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A "cultural diplomatic machine" of the French Fourth Republic in Brazil (1946-1958)/A "maquina diplomatica cultural" da Quarta Republica Francesa no Brasil (1946-1958).

Introducao

O mes de outubro de 1945 marca, oficialmente, o fim da Terceira Republica francesa. Entretanto, aquela que ficou conhecida como 'la plus longue des republiques', inciada em 1870, termina, de fato, em 1940, a partir da instauracao da chamada Revolution nationale, chefiada pelo marechal Petain. Orgaos como o Gouvernement provisoire de la Republique francaise (GPRF) e a Assemblee consultative foram criados durante a resistencia, ao servico da estrategia do General de Gaulle. Em 1944, apos a Liberation, enfim, e necessario cobrir rapidamente o vacuo juridico e politico existente.

O impasse acaba com a instauracao da Quarta Republica, que se inicia em outubro de 1946, a partir da promulgacao de uma nova Constituicao. Muito mais efemera que a anterior, contudo, ela so vigora ate 1958.

A questao da epuration e da anistia, apos o doloroso periodo da collaboration, serao os debates mais importantes do periodo. Dois grandes fatos internacionais encontrarao intensos ecos internos na Quarta Republica, provocando tambem rupturas e tensoes: a guerra fria e a descolonizacao.

Entretanto, e uma mudanca de carater estrutural que determina todas as questoes externas e internas: a Franca, apos a defaite de junho de 1940, nao tem mais exercito, dinheiro, nem sequer 'audience international'. Liberada em 1944, reencontra os vencedores em 1945, fazendo parte inclusive do Conselho de Seguranca da ONU, como membro permanente, mas ja nao e mais uma grande potencia militar e depende no plano comercial e financeiro dos Estados Unidos. Mesmo no plano cultural, apesar do sucesso do existencialismo de Sartre e do mitico Saint-Germain-des-Pres, a Franca das Luzes e da Grande Revolucao deve concorrer doravante com dois outros modelos bem mais sedutores: o da tecnologia norte-americana e o da ideologia sovietica (BOUVIER et al. 1986, p. 261).

Sendo assim, o caminho eleito pelos lideres da Quarta Republica para restabelecer a grandeza do pais e seu lugar no concerto internacional foi o de seguir uma politica independente de Washington --pelo menos ate 1949. O General De Gaulle, figura emblematica que domina a politica nacional durante todo o periodo, mesmo quando nao exerce diretamente o poder e consciente das limitacoes francesas mas tenta, ainda que com uma boa dose de voluntarismo e "messianismo", mudar a situacao. Assim ele se posiciona, em 4 de setembro de 1945:

"Nous reprenons notre place dans le monde ... Au point de vue de l'univers, nous avons a participer, en tenant notre rang, aux difficiles reglements de la paix, a lorganisation du monde, a la cooperation internationale, faute de quoi la race des hommes irait a de nouvelles et affreuses catastrophes ..." (citado por DULPHY, 1994, p. 7)

Podemos, a partir de entao, afirmar que a politica externa da Quarta Republica significa uma ruptura total com o passado?

Segundo Jean-Baptiste Duroselle, nao ha ruptura: a Quarta Republica aplica a politica externa tradicional da Franca:

"Au total, la civilisation, traditionnellement admise en France, et surtout par la IlIeme Republique, s'incorpore a une tradition economique, a une tradition civilisatrice et "missionnaire", mais aussi et surtout a une volonte de puissance, celle de rester au premier rang. Ceci nous amene a decouvrir un autre element de la tradition de politique exterieur francaise et que lon pourrait appeler la primaute du politique sur leconomique." (DUROSELLE, 1963, p. 355)

O General De Gaulle sintetiza, em Bordeaux, em discurso proferido no dia 15 de abril de 1961, esse espirito da primazia do politico:

"La France doit remplir sa mission de nation mondiale. Nous sommes partout dans le monde. Il nest pas un coin dans le monde ou, a un certain moment, tous les hommes ne regardent pas vers nous et ne s'interrogent pour savoir ce que la France dit. Cest une grande responsabilite detre la France, puissance humaine par excellence." (citado por DUROSELLE, 1963, p. 393)

Alfred Grosser, especialista nesse periodo, concorda com essa interpretacao: o essencial da heranca gaullista "cest la volonte de refaire de la France une des grandes puissances mondiales et de lui assurer une independance sourcilleuse a legard des autres Grands". (GROSSER, 1961, p. 33). Desse modo, o primado do politico permanence, mas o peso das questoes internas e grande:

[...] "la politique exterieure a change dans sa nature sans changer dans son contenu. La continuite est assuree quant aux problemes poses. La facon de les affronter est deja determinee dans une large mesure avant que les constituants n'achevent leur tache. Mais la politique exterieur ne constituera pas, pour la IVe Republique, la seule preoccupation fondamentale. Pendant douze ans, on ne disposera plus du simplificateur que constitue une ideologie nationaliste. Parfois consideree comme une simple composante de la politique generale et meme comme un epiphenomene, la politique exterieur sera desormais inseparable des luttes ideologiques internes. Cest qui rend son etude a la fois si difficile et si prenante." (GROSSER, 1961, p. 35)

Grosser considera, ainda, a existencia de um outro fator em jogo: a transformacao do Quai d'Orsay, provocada pela mudanca do perfil de seus membros, agora em grande parte composto de "d'elements etrangers, inspecteurs des Finances, universitaires ou simples resistants" (GROSSER, 1961, p. 68), e que possuem uma mentalidade completamente diferente da dos diplomatas tradicionais. Em 1965, ao estudar nesse momento a politica exterior da Quinta Republica, Grosser reconsidera, em grande parte, suas ideias de 1961:

"En effet, a Eepoque, j'avais vu la grande difference entre le general de Gaulle des annees 1944-1946 et la IV Republique, dans le fait que, pour le General de Gaulle, la politique exterieure occupait une place dominante dans sa pensee politique globale, alors que, pour la plupart des hommes politiques de la IV Republique, les preoccupations de politique interieure dominaient. Cela donne evidemment un eclairage different a la politique exterieure. Cependant, en y reflechissant bien, peut-on vraiment dire que la IV Republique n'a pas ete marquee d'abord et essentiellement par la politique exterieure?" (GROSSER, 1965, p. 11)

Dessa forma, a politica externa figura como o grande destaque da Quarta Republica, sendo justamente os fatores externos os elementos determinantes para a mudanca de rumos. Obedecendo a essa logica, a partir do ano de 1947, os objetivos de 1944--manter o 'rang' e a seguranca em relacao a Alemanha--sao abandonados. A prioridade, doravante, sera procurar a seguranca em relacao ao Leste, mediante a prosperidade gerada pela ajuda externa. A primazia sera da Europa, com um elemento contraditorio residual: o problema do Imperio, agora Union francaise (GROSSER, 1965, p. 12).

Todos os governos apos 1947 aderem ao bloco ocidental de forma praticamente incondicional, atraves da aceitacao dos creditos do Plano Marshall, da assinatura do Pacto Atlantico em 1948, da entrada na OTAN, em 1949 e tambem do apoio aos Estados Unidos nas questoes alema e coreana (AGULHON, 1990, p. 247).

