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'Everything is related' by Andre Penteado, or the moment when Angela Davis occupied a commercial area on Avenida Sumare/'Tudo esta relacionado' de Andre Penteado, ou o momento em que Angela Davis habitou uma sala comercial na avenida Sumare.

Introducao

Entro na exposicao Tudo esta relacionado. Andre Penteado me recepciona, ele recebe todos os visitantes. Ja no hall de entrada quatro videos sao projetados ao mesmo tempo em loop. Aparecem combinados filmes 16 mm feitos pelo avo de Penteado nos anos 40; super 8 dos anos 70 da sua tia Gilda; trechos do filme A Moreninha, estrelado por sua tia Tony, e pequenos videos digitais de autoria do artista. No corredor que da acesso as salas, imagens fotograficas postas na parede; depois trafego pelas divisorias de vidro, que dao passagem as demais salas. Uma das salas contem ampliacoes divididas por paletas de cor, por exemplo. Em outras veem-se ampliacoes e contatos de varias epocas da familia de Penteado, convivendo com mesas sobre as quais ha livros de artista, fotografias dos primordios fotograficos, albuns de familia e negativos preto e branco, 35 mm, fotografados por uma tia fotografa, chamada Gilda, do tempo em que morou nos Estados Unidos nos anos 1970. E na sala 3, numeracao dada pelo fotografo, e a em que fico mais tempo: ela tem duas divisorias de vidro, uma frontal e outra lateral. Logo na entrada pode-se ver o verso das imagens postas (Figura 1). Olho para a parede oposta a divisoria, e entre os versos das fotografias vejo a imagem de Rebecca, uma jovem que participou de um projeto de Andre sobre familias de suicidas. (O projeto teve inicio depois de uma tragedia pessoal: o pai de Andre se matou. O primeiro livro de Penteado, publicado em 2014, foi sobre o tema: Suicidio de meu pai.) A imagem me chama a atencao e me aproximo. Aquele olhar me intriga. Depois, ao entrar na sala, do lado esquerdo de Rebecca encontro Angela Davis e, a esquerda de Davis, a tia de Andre, Gilda, a autora da imagem de Davis.

A exposicao pode ser lida como um atlas que une tres seculos de imagens. Volto para Davis varias vezes; outras mulheres negras estao retratadas naquela sala, mas e Davis que me desperta a atencao: ela e ativista e esta em um momento simbolico e bom para pensar.

A imagem de Angela Davis esta na quina (Figura 2). Ela esta em um momento combativo no meio da multidao, seguramente a falar de direitos civis. A imagem e o trecho da lamina do atlas em que eu paro.

Eu me afasto da sala, tento retomar as demais salas da exposicao. Mas e a imagem de Davis que segue comigo ao longo do trajeto. Talvez seja o grande labirinto das questoes raciais unidas as questoes das mulheres, que ainda nao resolvemos e segue entre as laminas do atlas. O atlas, para Didi-Huberman, e como uma mina. Ele e uma forma visual de conhecimento, uma maneira sabia de ver: "Contra toda a pureza estetica, introduz o multiplo, o diverso, todo o hibridismo da montagem" (Didi-Huberman, 2010: 15).

O lugar de Davis na montagem do artista e momento gatilho para mim. E a partir dela que faco a leitura do atlas (da exposicao). A partir da imagem de Davis, eu realizo o percurso na exposicao; porem, antes de falar de Davis, contarei um pouco de Tudo esta relacionado.

1. Um pouco sobre a exposicao

Andre Penteado e um artista brasileiro de familia quatrocentona, termo que usamos para aqueles que estao no Brasil desde os tempos coloniais. Pessoas que ocuparam no passado, e muitos ainda ocupam, um espaco de privilegio social e cultural em nossa sociedade.

Ao ser questionado por mim quanto aos motivos pelos quais realizou o projeto, Penteado me contou que Tudo esta relacionado surgiu de uma vontade de ver o que ja estava presente desde o comeco no seu trabalho e como isso se relacionava com as imagens de sua familia. A ancestralidade e o que move Tudo esta relacionado, e seguramente por isso os objetivos da exposicao, para o autor, foram integrar e relacionar quatro arquivos distintos, um herdado pela familia e tres gerados por ele (Figura 3).

O lugar da exposicao foi essencial para Penteado, um andar comercial--uma antiga oficina de telefones celulares--. localizado no bairro de Perdizes em Sao Paulo.

Apos meses olhando todos os arquivos e fazendo apre-selecao das fotografias, conclui que este trabalho deveria ser mais do que um estudo sobre memoria e afetos familiares. Ele deveria, tambem, enfatizar questoes relacionadas a propria natureza da imagem fotografica. [...] a oficina ajudaria a complexificar o seu entendimento. Esta decisao trouxe para a superficie do projeto a questao do arquivo, de onde e como sao guardadas as memorias--qualquer memoria, nao somente as familiares--e a relacao da imagem fotografica com elas (Penteado, comunicacao pessoal, 2015).

A oficina, com suas paredes brancas e divisorias de vidro, permitiu que mais de uma sala fosse vista de cada vez e tambem que se tivesse acesso ao verso de algumas fotografias. Estas sobreposicoes de imagens, alem de enriquecerem a exposicao, criam as camadas e camadas de ancestralidade entregues nas imagens.

2. O atlas

Como reler o que produzimos e o que herdamos? Como prever o porvir, a ultima imagem a se realizar? Essas perguntas sao essenciais ao projeto de Andre Penteado e elas fazem parte da sua busca por compreender as conexoes entre as milhares de fotografias da exposicao.

Tudo esta relacionado e o atlas da ancestralidade de Penteado, porem nao segue nenhuma logica cronologica, e uma exposicao completamente anacronica. O processo de ocupacao das paredes, segundo o autor, foi tambem intuitivo. Ele afirma que fez um mapeamento, entretanto o destino final e o desconhecido.

Todavia, o encontro com o desconhecido e o encontro com a diversidade. A comparacao com o Atlas (Mnemosyne) de Aby Warburg e fecunda para se pensar, ja que a forma de montagem realizada por Warburg e muito usual entre artistas contemporaneos. De acordo Cristina Tartas Ruiz e Rafael Guridi Gardia (2013), cada uma das fotografias do Atlas de Aby Warburg constituia uma lamina do atlas. O processo permite o reposicionamento de imagens ou a introducao parcial de novos elementos, para estabelecer novas relacoes, um processo aberto e infinito (Ruiz & Garcia, 2013: 4).

Parto da ideia de que, por ser aberto o processo, a leitura por meio da imagem de Angela Davis se mostra essencial, ja que e o atlas uma maquina de ativacao de ideias e relacoes (Ruiz & Garcia, 2013). E no atlas que a ancestralidade do autor (Andre Penteado) se encontra com um fato historico e importante: a luta pelos direitos civis. O fato e incorporado no ativismo de Angela Davis, uma das mulheres mais importantes dos anos 1970.

3. O trajeto, o encontro com Angela Davis, a imagem gatilho
   They gave you sunshine
   They gave you sea
   They gave you everything but
   the jailhouse key.
   They gave you coffee
   They gave you tea
   They gave you everything
   but equality
   "Angela", Yoko Ono e John Lenon


A imagem de Angela Davis esta na quina de uma parede da sala 3, a sala de paredes e vidros expostos. Ela esta num comicio, seguramente sao os duros anos 1970. Atras dela as iniciais da Cia trazem tres palavras chaves: conspiracao, imperialismo e agressao (Figura 4). Naquela epoca, Angela Davis era a mulher mais perseguida do pais do capital, os Estados Unidos da America. Filosofa e escritora, Davis era temida pelo fato de ser negra, ativista e comunista. Logo depois, foi presa. E la o mundo clamou por sua liberdade. A ela, eles deram tudo menos a igualdade. Assim diz trecho da musica de Yoko Ono e John Lenon.

Hoje Angela Davis segue viva, com 71 anos, seus escritos feministas sao lidos por milhares de mulheres negras, na maioria jovens de todas as Americas e da Africa. Entre as socializadas como brancas, como eu, pouco lemos o que Davis escreveu (cf. Davis, 1981). Ainda seguimos a crer que a luta pelos direitos das mulheres teve inicio com as sufragistas. Ledo engano.

Mulheres negras sempre trabalharam. O trabalho precario segue com elas ate os dias de hoje. Seguramente, falar de liberdade e direitos das mulheres--e, por consequencia, feminismo--so e potente quando agregado as questoes raciais e de classe social.

Busco nos escritos de Davis o que ela diz sobre os afrodescendentes daquele pais:

Atraves do forcado sistema de arrendamento, o povo negro foi obrigado a realizar os mesmos papeis executados por eles proprios na escravatura. Homens e mulheres foram detidos ou presos, ao menor pretexto, afim de serem alugados pelas autoridades como trabalhadores condenados. Enquanto os donos de escravos reconheceram os limites da crueldade com a qual eles exploravam a sua "valiosa"propriedade humana, essas cautelas nao eram necessarias para os plantadores do pos-guerra que alugavam os negros condenados por relativamente pequenos prazos (Davis, 2013: 68).

Ao lado de Davis, tanto esquerdo quanto direto, duas mulheres brancas. A esquerda, Gilda, numa foto arrancada de um album de familia onde esta escrito "Berkeley 1975". Seguramente, anos depois de ter se encontrado com Angela no comicio, Gilda se casou e teve um filho. A direita, Rebecca, antes mencionada. Certamente, as duas mulheres--Gilda e Rebecca--ja deviam ter encontrado mulheres negras trabalhando em situacoes de trabalho domestico. A voz de Angela Davis volta a falar:

Se as mulheres brancas aceitavam o trabalho domestico, apenas se nao encontrassem nada melhor, as mulheres negras estavam aprisionadas nessa ocupacao ate ao advento da Segunda Guerra Mundial (Davis, 2013: 71).

A desigualdade entre mulheres e latente ate hoje. Na propria exposicao de Andre Penteado ha uma imagem de uma mulher negra prestando servicos domesticos com um pano branco na mao, por exemplo. Ate hoje mulheres negras seguem a receber salarios inferiores as mulheres brancas. Os anos 1970 foram importantes para a luta racial e feminista tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Na America Latina, as mulheres de esquerda pegavam em armas. As feministas negras sao categoricas ao falar de feminismo:

As mulheres brancas que dominam o discurso feminista--as quais, na maior parte, fazem e formulam a teoria feminista--tem pouca ou nenhuma compreensao da supremacia branca como estrategia, do impacto psicologico da classe, de sua condicaopolitica dentro de um Estado racista, sexista e capitalista (Hooks, 2015: 196).

As questoes raciais sao aprofundadas e tornam-se complexas quando unidas as de genero e classe social, pontua Bell Hooks, outra teorica feminista afro-americana. Volto a Davis, que fala das mesmas questoes, e, por meio de Davis e Hooks, reencontro Sueli Carneiro, uma das mais importantes pensadoras brasileiras:

Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a protecao paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nos, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritario, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frageis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante seculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas ... Mulheres que nao entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! (Carneiro, 2003: 1).

A voz da brasileira se soma a todas as outras e tambem as imagens que compoem o projeto de Penteado. "As imagens sao atos, memorias, questionamentos (...) visoes e prefiguracoes" (Samain, 2011: 40).

Depois do encontro de tantas vozes falantes em um unico trecho da lamina do atlas, volto ao projeto de Andre Penteado como um todo, volto as suas perguntas primordiais e me indago: Como reconstruir o porvir ou mesmo falar das imagens que herdamos, incluindo o questionamento de nossos lugares de privilegios como mulheres e homens brancos?

Artigo completo submetido a 26 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016.

Referencias

Carneiro, Sueli (2003) "Enegrecer o feminismo: a situacao da mulher negra na America Latina a partir de uma perspectiva de genero." In ASHOKA, Empreendedores Sociais e TAKANO Cidadania (org). Racismos Contemporaneos. Rio de Janeiro: Takano [Consult. 2015-11-22] Disponivel em: http://www.unifem.org.br/ sites/700/710/00000690.pdf.

Davis, Angela (1981). Mulher, raca e classe. Traducao Livre. Plataforma Gueto_2013.

Didi-Huberman, Georges (2010). Atlas. ?Como llevar el mundo a cuestas? Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, Madrid. 26 noviembre 2010-28 marzo 2011.

Hooks, Bell (2015, jan.-abr.). "Mulheres negras: moldando a teoria feminista." Revista Brasileira de Ciencia Politica, Brasilia, n. 16: 193-210. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0103-335220151608.

Ruiz, Cristina Tartas & Garcia, Rafael Guridi (2013). "Cartografias de la Memoria. Aby Warburg y el Atlas Mnemosyne." EGA: Revista de Expresion Grafica Arquitectonica, n. 21: 226-35. [Consult. 2015-11-22] Disponivel em: http://dialnet. unirioja.es/ejemplar/335370.

Russo, Felipe (2015 nov.). Tudo esta relacionado, Andre Penteado e o outro. Jornal de Borda 02.

Samain, Etienne (2011 jul.). "As 'Mnemosyne(s)' de Aby Warburg: Entre antropologia, imagens e arte." Revista Poiesis, Niteroi, n. 17: 29-51. [Consult. 2015-11-19] Disponivel em: http://www. poiesis.uff.br/.

FERNANDA GRIGOLIN MORAES, Brasil, artista visual. Bacharel em Comunicacao Social (Universidade Metodista de Sao Paulo, UMESP). Mestre em Artes Visuais Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

AFILIACAO: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes. R. Elis Regina, 50, Cidade Universitaria Zeferino Vaz, Campinas, CEP 13083-854, Sao Paulo, Brasil. E-mail: fernanda.grigolin@gmail.com

Caption: Figura 1. Andre Penteado. Visao geral da sala 03 da exposicao a partir das divisorias de vidro. Fonte: artista.

Caption: Figura 2. Andre Penteado. Detalhes da quina com a imagem de Angela Davis e as das outras duas mulheres. Fonte: artista.

Caption: Figura 3. Andre Penteado. Visao geral de uma das salas da exposicao. Fonte: artista.

Caption: Figura 4. Imagem que aparece Angela Davis presente na exposicao de Andre Penteado.. Fonte: artista.
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Title Annotation:Original articles/Artigos originais
Author:Moraes, Fernanda Grigolin
Publication:Estudio
Date:Apr 1, 2016
Words:2232
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