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'Between Solaris and Nostalgias': photography and painting in the works of Jociele Lampert/'Entre Solaris e Nostalgias': fotografia e pintura nas obras de Jociele Lampert.

Introducao

Este artigo tem como foco a artista visual brasileira Jociele Lampert (Santa Maria/RS, 1977). Atualmente docente na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC/Brasil)--e no ensino desde 2003--, onde leciona e pesquisa o cruzamento da pratica, pesquisa e ensino artisticos. E e a pintura que abre portas e janelas para sua poetica.

Jociele Lampert possui graduacao em Desenho e Plastica--Bacharelado em Pintura, pela Universidade Federal de Santa Maria (2002), graduacao em Desenho e Plastica--Licenciatura pela mesma universidade (2003). Fez seu mestrado em Educacao tambem na Universidade Federal de Santa Maria (2005). Doutora em Artes Visuais pela Escola de Comunicacoes e Artes da Universidade de Sao Paulo (2009). Sua pesquisa como professora visitante no Teachers College na Columbia University na cidade de Nova Iorque (como Bolsista Fulbright, 2013), permitiu o estudo intitulado: Artist's Diary and Professor's Diary: roamings about Painting Education. Destaca-se em sua carreira academica a criacao e coordenacao do Grupo de Estudos Estudio de Pintura Apotheke (UDESC).

Escolhemos trabalhos recentes da artista para analisar, que fazem parte da exposicao individual "Solaris" acontecida em 2017 na Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti, na cidade Florianopolis (Santa Catarina/Brasil) e de seu portefolio de fotografias (Lampert, 2017)--dentre as quais a cianotipia Rublev. Os trabalhos incluem pinturas, desenhos, monotipias, serigrafias e cianotipias, baseadas em imagens dos filmes do cineasta Andrei Tarkovski.

Sera utilizado Pastoreau (2016) para aprofundarmos a historia e significado da cor azul, Campany (2008) para a discussao da aproximacao da fotografia e cinema. Faz-se necessario citar os filmes de Andrei Tarkovski para compreender as relacoes entre esta cinematografia e o trabalho da artista.

1. Arte entre meios

A exposicao individual "Solaris" (Lampert, 2017), como ja foi escrito, inclui pinturas, desenhos, monotipias, serigrafias, baseadas em imagens dos filmes do cineasta Andrei Tarkovski. Identificados com clareza frames ou fotogramas de diversos filmes do cineasta: Andrey Rublev (1966), Stalker (1979), Solaris (1972) e Nostalghia (1983).

A artista justifica a relacao entre os filmes e suas obras na sua ultima exposicao:

Todos temos Solaris e Nostalgias, e para onde retornamos ou de onde nunca saimos. Quando assistimos a um filme, e algo nos apreende, exercitamos nosso modo de olhar, e quando criamos algo que e produzido fruto dessa experiencia, adensamos nossa percepcao de si e do Outro, e por isto que se chama Arte e Arte Educacao, por que nos educamos com as imagens, que nos atravessam e cruzam nossa experiencia (Lampert, 2017).

A artista escolhe as imagens enquanto assiste aos filmes em DVD, ou os "instantes", como os chama. Estes sao determinados levando em consideracao a "carga pictorica" do " instante" e tambem, preferencialmente, se este inclui ou nao a paisagem--tema caro a ela (Lampert, comunicacao pessoal, janeiro 2018).

Portanto, primeiro, ha a identificacao do frame do filme, de uma sequencia longa que conta uma historia. O fragmento da narrativa filme e ressignificado atraves de uma outra linguagem: seja a pintura, o desenho, a gravura ou fotografia, e sua obra se constituiu entre diferentes meios.

No caso da pintura, inserem-se, inclusive, as legendas da traducao, exemplificada pela Figura 1.

Seus trabalhos tambem contemplam a repeticao de um mesmo frame, em diversas tecnicas, como podemos verificar atraves das Figura 2 e Figura 3.

Na Figura 1 e Figura 2 identificamos uma paleta de cores menos saturada, e que, segundo a artista, esta trabalhando na aplicacao dos exercicios de cor de Joseph Albers. Em particular na Figura 1, a cor do filme e preto-e-branco, e sua paleta de cores e diversa. O oleo que usa na pintura, da vida a varias camadas (cinco) (Lampert, comunicacao pessoal, janeiro 2018). Ja em suas monotipias --Figura 3--, evidencia-se a cor mais vibrante e saturada, e ha indicios de interferencias na imagem.

2. Entre cinema e fotografia: Rublev

A fotografia Rublev, da serie Entre Solaris e Nostalgias--Figura 4, exemplifica sua destreza em um dos processos fotograficos historicos: a cianotipia.

Este trabalho de Jociele Lampert (Figura 4) e desenvolvido numa tecnica fotografica historica, do seculo XIX, que tem como caracteristicas ser monocromatica e azul.

No trabalho novamente vislumbra-se a relacao entre o filme e a fotografia. Meios distintos, sabemos que ambos "[...] as machines involving speed, light, exposure, projection, duration and motion" (Campany, 2008:12). As longas tomadas filmicas, tipicas do cineasta, evoca as longas sessoes de pintura, ou, mesmo, o longo processamento necessario para a cianotipia. E possivel pensarmos nas temporalidades internas dos personagens e tambem nas temporalidades de cada meio artistico: filme, fotografia e pintura.

Slowness enables film to approach the traditional sense of'presence' typical of art's materially fixed media such as painting, sculpture and photography, all ofwhich have valued the depiction rather re-creation movement (Campany, 2008:38-9).

Na obra, um frame do filme, em positivo, opera entre as duas linguagens: cinema e fotografia. Sabemos que o "[...] Film is a virtual, immaterial projection, while the photograph is a fixed image and a fixed object" (Campany, 2008:11). Assim, nos deparamos com a questao da materialidade e da imaterialidade das imagens e seu processo criativo.

Rublev, nome do trabalho em cianotipia, e o personagem do filme (1966) de mesmo nome de Andrei Tarkovski, e e a evocacao do pintor russo Andrey Rublev (entre 1360 e 1370-1430), reconhecido por muitos como o maior pintor de icones russo.

O icone simbolicamente deveria representar uma realidade espiritual, o que quer dizer que o icone de um santo deveria ser entendido como o retrato espiritual do santo, nao um retrato fisico (Russian Art Gallery, 2017).

Novamente a questao da imaterialidade e materialidade retorna, agora atraves do vies das praticas e tradicoes artisticas que Rublev inspira, ligadas as crencas religiosa e espiritual. A simplicidade do personagem, acrecenta-se questionamentos existenciais e religiosos.

Na cena escolhida, o personagem representado pela cianotipia, esta tateando no meio de uma floresta, supreendido pela violencia e escuridao que se seguem ao ataque brutal que o tornou cego. Seu rosto apresenta sangue, assim como suas maos.

Como ja visto em outas obras de Lampert, o frame e rebatido lateralmente, Figura 5.

Segundo a artista a cena do filme foi escolhida pela "carga pictorica", e declara: "escolho nao so pela esteticidade das imagens, mas pela possibilidade de fazer estudos de cor com ela (tenho planos de pintar a tinta a mesma cena)" (Lampert, comunicacao pessoal, janeiro 2018).

Na cianotipia e possivel usar os pinceis de pintura para emulsionar o papel. E o resultado e obtido com a retirada da emulsao sem sensibilizacao, atraves da agua. O processo inverso da pintura.

Durante o periodo denominado pelos historiados de "Pictorialismo", o cianotipo aparece nos trabalhos de Paul Burty Haviland e F. Holland Day (Prodger, 2006; Rexer, 2002:106) e e, ao longo do seculo XX, que ira seduzir e tornar-se um processo usado entre artistas, especialmente a partir da decada de 60, como em Robert Heinecken, Robert Fichter e Robert Rauschenberg (Rexer, 2002:107). O cianotipo surge de modo timido, porem, de forma ininterrupta na contemporaneamente no Brasil. Dentre os precursores de uso da tecnica temos Luiz Guimaraes Monforte, Kenji Ota e Rosangela Renno.

O azul, uma cor presente na natureza, aparece no tingimento de tecidos, nas pinturas corporais, em ornamentos e na arte. "Para os egipcios, como para outros povos do Proximo e Medio Oriente, o azul e uma cor benefica, que afasta as forcas do mal. Esta associado aos rituais funerarios e a morte, para proteger o defunto no Alem" e [...] "Mais ainda que os Gregos, os Romanos veem no azul uma cor sombria, oriental ou barbara e utilizam-no com parcimonia" (Pastoreau, 2016:26). "Apenas o mosaico constitui excepcao: vindo do Oriente, traz consigo uma paleta mais clara, mais verde, mais azulada, que encontraremos nas artes bizantina e paleocrista. O azul e ai a cor nao so da agua, mas as vezes tambem do fundo e da luz" (Pastoreau, 2016:27). Nesta cianotipia da artista, a cor azul e forte e uniforme, destaca-se, e pensamos que remete mais a barbarie do que a protecao.

Desse encontro entre filme e fotografia, entre Jociele e Tarkovski resulta em uma proliferacao de imagens, conforme Rita Bredariolli (2017), escreve:
   Apreendendo, aprendendo e tornando presente. Tornando real, pela
   experiencia da materialidade, pelo entendimento da imagem como
   corpo, a potencia delicada, fragil, rarefeita, efemera, volatil,
   imprecisa, intangivel, da materia da qual sao feitos o tempo, a
   memoria, o sonho, as imagens, a vida.


De tais "materiais" sao feitos as obras de Jociele Lampert--"instantes" evocados de uma linguagem-movimento, que rende-se a imagem-estatica.

Conclusao

Procurou-se no artigo analisar os trabalhos da exposicao individual "Solaris", da artista visual e pesquisadora brasileira Jociele Lampert, atraves de autores que dialogam com filme, fotografia e outras tecnicas artisticas. Utilizou-se uma pequena entrevista com a artista (janeiro de 2018) e o site pessoal da mesma (2017), onde encontramos seus trabalhos recentes.

Verificou-se que o trabalho ainda esta em execucao, nao sendo uma serie fechada.

As pinturas, desenhos, monotipias, serigrafias e cianotipias sao baseadas em imagens dos filmes do cineasta Andrei Tarkovski, e, nesta serie os frames dos filmes utilizados em seus trabalhos sao provenientes de Andrey Rublev (1966), Stalker (1979), Solaris (1972) e Nostalghia (1983).

Jociele Lampert interessa-se pelo o aspecto pictorico dos frames ou "instantes" capturados, para depois desenvolver os diversos trabalhos e em tecnicas diversificadas. Tal diversidade atesta a capacidade produtiva, elaborativa da artista.

No seu universo, ao contrario dos filmes, aplicam-se cores suaves ou cores saturadas. Busca atraves de Albers, fazer deste projeto, exercicios de cor e de estudo. Persegue a materialidade, em oposicao a cor luz ou projecao dos filmes; tal materialidade esta presente tanto nas pinturas, desenhos, monotipias, serigrafias e cianotipias.

Seu trabalho abre portas para pensar tambem a temporalidade, uma vez que destancam-se nos filmes uma duracao incomum nas cenas, e exteriorizacoes de estados interiores atraves de tomadas que lembram quadros. Estados psicologicos, espiritualidade e imaterialidade, tambem sao possiveis vieses para pensar este trabalho que se revela multiplo e ao mesmo tempo consistente. Consistente tanto em sua pratica academica, como artistica.

Referencias

Bredariolli, Rita Luciana Berti (2017). Exposicao Solaris. [Consult. 20171112] Disponivel em URL: https://www. jocielelampert.com.br/exposicao-solaris.

Campany, David (2008) Photography and Cinema. London: Reaktion Books Ltd. ISBN: 978 1 86189 351 2

Lampert, Jociele (2017). Exposicao Solaris. [Consult. 20171130] Disponivel em URL: https://www.jocielelampert.com.br/

Pastoreau, Michel (2016). Azul: historia de uma cor. Lisboa: Orfeu Negro. ISBN: 978-989-8327-86-4

Prodger, Philip (2006). impressionist Camera: Pictorial Photography in Europe, 18881918. London: Merrell. ISBN: 978-1858943312

Rexer, Lyle (2002). Photography's Antiquarian Avant-Garde: the new wave in old processes. Nova Iorque: Harry N. Abrams. ISBN: 0-8109-0402-0

Rublev, Andrey (2017) Russian Art Gallery. [Consult. 20171130] Disponivel em URL: http://www.russianartgallery.org/ oldicons/inside2.htm/

Artigo completo submetido a 4 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 janeiro 2018

ANDREA BRACHER, Brasil, artista visual e professora.

AFILIACAO: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Instituto de Artes, Departamento de Artes Visuais. Rua Senhor dos Passos, 248, Porto Alegre--CEP 90020-180, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: andrea.bracher@ufrgs.br

Caption: Figura 1. Jociele Lampert, Andrei Rublev, exposicao Solaris, oleo sobre tela sublimada, 58cm x 40cm, 2017. Fonte: imagem cedida pela artista.

Caption: Figura 2. Jociele Lampert, Da serie Solaris, exposicao Solaris, oleo sobre tela, 89cm x 48cm, 2017. Fonte: imagem cedida pela artista.

Caption: Figura 3. Jociele Lampert, Da serie Solaris, exposicao Solaris, monotipia sobre papel japones, 30cm x 20.5cm, 2017. Fonte: imagem cedida pela artista.

Caption: Figura 4. Jociele Lampert, Rublev, serie Entre Solaris e Nostalgias, cianotipo sobre papel, 22 x 30 cm, 2017. Fonte: imagem cedida pela artista.

Caption: Figura 5. Frame do filme Andrey Rublev, Andrei Tarkovski, 1966. Fonte: https://www.youtube.com/ watch?v=X3mJ6trIFI0/
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Title Annotation:2. Original Articles/Artigos originais
Author:Bracher, Andrea
Publication:Estudio
Date:Oct 1, 2018
Words:1928
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