Apos a saida do General De Gaulle do poder, em janeiro de 1946, o governo do seu successor, Felix Gouian, assina os acordos "Blum-Byrnes" que, em troca do perdao de uma parte da divida de guerra e novos emprestimos do BIRD, promove a abertura do mercado para os produtos americanos, em particular os cinematograficos. Dessa forma, os produtos made in Hollywood representarao, em 1952-1953, 70% dos filmes nas salas francesas (BERSTEIN and MILZA, 1991, p. 231).

Em junho de 1948 e assinado um acordo de cooperacao franco-americano estipulando que a Franca devia garantir aos investimentos americanos o mesmo tratamento dado aos investimentos franceses, liberalizar o comercio exterior, fornecer aos Estados Unidos certas materias primas estrategicas e estabilizar a moeda.

Esses tratados provocaram um grande debate. Para os comunistas e gaulistas, essa "colonizacao" da Franca pelos Estados Unidos fora provocada pela influencia economica e financeira propiciada pelo Plano Marshall. Para outros, a alianca com os Estados Unidos foi uma escolha intencional da classe dirigente francesa em defesa das instituicoes democraticas ante o perigo comunista.

A historiografia mais recente sobre o periodo considera que nao houve por parte dos Estados Unidos pressao explicita sobre o governo frances para expulsar os ministros comunistas. Segundo Serge Berstein e Pierre Milza, nao so a expulsao dos ministros tem causas internas, ligadas a oposicao dos comunistas a politica economica e salarial, como a alianca privilegiada com os Estados Unidos e um pedido defensivo dos proprios paises da Europa ocidental apos o 'coup de Praga' e o bloqueio de Berlim por parte da URSS (BERSTEIN and MILZA, 1991, pp. 167-169).

A fidelidade "atlantica" dos dirigentes da Quarta Republica nao os impede de procurar um contrapeso para contrabalancear a influencia excessiva dos Estados Unidos na alianca ocidental. Em 1951, sob iniciativa de Robert Schuman, e criada a CECA (Comunidade Europeia do Carvao e do Aco) entre a Franca, a RFA e o Luxemburgo.

Segundo Alex McLeod (2002, p. 79), o problema central nessa conjuntura e a falta de uma definicao clara a respeito do que seria a identidade nacional francesa, o que impediria uma clara determinacao do interesse nacional e, por conseguinte, retardaria a formulacao de uma politica externa. A Quarta Republica, portanto, configura-se como um momento critico, ja que nao era possivel uma definicao consensual sobre o que seria a identidade nacional, em funcao da fragilidade dos diferentes governos, da existencia de numerosos partidos politicos, da forte oposicao ao proprio regime das profundas divergencias sobre a questao colonial.

Por outro lado, como a identidade nacional se constroi em relacao ao outro, e importante considerar a imagem que o mundo tem da Franca. A Franca, 'pivot du plan Marshall', e pilar da construcao europeia, estava no centro da alianca Atlantica. Essa alianca privilegiada entre os EstadosUnidos e a Franca e acompanhada de intensa propaganda destinada a transformar as percepcoes negativas que as opinioes publicas de ambos os paises tinham um do outro. Laurence Saint-Gilles mostra em detalhes como o governo frances, com apoio do proprio governo americano, desenvolve intensa propaganda para mudar nos Estados-Unidos a imagem do povo frances como um povo doente, corrompido, instavel, em grande parte comunista. Era necessario trocar a imagem de 'weak sister, dotada de uma economia absoleta e praticante de uma politica colonial ultrapassada, por uma Franca moderna, que mereceria ser ajudada pelo Plano Marshall (SAINT-GILLES, 2007).

A salvacao pela "maquina diplomatica cultural"

Segundo Anne Dulphy, a Franca e o unico pais europeu a pretender, apos a Segunda Guerra, conservar uma influencia planetaria, apesar de ter deixado de ser uma potencia mundial e se encontrar em manifesto declinio (DULPHY, 1994, pp. 7-8). Mas quais sao os meios concretos que a Franca, agora potencia media, possui para conservar seu prestigio?

Ela nao possui mais os meios economicos, financeiros, nem tecnologicos para impor sua dominacao, nem mesmo em regioes onde sempre tivera grande influencia, como na America Latina e na Europa central e balcanica (BOUVIER et al. 1986, p. 268). O unico elemento concreto com que ela parece contar nesse momento para tentar reconquistar sua grandeza--desejo de todos os responsaveis politicos da epoca--e seu grande imperio colonial. Praticamente intacto, ele ultrapassa os 11 milhoes de km2, ou seja, equivale a vinte vezes a superficie da metropole. Entretanto, apesar de perdurar ainda o mito da assimilacao, a Union francaise sera uma estrutura vazia, sobretudo apos a longa guerra da Indochina. A partir de 1957 a independencia das colonias e apenas uma questao de tempo. O fracasso da Quarta Republica, inclusive, esta majoritariamente ligado a questao colonial.

Para os contemporaneos, ficou claro que a cultura era a unica arma que a Franca possuia para ainda exercer alguma influencia no mundo. Na Guerra Fria, que se iniciava entre as duas superpotencias, a cultura tinha se transformado em um terreno privilegiado de enfrentamento. Os dois atos de batismo da Guerra Fria--a Doutrina Truman e o Relatorio Jdanov--colocavam as questoes culturais e ideologicas no centro das estrategias das duas superpotencias.

Robert Frank (2003) considera que, apos a Segunda Guerra Mundial, se inicia um novo periodo no qual a cultura francesa nao sera mais utilizada como instrumento imperialista para obter influencia, mas como um mero instrumento para restabelecer o prestigio da Franca, em tempos de declinio e descolonizacao. O autor divide o periodo em quatro fases, segundo as quais diferentes logicas orientaram o desenvolvimento do que ele chama de "maquina diplomatica cultural", a saber: 1a fase (1945-1956): criacao e consolidacao de novas estruturas; 2a fase (1956-1969): expansao, com uma nova orientacao (criacao, em 1956, da Direction Generale des Affaires Culturelles et techniques--DGACT); 3a fase (1970-1980): retracao/recolhimento; 4a fase (1980-1990): redefinicao dos objetivos, com orientacao para a reciprocidade.

Neste trabalho vamos nos concentrar apenas no periodo da Quarta Republica (1946-1958), portanto, entre a primeira e no inicio da segunda fase. Deve ser levado em consideracao que os esforcos serao direcionados de forma diferenciada, em funcao de interesses geopoliticos e de condicoes concretas favoraveis e que, ao contrario do que afirma Robert Frank, nem sempre a politica cultural foi apenas defensiva e nao imperialista. Robert Frank (2003, pp. 339-340) elabora uma tipologia de quatro regioes a serem atingidas, cada uma delas exigindo um tipo especifico de politica cultural:

1) democracias ocidentais ou aliados (Italia, Inglaterra, Estados-Unidos, RFA etc.), onde ja havia uma forte presenca cultural francesa;

2) paises nao democraticos ou com possibilidades de mudanca de regime (por exemplo, a Espanha franquista e a Polonia comunista);

3) novos paises surgidos da descolonizacao, em particular as antigas colonias francesas e inglesas;

4) "paises longinquos" (America do Sul, Africa do Sul).

