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A AGRICULTURA FAMILIAR COMO ALTERNATIVA PARA O DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL NA AMAZONIA/FAMILY AGRICULTURE AS AN ALTERNATIVE TO TERRITORIAL DEVELOPMENT IN THE AMAZON.

1. INTRODUCAO

O processo ocupacional vivenciado na regiao Amazonica de modo inicial foi um modelo predominantemente com caracteristicas exogenas, em que o processo foi sustentado a partir de elevadas taxas de investimentos do setor publico voltados para a infraestrutura da regiao. E que a curto, medio e longo prazo gerou enormes problemas e conflitos territoriais (BECKER, 2001). Esse processo alterou a estrutura fundiaria e promoveu crescente marginalizacao dos agricultores familiares, reproduzindo um padrao de desenvolvimento rural bastante excludente e desigual.

O presente texto tem como proposta contribuir com a discussao sobre o desenvolvimento territorial e a agricultura familiar na Amazonia, mediante a analise dos limites e potencialidades deste segmento produtivo. Logo visa promover uma discussao com enfase descritiva sobre novas perspectivas que ampliem o campo de atuacao das estrategias de desenvolvimento. Este estudo parte do seguinte questionamento: a agricultura familiar possui potencial para ser uma alternativa para a promocao do desenvolvimento territorial na Amazonia? A partir desta problematizacao adotouse como procedimento metodologico o levantamento bibliografico direcionado ao tema proposto, destacando as caracteristicas organizacionais e relacionais da agricultura familiar e fazendo um paralelo com conceitos chave relacionados ao desenvolvimento territorial encontrados em artigos que abordam o tema.

O texto organiza-se em quatro secoes, alem desta introducao, onde na secao seguinte (2) e exposta a nocao de Desenvolvimento Territorial e os conceitos considerados chaves para que ele ocorra. Em seguida, na secao 3, caracteriza-se a agricultura familiar de modo geral e na Amazonia. Na secao 4, dedica-se a analisar este segmento como alternativa para promocao do desenvolvimento territorial; e na ultima secao (5) sao feitas consideracoes finais em relacao a analise realizada.

2. DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL

Historicamente, o Estado utilizou para seu planejamento e acoes governamentais o conceito de regiao, inclusive para a implantacao de politicas publicas. Esta perspectiva de desenvolvimento estava intimamente relacionada com o crescimento economico, onde se fomentou a nivel federal a implantacao de grandes projetos estruturantes na regiao amazonica, com a justificativa de integrar a regiao ao restante do pais. Com isso, o governo buscou investir em producoes direcionadas ao mercado exterior e diminuicao as desigualdades espaciais, como estradas e portos.

Outro tipo de politica utilizada, a nivel estadual, foi a de atracao por novos investimentos atraves de isencoes fiscais, entre outros beneficios ofertados por nossos governantes. Estes investimentos foram feitos principalmente por parte de industrias oriundas de capital externo (multinacionais) e muitas vezes sem uma consulta a populacao, que de fato sao os que sofrem os impactos (mesmo que estes impactos nao sejam restritamente locais).

Contudo, o conceito de territorio comeca a ter maior relevancia justamente a partir da perda de espaco da abordagem regional como instrumento para o planejamento das acoes governamentais.

Segundo Vasconcellos Sobrinho (2013), o desenvolvimento regional se mostrou incapaz de apresentar resultados eficientes:
A proeminencia do conceito de territorio emergiu com o desgaste da
nocao de regiao e, mais precisamente, de desenvolvimento ou
planejamento regional que, apesar das inumeras proposicoes e modelos,
mostrou uma incapacidade de apresentar resultados de desenvolvimento
economico para o conjunto das sociedades, em particular para as
sociedades industriais tardias.


Diante desta ineficiencia, o Estado passou a agir, mediante as criticas, de outra forma e a tematica territorial ganhou forca ao longo da decada de 1990 e inicio dos anos 2000, se tornando referencia para as acoes do Estado e regulacao das politicas publicas. Como salientado por Silva (2008), varios programas surgiram no ambito do governo federal, elaborados com base em uma perspectiva territorial.

