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(Inter)subjectivization of verb-derived discourse markers: instances of grammaticalization/(Inter)subjetivizacao de marcadores discursivos de base verbal: instancias de gramaticalizacao.

Introducao (2)

Neste artigo (3) pretendemos (i) descrever o funcionamento dos marcadores discursivos (daqui em diante MDs--categoria definida na proxima secao) olha e ve em amostra escrita (pecas teatrais de autores catarinenses dos seculos XIX e XX) e oral (dados do projeto VARSUL de Santa Catarina, da decada de 1990), considerando etapas de mudanca semantico-pragmatica e categorial desses itens; e (ii) discutir esses processos de mudanca como instancias de gramaticalizacao. Nossa abordagem e prioritariamente discursiva/textual, considerando a interacao entre os interlocutores nos eventos de fala e buscando depreender indicios de mudanca a partir da observacao do uso linguistico. A gramatica e vista como rotinizacao e regularizacao de padroes de uso, codificando articuladamente os niveis da informacao proposicional (semantica proposicional) e do discurso multiproposicional (pragmatica discursiva) (GIVON, 2001).

Tomamos como suporte teorico as correlacoes entre trajetoria de mudanca e funcoes da linguagem (ideacional, interpessoal e textual) sugeridas por Traugott (1982, 1989, 2002, 2003a, 2003b, 2010), com enfase no cline de (inter)subjetivizacao, e por Heine, Claudi e Hunnemeyer (1991), com enfase na funcao interpessoal; bem como os parametros para identificar e descrever instancias de gramaticalizacao propostos por Heine e Kuteva (2007).

A escolha por tal abordagem decorre da natureza do objeto analisado: MDs que derivam de atos de fala manipulativos expressos por meio de formas verbais com usos rotinizados em P2. (4) A proposta de Traugott (1982, 1989, 2002, 2003a, 2010) a respeito da expansao de significados (inter)subjetivos pragmaticos a partir da intersubjetividade inerente ao contexto de P2, associada a ideia de Heine, Claudi e Hunnemeyer (1991) de que o desenvolvimento da funcao textual e posterior a interpessoal--expansoes admitidas como instancias de gramaticalizacao -, da suporte a analise apresentada neste artigo. Ademais, a aplicacao dos parametros sugeridos por Heine e Kuteva (2007) aos dados analisados, aliada ao controle da frequencia de uso das formas em suas diferentes funcoes, nos termos de Bybee (2003), oferece elementos que auxiliam na avaliacao do estagio de gramaticalizacao em que se encontram os MDs olha e ve no portugues.

Varios trabalhos levados a cabo com amostras diacronicas do portugues se utilizam da proposta de Traugott (1982, 1995, 2003a) relativa ao cline de (inter) subjetivizacao para explicar as trajetorias de mudanca dos itens/construcoes estudados. Longhin-Thomazi (2003, 2006), por exemplo, tratou da gramaticalizacao de so que e de ainda; Lopes-Damasio (2008) analisou a emergencia e a multifuncionalidade do marcador discursivo assim. Esses trabalhos, entre outros, atestam a aplicabilidade da proposta da mudanca de elementos de natureza adverbial que migram para a categoria de conector e/ou de marcador discursivo.

Vale ressaltar que, no caso do objeto analisado neste artigo, os MDs sao originarios de verbos e que, em geral, MDs como sabe?, entende?, ta?, olha, ve 1etc. nao tem sido considerados como instancias de gramaticalizacao (como ocorre com MDs e/ou conectores oriundos de adverbios, como assim, entao, la etc.), mas de discursivizacao (MARTELOTTA; VOTRE; CEZARIO, 1996). Nao e de nosso interesse polemizar essa questao aqui. Defendemos, contudo,--especialmente com base nas propostas teoricas de Traugott (1982, 1989, 2002, 2003b, 2010), nas analises de MDs de base verbal em outras linguas romanicas, conforme veremos adiante, e nas evidencias por nos encontradas no portugues--que e legitimo analisar tambem os MDs de base verbal sob a otica da gramaticalizacao.

Para levar a cabo essa tarefa, organizamos o artigo em quatro secoes, alem da introducao e das consideracoes finais. Na sequencia, apresentamos breve revisao da literatura sobre os MDs derivados de verbos de percepcao, a qual ancora a identificacao dos contextos de atuacao discursiva dos MDs sob analise. As duas secoes seguintes sao destinadas, respectivamente, ao embasamento teorico e metodologico. Por fim, descrevemos rapidamente a mudanca semanticopragmatica e categorial dos itens em foco, detalhamos aspectos formais dos MDs e apresentamos a analise dos contextos de atuacao discursiva de olha e ve nas amostras examinadas.

Breve revisao da literatura sobre os MDs derivados de verbos de percepcao

O interesse pelo estudo dos MDs tem despontado em diferentes areas da linguistica, tanto no Brasil quanto no exterior. O que assinala a revisao da literatura (5) sobre o assunto e que os MDs nao se enquadram facilmente em uma classe formal de palavras devido a dificuldade de formacao de um paradigma homogeneo, uma vez que provem de um universo de categorias (conjuncoes, preposicoes, adverbios, verbos, alem de expressoes nao verbais, estruturas sintaticas, fenomenos prosodicos etc.). Mais comum e a posicao de consideralos como uma classe funcional (SCHIFFRIN, 1987; RISSO; SILVA; URBANO, 1996, 2006) a qual tambem adotamos neste trabalho. Consideramos que os MDs sao elementos multifuncionais que "Amarram o texto nao so enquanto estrutura verbal cognitiva, mas tambem enquanto estrutura de interacao interpessoal" (URBANO, 1997, p.86). Sao itens que desempenham um papel comunicativo importante, podendo articular simultaneamente diferentes valores, com graus de maior ou menor proeminencia, tanto de carater textual--estabelecendo elos coesivos entre partes do texto, como interpessoal, mantendo a interacao falante-ouvinte (F-O) (6) e auxiliando no planejamento da fala (MARCUSCHI, 1989, p.282). Essa definicao ressalta a funcao pragmatica da categoria, na qual se pode tambem incluir os MDs derivados de verbos de percepcao olha e ve.

No Portugues Brasileiro, os MDs derivados de verbos de percepcao, entre outros, tem sido investigados principalmente pelo grupo de pesquisadores vinculados ao projeto Gramatica do Portugues Falado que atuam na perspectiva textual-interativa. A seguir, apresentamos breve apanhado de alguns desses trabalhos, e de outros que sao relevantes para o tema em pauta neste artigo.

Risso, Silva e Urbano (1996) (7) buscaram o estabelecimento de tracos definidores do estatuto dos MDs identificados funcionalmente como basicamente orientadores da interacao. Posteriormente, Urbano (1997, 1999, 2006) observou subfuncoes, propriedades e comportamentos interativos salientes de olha ~ olhe, vamos ver, veja e viu?. Risso (1999, 2006) deteve-se na analise qualitativa das funcoes textuais dos MDs olha ~ olhe ~ o, com centracao nos aspectos da orientacao interacional e da articulacao de segmentos do texto. Travaglia (1999), por sua vez, levantou a hipotese de que alguns marcadores teriam a funcao de marcar relevo, o que seria feito sobretudo por aqueles que objetivam chamar a atencao para determinados elementos e ideias, como olhe, olha, o, oia, veja e veja bem. Mais recentemente, Guerra (2007) descreveu MDs de base verbal, entre os quais olha e viu, como exercendo majoritariamente funcoes predominantemente interacionais.

No ambito das demais linguas romanicas, observa-se que, tal como em PB, a depender do contexto, verbos de percepcao visual migram de categoria para atuar como MDs, situacao em que funcionariam como elementos de chamamento da atencao do O para um aspecto do texto do F. Citem-se, por exemplo, as formas espanholas mira e ?ves? investigadas por Pons Borderia (1998), Cuenca e Marin (2000), Galue (2002) e Dominguez e Alvarez (2005); a forma francesa regarde, pesquisada por Dostie (1998); o equivalente italiano guarda, investigado por Waltereit (2002); as formas catalas a veure e miri, pesquisadas por Marin Jorda (2003); e as galegas olla e mira, investigadas por Dominguez Portela (2008). Alem da base verbal comum entre essas linguas, convem ressaltar ainda que Cuenca e Marin (2000), ancoradas em Hopper e Traugott (2003a), analisam as formas mira e ?ves? como um processo de gramaticalizacao relacionado a subjetivizacao, com uma pragmatizacao do significado derivada da forma fonte; Galue (2002) identifica mira/mire como formas gramaticalizadas que funcionam como MDs; Waltereit (2002) fundamenta em Traugott e Konig (1991) o movimento de mudanca semantica de guarda, envolvendo convencionalizacao de implicaturas conversacionais; Marin Jorda (2003) tambem faz mencao a gramaticalizacao ao analisar os MDs no catalao.

Com base na literatura pesquisada sobre os MDs derivados de verbo de percepcao, notadamente nos trabalhos que investigaram diferentes amostras do PB, bem como nos trabalhos de diversas linguas romanicas acima referidos, efetuamos nossa proposta de descricao de cada contexto de atuacao discursiva de olha e ve nas amostras por nos analisadas. Nesse levantamento, foram identificados dez contextos de atuacao discursiva, conforme se vera no quadro 1.

(Inter)subjetividade e (inter)subjetivizacao, funcoes da linguagem e gramaticalizacao

Nesta secao, expomos o suporte teorico que sustenta a analise apresentada neste artigo. Inicialmente, tratamos das nocoes de (inter)subjetividade e (inter) subjetivizacao, ilustradas com exemplos; na sequencia, mostramos a relacao desses mecanismos de mudanca semantico-pragmatica com as funcoes da linguagem; por fim, relacionamos os processos de (inter)subjetivizacao e as funcoes da linguagem com a gramaticalizacao.

