam tais paises a soma de US$ 374, para chegar aos volumes bilionarios dos chineses hoje na Africa. Embora predominantemente economica, a presenca chinesa na Africa origina-se da politica e seguira tendo uma forte conotacao politica e estrategica. Vejam as palavras de Li Peng, em 12 de marco de 1990, na chegada a Pequim de imensa delegacao de chefes de Estados africanos:
    A nova ordem politica internacional significa que todos os paises
    sao iguais, e devem respeitar os outros com relacao a suas
    diferencas no sistema politico e na ideologia. Eles (os paises
    capitalistas do centro e as democracias ocidentais) nao podem
    interferir os assuntos domesticos dos paises em desenvolvimento,
    especialmente avancar poder politico em nome de "direitos humanos,
    liberdade e democracia". (32)


Livros lancados recentemente dao conta da preocupacao da grande parceira comercial e politica da Africa na Europa, que e a Franca, alem de ser a maior investidora individual no conjunto da economia africana. (33) Tanto ha preocupacoes na area comercial quanto na area da cooperacao direta da China com regimes politicos na Africa que desrespeitam o capitulo dos direitos humanos. Daniela Kroslak estudou essa materia de forma mais detalhada, com enfase ao tema do envolvimento militar da Franca naquele continente. (34)

O fato objetivo e que, desde 1990, renovando-se em 2000 com a criacao do Forum de Cooperacao Africa-China, no qual 80 ministros de Estado africanos foram levados de Pequim a area industrial de Guandong em aviao para verem o colosso do crescimento industrial chines, passando pela segunda edicao, em novembro de 2006, do Forum de Cooperacao, alem da terceira visita do presidente Hu Jintao a Africa em fevereiro de 2007, a China desembarcou na Africa de forma estrutural. E dificil andar em qualquer rua comercial de qualquer pais africano que nao esteja inundada por produtos chineses. Nao ha capital na Africa sem uma obra publica imponente feita com recursos chineses. Nao ha infra-estrutura importante de aeroportos e estradas que nao tenha uma mao chinesa.

Como a epoca do desenvolvimentismo, fase na qual o Brasil praticava uma diplomacia cooperativa e nao-confrontacionista, a China dos ultimos anos buscou a Africa sem truculencia, violencia ou presuncao de superioridade, tracos da diplomacia europeia e norte-americana. O Brasil mesmo esta tentando voltar, na nova quadra historica do inicio do seculo XXI, como demonstram as prioridades da diplomacia de Amorim. (35)

Em sintese, ha uma Africa em crescente internacionalizacao e nada marginal. Ela esta no centro de uma concorrencia fortissima de interesses e interessados de todas partes do globo. Se os investimentos externos diretos crescem de forma consistente, oriundos tanto das grandes empresas financeiras e produtivas, e tambem verdade que esses investimentos estao dirigidos por certa logica de ocupacao territorial e estrategica da Africa por grandes potencias, instituicoes multilaterais e influentes grupos economicos globais ancorados em bases estatais. Nesse aspecto, o futuro estrategico do continente africano esta sendo tracado de fora para dentro.

O experimento de modernizacao, democratizacao e insercao internacional na Africa de lingua oficial portuguesa: o caso de Mocambique

Os paises de lingua portuguesa na Africa sao casos interessantes para se notar o quanto o argumento central deste artigo se comprova no campo experimental. Angola cresce seu PIB anual em torno de quase 20%, um dos maiores do mundo. Cabo Verde assiste a sua internacionalizacao crescente, mesmo nas condicoes dificeis do arquipelago. Sao Tome e Principe normalizam sua vida politica e abre as portas para os investimentos na sua plataforma petrolifera. A Guine Bissau, apesar dos problemas que passou na ultima decada da historia, assiste sopro de esperanca de normalizacao politica.