E importante frisar novamente que a Guerra Fria, de natureza eminentemente ideologica, exacerbara as rivalidades culturais. Os Estados Unidos so partem ao "ataque" na Europa apos terem testado suas armas culturais no continente americano:

"For US cultural diplomacy Latin America became the laboratory for the development of techniques to influence foreign cultures. (...) All possibilities of cultural propaganda that were eventually implemented after the Second World War, from the exchange of scholars and artists to the direct manipulation of the media, were initially tested in Central and South America." (WAGNLEITNER, 1994, p. 51)

O principal instrumento da procura de consenso anti-comunista, complemento intelectual do European Recovery Program (ERP), sera o Congress for Cultural Freedom, apoiado e financiado pela CIA, destinado a congregar os intelectuais e artistas opositores a URSS:

"The CIA, its financial freedom ensured by the 1949 Central Intelligence Act, channelled the money to the CCF (and many of its other operations) via its remarkable network of 'dummy' philanthropic foundations and willingly 'witting' allies among the corporate elites. The CIA apparently 'adopted' about thirty of the 15,000 already existing foundations in the US for this purpose." (SCOTT-SMITH, 2002, p. 123)

Segundo o Final Report of the Select Committee to Study Governmental Operations with respect to Intelligence Activities, elaborado pelo Departamento de Estado:

"The CIA's intrusion into the foundation field in the 1960s can only be described as massive. Excluding grants from the 'Big Three'--Ford, Rockefeller, and Carnegie--of the 700 grants over $10,000 given to 164 other foundations during the period 1963-66, at least 108 involved partial or complete CIA funding." (citado por SCOTT-SMITH, 2002, p. 123)

As novas armas culturais francesas na America Latina

Bertrand Ges, inspetor geral dos Servicos de Informacao no Estrangeiro do Ministerio da Informacao, constata em 1945 que, apesar de nao existir entre a Franca e as dezoito nacoes latinoamericanas nenhum conflito, era necessaria uma politica especifica para a regiao, pelo fato dela ter se transformado numa area cobicada pelas grandes potencias. Elas utilizavam todos os meios de propaganda disponiveis, na esperanca de poder contar com o apoio desses paises durante as conferencias internacionais para reorganizar o mundo.

De fato, tudo indicava que a America Latina iria jogar um papel importante nas organizacoes internacionais. Por exemplo, na ONU ela ja congregava dois quintos dos votos e a curto prazo ela poderia significar mais de um terco dos votos. No caso particular do Brasil, que se julgava uma potencia de primeiro plano, mas injustamente afastada do concerto dos grandes, a Franca passaria a ser vista como uma aliada em potencial, em funcao de sua postura defensora das pequenas potencias.

Bertrand Ges propoe entao a criacao de uma comissao presidida pelo diretor da sub-direcao de America do Quai d'Orsay, composta por representantes dos ministerios interessados alem de personalidades qualificadas, tendo como tarefa a elaboracao e aplicacao de um Plano de Acao e de Coordenacao para a America Latina.

Nessa conjuntura critica, era claro que a estrategia de conservacao de zonas de influencia francesa no mundo deveria girar em torno da tradicional acao cultural, restando apenas definir as continuidades possiveis e as mudancas necessarias no novo contexto internacional. Uma nota do SOFE (Service des Oeuvres Francaises a VEtranger) ja afirmava isso, em novembro de 1943:

"A une epoque ou notre rayonnement politique et notre expansion economique subiront longtemps encore les consequences de notre demographie rapidement decroissante (sans meme parler de la defaite de 1940 qui en est seulement la consequence la plus visible) notre principale defense va reposer dans notre culture. Deja, dans de nombreux pays cest la seule position qu'il nous reste." (citado por SUPPO, 2000, p. 813)

Segundo esse documento, o general De Gaulle propunha inclusive uma mudanca radical nas estruturas da diplomacia cultural:

"Ayant constate l'importance de l'action a entreprendre et la faiblesse des moyens dont dispose le Departement, le General de Gaulle envisagerait denlever aux Affaires Etrangeres leurs attributions en cette matiere et de creer a l'Education Nationale une direction generale de la culture francaise a l'etranger." (citado por SUPPO, 2000, p. 813)

O Quai d'Orsay resistira a esse projeto, que reduziria sua area de atuacao, alegando que o Ministerio da Educacao Nacional nao contava com experiencia suficiente no assunto, sem contar o fato de que seria necessario muito tempo ate que a adquirisse. Por outro lado, argumentava que se corria o perigo de se confundir cultura com propaganda, como ja estava acontecendo com a Direction de Relations Intellectuels, criada pelo Comissariado da Informacao.

Finalmente, o Quai d'Orsay consegue impor seu ponto de vista e, por ordenanca no 45-675, em 13 de abril de 1945, transforma o SOFE em Direction generale des relations culturelles et des xuvres francaises a letranger (D.G.R.C.). Seu primeiro diretor sera Henri Laugier, que vinha presidindo desde o inicio do ano a Comissao criada pelo SOFE para determinar o futuro das relacoes culturais entre a Franca e a America Latina. A Comissao era, em grande parte, composta de professores, a maioria tendo ja lecionado na America Latina, como por exemplo, Emile Coornaert, Claude Levi-Strauss, Pierre Deffontaines, Paul Rivet, Emile Brehier, Emmanuel de Martonne, R. Huygues e Jacques Soustelle.

O etnologo Paul Rivet apresentara um relatorio geral resaltando que, dada a heterogeneidade cultural da America Latina, era necessaria a criacao de postos de Conselheiros Culturais especificos para cada pais ou grupo de paises. O Brasil era o unico pais que, pela sua importancia estrategica, deveria ter dois adidos culturais. Os outros so teriam um, como o Chile e a Venezuela, ou dividiriam o mesmo por grupo de dois (Argentina-Uruguai, Peru-Bolivia, Equador-Colombia, Mexico-America central). As missoes efemeras deveriam acabar e deveria ser elaborado um "programa de acao complexo" para a America Latina (SUPPO, 2000, pp. 811-812).

Nesse primeiro momento, os professores universitarios, assistidos por diplomatas, implementan a politica cultural no Quai d'Orsay. Henri Laugier, Georges Bidault, ministro das Relacoes Exteriores (de setembro de 1944 a janeiro de 1946) e Jean Maugue, sub-diretor da Direction d'Amerique, sao os tres profesores.

Como prova da importancia do novo organismo, instalado no quinto andar do predio do Ministerio, ele recebe no final dos anos 1940 mais de um terco do orcamento total do Ministerio, e entre vinte e vinte e cinco por cento na decada seguinte. Inicialmente e composto por dois setores: o Service de lenseignement, des missions scientifiques et des oeuvres francaises a letranger, congregador de maior parte dos funcionarios e de meios, e o Service des echanges culturels (1). Posteriormente, serao acrescentados o Service des echanges artistiques (em 1946), um Bureau des relations avec W.N.E.S.C.O (em 1947), e um Service des activites d'information generale sur la France a letranger (1948).