No ambito dos estudos de mudanca semantica em geral, e tambem de gramaticalizacao, costuma vir a baila a atuacao de dois mecanismos, o primeiro de natureza cognitiva e o segundo de natureza comunicativa/pragmatica: a metafora--mudanca de dominio conceitual, atuando no plano paradigmatico; e a metonimia--fortalecimento pragmatico por meio da convencionalizacao de uma implicatura conversacional, atuando no plano associativo. No primeiro caso, a passagem de um dominio a outro se da de modo discreto; no segundo, a forca pragmatica se manifesta num continuum refletido em etapas com significados sobrepostos, cuja expansao resulta no que Heine, Claudi e Hunnemeyer (1991) denominam reinterpretacao induzida pelo contexto.

Alem da metafora e da metonimia, Traugott (2002, 2003b, 2010) preve dois outros mecanismos cognitivos e comunicativos de mudanca semantica em geral: a subjetivizacao--processo que se desenvolve a partir do uso de expressoes cujo significado e o de indexar a atitude ou ponto de vista do falante em relacao ao conteudo do que e dito; e a intersubjetivizacao--processo que se desenvolve a partir do uso de expressoes cujo significado e o de indexar a atencao do falante a face/imagem do ouvinte. A partir do uso de expressoes de subjetividade e de intersubjetividade (8) e que se desenvolvem polissemias, de inicio pragmaticas, depois com significados semanticamente codificados.

Traugott (2010) faz uma distincao entre usos que correspondem a (inter) subjetivizacao e usos que correspondem a aumento de (inter)subjetividade pragmatica. Subjetivizacao e intersubjetivizacao sao mecanismos que envolvem uma reanalise semantica: significados pragmaticos que emergem no contexto de negociacao de sentidos pelos interlocutores sao reanalisados como significados semanticos codificados. De acordo com Traugott (2002), as polissemias com significado semanticamente codificado podem, mais tarde, vir a ser reinterpretadas como homonimias, ou ate mesmo deixar de ser usadas. Entao, o movimento de mudanca de significacao se daria nessa direcao: polissemia pragmatica > polissemia semantica > homonimia. No processo de expansao polissemica e que se encontram usos de expressoes de (inter) subjetividade, os quais, como veremos adiante, podem se constituir em instancias de gramaticalizacao.

Um exemplo frequentemente citado nos trabalhos de Traugott (2003b, 2010) e o que envolve o uso de let's no ingles (TRAUGOTT; DASHER, 2002):
let us X'permit us to X' (IMP) >   let's'I propose' (hortativo) >
Let us go, will you >              Let's go, shall we >
intersubjetividade inerente >      polissemia orientada p/ o F >

'mitigador'
Let's take our pills now, Johnny
aumento de intersubjetividade


A construcao imperativa let us X (permita-nos X) (9) e originariamente intersubjetiva--isto e, inerente ao contexto de sujeitos sintaticos (na estrutura argumental) que envolvem o interlocutor -, pois o enunciado tem forca ilocucionaria: F e O sao participantes no evento projetado, uma vez que a construcao e enderecada de P1 a P2. Fora dessa construcao, que pode ser expandida para Let us go, will you!, emerge uma polissemia orientada para o F: let us (> let's), conhecida como let's hortativo ou exortativo. Aqui, P1 e P2 juntos sao sujeito sintatico de let e de go, como em Let us go, shall we? Essa construcao e mais subjetiva, pois o falante se inclui na exortacao, alem de ser uma forma mitigada de um imperativo; e e tambem mais intersubjetiva, pois o O e agora tomado como agente junto do F. Usos mais recentes de let's mostram um aumento de intersubjetividade, como nos casos que incluem locucoes dirigidas a pacientes ou a criancas, em que o F presumivelmente nao e um participante no evento tomar pilula em: Let's take our pills now, Johnny (Vamos tomar nossas pilulas agora, Johnny). Esse tipo de posicionamento do F mitiga fortemente a intencao, que e imperativa (Tome suas pilulas agora, Johnny!) e explicitamente marca atencao intersubjetiva para com o ouvinte.

Como se depreende do exemplo acima, o que interessa nao e apenas o carater contextual da situacao de interlocucao--no caso, a intersubjetividade caracteristica do ato de fala manipulativo -, mas principalmente a presenca de marcadores e expressoes linguisticas que indexam a subjetividade e a intersubjetividade, e a descoberta de como eles emergem. Outro dado ilustrativo e o uso rotinizado de sujeitos de P2 (indicadores inerentes de intersubjetividade), com propositos subjetivos para negociar o significado pretendido pelo falante, em construcoes do tipo you see e y'know, como em "I've got something to tell you, my dear, said Caleb in his hesitating way ... You see, I've been a bit of a fool again, and put my name to a bill--1871 Eliott, Middlemarch [UVaj" (TRAUGOTT, 2010, p.48, grifo do autor). (10)

O aumento de intersubjetividade nos casos acima descritos esta associado a uma mudanca de significados de conteudo (baseados na estrutura argumentai no nivel oracional) para significados procedurais pragmaticos (relacionados com estrategias comunicativas no nivel discursivo). Particularmente, os usos de let's e you see mostram que mesmo enunciados imperativos, que sao inerentemente intersubjetivos, podem ser (inter)subjetivizados. (11) Esses exemplos sao bastante pertinentes a analise dos MDs olha e ve, desenvolvida adiante.

Um ponto de partida de Traugott (1982, 1989) para conceituar a (inter) subjetividade e a (inter)subjetivizacao e a distincao entre os componentes do sistema linguistico propostos inicialmente por Halliday e Hasan (1976) ideacional, textual e interpessoal -, renomeados pela autora como proposicional, textual e expressivo. Diga-se, de passagem, que essa classificacao tripartida revisitada pelos estudiosos da gramaticalizacao e fundamental para a discussao acerca da multifuncionalidade dos MDs. Sob uma perspectiva diacronica, Traugott (1989) sugere que, em muitos casos, um item lexical que se origina no componente ideacional desenvolve mais tarde polissemias nos dominios textual e expressivo, nesta ordem: proposicional > ((textual) > (expressivo)). O componente textual inclui elementos que servem a conexao local (como relativizadores e complementizadores) e tambem elementos que servem mais a propositos procedurais de expressar a atitude do falante (como topicalizadores e marcadores discursivos), alguns deles sobrepondo as duas funcoes (como and/e, then/entao, in fact/de fato)--todos tidos como ingredientes essenciais da gramatica. O componente expressivo e posteriormente desdobrado em subjetivo (orientado para o falante) e intersubjetivo (orientado para o ouvinte) (TRAUGOTT; DASHER, 2002).

Em trabalho mais recente, Traugott (2010) correlaciona o cline de (inter) subjetividade, que segundo ela deve ser visto como camadas (HOPPER, 1991)--no sentido de que significados mais antigos coexistem com significados mais recentes de um mesmo item -, a proposta de Halliday e Hasan (1976), focalizando os componentes ideacional e interpessoal. Observe-se que, aqui, o componente textual e omitido, uma vez que o componente mais relevante para a discussao da autora e o interpessoal.

nao-/menos subjetivo > subjetivo > intersubjetivo ideacional > interpessoal

Esse continuum, segundo a autora, sintetiza tendencias de mudanca: a intersubjetivizacao e um mecanismo posterior e surge como uma extensao da subjetivizacao.

Considerando particularmente o componente da funcao interpessoal orientado para o ouvinte, Heine, Claudi e Hunnemeyer (1991) sugerem um cline diferente daquele postulado por Traugott (1982, 1989), deslocando a funcao textual para o final da trajetoria: ideacional > interpessoal > textual. A argumentacao dos autores se pauta basicamente no seguinte: as situacoes mais nitidas de interacao com o ouvinte envolvem atos de fala manipulativos com enunciados de perguntas e de comandos. Formas interrogativas (como who) e imperativas (como suppose) podem se desenvolver em elementos que atuam no plano textual, relacionando oracoes e estabelecendo elos coesivos no texto. A passagem da funcao interpessoal para a textual seria motivada por uma estrategia do falante chamando a atencao para determinada parte do texto. Com o tempo, essa relacao passaria gradualmente a ser reinterpretada como uma relacao entre diferentes partes do texto, evidenciando-se ai a funcao textual.

Nao e nossa intencao discutir aqui a ordenacao dos componentes das duas trajetorias mencionadas no paragrafo acima, nem as diferentes nuancas conceituais observadas nas perspectivas dos autores. (12) O que interessa para os propositos deste trabalho e a associacao estabelecida entre os processos de mudanca e as funcoes da linguagem. Nesse sentido, e relevante para nos o fato de que Heine, Claudi e Hunnemeyer (1991) consideram a passagem da funcao interpessoal para a textual como instancia de gramaticalizacao.

Gramaticalizacao e entendida, neste artigo, como "mudanca pela qual itens lexicais e construcoes passam, em certos contextos linguisticos, a desempenhar funcoes gramaticais e, uma vez gramaticalizados, continuam a desenvolver novas funcoes gramaticais" (HOPPER; TRAUGOTT, 2003a, p.18). E conforme especificada por Traugott (1995, p.1, grifo nosso): "processo pelo qual um item lexical [ou uma construcao], impulsionado por certo contexto pragmatico e morfossintatico, torna-se gramatical". A autora enfatiza que se trata do desenvolvimento de itens lexicais em contextos de construcoes especificas (TRAUGOTT, 2003a).