Mocambique, mais ate que os acima citados, e caso modelar de insercao internacional altaneira na ordem internacional do inicio do seculo XXI. O pais foi vistoriado de forma alvissareira nos relatorios de agencias internacionais, como o Fundo Monetario Internacional e o Banco Mundial em fins de 2006. (36) Apontam tais documentos potencialidades economicas unicas na quadra historica atual do continente africano. Rejubilam-se investidores externos e nacionais pelo bom desempenho politico e pelo equilibrio macroeconomico daquela nacao africana. As razoes para o otimismo derivam de fatos como a democratizacao em ritmo mais forte que muitos dos Estados africanos, reformas economicas liberalizantes que criaram confianca nos mercados, crescimento do PIB na ordem de 7% nos ultimos anos, inflacao domada, diminuicao da vulnerabilidade externa, reservas internacionais consideradas satisfatorias para uma economia modesta e acesso a financiamentos internacionais.

Mesmo quando nao ha comercio bilateral expressivo, Mocambique incluise crescentemente em periplos recentes de varios chefes de Estado, interessados em projecao internacional na Africa. A visita a Maputo, entre os dias 7 e 8 de fevereiro de 2007, por cerca de 24 horas, do presidente chines Hu Jintao, e fato politico com impacto na corrida ja nao mais tao secreta em favor de uma nova partilha africana. (37)

Mas o que ha com Mocambique, pobre economia africana, tao desigual na distribuicao da renda e tao modesta estrategicamente, que a faz atrair tanta atencao? Que buscam os grandes naquele Estado de lingua portuguesa, incrustado na porcao indica da Africa, de costas para o Atlantico, diferentemente de todos os demais paises que compoem, naquele continente e nas Americas, o legado complexo da expansao ultramar portuguesa?

Mocambique nao e apenas um lugar da lusofonia do outro lado da Africa ou um dos Estados de recente independencia formal, em processo tardio de consolidacao de instituicoes e da democracia. Mocambique tampouco e apenas um pais dependente economicamente e desdenhado pelas elites de Pretoria, embora saibamos que muitos sul-africanos ainda consideram o vizinho apenas sua decima provincia. (38)

Os vetores de poder agora sao outros, bastante mais poderosos e pragmaticos. Envolta na seducao crescente da China, e tambem da India, avidas por recursos minerais, estrategicos, energeticos, mas tambem de portos, de produtos agricolas e mesmo de ocupacao territorial via deslocamento de populacoes e ate mesmo pelo turismo, Mocambique esta na berlinda.

Maputo e uma das portas, com entrada facilitada na geografia mocambicana, ao "corredor turistico", como falou o presidente da China em sua recente visita ao pais. Mocambique se insere, portanto, na ocupacao de uma das ultimas fronteiras do capitalismo mundial: o continente africano. Essa partilha nao requerera um novo Congresso de Berlim. O mundo pos-Guerra Fria e mais sutil, mas nao menos pragmatico. Os chineses nao vieram apenas para o controle de recursos energeticos, minerais e estrategicos na Africa. Vieram ampliar poder de barganha no cenario internacional. (39)

Elites economicas e politicas mocambicanas nao iriam assistir, de binoculos, a novos arranjos da entente Angola-Africa do Sul sem ajustar os graus dos seus interesses na regiao. Foram a busca do seu lugar e da afirmacao de seus interesses. Estao gradualmente pavimentando seu proprio caminho. E a Copa do Mundo de Futebol de 2010 na Africa do Sul prove a imaginacao lacaniana das elites de Maputo a ideia de um renascimento mocambicano nos novos tempos da Africa.

O balanco da evolucao democratica em Mocambique e satisfatorio. Nao variou em relacao a grande maioria dos paises africanos na sua dimensao plurietnica, na preservacao do Estado territorial herdado da colonizacao bem como na baixa densidade de participacao da sociedade civil nas decisoes e no acompanhamento das politicas encaminhadas pelo aparelho de Estado. De fracas a inconclusas ou deformadas, de todas as formas ja foram metaforizadas as debeis democracias africanas. Mas o joio pode ser separado do trigo, como hoje reconhecem as proprias agencias internacionais.

A tenue democracia mocambicana e diferente no que se refere a capacidade de chegar a uma estabilidade relativamente engenhosa. Soube adaptar a vida politica nacional aos processos de internacionalizacao economica que passaram a operar no continente na ultima decada e no inicio do novo seculo sem perda de tempo. Mocambique buscou demonstrar ao mundo externo que e uma democracia moderna em formacao e que combate os excessos gerados pela corrupcao e pelo patrimonialismo. (40)

A favor das elites mocambicanas--mas naturalmente estimuladas pela inducao do governo de Pretoria--esta o fato de que lograram reconstruir o Estado, sem fragmentacoes fratricidas, sem pressao das diferencas etnicas, sem separatismos regionais e banindo sublevacoes. O espraiar de uma certa ideia de Estado vem facilitando contatos internacionais e inibindo desestabilizacoes internas, o que ja e muito para o historico da formacao do Estado no continente africano. E esse Estado mocambicano que vem permitindo o crescimento economico continuado, o incremento dos investimentos estrangeiros e das exportacoes, alem de certa constancia nos niveis de ajuda internacional. (41) Ganhou o status de "democracia eleitoral" e de pais "parcialmente livre" nas classificacoes da Freedom House de 2005. (42)

Essas avaliacoes, contudo, nao inibem a articulacao do Estado mocambicano com os novos agentes economicos internacionais e com os investimentos diversos, de fontes multiplas. O raciocinio que alimentou o processo decisorio e claro: se a pobreza e a Aids demandam programas especificos de financiamento, eles foram criados de alguma maneira, com ou sem a cooperacao internacional. Mas se os investimentos produtivos na economia em expansao podem ser feitos, devem ser feitos com os capitais de onde puderem vir. Visoes pragmaticas dominaram essa dimensao do processo decisorio do pais.

Mocambique passou a ser apresentado, em alguns foruns economicos, como especie de "tigre" africano, por lembrar o caso da Asia nas decadas de 1980 e 1990. Em 1998 foi considerada a economia que mais crescia na Africa. O pais ultrapassou, nos ultimos anos, todas as metas estabelecidas pelas instituicoes financeiras internacionais. Chama a atencao, todavia, o padrao das relacoes economicas externas mocambicanas. Segue o modelo da relacao colonial, de exportador de produtos primarios e importador de bens com alto valor agregado. Esse e um ponto de preocupacao para setores sociais e politicos do pais, embora nem sempre de sua elite governante.

Sem margem de duvida, a situacao mocambicana segue a das economias mais dinamicas da Africa. A diversificacao de parceiros internacionais, na raiz da modernizacao economica, faz de Mocambique caso no qual investidores do Sul e do Norte praticamente dividem, meio a meio, o espaco africano. Ap se avaliarem os mais importantes investidores externos em Mocambique, e tambem elucidativo o movimento global empreendido pelo pais e pelos capitais produtivos e financeiros internacionais. Ha uma preferencia, a manter certa capacidade operativa do Estado, de joint-ventures de empresas mocambicanas publicas com sul-africanas e europeias, alem das chinesas que estao aportando a Maputo e que ainda nao puderam ser mensuradas inteiramente pelos dados relativos aos tempos mais recentes.

Registre-se o fato de que Mocambique esta tambem submetido ao fenomeno da "reverse dependence", no qual as instituicoes internacionais necessitam mostrar resultados em um pais africano para mostrar ao mundo. Com pouco para barganhar, Mocambique tem o trunfo de que tais agencias, investidores e doadores necessitam de certa eficiencia e eficacia nas politicas por eles sugeridas. Resultado diverso tornaria dificil a sobrevivencia desses doadores e investidores em seus proprios paises.

A guisa de conclusao: a Africa para os africanos

Mas nao se traca o futuro da Africa apenas de fora para dentro. Os africanos estao reivindicando e construindo autonomia decisoria. Buscam solucoes nacionais para seus desafios na area social e da cidadania. O controle do Estado e sua orientacao para o crescimento economico e o desenvolvimento sustentavel sao a boa novidade no continente.

Tornaram-se os lideres africanos refratarios a nocao de "fim do Estado" e de "governanca global" vendidas para a Africa como solucao magica nos tempos de encantamento liberal generalizado, embora em menor grau do que se passou na America Latina nos anos 1990. (43) Querem falar de transicao de modelo para uma forma mais logistica de construcao do desenvolvimento, com democracia e mais inclusao social. Passaram a operar em novas bases conceituais no pos-Guerra Fria e ante a crise geral do internacionalismo liberal.

O encerramento do grande ciclo dos conflitos abertos e militarizados internos e exemplo dessa vontade politica nova de renascer e orientar as energias para projetos mais produtivos. Engajaram-se nos programas voltados para as metas do milenio e querem modificar os indicadores sociais previstos para serem alcancados em 2015. Mas o querem fazer a partir de suas realidades e possibilidades, em parceria horizontal e nao mais vertical, com os velhos e novos parceiros da Africa.

Administrar, de dentro para fora, as ambicoes internacionais geradas pela "nova partilha africana" posta em marcha pelos planos estrategicos chineses e norte-americanos, mas tambem em alguma medida do Brasil tambem, exigira dos africanos uma nocao de domesticacao, pela via do fortalecimento do Estado democratico e da responsabilidade fiscal e macroeconomica mais ampla, das tendencia malevolas que caminham juntas com a ambicao politica dos Estados fortes que se organizaram para a nova corrida para a Africa.

Ha, nesse sentido, um ambiente mais positivo. A mais importante iniciativa nesse sentido, emblematica da autoconfianca que se espraia no seio da inteligencia politica do continente, foi o lancamento da Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano (Nepad), em 2001. Ao reivindicarem a capacidade de construcao do seu futuro, as liderancas africanas estao atraindo para si a responsabilidade de superacao do grau marginal de insercao ao qual o continente foi submetido na decada de 1990. Buscar um lugar mais altivo, menos subsidiario na globalizacao assimetrica atual, e o argumento central do contorno do desenho estrategico que a Nepad significa.

A Nepad nao foi feita de fora para dentro da Africa. Nem e onirico como o Plano de Lagos de 1980 ou limitado como o Programa Africano de Recuperacao Economica de 1986. A Nepad tem carater inedito, abrangente, social e cidadao, como o Plano Marshall foi para a reedificacao da Europa depois da guerra. A metafora e util pois Nepad significa "African leadership and African ownership".

O texto de lancamento fala por si, ao situar a plataforma conceitual no qual a Nepad podera florescer:
   A Africa pos-colonial herdou Estados fracos e economia disfuncionais
   que foram agravados ainda por uma lideranca fraca, pela corrupcao e
   ma-governanca em muitos paises. Esses dois fatores, conjugados as
   divisoes causadas pela Guerra Fria, minaram o desenvolvimento de
   governos responsaveis em todo o continente. (44)


O reconhecimento de que o Estado tem um papel central no desempenho do crescimento, no desenvolvimento sustentavel e na implantacao de programas de reducao de pobreza, anotados pelos chefes de Estado na Africa de 2001 e ainda um sonho. Mas a dimensao utopica das novas vontades expressadas pelos africanos move a vida deles para uma nova agenda politica da qual a Africa nao podera mais se afastar.

O Brasil, que se lanca novamente para a Africa, por meio dos movimentos dinamicos de sua politica exterior e de uma pauta comercial de produtos diversificados e que evolui percentualmente para ja representar cerca de 6% das trocas internacionais do Brasil, tem possibilidades importantes de ocupar a brecha africana. Aproveitar a dinamica do renascimento africano e da autoconfianca que emerge la para propor dialogo de interesses mutuos e valores abrangentes para a nova geografia politica internacional e agenda convidativa para a fronteira atlantica do Brasil. Otimismo cauteloso deve guiar o Brasil pois ha sempre chance, aqui como na Africa, de reverter o ciclo de retracao e desespero em favor do avanco cidadao e da esperanca de uma Africa muito melhor ao final do seculo XXI.

Recebido em 15 de janeiro de 2008 Aprovado em 15 de junho de 2008

(1) Ha nesse topico duas linhas de interpretacao que disputam hegemonia academica acerca do novo papel da Africa no sistema internacional pos-Guerra Fria. Os que advogam em favor da adaptacao sem mudancas insistem na ideia de certa reforma epidermica, quase apenas cosmetica do continente ante os novos desafios internacionais. Ha a linha, na qual se inscreve este autor, que procura avaliar a hipotese de que ha uma oportunidade de insercao mais altaneira, menos deprimida, da Africa no sistema internacional.