De forma diferenciada dos modelos exogenos de desenvolvimento, a visao territorial busca destacar as peculiaridades endogenas de cada local, se caracterizando por ser uma perspectiva multipla e complexa, exigindo maior capacidade de gestao para reinterpretar os espacos a partir de um novo prisma. Conforme Haesbaert (2008), esta perspectiva e distante daquela de espaco homogeneo unifuncional, como entendido pela razao dominante anterior, que percebe o espaco apenas como locus para realizacao da logica mercantil. A dimensao territorial busca resultados a partir de formas especificas de interacao social, da capacidade de protagonismo dos individuos, das empresas e das organizacoes locais em promover ligacoes dinamicas capazes de valorizar seus conhecimentos, suas tradicoes e seus ecossistemas (ABRAMOVAY, 2003).

O desenvolvimento territorial abrange maior integracao e participacao dos atores envolvidos em determinado territorio, incluindo maior organizacao social, que segundo Abramovay (1999), trata-se de acoes cooperativas coordenadas que contribuem para a conquista de educacao, saude, informacao e que promove maior confianca mutua, de forma a aumentar a eficiencia social de certa localidade.

A afirmacao da identidade de determinado territorio esta relacionada a necessidade de identificacao e valorizacao das atividades realizadas, de forma que suas potencialidades sejam desenvolvidas atraves das caracteristicas ambientais e culturais constituidas ao longo da historia daquele territorio, que se expressam no modo de vida, apropriacao da natureza e das tecnologias utilizadas para acesso aos recursos naturais (ALBAGALI, 2004).

Ao se definir o contorno territorial, deve-se entender que alem de existir aspectos fisicos e geograficos, ha tambem movimento e interacao. Para Fischer (2002), o territorio e um campo de forcas, ou seja, onde ha exercicio de poderes em diferentes escalas, que vao do micro local ao global.

A sede local da acao, onde as praticas produtivas e relacionais operam, nao necessariamente estao partindo da localidade, mas podendo estar vinculadas a operacoes de comando distantes, ou seja, em locais com relacoes globais quase sempre ha subordinacao, seja social (atraves de movimentos sociais financiados por organizacoes externas, veiculos de comunicacao, politicos, entre outros) ou ate mesmo oficializada de forma hierarquica em corporacoes instaladas (transformacoes espaciais e sociais ocasionadas por grandes empresas em pequenas organizacoes produtivas de determinadas localidades). Segundo Santos (2001), o local e o global se superpoem em cada lugar, e, num processo dialetico, tanto se associam como se dissociam.

Existem alguns fatores relevantes para melhor compreensao do conceito de desenvolvimento territorial, que em forma de acoes agregadas constituem o desenrolar teorico desta abordagem. Contudo, mesmo sendo extremamente importantes e essenciais, nenhum destes fatores isoladamente sao capazes de promover o progresso esperado, e necessario que estes fenomenos ocorram de forma conjunta para que se almeje o desenvolvimento territorial.

2.1 CAPITAL SOCIAL

O desenvolvimento vincula-se ao reconhecimento da importancia das estruturas e relacoes sociais como possivel agente intervencionista da dinamica local de forma que o capital social propicia relacoes de cooperacao que facilita as acoes coletivas geradoras de desenvolvimento territorial (ALBAGALI; BRITO, 2003). Essas estruturas relacionais sao colocadas por Abramovay (1999) como recursos, ativo de capital presente, que facilitam algumas acoes por parte de individuos participantes, tornando possivel que se alcancem objetivos que nao seriam atingidos caso nao existisse o capital social.

Conforme Fisher (2006), capital social refere-se ao conjunto de instituicoes formais e informais, incluindo habitos e normas sociais, que afetam os niveis de confianca, interacao e aprendizado em um sistema social. Este tipo de capital se mostra mais forte conforme se amplia o circulo de relacoes sociais em que vivem aqueles que participam de sua construcao, ampliando as oportunidades de escolha por parte dos individuos (SEN, 1999 apud VASCONCELLOS SOBRINHO, 2013)

2.2 GOVERNANCA

Pode-se entender a governanca como a forma de poder compartilhada entre governantes e governados, envolvendo participacao, parceria e construcao coletiva, ou seja, descentraliza o ato de governar. Genericamente, o conceito de governanca refere-se as diferentes maneiras pelas quais os individuos e instituicoes (publicas e privadas) gerenciam seus problemas comuns, acomodando interesses conflitantes ou diferenciados e realizando acoes cooperativas. E utilizado nao so em relacao a instituicoes e regimes formais de coordenacao e autoridade, mas tambem a sistemas informais (FISHER, 2006). Isto e, o desenvolvimento territorial exige novos tipos de gestao, de forma que as potencialidades endogenas do territorio ganhem destaque.

2.3 INFRAESTRUTURA

O desenvolvimento territorial alem de envolver fatores organizacionais, como o capital social e a governanca, tambem envolve fatores fisicos como a infraestrutura. Todo o territorio necessita de desenvolvimento estrutural (saneamento, energia, comunicacao, transporte, entre outros) para auxiliar na producao e acesso aos mercados, auxiliando assim na geracao de oportunidade aos mais diversos atores sociais e organizacoes estabelecidas entre eles.

2.4 EQUIDADE SOCIAL

A equidade nos remete a criacao de politicas capazes de ampliar estrategias que minimizem obstaculos, sejam eles decorrentes de questoes individuais ou sociais, trata-se de reconhecer as desigualdades para promover a justica social.

Quando se trata de desenvolvimento, se torna necessario fazer referencias a conceitos basicos como pobreza e exclusao. E fundamental que em territorios onde a desigualdade e falta de organizacao social sao latentes, o desenvolvimento parta da busca pela diminuicao da pobreza e exclusao social. E real e possivel que em um mesmo territorio haja estruturas organizacionais que gere maior inclusao social a determinadas parcelas da populacao, mas que acabe nao alcancando outras. E essencial garantir o acesso de todos a as oportunidades existentes, independentemente das peculiaridades de cada individuo e/ou grupo social.

3. AGRICULTURA FAMILIAR

A agricultura familiar se caracteriza por estabelecimentos agricolas, onde o sistema de producao e realizado pela familia, de forma que a producao normalmente e voltada para as necessidades internas do grupo familiar, seja alimentar ou por outros tipos de consumo.

Autores como Buainain, Romeiro e Guanziroli (2003) destacam a agricultura familiar como uma atividade extremamente heterogena e que vem se transformando e se adaptando conforme as necessidades da sociedade e sua capacidade de producao. As diferencas encontradas estao relacionadas com a disponibilidade de recursos, acesso ao mercado, capacidade de geracao de renda, diversificacao da producao e o territorio que estas familias estao inseridas.

No entanto, a agricultura familiar historicamente sempre foi um setor marginalizado no Brasil, ficando em segundo plano nas politicas de investimentos do governo. Nas palavras de Costa, Rimkus e Reydon (2008), tal situacao foi verificada no governo brasileiro que sempre direcionou suas acoes para a producao de bens destinados as exportacoes por apresentarem uma maior rentabilidade. Isso se mostrou nos incentivos em termos de credito, pesquisa e demais politicas governamentais restritas a grandes e medios produtores patronais ligados ao "agronegocio".

Portanto, o reconhecimento da agricultura familiar como seguimento produtivo merecedor de um ambiente institucional favoravel para o desenvolvimento de suas atividades e um fato relativamente novo na sociedade brasileira. Autores como Veiga (2001), Schneider (2003) e Sachs (2004) chegam a aponta-la como um referencial para um novo modelo de desenvolvimento.

Com a mudanca na abordagem sobre a importancia da agricultura familiar na sociedade brasileira, este segmento produtivo vem assumindo proporcoes nada despreziveis para a formulacao de um projeto de desenvolvimento no pais e passou a ser visto como fonte relevante de geracao de empregos e ocupacoes produtivas (MESQUITA; MENDES, 2012).

Segundo Abramovay (2006), a valorizacao da agricultura familiar no Brasil foi pautada em tres planos distintos, a saber:

a) Plano intelectual: onde surgiram diversas pesquisas que permitiram estratificar e capturar a heterogeneidade deste segmento no pais, bem como avaliar a sua relevancia socioeconomica;

b) Politicas publicas: intensificaram-se as acoes do governo perante politicas publicas a fim de atingir de forma mais eficiente as familias caracterizadas como de producao familiar. Pode-se destacar o PRONAF e os projetos de assentamento de reforma agraria. Estas politicas foram responsaveis por buscar gerar novas oportunidades de ocupacao e negocios para milhares de familias.

c) Plano social: a agricultura familiar corresponde a um conjunto de forcas organizadas cuja principal bandeira de luta e a afirmacao da viabilidade economica da producao familiar, e, posteriormente, sua consolidacao como seguimento importante para a economia social. Grande parte das acoes relacionadas a esses planos foram direcionadas para a Amazonia,

onde em termos politicos, a abordagem territorial se mostra presente nas acoes dos planejadores e formuladores de politicas governamentais.

3.1 AGRICULTURA FAMILIAR NA AMAZONIA LEGAL

Na Amazonia a pratica da agricultura familiar e de grande diversidade cultural, social e economica, se mostrando extremamente importante para o contexto local e ate mesmo brasileiro (HURTIENNE, 2005). Os diferentes grupos sociais do campo, como posseiros, agricultores familiares, sem-terra e suas organizacoes de representacoes, projetaram-se na cena politica e forcaram o Estado a estabelecer novas metas, criar novos programas, flexibilizar estruturas e rever orcamentos. Dessa forma, novas solidariedades foram gestadas no seio de lutas que articulavam diferentes atores sociais.

Muitos municipios da Amazonia possuem agricultores familiares em grande proporcao e, apesar da disputa crescente com produtores que migram constantemente de outras regioes (principalmente em areas de expansao da fronteira agricola), em muitos desses municipios a tradicao agricola e/ou extrativista e forte, de forma que a agricultura familiar representa a essencia da sociedade local, abastecendo o mercado e tendo influencia direta quando organizados em sindicatos, colonias de pescadores, cooperativas ou associacoes (MANESCHY; KLAVDAHL, 2007).

Na regiao Norte, o Censo Agropecuario de 2006 identificou cerca de 700 mil estabelecimentos familiares (86% do total) ocupando uma area de 25,4 milhoes de hectares (22% da area total dos estabelecimentos). Os estabelecimentos familiares na Amazonia correspondiam naquela data a 16% (dos numeros) e 32% (da area) dos estabelecimentos familiares do Brasil. Ainda revelou indicadores socioeconomicos da agricultura de base familiar na Amazonia que se mostraram maiores que os da agricultura nao familiar.

Em 2006, o valor das receitas obtidas pelos estabelecimentos agropecuarios com produtos vegetais na regiao Norte foi de R$ 3 bilhoes, sendo que desse total, a agricultura familiar participou com 60%. Em relacao as atividades agricolas e nao agricolas da regiao, a agricultura familiar se mostrou extremamente importante para a geracao de renda. Considerando toda a Amazonia Legal, os estabelecimentos familiares respondiam por 82% do total de 3 milhoes de pessoas ocupadas na atividade agropecuaria regional, sendo que no Brasil, essa proporcao em 2006 foi de 74% (IBGE, 2006).

4. AGRICULTURA FAMILIAR E O DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL

O enfoque territorial difundido nas ultimas tres decadas no Brasil trouxe reflexoes importantes sobre a necessidade de tratar o desenvolvimento, principalmente o classificado pelo governo como rural, de uma forma multissetorial. Mostrando a agricultura familiar como possivel promotora do territorio, valorizando-o pelos seus atributos culturais, ambientais, sociais, institucionais e economicos, visando compreender este nao apenas como um espaco de producao agropecuaria, mas como lugar com necessidades intrinsecas de qualidade de vida e cidadania.

4.1 A AGRICULTURA FAMILIAR COMO ALTERNATIVA AO DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL

Segundo Sachs (2003), a agricultura familiar deve ser considerada como alavanca para o desenvolvimento. Porem deve-se compreender que a agricultura familiar na Amazonia e caracterizada por possuir grande complexidade, nao apenas na sua concepcao conceitual, mas tambem pratica, portanto e preciso buscar metodologias efetivas para que haja desenvolvimento territorial a partir do que a agricultura familiar tem para oferecer. Isso engloba diversos fatores importantes, como acesso a terra, informacao, capacitacao, infraestrutura (energia, rodovias, transporte, entre outros), credito e aos mercados relacionados ao tipo de atividades desenvolvidas.

Segundo Guanziroli et al. (2009), os paises capitalistas que ostentam os melhores indicadores de desenvolvimento sao justamente aqueles que adotaram a estrategia de desenvolvimento baseado na atividade familiar e nao na patronal como ocorrera no Brasil, onde a gestao e o trabalho foram dissociados, provocando uma imensa desigualdade social.

A perspectiva territorial de desenvolvimento atraves da agricultura familiar deve ultrapassar as limitacoes apresentadas pela abordagem regional de desenvolvimento que prevaleceu durante muito tempo na Amazonia. Os atores sociais locais devem ser colocados em papel de destaque, oportunizando-os a produzirem alternativas inovadoras, mas tambem com base cultural, assim aumentando o destaque da identidade dos territorios existentes na Amazonia Legal.

Veremos a seguir as potencialidades e limitacoes que este segmento possui para fomentar o desenvolvimento territorial da Amazonia Legal.

4.1.1 Potencialidades

A agricultura familiar dinamiza as atividades territoriais, gerando oportunidades de trabalho, sistemas de producao diversificados e processos tecnologicos simples, contribuindo para a reducao do exodo rural. Alem de possibilitar atividades economicas em maior harmonia com a natureza, contribuindo para o desenvolvimento a partir da vocacao produtiva do proprio territorio (MACIEL; LIMA JUNIOR, 2011; MEDINA; BARBOSA, 2015).

A producao proveniente de unidades familiares normalmente e diversificada, tendo capacidade de participar de diversas cadeias produtivas, como madeireira, de frutas, graos, entre outros. Contudo, a atual logica de desenvolvimento na Amazonia registra pouca internalizacao de renda e verticalizacao da producao familiar, gerando concentracao de renda e limitacao dos resultados. E necessario que haja de fato consideracao pelas condicoes de producao, com base em tecnologias alternativas e apropriadas (OLIVEIRA; MELLO, 2006).

As agroindustrias estabelecidas em pequenas propriedades atraves de cooperativas de produtores tem mostrado grande potencial mercadologico, evidenciando um aumento das organizacoes sociais, que podem gerar capital social. Os principios norteadores da transformacao da agricultura familiar se alinham ao associativismo e a participacao social (ARAUJO et al., 2007), buscando alternativas fora do paradigma capitalista. Mas, para tanto, e necessario que o segmento familiar consiga articular movimentos sociais organizados capazes de enfrentar os comportamentos politicos estabelecidos, e se possivel ampliar as "redes sociais" e canais de comercializacao, para gerar emprego e renda.

Ao corroborar com a ideia de que os agricultores familiares precisam de alternativas para favorecer suas atividades politicas, economicas e sociais, ve-se a organizacao social como substrato dos empreendimentos economicos solidarios, ao criar espacos estrategicos no enfrentamento das sequelas da sociedade capitalista e ao garantir-lhes acesso a direitos sociais para seus associados e para o territorio ao qual estao inseridos (LAVILLE; FRANCA FILHO, 2004).

Nestes termos, compreende-se que as iniciativas de base economica solidaria, trabalho associado e autogestionario configuram recursos capazes de acumular forcas na transicao de um modelo socioeconomico pautado pela exploracao para um modelo circunscrito a economia dos trabalhadores livremente associados (DAL RI; VIEITEZ, 2008). Segundo Abramovay (2003), as mudancas nas relacoes com o mercado, novas articulacoes com atores politico-institucionais e aliancas com atores de fora do territorio, por exemplo, podem ser suficientes para reforcar as energias latentes existentes no territorio, de modo a deslanchar processos de desenvolvimento.

Por essas razoes, a economia solidaria tem se mostrado importante na agricultura familiar, pois favorece o acesso a bens e servicos que individualmente seria impossivel de captar. Suas acoes nascem no campo das lutas de resistencia, predominantemente, por meio de reivindicacoes de trabalhadores e trabalhadoras excluidos do mercado de trabalho e com direitos violados (REIS et al., 2015)

As politicas publicas sao importantes para diminuicao das desigualdades territoriais concebidas horizontalmente, onde criam oportunidades para que agricultores tenham acesso aos recursos que lhes permitem organizar-se a fim de buscar empoderamento. Assim, os agricultores familiares podem ter acesso a maiores direitos sociais que estimulem a solidariedade, confianca e mostre beneficios sociais que possam ser conquistados por sua valorizacao.

Programas de credito como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) e programas de mercados institucionais como o Programa de Aquisicao de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentacao Escolar (PNAE), que tem crescido de forma continuada, se mostram bastantes promissores em uma perspectiva de maior autonomia.

Alem disso, a proposta de investir no desenvolvimento territorial atraves da agricultura familiar possui outro ponto importante, os servicos ambientais que podem ser prestados pelo manejo sustentavel das florestas, e o incentivo ao turismo, que explorado de forca eficiente, pode gerar emprego e renda (CAMPANHOLA; SILVA, 2000).

4.1.2 Limitacoes

A pobreza na Amazonia e reconhecidamente um desafio para o alcance do desenvolvimento (MIRANDA et al., 2010), onde predominam a fragmentacao e desarticulacao economica e social, com isso defende-se um papel mais ativo do Estado, no sentido de promover a construcao de estrategias de desenvolvimento para o territorio. Se assim nao ocorrer, as dinamicas economicas e sociais necessarias para viabilizar o desenvolvimento endogeno do territorio serao dificilmente desencadeadas (ABRAMOVAY, 2003).

As politicas publicas com diferentes abordagens que foram criadas nas ultimas decadas trouxeram avancos significativos, aumentando expressivamente a oferta de credito rural e programas institucionais. Contudo, exige-se maior organizacao social por parte do segmento familiar, para que se criem alternativas perante os paradigmas politicos, pois somente a existencia da legislacao costuma nao assegurar totalmente os direitos. E importante que os sujeitos sociais possuam capacidades de participar de mercados e estabelecer relacoes que enriquecam a sua existencia. Isso pode contribuir para que os produtores familiares de determinado territorio se percebam como sujeitos ativos de seu proprio desenvolvimento, fortalecendo-se a partir de movimentos sociais, atraves de associacoes, cooperativas e grupos religiosos.

5. CONCLUSAO

As acoes produtivas e relacionais de determinado territorio fortalecem a identidade local, propiciando respostas positivas as influencias globais que estes sofrem. De forma que os atores locais percebam seu potencial endogeno de formular estrategias autogestionarias que visam o desenvolvimento. Com isso os efeitos esperados sao a heterogeneidade social e economica dos territorios que gerem movimentos distintos em direcao ao desenvolvimento territorial.

Diante das informacoes analisadas percebeu-se que a agricultura familiar possui potencial para ser uma alternativa para promocao do desenvolvimento territorial na Amazonia Legal, contudo com ressalvas. Ha necessidade de fortalecer as relacoes sociais, de forma que se tornem organizadas e sejam capazes de gerar capital social.

As organizacoes sociais fortalecidas produzem melhor governanca, que a partir de interacoes solidas podem direcionar as diretrizes de uma sociedade, para o seu crescimento e desenvolvimento, aumentando a capacidade de buscar solucoes e constituirem em parceria novos paradigmas para gestao e acoes em prol do bem comum. Este tipo de acao constitui um importante instrumento social capaz de promover o desenvolvimento local de forma democratica e endogena.

Na regiao o segmento familiar destaca-se por ser maioria em numero e area quando comparado aos grandes produtores. Entretanto e necessario que os agricultores tomem consciencia da sua importancia cultural, social e economica. Neste contexto, os agricultores familiares podem galgar maior destaque na sociedade, participando da tomada de decisoes a fim de criar alternativas para ultrapassar as barreiras limitrofes para um desenvolvimento diferenciado em relacao ao paradigma exogeno estabelecido na Amazonia.

Alternativas autogestionarias, como a economia solidaria, se mostram uma opcao interessante, pois mesmo que haja enfraquecimento das politicas direcionadas a agricultura familiar, este segmento da sociedade conseguira buscar alternativas que tragam melhores condicoes de vida no local onde se encontram.

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Igor Luiz Fernandes Correa (1)

Rosana Quaresma Maneschy (2)

Manuscript first received/Recebido em 18/02/2019 Manuscript accepted/Aprovado em: 22/06/2019

(1) Especialista em Gestao Ambiental e mestrando no Programa de Pos-Graduacao em Gestao de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazonia (PPGEDAM)--NUMA/UFPA. E-mail: ilfcorrea@hotmail.com

(2) Doutora em Ciencias Agrarias pela UFRA e professora do NUMA/UFPA. E-mail: romaneschy@ufpa.br

DOI - http://dx.doi.org/10.17800/2238-8893/aos.v8n1jan/jun2019p7-18
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Author:Correa, Igor Luiz Fernandes; Maneschy, Rosana Quaresma
Publication:AOS-Amazonia, Organizacoes e Sustentabilidade
Date:Jan 1, 2019
Words:5007
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