Qual a relacao da (inter)subjetivizacao com a gramaticalizacao? Traugott (2010) afirma que a subjetivizacao esta bastante atrelada a gramaticalizacao, bem mais do que a intersubjetivizacao, uma vez que esta se restringiria, de modo geral, a expressoes de polidez, tendendo a ser mais associada a escolhas lexicais do que gramaticais. Essa estreita interacao se deve ao fato de que ambos os processos--subjetivizacao e gramaticalizacao--envolvem o desenvolvimento de marcadores de atitude do falante em relacao ao componente ideacional e a conectividade textual, entre outros. E na gramaticalizacao primaria, em que acontece mudanca de lexical/construcional para gramatical (diferente da gramaticalizacao secundaria, que envolve o desenvolvimento de material ja gramatical em mais gramatical), que a subjetivizacao se manifesta mais. Traugott (2002) pontua que antes da gramaticalizacao ocorre uma polissemia pragmatica, ou seja, o uso de inferencias sugeridas generalizadas (termo preferido pela autora em vez de implicaturas). Dito de outro modo, significados pragmaticos inferidos do contexto, correspondentes ao aumento de (inter)subjetividade pragmatica, impulsionam a gramaticalizacao.

No dominio da subjetivizacao, encontram-se evidencias de gramaticalizacao oriundas do desenvolvimento de verbos de atos de fala e especialmente de seus usos ilocucionarios. Traugott (2010) chama a atencao para o fato de que elementos subjetivizados tendem a se posicionar na periferia de um constituinte ou oracao. E o caso, por exemplo, da evolucao do nome japones wake (reason) para um MD situado no final do enunciado, traduzido para o ingles como no wonder ou you see (voce ve). Estamos cientes de que nao e consensual a atribuicao de estatuto de gramaticalizacao a casos desse tipo, especialmente quando ha aumento de escopo envolvido. Assumimos, no entanto, a posicao de Traugott (2010) que considera esses casos como gramaticalizacao.

Ainda como embasamento teorico para a analise dos MDs, a par de considerar trajetorias de mudanca implicadas nas funcoes da linguagem, acionamos tambem o conjunto inter-relacionado de parametros propostos por Heine e Kuteva (2007), que evidenciam perdas, e tambem ganhos, em diferentes niveis linguisticos nos processos de mudanca por gramaticalizacao:

a. extensao, i.e., o surgimento de novos significados gramaticais quando expressoes linguisticas sao estendidas a novos contextos (reinterpretacao induzida pelo contexto); (13)

b. dessemantizacao (ou "apagamento semantico"), i.e., perda (ou generalizacao) em conteudo de significado;

c. descategorizacao, i.e., perda em propriedades morfossintaticas caracteristicas de formas lexicais ou de outras formas menos gramaticalizadas;

d. erosao (ou "reducao fonetica"), i.e., perda em substancia fonetica (HEINE; KUTEVA, 2007, p.34, traducao nossa).

Cada um desses parametros recobre diferentes aspectos da lingua em uso. A extensao e de natureza pragmatica, a dessemantizacao capta o nivel semantico, a decategorizacao exibe a natureza morfossintatica e a erosao reflete o nivel fonetico da categoria linguistica. A ordenacao desses parametros reproduz a sequencia diacronica em que eles sao aplicados nos itens em processo de gramaticalizacao. Enquanto os tres ultimos envolvem perda de propriedades, o primeiro aponta para ganhos com usos em novos contextos.

Procedimentos metodologicos

Nesta secao, descrevemos brevemente os procedimentos analiticos adotados e as amostras analisadas. Assumimos uma perspectiva pancronica, entendendo a mudanca linguistica como um processo continuo. Nesse sentido, considerando o principio do uniformitarismo, partimos do mapeamento da multifuncionalidade dos itens em dados atuais e, uma vez reconhecido o terreno sincronico, recorremos a amostras de momentos anteriores da lingua para buscar indicios do funcionamento dos MDs olha e ve ao longo do tempo, considerando sempre a questao do contexto. Procuramos, ao incorporar dados de diferentes epocas, verificar indicios do desenvolvimento conjunto e individual das formas sob analise, considerando a mudanca semantico-pragmatica e categorial por que passaram esses itens. Na secao de analise, os resultados sincronicos e diacronicos sao discutidos conjuntamente.

Consideramos que um importante fator relacionado a gramaticalizacao e a frequencia de uso--vista nao como um resultado, mas como um indicio para a sua identificacao--, notadamente no que diz respeito a extensao de uso da forma a novos contextos com novas associacoes pragmaticas (BYBEE, 2003), dai a importancia atribuida a quantificacao dos dados. Para caracterizar um processo de gramaticalizacao, e necessario, portanto, nao so mapear as funcoes, mas tambem quantificar as ocorrencias.

Duas amostras foram analisadas, identificadas como corpus sincronico (amostra oral) e corpus diacronico (amostra escrita). A amostra de fala e constituida por entrevistas sociolinguisticas de 96 informantes catarinenses integrantes do Projeto VARSUL (14), distribuidos em quatro localidades: Florianopolis, Blumenau, Chapeco e Lages. Sao 24 informantes por cidade, socialmente estratificados quanto as variaveis: idade (de 25 a 49 e acima de 50 anos), escolaridade (antigos primario, ginasial e colegial) e sexo.

A amostra escrita e formada por dezessete pecas teatrais de autores catarinenses, integrantes do "Banco de dados diacronicos de Santa Catarina", (15) vinculado ao Projeto VARSUL. A opcao por pecas se deve a tentativa de minimizar o "paradoxo historico", no sentido de " fazer o melhor uso de maus dados" (LABOV, 1994, p.11), pois se supoe que as pecas devem apresentar, na medida do possivel, linguagem proxima a fala da epoca, embora reconhecamos que, devido a natureza do objeto, nao se trata de dados abundantes e que alguns aspectos interacionais deixam de ser evidenciados em decorrencia de restricoes impostas na transferencia da modalidade oral para a escrita.(16)

Considerando-se como criterio o ano de nascimento do autor, dispomos de sete pecas do seculo XIX e dez do seculo XX: Raimundo, 1868, de Alvaro Augusto de Carvalho (1829-1965); Brinquedos de cupido, 1898, de Antero dos Reis Dutra (1835-1911); A casa para alugar, 1867, de Jose C. de Lacerda de Coutinho (18411902); Os ciumes do capitao, 1880, de Arthur Cavalcanti do Livramento (18531897); O idiota, 1890, de Horacio Nunes Pires (1855-1919); A engeitada [sic], 1930, de Joaquim Sao Thiago (1857-1916); A filha do operario, 1942, de Ildefonso Juvenal (1894-1965); A taverna do gato branco, 1954, de Arnaldo Silveira Brandao (1922-1976); O dia do javali, 1983, de Mauro Julio Amorim (1939-); O contestado, 1972, de Romario Jose Borelli (1943-); Stradivarius, 1993, de Augusto Nilton de Sousa (1944-); Em tua homenagem ou nao, 1984, de Jose Darci Silva Junior; Os lobos, 1992, de Ademir Rosa, (1950-1997); Metacor, 1983, de Ibere do Nascimento (1959-); As quatro estacoes, 1998, de Antonio Cunha (1961-); Prenome: Fausto, 1993, de Fabio Bruggemann (1962-) e Uma longa historia de amor, 1999, de Neri Goncalves de Paula (1963-).

Cabe ainda uma observacao a respeito da unidade de analise. Embora a conversacao seja desenvolvida com base na troca de turno, podendo englobar porcoes de texto maiores ou menores, delimitamos como unidades de analise trechos que veiculam um significado semantico-pragmatico proeminente, contextos em que os MDs auxiliam na expressao de diferentes funcoes comunicativas (advertencia, surpresa, opiniao, entre outras), seja na introducao, no desenvolvimento ou no fechamento dessas unidades tematicas (ROST SNICHELOTTO, 2009). Essas unidades ficarao mais bem evidenciadas adiante. Os criterios definidores dos contextos de atuacao discursiva dos itens sob analise serao ancorados no desenvolvimento da secao seguinte.

Analise pancronica do comportamento (multi) funcional de olha e ve

Nesta secao, nosso interesse incide na descricao do comportamento (multi) funcional exibido por olha e ve nas amostras escrita e oral. A seguir, abrimos uma breve subsecao dedicada a mudanca semantico-pragmatica e categorial e outra destinada aos aspectos formais dos itens; na sequencia, nos debrucamos nos contextos de atuacao discursiva dos MDs.

Mudanca semantico-pragmatica e categorial de olha e ve

A partir do levantamento das ocorrencias relativas ao contexto de ato de fala manipulativo tipico de P2, olha e ve foram distribuidos em duas categorias: (i) formas verbais de percepcao, com valor deitico espacial, visto que ha um comando explicito do F para o O direcionando o olhar/a visao deste ultimo--olha e ve atuam como item lexical pleno em atos de fala claramente diretivos -; e (ii) MDs que vao expandindo seu significado de base e, conforme Risso (1999), a referencia a percepcao visual aparece remanejada para a expressao de outra especie de envolvimento sensorio-cognitivo, isto e, altera-se o ponto de referencia do campo visual (situacoes objetivas) para o da acao mental (situacoes (inter)subjetivas) olha e ve se deslocam de sua posicao verbal, perdendo o elo sintatico explicito com o enunciado.

A sequencia de trechos a seguir mostra um gradiente funcional com expansoes de uso de olha e de ve. Tais expansoes provavelmente nao ocorrem numa linearidade cronologica fixa, pois os usos podem se expandir em polissemias pragmaticas em mais de uma direcao num mesmo momento. Nossa intencao aqui e apenas evidenciar instancias de mudanca semanticopragmatica e categorial.(17)

(1) DALTON--Olhe, aqui estao todos os objetos e roupas que ela usava. (Larga tudo no centro da cena). Vestidos, calcinhas, soutiens, sapatos ... Hummm! Ela ficava tao bem com esses soutiens, a caixa de maquiagem, um estojo de joias e bijouterias ... (Pausa) Ela tinha o pessimo costume de dormir abracada com este ursinho, eu detesto esse urso. Eu trouxe ate a agenda que ela usava, veja, apesar de estar em branco, tem o nome dela gravado aqui na capa, algumas revistas, as prediletas [...] (SILVA JUNIOR, 1984, p.24).

(2) ELVIRA--(Descendo pela esquerda.) Perfeitamente. Mas previna-o de que nao saio hoje de casa. Quero rir-me a custa desse tolo e faze-lo andar aqui numa roda viva.

MACARIO--(Fechando a carta.) Ve la ... o rapaz e rico e nao e para desprezar ...

ELVIRA--Deixe-o por minha conta. Esperarei ocasiao oportuna para aparecer-lhe. O papai nao se admire do que fizer!

MACARIO--(Enderecando a carta.) Toma cuidado, menina ... As vezes a gente pensa uma coisa e ela e outra ... Nao va o chumbo virar por cima da cortica ... (PIRES, 1999, p.222).

(3) Menino 01: Ainda bem que so falta mais um. (Escreve) Acabei !

Menino 02: Eu tambem ! ...

Menino 01: Sabe que esse negocio de escrever com duas canetas rende mesmo.

Olha, se nao fosse isso, nos ficavamos aqui ate de noite!

Menino 02: E agora ... A gente faz o que ? Esperamos aqui--ou levamos la? ... (PAULA, 1999, p.156).

(4) IDIOTA--Nao pense tanto assim, eu me atrapalho. Como pode pensar tanto, ter tantas duvidas?

FAUSTO--Talvez porque eu nao me chame Idiota. Infelizmente me chamo, nao sei por quanto tempo neste drama, Fausto. Sabe o que significa Fausto, Idiota? Quer dizer, veja so, Idiota, feliz. No fundo, ser feliz e ser idiota da quase no mesmo (BRUGGEMANN, 1999, p.61).

Em (1), olhe e veja apresentam um estatuto verbal definido, referindo-se a uma situacao contextual concreta, com explicita remissao do falante ao ouvinte para que atenda ao comando expresso pelo verbo (deitico locativo). No exemplo (2), nota-se que o item se reveste de certo grau de abstratizacao e expande seu sentido de base para expressar, por exemplo, uma especie de advertencia cuidado com. Ja a ocorrencia (3) mostra um contexto de interpretacao ambigua: olha pode ser interpretado como verbo pleno olhar cujo complemento deitico poderia ser "as duas canetas", ou como MD, revestindo-se de sentido mais abstrato e revelando certa surpresa com relacao ao relatado/exposto, o que caracterizamos, conforme se vera adiante, como contexto interjetivo. Em (4), veja so perde parte do sentido de percepcao visual, sofrendo desbotamento semantico e adquirindo um sentido de inferencia mental uma vez que a atencao do ouvinte e metaforicamente deslocada do espaco fisico para o espaco discursivo; nesse contexto, o MD apresenta valor de presta atencao.

Nas ocorrencias seguintes, olha aparece contiguo a mas, o que parece reforcar o valor relacional do MD.

(5) FELIPE--Afinal, que novidades trouxeram voces? Como ocorreram as manifestacoes desta manha? O pessoal levou a efeito o comicio na Praca Municipal?

ROQUE--Como nao!? Foi um sucesso! Mas olha: acabou em pau ... A policia interviu e choveu chanfalho e pata de cavalos. (JUVENAL, 1942, p.99).

Como vimos nos exemplos (1) a (5), elementos designativos de espaco [+concreto] passam a ser usados como organizadores do universo discursivo [-concreto] (HEINE; CLAUDI; HUNNEMEYER, 1991). Entre esses niveis, delimitados de forma mais ou menos discreta como dominios metaforicos distintos, ha um continuum de pequenas mudancas que se dao metonimicamente, por contiguidade contextual, em que um uso da origem a outro. Esse movimento mostra um duplo deslocamento: desbotamento do conteudo semantico com ganho pragmatico-discursivo e mudanca gradativa do estatuto categorial--de verbo a MD -, conforme atestam estudos de diversas linguas romanicas cujos verbos de percepcao visual olhar e ver tambem derivam MDs. Um detalhamento dos diferentes contextos de atuacao discursiva desses itens sera feito adiante.

Com uma trajetoria parecida e compartilhando contextos de uso, esses dois marcadores discursivos podem ser inseridos num mesmo dominio funcional, rotulado como chamada de atencao do ouvinte e identificado a partir de uma propriedade de natureza interpessoal--um ato manipulativo de comando. No interior desse dominio funcional, olha e ve atuam como formas concorrentes, podendo ser tratados como variantes de uma variavel linguistica em grande parte de seus contextos de atuacao discursiva. Nao vamos tratar da variacao entre os itens neste artigo. Em relacao a uma analise variacionista, remetemos o leitor a tese de Rost Snichelotto (2009).

Aspectos formais dos MDs olha e ve

Nas amostras analisadas foram feitos dois tipos de levantamento de dados: nas pecas teatrais, foram coletadas todas as ocorrencias de olhar e ver, independentemente do tempo verbal e da pessoa do discurso; nas entrevistas do VARSUL, a coleta restringiu-se aos contextos de P2, que caracterizam os MDs em estudo. As Tabelas 1 e 2 apresentam, respectivamente, o total de ocorrencias de MDs derivados de olhar e ver nas amostras investigadas. Na amostra escrita, constam tambem as ocorrencias das respectivas formas verbais.

Atentemos inicialmente para os resultados da amostra escrita. A distribuicao de olhar apresenta particularidades interessantes. No seculo XIX, foram encontrados 38 verbos e 29 MDs (43% dos usos de olhar sao de MD); no seculo XX a proporcao de marcadores fica um pouco menor: 51 verbos e 22 MDs (30% de MDs). Como se trata de registro escrito, essa frequencia relativamente alta de MDs, ja no seculo XIX, e um indicio forte de que os usos de olha como marcador discursivo devem ter emergido bem antes disso.

Observemos agora as formas dos MDs. As ocorrencias do seculo XIX se concentram em duas formas de P2 (olha = 14 dados e olhe = 12 dados), com apenas uma ocorrencia de olhem. No seculo XX, tambem ha concentracao em P2, porem a proporcao da forma derivada do modo indicativo (IND) e aproximadamente tres vezes maior que a do subjuntivo (SUBJ) (olha = 17 dados e olhe = 5 dados). Esse resultado pode ser indicio de que: (i) esse MD ja se encontra formalmente fixado em P2 no seculo XIX; (ii) deve haver resquicios da forma verbal associada aos pronomes tu e voce. (18) Pode-se inferir, desses resultados, que a forma olha vai se fixando independentemente do pronome de P2 usado.

Na amostra oral, como ja foi dito, computamos somente as ocorrencias de MD como P2. Destacam-se: alguns usos recorrentes de formas combinadas com elementos conectores e adverbiais, provavelmente em processo de cristalizacao; a significativa preferencia pela forma derivada do IND: 471 ocorrencias (81%) de olha (considerando as realizacoes isoladas e combinadas) versus 19 ocorrencias (3%) de olhe. Se projetarmos que os 88 casos de semivocalizacao e de reducao fonetica de olha decorrem da forma do IND, (19) o percentual de realizacao do MD olha por meio de formas derivadas do modo IND chega a 97% dos dados.

Quanto a reducao fonetica de olha, ao se observar a escala em direcao a maior reducao ([' ja] > [' j] > [' ]), nota-se a correspondente diminuicao do numero de ocorrencias (37 > 33 >18). Evidencia-se, aqui, a atuacao do parametro da erosao (HEINE; KUTEVA, 2007), que pode ser explicado em termos de frequencia de uso: palavras que sao frequentemente repetidas no discurso tendem mais a ser encurtadas do que elementos de baixa frequencia (BYBEE, 2003).

A tabela a seguir, adaptada de Rost Snichelotto (2009), apresenta as ocorrencias de formas verbais e MDs derivados de ver nas amostras investigadas.

Iniciemos a analise pela amostra escrita. O item ver apresenta um comportamento diferenciado em relacao a olhar: e um item bem mais produtivo no seu emprego verbal (sec. XIX--118 ocorrencias do verbo ver para apenas 38 do verbo olhar; sec. XX--184 ocorrencias do verbo ver para 51 de olhar). Por outro lado, o uso de ver como MD e bem mais reduzido (sec. XIX--4% das ocorrencias de ver na amostra (118 verbos e 5 MDs) sao de MD; sec. XX--5% dos usos (184 verbos e 10 MDs) sao de MD. Ja o percentual de olhar como MD e de 43% e 30%, respectivamente por seculo).

Quanto a forma dos MDs, no seculo XIX, foram encontradas, nas pecas analisadas, 4 ocorrencias em P4 (vejamos, vamos ver) e uma em P2 (ve la). Ja no seculo XX, a incidencia maior e de P2 (veja), totalizando 7 dados entre formas isoladas e combinadas.