(2) Pululam, na imprensa brasileira, interpretacoes catastroficas das crises politicas africanas, como aquelas advindas do Darfur, os problemas politicos advindos das eleicoes presidencias em tradicional democracia africana como a do Quenia, ou dos problemas do Zimbabue. Ver, por exemplo, as avaliacoes alarmistas produzidas nas primeiros meses de 2008 em grandes jornais nacionais: Mariana Della Barba, "Cinco anos de inferno em Darfour", O Estado de Sao Paulo, 6 de abril de 2008, p. A24; Elias Thome Saliba, "Se os crocodilos falassem... O jornalista Peter Godwin vale-se de poderosa lenda africana para analisar a tragedia do Zimbabue", O Estado de Sao Paulo, 6 de abril de 2008, p. D5. Quando nao se reproduzem, na imprensa nacional, interpretacoes de autores das exmetropoles, algumas saudosas do passado colonial, criam-se imagens de eterno e ciclico desterro das sociedades e Estados africanos contemporaneos.

(3) Segundo dados de hoje do Fundo Monetario Internacional, o PIB da regiao cresceu de 4% em 2003, para 5,7% em 2004, 5,6% em 2005, 4,8% em 2006, com previsao de crescimento em torno de 6% para 2007. O crescimento da Africa foi no periodo mencionado, portanto, na media da America Latina e superior a media brasileira.

(4) IMF & BIRD, Africa Foreign Investment Survey 2006. Washington: IMF, 2007.

(5) Um bom estudo acerca das origins e dos desdobramentos desses conflitos esta na obra de Taisier M. Ali & Robert O. Mathews, Civil Wars in Africa. Roots and Resolutions. London: Ithaca, 1999.

(6) Os conflitos na Africa foram chaga da historia recente com impacto economico incontestavel, como demonstra o Relatorio da ONG Oxfam, Iansa e Saferwood, que acaba de ser publicado: US$ 284 bilhoes foi o custo para o desenvolvimento do continente causado pelos conflitos armados entre 1990 e 2005. O curioso e que essa soma corresponde aproximadamente ao valor de toda a ajuda financeira internacional recebida pela Africa no mesmo periodo.

(7) PNUD. Relatorio do Desenvolvimento Humano, 2005 e 2006.

(8) E evidente que, como um processo historico recente, ha idas e vindas na construcao democratica dos Estados africanos contemporaneos. O caso recente do Quenia, considerada ate pouco tempo um exemplo satisfatorio de democratizacao gradual, demonstra que ha reveses, mas ha tambem negociacao e sistema de pesos e contrapesos que tornam os encaminhamentos politicos nao tao tragicos quanto aqueles pintados pelas visoes da catastrofe africana.

(9) A setima visita do presidente da Republica da Brasil, Inacio Lula da Silva, ao continente africano nos dias 15 e 19 de outubro de 2007, e momento recente e especial para ver o quanto, na grande imprensa, seguem os olhares enviesados e as atitudes de desconfianca acerca do que o Brasil pode realizar com a Africa. O desconhecimento medio de entrevistador e entrevistado e marca do que se viu nos jornais. Expressam a carencia de reflexao sofisticada no Brasil acerca do que esta ocorrendo naquele continente. Ver, por exemplo, o editorial "Diplomacia e Ditatura", Folha de Sao Paulo, 17 de outubro de 2007, bem como a entrevista, ao Correio Braziliense, do "Brazilianist" Thomas Skidmore: "Lula e um pernambucano que goza das viagens pelo mundo, e seu tour internacional o faz ter mais visibilidade que seus antecessores... A viagem a Africa e muito mais um show... O cara quer ir a todos os lugares. Algumas vezes parece que ele (Lula) deseja fugir de Brasilia e dos problemas politicos., Correio Braziliense, Skidmore critica tour presidencial, 17 de outubro de 2007, p. 24.

(10) Isso ocorre mesmo no contexto de forte expansao da presenca comercial do Brasil na Africa e da Africa no Brasil, como demonstram os dados do Ministerio do Desenvolvimento, Industria e Comercio Exterior. Apesar do crescimento, de 2002 para 2006, do fluxo comercial entre o Brasil e a Africa de US$ 5 para US$ 15,5 bilhoes, nao se percebe uma estrategia empresarial de longo prazo a cuidar para que a presenca do comercial migre para os investimentos em logisitica e sustentabilidade dessa area relevante para a diversificacao de parcerias comerciais e politicas do Brasil. Tal crescimento se da mais, para alguns analistas com meu colega Wolfgang Dopcke, pelo crescimento inercial da economia global e seus impactos no Brasil e na Africa. Mas ha que registrar-se, por exemplo, a nova linha de credito anunciado pelo BNDES para Angola, em torno de US$ 1 bilhao, na visita do presidente Lula aquele pais em 18 de outubro ultimo, como um movimento altamente favoravel a uma presenca mais induzida pelo Brasil, pelo proprio Estado nacional.