A chamada DGRC absorve todos os setores dos servicos de Informacao, que se ocupavam de questoes analogas, alem de uma grande parte das atividades da Action Artistique. Dessa forma, ela ficara responsavel pelas questoes referentes ao cinema, a propaganda em geral, a organizacao de exposicoes e aos contatos com a UNESCO--questoes que ate entao nao eram da alcada do SOFE.

O Quai d'Orsay convoca imediatamente uma Comissao interministerial para determinar o futuro das relacoes entre a Franca e a America Latina, da qual nao participam os professores que fizeram parte da comissao anterior referida. Apenas Paul Rivet, na qualidade de Deputado na Assembleia Constituinte, membro da Commission des Affaires Etrangeres e diretor do Musee de lHomme (SUPPO, 2000, pp. 814-815). 1

O "Plan d'action pour l'Amerique latine"

Como resultado do trabalho da comissao referida, um total de dezesseis reunioes (2), realizadas entre junho e novembro de 1945, surge o chamado 'Plan d'action pour l'Amerique latine', estabelecendo as diretivas gerais da politica francesa para a regiao.

Os problemas que deviam ser enfrentados eram graves, ja que, com execao de uma ou duas embaixadas, a regiao era considerada "reserva de mediocres e de inativos". No futuro, o governo deveria escolher de forma mais rigorosa seus representantes na regiao, a fim de que eles pudessem dominar todos os meios de propaganda, alem de primar pelo tato com as pessoas, uma vez que na America Latina imperam as relacoes pessoais.

O diagnostico era claro: a influencia francesa na America latina, que desde 1929 nao aumentava, diminuira no periodo da guerra. As razoes eram complexas e ligadas a fatores internos e externos a America Latina.

A nova politica cultural devia levar em conta as mudancas acontecidas no Brasil, particularmente. Os aliados tradicionais da Franca, as classes dirigentes e abastadas--tradicionalmente francofilas--em sua grande maioria tinham sido pro-Vichy, considerando-o como o unico regime capaz de acabar com a crise de autoridade herdada do Front Populaire. Elas eram agora hostis a Franca do ponto de vista politico, ainda que continuassem a consumir produtos culturais franceses tradicionais (teatro, opera, livros, moda, etc).

As novas classes em ascensao, podiam ser vistas como ignorantes do ponto de vista politico, mas comecavam, por meio do voto, a ter peso politico (base do poder de Peron e Vargas). Elas simpatizavam com a Franca de forma "espontanea", estimuladas pela instrumentacao ideologica dos lideres que idealizam as revolucoes Francesa e Russa. Entretanto, elas praticamente nao influencivaam a politica externa, exceto no caso do Mexico, por causa do enorme peso dos sindicatos. Entretanto, tudo indicava que no Brasil e no resto do continente elas representariam uma forca importante no futuro.

Nas reunioes interministeriais, ficou determinado que os verdadeiros aliados da Franca no futuro seriam os membros da classe media--intelectuais, pequenos funcionarios, pequenos comerciantes. Classe essa que estava em ascensao e que, embora nao fosse considerada francofila e ser extremamente permeavel a influencia americana, considerava a Franca como o simbolo das ideias liberais. Uma circular de 1946, do Departamento America do Quai d'Orsay, se referia a esse setor social nos seguintes termos:

"Ils esperent une France qui sera a la fois un reflet de celle de 89 et qui, en meme temps, appliquera des formules nouvelles dorganisation politique, economique et sociale. On attend quelle montre la route, quelle donne des mots dordre, quelle trouve un equilibre dans un regime qui ne soit, ni le communisme, ni le fascisme, mais une sorte de large union democratique pour la realisation de grandes reformes sociales" (citado por SUPPO, 2000, p. 819)

Os grupos de industriais e grandes comerciantes eram, em sua maioria, compostos por individuos de origem italiana, espanhola, alema ou sirio-libanesa. Filhos ou netos de imigrantes, eles nao eram francofilos.

A Franca entao se apresenta na America latina como uma especie de caminho intermediario entre os extremos, uma terceira posicao, longe do capitalismo e puritanismo anglo-saxao tanto quanto do comunismo e ateismo sovietico. O fim do Estado Novo significara, nesse sentido, o triunfo da ideias liberais que a Franca encarnava.

A questao mais importante era determinar corretamente a politica a ser seguida, e que esta desse continuidade aos dois objetivos historicos essenciais da politica francesa na regiao: influencia cultural e penetracao economica. Contudo, nesse momento o contexto e totalmente diferente, conforme afirma um documento confidencial elaborado durante as referidas reunioes:

"Apres une eclipse de cinq ans, la jeunesse americano-latine a commence a oublier la France. Elle considere souvent notre pays comme lointain, un pays de luxe, moins efficient que dautres, qui ne peut lui apporter ce dont elle a besoin pour la lutte pour la vie. La langue francaise est en declin, lenseignement francais en regression, lexportation francaise arretee; et la France peut plus difficilement pourvoir que FAmerique ou meme la Grande-Bretagne aux necessites de carriere des jeunes latino-americains." (citado por SUPPO, 2000, pp. 816-817)

Para alguns bastaria retomar a classica politica cultural e o declinio seria revertido. Por exemplo, Raymond Ronze, secretario do Groupement des Universites et grandes Ecoles de France pour les Relations avec lAmerique Latine, considera que bastaria continuar aplicando o que ele chama de 'diplomatie de l'amitie. Em 1947, apos uma viagem a America Latina, ele escreve:

[...] "en Argentine, en Uruguay comme dans tous les pays de lAmerique du Sud, on obtient peu de chose par les procedes de la diplomatie officielle. En effet, on pratique partout Fart admirable de laisser trainer indefiniment les negociations, de ne pas repondre aux questions, doublier les promesses les plus solennelles, meme ecrites. Le pire cest que le fait meme de demander lexecution dune promesse non tenue est considere comme une injure.

Dou le caractere souvent decevant de la politique officielle de ces pays. Au contraire, on peut tout obtenir par ce que j'appellerai la "diplomatie de Famitie". Les Americains-latins sont des amis tres fideles quand on sait vaincre leur defiance naturelle et le complexe d'inferiorite que certains manifestent"

(...) "Il est tres facile a une personnalite francaise traitant avec les Sud-americains a Paris dobtenir la promesse d'une fondation universitaire. Bienveillant, enthousiaste, leger, le Sud-americain--qu'il soit ministre ou recteur--s'engage facilement.

Mais avec la meme facilite et sans penser a mal il oublie ce qu'il a promis. Lui rappeler par ecrit sa promesse est le blesser profondement. Car cest lui faire constater sa legerete. Se presenter anime par lesprit juridique de lobservation des contrats, cest l'indisposer profondement, car il est hypersensible. Et on peut etre sur de nobtenir que tres peu, le plus souvent de ne rien obtenir du tout.

Au contraire, aller saluer l'ami oublie, tomber dans ses bras et, sans rien reclamer, sans meme faire trop allusion aux promesses anciennes (il est tres fin et il comprend fort bien qu'il est en faute, tout heureux que lon n'ait pas l'air de sen apercevoir) on peut obtenir de lui quelque chose de precis. Mais il faut que le negociateur benevole soit connu, aime, et dote d'un certain prestige. Il est necessaire aussi de s'armer de perseverance : il faut aller chaque annee sur place pour amener nos amis a remonter les courants adverses. Telle est la methode qu'a employee Georges Dumas avec tant de succes."

(...) "dans tous les pays de l'Amerique latine, il n'y a pas separation dans les fonctions sociales : les Ministres, les Professeurs, les ecrivains sont en meme temps des estancieros, sont cultivateurs et eleveurs, ou Avocat d'affaires, ou industriels.

L'amitie est le meilleur moyen de gagner la confiance des personnalites les plus diverses. L'ambassadeur culturel, s'il est connu et parle la langue du pays, est accueilli partout sans quon lui oppose les preventions qui paralysent le fonctionnaire d'une Ambassade etrangere." (citado por SUPPO, 2000, pp. 835 e 838)

A propaganda intelectual deveria, segundo Ronze, continuar a ser feita de forma discreta, em meio a esse novo contexto nacionalista imperante nas "Republicas latinas da America", utilizando de preferencia as universidades e os intelectuais. Em razao disso, chega mesmo a propor o nome de Paul Rivet como candidato a sucessao de Henri Laugier como diretor da D.G.R.C. Rivet teria as tres qualidades essenciais para o posto: prestigio academico; representante da Franca da Revolucao, da Resistencia e da Liberacao; militancia nacionalista.

Perdura, nesse momento, a ideia que o poder de seducao da civilizacao francesa e capaz de concorrer e mesmo eclipsar o poder da civilizacao tecnica, que os Estados Unidos e a Alemanha representam. Andre Siegfred, em sua conferencia inaugural, dos estagios de formacao dos futuros quadros administrativos do setor militar frances na Alemanha, em 1946, afirma:

"L'Allemand nous est sans doute superieur au point de vue de la civilization technique, mais nous sommes les representants de la civilisation occidentale humaniste, dont les traits caracteristiques sont: le respect de la verite philosophique, de l'individu (considere comme but) ayant droit au respect de sa dignite, de la liberte (democratie), de la tradition du christianisme et de la revolution du XVIIIe siecle. Cest ce que nous ne devons jamais oublier". (citado por PICARD, 1999, p. 45)

A estrategia da D.G.R.C. para o Brasil e centrada na assinatura de um acordo cultural. Para esse fim, em 1946, e enviado Maurice Bye, professor da Faculdade de Direito de Paris e antigo professor da USP, com o objetivo de elaborar um projeto de convencao cultural baseado no principio das vantagens da nacao mais favorecida, sob reserva de reciprocidade. Nas clausulas especiais, e previsto o reconhecimento da equivalencia entre os diplomas brasileiros de segundo grau e o baccalaureat frances, assim como os titulos universitarios. Todas as equivalencias seriam outorgadas apos realizacao de provas sobre a lingua, a literatura, a historia, a geografia, etc. de uma ou outra nacao. Num primeiro momento, o Quai d'Orsay resiste a incorporacao da clausula de nacao mais favorecida por temer provocar susceptibilidades nas relacoes culturais da Franca com outras nacoes, em particular com a Inglaterra.

Maurice Bye propoe, igualmente, uma reorganizacao dos servicos culturais franceses no Brasil. E interessante analisar os tres argumentos que ele evoca para propor a supressao do posto recem-criado de adido cultural e sua respective substituicao por um Conseil des Relations Culturelles--orgao independente da embaixada mas ligado diretamente a DGRC--, composto basicamente por universitarios.

Em primeiro lugar, seria impossivel encontrar uma pessoa com o perfil adequado, necessariamente um universitario que deveria se submeter as ordens da Embaixada. Caso ele tivesse renome, nao aceitaria perder sua independencia e, se fosse um 'universitaire de moindre envergure, nao teria reconhecida sua autoridade pelos outros colegas franceses ensinando no Brasil, nem pelas elites brasileiras, que sao 'tres sensibles au prestige intellectuel'. Por outro lado, o fato de ele aparecer como uma pessoa ao servico da embaixada tiraria legitimidade a sua acao, levantando suspeitas quanto a uma eventual manipulacao politica.

Em segundo lugar, a figura do adido cultural estava muito marcada pela sua origem totalitaria e do abuso que a Italia fez da propaganda cultural durante os anos 1930 no Brasil.

Em terceiro lugar, se por um lado Brasil, Estados Unidos e Argentina tivessem adidos culturais, era a Inglaterra--que nao o possuia--que tinha tido os maiores sucessos na sua politica cultural, gracas a sua representacao feita pelo British Council.

A proposta de criacao do Conseil des Relations Culturelles nao sera aceita por ser considerada muito independente aos olhos da diplomacia, alem de estar quase exclusivamente composta por universitarios, o que poderia nao estimular, de forma adequada, as relacoes artisticas e tecnicas consideradas agora prioritarias (SUPPO, 2000, pp. 848-853).

Finalmente, Gabrielle Mineur sera nomeada Adido Cultural e, em 1948, assinado o Acordo Cultural (3) franco-brasileiro, nas bases negociadas por Maurice Bye. Entre 1946 e 1958 a Franca assina dezesseis acordos culturais, que privilegiam duas regioes em particular: Europa, com nove acordos, e a America Latina, com cinco.

A construcao de uma nova imagem da Franca

Os temas do catolicismo e da latinidade, simbolos de afinidades e identidades em comum com a America Latina aos quais a Franca sempre esteve associada, sao delicados de instrumentalizar no contexto do pos-guerra. Isso se da em funcao dos regimes conservadores terem abusado do tema do catolicismo, assim como Mussolini e Franco o fizeram com o tema da latinidade.

Uma nova imagem da Franca deve ser construida, centrada na ideia de pais campeao da liberdade e da renovacao social, mas sem radicalismos. Um pais respeitoso e defensor da autodeterminacao dos povos americanos e que nao tem nenhuma ambicao territorial na regiao.

O Adido da Informacao da Embaixada francesa no Rio de Janeiro alerta, em 1946, para a falta de meios concretos para impor uma nova imagem da Franca:

"Elle ne peut se faire dans le vide, il faut des livres, des bateaux, des avions. Le Bresil est sature de conferenciers, il attend des machines, des articles de Paris, un avion qui passe, un navire qui fait escale, assure une meilleure propagande que cent mille articles. Ces derniers ne sont possibles que si des preuves tangibles de lexistence et du redressement de la France viennent appuyer nos dires." (citado por SUPPO, 2000, pp. 822-823)

A evolucao da situacao politica interior da Franca desmente a nova imagem que se quer veicular, e acaba dividindo a opiniao publica brasileira. As classes dominantes, assim como a pequena burguesia e os funcionarios, estao inquietos pela radicalizacao. Sao os leitores dos jornais Correio da Manha, Jornal do Comercio e Jornal do Brasil. Uma outra parte da opiniao publica, ao contrario, olha com simpatia essa Franca revolucionaria, aliada contra o imperialismo ianque. Estes sao os leitores dos jornais Diretrizes e Tribuna Popular.

A questao do colonialismo frances e um problema que poderia prejudicar o processo de criacao da nova imagem, sobretudo porque as comunidades sirias e libanesas sao numerosas, influentes e organizadas no Brasil. A embaixada adota uma estrategia particular, adaptada as caracteristicas do Brasil. Em dezembro de 1951, Gilbert Arvengas, o embaixador frances no Rio de Janeiro, a define nesses termos:

"Il nexiste pas au Bresil dopinion publique proprement dite, mais plutot un cercle restreint d'inities entre qui se traitent les affaires politiques et economiques, il semble que les moyens les plus propres a combattre le courant anticolonialiste soient differents de ceux dont lemploi est envisage dans un pays democratique comme les Etats-Unis.

Des brochures ou des films qui retraceraient de maniere frappante les progres dordre social, mais surtout et fatalement les progres dordre economique, accomplis sous notre impulsion par tel territoire colonial, risqueraient de constituer des armes a double tranchant, en fournissant un aliment a la crainte et a la jalousie qui constituent actuellement les moteurs de l'anticolonialisme bresilien.

Par contre, l'Ambassade na eu qua se louer des procedes quelle a utilises jusqua present pour orienter dans le sens le plus favorable a nos interets les publicistes ou les hommes d'affaires qui lui ont paru les mieux disposes a legard de l'reuvre francaise d'Outremer. Cest ainsi qu'a pu etre tire le meilleur parti des voyages effectues au Maroc en 1950 par M. Assis Chateaubriand et tout recemment en Afrique du Nord par le senateur Apolonio Salles". [...] "Nous disposons enfin dans la presse la plus serieuse de Rio de Janeiro d'un certain nombre de tribunes, grace a des publicistes comme MM. Costa Rego (6) et Colaco (7), qui entretiennent les meilleures relations avec l'Ambassade et font preuve a legard des problemes coloniaux, et notamment de la question marocaine, d'une objectivite qui, loin de se dementir au cours de la recente crise, leur a inspire au contraire, des articles extremement courageux et utiles" [...]

"Lequilibre ainsi obtenu parait stable, puisqu'aucune voix discordante ne sest faite entendre sur ce sujet brulant depuis louverture des travaux de l'ONU. Je craindrais qu'il ne fut compromis, si Ton voulait interesser au debat une opinion publique qui sest montree jusqu'a present parfaitement amorphe et que des esprits mal intentionnes pourraient, a leur tour, tenter de mobiliser, en vue de forcer la main aux cercles officiels et aux journalistes serieux dont l'attitude nous donne actuellement pleine satisfaction." (citado por SUPPO, 2000, pp.824-825)

Da tentacao anti-americana a americanizacao?

Paradoxalmente, a Franca, que comecava a ser vitima dos nacionalismos no Oriente Proximo, encontra na America latina um lugar onde ela pode se beneficiar, em grande medida, das reacoes nacionalistas contra a crescente influencia dos Estados Unidos na regiao. Pode-se dizer que a America Latina e a unica regiao no mundo onde o nacionalismo crescente joga a favor da Franca.

Contudo, conforme ja fora assinalado, e vital para a Franca manter relacoes cordiais com os Estados Unidos durante a Guerra Fria. A estrategia consistira, entao, em tentar convencer os americanos de que a influencia francesa nao representava para seus interesses nenhum perigo, ja que ela defendia os mesmos valores e, portanto, nao seria uma concorrente. Entretanto, Bertrand Ges, Inspetor para America Latina do Ministerio da Informacao, alertava ja em 1945, durante as reunioes interministeriais, que os Estados Unidos deixariam a Franca agir livremente na area do teatro, da literatura mas jamais nos setores das ciencias e da pedagogia (SUPPO, 2000, p. 826).

Nesse novo contexto a Franca deve enfrentar tambem a concorrencia da Inglaterra, que conta com o British Council, um instrumento de penetracao cultural bastante ativo. A Italia e a Alemanha, momentaneamente ausentes, iriam se transformar num futuro proximo concorrentes importantes pois possuiam colonias importantes.

Uma nota interna da D.G.R.C. alerta, em 1957:

"La primaute de la France dans le domaine artistique est loin de pouvoir etre consideree comme une position acquise. Non seulement, elle a besoin detre reaffirmee en toute occasion mais elle doit etre defendue contre une attaque concertee venant de nombreux pays etrangers qui veulent prouver quen fait la France nest plus le principal representant ni de la culture latine, ni de la peinture contemporaine". (citada por PICARD, 1999, p. 146)

O dominio dos Estados Unidos se estende tambem ao plano cultural de uma forma avassaladora. Etienne de Croy, Encarregado de Assuntos franceses no Brasil, resume, em 1946, muito bem a nova situacao:

[...] "en matiere economique, la position americaine d'apparence inexpugnable, est en realite fragile et menacee. Dans le domaine culturel, au contraire, l'inverse se produit et les resultats atteints par les Etats-Unis au cours de la guerre, quoique moins apparents et moins vantes, sont beaucoup plus reels et durables." [...] "Bien que la vielle generation et certaines elites nous restent fideles, la majorite des jeunes sest laissee eblouir par les laboratoires, la bombe atomique, l'avion-fusee et le frigidaire. Elle manifeste un gout de la civilisation materielle et du confort standardise, un sens de la performance et de la realisation technique qui sexercent souvent au depens de lesprit, du sens critique et du sens esthetique. "Lamericanisme" essaime.

Il y a lieu de noter ce fait en passant car il s'agit d'un phenomene durable. Nous devons tenir compte pour l'avenir de notre action dans ce pays que notre influence culturelle ne saurait plus etre separee desormais d'une reelle capacite de realisation technique destinee a en demontrer la valeur." (citado por SUPPO, 2000, pp. 827-828)

Desta forma, fica claro que uma presenca economica e tecnica francesa fragil provocaria, inevitavelmente, posicoes culturais igualmente frageis.

Em 1956, a crise de Suez, a ultima manifestacao da "politica da canhoneira" praticada pelas potencias europeias desde o seculo XIX, e as independencias do Marrocos e da Tunisia acabam definitivamente com as ilusoes sobre a Franca como grande potencia. A Franca era, de fato:

"une puissance moyenne don't l'autonomie se trouvait limitee par le jeu des deux Grands, et notamment par le droit de regard exerce sur la politique etrangere par les dirigeants de Whashington." (BERSTEIN and MILZA, 1991, p. 188)

Essa constatacao tera consequencias no plano interno, como a queda da Quarta Republica, e externo, como o relancar o projeto de construcao europeu, que culmina com a assinatura dos Tratados de Roma, em 1957.

A DGRC se transforma, em 1956, em Direction generale des affaires culturelles et techniques (DGACT), e cria um novo setor destinado ao terceiro mundo, focado sobretudo nas antigas colonias e protetorados (Marrocos, Tunicia e Indochina). A incorporacao da palavra techniques, assinala o interesse em dar uma nova dimensao a diplomacia cultural, mas os esforcos na area sao modestos --o essencial e destinado a difusao da lingua e da cultura francesas.

Entretanto, progressivamente o novo setor adquire importancia (PICARD, 1999, pp. 133-138). O Conselho de Ministros cria, em julho de 1957, uma comissao interministerial com o objetivo de elaborar um plano quinquenal, fixando as areas de expansao prioritarias e as modalidades de reconversao das atividades culturais e tecnicas francesas no exterior. A Comisao, presidida por Roger Seydoux, directeur da DGACT, e integrada por representantes dos diversos ministerios (8) e especialistas ligados a questao do livro, do ensino tecnico, da recepcao de estrangeiros, etc. Tres objetivos sao fixados: 1- aumentar todo tipo de exportacao; 2- aumentar a influencia francesa nas regioes onde nao era mais possivel estar presente (por exemplo, a Tunisia); 3- integrar essas duas acoes na nova Europa em formacao. A estrategia estava baseada em dois pilares: seduzir as elites estrangeiras com a modernidade francesa, entendida como ciencia e tecnica, e tornar as acoes mais amplas, efetivas e racionais. O meio de acao proposto era a criacao de um Service de la cooperation internationale.

Ao fim de dez meses de trabalho, em setembro de 1858--um dos nos ultimos meses da Quarta Republica--o comite de altos funcionarios apresenta finalmente ao Conselho de Ministros, apos importantes embates entre "modernizadores" e "tradicionalistas", um vasto Programme dexpansion et de reconversion des activites culturelles de la France a letranger, no qual a orientacao tradicional de centrar as atividades na cultura tradicional, tais como na area de Belas Artes e Literatura, e abandonada. Ha consenso sobre a ideia de que 'si nous ne progressons pas, nous abandonnerons notre place a nos concurrents'. Tres prioridades sao entao fixadas: 1-modernizar os metodos e meios de difusao; 2- aumentar o numero de professores de frances estrangeiros; 3- aumentar os intercambios cientificos e a cooperacao tecnica. O plano quinquenal de expansao das atividades culturais da Franca no mundo da enfase ao plano cientifico e tecnico e privilegia tres regioes: Europa, Medio Oriente e America Latina.

O governo apoiara as novas diretrizes do Plan quinquennal dexpansion, em 1961 e a cooperacao tecnica representara 41% do total do orcamento da Direcao. Entretanto, a mudanca de orientacao e lenta, nesse mesmo ano a parte do enseignement et les oeuvres e de cinquenta e sete por cento.

Conclusao

Algumas semanas antes de ser eleito Presidente, com setenta e sete por cento dos votos, o General De Gaulle afirma, em discurso em Paris, no dia 02/12/1958:

"Parce la France a vocation a defendre les valeurs qui fondent la civilization, le monde ne peut se passer delle. Des lors la politique culturelle de la France nest ni conjoncturelle, ni aleatoire. Elle correspond au role que la France doit jouer dans le monde. Elle exprime son etre profond." (citado por SAINT-GILLES, 2007, p. 238).

Outro periodo se inicia, dando continuidade a fase decisive, compreendida entre 1947 e 1958. A Quinta Republica pode ser considerada a era das consolidacoes, ja que uma nova politica cultural e instaurada, significando o triunfo da chamada "autonomia do cultural", com a criacao, em 1959, de um ministerio especifico, o Ministerio dos Assuntos Culturais. Desse modo, a Quarta Republica foi a incubadora das grandes mudancas da identidade cultural da Franca, e que tera repercusoes fundamentais na sua diplomacia cultural, com o progressivo abandono da orientacao seguida desde o final do seculo XIX.

Andre Malraux, nomeado ministro da Cultura, segundo o decreto de criacao do novo ministerio, ficaria encarregado, tambem, da expansion e do rayonnement de la culture francaise no exterior.

Os choques de competencia com o Quai d'Orsay sao mais uma vez inevitaveis, sobretudo apos a elaboracao do citado Plan quinquennal dexpansion de l'action culturelle francaise a letranger. Andre Malraux nao esconde seu desejo de unificar no seu ministerio a acao cultural externa e interna, relegando a DGRCST ao papel de simples gestionaria. Michel Debre, Primeiro Ministro do primeiro governo da Quinta Republica, coloca um fim ao conflito:

"Je n'ai pas voulu ceder a sa demande [celle de Malraux] de lui confier la direction des Affaires culturelles qui demeure au Quai d'Orsay, car il me parait indispensable de conserver l'unite de notre action a letranger. Son genie n'a pas besoin de ces services pour affirmer la presence culturelle de la France hors de nos frontieres ! Cependant, a ses yeux, cest une ombre au tableau et Malraux, sans men faire ouvertement le reproche, y sera sensible" (citado por PICARD, 1999, pp. 38-39)

Esta decisao confirma entao a DGRCST como a instituicao praticamente possuidora do monopolio da politica cultural no exterior. Apenas a AFAA--Association Francaise d'Action Artistique--sera controlada pelas duas administracoes, nao sem provocar alguns atritos de competencia.

A maquina diplomatica recupera e modifica paulatinamente seus instrumentos tradicionais, inclusive ao nivel dos responsaveis do setor cultural. Henri Laugier e Louis Joxe, os dois primeiros diretores no pos-guerra, apresentavam ainda um perfil de continuidade com a Terceira Republica -intelectuais integrados no sistema politico--, acrescentado da legitimidade de terem sido membros da Resistance. Os seguintes, Jacques de Bourbon-Busset e Roger Seydoux sao quadros do proprio Quai d'Orsay.

Em 1969, e criada a Direction Generale des Relations Culturelles, Scientifiques et Techniques (DGRCST), sem que isto signifique uma verdadeira modificacao no seu organograma. Trata-se, sobretudo, do desejo de assinalar que a dimensao cientifica da cooperacao era integrada definitivamente.

A America Latina, e principalmente o Brasil, tinha sofrido uma profunda mutacao e, sendo assim, esses novos tempos exigiam uma tambem nova politica de cooperacao, baseada prioritariamente na tecnica e na ciencia, como ficou plasmado no Accord de cooperation technique et scientifique assinado entre a Franca e o Brasil, em 16 de janeiro de 1967.

Os resultados positivos a longo prazo da nova politica iniciada pela "maquina diplomatica cultural" da Quarta Republica serao consideraveis, como podemos verificar no proprio site da embaixada francesa no Brasil:

(...) "le Bresil est le premier partenaire de la France en Amerique latine pour la cooperation scientifique, avec une attention particuliere a la recherche et a l'innovation technologique (la France est le deuxieme partenaire scientifique du Bresil apres les Etats-Unis). La cooperation scientifique est structuree autour de formations dexcellence entre universites et par des partenariats de haut niveau entre les organismes de recherche des deux pays. Ils portent notamment sur les mathematiques fondamentales et appliquees, les changements climatiques, les sciences sociales et humaines". (9)

Dessa forma, a cultura--quarta dimensao das relacoes internacionais--demonstrou ser uma arma tao ou mais poderosa que as outras tres dimensoes: a politica, a economica e a militar.

DOI: http://dx.doi.org/10.20889/M47e17004

Bibliografia

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BERSTEIN, Serge et MILZA, Pierre. Histoire de la France au XXe siecle. Tome III: 1945-1958, Bruxelles: Editions Complexe, 1991.

BOUVIER Jean, GIRAULT Rene et THOBIE Jacques. L'imperialisme a la francaise. 1914-1960, Paris: La Decouverte, Coll. "Textes a l'appui", 1986.

DULPHY, Anne. La politique exterieur de la France depuis 1945, Paris: Nathan, 1994.

DUROSELLE, Jean-Baptiste. Les changements dans la politique exterieure de la France depuis 1945 In A la recherche de la France (dir. Stanley Hoffmann), 345-394, Paris: Le Seuil, 1963.

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McLEOD, Alex. L'approche construtiviste de la politique etrangere In Politique etrangere: nouveaux regards, edited by Frederic Charillon, 65-89, Paris: Presses de Sciences Po, 2002.

PICARD, Emmanuelle. Des usages de l'Allemagne. Politique culturelle francaise en Allemagne et rapprochement franco-allemand, 1945-1963 Politique publique, trajectoires, discours. These doctorat Institut detudes politiques de Paris, sous la direction de Jean-Pierre Azema, Janeiro de 1999.

SAINT-GILLES, Laurence. La presence culturelle de la France aux Etats-Unis pendant la guerre froide 1944-1963. Paris: L'Harmattan, 2007.

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SUPPO, Hugo R. La politique culturelle francaise au Bresil entre les annees 1920-1950. Vol. 3, Villeneuve d'Ascq: Presses Universitaires du Septentrion, 2000.

WAGNLEITNER, Reinhold. Coca-Colonization and the Cold War: The Cultural Mission of the United States in Austria after the Second World War, Chapel Hill & London: University of North Carolina Press, 1994.

Meridiano 47, 17: e17004, 2016

Recebido: 1 de fevereiro de 2016

Aceito: 1 de marco de 2016

(1) A categoria echanges culturels incluia diferentes areas: livros e documentacao, intercambios artisticos e cientificos, missoes de estudo, organizacao de manifestacoes artisticas (teatro, danca, musica etc.), pesquisas arqueologicas etc.

(2) Os temas dessas diferentes reunioes sao reveladores das areas de interesse: "Aspect politique de la situation en Amerique Latine"; "Problemes economiques en Amerique Latine"; "L'agence Havas"; "La langue francaise en Amerique Latine"; "Le livre francais en Amerique Latine"; "Discussion sur l'enseignement et la diffusion de la langue francaise"; "La France et l'action des Etats-Unis en Amerique Latine"; "L'agence information"; "Radio et Cinema"; "Les Comites de la France Libre"; "Directives pour la Radiodiffusion francaise vers l'Amerique Latine"; "Expose du General d'Astier de la Vigerie, ambassadeur de France au Bresil"; "Questions economiques"; "L'Alliance Francaise".

(3) Ele estipulava:

a) o envio e a circulacao de livros, revistas, publicacoes literarias, artisticas, cientificas e tecnicas;

b) o envio e a apresentacao sem caracter comercial de filmes educativos, documentarios ou apresentando um interese cultural relevante, de discos e de outros modos de gravacao sonora;

c) as visitas de intelectuais e artistas;

d) o emprego, no exercicio normal das suas funcoes, de professores, tecnicos, e expertos pelas universidades, colegios, liceus, escolas, laboratorios e outras organizacoes de ensino, de estudo ou de pesquisa;

e) a criacao de cadeiras e postos de leitores em universidades e outras instituicoes de ensino superior para o estudo da lingua, literatura e historia respectivas e de todos os outros temas interessando ambos paises;

f) o envio e a apresentacao de obras ou objetos de destiados a exposicoes de caracter artistico ou cientifico;

g) estadia de bolsistas;

h) as viagens de conferencistas;

i) os intercambios radiofonicos de carater cultural.

(4) Quadro baseado em PICARD, 1999, p. 184 e http://www.doc.diplomatie.gouv.fr/BASIS/pacte/webext/bilat/SDF

(5) Regiao alema confiada a tutela francesa.

(6) Costa Rego no Correio da Manha, em 10 de fevereiro de 1952, define o colonialismo como uma "contingencia natural, um fenomeno hierarquico, um processo de civilizacao". O colonialismo, afirma, "nao e um crime, e uma missao" e a Franca, um dos paises mais atacados na Assembleia da Organizacao das Nacoes Unidas, teria sido um dos paises que mais contribui com a prosperidade no seu Imperio (saude publica, educacao, meios de transportes, portos, agricultura).

(7) Thomas Ribeiro Colaco, monarquista portugues exiliado no Brasil, jornalista do jornal catolico conservador Correio da Manha, era um aliado incondicional da Franca na imprensa brasileira e considerado "un excellent ami du Service d'Information" francais.

(8) Deveaux (directeur du Budget), Hirsch (commissaire au Plan), Perrin (haut-commissaire a l'Energie atomique), Clappier (directeur de la Direction des relations economiques exterieures du ministere des Finances), Jaujard (directeur general des Beaux-Arts), Berger (directeur de l'Enseignement superieur), Brunhold (directeur de l'Enseignement secondaire), Chatenet (directeur de la Fonction publique), Laurent (directeur general du Travail et de la Main d'oeuvre), Buisson (directeur general de l'Enseignement technique), Renaud (commissaire general aux Entreprises).

(9) http://www.ambafrance-br.org/La-France-et-le-Bresil (consulte en 28/01/2016)
Acordos culturais assinados pela Franca (1946-1958) (4)

Tipo de acordo               Pais        Data assinatura
                                             Franca

Acordo cultural             Belgica        22/02/1946
Acordo cultural          Paises Baixos     19/11/1946
Acordo cultural             Austria        15/03/1947
Convencao cultural        Inglaterra       02/03/1948
Aditivo acordo               Haiti         23/10/1948
  cultural 24/09/1945
Acordo cultural             Brasil         06/12/1948
Acordo cultural             Sarre (5)      15/12/1948
Convencao cultural          Italia         04/11/1949
Acordo cultural            Guatemala       26/09/1950
Acordo cultural             Turquia        17/06/1952
Intercambios culturais     Colombia        31/07/1952
Acordo cultural              Japao         12/05/1953
Acordo cultural             Noruega        04/12/1953
Acordo cultural           Luxemburgo       08/02/1954
Acordo cultural               RFA          23/10/1954
Acordo cultural              Chile         23/11/1955
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Article Details
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Author:Suppo, Hugo Rogelio
Publication:Meridiano 47
Article Type:Ensayo
Date:Jan 1, 2016
Words:8599
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