Ainda olhando comparativamente para os MDs: na amostra escrita, sao 66 ocorrencias totais (51 para olha e 15 para ve) entre as quais predomina largamente o MD olha em P2 (50/66 = 76%), em contraste com ve em P2 (9/66 = 13%). Vale observar tambem que, enquanto em apenas duas das dezessete pecas examinadas nao se verificou nenhuma ocorrencia do MD olha em P2, em treze pecas nao houve registro de ve.

Quanto a amostra escrita, fica nitido que: (i) enquanto o MD olha ja se fixa em P2 desde o seculo XIX, o MD ve comeca a se fixar em P2 no seculo XX; (ii) enquanto para olha a forma derivada do SUBJ (olhe) vai recuando no seculo XX em favor da forma derivada do IND (olha), para ve, e a forma derivada do SUBJ (veja) que ganha espaco no seculo XX. Temos, pois, que as formas dos MDs predominantes nas pecas teatrais catarinenses do seculo XX sao: olha (derivada do IND) e veja (derivada do SUBJ).

Na amostra oral, a frequencia de formas combinadas de ve em relacao a formas isoladas (33/131 = 25%) e relativamente maior que a de olha (36/578 = 6%). A exemplo de olha, as formas de ve derivadas do IND (88 ocorrencias) tambem suplantam as do SUBJ (43 ocorrencias), porem em proporcao relativamente menor: 97% de olha e 67% de ve. Os resultados apontam que os catarinenses, na fala coletada na decada de 1990, elegem as formas derivadas de IND--olha e ve para expressar valores de MD.

Notamos, portanto, uma trajetoria diferenciada em Santa Catarina no que se refere a forma dos MDs: enquanto nas pecas a forma preferencial vai se intensificando rumo a olha (IND) e e nitidamente veja (SUBJ), nas entrevistas o uso predominante e de olha (IND) e ve (IND).

Aspectos funcionais dos MDs olha e ve

Nesta secao, focamos a atencao nos contextos de atuacao discursiva de olha e ve. Algumas consideracoes devem ser feitas inicialmente. A primeira diz respeito a identificacao e delimitacao desses contextos, tarefa levada a cabo com apoio, basicamente, na literatura sobre os MDs derivados de verbo de percepcao nas linguas romanicas. A delimitacao dos contextos nem sempre e clara e frequentemente nos deparamos com sobreposicoes e interpretacoes ambiguas. Isso, no entanto, nao e um empecilho para a analise, ja que a perspectiva funcionalista preve que a forca pragmatica se manifesta num continuum refletido em etapas com significados sobrepostos, levando a (re)interpretacoes sugeridas pelo contexto. Em termos metodologicos, porem, a gradiencia acaba sendo discretizada, mas de modo escalar e nao binario (MARTELOTTA, 1998; URBANO, 1999; GORSKI, 2008).

A segunda consideracao concerne ao criterio para a descricao dos contextos analisados. De acordo com a perspectiva teorica assumida neste trabalho, a suposicao e que, a partir de um contexto inerentemente interacional de ato de fala imperativo, os itens vao incorporando tracos de subjetividade advindos do envolvimento maior do F que expressa suas atitudes avaliativas seja em relacao ao comportamento do interlocutor, ao seu proprio comportamento, seja em relacao a situacoes relatadas ou a determinadas porcoes textuais. Nesse sentido, os MDs vao deslocando o foco do O para o proprio F. Nesse processo de subjetivizacao, os itens acabam adquirindo tambem certos tracos de natureza textual, como a ocorrencia em posicoes relacionais, assumindo um carater coesivo bidirecional. Reiteramos que essa expansao polissemica nao se da necessariamente numa linearidade cronologica fixa, podendo coocorrer expansoes de contextos de uso em mais de uma direcao. Portanto o continuum sugerido na ordenacao descrita nesta secao nao deve ser visto como linearmente rigido.

Feitas essas consideracoes, passemos a analise. Nas amostras examinadas, foram identificados dez contextos de atuacao discursiva dos MDs olha e ve, dispostos no quadro 1, associados a autores que identificaram tais contextos em seus estudos (nao necessariamente sobre esses MDs), com uma breve caracterizacao de cada um, adaptada por nos.

Para facilitar a analise conjunta das amostras examinadas, organizamos, na tabela 3, os resultados para cada um dos MDs. Os dados das pecas estao apresentados apenas em numero de ocorrencias. Os dados das entrevistas, como sao em quantidade maior, estao associados aos respectivos percentuais, calculados comparativamente entre os usos de olha e ve para cada contexto. Neste ponto, cabe uma ressalva: os resultados precisam ser considerados com certa cautela, pois sao amostras de modalidades distintas que estao sendo comparadas, alem de haver diferenca quantitativa acentuada entre os dois universos. Acreditamos, no entanto, que o fato de a amostra escrita se restringir ao genero peca teatral e se limitar ao mesmo espaco geografico da amostra oral--ambas de natureza dialogica--atenua em certa medida as discrepancias. Alem disso, a analise nao esta a reboque dos resultados numericos absolutos; a frequencia permite a identificacao da recorrencia relativa de uso dos MDs nos diferentes contextos e auxilia na avaliacao de estagios de mudanca.

Observando os resultados da amostra escrita na tabela 3, adaptada de Rost Snichelotto (2009), notamos que cerca de 60% dos MDs analisados (34/58) se encontramemcontextode advertencia, situacaopredominantenosdoisseculos. Os demais dados se pulverizam com poucas manifestacoes em diferentes contextos. Por outro lado, considerando o total da amostra oral, apenas 15% dos MDs (107/709) sao caracteristicosdocontextode advertencia.Podemos inferir desses resultados que aquelas ocorrencias esporadicas de MDs nos demais contextos nas pecas se intensificaram de modo significativo nos dados de fala atuais, alem de os MDs se expandirem para novos contextos, especialmente o de prefaciacao.

E no contexto de advertencia que localizamos a primeira ocorrencia do MD olha (em (6)) e a unica ocorrencia de ve (em (2)).

(6) JULIETA--E se ele nunca mudar de opiniao?

PAULO--Ha de mudar ... ha de mudar de opiniao ...

JULIETA--Olha, Paulo; queres saber o que eu faria em teu lugar?

PAULO--Vejamos ...

JULIETA--Apresentar-lhe-ia simplesmente a mulher, que julguei digna de meu amor e do meu nome ... (COUTINHO, 2001, p.55).

Provavelmente as ocorrencias de olha e ve em contexto de advertencia assinalem o inicio da mudanca semantico-pragmatica dos itens, visto que o ato de fala manipulativo comeca a se enfraquecer, embora indexando claramente o O. Nas ocorrencias (6) e (2), ao usarem os MDs olha e ve la no inicio de sua fala, os personagens pretendem explicitamente direcionar a advertencia para o interlocutor em funcao de suas acoes realizadas ou pretendidas. Especialmente em (2), a ideia de advertencia e realcada na ultima fala do personagem Macario: "Toma cuidado, menina...". Podemos observar nesses casos nao so a intersubjetividade inerente do contexto de P2, mas tambem certa manifestacao avaliativa do personagem/falante (subjetividade).

Em contexto adversativo, encontramos apenas uma ocorrencia de olha na amostra escrita (ilustrada em (7)) e 51 ocorrencias desse mesmo MD nas entrevistas, indicando o incremento dos contextos de uso dos MDs nos dados de fala.

(7) JOAO ANDRE--E tu gostas dela?

RAIMUNDO--Eu? ... amo-a, amo-a como louco! Tu nunca amaste, Andre, e por isso nao podes avaliar o que se passa em mim.

JOAO ANDRE--Alto la! menas [sic] essa! Eu ca ja tive amores; olha; andei maluco pela Zeferina, que vendia fruita [sic] no Rocio, em Lisboa; era uma mulher do tamanho do mastro da gata ... (CARVALHO, 1994, p.38).

Em (7), ha um contraste no dialogo entre os personagens. Nesse contexto, a intersubjetividade (ato de fala manipulativo, agora mais mitigado) se manifesta associada a avaliacao do personagem Joao Andre quando este manifesta seu descontentamento frente a declaracao de Raimundo.

A meio caminho entre os contextos de advertencia e interjetivo, encontramos duas ocorrencias de olha, uma em cada seculo, com aparente sobreposicao de significados. E o que se verifica em (8), onde o Cabo, na fala iniciada pelo MD, pode tanto estar advertindo Paulo com relacao a sua atitude de tentar se livrar da prisao, como expressando certa surpresa frente a declaracao de inocencia do preso.

(8) PAULO (forcando para se livrar)--Largue-me, com mil demonios! Ja lhe disse que nao fui eu!

O CABO (segurando-o sempre)--Olhe, assim agrava a situacao! ...

COMENDADOR (admirado)--Paulo! (COUTINHO, 2001, p.61).

Prosseguindo, em contextos de atenuacao as ocorrencias de olha correspondem a cerca de 9% dos casos tanto na escrita quanto na fala, nao se verificando, portanto, diferencas entre as amostras em relacao ao uso desse MD nesse tipo de contexto. Nenhuma ocorrencia de ve foi encontrada, o que nos leva a hipotetizar que esse pode ser um contexto de restricao a ve. Observe o exemplo (9).

(9) D. MANOEL--Sim, tens razao: o cao que nos lambe a mao tambem nos tem amizade, e nos o acariciamos; mas nem o cao se eleva a nos, e nem nos baixamos ao cao.

MARIA--tristemente--Meu bom pai, nao seja mau! Como pode fazer tal comparacao?!

D. MANOEL--Olha, Maria, perdoo-te porque es mulher, e ... es crianca. Lembra-te porem sempre de quem descendes: somos de raca que pode quebrar, mas nao dobrar; e fica sabendo que proibo-te toda e qualquer familiaridade com rendeiros, marinheiros e mercadores. Sao viloes, que, quando tem algumas patacas, esquecem a origem e miram alto. Sinto-me sufocado no meio desta gente, e permita Deus que o vento mude a ver se me vejo livre desta ... (CARVALHO, 1994, p.17).

No dialogo em (9), o pai faz uma declaracao que estampa na filha um descontentamento. A fim de atenuar sua declaracao, o pai, ao retomar o turno, inicia-o com o MD olha. Encontramos ainda, nesse tipo de contexto, marca de intersubjetividade, aliada a avaliacao subjetiva na medida em que o F imprime certo abrandamento quanto a declaracao anteriormente expressa.

O contexto interjetivo e o segundo mais recorrente na amostra escrita (22% das ocorrencias de MDs nas pecas se encontram nesse contexto). E interessante observar que, enquanto no seculo XIX ha 6 ocorrencias de olha e nenhuma de ve, no seculo XX o uso de ve (4 ocorrencias) suplanta o de olha (3 ocorrencias). Na amostra oral, tambem se encontram os dois MDs, porem apenas 8% dos dados de fala (55/709) se concentram nesse tipo de contexto.

Foi, portanto, nas pecas que o uso dos MDs se mostrou mais recorrente em contexto interjetivo.

(10) MEFISTO--Por favor, vou ficar com pena de voce e nao teremos drama. Nao percebeu ainda que nao ha solucao para isto? Nao podemos pensar em nada mais amplo, mais coletivo. Meu problema e eu com voce, nada mais.

FAUSTO--so quero entender. Mas tambem nao quero, veja so! Isso tudo e muito antigo. Se eu quero entender, volto ao velho Fausto e vou vender minha alma. Se eu nao quero saber nada, porque estou no tempo certo da historia, nao ha drama. Devolva os ingressos e as pessoas voltam para suas casas sem muito o que pensar. Se bem que ja estao acostumadas. Ah, eu to confuso! (BRUGGEMANN, 1999, p.56).

No exemplo (10), alem da orientacao por parte do F em direcao ao O, a depender da entonacao, o interlocutor pode inferir outra informacao--positiva ou negativa--que expressa a avaliacao de F sobre o que e dito.

Os contextos seguintes sao de prefaciacao e de parentetizacao, ausentes na amostra escrita e com pouco mais de 5% (36/709) e de 3% (23/709), respectivamente, das ocorrencias de MDs na fala. No primeiro contexto, 94% das ocorrencias sao de olha; ja o segundo contexto se revela como o preferencial para ve (65%) nas entrevistas. Na sequencia de exemplos, o primeiro e de prefaciacao e o segundo de parentizacao.

(11) E: E o que que voces comiam? F: Olha, eu [pra] depois que [<me <co>] comecei crescer como gente, olha, na casa do meu pai nunca faltou nada. Jardim, o pai [tinha] sempre foi bem, nos sempre tinhamos porco, galinha. Ele tinha ate as [caixas] caixas de abelha sempre. [<Bo> nos nao] [pra] depois que me conheci como gente, que comecei crescer fome nao passamos nunca porque o pai foi que teve sorte, depois que foi morar la muita foi bem, ne? (22) (PROJETO VARSUL, 2010).

(12) E: E como e que ele se tornou pastor assim teve que estudar? F: F [Ai] ai ele foi aquele dia, ele foi la e se encontrou se, ne? Ele veio de la mudadinho, mudadinho, mudou. [naquela] [daquela] [daquele] daquele dia em diante ele mudou, ele ja chegou mudado. Viu como e que e? [Ele <che>] ele chegou de la Oh! Ele nao lia a Biblia. Voce sabe que essa gente nova assim, eles nao gostam muito assim Oh! Ele gostava [de] de baile, carnaval, nao tinha um carnaval que ele nao fizesse uma fantasia. [Ele] ele desfilava na escola de samba, sabe? Nao tinha um carnaval que ele nao fizesse uma fantasia. Eu tenho ate hoje as fantasias dele ali. E ele voltou de la mudado, mudado. Ele fumava, nao fumou mais. Daquele dia em diante ele nao fumou mais. [Ele nao foi mais] ele nao entrou nem num bar mais. Verdade. Eu fiquei Agora voce ve, ne? a gente Por isso que eu digo: "Deus, o que ele tem pra gente, pra vida da gente, pra pessoa eu acho que, ne?" eu acho que ele escolhe decerto a pessoa, ne? A pessoa e escolhida, por Deus, ne? Esse foi escolhido, porque voce ve: ele chegou de la, aquele dia mesmo ele nao deitava sem se ajoelhar [na] assim na beira da cama dele, orar, ler a Biblia. E ao meio dia assim no almoco e tudo, as vezes os pais precisam <tava> estar dizendo ore ou, ne? faca uma oracao. Nunca mais ele deixou isso ai, orar [na hora da] antes [de] do almoco, quando senta na mesa. E ter a Biblia, isso ele fazia, ne? direto. Nao precisou mais falar nada pra ele fazer. E tambem dali em diante ele nunca mais deixou assim Era direto [da] [na] para o trabalho e do trabalho pra casa e da casa pra igreja. E a vida [dele e &lt;i&gt;] dele agora e essa. [...]. (23) (PROJETO VARSUL, 2010).

Observe que, em (11), o informante retarda a resposta a pergunta do entrevistador. O MD olha introduz a resposta que, no inicio, parece bastante confusa. Sem responder diretamente a pergunta do entrevistador, o F faz questao de ressaltar que na casa do pai nunca faltara nada, inclusive comida, pois a familia criava porcos, galinhas e abelhas. Assim, o entrevistador infere pela resposta sugerida do F que a familia consumia os derivados (carnes, ovos e mel) dessa criacao. Em (12), o trecho destacado assinala interrupcao no seguimento da exposicao do F. Nesses dados, os MDs, alem de indexar a intersubjetividade, tambem expressam a subjetividade do F, que procura ou retardar o topico requerido, ou emitir um comentario parentetico.

Os quatro ultimos contextos expostos na tabela 3 apresentam tracos de carater relacional/textual, com um grau de subjetivizacao maior que os anteriores. Em contexto exemplificativo, encontramos apenas um dado de olha na amostra escrita. Por outro lado, na amostra oral, aproximadamente 14% (99/709) dos MDs estao presentes nesse contexto, mantendo a media de distribuicao entre olha (80%) e ve (20%) nas entrevistas. Vejamos a ocorrencia de escrita.

(13) ELVIRA--(Sentando-se no sofa.) Ter medo de mulheres ... Este homem e ... MACARIO--(Descendo.) E rico, menina, e rico ... Lembra-te disto. ELVIRA--Mas e estupido!

MACARIO--Menina, quem tem dinheiro nunca e estupido, nem ignorante, nem feio e nem idiota. Olha o Ambrosio. Pensas tu que se o Ambrosio tivesse um par de contos de reis, haviam de chama-lo maluco, como o chamam agora? Estas enganada. Todos o considerariam como o homem de mais juizo deste mundo e classificariam de filosofia a sua maluquice! (Indo a esquerda alta.) Ambrosio! Oh! Ambrosio!

AMBROSIO--(Dentro.) Ja vou, patrao.

MACARIO--(Descendo.) Olha conheci um barao tapado como uma porta. O animal,--animal e o termo,--nao abria a boca que nao disesse um chorrilho de asneiras ... mas era podre de rico ... (Indo a esquerda alta.) Oh! Ambrosio! Ambrosio!

AMBROSIO--(Dentro.) Ja vou, patrao! (PIRES, 1999, p.223).

No exemplo (13), o personagem Macario usa o MD olha no inicio de um trecho em que ele pretender dar um exemplo de pessoa "tapada como uma porta". Nesse caso, o componente intersubjetivo diminui e o componente subjetivo vai ganhando mais proeminencia espraiando-se no texto, tendo em vista que o item visa a auxiliar na organizacao do texto de F.

Somente na amostra de pecas relativas ao seculo XX e que se detecta o primeiro uso do MD ve em contexto de opiniao. Seguindo o mesmo padrao de distribuicao do contexto exemplificativo, as ocorrencias de MDs na fala ficam em torno de 15% (110/709); mas diferentemente daquele, encontramos 98% de olha e apenas 2% de ve em contexto de opiniao. Observe o exemplo a seguir.

(14) E: E E o que a senhora acha da lingua italiana? A senhora acha assim que ele [o] [o] a prefeitura faz alguma coisa pra que essa lingua permaneca viva aqui em Chapeco? O que a senhora acha? Acha bonita a [lingua?]

F: [Olha,] [eu acho] e, pra quem entende bem, ela e bonita, ne? quem fala bem e quem ouve ela, assim, no caso, ne? por exemplo, se tu falares bem, que eu te entendo, ne? entao eu acho que duas pessoas que se entendem bem, acho que vale a pena, ne? E bonito. [<Co>] porque eu acho que a mesma coisa das pessoas que falam uma outra lingua tambem, ne? e e importante, ne? no caso se falar mais linguas Mas aqui bem assim, pra te dizer a verdade, eu nao sei mesmo [o que que eles] o que que eles estao fazendo com a lingua italiana, ne? acho que nao fazem muita coisa, nao. (24) (PROJETO VARSUL, 2010).

Em (14), o F emprega o MD olha na abertura de um contexto em que e instigado a expor sua opiniao sobre a lingua italiana, ratificada pelo uso do MD de opiniao (eu) acho (que). O MD se localiza em posicao relacional marcando a crenca/opiniao do F.

O contexto que se mostra mais recorrente na amostra oral e o causal, com 23% das ocorrencias (162/709). Esse e tambem o contexto em que os MDs se distribuem de modo mais equilibrado na amostra oral, com 51% de olha e 49% de ve. Na escrita, temos um dado de olha no seculo XIX e dois de ve no seculo XX. O contexto causal pode ser bem ilustrado com o exemplo (15), onde o MD coocorre com o conector porque, reforcando o valor relacional do MD, o que torna o componente subjetivo mais atuante, no sentido de que o F procura organizar seu proprio texto.

(15) E: Como e que e, como e que consegue conciliar assim do Voce e vendedora, ne? como e que consegue conciliar, assim, tu tens quatro filhos pra cuidar, ne? e mais o trabalho de casa e mais o trabalho de fora. Como e que consegue?

F: Olha, [nao e] nao e bem facil, ne? porque veja bem, quatro filhos mais o de casa, ne? eu acho, assim, que e bem <dificultoso>, sabe? pra mim. Tanto que eu tenho tudo eu tenho horario, sabe?

pra tudo eu tenho horario, ne? Entao de manha eu tenho que ficar em casa porque, ne? tem que lavar roupa tem que fazer almoco, ne? ate [mandar] mandar todo mundo pra escola. Entao, geralmente eu saio [depois da] de tarde, ne? depois que eu acabo o servico, ne? Entao foi esse meio que eu achei pra mim ter [o meu] o meu dinheiro, o meu ganho, ne? pra ajudar em casa, foi esse. Porque se eu arrumo um servico no comercio ou um outro tipo de servico ai, com o grau de estudo que eu tenho, eu vou ganhar pouco, ne? pra mim pagar uma empregada, nao da, se eu for tirar pra sair o dia todo de casa, eu tenho que colocar uma empregada porque dai nao vou dar conta, as criancas sao pequenas, tem que ter alguem pra atender, ne? [...].(25)

Por fim, foram identificadas duas ocorrencias de olha em contexto concessivo na fala e nenhuma ocorrencia de MD nesse contexto na escrita. Vejamos o exemplo a seguir:

(16) E: E Mas o senhor acha que ele e capaz de ganhar a [eleicao?]

F: [Nao,] nao. [A gente] ai a gente tem que ser honesto com a gente mesmo [ele nao] talvez numa proxima, agora ele se lancando como presidente pra ele ser conhecido, nacionalmente, ta? Porque, no Nordeste, eles nao conhecem [quem e o] quem e o Espiridiao Amin, ne? Talvez ate Sao Paulo, ta? e olha la. Quem e o Espiridiao Amin? Eles conhecem agora, porque caracterizam ele, por causa daquela careca, aquele negocio todo, e uma figura que marca. Mas, pra presidente da republica, [nao] mesmo com [a] toda midia e com supondo se que a Globo ou a Manchete, todo mundo investisse em cima de Amin, mesmo assim, eu acho que ele nao ganha, porque eu acho que esse ano e do Lula e [ninguem] leva, e, eu acho que ninguem leva, e.). (PROJETO VARSUL, 2010).

Nesse contexto, julgamos que e olha la atua como operador argumentativo, uma vez "que poe em duvida o argumento que o falante apresentou como valido" (TRAVAGLIA, 2003, p.134). Essa construcao frequentemente atua no fechamento do turno desenvolvido pelo F, devolvendo-o ao entrevistador. Em termos de graus de envolvimento de F e O, o item indexa sutilmente a intersubjetividade, alocando-se no final do enunciado; por outro lado, acentua claramente a avaliacao subjetiva do F.

O mapeamento semantico-pragmatico dos itens indica que olha e ve convivem como camadas do dominio da chamada da atencao do ouvinte em

sete dos dez contextos de atuacao discursiva descritos (com a ressalva de que em contextos de advertencia, opiniao e prefaciacao, o uso de ve e incipiente). Apenas tres contextos sao de uso exclusivo do MD olha (adversativo, de atenuacao e concessivo). Nesse caso, podemos interpretar esses contextos, pelo menos nas amostras analisadas, como de restricao ao uso de ve.

Consideracoes Finais

A analise realizada--considerando-se o contexto comunicativo/pragmatico em que itens lexicais/gramaticais podem desenvolver polissemicamente novas funcoes e admitindo-se que o aumento de (inter) subjetividade impulsiona a gramaticalizacao--evidenciou que:

(i) o MD olha e o item de uso produtivo mais antigo nas pecas teatrais; a taxa percentual de seu uso em relacao a ve se mantem superior a 80% em ambas as amostras, escrita e oral;

(ii) quanto a forma dos MDs, olha (IND) se estabeleceu na escrita ao longo do tempo, sendo de uso largamente preferencial na fala; por outro lado, veja (SUBJ) e forma praticamente categorica na escrita e ve (IND) e predominante na fala;

(iii) contextos de uso dos MDs em pecas teatrais ja no seculo XIX se mantem nas entrevistas sociolinguisticas atuais e se expandem significativamente;

(iv) significados de conteudo evoluem para significados procedurais, passando tambem a apresentar matizes textuais (mais de 50% dos dados de MD na fala se distribuem em contextos e posicoes relacionais, notadamente causal, exemplificativo e de opiniao--sendo este ultimo de uso quase exclusivo de olha);

(v) a rotinizacao de determinado item num certo tipo de contexto pode fazer com que tracos do contexto sejam incorporados a ele, de modo que valores contextuais podem passar a ser interpretados como parte do significado do item;

(vi) a ritualizacao resultante da repeticao de uso se reflete tanto na reducao fonetica e na rigidez formal como na generalizacao de contextos, indicios de um processo de mudanca mais adiantado do MD olha em relacao a ve.

Concluimos, portanto, que os MDs olha e ve, resultantes de mudanca semantico-pragmatica e de mudanca categorial verbo > MD, podem ser incluidos no rol de itens que passam por processo de gramaticalizacao no PB, a semelhanca do que ocorre em outras linguas romanicas.

Recebido em marco de 2011.

Aprovado em abril de 2011.

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Claudia Andrea ROST SNICHELOTTO, UFFS--Universidade Federal da Fronteira Sul. Chapeco--Santa Catarina--Brasil. 89802- 112--claudiarost@uffs. edu.br

Edair Maria GORSKI, UFSC--Universidade Federal de Santa Catarina. Florianopolis--SC--Brasil. 88040-900-- gorski@cce.ufsc.br

(1) Adotamos como representantes dos itens em estudo as formas olha e ve, negritadas. Embora essas formas apresentem realizacoes distintas para a primeira, olha ~ olhe ~ ['ojaj ~ ['ojj ~ ['o], e para a segunda, vejas ~ veja ~ ve ~ ves, inclusive construcoes como olha so e veja bem, escolhemos as derivadas do indicativo porque sao as de uso mais generalizado nas entrevistas do Projeto Interinstitucional VARSUL (ROST, 2002; ROST SNICHELOTTO, 2009). Usaremos "olhar" e "ver" ao nos referirmos aos verbos.

(2) Agradecemos as contribuicoes do parecerista anonimo. Quaisquer problemas remanescentes sao de nossa responsabilidade.

(3) Este artigo e uma retomada revista de parte da tese de Rost Snichelotto (2009)

(4) Os codigos P2 e P1 remetem, respectivamente, a segunda e a primeira pessoa do discurso (CAMARA JUNIOR., 1994).

(5) Para uma revisao mais abrangente e detalhada acerca de diferentes enfoques e criterios definidores dos MDs, e de estudos sobre marcadores em portugues e demais linguas romanicas, particularmente os de base verbal, remetemos o leitor ao trabalho de Rost Snichelotto (2009).

(6) As letras F e O sao usadas para referir os interlocutores: falante/escritor e ouvinte/leitor, respectivamente.

(7) Anteriormente, Castilho (1989) apresentou a caracterizacao formal e funcional dos MDs olha e veja bem; Marcuschi (1989) analisou as formas, posicoes e funcoes dos Marcadores Conversacionais como olha ~ olhe e viu?. Tambem Martelotta, Votre e Cezario (1996), do Grupo Discurso & Gramatica, e Silva e Macedo (1996), do grupo PEUL/UFRJ dedicaram-se a breve classificacao de MDs como olha, ve e viu?.

(8) Na abordagem defendida por Traugott (2002, 2003b, 2010), a (inter)subjetividade e observada numa perspectiva sincronica, enquanto a (inter)subjetivizacao e percebida diacronicamente.

(10) "Tenho algo a lhe dizer, querida, disse Caleb em seu tom hesitante ... Veja, eu fui um tanto tolo novamente, e assumi uma divida" (TRAUGOTT, 2010, p.48, grifo do autor, traducao nossa). No caso especifico desse exemplo, a autora coloca em foco tambem o uso da construcao a bit of a fool (um tanto tolo), considerando a mudanca: a bit of (um pedaco de) partitivo > modificador de grau, como um caso de subjetivizacao.

(11) Veja-se tambem o caso do MD say em muitos de seus significados (assume, about, for example, tell me). Say deriva de um uso imperativo, naturalmente intersubjetivo portanto, mas e subjetivizado ao longo do tempo: o uso about e um tipo de topicalizador, e o uso tell me expressa impaciencia do F (BRINTON, 2005 apud TRAUGOTT, 2010).

(12) Para uma discussao trajetorias, rementos o leitor ao trabalho de Gorski, Rost e Dal Mago (2004)

(13) Segundo Heine e Kuteva (2007), a extensao tem tres componentes: um sociolinguistico, outro pragmaticotextual e um terceiro semantico. O componente sociolinguistico tem a ver com a inovacao e a propagacao; o componente pragmatico-textual envolve a extensao de um contexto usual para novo(s) contexto(s) e a disseminacao gradual para contextos mais gerais; o componente semantico concerne a expansao de um significado existente para outro que e evocado ou suportado pelo novo contexto. Os componentes pragmatico e semantico sao dois lados de um mesmo processo que caracteriza a emergencia de novas estruturas gramaticais.

(14) Detalhes sobre a constituicao do banco de dados VARSUL podem ser conferidos em Projeto Varsul (2010).

(15) O Banco de dados diacronicos e constituido de textos a partir do seculo XIX, uma vez que a imprensa em Santa Catarina foi fundada somente em 1831. Embora o Banco disponha de mais pecas de um mesmo autor, selecionamos apenas um texto de cada um dos 17 autores catarinenses que integram a amostra.

(16) Como algumas pecas de teatro apresentam numero de paginas mais extenso, para que houvesse certo equilibrio entre os textos, procedemos a captacao do fenomeno numa extensao entre 20 a 40 paginas.

(17) Por uma questao de espaco, optamos por mesclar dados ora de um ora de outro MD e apresentar basicamente exemplos da amostra escrita. Ocorrencias que evidenciam essa trajetoria, coexistindo sincronicamente, sao encontradas tambem na oralidade (ROST SNICHELOTTO, 2009).

(18) Loregian-Penkal (2004) evidencia, para a mesma amostra oral por nos analisada, a seguinte distribuicao de uso dos pronomes tu e voce em Santa Catarina: 23% dos informantes usam apenas a forma tu; 14% usam apenas voce; e 63% fazem uso variavel das duas formas pronominais.

(19) Estamos fazendo uma projecao hipotetica mas que consideramos plausivel, ja que nao foi encontrada nenhuma forma de [oji] ou ['oje], que pudesse ser identificada como um caso de semivocalizacao de olhe. No entanto nao fica descartada a possibilidade de olhe > |'oj] > |'oj.

(20) Empregamos o termo causa em sentido amplo, recobrindo outros significados como razao, explicacao, justificativa (PAIVA, 1992).

(21) Nos dados diacronicos, o contexto interjetivo reune, no seculo XIX, tambem 1 dado de advertencia/interjetivo e 1 dadodeatenuacao/interjetivoe, noseculo XX, 1dadodeadvertencia/interjetivo.
Tabela 1--Distribuicao das ocorrencias de formas verbais e MDs
derivados de olhar por amostra

                                                MDs

                          FORMAS            FORMA ISOLADA
                          VERBAIS

                                    olha   ['[??]ja]   ['[??]j]

             Sec. XIX       38       14
Amostra      Sec. XX        51       17
Escrita   Total parcial     89       31
           Total geral      89
Amostra     Dec. 1990        /      436       37          33
Oral      Total parcial      /                            542
           Total geral       /

                                   MDs

                              FORMA ISOLADA

                          ['[??]]   olhe   olhem

             Sec. XIX                12      1
Amostra      Sec. XX                 5
Escrita   Total parcial              17      1
           Total geral                       51
Amostra     Dec. 1990         18     18      /
Oral      Total parcial
           Total geral                       578

                                         MDs

                                  FORMAS COMBINADAS

                          olha   pois   mas    olha   olhe
                           la    olha   olha    so     so

             Sec. XIX                    2
Amostra      Sec. XX
Escrita   Total parcial                  2
           Total geral
Amostra     Dec. 1990      2      14     17     2      1
Oral      Total parcial                  36
           Total geral

Fonte: Adaptada de Rost Snichelotto (2009, p.233, 293).

Tabela 2--Distribuicao das ocorrencias de formas verbais e MDs
derivados de ver por
amostra

                                                     MDs

                          FORMAS                FORMA ISOLADA
                          VERBAIS

                                    ve    ves   veja   vamos   vejamos
                                                       ver

Amostra     Sec. XIX        118                          1        3
escrita      Sec. XX        184            3             2
          Total parcial     302            3             3        3
           Total geral      302     15
Amostra     Dec. 1990        /      83     2     13      /
Oral      Total parcial      /                          98
              Total          /      131
              geral

                                             MDs

                                        FORMAS COMBINADAS

                          vejam   ve bem   ve so   ve la   veja   veja
                                                           bem    so

Amostra     Sec. XIX                                 1
escrita      Sec. XX        1                               1      3
          Total parcial     1                        1      1      3
           Total geral
Amostra     Dec. 1990       /       1        2       0      23     7
Oral      Total parcial                             33
              Total
              geral

Fonte: Adaptada de Rost Snichelotto (2009, p.236).

Tabela 3--Distribuicao pancronicadeolha evedeacordocomos contextos
de atuacao
discursiva em amostras escrita e oral

                                 Amostra escrita

                    Seculo XIX       Seculo XX

MDs                  olha     ve     olha     ve     TOTAL

Contextos           Ocor.    Ocor.   Ocor.   Ocor.

De cdvertencic        17       1      16      --      34
Adversctivo           1       --      --      --       1
De ctencccao          2       --       3      --       5
Interjetivo         6 (21)    --       3       4      13
De prefcciccao        --      --      --      --      --
De parentetizacao     --      --      --      --      --
Exemplificativo       1       --      --      --       1
De opiniao            --      --      --       1       1
Causal                1       --      --       2       3
Concessivo            --      --      --      --      --
Total                 28       1      22       7      58

                                Amostra oral

MDs                 Olha           ve          TOTAL

Contextos           Freq.         Freq.   %

De cdvertencic       105    98      2     2     107
Adversctivo          51     100    --     --    51
De ctencccao         64     100    --     --    64
Interjetivo          44     80     11     20    55
De prefcciccao       34     94      2     6     36
De parentetizacao     8     35     15     65    23
Exemplificativo      79     80     20     20    99
De opiniao           108    98      2     2     110
Causal               83     51     79     49    162
Concessivo            2     100    --     --     2
Total                578    82     131    18    709

Fonte: Adaptada de Rost Snichelotto (2009, p.304).

Quadro 1--A multifuncionalidade de olha e ve

Contextos de atuacao discursiva dos MDs olha e ve

De advertencia (PONS BORDERIA,   Esse tipo de contexto caracteriza-se
1998; ROST, 2002; WALTEREIT,     como uma especie de alerta, conselho
2002; DOMINGUEZ PORTELA,         ou aviso direcionado ao interlocutor.
2008).

Adversativo (WALTEREIT, 2002).   Uma dada declaracao opoe os parceiros
                                 conversa-cionais. O ouvinte infere
                                 algo a partir da declaracao de F e
                                 produz, na sequencia, uma afirmacao.
                                 Ao retomar o turno, F expoe uma
                                 resposta contraria a expectativa de
                                 O.

De atenuacao (CASTILHO, 1989;    Com o uso do MD, F ameniza e
SILVA; MACEDO, 1996; ROST,       controla, por antecipacao, possiveis
2002; DOMINGUEZ PORTELA,         reacoes negativas do O a respeito do
2008).                           que sera expresso; ou seja, F se
                                 descompromete com uma afirmacao que
                                 poderia vir a ser inferida
                                 negativamente por O.

Interjetivo (ROST, 2002;         Nesse contexto, o MD introduz um
WALTEREIT, 2002; DOMINGUEZ       trecho que revela surpresa ou
PORTELA, 2008).                  decepcao com relacao ao
                                 relatado/exposto. A entonacao de F
                                 somada ao que e dito pode provocar
                                 uma dada inferencia no O.

De prefaciacao (SCHIFFRIN,       O MD introduz um trecho que indica
1987; RISSO, 1999, 2006; ROST,   certo retardamento do topico da
2002, DOSTIE, 2004).             pergunta aberta pelo entrevistador. A
                                 resposta solicitada pelo
                                 entrevistador e inferida ou
                                 apresentada mais tardiamente.

De parentetizacao (JUBRAN,       O MD insere-se num enunciado
2006).                           parentetico em que o F encaixa um
                                 comentario que nao integra
                                 diretamente a articulacao topica
                                 sugerida pelo entrevistador. O
                                 topico, momentaneamente desviado, e
                                 retomado assim que se fecharem os
                                 parenteses.

Exemplificativo (ROST, 2002;     Nesse tipo de contexto, o MD introduz
DOSTIE, 2004; DOMINGUEZ;         uma sequencia que visa reforcar com
ALVAREZ, 2005).                  exemplos o que esta sendo dito por um
                                 ou outro dos interlocutores.

De opiniao.                      Trata-se de contexto em que um
                                 personagem/falante faz uma avaliacao
                                 e emite sua opiniao sobre um
                                 assunto/fato/pessoa.

Causal (ROST, 2002; MARIN        Trata-se da sinalizacao de uma
JORDA, 2003; DOSTIE, 2004;       especie de conexao entre dois
DOMINGUEZ; ALVAREZ, 2005;        segmentos um dos quais encerra a
DOMINGUEZ PORTELA, 2008).        causa (20) que acarreta a
                                 consequencia/efeito, explicacao ou
                                 conclusao contida no outro.

Concessivo (TRAVAGLIA, 2002;     Nesse contexto, a expressao e olhe la
ROST, 2002).                     (cristalizada pelo uso) encerra um
                                 trecho que indica uma especie de
                                 limite de concessao.

Fonte: Adaptado de Rost Snichelotto (2009, p.229).
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Title Annotation:ORIGINAL ARTICLES / ARTIGOS ORIGINAIS
Author:Rost Snichelotto, Claudia Andrea; Gorski, Edair Maria
Publication:Alfa: Revista de Linguistica
Date:Jul 1, 2011
Words:12639
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