(11) A producao nacional de livros a respeito da Africa e escassa, em geral sem pesquisa in loco, alem de reproduzirem, em grande medida, visoes romanticas ou voltadas para o estudo do outro lado do Atlantico Sul apenas pela via politizada do discurso da afro-brasilidade.

(12) Ver alguns livros meus e de colegas brasileiros a respeito da politica africana do Brasil, no passado e no presente: Jose Flavio Sombra Saraiva, O lugar da Africa: a dimensao atlantica da politica exterior do Brasil. Brasilia: Editora da UnB, 1996; Jose Flavio Sombra Saraiva & Amado Luiz Cervo (orgs.), O crescimento das relacoes internacionais do Brasil. Brasilia: Instituto Brasileiro de Relacoes Internacionais, 2005; Jose Flavio Sombra Saraiva, Africa e o Brasil: o Forum de Fortaleza e o relancamento da politica africana do Brasil no governo Lula. In: Pedro Mota Coelho & Jose Flavio Sombra Saraiva (orgs.), Forum Brasil-Africa: Politica, Cooperacao e Comercio. Brasilia: Instituto Brasileiro de Relacoes Internacionais (IBRI), 2004, p. 295-307; Jose Flavio Sombra Saraiva, A politica exterior do governo Lula: o desafio africano, Revista Brasileira de Politica Internacional, 45 (2), 2002, p. 5-25.

(13) Ha 20 anos estudei aquele outro intento de renascimento africano, naquela epoca marcado pelo grande debate ideologico entre uma Africa que renascia entre acomodacoes aos padroes neocoloniais, sob o manto do conceito de negritude de Leopold Senghor, e o grito revolucionario, da luta armada como teoria de libertacao de Amilcar Cabral. Ver Jose Flavio Sombra Saraiva, Formacao da Africa Contemporanea, Sao Paulo: Editora da Unicamp/ Atual, 1987, capitulo "Renascimento cultural na Africa contemporanea", p. 6-16. Ver tambem os debates classicos propostos por Paulin J. Hountondji, Sur la "philosophie africaine". Paris: Maspero, 1980; Ola Balogun, Honorat Aguessy, Pathe Diagne, Alpha Sow, Introducao a cultura africana. Lisboa: Edicoes 70, 1977.

(14) Anouar Abel-Malek, Sociologia del imperialismo. Ciudad de Mexico: Universidad Nacional Autonoma de Mexico, 1977;

(15) Ver o texto de Paulo Fernando de Morais Farias (Centre of West African Studies, University of Birmingham, Inglaterra) preparado para o seminario preparatorio dos temas africanos para a II CNPEPI, em 2 e 3 de marco de 2007, intitulado "Tombuctu, a Africa do Sul e o idiona de renascenca africana". E Paulo Farias que lembra que "por definicao, o atual idioma da Renascenca Africana se refere tanto ao presente quanto ao passado, dentro e fora das fronteiras da Africa do Sul, o pais onde tem sido proclamado". E tambem de Paulo Farias outras duas ideias lapidares para o debate em curso: primeiro, "o papel dos cronistas de Tombuctu na invencao do esquema nao tem sido reconhecido, porque a funcao que lhes e imposta pelos discursos posteriores e outra. As cronicas passaram a ser vistas sobretudo como testemunhas de uma grandeza saheliana perdida, que simboliza o futuro a ganhar. As tensoes sociais e audacias intelectuais da Tombuctu do seculo XVII sao substituidas pela imagem de um classicismo africano estereotipado"; segundo, "todo discurso de renascenca corre o risco de mitificar o passado. Mas esse risco nao inevitavel, e subtrair-se a ele e tambem uma maneira de preservar a capacidade critica em relacao ao presente e aos caminhos para o futuro."

