Printer Friendly

"UM LIVRO SINGULAR E FACIL DE VENDER": O SPLEEN DE PARIS NA CORRESPONDENCIA DE BAUDELAIRE/"A SINGULAR AND EASY-TO-SELL BOOK": THE SPLEEN OF PARIS IN THE CORRESPONDENCE OF BAUDELAIRE.

Num artigo de Andre Guyaux, professor na universidade Paris IV-Sorbonne, intitulado "Le discours de la maladie dans la correspondance de Baudelaire" [O discurso da doenca na correspondencia de Baudelaire], o especialista do poeta das Flores do mal, um dos mais importantes na atualidade, afirma que "circula sobre as cartas [de Baudelaire] um julgamento redutor: elas se reduziriam a eternas queixas, a interminaveis lamentacoes sobre dois assuntos: a doenca e o dinheiro" (GUYAUX, 2002, p. 119) (1). E incontestavel que os dois temas em questao estao onipresentes na correspondencia, e que as repetidas queixas podem fatigar ate mesmo um leitor experiente. Alem disso, as epistolas baudelairianas apresentam, para dificultar ainda mais o interesse que se poderia ter por elas, uma escrita bastante prosaica em que inumeras referencias e discussoes se entrecruzam.

Por assim dizer, trata-se de uma materia--essa correspondencia baudelairiana--heterogenea, hibrida e, de certa forma, irredutivel. Custa ao leitor acompanhar os debates compostos de conversas, por vezes iniciadas pessoalmente e retomadas epistolarmente, repletas de negociacoes com editores, de referencias ao mundo das letras e das artes, de alusoes a acontecimentos pessoais ou historicos. Finalmente, mescladas a essas discussoes, confissoes e manipulacoes que fazem do tecido narrativo uma composicao bastante complexa de se lidar. O leitor deve permanecer atento e consultar as numerosas notas.

No entanto, como indica Guyaux, a correspondencia de Charles Baudelaire nao se limita aos discursos da doenca e do dinheiro. Trata-se de um julgamento redutor que revela a falta de conhecimento do genero epistolar e de sua riqueza, especialmente em se tratando de cartas de um poeta, critico, pensador e jornalista tao atuante, atento aos debates literarios e as mudancas de sua epoca. Com efeito, constata-se a riqueza das cartas de Baudelaire, uma vez apartado o superficial discurso de lamentacoes, porque ali se da a ver o "Mundo Baudelaire", sua linguagem, os bastidores de suas composicoes, a descoberta de seus projetos literarios, concluidos ou nao, o funcionamento das editoras, e seu pensamento e visao do seculo XIX com as grandes transformacoes e debates que ocorreram na epoca. Nao ha duvida de que sua correspondencia constitui uma importante chave de leitura de sua obra, conquanto adentre-se a correspondencia para alem das camadas das queixas sobre os problemas pessoais.

Nessa gama de temas e revelacoes presente na correspondencia de Baudelaire, encontram-se reflexoes sobre seu processo criativo e sua concepcao de poesia. Em diversas cartas, enderecadas principalmente a editores e jornalistas, o poeta deixa transparecer suas ideias acerca do trabalho poetico e, em especial, acerca de seu proprio projeto literario, que se configura, nos termos de Barbara Johnson (1979), como uma dupla revolucao, iniciada por Les Fleurs du mal (1857) e radicalizada pelos Petitspoemes enprose (1869). No que diz respeito aos poemas em prosa, que "marcariam", segundo Georges Blin (2006, p. 7), "um comeco absoluto" na historia da "criacao literaria", as cartas de Baudelaire se apresentam como um material rico para o pesquisador interessado em compreender a "poetica do Spleen de Paris" (VERAS, 2017), a genese dos poemas, suas primeiras publicacoes, polemicas editoriais e o progressivo desenvolvimento de um projeto de livro paradoxalmente indissociavel da relacao ambivalente com o suporte jornalistico.

Assim, o presente artigo tem por objetivo abordar os poemas em prosa, a obra O Spleen de Paris, publicada postumamente em 1869, a partir da correspondencia de Charles Baudelaire, considerando um recorte temporal que se inicia por volta de 1857, ano que marca a aparicao das primeiras referencias, no ambito das correspondencias, a um projeto de livro de poemas em prosa. A analise das cartas que trazem referencias diretas aos poemas em prosa revelara um poeta em pleno exercicio de autorreflexao poetica, que, no caso de Baudelaire, se realiza em tensao constante com as exigencias do suporte, dos editores e do publico leitor para o qual os textos se destinam.

O genero epistolar: um "dialogoper absentiam"

Verdadeiro dialogo entre ausentes, apos uma epoca dourada, o estudo da correspondencia de escritores ou artistas foi visto com suspeitas durante muito tempo, sob o vies dos metodos analiticos do seculo XX, porque era associado a leitura biografica das obras, ao biografismo. E claro que essa desconfianca foi maior em alguns paises, a exemplo da Franca. Nao obstante, voltou a despertar interesse, como afirma Silviano Santiago (ANDRADE, 2002, p. 9-10).

E existem razoes legitimas para explicar a renovacao do estudo do genero epistolar, novos estudos por parte de pesquisadores como, por exemplo,

Marcos Antonio de Moraes (como veremos adiante), e se violar as missivas de um autor como Baudelaire, documentos cuja privacidade e assegurada por lei. Santiago aponta tres motivos para a publicacao de cartas de grandes autores: 1) a eminencia da obra no campo da estetica literaria; 2) a importancia social e historica do poeta; 3) "curiosidade intelectual das novas geracoes, que saem em busca da verdade nas respectivas obras literarias [...]".(idem, p. 9) Conforme Santiago (2002, p. 9-10), a epistolografia tem dois objetivos, dos quais destacamos particularmente o primeiro:
A leitura de cartas escritas aos companheiros de letras e familiares,
bem como a de diarios e entrevistas, tem pelo menos dois objetivos no
campo duma nova teoria literaria. Visa a enriquecer, pelo
estabelecimento de jogos intertextuais, a compreensao da obra artistica
(poema, conto, romance...), ajudando a melhor decodificar certos temas
que ali estao dramatizados, ou expostos de maneira relativamente
hermetica [...].


O estudo da correspondencia, portanto, nada tem a ver com o biografismo, e seu estudo buscara perspectivas complementares a partir de uma materia rica e complexa que pode alumiar a obra de um(a) autor(a). Segundo Roger Chartier, "os usos da escrita, em suas variacoes, sao decisivos para compreender como as comunidades e os individuos constroem representacoes do seu mundo e investem significacoes plurais, contrastadas, suas percepcoes e experiencias". (1991, p. 9-10)

Marcos Antonio de Moraes indica tres perspectivas para se abordar o genero epistolar: 1. e a expressao testemunhal que define um perfil biografico; 2. pode-se apreender a movimentacao nos bastidores da vida artistica de um determinado periodo; 3. o genero epistolar pode ser interpretado como "arquivo da criacao", em que se encontram fixadas a genese e as diversas etapas de elaboracao de uma obra artistica, desde os primeiros apontamentos do projeto, como o titulo de uma obra (caso dos poemas em prosa, como veremos adiante), ate o debate sobre a sua recepcao. A carta, nesse sentido, ocupa o estatuto de cronica da obra de arte, e a epistolografia pode ser vista, principalmente pela critica genetica, enquanto "canteiro de obras" ou "atelie", que descortina a trama da invencao, ou ainda os tracos de um ideal estetico. (2009, p.123-136)

O genero epistolar pode ser apontado como genero particularmente hibrido, pois o texto da carta oscila entre manipulacao e documento testemunhal, entre literatura e simples comunicacao de eventos comuns do cotidiano. A carta se situa em um limiar no qual ocorrem permanentes derivas entre generos considerados distintos: entre diario intimo e prosa de ficcao, eis a primeira deriva. Ha tambem oscilacao na relacao do sujeito com o destinatario e consigo mesmo.

A carta, como explica Foucault no texto "A escrita de si",
torna o escritor "presente" para aquele a quem ele a envia. E presente
nao simplesmente pelas informacoes que ele lhe da sobre sua vida, suas
atividades, seus sucessos e fracassos, suas venturas e desventuras;
presente com uma especie de presenca imediata e quase fisica. (2006, p.
156)


Ela sera, durante seculos, a forma privilegiada de comunicacao; e escrever uma missiva e, portanto, uma maneira de se fazer presente, de se mostrar, se expor, de se oferecer ao olhar do outro.

Mas essa presenca quase fisica, que emana da correspondencia, deve ser vista como que num espelho que ora reflete quase fielmente uma imagem, ora deforma o sujeito que ali se expoe e se mostra. Nelas nos deparamos com gestos de persuasao, representacao, confissao, testemunho ou debate. Lidamos com uma persona que emprega artificios persuasivos--ainda mais tratando-se de Baudelaire--, ou uma pessoa que se abre ao outro, que se da a conhecer, ou que se revela a si mesmo. Ha manifesto sistema de dissolucao do sujeito que varia em funcao do correspondente ou das intencoes: "Como quero ser visto por fulano ou sicrano?" (2002, p.11). No entanto, nao podemos esquecer que ha tambem abertura, entrega, confissao, nas palavras precisas de Mario de Andrade citadas por Santiago, um estado de "eu sou eu, ser aberto que se abandona" (2002, p.11).

Decorre dessas observacoes que o genero exige manuseio cauteloso e que, nessa abordagem nao ingenua da correspondencia, nao podemos erguer oposicoes rigidas entre honestidade, da obra poetica de Baudelaire, e mentira, que permearia suas missivas, conforme aponta Claude Pichois.
Baudelaire mente, e os bons apostolos podem se velar a face. Seus
gritos mais pateticos, arrancados de seu coracao, quem os ouviu? Entao
ele acaricia, disfarca a verdade, para obter dez francos, um prazo, um
artigo favoravel. Ou faz uso de crueldade, como com sua mae. (2)
(BAUDELAIRE, 1973, p. XII)


Essa visao de Pichois, que afirma a imagem do poeta como "fino manipulador", ganha respaldo nas palavras de Michel Butor. Este declara que a ma fe de Baudelaire em suas cartas nao e senao "o avesso, o resgate desse prodigioso esforco de honestidade mental que sua obra inteira representa, no meio da noite e do desespero" (1961, p. 21). Ora, um dos valores da correspondencia baudelairiana encontra-se justamente na dissolucao das fronteiras, no transito entre manipulacao e na revelacao, entre fingimento e desnudamento. O leitor e levado a hesitacoes na sua interpretacao, mas igualmente ao prazer de descobrir a ironia do poeta, suas manobras (por vezes claramente inabeis), ao mesmo tempo em que e levado a singularidade de um gesto sincero de abertura e a seguir os rastros da genese de uma obra. Dai surge explicitamente em varios momentos nas epistolas baudelairianas a necessidade de proclamar sua sinceridade. O poeta tem consciencia de suas promessas nao cumpridas e manipulacoes, o que resulta na desconfianca de sua familia e dos outros.

A obra de referencia da correspondencia de Charles Baudelaire e a edicao de 1973, publicada pela editora Gallimard, em dois volumes de papel biblia, sob a direcao de Claude Pichois. Tal escolha tem respaldo na seriedade e na linhagem desse eminente baudelairiano, herdeiro dos trabalhos de Eugene Crepet e Jacques Crepet (filho de Eugene), cuja edicao de 1973 e o resultado do esforco de tres geracoes de pesquisadores que dedicaram suas vidas profissionais a um trabalho imenso: resgatar, copiar, reunir, ordenar, anotar, transcrever, conferir mais de 1.500 documentos, dentre os quais a maioria e composta de cartas, mas que incluem tambem contratos, promissorias e apontamentos/testemunhas (temoins) da existencia de missivas desaparecidas, de 9 de janeiro de 1832 a 30 de marco de 1866. A edicao de Pichois se tornou, inclusive, o principal texto de partida para as traducoes em outros idiomas realizadas apos 1973. Ao final, os dois volumes contem quase duas mil e trezentas paginas divididas entre as cartas, as notas, uma introducao contando com um historico da correspondencia, uma cronologia de vida, indices remissivos (obras, jornais, revistas, obra de Edgar Allan Poe), um indice onomastico, uma relacao das cartas e outra dos destinatarios, uma secao repertoriando as financas (de autoria de Jean Ziegler).

Um livro postumo

O ponto de partida para qualquer estudo de folego dos poemas em prosa de Baudelaire deve levar em consideracao, primeiramente, seu carater circunstancial, isto e, sua intima ligacao com o suporte e com o universo dos jornais e das revistas (BERTRAND, 2004, p. 330). Tambem e preciso considerar que, embora o poeta delineie em diversas cartas uma especie de projeto de livro, a reuniao efetiva daqueles poemas em volume so ocorreria em 1869, dois anos apos a morte do poeta, sob os cuidados e intervencoes significativas dos amigos editores Theodore de Banville e Charles Asselineau. Os poemas em prosa que hoje compoem O Spleen de Paris contabilizaram, antes da reuniao postuma em livro, 73 publicacoes em 15 periodicos diferentes, divididos entre jornais de grande circulacao como Le Figaro e La Presse, revistas especializadas e publicacoes literarias. Do titulo ao epilogo em versos acrescentado equivocadamente por Banville e Asselineau, passando pelo numero de poemas e pela escolha do prefacio, praticamente toda a estrutura dos Petits poemes en prose e fruto de uma composicao a posteriori (3), fato que levou o critico Jacques Dupont, em artigo publicado recentemente na revista L'Annee Baudelaire, a considerar O Spleen de Paris uma "ficcao critica" (DUPONT, 2013).

A analise de sua correspondencia nos mostra que Baudelaire se debateu, ao longo de quase uma decada, com a dificil tarefa de conceber um livro que reunisse poemas ao mesmo tempo "penetrantes e leves" (1973, vol. II, p. 583), conforme se le em uma carta a Sainte-Beuve de 15 de fevereiro de 1866.

Com efeito, as missivas de Baudelaire sobre o projeto dos poemas em prosa nos colocam diante de uma serie de hesitacoes, de idas e vindas, e da conhecida angustia baudelairiana da procrastinacao e do acumulo de tarefas, conforme verificamos nestes trechos de cartas da decada de 1860:
No Spleen de Paris (4), havera cem pecas--ainda faltam trinta. Abracei
irrefletidamente tantas e variadas fainas, e tenho tantos problemas em
Paris, que tomei a decisao de fazer suas trinta pecas em Honfleur. (5)
(Carta a Pierre-Jules Hetzel de 8 outubro de 1863--[1973, vol. II, p.
324])

Ai de mim! os Poemas em prosa aos quais voce ainda havia disparado um
encorajamento recente estao muito atrasados. Eu sempre abraco fainas
muito dificeis. Fazer cem bagatelas laboriosas que exigem um bom humor
constante (bom humor necessario ate para tratar dos assuntos tristes),
uma excitacao bizarra que necessita de espetaculos, multidoes, musica,
ate mesmo de postes de luz, eis o que eu quis fazer! Conto apenas
sessenta, e nao consigo mais avancar. Preciso daquele famoso banho de
multidao cuja incorrecao justamente lhe chocou. (6) (Carta a
Sainte-Beuve de 4 de maio de 1865--[idem, p. 493]) Ah! esse Spleen,
quanta colera, e quanto labor me causou! E eu continuo descontente com
certas partes. (7) (Carta a Jules Troubat de 5 de marco de 1866--[idem,
p. 627])


Baudelaire se queixa, como de costume, da quantidade de tarefas assumidas, mas ressalta tambem a complexidade inerente ao projeto dos poemas em prosa, que nao hesita em chamar de "bagatelas laboriosas", na carta enderecada a Sainte-Beuve. Essa "alianca dos contrarios", nas palavras de Antoine Compagnon (2014, p. 54), define, como veremos, o desafio e a novidade dos poemas do Spleen.

Por ora, cumpre observar que as hesitacoes e tensoes vivenciadas pelo poeta ao longo do periodo de gestacao dos poemas em prosa parecem coincidir performaticamente com a propria estrutura hesitante e ambivalente do livro postumo, concebido como uma unidade em franca tensao com sua origem fragmentada e circunstancial. E possivel dizer que, de alguma maneira, a ambivalencia entre a fragmentacao do jornal e a unidade do livro, com o qual, e preciso ressaltar, o poeta sonhava, corresponde, no plano da genese da obra, a ambivalencia discursiva que caracteriza o plano estilistico dos poemas lidos isoladamente ou, especialmente, em conjunto. "Segundo um paradoxo bem baudelairiano", escreve Jean-Pierre Bertrand (2004, p. 333), "o poema em prosa se oferece como um genero nascido de e para a imprensa, sendo ao mesmo tempo um dedo na cara do hipocrita leitor do jornal".

No plano da genese da obra, essa hesitacao fica bastante clara quando observamos a multiplicidade de titulos pensados e propostos por Baudelaire. Em carta a Poulet-Malassis, datada de 25 de abril de 1857, o poeta projeta, pela primeira vez, a composicao de seus Poemes nocturnes, titulo que se manteria ate o fim do ano de 1861. Quatro "poemas noturnos" ("Le Crepuscule du soir" [O crepusculo do entardecer], "La Solitude" [A solidao], "Les Projets" [Os projetos] e "L'Invitation au voyage" [O convite a viagem]) aparecem na edicao de 24 de agosto de 1857 da revista Le Present. Nesses primeiros esbocos e publicacoes dos futuros pequenos poemas em prosa, Baudelaire ja se confessa assombrado pelos inumeros trabalhos inconclusos, alem de nos revelar alguns tracos do projeto que ganharia corpo ao longo da proxima decada:
Alias, apesar de todo o tempo que esse negocio absorve, e preciso que
eu finalize quatro volumes: terceiro volume de Edgar Poe, os Poemas
noturnos (de minha autoria), as Curiosidades esteticas (de minha
autoria), e o Comedor de opio (traducao de uma obra de De Quincey).
Alem disso, antes do final do ano, precisaria fazer em Honfleur meu
drama e um romance. (Carta a Madame Aupick de 27 de julho de 1857 -
[1973, vol. I, p. 418]).

Os poemas noturnos foram iniciados. (Carta a Alphonse de Calonne de 10
de novembro de 1858--[idem, p. 522]).

Nos primeiros dias de marco, vou a Paris com um pacote monstruoso para
Morel: O Corvo, com o famoso comentario, a Genealogia da composicao
(8), que tanto lhe horroriza; um artigo sobre a pintura espanhola
(ultima aquisicao, embora ele (9) ja tenha impresso sobre isso (10), e
aceitavel) e alguns poemas noturnos. (Carta a Charles Asselineau, 20 de
fevereiro de 1859--[idem, p. 551)


Entre 1857 e 1861, Baudelaire insiste, portanto, na promessa de composicao de um livro de poemas em prosa, reiteradamente anunciado sob o titulo Poemes nocturnes. Em carta a Armand Du Mesnil de 9 de fevereiro de 1861, o poeta apresenta uma primeira definicao para seus poemas noturnos, descritos como "ensaios de poesia lirica em prosa, no genero do Gaspard de la Nuit" (11) (1973, vol. II, p. 128). Na mesma carta, Baudelaire anota que a obra proposta nao tem tamanho definido (12), em contraste com os outros tres trabalhos em vista (M. Constantin G, - et generalement les peintres de moeurs, Les Peintres philosophes e Le Dandysme dans les lettres [Sr. Constantin G, - e geralmente os pintores de costumes, Os Pintores filosofos e O Dandismo nas letras]), cuja quantidade de paginas e prevista com exatidao (13).

O titulo Le Spleen de Paris viria a aparecer pela primeira vez em carta enderecada ao editor Pierre-Jules Hetzel de 20 de marco de 1863: "Sou incapaz de fazer uma charge de um excelente amigo, e, alias, atribuo uma grande importancia ao Spleen de Paris" (14) (1973, vol. II, p. 295). Encabecando o conjunto de quatro poemas ("La corde" [A corda], "Le crepuscule du soir" [O crepusculo do entardecer], "Le joueur genereux" [O jogador generoso] e "Enivrez-vous"[Embriaguem-se]) publicado no jornal Le Figaro em 7 de fevereiro de 1864, o titulo Le Spleen de Paris aparece acompanhado do epiteto sublinhado Poemes en prose, que ja vinha sendo utilizado amplamente pelo poeta em sua correspondencia e em algumas publicacoes na imprensa, como nas tres series de poemas publicadas no jornal La Presse, nas edicoes de 26 e 27 de agosto e 24 de setembro de 1862. (15) De Poemes nocturnes ate a emergencia do titulo que faz referencia a essencia urbana da poesia em prosa baudelairiana, uma gama de titulos e ensaiada por Baudelaire, especialmente no ambito das correspondencias: Poemes en prose (Revue Fantaisiste, edicao de 1 de novembro de 1861), La Lueur et la fumee. Poeme, en prose (carta a Arsene Houssaye de 20 de dezembro de 1861), Le Promeneur solitairee Le Rodeur parisien (carta a Arsene Houssaye do Natal de 1861), Petits poemes en prose (La Presse, edicoes de 26 e 27 de agosto e 24 de setembro de 1862; Revue Nationale et Etrangere, edicoes de 10 e 15 de junho e de 10 de dezembro de 1863; L'Artiste, 1 de novembro de 1864), Le Spleen de Paris. Poemes en prose (Le Figaro, edicao de 7 de fevereiro de 1864; Revue de Paris, edicao de 25 de dezembro de 1864), Petits poemes lycanthropes (Revue du XIXe siecle, edicao de 1 de junho de 1866)e, finalmente, Le Spleen de Paris (na ja mencionada carta a Pierre-Jules Hetzel de 20 de marco de 1863; L'Evenement, edicao de 12 de junho de 1866, na qual foi publicado apenas o poema "La Corde").

A evolucao dos titulos ao longo dos seis anos, que separam a primeira referencia aos Poemes nocturnes da primeira aparicao de Le Spleen de Paris, aponta evidentemente para um movimento em direcao a experiencia poetica urbana, de matriz moderna, em detrimento da ambientacao soturna, de matriz romantica, na qual se fortalecem os lacos com o Gaspard de la Nuit, de A. Bertrand, reivindicado por Baudelaire (ironicamente?) na carta-dedicatoria a Arsene Houssaye como um dos modelos de seus poemas em prosa. Andre Guyaux observa, alem disso, que o titulo parisiense reforca o vinculo do futuro volume com Les Fleurs du mal, conforme a conhecida explicacao que Baudelaire oferece a Julien Lemer, em carta de 6 de julho de 1865 (1973, vol. II, p. 512): "Le Spleen de Paris (pour faire pendant aux Fleurs du mal)" [O Spleen de Paris (para formar simetria com as Flores do mal)]. Nas palavras de Guyaux (2014, p. 8):
[Baudelaire] sonha com um equilibrio, uma simetria ate, que a estrutura
dos dois sintagmas reflete: As Flores do mal--O Spleen de Paris. Ele
gostaria de "cem pecas" no Spleen de Paris (carta a Hetzel, de 8 de
outubro de 1863), como havia cem poemas nas Flores do mal em 1857.
Sonha com uma conclusao, um acabamento. Mas o tempo vai faltar, e nos
conceder, a titulo postumo, um livro inacabado. (16)


"Um livro singular e facil de vender"

Embora Baudelaire sonhe com um "acabamento", com uma "finalizacao" para seu projeto de um livro de poemas em prosa, e o inacabamento que prevalece, nao apenas em funcao do tempo que lhe faltara, conforme a afirmacao de Andre Guyaux, mas tambem pelo carater ligeiro, aparentemente banal, aparentemente despretensioso e corriqueiro dos poemas, que o proprio Baudelaire nao hesitaria em chamar "bagatelas". "Bagatelas laboriosas" (17), mais especificamente, e o epiteto empregado por ele na carta enviada a Sainte-Beuve em 4 de maio de 1865 citada acima. Entre a banalidade quase jornalistica dos poemas e o esmero poetico caracteristico de Baudelaire, se inscreve o projeto de conceber poemas para o espaco jornalistico e seu publico pouco ou nada habituado ao universo da poesia. Com efeito, segundo Walter Benjamin (1989, p. 103):
Baudelaire teve em mira leitores que se veem em dificuldades ante a
leitura da poesia lirica. O poema introdutorio de As Flores do mal se
dirige a estes leitores. Com sua forca de vontade e, consequentemente,
seu poder de concentracao nao se vai muito longe; esses leitores
preferem os prazeres dos sentidos e estao afeitos ao spleen
(melancolia), que anula o interesse e a receptividade.


A relacao estabelecida com esse publico, que, em ultima instancia, e o publico dos jornais de grande circulacao, torna-se ainda mais ambivalente e tensa com o advento do poema em prosa publicado na imprensa. Digamos que essa relacao se estabelece na fronteira entre a comunicacao e a violencia, entre um gesto de aproximacao e outro de recusa agressiva da comunhao, da comunidade. Poemas em prosa como "Perte d'aureole" ["Perda de aureola"], "Les Foules" [As multidoes], de um lado, e "La Solitude" [A Solidao], "A une heure du matin" [A uma da manha] e "Le Mauvais vitrier" [O Mau vidraceiro], de outro, exemplificam perfeitamente essa ambivalencia.

Em carta de 20 de marco de 1863, Baudelaire escreve ao editor Pierre-Jules Hetzel, referindo-se a seu Spleen de Paris mais uma vez de maneira ambivalente: "Creio que, gracas a meus nervos, nao estarei pronto no dia 10 ou 15 de abril. Mas posso garantir-lhe um livro singular e facil de vender." (18) (1973, vol. II, p. 295). A promessa de um livro unico e vendavel ao mesmo tempo repercute, no ambito da insercao social da obra, outras expressoes antiteticas utilizadas pelo poeta nas cartas a fim definir o projeto do Spleen de Paris. Por um lado, Baudelaire ressalta o carater banal, mercadologico, sem qualidade de sua nova poesia. Em maio de 1865, em carta a Edouard Manet, diz ter "uma massa de Poemas em prosa para espalhar em duas ou tres revistas" (19) (idem, p. 496-497); em duas cartas a Louis Marcelin (de 9 de outubro de 1864 e 15 de fevereiro de 1865), fala em "pacotes de Poemas em prosa'" (idem, p. 406 e 465), sendo que, na segunda carta, acrescenta, referindo-se sempre aos poemas em prosa: "mas sao horrores e monstruosidades que fariam abortar suas leitoras gravidas" (20). Baudelaire parece fazer questao de apresentar os poemas como bagatelas sem valor; em outras palavras, assume, ainda que retoricamente, o partido do prosaico em detrimento da visao romantica, sublime, aureolada (para lembrar uma metafora central no conjunto do Spleen de Paris), de poesia. Por outro lado, Baudelaire nao deixa de ressaltar que sao bagatelas laboriosas, isto e, que o exercicio da banalidade nao se da como entrega inconsciente ao mundo vulgar, mas como resultado de um trabalho arduo, como ponto de chegada de uma reflexao poetica sofisticada, que sua correspondencia ajuda a elucidar.

As relacoes pessoais de Baudelaire com jornalistas e editores se caracterizam tambem pela ambiguidade, pela tensao entre a dependencia economica e o desprezo. "Baudelaire odiava a imprensa, mas nao podia se passar dela" (21) (COMPAGNON, 2014, p. 42). O poeta sempre esteve ciente de que, nos jornais, "a literatura, que e a materia mais inapreciavel, e, antes de mais nada, preenchimento de colunas." (22) (BAUDELAIRE, 1975, p. 15). Esse carater "inapreciavel" da literatura nos jornais e na modernidade industrial em geral e justamente o ponto de partida do projeto baudelairiano; ele e explorado intensamente pelos poemas em prosa como materia cotidiana destinada a mera diversao burguesa (por isso "facil de vender"), mas especialmente como provocacao ironica ao mesmo leitor burgues quase sempre incapaz de acessar as camadas mais profundas de sentido, escondidas sob a aparente banalidade daqueles textos curtos que dividiam espaco e as vezes ate se confundiam com o noticiario politico, com os faits divers, com os numeros da Bolsa e com a publicidade, caracterizando aquilo que Jean-Pierre Bertrand (2004, p. 339) definiu como "apropriacao subversiva do jornal" (razao maior da "singularidade" do Spleen de Paris).

Consideracoes finais

Os comentarios de Baudelaire, esparsos em sua correspondencia, constituem um rico "arquivo de criacao" e um "canteiro de obra", expressao alias bastante adequada, se pensarmos numa analogia entre as missivas e a experiencia da cidade moderna em plena mutacao. A correspondencia tem muito daquele "novo cafe na esquina de um novo bulevar, ainda cheio de entulho e ja mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados", do poema "Os olhos dos pobres" (BAUDELAIRE, 2018, p. 61). A carta tem muito da "bagatela laboriosa" como o poeta define o seu poema em prosa. Como disse Baudelaire a sua mae numa missiva de 16 de dezembro de 1847: "Uma carta me custa mais a escrever do que um volume." (23) (1973, vol. I, p. 148). A correspondencia e um canteiro de obras, para nos apropriarmos da expressao empregada por Marcos Antonio Moraes, um canteiro cujos entulhos podem gloriosamente revelar seus esplendores inacabados. Como o poeta deambulou em meio a Paris do seculo XIX e suas grandes transformacoes, o pesquisador deve se debrucar sobre as cartas a procura de vestigios encobertos por diferentes sedimentos de sentidos, formas, discursos e fingimentos. O genero epistolar, como vimos, assim como as obras de Baudelaire, e suas epistolas em particular, sao compostos de uma materia densa (em sua extensao e composicao de dialogos entre ausentes), complexa (em seus temas e debates de uma epoca), heterogenea (em seus discursos e registros), hibrida (em seus aspectos de diario intimo e ficcao autobiografica) e inacabada (ja que muitas cartas se perderam). Nao ha duvida de que as epistolas baudelairianas representam uma fonte de pesquisa inestimavel, e talvez ainda insuficientemente explorada no nosso pais.

Uma carta, banal em aparencia, assim como os poemas do Spleen escondem camadas dificeis de acessar, que representam, por isso, um desafio ao leitor. No entanto, se avancarmos para alem das vagas queixas e se cuidarmos para desconfiar das aparencias, em suma, se formos leitores cuidadosos, o "Mundo Baudelaire" se revela nos bastidores delineados na correspondencia.

A perfeita ilustracao desse esplendor inacabado e o Spleen e seus poemas, as "bagatelas laboriosas". Coincidentemente, ou nao, dentre os sentidos da palavra "bagatelle", encontra-se uma acepcao bastante pertinente para descrever o projeto baudelairiano de poesia em prosa. Com efeito, no campo musical, "bagatelle" (24) significa, em frances, uma peca de musica leve e de curta duracao, sem forma precisa. Romain Rolland (1928, p. 509) emprega o termo, referindo-se a uma peca de Beethoven, da seguinte forma: "O interesse musical dessa bagatela reside na mobilidade perpetua dos ritmos." (25). Destaquemos a expressao "mobilidade perpetua dos ritmos". Eis que recordamos da dedicatoria ao editor Arsene Houssaye (Baudelaire, 2018, p. 14):
Qual de nos, em seus dias de ambicao, nao vislumbrou o milagre de uma
prosa poetica, musical sem ritmo e sem rima, suficientemente flexivel e
contrastante para se adaptar aos movimentos liricos da alma, as
ondulacoes do devaneio, aos sobressaltos da consciencia?


Musica leve, de curta duracao, com uma mobilidade perpetua dos ritmos, eis que ilustra o projeto do poema em prosa baudelairiano "musical sem ritmo e sem rima", "suficientemente flexivel" para se adaptar a "movimentos", "ondulacoes" e "sobressaltos", de uma prosa poetica sem forma precisa. Nao e necessario insistir na paixao que Baudelaire tem pela musica; basta lembrar a famosa carta enderecada a Wagner em 17 de fevereiro de 1860. O Spleen, em meio aos choques de registros altos e baixos, a seu prosaismo, a certa banalidade aparente que camufla uma experiencia singular da modernidade nascente, e constituido dessa mobilidade perpetua de ritmos que, libertando-se da forma fixa, da rima, ganha em complexidade e exige muito do poeta, para sua elaboracao, dai o laborioso da bagatela: "Nesse buraco negro ou luminoso pulsa a vida, sonha a vida, sofre a vida" (BAUDELAIRE, 2018, p. 85).

Como textos inacabados, interrompidos, suprimidos, como "bagatelas laboriosas", a correspondencia e O Spleen de Paris dialogam e se alumiam. E o corpo do texto, que e preciso despir de seus trapos, representa experiencias do "Mundo Baudelaire", do corpo que vai ao encontro da cidade moderna.

Referencias

ABES, Gilles Jean. "As veredas do genero epistolar: Historia e fortuna da correspondencia de Baudelaire." Lettres Francaises (UNESP Araraquara), v. 1, p. 45-63, 2015.

Andrade, Carlos Drummond de. Carlos & Mario: Correspondencia completa entre Carlos Drummond de Andrade (inedita) e Mario de Andrade. 1924-1945. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2002.

BAUDELAIRE, Charles. OEuvres completes. Texte etabli, presente et annote par Claude Pichois. Paris : Gallimard, 1975-1976, 2v. (Coll. Bibliotheque de la Pleiade)

BAUDELAIRE, Charles. Correspondance. Texte etabli, presente et annote par Claude Pichois avec la collaboration de Jean Ziegler. Paris: Gallimard, 1973, 2v. (Coll. Bibliotheque de la Pleiade)

BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa: O Spleen de Paris. Prefacio de Marcelo Jacques de Moraes. Traducao e notas de Isadora Petry e Eduardo Veras. Sao Paulo: Via Leitura, 2018.

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire um lirico no auge do capitalismo. Trad. Jose Martins Barbosa, Hemerson Alves Baptista. Sao Paulo: Brasiliense, 1989. (Obras Escolhidas III)

BERTRAND, Jean-Pierre. "Une lecture mediatique du Spleen de Paris". In: THERENTY, Marie-Eve; VAILLANT, Alain (orgs.). Presse et plumes: Journalisme et Litterature au XIXe siecle. Paris: Nouveau Monde Editions, 2004, p. 329-337.

BLIN, Georges. "Introduction aux Petits poemes en prose". In: BAUDELAIRE, Charles. Le Spleen de Paris: Petits poemes en prose. Edition presentee, etablie et annotee par Robert Kopp. Paris : Gallimard, 2006.

Butor, Michel. Histoire extraordinaire: Essai sur un reve de Baudelaire. Paris: Gallimard, 1961.

Chartier, Roger. (org.) La correspondance: Les usages de la lettre au XIX siecle. Paris: Fayard, 1991.

COMPAGNON, Antoine. Baudelaire l'irreductible. Paris: Flammarion, 2014.

DUPONT, Jacques. "Le Spleen de Paris, une fiction critique?". L'Annee Baudelaire, v. 16, 2012. Paris: Honore Champion, 2013, p. 41-54.

FOUCAULT, Michel. Etica, sexualidade, politica. Organizacao e selecao de textos Manuel Barros da Motta; traducao Elisa Monteiro, Ines Autran Dourado Barbosa. 2a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitaria, 2006.

GUYAUX, Andre. "Avant-propos". In: GUYAUX, Andre; SCEPI, Henri. Lire Le Spleen de Paris de Baudelaire. Paris: PUPS, 2014.

GUYAUX, Andre. "Le discours de la maladie dans la correspondance de Baudelaire." Actes du colloque de Brest, avril 2002.

JOHNSON, Barbara. Defigurations du langage poetique: la seconde revolution baudelairienne. Paris: Flammarion, 1979.

Moraes, Marcos Antonio de. "Edicao da Correspondencia reunida de Mario de Andrade: Historico e alguns pressupostos." In: Patrimonio e memoria. UNESP, v.4, n.2, p. 123-136, 2009.

MUHANA, Adma Fadul. O genero epistolar: dialogo per absentiam. Revista Discurso, Sao Paulo, v. 31, 2000, p. 329-346.

ROLLAND, Romain. Beethoven. Genebra: Editions Du Sablier, 1928.

VERAS, Eduardo Horta Nassif. A poesia incognita: elementos para um estudo da poetica do Spleen de Paris. Remate de Males, Campinas, v. 37, n. 1, Jan./Jun. 2017, pp. 93-116.

Eduardo Horta Nassif Veras. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor adjunto da Universidade Federal do Triangulo Mineiro (UFTM). E tradutor e poeta.

E-mail: eduardohnveras@gmail.com

Gilles Jean Abes. Doutor emEstudos da Traducao pelo Programa de Pos-Graduacao em Estudos da Traducao (PGET) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC-Florianopolis). Professor adjunto na mesma universidade. E tradutor.

E-mail: gillesufsc@gmail.com

Recebido em: 15/01/2019

Aceito em: 01/04/2019

(1) Universidade Federal do Triangulo Mineiro

Uberaba, MG, Brasil

ORCID 0000-0003-4803-1482

Gilles Jean Abes (2)

(2) Universidade Federal de Santa Catarina

Florianopolis, SC, Brasil

ORCID 0000-0001-9063-1997

(1) "il circule sur les lettres un jugement reducteur: elles se resumeraient a des plaintes eternelles, a d'interminables lamentations sur deux sujets : la maladie et l'argent." As traducoes das citacoes sao de nossa autoria, com excecao das de Foucault e Benjamin.

(2) "Baudelaire ment, et les bons apotres de se voiler la face. Ses cris les plus pathetiques, arraches a son coeur, qui les a entendus? Alors il caresse, il deguise la verite, pour obtenir dix francs, un delai, un article favorable. Ou il use de cruaute, comme avec sa mere."

(3) O poema em terza rima, que faz uma homenagem a cidade de Paris, foi descoberto por Banville e Asselineau e acrescentado a edicao postuma dos poemas em prosa organizada por eles. Cem anos depois, coube a Robert Kopp, em sua edicao dos Petits poemes en prose (Paris, Librairie Jose Corti, 1968, p. 369-375), demonstrar que o poema, na verdade, havia sido composto como epilogo para Les Fleurs du mal. Cf. nota de Claude Pichois ao poema (1973, vol. I, p. 1175).

(4) Todos os grifos dos trechos traduzidos da correspondencia, empregados neste artigo, seguem os grifos estipulados na edicao de 1973. Portanto, reproduzimos estritamente o modo de transcricao decidido por Claude Pichois. O italico corresponde, nos autografos, a palavras sublinhadas por Baudelaire e titulos de obras. Os colchetes sao usados para complementar as abreviacoes realizadas pelo poeta em suas cartas (ex. vol[ume]).

(5) "Dans Le Spleen de Paris, il y aura cent morceaux.--Je me suis mis etourdiment tant de besognes variees sur les bras et j'ai tant d'ennuis a Paris que j'ai pris le parti d'aller faire vos trente morceaux a Honfleur."

(6) "Helas ! les Poemes en prose, auxquels vous avez encore decoche un encouragement recent, sont bien attardes. Je me mets toujours sur les bras des besognes difficiles. Faire cent bagatelles laborieuses qui exigent une bonne humeur constante (bonne humeur necessaire meme pour traiter des sujets tristes), une excitation bizarre qui a besoin de spectacles, de foules, de musique, de reverberes meme, voila ce que j'ai voulu faire ! Je n'en suis qu'a soixante, et je ne peux plus aller. J'ai besoin de ce fameux bain de multitude dont l'incorrection vous avait justement choque."

(7) "Ah ! ce Spleen, quelles coleres, et quel labeur il m'a cause ! Et je reste mecontent de certaines parties."

(8) A traducao de The Philosophy of Composition, de Edgar Allan Poe (impresso em abril de 1846 no Graham's Magazine), que sera publicado com o titulo de La genese d'un poeme na Revue francaise de 20 de abril de 1859.

(9) Jean Morel: o diretor da Revue francaise.

(10) Theophile Gautier e Clement de Ris ja haviam publicado artigos sobre o assunto, no Le Moniteur de 03 de agosto de 1858 e na Revue francaise de dezembro de 1858, respectivamente.

(11) "essais de poesie lyrique en prose, dans le genre de Gaspard de la Nuit."

(12) "Poemes nocturnes. Longueur indefinie." [Poemas noturnos. Tamanho indefinido.] (1973, vol. II, p. 129)

(13) Duas paginas para cada.

(14) "Je suis incapable de faire une charge a un excellent ami, et d'ailleurs j'attribue une grande importance au Spleen de Paris." Une charge significa aqui uma zombaria.

(15) Trata-se da mais longa serie de poemas em prosa publicada por Baudelaire na imprensa francesa. Alem das tres series citadas, o poeta preparou ainda uma quarta sequencia destinada a edicao do dia 27 de setembro de 1862, mas acabou nao sendo publicada. As tres sequencias que vieram a publico eram compostas de 20 poemas, precedidos da fomosa carta-dedicatori ao editor do jornal Arsene Houssaye. Pela extensao e pela ordenacao dos poemas, e possivel considerar essa publicacao como uma especie de prototipo do livro planejado por Baudelaire e, consequentemente, daquele que viria a publico postumamente pelas maos de Banville e Asselineau.

(16) "[Baudelaire] reve d'un equilibre, d'une symetrie meme, que la structure des deux sintagmes reflete: Les Fleurs du mal--Le Spleen de Paris. Il voudrait "cent morceaux" dans Le Spleen de Paris (lettre a Hetzel, 8 octobre 1863), comme il y avait cent poemes dans Les Fleurs du mal en 1857. Il reve d'un achevement, d'une finition. Mais le temps va manquer, et nous livrer, a titre posthume, un recueil inacheve."

(17) A expressao "bagatelles" e novamente empregada por Baudelaire em outra carta a Sainte-Beuve, de 15 de fevereiro de 1866, na qual o poeta ressalta, mais uma vez, a complexidade de seu projeto de poemas em prosa: "Mais que les bagatelles, quand on veut les exprimer d'une maniere a la foispenetrante et legere, sont donc difficiles a faire ?" [Mas como as bagatelas, quando se quer expressa-las de uma maneira ao mesmo tempo penetrante e leve, sao dificeis de se fazer!] (1973, vol. II, p. 583).

(18) "Je crois que, grace a mes nerfs, je ne serai pas pret avant le 10 ou le 15 avril. Mais je puis vous garantir un livre singulier et facile a vendre"

(19) "une masse de Poemes en prose a repandre dans deux ou trois revues"

(20) "mais ce sont des horreurs et des monstruosites qui feraient avorter vos lectrices enceintes."

(21) "Baudelaire abhorrait la presse mais ne pouvait pas s'en passer"

(22) "la litterature, qui est la matiere la plus inapreciable, - est avant tout remplissage de colonnes"

(23) "Une lettre me coute plus a ecrire qu'un volume."

(24) Conforme o dicionario Tresor do Centre National de Ressources Textuelles et Lexicales (CNRTL), consultado em 11/01/2019, disponivel em http://www.cnrtl.fr/definition/bagatelles

(25) "L'interet musical de cette bagatelle est dans la mobilite perpetuelle des rythmes"

https://dx.doi.org/10.1590/1517-106X/21298113
COPYRIGHT 2019 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras (UFRJ)
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2019 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Veras, Eduardo Horta Nassif; Abes, Gilles Jean
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:May 1, 2019
Words:7121
Previous Article:A FORMA DE UMA CIDADE: O SPLEEN DE PARIS/THE FORM OF A CITY: THE SPLEEN OF PARIS.
Next Article:A RELACAO HOSTIL ENTRE POETA E PUBLICO--UMA LEITURA DE "O CAO E O FRASCO", DE CHARLES BAUDELAIRE/THE HOSTILITY BETWEEN POET AND PUBLIC--A READING OF...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2020 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters