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"VENHA A SATIRA MORDENTE": A SATIRA NA POESIA ROMANTICA PORTUGUESA.

No Romantismo portugues, a satira social e a teoria da satira nao existem apenas no panfleto, na cronica ou no romance, genero que se impoe de modo muito rapido no seculo xix; existem tambem, e de maneira por vezes memoravel e inovadora, na poesia de autores como Almeida Garrett, Faustino Xavier de Novais, Camilo Castelo Branco, Jose da Silva Mendes Leal e Guilherme Braga.

Na centuria oitocentista, a satira encontra uma conjuntura--Liberalismo, liberdade de expressao e compromisso intelectual--que propicia o desenvolvimento das suas funcoes primordiais: a denuncia de erros e vicios pessoais e coletivos (Nogueira 195). De uma interpretacao errada desta sua vocacao tem resultado um dos mais graves prejuizos para o seu estudo: a satira e vista apenas como um documento historico que espelha a realidade social, sem que se considere, muitas vezes, a ideologia propria e esteticamente (de)formadora do satirico, e, por consequencia, sem que se vislumbre o mais remoto sinal do que na satira e conflito do sujeito consigo mesmo e complexidade de significados humanos e poeticos.

1. ALMEIDA GARRETT

Nao convem, portanto, que nos iludamos perante a escassa atencao que criticos e historiadores da literatura tem dispensado a satira romantica portuguesa, sobretudo no que diz respeito a modalidade em verso. E com razao que Maria Fernanda de Abreu escreve que nao se tem "atribuido papel assinalavel a satira nas caracterizacoes ou balancos da producao romantica portuguesa" (526), certamente porque "o enquadramento filosofico que habitualmente" (526) apoia "as definicoes e exegeses da atitude romantica" (526) nao favorece "a integracao da satira nessa atitude" (526): "E, todavia, os factores de mal-estar e desajustamento, pessoal e social, que determinam, com frequencia, o comportamento satirico tornam-no claramente compativel com aquele enquadramento filosofico" (526).

A inexistencia, no verbete "satira" da maioria dos dicionarios de literatura portuguesa, de qualquer mencao ao Magrico ou Os Doze de Inglaterra e a outros poemas satiricos de Almeida Garrett e uma prova desse menosprezo ou desse descuido. Assim se tem ocultado, num dos principais cultores do primeiro Romantismo, uma das formas de expressao literaria e um dos itinerarios que este autor, alias, cedo associou a vocacao militante da nova literatura. Determinada por elementos de intranquilidade pessoal

e desinsercao social, a atitude satirica acompanha Garrett desde os inicios do Romantismo portugues. O escritor exilado encontrou na satira um alivio para o peso do combate politico e, simultaneamente, uma linguagem de destruicao das instituicoes despoticas do velho mundo.

O Magrico, inscrito num amplo e arrojado programa de revolucao mental e social, participa na realizacao da nova concecao de literatura. Garrett ve nesta literatura impetuosa e social um lugar privilegiado de luta contra a hipocrisia das convencoes, dos preconceitos e dos vicios sociais. Para ele, cada escritor romantico deve reconhecer-se infinitamente livre e ser um construtor da espiritualidade e do progresso ao servico do povo.

Na descricao do proprio Garrett, trata-se de "um poema de um genero caprichoso entre o Orlando de Ariosto e o D. Joao de lorde Byron" (10); um poema "excentrico e indeterminado na sua esfera" (10), que "abracava todas as coisas antigas e modernas, e ora filosofava austeramente sobre os desvarios deste mundo, ora se ria com eles; umas vezes se remontava as mais sublimes regioes da poesia do coracao ou do espirito; outras descia a seus mais humildes vales a colher uma flor singela, a apanhar talvez as bordas do ribeiro a pedrinha, que so era curiosa ou extravagante" (10). As contrariedades que marcaram a criacao e a publicacao deste poema satirico fragmentario, equacionadas no prefacio que Alberto Pimenta escreve para a sua edicao critica da obra, nao podem levar-nos a esquecer o que ai e recusa de convencionalismos esteticos e politicos.

O que se conhece do Magrico e apenas uma parte de uma obra mal compreendida e mal amada, ate, talvez, em certos momentos, pelo proprio Garrett, que muito provavelmente tera temido perder os privilegios sociais de que usufruia; uma obra, tambem, pouco estudada, excetuando o prefacio e as notas de Alberto Pimenta, que se juntam as doze paginas que Ofelia Paiva Monteiro lhe dedicou no livro, publicado em 1971, A Formacao de Almeida Garrett. O fragmento conservado--segmentos de apenas seis cantos--, que Alberto Pimenta reconstitui a partir do manuscrito existente na Biblioteca Nacional de Lisboa, permite-nos dizer que O Magrico, tematica e estilisticamente, "representaria um marco importante na obra de Garrett se nos tivesse chegado completo, ou, pelo menos, mais acabado" (Monteiro 302).

Alberto Pimenta discute, nos curtos limites de um prefacio, as grandes questoes levantadas pela obra, e devolve ao poema o que, editorial e criticamente, sempre se lhe recusou: o direito a uma edicao tao meticulosa quanto possivel; (1) a valorizacao, a aguardar ate hoje um estudo minucioso, das suas formas e dos seus conteudos; e a categorizacao do poema num genero, o satirico, que tambem e, por sua vez, dignificado no texto de Alberto Pimenta.

Para o mesmo estudioso, a apreciacao desapaixonada do Magrico nao tem sido possivel porque subsistem opinioes como as de Ofelia Paiva Monteiro, para quem aquele poema, <<a chegar-nos completo, seria com certeza, nao diremos uma obra de arte, mas um manancial precioso de informacoes sobre a "crise" que estudamos>> (291). Alberto Pimenta reage deste modo a estas palavras: "O escandalo cultural desta afirmacao nao vem tanto de negar a obra o que a obra evidentemente e (uma obra de arte), mas de contribuir com um juizo sem base cientifica para sancionar o escamoteamento (quase) sistematico dos fragmentos conhecidos do poema" (15).

Ofelia Paiva Monteiro, que nao ve no Magrico um texto "poeticamente eficaz" (302), lamenta discretamente que ele desca "complacentemente a exageros 'sacrilegos' (298), como esse de colocar na igreja a desfloracao de Violante" (298). Mas a analise que a autora faz dos fragmentos do poema, que se inserem "todos num so registo--o sarcastico--anunciado desde os primeiros versos" (Monteiro 293), e lucida e esclarecedora. Ofelia Paiva Monteiro observa, por exemplo, que Garrett refletiu humoristica e satiricamente sobre as questoes literarias que no seu tempo eram debatidas com intensidade. A mesma estudiosa acrescenta que Garrett, que se inclui a ele proprio no que comenta com ironia e mordacidade, "trocando [...] das ortodoxias classicas (e que propositadamente irregular nao era Magrico com seus doze herois, sua deambulatoria exposicao, sua ostensiva mistura de estilos!), nao se ria menos das romanticas, com seus cenarios medievos e seus ambientes obrigatoriamente 'espirituais', heroicos ou melancolicos" (300, enfase no original). E conclui Ofelia Paiva Monteiro: "O texto do Magrico, escrito sob a luz acre do desengano e nessa paradoxal Inglaterra, tao pragmatica ... e tao romantica, parecenos acusar ja a mentira da nova literatura, que as Viagens denunciarao tambem: formas convencionais a sugerirem o ideal, quando sob elas tartufamente se escondia o espirito prosaico e ganancioso do seculo" (300, enfase no original).

O canto I do Magrico abre com uma breve retrospectiva da disposicao ontologica de sinceridade e contentamento juvenis do sujeito poetico:
   Heroismo, gloria, liberdade e amores
   A porfia na lira me soaram;
   E, na alteza do espirito sublime,
   So vi nos homens a verdade e a honra. (Garrett 29)


Mas rapidamente surgem o desespero e a prostracao de quem, acordado pelos andamentos implacaveis da experiencia, se apercebe do engano em que vivia:
   Bordado veu de lisonjeiro engano
   Rasgou-mo, de ante os olhos embaidos,
   Com a descarnada mao seca verdade.
   Tal como ele e, vi o homem! Aos meus olhos
   De vergonha e de do vieram lagrimas. (29-30)


E neste ponto que se explicita o genero do poema, organizado "ora no plano narrativo da intriga, ora no plano lirico da efusao do Autor, falando na primeira pessoa" (Monteiro 293). Um genero que nasce da angustia de quem e obrigado a chorar e a rir, fundindo o riso prazenteiro com o azedume da satira, a ironia risonha com a gargalhada impiedosa que descobre o ridiculo:
   Chorei--tao louco fui!--So gargalhadas
   As loucuras do mundo nos merecem.
   E assim foi que, atentando mais de perto,
   Vi tanta asneira, vi tanta sandice,
   Que desatei a rir por fim de tudo. (Garrett 29-30)


A seguir, o poema ocupa-se da punicao dos costumes. Os tres cantos iniciais encerram um longo anteloquio satirico que e simultaneamente uma introducao a projetada materia principal do Magrico: os doze duelos disputados por
   aqueles famosos celebrados
   Andantes e valentes cavaleiros,
   Que das praias do Douro, noutro tempo,
   Vieram sobre as margens do Mondego,
   Provar com a lanca e demonstrar com a espada
   De uma duzia de v ..., a existencia. (47)


Esse ato, dependente dos codigos da cortesania amorosa, da honra e da virtude femininas, e um pretexto ironico (os doze virgos sao "v ..." ou "vir ...", na escrita de Garrett). A obra parte do episodio do Magrico (contado, lembre-se, por Ferreira de Vasconcelos no seu Memorial da Tavola Redonda, de 1567, e depois celebrizado por Luis de Camoes em Os Lusiadas) para a desmistificacao satirica de "uma serie de instituicoes da autoria da razao e do gosto humanos, tracando assim por certo um ironico 'tableau des progres de l'esprit humain'" (Pimenta 23). A medida da alienacao da sociedade resulta quer de uma gestao muito particular da desconstrucao dos generos heroico e epico, quer do estilo parodico agil e irreverente, no qual a ironia, o humor e o sarcasmo se combinam para desagregar o que e visto como a realidade objetiva.

Nos tres ultimos cantos, a mordacidade fixa-se sobretudo num episodio que confirma o anticlericalismo ja tematizado, (2) e que e o verdadeiro eixo do poema: a historia da singela Violante, jovem de quinze anos cobicada pelo abade do mosteiro de Lorvao e por frei Martinho:
   Longa disputa
   Havia entre os dois
   sobre quem primeiro
   Gozaria da bela as gracas virgens ..." (Garrett 100)


Tambem em Dona Branca (1826) existe um Garrett satirico que procura estabelecer uma cumplicidade ao mesmo tempo artistica e ideologica com o leitor, e que, para isso, recorre ao riso como expressao literaria e estrategia de correcao da sociedade. Neste poema lirico-narrativo, o lirismo dolorido e a hilaridade satirica, concretizada nas figuras risiveis de frei Soeiro e mestre Gilvaz, coexistem mais uma vez, e o mesmo acontece em composicoes como, no conjunto da Lirica de Joao Minimo ((1829)), "O Natal em Londres" e "As ferias". (3) Estes ultimos textos, reunidos no Cancioneiro Alegre (1879) de Camilo Castelo Branco, tem garantida uma vigencia que outros poemas satiricos avulsos nao conhecem, por estarem perdidos em publicacoes periodicas ou disseminados em macrotextos do autor.

No fazer do mundo em que Garrett cedo se compromete, e ainda sem a influencia que ele recebe, quando exilado, da poetica impiedosa de Byron ou da memoria das repreensoes imaginativas e irreverentes de Ariosto, ja na "Introducao" das Fabulas e Contos (1820) o riso e convocado com intuitos nao so ludicos mas tambem preventivos, terapeuticos e revolucionarios. Ai, em versos neoclassicos, Garrett utiliza a energia hilariante da deusa do riso, "a galhofeira, magica Talia", para castigar Jose Agostinho de Macedo. Simultaneamente, o poeta nao so enaltece, atraves dela, alguns dos cultores do riso com nome firmado na historia da literatura, como tambem, acreditando nos efeitos pedagogicos do riso, valoriza o ato de rir de tudo: rir da "presuncao autoritaria, ignorante ou estupida", da "enfase pedante", da "doblez politica", da "bocalidade", da "beatice", da "tacanhez embiocada", do "desregramento" e da "alienacao sentimental--atitudes que se opunham ao seu humanismo amante da natureza e da liberdade, do prazer e da graca" (Monteiro 480).

O riso nao exclui as lagrimas, portanto, na linha do que advoga Victor Hugo no "Prefacio" de Cromwell (1827) (documento programatico do Romantismo frances que muito influencia os nossos escritores romanticos): o elevado valor do grotesco na dimensao artistica e filosofica do ser humano, a maneira de Ariosto, Cervantes e Rabelais. Se a alianca do sublime com o grotesco e uma constante da vida de todos os dias, deve por isso mesmo existir igualmente na poesia moderna (quer dizer, no drama).

Que a opcao pela pratica literaria do riso nao foi em Garrett mera leviandade, mas a resposta a uma amargura visceral perante a intolerancia do mundo, e o que se comprova no que, em plena maturidade, ele proprio reafirma em O Arco de Sant'Ana (1845-1850): "Todas as coisas humanas tem o seu lado torpe, ou feio ou ridiculo. E permitido a arte vira-las de um de outro lado quando quer 'rir castigando'" (M. F. de Abreu, Riso e Humorismo 482).

2. FAUSTINO XAVIER DE NOVAIS

Apagado o arrebatamento revolucionario da geracao dos exilados, e na poesia de Faustino Xavier de Novais que se imprime a primeira detonacao literaria de revolta contra uma sociedade controlada por uma burguesia argentaria, aliteratada, ignorante e hipocrita, e contra uma mundividencia cultural presa a estereotipos poeticos e ficcionais ja irremediavelmente saturados.

O poeta colhe na amizade com Camilo Castelo Branco boa parte do entusiasmo que o encaminha a escrita de poemas satiricos. Nestes, sob o magisterio de, principalmente, Paulino Cabral, Correia Garcao, Tolentino e Bocage, desfilam pitoresca e comicamente figuras e costumes de uma sociedade, sobretudo o Porto ultrarromantico, que nao fica de modo algum indiferente a essa criacao. Compreende-se: a critica social de Faustino Xavier de Novais e de Camilo Castelo Branco visa, com grande criatividade e naturalidade, as instituicoes propriamente ditas e as ideologias que as sustentam.

A educacao estetica de Faustino Xavier de Novais vem sobretudo do paradigma de Nicolau Tolentino, porventura o mais apreciado dos seus modelos, que ele celebra, de resto, em diversas epigrafes aos seus poemas; mas a maior homenagem e mesmo a imitacao da arte poetica do autor de Os Amantes, visivel desde logo na quintilha heptassilabica e no adjetivo preciso. Esta categoria gramatical e mesmo o recurso essencial do soneto em que xavier de Novais enumera criticamente as dificuldades de um tipo especial de ato poetico. Contam-se, em posicao final de verso, exatamente dez ocorrencias, seis delas consecutivas, nos tercetos:
   Num album escrever e negra empresa,
   De que o vate jamais sai triunfante!
   --Se e no canto singelo--e ignorante,
   Se e pomposo--renega a natureza:

   Se nao cita ninguem--mostra pobreza,
   Se faz mil citacoes--e um pedante; Se
   e prodigo em louvor--e repugnante;
   Se nao louva--nao tem delicadeza.

   Se da cantos d'amor--e um baboso Se
   em prosa escreve, so,--quer ser rogado Se
   escreve em prosa e verso--e orgulhoso
   Se enche muito papel--e desalmado
   Se breve assunto escolhe--e preguicoso
   Se recusa escrever--e malcriado. (Novais, Novas Poesias 169)


Nessa forma versificatoria, o poeta revela-se, no panfleto em verso de intervencao na vida publica (atraves da imprensa), o melhor cultor do genero no Portugal da Regeneracao. O seu valor e a sua notoriedade nao diminuem no soneto, no epigrama e em composicoes mais ou menos longas desdobradas em quadras, quintilhas, decimas e, inclusivamente, em Dinheiro. Este ultimo texto, no qual sao ironicamente sublimados, como heroi contemporaneo, o negocio e a cobica, e uma parodia ao Canto I de Os Lusiadas. Usa-se nesta obra, como no texto decalcado, a oitava em decassilabo heroico e o esquema rimatico (abababcc).

A satira de Faustino Xavier de Novais aborda quer os problemas sociais, economicos e estruturais de um pais atrasado relativamente as outras nacoes europeias, quer os seus problemas culturais e de mentalidade: os obsoletos meios de transporte, o conservadorismo e a bestialidade dos "brasileiros" (4) e "baroes," os desmandos usurarios da alta burguesia, a retorica oca e a ignorancia dos medicos, a venalidade da justica e da imprensa, os politicos dissimuladamente demagogicos e ambiciosos, os estudantes preguicosos e incultos, os padres anafados e faceiros, as velhas folgazas, as damas a moda com meneios graves e os janotas iletrados e destros em trejeitos fatais e altivos trasladados dos herois da literatura estrangeira (o D. Juan de Byron e talvez o mais imitado), eles proprios, muitas vezes, autores de poemas sentimentalistas e funereos (que Xavier de Novais tambem critica) e de satiras contra aqueles mesmos "baroes" e "brasileiros" que quase sempre casam com as mulheres que eles, geralmente membros ociosos da pequena burguesia citadina, divinizam.

O que mais seduz na capacidade criativa de Xavier de Novais e a forma como ele se move agilmente entre a ironia, a graca e o sarcasmo, num continuado e tenso equilibrio entre o comedimento lexical e a superlativacao caricatural. A sua escrita, que denuncia e problematiza, e polemica e ousada mas inteligente e informativa, revoltada e agressiva mas divertida e construtiva. A revelacao, acertada e impiedosa, nao incorre na afronta chocarreira e iniqua, no simples jogo verbal destrutivo. A acusacao de Xavier de Novais e conhecimento e pedagogia, no que tambem entronca na tradicao satirica representada pelos setecentistas Abade de Jazente e, sobretudo, Nicolau Tolentino.

A subtileza e a inventividade do poeta manifestam-se em formas breves como o epigrama com apenas quatro versos decassilabicos:
   Um mancebo, exaltando a qualidade
   De filho dum barao, por lisonjeira,
   Nao lhe importa o saber toda a cidade
   Que morreu sua mae, velha, e solteira. (Novais, Novas Poesias 137)


Mas a mestria de Faustino Xavier de Novais tambem se ve nas composicoes mais longas, como nas vinte decimas heptassilabicas de "Por que sera?" Neste poema, nesta topografia satirica, cada estrofe e ordenada dialeticamente em pergunta e resposta: a pergunta esta nos quatro versos iniciais, onde, ja em tom acusatorio de veredicto final, se enuncia o problema; na resposta aduzem-se as causas. O ritmo vivo, o termo exato e cortante, o pormenor inesperado e a diversidade de estados, acoes e paixoes promovem a conjugacao entre a dimensao visual, cognitiva e instrutiva da leitura e a visceralidade da denuncia:
   Por que sera que os doutores,
   A cabeceira do enfermo,
   Discursos fazem sem termo,
   Com termos atroadores?
   --E porque sao impostores,
   Porque a ciencia e impostura;
   E e mister que a criatura,
   Que os chama, nunca os entenda,
   Do contrario foge a renda,
   Morre a fama, antes da cura.

   Por que sera que as gazetas,
   Tendo espias vigilantes,
   So dao aos seus assinantes,
   A engolir, douradas petas?
   --E porque sao tabuletas
   Onde ilude a falsidade,
   E, se ocultando a verdade,
   Lucra sempre o lisonjeiro,
   Mentindo, ganham dinheiro,
   Em nome da liberdade. (Novais, Novas Poesias 28-29)


Na importante Revista Peninsular, Faustino Xavier do Novais e definido como "um poeta satirico e jocoso, unico no genero entre nos. As poesias que publicou ha pouco ja tem uma segunda edicao quase consumida. E o poeta mais querido do povo, que se ri e entusiasma diante das suas zombarias metricas" (Novais, Satiras 11). Nao fosse o juizo preconcebido que se le mais a frente, essas palavras caracterizariam exemplarmente o lugar de Xavier de Novais na historia da literatura portuguesa: "Sem instrucao literaria, sem estudo, ninguem fez mais, e creio mesmo que, apesar de grandes e vaidosas pretensoes de erudicao, ha muito pouco quem la faca tanto" (11).

Mas, nao obstante esses preconceitos escolares, Camilo compreende e assinala em tempo e espaco uteis, na carta com que prefacia as Novas Poesias (1858), (5) o verdadeiro valor do fundador e diretor de O Bardo (um dos cadernos periodicos de poesia muito em voga na epoca). (6) A amplitude ideologica e o impacto sociologico da satira de Xavier de Novais na sociedade do seu tempo aferem-se perfeitamente nessa carta-manifesto dirigida ao proprio autor. (7)

O tom ameno proprio do registo epistolar entre amigos nao atenua o sentimento impetuoso de Camilo. O assunto convoca o polemista, que reconhece, na intimidade dessa epistola de tipo ensaistico, o fracasso da sua propria satira pedagogica em prosa, ao mesmo tempo que elogia o verbo satirico de Xavier de Novais:

Apareceste a horas. Eras o esperado dos oprimidos quando fizeste estourar os primeiros estalos do teu latego. Fui eu o primeiro a anunciar a tua vinda aos pagaos. Disse-lhes em prosa que se convertessem ao senso comum: preguei-lhes a necessidade de aprenderem a ler, com estudo preparatorio para entenderem o Compendio de Civilidade, para entenderem o tratado dos deveres sociais, para entenderem a Cartilha do padre Inacio, onde se acham as bases da jurisprudencia evangelica em que se fala no fundo da agulha e no camelo, onde se fala em tudo, menos na estupidez casada com a riqueza, porque o Redentor do mundo so muito depois deliberou enriquecer o estupido para lhe provar o nenhum caso que ele fazia das riquezas. Clamei no deserto. Fui procurar-te ao fundo da tua gruta, onde te refazias de bravura loral para a tremenda cruzada e disse-te: "Castiga-os." Era belo ver-te em pe diante de uma sociedade cancerosa ate as medulas, tu, artista, tu, dependente dos caprichos de um vulgacho insolente, era belo ver-te, superior a ti mesmo, empuxado por impulsao estranha, cujo alcance nem tu antevias, sarjar fundo por estas carnes podres, churrisca-las com o cauterio da mofa, afogar o rugido dos lazarentos com a gargalhada publica. Foi entao que receei muito pelo teu corpo. (Castelo Branco, Juizo Critico 10)

3. Camilo Castelo Branco

O sentido satirico de Camilo na novela, no romance, no teatro, no jornalismo folhetinesco e na critica literaria nao se estende proporcionalmente a sua faceta, alias fecunda, de versejador. Contudo, ainda muito jovem, ele apresenta tres titulos, na modalidade de satira pessoal, a maneira incendiaria de um Jose Agostinho de Macedo: Os Pundonores Desagravados: Poemeto em Duas Partes, Oferecido aos Academicos Portuenses (s.d.), O Juizo Final e O Sonho do Inferno: Poema em 3 Cantos (1845) e A Murraca. Poema Epico em 3 Cantos (1848). (8)

Sob o pseudonimo de Manuel Coco, todavia, publica Camilo, no jornal Aurora do Lima, um "Poema a F. X. de Novais" que deixa perceber as suas aptidoes para esta especificidade poetica. Isto apesar de alguns momentos menos conseguidos, em termos tanto de construcao retorico-estilistica como de concecao tematico-ideologica. No inicio da "Invocacao" de "Um jantar de baroes," poema incluido na coletanea Folhas Caidas, Apanhadas na Lama (1854), por exemplo, le-se:
   Musa da sopa e do cozido, inspira-me!
   Pandega musa, que sorris ao vate
   Em molho d'acafrao, e de tomate,
   Um cego adorador ... achaste em mim.
   Transforma o estro meu em lombo assado,
   Da minha inspiracao faz um pudim.
     (Castelo Branco, Obras Completas X 735)


A resposta, acesa, alias, do destinatario, que so depois da publicacao do seu texto conheceria a identidade de quem propositadamente excitava a sua veia satirica, tera suscitado na altura um interesse acrescido para esse poema.

O "Poema a F. X. de Novais" e um texto, sem passagens demasiado prosaicas nem intromissoes sentimentais e lacrimejantes, cuja qualidade ultrapassa a da media de Camilo na satira em verso. Enquanto nao se conhecer melhor a satira em verso de Camilo Castelo Branco, tanto em termos textuais como exegeticos, esta e uma leitura que--parece-nos--nao peca nem por excesso nem por defeito. So um levantamento minucioso dos poemas satiricos de Camilo dispersos em documentos e em publicacoes, em particular nas folhas de poesia, e um estudo desses textos nos permitirao compreender verdadeiramente esta producao do autor. Na Revista Ilustrada, por exemplo, publica Camilo um soneto sobre os "cento e dez, ou talvez mais", amigos que, ate ao momento em que o poeta adoece e cega, lhe tornavam a vida ditosa. A partir dai,

[...] Dos cento e dez houve um somente

Que nao desfez os lacos quase rotos.

--Que vamos nos (diziam) la fazer?/ Se ele esta cego, nao nos pode ver! ...

--Que cento e nove impavidos marotos. (Castelo Branco, Os Amigos 279)

De certa forma filiado na acao polemica de Camilo, este poema nao apresenta os excessos em que quase sempre incorre o prosador. Confirmando as opinioes de Eca Queiros, que compara Camilo a um frade "debrucado sobre um Lexicon, a respigar termos obsoletos para com eles apedrejar todos os seus conterraneos" (O. T. de Almeida 52), e de Vitorino Nemesio, sobre a tendencia do polemista para o lexico arcaico e o epiteto grosseiro, Onesimo Teotonio de Almeida afirma: "Para alem de uma faceta etica nada edificante, serve-nos paginas e paginas de quase apenas vocabulario exuberante mas culturalmente arcaico. Na verdade, embora enriquecedor do meu proprio vocabulario passivo, nao me e sequer aproveitavel, por ja estar francamente em desuso ... no seu proprio seculo" (52). (9)

A poesia satirica de Camilo le-se ainda hoje com gosto. Nela nao se sente a conjugacao da emotividade incontrolavel de Camilo com o seu talento de repentista desbragado, nem se projeta sobre os referentes uma torrente de vocabulos altissonantes mas ja pesadamente fossilizados. A satira camiliana nasce do desencanto interior e apela ao raciocinio e a argumentacao, ao humor, nao ao impacto do adjetivo tremendo:
   Amigos, cento e dez, tao servicais,
   Tao zelosos das leis da cortesia,
   Que ja farto de os ver me escapulia
   As sua curvaturas vertebrais. (Castelo Branco, Os Amigos 279)


Este diagnostico pode estender-se a quase totalidade dos sonetos da seccao "Humorismos" do seu ultimo livro de versos, Nas Trevas: Sonetos Sentimentais e Humoristicos (1890). Vejamos o soneto "Derrocada," que ganha muito em expressividade e pragmatismo com o sentido abrupto e inesperado do ultimo verso, por assim dizer um hiperbolico e sarcastico grito a Camilo, alias ja preparado na sintese heroi-comica dos enunciados anteriores:
   Ao passo que vasqueja e expira a luz
   Do Templo onde, algum dia, celebraram
   O Passos e o Mouzinho e os que arrastaram
   Em terra estranha a esmagadora cruz;

   Na imprensa, uns pugilistas, bracos nus,
   Uns contra os outros, rapidos, disparam
   Sarcasmos, que ao Diabo nao lembraram ...
   Que linguas, santo nome de Jesus!

   O Deus dos seis Afonsos e das Quinas !
   Se um vil desabamento nos destinas,
   Escuta o meu sincero e ardente voto:

   Faz pena este acabar quase indecente ...
   Concede-nos morrer mais seriamente:
   Transmite-nos, Senhor, um terramoto.
   (Castelo Branco, Obras Completas X 920).


Do apontamento imprevisto vem um riso escarnecedor que se afasta do primarismo do insulto mais elementar e de efeito imediatamente gasto pela insistencia no mesmo processo. Alem disto, ao manter inominados os referentes cobertos pelo substantivo comum "amigos," o texto abre-se ao prazer de sucessivas leituras, e a nota autobiografica pode ate valer como confirmacao das maximas nele veiculadas e da aura lendaria que acompanha a imagem deste escritor.

Trata-se de um poema a que se ajusta bem o exame que, na "Introducao" do romance A Mulher Fatal (1870), Camilo faz da sua propria obra, regida pelo programa romantico de Victor Hugo: o de que "nao conservo, sem intercadencias desvanecidamente faceciosas, uma situacao plangente, e amarguro com o acerbo da ironia a dulcidao das lagrimas" (Castelo Branco, Obras Completas Vol. VI 1062). Este texto e uma expressiva ponderacao teorica e programatica sobre o riso satirico portugues. Estabelece-se uma comparacao com a natureza e as intencoes sociais e politicas, insubmissas e renovadoras do riso castigador e pedagogico de outros ambientes mentais, literarios e culturais. O saldo nao e nada positivo para a satira portuguesa, e por isso se diz que "Ninguem se lembrou de inscrever algum dos nossos satiricos na pleiade dos que, rindo, castigaram. O espirito portugues nunca espantou ninguem. A bruteza carniceira, sim" (1061).

Camilo encontra uma explicacao de tipo historico para o atraso portugues em materia de riso satirico. Devido, em grande parte, a Inquisicao e ao "despotismo iluminado" (Castelo Branco, Obras Completas Vol. VI 1062), "Nao sabemos rir com 'espirito'; apenas gargalhamos com os queixos": "Quando Rabelais e Montaigne forjavam alavancas para Voltaire--o vidente que transformou a Europa--nos queimavamos homens em cujas frontes lampejavam reflexos de Joao de Leyde ou de Petrus Ramus. [...] Para o riso, que assombrava o dogma, acendia-se a fogueira: para o que assombrava a realeza, arvoravam-se os patibulos de Belem" (1062). E acrescenta: "Dai procedeu que os portugueses ainda tem na alma crepusculos daquela grande noite" (Castelo Branco, Obras Completas Vol. VI 1062). A satira francesa, a que Camilo reconhece maturidade, corresponde, em Portugal, "a 'chalaca', que ja deu uma filha estupida como sua mae, chamada a 'laracha'" (1062).

Alguns anos mais tarde, em Gracejos que Matam, uma das Novelas do Minho (publicadas, como se sabe, em pequenos cadernos entre 1875 e 1877), Camilo caracteriza, mais uma vez, o riso portugues como elementar e rude, sinal inequivoco de um espirito pouco desenvolvido: "[...] o estreme espirito portugues, por mais que o afiem e agucem, e sempre rombo e lerdo: nao se emancipa da velha escola das farsas: e chalaca" (Castelo Branco, Obras Completas Vol. VII 7). E mais a frente: "O satirico de sala e botequim e mais funesto e menos trivial que o politico; mais funesto porque vulnera melindres--coisa que o caloso peito da politica nao tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne nao apegou aqui, nem se adelgaca a feicao da nossa indole, bem acentuada nas chocarrices plebeias de Gil Vicente e Antonio Jose" (Castelo Branco, Obras Completas Vol. VI8, enfase no original).

Perante essa leitura de Camilo, nao admira que, na "Introducao" do romance A Mulher Fatal, apenas dois nomes de satiricos portugueses aparecam na relacao de mestres do riso ironico e satirico; riso, para citarmos alguns dos aforismos apresentados neste mesmo texto introdutorio, "que escava, mina e alui teogonias" (Castelo Branco, Obras Completas Vol. VI 1061), "que desfaz religioes, cujo berco boiou embalado sobre ondas de sangue" (1061) ou "riso que revoluteia as tormentas dos imperios, e abisma tronos, e espuma espadanas de lama--lama com que as geracoes erigem os seus marcos milenarios, as suas cronologias gloriosas" (1061): justamente Gil Vicente e Tolentino, a par de Democrito, Aristofanes, Esopo, Marcial, Petronio, Aretino, Erasmo, Sterne, Rabelais, Charron, Moliere, Voltaire, Byron e Heine. A maior novidade desta "Introducao," em que o significado do riso em Almeida Garrett e um pouco mais desenvolvido, esta na conjugacao, num efeito hibrido de multiplas causas, do riso e das lagrimas. E notavel o discernimento de Camilo, que percebe e assume com conviccao os dois lados das coisas tristes. Primeiro, para Camilo, advem, se nao o choro, pelo menos a comocao; a seguir, indagando a origem dos padecimentos humanos, ele descobre "ou sedimentos de perversidade ou ridicularias miserabilissimas. Entao e o rir" (Castelo Branco, Obras Completas Vol. VII 1062). O que quer dizer que, ao entendimento com as "glandulas lacrimais" (1062), sucede quer a compreensao com o "diafragma" (1062), quer uma compreensao, antes de mais, de si proprio: "E, a fim de que os padecentes me desculpem, rio primeiro de mim" (1062). Ou seja: o riso e as lagrimas sao sinais de humores bem distintos, mesmo paradoxais, mas que afinal a condicao humana cruza e une.

Perante aquele comentario circunstanciado e informado, e sem grande surpresa que deparamos, no volume Nostalgias: Ultima Prosa Rimada (1888), com uma "Advertencia" que retoma um dos aspetos mais salientes da teoria satirica camiliana. O autor reconhece a satira, no "Preambulo" que imediatamente se segue, um territorio ilimitado no espaco e no tempo:
   Seneca, o ilustre suicida,
   Ao sangrar-se com mao calma,
   Demonstrava, em fins de vida,
   A imortalidade da alma.

   Temos certa paridade,
   Se a jactancia nao me engana:
   --Demonstro a imortalidade
   Da excelsa Tolice humana. (Castelo Branco, Obras Completas X 860)


E explica:
   Esta obrinha que eu fiz e portentosa!
   Nao podem ir mais longe os meus desejos.
   Que rara operacao maravilhosa:
   De lagrimas amargas fiz gracejos! (859)


No mesmo livro de versos, a ultima quadra do "Epilogo" insiste na mistura literaria comico-tragica do riso com as lagrimas:
   Pobres versos, que eu fiz, quando,
   Transbordava d'amargura!
   Ficai sorrindo e chorando
   Sobre a minha sepultura. (880)


Sobre a funcao de que Camilo se investe no campo da satira versificada, importa ainda observar o que ele nos diz, em post scriptum, na coletanea Folhas Caidas, Apanhadas na Lama. O escritor apresenta-se, pedagogicamente, como "uma pessoa honesta, que reconhece Deus no Ceu, e o ridiculo na terra" (Castelo Branco, Obras Completas Vol. X 749), e que, alem do mais, "acredita que o Diabo nao e tao feio como o pintam, e reputa-o, nas suas elevadissimas intuicoes, como um espirito que se ri desentoadamente das muito parvas evolucoes da humanidade" (749); e "ousa declarar-se comissionado provisoriamente desse espirito de sarcasmo, e nao podera de ora em diante irrogar injuria a quem lhe chamar 'alma do diabo'" (749).

Ja em 1856, nas Memorias d'Alem da Campa dum Juiz Eleito, construira Camilo uma narrativa com a configuracao de texto doutrinario sobre a satira. Nela--cuja publicacao, em folhetim, nao e concluida, de acordo com o editor em que se dissimula Camilo, com base no topico do "manuscrito encontrado"--o objetivo e reproduzir os memorandos de um juiz portugues. Esta personagem, adotando o paradigma de Cervantes, pretende escrever uma historia dos costumes do homem portugues, para o que se propoe observa-lo com cuidado e castiga-lo severamente atraves do riso. Mas e o proprio juiz quem, observando o que sofrem no inferno os maiores nomes da satira, decide embargar esse projeto, e para isso pede a sua viuva, a quem se dirige em sonhos, que nao continue a publicacao da obra. Esta contrariedade, agravada pela abdicacao do editor relativamente ao prosseguimento desse projeto, mostra bem os obstaculos com que a atividade satirica se depara. O que devemos acrescentar a esta observacao de Camilo e que e exatamente desse acidentado processo socio-religioso e literario e dos recursos convocados para a sua resolucao que advem, em geral, muito do virtuosismo da satira, tanto na sua vertente pragmatica como artistica, filosofica e humana.

Mas voltemos ao "Poema a F. X. de Novais," para notarmos o seguinte: a jocosidade aspera desses versos nao os torna incompativeis com a poetica de Xavier de Novais. Ha uma comunhao de principios poeticos e ideologicos: na forma--a redondilha maior em quintilhas, o estilo simples e solto, que atrai pela fluencia e musicalidade e pelas propriedades cinematograficas; e na materia e nas intencoes--a desmistificacao dos valores da mesma sociedade burguesa nescia, empolada e mundana:
   Estupenda coisa, amigo,
   E encontrar num salao
   Com trejeitos de fidalga
   Esta que inda cheira a malga
   Da nabica e do feijao!

   E o barao que tem suspeitas
   De existir um sangue azul,
   Quer seu sangue, que e vermelho,
   Ajuntar ao sangue velho
   De aristocrata taful

   O dinheiro tolheu tudo,
   Alma, coragem, valor,
   Independencia, lisura,
   Honra, vergonha, bravura,
   Nobreza, fe e primor. (Novais, Satiras 100-101)


Excetuando um ou outro texto de registo mais elevado, as vezes com rasgos melodramaticos e pateticos, como sucede no soneto, de Nas Trevas. Sonetos Sentimentais e Humoristicos, "Velhos problemas sagrados,"
   "Pergunta-se a Divina Providencia:
   Que segredos sao estes do Destino?
   Ha vidas triunfais: parecem hino/Sem
   nota de penosa intercadencia.

   [...]
   Outros vao sobre espinhos arrastados
   Pela mao da Virtude, acorrentados
   Aos preceitos santissimos do Eterno!

   Quem deu a infamia vida tao folgada?
   Quem dilacera a honra? E Deus ou Nada?
   Responde, excelso autor do meu inferno!"
   (Castelo Branco, Obras Completas X 897).


A execucao formal e a concecao da satira camiliana em verso, sobretudo nas composicoes organizadas em estrofes mais curtas, pautam-se por uma uniformidade evidente: uma linguagem sacudida, simples, prosaica, com momentos grosseiros e extremos, a denotar a pungente impaciencia e o desespero enfurecido do eu lirico.

Nos dois interessantes "Sonetos da decrepitude" (que provem da obra Ao Anoitecer da Vida: Ultimos Versos, de 1874), com os quais Camilo se representa no segundo volume do Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros (1879), ha um outro elemento que o aproxima da poesia satirica de Faustino Xavier de Novais: a autocritica, praticada quer com um humor solto e irresistivel, quer com uma ironia romantica que enfrenta os topicos ultrarromanticos do sentimentalismo:
   Quando eu tinha vinte anos saluberrimos,
   andava sempre a declarar ao mundo
   que tinha cas, e um dissabor profundo,
   e dentro d'alma uns espinhais asperrimos.

   Certos criticos, juizes integerrimos,
   sorriam das cancoes do moribundo;
   pois viam no meu rosto rubicundo
   uns bocios brasileiros e uberrimos.

   Que tempo! que saudades! que tolice!
   Ora, hoje que eu me sinto quebrantado
   sob o peso da tremula velhice,

   nao digo que estou velho nem cansado;
   e nao gosto se sei que o leitor disse
   que o meu bigode ja reluz pintado.
   (Castelo Branco, Obras Completas X 851)


Esta autocritica tambem denuncia os lugares-comuns da religiosidade e do amor exacerbados:
   Senhoras do meu tempo, e bem notorio
   que eu vos servi com lira, harpa e laude;
   cantei-vos e chorei-vos enquanto pude,
   com ares de Antony, nao de Tenorio.

   Gastei-me entre as paixoes e o escritorio,
   raivando contra amor tredo que ilude;
   e protestava em prosa tosca e rude
   que o escrever e o amor sao purgatorio.

   Depois de oitenta livros, com oitenta
   raladoras paixoes, ja nao me escapa
   nem frase nem gemido! Hoje me alenta

   brilhante luz, que os olhos me destapa,
   quando, senhoras, vejo essa mao benta
   pedindo uma esmolinha para o papa. (852)


4. MENDES LEAL E GUILHERME BRAGA

De entre os inumeros autores romanticos de panfletos em verso, salientam-se dois poetas--Jose da Silva Mendes Leal Junior (conhecido como Mendes Leal) e Guilherme Braga--cuja exuberante emotividade e arrebatamento exclamativo constituem os precursores diretos da poesia social de finais de Oitocentos de um Gomes Leal e de um Guerra Junqueiro. Encontramos poemas de critica ao ministerio cabralista e outros que comentam as acoes independentistas de diversos paises, de que vem a resultar os chamados temas progressistas e humanitarios como o analfabetismo, a pena de morte ou a escravatura.

Se se limitasse ao desgastado lirismo ultrarromantico, para mais afetado por um excesso de imitacao, Mendes Leal nao teria suscitado tanto entusiasmo nos seus contemporaneos, entre os quais se destacava o jovem Antero de Quental, que recitava calorosamente aos seus colegas estudantes a poesia combativa do autor.

Para alem do seu extraordinario sucesso como cultor do dramalhao historico e do drama de atualidade de origem francesa, a ponto de as suas obras serem tao apreciadas quanto as de Garrett, e muito admirado o cunho heroico e panfletario de alguns dos seus poemas, que incorporam o estilo libertario e amplificador de Victor Hugo. E o caso, entre outros, de O Pavilhao Negro (1859) e Napoleao no Kremlin (1865), sugeridos pelo celebre episodio de escravatura do barco frances Charles et George e pela ferocidade contra o imperialismo frances, que evitara a retencao desse barco. Esta oitava mostra bem o tom declamatorio e fortemente imagetico e acusatorio das passagens satiricas de Mendes Leal:
   Essa aguia, tornada abutre,
   Para vergonhoso ensaio,
   Traz na garra em vez do raio,
   As gargalhadas servis.
   Ansiando o espolio que a nutre
   Os ares tortuosos corta,
   Paira, e espreita a presa morta ...
   Nao e esta a d'Austerlitz! (Junior 34)


O renome de Guilherme Braga, acerrimo defensor da Republica em gestacao, decorre tambem, em grande medida, da sua apetencia panfletaria e satirica. Pensamos na composicao anti-iberica Ecos de Aljubarrota (1868), na polemica travada com Tomas Ribeiro, de quem parodiou, com O Mal da Delfina: Parodia a Delfina do Mal por um Homem de Bem (1869), o poema A Delfina do Mal (1868), e nos vigorosos panfletos anticlericais Os Falsos Apostolos (1871) e O Bispo: Nova "Heresia" em Verso (1874). A virulencia e o tom grandiloquente de certos rasgos de humor algo satanico nao deixam duvidas quanto aos objetivos desta poesia: a denuncia e a demolicao agressiva, impiedosa e iconoclasta, como forma de acordar a sociedade portuguesa do seu embotamento e da sua mansidao:
   Os bracos nus da jovem messalina
   Cingem o padre, que, sorrindo, oscula
   A carne branca, aveludada e fina,
   Que lhe e dado gozar ... mesmo sem bula" (Braga XXXV).


Como vemos, e em finais do seculo xviii, por razoes que tem a ver com a rutura das poeticas rigidas e hermeticas, que a satira mais evolui no sentido de uma maturidade em que possa vir a assumir-se definitivamente como disposicao critica e vocacao da crise, constituindo-se os poetas que estudamos neste artigo como precursores da poesia social de finais de Oitocentos de um Gomes Leal e de um Guerra Junqueiro. "A busca utopica mas vital do ser no Absoluto, em vez de distanciar do mundo das paixoes sociais e ideologicas os poetas satiricos romanticos [...] de maior renome, e o que acima de tudo os implica num apostolado humanitario de gramatica satirica" (Nogueira 746). Numa palavra: a poesia satirica do Romantismo, que tem assumidamente como prioridade o pensamento, o conhecimento e a acao reformadora sobre o social, contribui para a revolucao politica, cultural e estetica consumada na epoca, dentro da nova concecao do mundo afirmada ao longo do periodo de grande crise espiritual que o seculo xviii essencialmente e.

NOTAS

(1) Apenas a edicao de 1914 das Obras Postumas inclui mais do que os 28 versos admitidos nas Obras Completas de 1904, os unicos a que regressam, em 1963, os organizadores da edicao da Lello & Irmao.

(2) Por exemplo: frei Diogo, no Canto II, aparece corrompido de gula e sensualidade, explorando a ignorancia e as supersticoes populares: "--Ambas em casa dela o esperaremos./--Ambas? Melhor, melhor. La vou sem falta" (Garrett 57).

(3) Sobre "As ferias", uma ode em que "se encontram apontamentos satiricos", diz Ofelia Paiva Monteiro que "As imagens escolhidas respondem naturalmente, com um contraste violento, aos ideais do programa regenerador. Eis, corporalizado numa alegoria (cujo efeito aviltante e conseguido em boa parte pela reducao disfemica ao material e ao corporeo), o dominio britanico que, aliado aos 'bachas do tirano', anemizava e artificializava a Nacao: 'Esta canalha d'Albion soberbo/ Aqui fixou seu trono./ De botelhas coroado, e de olhos, boca,/ Das orelhas, nariz e de outras partes/ Esguichando cerveja, numa gloria/ De espesso nevoeiro,/ Pousou seu genio bruto em nossos muros;/ C'o nacional God-damn, e o frasco a pino,/ Nos bebe o vinho, nos esbulha as bolsas,/ Da-nos em troca os sestros,/ Da-nos as manhas, os costumes feros,/ As ridiculas modas [...]'" (481. Sublinhados no original).

(4) Temos uma sintese particularmente expressiva e contundente desta personagem num poema de Manuel Duarte de Almeida, incluido no Cancioneiro Alegre de Poetas Portu gueses e Brasileiros (1879), de Camilo Castelo Branco: "Um grupo de brasileiros,/ Estropiados e poltroes,/ Falam alto de questoes/ De escravos e de cafes" (M. D. de Almeida 1175).

(5) Essa carta e designada no frontispicio do livro como "Juizo critico" (Novais, Novas Poesias 10).

(6) Sobre estas coletaneas--lembre-se, entretanto, que O Bardo (1852-1854), "Jornal de poesias ineditas", merece uma reedicao completa em volume, em 1856--escrevem Antonio Jose Saraiva e Oscar Lopes que elas "permitem hoje reconhecer uma evolucao significativa quanto a intencao e a estrutura formal da poesia em moda. O contemplativismo lamartiniano, o pessimismo funereo, o folclorismo convencional nao deixam de manter-se atraves de todo o periodo considerado, mas cedem espaco a temas humanitaristas e progressistas cada vez mais influenciados pela indignacao de Victor Hugo contra as condicoes sociais e politicas entao imperantes" (793).

(7) Ha outras referencias dispersas feitas pelo proprio Camilo. No Cancioneiro Alegre, na parte relativa a Donas Boto (Luis Maria de Carvalho Saavedra), por exemplo, o escritor afirma: "Falava-se muito no poeta Faustino de Novais e no brasileiro Arara" (Obras Completas Vol. X 1186).

Tambem o poema "A Faustino Xavier de Novais", com o qual Casimiro de Abreu reverencia entusiasticamente a chegada do poeta ao Brasil, onde ele gozava de larga celebridade, e inequivoco na atestacao da importante influencia entao exercida pelo poeta no tecido social luso-brasileiro: "Bem-vindo sejas, poeta,/ A estas praias brasileiras!/ Na patria das bananeiras/ As glorias nao sao de mais:/ Bem-vindo, o filho do Douro!/ A terra das harmonias,/ Que tem Magalhaes e Dias,/ Bem pode saudar Novais.// [...]// Venha a rom,/ Brilhe viva a tua veia,/ Ja que a cidade esta cheia/ Desses eternos Maneis;/ Os baroes andam as duzias/ Como os frades nos conventos,/ Comendadores aos centos,/ Viscondes a pontapes.// Aproveita estes bons tipos,/ Ha-os aqui com fartura,/ E salta a caricatura/ Nos tracos do teu pincel:/ Ou quer na prosa ou no verso/ Da-lhes bem severo ensino,/ Ressuscita o Tolentino,/ Embeleza o teu laurel" (C. de Abreu 1285-1286).

(8) Para, de passagem, avaliarmos o tom faceto e o prosaismo burgues deste poema heroi-comico em tres cantos (os dois primeiros com dez, o ultimo com doze estrofes), o qual imita jocosa e satiricamente o essencial da trama, da estrutura formal e do estilo de Os Lusiadas, recorrendo ostensivamente aquela forma disfemica que sempre visa um riso popular e franco, transcrevemos aqui as duas primeiras estancias: "Os conegos, e os socos bem puxados/ Que da Se episcopal na sacristia,/ Em queixos nunca dantes soqueados/ Ferveram com rev'renda valentia:/ E aqueles que deveram ser cantados,/ Quais filhos de sagaz patifaria,/ Cantando, espalharei por todo o Porto,/ Qual se espalha o fedor de cao ja morto.// O Musa, sem vergonha, porca Musa,/ O Musa escandalosa, se comigo!/ Nao admito que digas por escusa/ Que os conegos ja estao feitos contigo./ E pandega! valeu! ninguem recusa!/ Bofe! que e palavrao do tempo antigo!/ Bofe! cantem-se os padres que hao jogado/ O soco tremebundo, fero e ousado!" (Castelo Branco, Obras Completas Vol. X 309).

(9) O juizo de Eca de Queiros transcrito acima e uma critica a uma tendencia que se impos no estilo satirico de Camilo Castelo Branco, nao uma recusa absoluta da sua satira. Numa carta, nao enviada e datada de 1888, que Eca escreve ao proprio Camilo, le-se: "admiro sem reserva em V. Ex.a o ardente satirico, neto de Quevedo, que poe ao servico da sua apaixonada misantropia o mais quente e o mais rico sarcasmo peninsular (M. F. de Abreu, Satira: 526).

OBRAS CITADAS

Abreu, Casimiro de. "A Faustino Xavier de Novais." Castelo Branco, Camilo Castelo. Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros. Vol. II. Obras Completas. 1879. Vol. X, Editado por Justino Mendes de Almeida. Lello & Irmao-Editores, 1989, pp. 1285-86.

Abreu, Maria Fernanda de. "Riso e humorismo (na literatura romantica)." Dicionario do Romantismo Literario Portugues. Editado por Helena Carvalhao Buescu, Editorial Caminho, 1997, pp. 480-83.

--. "Satira." Dicionario do Romantismo Literario Portugues. Editado por Helena Car valhao Buescu, Editorial Caminho, 1997, pp. 525-28.

Almeida, Manuel Duarte de. "Suplica de um enterrado." Castelo Branco, Camilo. Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros. 1879. Vol. II. Obras Completas. vol. X, editado por Justino Mendes de Almeida, Lello & Irmao-Editores, 1989, p. 1175.

Almeida, Onesimo Teotonio de. "O humor (ou a ausencia de) no Camilo polemico." Sentido Que a Vida Faz: Estudos para Oscar Lopes, editado por Ana Maria Brito, et alii, Campo das Letras, 1997, pp. 49-58.

Braga, Guilherme. O Bispo: Nova "Heresia" em Verso. 2.a ed. Com o retrato e uma poesia inedita do autor, e um preambulo por J. Pereira de Sampaio (Bruno), Livraria Camoes de Fernandes Possas, 1895.

Castelo Branco, Camilo. "Juizo critico". Novas Poesias. 1858. Editado por Faustino Xavier de Novais, Ernesto Chardron, 1881, p.10.

--. Obras Completas. Publicadas sob a direcao de Justino Mendes de Almeida, Vol. VI, VII, e X, Lello & Irmao-Editores, 1987-1989.

--. "Os amigos." Literatura Portuguesa VI. O Ultra-Romantismo. Editado por Teofilo Braga, Publicacoes Europa-America, 1986, p. 279.

Garrett, Almeida. Magrico ou os Doze de Inglaterra. Edicao organizada e comentada por Alberto Pimenta, Edicoes 70, 1978.

Junior, Jose da Silva Mendes Leal. O Pavilhao Negro. Tipografia Futuro, 1859.

Monteiro, Ofelia Paiva. A Formacao de Almeida Garrett. Experiencia e Criacao. 2 vols. Centro de Estudos Romanicos, 1971.

Nogueira, Carlos. A Satira na Poesia Portuguesa e a Poesia Satirica de Nicolau Tolentino, Guerra Junqueiro e Alexandre O 'Neill. Fundacao Calouste Gulbenkian / FCT-Fundacao para a Ciencia e a Tecnologia, Ministerio da Ciencia, Tecnologia e Ensino Superior, 2011.

Novais, Faustino Xavier de. Novas Poesias. 1858. Precedidas dum Juizo Critico de Camilo Castelo Branco, Ernesto Chardron, 1881

--. Satiras. Organizacao e prefacio de Viale Moutinho, Ulmeiro, 1998.

Pimenta, Alberto. "Prefacio." Magrico ou os Doze de Inglaterra, por Almeida Garrett. Editado por Alberto Pimenta, Edicoes 70, 1978, pp. 11-23.

Saraiva, Antonio Jose, e Oscar Lopes. Historia da Literatura Portuguesa. 1953. 16a. ed., corrigida e atualizada. Porto Editora, s.d.

Carlos Nogueira

Universidad de Vigo--Catedra

Internacional Jose Saramago
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Author:Nogueira, Carlos
Publication:Hispanofila
Date:Dec 1, 2017
Words:7865
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