(16) Mamadou Diawara, Paulo Fernando de Moraes Farias et Gerd Spittler, Heinrich Barth et l'Afrique. Koln: Rudiger Koppe Verlag, 2006.

(17) Modelar o balance dos 30 anos da independencia da Africa realizado por Douglas Rimmer, em 1991, com prefacio da Princesa Diana, em nome da Royal African Society britanico. Ver Douglas Rimmer (ed.), Africa 30 Years 0n. London: James Currey, 1991. Indicava ja aquele documento do inicio dos anos 1990 que a Africa necessitaria voltar-se para si mesmo, para dentro, para sair de suas crises.

(18) Vale aqui lembrar que os mais de cerca de 600 milhoes de africanos serao, na segunda metade do seculo XXI, em torno de um bilhao de 200 milhoes de pessoas. Tomando-se em conta a grande populacao de velhos na China e o modesto crescimento vegetativo da India, a Africa, ao lado dos outros dois paises, serao as areas mais populosas do mundo no final do seculo XXI.

(19) Ver os relatorios de 2006 e 2007 do BIRD e do FMI, nos capitulos referentes as oportunidades de crescimento mais sustentavel das economias africanas para os proximos anos.

(20) Esse tema foi particularmente tratado recentemente, pela obra mais difundida acerca dos 50 anos da independencia africana pelo britanico Martin Meredith, The State of Africa: a History of Fifty Years of Independence. London: Free Press, 2006. E dele a frase:

(21) Apud Martin Meredith, op. cit., p. 688.

(22) Conversas com o colega quando esteve no Brasil como representante do PNUD e do sistema onusiano em Brasilia.

(23) Ali Mazrui alertou para esse problema na abertura da Conferencia Internacional "Democracy and Peace: Dialogue between Africa and Latin America", Jos Univerity, Ibadan University, em Abuja, 2000, conferencia a qual tive a honra de participar como membro da delegacao latino-americana.

(24) Ali Mazrui, "Foreword". Em: Ricardo R. Lauremont (ed), The causes of war and the consequences of peacekeeping in Africa. Portsmounth: Heinemann, 2002, p. xi.

(25) Paulo F. de M. Farias, " Tombuctu ..., op. cit.

(26) Conforme amplamente divulgado pelos meios de comunicacao nos dias 18 e 19 de outubro do corrente ano pelas televisoes e jornais, depois de sua desastrosa entrevista para a BBC.

(27) Ian Taylor & Paul Wiilliams (eds), Africa in International Politics: External Involvment on the Continent. London: Routledge, 2004.

(28) Idem, pagina 1.

(29) Ian Tayor & Paul Williams, op. cit., p. 1.

(30) Seguindo a tradicao dos ingleses de revisao, a cada duas ou tres decadas, de avaliacao das grande tendencias em curso na Africa. Destaca-se, por exemplo, o balanco de 1991, ja um pouco ultrapassado, mas bastante interessante pelas visoes mescladas, entre otimismo e pessimismo, acerca do futuro da Africa quanto aquele organizado pelo Royal African Society sob os auspicios do meu mestre em Birmingham, Inglaterra, Douglas Rimmer, op. cit. E de Douglas Rimmer a seguinte assertiva, produzida em 1991, e de grande atualidade para o renascimento africano: "Responsible governments, competent governments, and governments limited in their agenda to what they can usefully achieve are the second requiremente of a better future in Africa", p. 13.

(31) CFR, More than Humanitarianism: A Strategic US Approach towards Africa. Washington: Council on Foreign Relaitons, 2007.

(32) Apud Ian Taylor, "The all-weather friend? Sino-African interaction in the twenty-first century" in Ian Taylor & Paul Williams, op. cit., p. 87.

(33) Adama Gaye, Chine-Afrique: le dragon et l1autruche. Paris: L'Harmattan, 2006; Jean-Francois Susbielle, Chine-USA: la guerre programe. Paris: Ed. Generale First, 2006, capitulso "La conqete pacifique de l'Afrique", pp. 231-232; Armand Tenesso, La nouvelle destine de l'Afrique. Paris: L'Harmattan, 2006.

(34) Daniela Kroslak, France's policy towards Africa In: Ian Taylor and Paul Williams, op. cit., p. 61-82.

(35) Ver o inicio de avaliacao desse movimento do Brasil em artigo relativo a conferencia que preparei para evento anterior organizado pelo Ministerio das Relacoes Exteriores: Jose Flavio Sombra Saraiva, Mocambique em retrato 3x4: Uma pequena brecha para a politica africana do Brasil. Em: Seminario Preparatorio "Africa", para a II Conferencia Nacional de Politica Externa e Politica Internacional, 2 de marco de 2007.

(36) IMF & BIRD, Africa Foreign Investment Survey 2005. 2006.

(37) Os jornais e revistas mocambicanas e internacionais desses dias festejam ou veem com desconfianca a estrategica visita realizada, no contexto do tour do presidente chines por varios paises da regiao. Ver: Beijing Time 5/2/07; Beijing/AFP/Turkishpress.com 30/1/07; Le Monde--Economie 15/12/06; Le Monde/AFP/Reuters 30/1/07; Noticias 8/2/07; Noticias Lusofonas 5/2/07; The Guardian 31/1/07; Xinhua News Agency 9/2/07.

(38) Ver, nesse caso, o impressionante relatorio preparado pelo South African Institute or International Affairs (SAIIA), publicado em 2002, intitulado Cada continente precisa de seu Estados Unidos da America, voltado ao balanco e endosso da presenca semi-hegemonica que a Africa do Sul procura impor a Mocambique. Um trecho do documento fala por si: "Over the last 10 years, Mozambique, sometimes touted as South Africa's tenth province, has emerged as one of the most significant South Africa investment destinations on the African continent. South Africa is a leading investor in that country representing 49% of total foreign direct investment (FDI) from 1997-2002. South African companies have capitalized on Mozambique's geographical proximity to expand their reach into the continent" (p. 1) Ver GROBBELAAR, N. Every Continent Needs an America. Pretoria: SAIIA, 2002.

(39) Ver, por exemplo, os trabalhos de Scarlett Cornelissen, a respeito do avanco japones na Africa, e a impressionante radiografia de Ian Taylor concernente ao desembarque do governo de Hu Jintao na Africa: Cornelissen, S. Japan-Africa relations: patterns and prospects. In: Taylor, Ian & Williams, P. Africa in International Politics: External Involvment on the Continent. London: Routledge, 2004, pp. 116-135; Taylor, I. The 'all-weather friend'? Sino-African interaction in the twenty-first century. In Taylor, Ian & Williams, Paul, op. cit. p. 83-101.

(40) Esclarece-se, no entanto, que nao ha unanimidade entre os estudiosos da Africa contemporanea acerca dessa materia. Para alguns deles, como Docpke, o que diferencia a corrupcao mocambicana da angolana e a proporcao da economia. Haveria menos a distribuir em Mocambique que em Angola. (Entrevista com o especialista)

(41) Olsen, C. A luta continua: a formacao do Estado em Mocambique. Brasilia: MRE, Instituto Rio Branco, 2006, p. 48. (Orientador: Jose Flavio Sombra Saraiva)

(42) Ver www.freedomhouse.org.

(43) Ver, nesse aspecto, a proposicao conceitual de Amado Luiz Cervo relativa a nocao de Estado logistico, recentemente apresentado no seu novo livro: Amado L. Cervo, Insercao internacional: a formacao dos conceitos brasileiros. Sao Paulo: Editora Saraiva, 2008, parte I: "Conceitos, transicao e paradigmas", p. 7-91

(44) NEPAD, documento oficial de lancamento, 2001, paragrafo 22.

JOSE FLAVIO SOMBRA SARAIVA, Professor do Instituto de Relacoes Internacionais da Universidade de Brasilia--iREL-UnB e diretor-geral do Instituto Brasileiro de Relacoes Internacionais--IBRI (fsaraiva@unb.br).
COPYRIGHT 2008 Instituto Brasileiro de Relacoes Internacionais
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2008 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Sombra Saraiva, Jose Flavio
Publication:Revista Brasileira de Politica
Date:Jan 1, 2008
Words:9946
Previous Article:Aspectos da integracao regional em defesa no Cone Sul.
Next Article:Contextualizando a invasao a baia dos porcos.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2021 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters |