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"The world's women"--Heloneida Studart and feminism in headline magazine/"O mundo e das mulheres"--Heloneida Studart e o feminismo na revista Manchete.

Consideracoes iniciais

A personagem Heloneida Studart se confunde com a historia do feminismo brasileiro. Sempre lembrada com respeito e admiracao por sua forte militancia nos diversos lugares por onde passou--quer junto ao movimento feminista, quer no parlamento, ou como jornalista--, foi incansavel nas lutas contra a opressao sofrida pelas mulheres e na reivindicacao dos direitos femininos. Ha entrevistas por ela concedidas (NECKEL, 2008; STUDART, 1999), bem como artigos sobre ela e dela propria (CUNHA, 2008; ARAUJO, 2008), que recuperam sua biografia, com destaque para sua militancia politica como feminista e como parlamentar. Tambem aparece citada em obras sobre a historia do feminismo no Brasil. Este artigo tem por objetivo dar visibilidade a parte de sua trajetoria como redatora de uma revista que marcou epoca no Brasil--a Manchete--e mostrar sua militancia atraves de seus textos, especialmente na reportagem que realizou quando enviada especial para a cobertura da I Conferencia Mundial da Mulher, (1) realizada no Mexico, em 1975, epoca em que os movimentos em prol dos direitos feministas se afirmavam.

Da mesma forma, e uma contribuicao para o entendimento de impressos como meios de comunicacao midiaticos, constituintes de certa memoria historica e produtores de sentidos. Neste artigo, focalizo as mulheres e as relacoes de poder, compulsando escritos de Heloneida Studart na propria revista, observando situacoes que ainda nos perturbam e instigam a reflexao sobre este passado/ presente como fator determinante dentro da experiencia historica que fez acontecer o feminismo no Pais. Situada num tempo presente, observo a decada de 1970 "a partir de uma compreensao sobre uma epoca que nao e simplesmente a compreensao de um passado distante, mas uma compreensao que vem de uma experiencia da qual ele participa como todos os outros individuos" (AREND, MACEDO, 2009: 202). Trata-se de um tempo em que as mudancas rapidas nos comportamentos eram veiculadas pelos meios de comunicacao, alinhados as transformacoes na sociedade.

O que da decada de 1970 ainda permanece em nos? Em se tratando da cultura politica perceptivel nos textos de Heloneida, os temas de entao continuam tao contemporaneos quanto neste momento em que voce esta lendo (e refletindo, imagino) sobre o que ela falaria se estivesse vivendo hoje. Ela, por certo, se indignaria face aos golpes que o feminismo vem recebendo com politicas conservadoras que retrocedem em algumas conquistas cruciais para a emancipacao das mulheres, a exemplo da revogacao da Portaria no 415, de 21 de maio de 2014 (2)--grande retrocesso para a saude reprodutiva de brasileiras --, e se engajaria nesta luta ainda com mais coragem e brio. As ideias acerca do feminismo veiculadas nas paginas Manchete enunciam certa cultura politica, problematizada nas relacoes de genero e nas lutas feministas, porque articulam modelos prescritos e representacoes do feminino toda vez que na cena publica emergiam reivindicacoes de mulheres e eram veiculadas na revista.

A revista Manchete (3) constituiu um dos mais importantes impressos que circularam durante toda a segunda metade do seculo XX. De 1952 a 2000 (4), registrou e comentou os grandes acontecimentos nacionais e internacionais e nos proporciona, ainda hoje, olhares que apontam para as memorias sociais e a cultura politica do Pais. Permite-nos, tambem, perceber as representacoes sobre o Brasil contemporaneo que sobrevivem em suas paginas.

Parto da perspectiva de que ler um impresso de forma aleatoria e diferente de categoriza-lo como fonte historica, e requer um cuidado teorico/metodologico adequado. O impresso--fotojornalismo--, do qual investigo a forma de linguagem e o cuidadoso aspecto visual, chama a atencao dos leitores. Em suas paginas ficaram as imagens de um pais que se transformava em ritmo acelerado, quando a modernizacao se acentuava e ditava os rumos da economia, da politica e dos comportamentos das pessoas, como observaram Joao Manoel Cardoso de Melo e Fernando Novais (1998). Ha alguns trabalhos pontuais, como o da sociologa Maria Celeste Mira, que aborda a consolidacao do mercado da Editora Abril, referindo-se a Manchete como a uma revista ilustrada que marcou epoca por suas caracteristicas (MIRA, 1997: 129). Outros a analisaram na perspectiva de suas ligacoes com o regime militar. Segundo tais estudiosos, a publicacao "se manteve sempre do lado daqueles que detinham as cartas do jogo politico e economico do Pais", transformando-se em "cortesa do poder, adaptando-se, de forma extremamente flexivel, aos interesses e as cores ideologicas dos diversos governos que se sucederam a partir dos anos 50" (PADUA, 2013: 221), optando por compartilhar do projeto politico e economico do regime militar. Pode-se situar a Manchete como uma revista que dialogava com os partidos politicos e mantinha-se parcial, dirigida as mesmas camadas medias da populacao que, em sua maioria, tambem cortejavam o poder.

A imprensa e um importante veiculo de informacao e formacao de opiniao. Seus impressos produzem representacoes do mundo social que, "embora aspirem a universalidade de um diagnostico fundado na razao, sao sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam" (CHARTIER, 1990: 17). Desta forma, nao sao discursos neutros; sao portadores de uma cultura politica e produzem estrategias e praticas sociais com o proposito de conscientizar e gerar opinioes. Entendo que "a cultura politica, como a propria cultura, se inscreve no quadro das normas e dos valores que determinam a representacao que uma sociedade faz de si mesma, do seu passado, do seu futuro" (BERNSTEIN, 1998: 252-253). Assim, a revista Manchete representa um rico campo de analises para a compreensao historica, constituindo-se num impresso que estava em cena e articulava visoes dos fenomenos sociais.

Com estas consideracoes, foco os discursos de Heloneida Studart que aparecem nesse periodico, especialmente sua cobertura da I Conferencia Mundial da Mulher, em 1975. Compreendo o movimento feminista como um espaco para acoes politicas e lutas em favor dos direitos das mulheres e como um movimento plural que as reconhece como um grupo oprimido, com reivindicacoes especificas e a percepcao de que as relacoes de poder e genero nao sao naturais, mas construidas pela cultura, portanto passiveis de alteracao. A categoria genero e compreendida no aspecto relacionai entre homens e mulheres; mas nao so, pois estas relacoes nao sao apenas binarias. Culturalmente construidas, nao sao inscritas na natureza, mas envolvidas em relacoes de poder, disputas e tensoes. Conforme explicita Joan Scott, "o genero e um elemento constitutivo das relacoes sociais fundadas sobre as diferencas percebidas entre os sexos, e o genero e um primeiro elemento a dar significado as relacoes de poder" (1990: 15); portanto, campo de forcas sociais de relacoes desiguais entre homens e mulheres.

As representacoes sobre mulheres e ideias acerca do feminismo contidas nos textos de Heloneida Studart fazem parte de uma cultura politica que produz sentidos e forma imaginarios. Quando ela ingressou na revista Manchete, a editoria era composta quase que exclusivamente por homens; posso inferir que havia competicao nas relacoes de poder e genero.

Na epoca em que Heloneida escrevia seus artigos e comentarios, modelos prescritos para o feminino e para o masculino estavam sendo questionados. As reivindicacoes que se manifestavam na cena publica articulavam as narrativas sobre a crescente visibilidade das mulheres e suas lutas contra a violencia e os preconceitos. Abria-se o debate acerca dos ditos 'papeis femininos' tradicionais e as novas subjetividades. Acontecimentos e temas como a aprovacao da lei do divorcio; a afirmacao do movimento feminista; o assassinato de Angela Diniz; a contracultura; o aborto; a contestacao de normas e modos de vida; a denuncia da opressao sobre as mulheres; a popularizacao da pilula anticoncepcional, dentre outros, sao temas presentes em reportagens da Manchete.

Joana Maria Pedro mostra que no Brasil houve "disputas de poder entre diversos grupos feministas, e entre estes e os diversos personagens envolvidos na luta contra a ditadura militar, instalada no Pais entre 1964 e 1985" (PEDRO, 2006: s/p). Por definicao da Organizacao das Nacoes Unidas--ONU--, o ano de 1975 foi designado Ano Internacional da Mulher e do inicio da Decada da Mulher, o que coincidiu, no Brasil, com o periodo da ditadura civil-militar. Foi neste contexto de lutas pelo fim desse regime que se organizaram grupos de reflexao, incentivados pela decretacao do Ano Internacional da Mulher, considerado "como um espaco autorizado para fortalecer a luta contra a ditadura e, portanto, para os partidos clandestinos, uma possibilidade de reunioes e atuacao sob a protecao da ONU, sem que se sentissem ameacados pela repressao" (Idem). Em meio a estes acontecimentos, Heloneida Studart se fez porta-voz de denuncias sobre a condicao das mulheres.

"E quem e esta mulher que se propunha a falar da condicao feminina, do seu corpo, de maneira tao incisiva e sem muitos rodeios?", pergunta-se Cecilia Cunha. Quem era esta mulher, "que insultava as mulheres para que repensassem as suas vidas alem do universo domestico e pudessem construir a sua propria trajetoria alem do espaco domestico?" (CUNHA, 2008: 271) Heloneida nasceu em 1925, no Ceara, no seio de uma familia tradicional da elite da capital, e passou a frequentar o Colegio Imaculada Conceicao, de Fortaleza, num ambiente de recato, como se exigia das mulheres das familias mais abastadas da epoca. Muito jovem, passou a colaborar, com textos, com o jornal O Nordeste, porta-voz oficioso da Igreja Catolica. Mais tarde, escreveu varios romances. (5) Sem o conhecimento da familia, prestou concurso no Ministerio da Fazenda, indo trabalhar no espaco publico. Isto desgostou sua familia, especialmente a mae, que nao aprovava o fato de sua filha ser "mulher que trabalha fora", motivo de desonra para as mulheres segundo os padroes da epoca. Observo que, logo que se entendeu como mulher naquela sociedade na decada de 1940, transgrediu normas do costume, conforme seu relato:

[...] crescendo em uma familia muito tradicional, muito conservadora, a familia do Barao de Studart; eu vi que as mulheres viviam sempre uma frase--"Mulher nao tem querer"--e que todas as mulheres eram preparadas para se tornarem esposas aos 18 anos, aos 17, sem irem para a faculdade, sem trabalharem fora, e passando do governo do pai para o governo do marido. Entao, aos 12 anos, eu ja tinha decidido que esse nao seria o meu destino, e eu dizia isso seguido nas rodas da familia, e as pessoas ficavam bastante escandalizadas, bastante chocadas. Quando eu tinha 16 anos fui para o interior, de carona, e arranjei uma certidao de idade aumentada para 21 anos ... [...] Sai de Fortaleza e fui para Aracurais, cidade do interior, onde o meu avo era grande proprietario e consegui uma certidao dizendo que tinha 21 anos. Com essa certidao, eu fiz um concurso publico e passei. Fui, assim, a primeira mulher da minha familia a trabalhar fora, para grande consternacao das minhas tias (NECKEL, 2008: 266).

Esta narrativa mostra o desejo de romper com os padroes que confinavam as mulheres ao espaco privado, domestico, diferente dos homens, aos quais eram reservados o espaco publico e o governo das mulheres. Em resposta a pergunta "como e que voce se tornou feminista?", ela rememorou seus seis anos de idade, no Ceara, quando, "ao passarmos por um botequim, eu vi na parede um cartaz que ate hoje nao me sai dos olhos, onde estava escrito: "Mulher aqui so diz tres coisas: 'Entra, menino', 'Xo, galinha', e 'Sim, senhor'". Esse "Sim, senhor" me marcou profundamente." Disse ter ficado incomodada com o que considerou "absurdo que o destino de uma mulher fosse dizer "Sim, senhor"" (NECKEL, 2008: 266). Escolheu seu destino, e fez historia. No inicio dos anos de 1950, mudouse para o Rio de Janeiro, onde cursou Ciencias Sociais pela Universidade do Brasil; em 1960, passou a trabalhar no jornal Correio da Manha e tambem no Servico Social da Industria (Sesi), onde dirigiu uma biblioteca ambulante junto aos operarios, participando das lutas sindicais, (6) vindo a ser detida em funcao do AI5 por fazer oposicao ao regime militar, em 1969, o que provocou sua demissao do Sesi. Ao sair da prisao, encontrou o historiador Raimundo Magalhaes Junior, que a apresentou a Justino Martins, diretor da Manchete. No teste, foi desafiada pelo diretor da revista, como narrou:

Ele disse: "Eu quero fazer um encarte de 25 paginas para a revista Desfile sobre maos" --ele tinha visto uma materia assim na Paris Match. "Desde a mao do macaco ate a mao do Rubinstein. Quero que ela me prepare isso." Fui para a biblioteca, fiz uma pesquisa, escrevi o encarte na minha maquinazinha Olivetti. Justino leu, olhou para mim com aquela cara dele muito impassivel e disse: "Sente ali naquela mesa. De onde nao saira nunca mais!" (STUDART, 1999: s/p).

E nestas circunstancias que Heloneida ingressa na Manchete e passa a fazer parte de seu corpo editorial. Com voz autorizada, colabora com a imprensa carioca, como a Tribuna da Imprensa, O Globo e O Pasquim, dentre outros periodicos. Ficou conhecida tambem por sua participacao nos debates da TV, como o "Sem Censura", da TV Educativa, por seu programa de radio, atuando como jornalista, e como redatora do programa de Cidinha Campos, na radio Manchete. Em conjunto com Rose Marie Muraro, (7) escreveu o roteiro da peca teatral Homem nao entra, texto de forte teor marxista, levado aos palcos de varias cidades brasileiras pelos cinco anos seguintes, representando um marco do teatro brasileiro nos anos 1970, pela defesa de bandeiras relativas ao avanco e a promocao das mulheres. Este texto mexeu com "as mentes femininas que lotavam os teatros para discutir as mais diversas questoes que emergiam a partir do monologo" (CUNHA, 2008: 273), adequando-se a discussoes mais globais acerca da emancipacao feminina.

Em 1974, a convite da Editora Vozes, Heloneida publicou o livro intitulado Mulher: objeto de cama e mesa (8), que se tornou leitura obrigatoria para as mulheres que estavam nas redes feministas da epoca. Este pequeno livro (53 paginas), causou impacto pelo forte teor de denuncia, composto de textos concisos, frases fortes e chocantes para a epoca. Tornou-se um sucesso editorial ao longo dos anos e, segundo a propria Heloneida, a publicacao "[...] caiu que nem uma bomba. Foi adotado em nao sei quantas universidades. Ja vendeu mais de 260 mil exemplares.

Nunca mexi nele, esta como era" (STUDART, 1999: s/p).

A publicacao de Heloneida Studart marcou epoca, porque fazia disseminar informacoes ao alcance mais geral. Pretendia doutrinar mulheres, fossem as que estivessem se inserindo no mercado de trabalho educacional, as normalistas e estudantes, fossem as mulheres proletarias, denunciando a alienacao feminina da classe media. Alertando para os males que atrofiavam a "inteligencia feminina em prol da manutencao da familia patriarcal", Heloneida usa um tom forte, e ate mesmo pejorativo, ao "descrever o tradicional universo feminino, considerado por ela obtuso, cerceador da inteligencia, reducionista, infantilizado, estupido" (TRIZOLI, 2011: s/p). O debate acerca de producoes feministas no Brasil, as autorias, editoras e redes de publicacoes, academicas ou nao, constituiram assunto de um dossie da Revista de Estudos Feministas, intitulado "Publicacoes feministas brasileiras: compartilhando experiencias", em 2003. Num artigo deste dossie, Rosalina Leite mostra a efervescencia da militancia feminista dos anos de 1970, a qual se voltara para a imprensa alternativa, como os jornais Brasil Mulher e Nos Mulheres, instrumentos de divulgacao de coletivos das mulheres organizadas. Nestes jornais, a aproximacao do feminismo com a politica e as lutas pela emancipacao das mulheres, bem como por anistia, direitos da mulher, trabalho ou contra a violencia domestica davam vigor aos discursos (LEITE, 2003). Esta e a decada em que Heloneida Studart escreve na Manchete e publica seu livro militante, em consonancia, portanto, com as lutas feministas em suas diferentes possibilidades.

A I Conferencia Mundial sobre a Mulher no relato de Heloneida Studart

A sintonia de Heloneida com as causas femininas lhe oportunizou a realizacao de reportagens. Foi a enviada especial da revista Manchete para fazer a cobertura da I Conferencia Mundial sobre a Mulher, ocorrida de 16 de junho a 2 de julho de 1975, na cidade do Mexico, com o lema: "Igualdade, Desenvolvimento e Paz", patrocinada pela ONU (9). Esta conferencia aprovou um plano de acao e proclamou 1976-1985 como a Decada da Mulher. Foi assistida por 14 mil representantes de 113 paises; dentre estas, delegadas de todos os continentes, e organizacoes nao-governamentais. Foram debatidos tres temas centrais: igualdade entre os sexos; integracao da mulher no desenvolvimento e promocao da paz. Este foi um acontecimento inedito na luta pelos direitos da mulher e consolidou novas organizacoes, como o Centro da Tribuna Internacional da Mulher, o Instituto Internacional de Fundo Voluntario para a Mulher das Nacoes Unidas.

Com o titulo "O mundo e das Mulheres", Heloneida detalha o acontecimento na revista Manchete, na data de 5 de julho de 1975, em quatro paginas. A imagem que abre a reportagem mostra o plenario instalado no Ginasio Juan de La Barrera, onde aparecem delegacoes em suas tribunas, como se ve na figura 1.

A imagem, selecionada para causar impacto nos leitores e leitoras, impressiona pela grandiosidade, proporcionando, ao mesmo tempo, uma sensacao de presenca e movimento. A fotografia e uma imagem que contem uma determinada linguagem e pode ser "interpretada como resultado de um trabalho social de producao de sentido, pautado sobre codigos convencionados culturalmente" (MAUAD, 1996: 7). Ao lado, fotografias de Valentina Tereshkova, astronauta sovietica e delegada de seu pais; Luis Echeverria, presidente do Mexico, acompanhado de Kurt Waldheim, Secretario Geral da UNU; Gloria Steinem, jornalista dos Estados Unidos, celebre por seu engajamento com o feminismo e atuacao como escritora e palestrante (acusada na reuniao de ter colaborado com a CIA); a sra. Kunamei, delegada da Serra Leoa, em seus trajes tipicos.

No editorial deste numero, o editor Roberto Muggiati cita que, numa entrevista a Manchete, o comentarista americano James Reston (10) "se queixa que o mundo esta sem lideranca", insinuando, ao apresentar a reportagem de Heloneida Studart sobre a Conferencia Mundial da Mulher (MANCHETE, 5 jul. 1975: 3), que talvez os homens estivessem cansados da politica, e sugere que, "ao contrario das mulheres, que nao so politizaram incrivelmente nos ultimos anos, como estao dispostas a mudar a face do mundo, a sua maneira". Noto que, embora numa unica frase, Muggiati usa o artificio textual juntando duas reportagens para suscitar a leitura e provocar polemica.

O texto de Heloneida e um relato dos acontecimentos e das representacoes da conferencia, das falas, das manifestacoes e tensoes que permearam o evento, especialmente dos grupos de mulheres que causaram "tumulto" por nao conseguirem credenciais para o evento. Inicia com a frase polemica de Luis Echeverria, presidente do Mexico, na conferencia de abertura, ao dizer que "A mulher e a grande reserva revolucionaria do mundo", recorrendo a uma linguagem que permeava os movimentos revolucionarios da America Latina. Segundo Heloneida, esta frase teria causado mal-estar junto a algumas delegadas, que queriam "evitar que a revolucao feminina tomasse o rumo da revolucao mexicana", tornando-a uma "burocracia politica institucionalizada". O texto inicial reporta-se principalmente as diferencas entre mulheres "do Terceiro Mundo" e do "Primeiro Mundo", designacoes em voga na decada de 1970 para distinguir ricos de pobres, com sentido de denuncia da exploracao de paises ricos sobre paises pobres. Eric Hobsbawm analisa os anos de 1970 como o inicio do que chamou de "Decadas da Crise", percebida como aumento da desigualdade, de uma economia de mercado impotente para resolver os problemas cruciais com origem na explosao demografica mundial, especialmente nos paises pobres, e no capitalismo que reinava absoluto, aliado a tecnologia e a desemprego (HOBSBAWM, 1995).

Nas paginas seguintes, o teor e mais textual, abrindo com a frase: "As mulheres do Terceiro Mundo querem escolas, alimentos e planos de saude". Aparecem algumas imagens das delegadas Lea Rabin, esposa do Primeiro Ministro de Israel, e Jyhan el Sadat, primeira ministra do Egito. Tambem estao em destaque Imelda Marcos, esposa do presidente das Filipinas, Li Su-wen, da delegacao chinesa, e Betty Friedan, feminista norteamericana, como vemos na imagem (Figura 2).

"As 'oprimidas' invadiram a bela capital do Mexico, transformando-a numa especie de planeta feminino". Com suas roupas tipicas, circulavam pela cidade, onde, na maioria dos edificios, imensos anuncios luminosos saudavam o Ano Internacional da Mulher, no relato de Heloneida, evidenciando que "as contradicoes entre as situacoes dessas mulheres sao flagrantes". No texto, Heloneida da estaque a Gloria Steinen, citando sua fala: "Nao e verdade que o feminismo seja um invencao norte-americana. E se fosse, seria a unica coisa boa que os Estados Unidos exportaram para o mundo". Segundo a feminista estado-unidense, "o feminismo e apenas uma forma de humanismo". Steinen reforca pautas do feminismo ao dizer que "somos contra a discriminacao contra as mulheres, como somos contra a discriminacao das minorias raciais e o sofrimento dos povos subjugados. Com a diferenca que as mulheres nao tem, sequer, um territorio proprio". Avalio, neste destaque, o proposito de mostrar o quanto mulheres dos Estados Unidos estavam incomodadas com a opulencia economica de seu pais, mas alijadas de voz--"Eles nunca deixam os pobres falar" e de acesso aos beneficios, ou seja, ali havia "problemas iguais aos das mulheres do Terceiro Mundo". Patricia Hutar, chefe da delegacao estado-unidense, tambem foi motivo de manifestacao organizada por mulheres negras e descendentes de mexicanas, tambem estado-unidenses, diante da Embaixada dos Estados Unidos. Elas desejavam ser incluidas na delegacao e declaravam que em seu pais, "onde se concentra mais da metade da riqueza mundial, tambem existem mulheres com problemas de saude, alimentos e escola". Nesse sentido, Beverly Manley, esposa do primeiro ministro da Jamaica, declarou: "Eu nao gosto da palavra oprimida. Mas e esta a situacao das trabalhadoras dos campos e das fabricas do meu pais".

Percebo que Heloneida pretendia oferecer um panorama mais abrangente aos acontecimentos no evento, e enunciava que "nao foi possivel evitar que os conflitos nacionais se projetassem na Conferencia", mostrando tensoes entre Israel, cuja delegada "tentou estabelecer um dialogo com a esposa do presidente do Egito", mas nao teve acolhida. Houve, entretanto, consenso de que "seria impossivel falar da libertacao feminina sem paz" (11). Relata, tambem, a presenca de mulheres cubanas, nas palavras de uma ex-guerrilheira da Sierra Maestra, para quem "a mulher burguesa esta decadente e se encontra tao doente quanto o resto da sociedade de classes".

Segundo Heloneida, uma das presencas mais curiosas da conferencia foi a de Betsy Wilches, lider da Associacao Crista Feminina da Colombia, cujo relato aparece na pagina:

Na Igreja Anglicana, e tal a discriminacao que os homens rezam, agradecem a Deus por nao terem nascido mulheres. Ha uma oracao especial para isso. Na Igreja Catolica, nos sabemos que as mulheres ocupam cargos subalternos. As monjas vivem em situacao de permanente menoridade. Nas missas, as mulheres cantam no coro e recolhem esmolas, enquanto o padre celebra a cerimonia. Afinal de contas, Cristo veio para libertar a todos: homens e mulheres (MANCHETE, 5 jul. 1975: 11).

Desta narrativa, que parece curiosa a Heloneida, depreendo a militancia tambem de mulheres ligadas a diferentes religioes. Na decada de 1970, na America Latina, a Teologia da Libertacao, por sua opcao pelos pobres e pelo compromisso pratico com a transformacao social, levou mulheres a participar e a tomar consciencia da liberdade. As decadas de 1960 a 1980 foram marcadas pela grande mobilizacao das mulheres nas lutas pelos direitos civis, tanto nos meios urbanos quanto rurais, oportunizandolhes participacao e reivindicacoes especificas (ROSADO NUNES, 2000).

Paralelamente ao evento oficial, acontecia a Tribuna Internacional, da qual participavam organizacoes feministas "nao oficiais, algumas bastante radicais", como Betty Friedan. Nesta Tribuna, em "ambiente bem mais agitado", segundo a percepcao de Heloneida, estavam presentes Isabel Allende (chilena), e outras representantes de varias partes do mundo, varias delas descontentes com o aspecto formal da Conferencia e por nao terem recebido credenciais, como fez uma indiana, que, sacudindo sua sandalia bordada, disse: "Nesse sapato, a artesa faz tudo; o homem apenas prega a sola e ganha o dobro. As artesas tem que falar aqui e agora". Algumas africanas prepararam um documento "a parte para mostrar que o Congresso nao deu suficiente oportunidade as mulheres do Terceiro Mundo de expressarem suas reivindicacoes". As mexicanas, por sua vez, reclamavam a pouca participacao na conferencia. As chinesas:

[...] a delegacao mais numerosa, estavam vestidas em roupas iguais as dos homens e se recusavam a falar antes do pronunciamento oficial de Li Su-wem, chefe da delegacao. Nenhuma conduzia o livro de Mao, mas ja se sabia o que iriam dizer: 'A libertacao da mulher e a do homem sao as duas faces da mesma medalha' (MANCHETE, 5 jul. 1975: 11).

Observo que as reivindicacoes apontadas por Heloneida, colhidas durante o evento, sao, na quase totalidade, de mulheres delegadas da Africa, da Asia e da America Latina. Nao tenho como saber quantas de cada continente estavam presentes dentre as 14 mil participantes; entretanto, presumo que as nacionalidades apontadas pela jornalista eram a maioria. A referencia a Mao Tse-Tung, chefe politico que havia liderado a revolucao cultural na China entre 1966 e 1976, tornado este pais comunista, reinando com poder absoluto durante decadas, tem uma certa ironia, dada a forma ditatorial como conduzia aquele pais.

A pagina destaca, em coluna especifica, o titulo: "Betty Friedan acha que o programa do feminismo e um problema politico e o modelo tecnocrata marginaliza a mulher. Rica ou pobre". Heloneida reproduz varias falas dessa feminista (1921-2006), uma das fundadoras da National Organization of Womam--NOW--, criada em outubro de 1966, em Washington, por meio da qual denunciava as ideias sexistas, o consumismo que convertia as mulheres em objetos, bem como costumes e preconceitos existentes na sociedade (DUARTE, 2006). Autora do livro Mistica feminina (1963, lancado no Brasil em 1971), Friedan denunciava o "mal sem nome" que acometia mulheres, em especial as casadas, trancafiadas no espaco privado e destinadas ao lar, nas decadas de 1950 e 1960, tornando-se uma referencia para os estudos feministas.

Neste evento paralelo, Betty Friedan apresentou suas ideias, reproduzidas por Heloneida na reportagem:

A NOW e hoje um movimento que mais cresce nos Estados Unidos. Transformou-se naquilo que eu sempre quis que fosse: um movimento politico. A favor das liberdades, pois na vigencia destas as organizacoes feministas podem reivindicar. Contra o fascismo, que e o regime onde as mulheres sao oprimidas como cidadas e oprimidas como mulheres. Contra as discriminacoes sociais, os odios religiosos, as ditaduras. Nao existe problema no mundo que nao seja politico; e o das mulheres ainda mais do que os outros (MANCHETE, 5 jul. 1975: 10D).

O destaque para os pronunciamentos de Betty Friedan mostra a importancia da feminista naquela decada, cuja militancia era conhecida no Brasil atraves da imprensa e da publicacao do proprio livro, em 1971, ano em que esteve no pais para seu lancamento e concedeu entrevistas a jornalistas brasileiros, causando polemica. (12) Para Friedan, "africanas, asiaticas e latino-americanas estao lutando por sobrevivencia. Por instalacoes sanitarias, por alimentos, por escolas"; elas "querem se integrar ao esforco de desenvolvimento de seus paises, mas tem que verificar tambem que modelo de desenvolvimento e este. Porque se for o capitalismo, pior para as mulheres. O capitalismo explora a mulher em qualquer nivel". Denuncia a Central Intelligence Agency--CIA--e sua tatica de "infiltrar elementos nos movimentos mais validos. Num congresso como este, por exemplo". Heloneida ainda resume alguns topicos da fala de Friedan, destacando a opiniao da palestrante acerca da familia: "A familia nao sera a abolida. Apenas evoluira". Acerca do desenvolvimento tecnologico, numa critica direta ao capitalismo: "A tecnologia e o progresso nao podem ser um fim em si. Do que valem os computadores para as minorias raciais e os desempregados?" Em resposta a uma feminista tcheca, disse:

Voce dira que, em sua patria, as mulheres tem os mesmo direitos e os salarios dos homens e eu sei que e verdade. Mas pergunto: quem lava os pratos? E claro que as mulheres. Ja para as nossas amigas do Terceiro Mundo, a situacao e mais dura: e preciso que lutem para que haja pratos para lavar. (MANCHETE, 5 jul. 1975: 11)

Criticas ao sistema capitalista eram recorrentes nas decadas de 1960 e 1970. Betty Friedan compartilhava das ideias marxistas, que reuniam grupos de esquerda que pretendiam a emancipacao da classe operaria por meio da socializacao dos meios de producao. Fala com voz autorizada, como legitima representante do feminismo, reconhecida e ouvida.

Heloneida da enfase a estas ideias. Seu texto e perpassado pelo pensamento feminista da epoca, que resumia a exclusao do Terceiro Mundo e subordinava seus paises ao Primeiro Mundo, os quais intervinham na esfera economica, politica, cultural, a exemplo das ditaduras latino-americanas. Estas criticas faziam das mulheres duplamente vitimas: do sistema economico e da opressao masculina, causas da desigualdade. Na decada de 1970, as contradicoes do sistema capitalista aparecem com forca e incidem nas mais diversas instancias da vida social; as transformacoes economicas e o capitalismo global afunilam o fosso entre pobres e ricos, provocando exclusoes aviltantes. As mulheres, na sua grande maioria, vivendo sob os dominios de um sistema patriarcal e machista, passam a ter visibilidade atraves dos movimentos feministas, e contestam. Evidentemente, algumas se destacam com voz autorizada: as feministas. As contestacoes que aparecem no texto de Heloneida acerca do anti-americanismo do norte, como faz Betty Friedan, denunciando o servico de inteligencia americano, estao na pauta da tomada de consciencia deste fosso que excluia populacoes e paises. As mulheres eram as que mais sentiam.

Observo que Heloneida cita os problemas vividos pelas mulheres de varios continentes; Entretanto, nao faz, sobre a situacao vivenciada pelas mulheres no Brasil, comentarios similares e gritantes, e sequer nomeia as delegadas brasileiras. Percebo que intenciona dar visibilidade a diversidade etnica, racial, cultural e de classe das mulheres presentes na conferencia, a suas reivindicacoes mais especificas e as disputas de poder que presenciou nos bastidores do evento. Nao tenho como saber se o pouco espaco dado a esta reportagem especial (apenas quatro paginas) provocou cortes no texto, ou se a censura teria vetado falas mais especificas sobre o Brasil. A reportagem de Heloneida por ocasiao da declaracao do Ano Internacional da Mulher, na Manchete de janeiro de 1975, mostrava possiveis mudancas e destacava problemas brasileiros. Ja nesta reportagem sobressai certo pessimismo, apontando o sexismo presente na diferentes culturas, as desigualdades, a exclusao nas decisoes e a exploracao sofrida pelas mulheres no processo produtivo. Esta reportagem, embora nao cite entre as questoes especificas o Brasil, da visibilidade aos problemas que perpassavam as experiencias de mulheres, a suas reivindicacoes, culturas e mundos diversos, especialmente as mais pobres e do Terceiro Mundo. Os problemas da mulher e que ganhariam notoriedade como categoria de identificacao que as unia. Joana Maria Pedro mostra que as categorias mulher, mulheres e, posteriormente, genero, tem historico. Na decada de 1970, o feminismo de 'segunda onda' estava questionando que o universal, na sociedade, era masculino, nao incluindo as questoes especificas "da mulher", e em torno delas pautavam-se reivindicacoes (PEDRO, 2005: 82). Ao destacar diferentes mulheres, de etnias, racas, classes, culturalmente diversas, Heloneida mostra que nao havia uma mulher, mas mulheres com diferencas entre si e, principalmente, pautas especificas, embora nao fizesse referencia a nenhum debate sobre diferenca e desigualdade/igualdade. Segundo Pedro:

Convem destacar que, independente de usar a categoria "mulher" ou "mulheres", a grande questao que todas queriam responder, e que buscavam em varias ciencias, era o porque de as mulheres, em diferentes sociedades, serem submetidas a autoridade masculina nas mais diferentes formas e nos mais diferentes graus. Assim, constatavam, nao importava o que a cultura definia como sendo atividade das mulheres: esta atividade era sempre desqualificada em relacao aquilo que os homens, desta mesma cultura, faziam (PEDRO, 2005: 83).

A experiencia de Heloneida no Mexico foi relatada a Roselane Neckel numa entrevista realizada em 2005:

Em todos os lugares em que eu escrevia, a minha tematica geral era a questao da mulher, e assim fui mandada pela revista Manchete para cobrir o Congresso Internacional da Mulher, no Mexico, em 1975. O que eu me lembro de tudo que vi la, de tudo que li, era que todas as mulheres, quer chinesas, quer europeias, quer americanas, todas as mulheres sentiam bem esta dificuldade da relacao com o homem, a opressao dessa relacao. Entao voltei do Mexico com um poncho e com a decisao de fundar uma organizacao feminista. Eu me reuni com Moema Toscano, Anita Bach, Santinha, Branca Moreira Lopes, Rose Marie Muraro, e outras que nos chamamos as "feministas dinossauras", e fundamos o Centro da Mulher Brasileira, onde o movimento comecou a se irradiar e assim foi ganhando forca ... (NECKEL, 2008: 268).

A constatacao de Heloneida de que mulheres de varias partes do mundo tinham os mesmos problemas e dificuldades que as brasileiras pode ser avaliada como um divisor de aguas para o movimento feminista no Brasil, oportunizando a fundacao da primeira entidade feminista, motivada pela percepcao clara de que a opressao vivida no pais pelas mulheres era a mesma das outras mulheres: queixas em relacao a opressao, ao machismo e a discriminacao se assemelhavam. No Mexico, Heloneida encontra as amigas brasileiras, Branca Moreira Alves, Rose Marie Muraro e Moema Toscano, todas feministas militantes da epoca, as quais, estimuladas pelas discussoes do evento, fundaram a primeira entidade feminista no Brasil: o Centro da Mulher Brasileira--CMB--, em 14 de julho de 1975, no mesmo mes de retorno da conferencia, "com propositos de ser um espaco de reflexao, pesquisa e analise da condicao da mulher brasileira" (CUNHA, 2008: 272).

Com a publicacao da reportagem numa narrativa detalhista, ao dar voz as mulheres delegadas, bem como a outras participantes, Heloneida Studart estava veiculando em nivel nacional as ideias e reivindicacoes especificas das mulheres, notadamente formando imaginarios junto aos leitores e as leitoras da revista Manchete. Isto, por certo, provocava discussoes e representacoes sobre a condicao feminina naquele periodo, na medida em que atuava na imprensa e representava voz autorizada na divulgacao do feminismo, que se configurava como um dos movimentos de contestacao dos valores vigentes e impregnados na cultura politica da epoca.

O Feminismo brasileiro, nos anos 1970, organizava-se em torno de reivindicacoes dos problemas percebidos e vividos no cotidiano de diferentes classes sociais. Era um periodo de autoritarismo; as atividades feministas tiveram que driblar a censura, ao mesmo tempo em que se alinhavam a associacoes de base, a grupos politicos de esquerda, a associacoes progressistas da Igreja. Cynthia Sarti salienta:

Os grupos feministas, tendo a origem social de suas militantes nas camadas medias e intelectualizadas, em sua perspectiva de transformar a sociedade como um todo, atuaram articulados as demandas femininas das organizacoes de bairro, tornando-as proprias do movimento geral das mulheres brasileiras (SARTI, 2004: 40).

Nesta militancia estava Heloneida Studart. E importante frisar, a partir de sua biografia e participacao no Legislativo, que do conjunto do movimento e suas reivindicacoes estava emergindo um novo sujeito politico: as mulheres, as quais, ao buscar a participacao politica, tambem lutavam para por em evidencia as desigualdades de genero impregnadas na sociedade brasileira.

A revista Manchete trazia uma coluna semanal, em duas paginas, intitulada Leitura Dinamica. Os escritos de Heloneida se distribuem no periodo de 1970 a 1978, epoca em que fazia parte da redacao. Seus textos nesta coluna, embora curtos (a coluna publicava em torno de oito pequenos textos de redatores da revista), traziam denuncias e criticas: a condicao das mulheres; a discriminacao e a desigualdade social e salarial; as violencias sofridas pelas mulheres; ao consumismo veiculado pelos meios de comunicacao que incitavam as mulheres a esperar por um provedor ao inves de as incentivar a outras possibilidades e experiencias; ao assassinato de Angela Diniz e a outros crimes sexistas; ao casamento; aos costumes machistas, dentre outros temas pulsantes no contexto da contracultura e da contestacao dos costumes a epoca. Abordagens da ordem do cotidiano e da atualidade--filmes e livros que tratavam de questoes que apontavam para movimentos ou situacoes que envolviam as mulheres e feminismo--eram feitas pela jornalista, evidenciando sua militancia nas reivindicacoes pela igualdade de direitos.

Numa reportagem sobre o Ano Internacional da Mulher, instituido no dia 18 de dezembro de 1972 pela Assembleia Geral das Nacoes Unidas, por exemplo, Heloneida relata milenios de historia, "contando-se do momento em que o homem comecou a marcar as primeiras inscricoes na pedra--para que a mulher tivesse, finalmente, a atencao voltada para os seus problemas especificos", anunciando que a partir deste ano "as mulheres, como qualquer outra categoria oprimida, pretendem dizer varios bastas e proclamar outros tantos vivas (MANCHETE, 18 jan. 1975:26-27). Este e outros textos e reportagens de Heloneida tem teor notadamente politico e militante, destacando tanto as ideias de feministas internacionais, como Evelyne Sullerot,13 Betty Friedan, dentre outras, quanto temas entao polemicos, como o divorcio, o aborto (lembro que o divorcio foi aprovado no Brasil em 1977, enquanto o aborto continua mobilizando a pauta feminista no Brasil, com usos politicos e conservadores), a homossexualidade, sexo e sexualidade, a pilula anticoncepcional, que expressavam o que estava sendo debatido nas midias (NECKEL, 2007) e constituiam tema de reflexao nos foruns feministas. Para exemplificar, cito um excerto em que reivindica a igualdade de direitos civis e de salarios, como segue:

A mulher so pode se libertar com o homem e ao lado dele, para juntos organizarem estruturas mais justas nas quais nem seja mais preciso falar de problemas femininos. A mulher do futuro naturalmente nao sera mais para o homem, mas estara sempre a seu lado, como a igual dessemelhante. Igual porque tera os mesmo direitos, as mesmas oportunidades, os mesmos salarios e as mesmas esperancas. Dessemelhante porque conservara sua anatomia particular, os seus ciclos fisiologicos, a maternidade, a amamentacao. (MANCHETE, 18 jan. 1975: 29--negrito no original).

Percebo que Heloneida, mesmo sem explicar com profundidade o que seria o que chama de "dessemelhante", fala de uma dimensao teorica para os estudos feministas pulsantes naquela decada. Joan Scott viria enunciar, em 1986, no artigo apresentado com o titulo Gender: A useful category of historical analysis (Genero: uma categoria util de analise historica), (14) no qual mostra que informacoes sobre mulheres implicam, necessariamente, informacoes sobre homens, afirmando as conexoes entre genero e poder, portanto, culturais e historicas (SCOTT, 1990). Heloneida tem clareza de que a libertacao das mulheres so sera plena com igualdade de direitos civis e trabalhistas, mas respeitadas as diferencas; portanto, nao separatista. Embora a palavra "dessemelhanca" tenha por oposto semelhanca e nao diferenca (o oposto seria indiferenca), a narrativa, dados seus argumentos, pode ser entendida nesta direcao. Deste modo, percebo as ideias da jornalista alinhadas com o feminismo mais contemporaneo, a frente de seu tempo.

O ano de 1975, por ter sido decretado Ano Internacional da Mulher e inicio da Decada de Mulher, bem como da realizacao da I Conferencia Mundial da Mulher, deu visibilidade as lutas pelos direitos das mulheres, bem como a afirmacao do Movimento Feminista no Brasil e no mundo. Concluo que, como redatora da revista Manchete e responsavel por divulgar estes eventos, Heloneida Studart deixou uma escrita feminista dentro do jornalismo, construindo representacoes que ainda nos tocam. Expressou-se com outros discursos sobre o feminismo, diferentes dos que o ridicularizavam. Num conjunto de vozes, num regime repressivo e censor, o que significa uma escrita feminista e engajada num semanario que notadamente cortejava o poder vigente? Atraves dela, a Manchete produziu discursos sobre o feminismo, mostrando o que se passava pelo mundo, e o fez num momento em que falar da condicao das mulheres e da violencia por elas sofridas nao era comum na imprensa. Por outro lado, era tambem uma epoca de profundas mudancas na sociedade brasileira: periodo de modernizacao acelerada, entrada de novos modismos, provindos dos movimentos da contracultura e do consumismo exacerbado, fruto do American way of life, que faziam parte da cultura politica que evidenciava o pensamento e as ideias de seu tempo, marcando, portanto, memorias sociais e historicas da decada de 1970.

Heloneida Studart (1932-2007), jornalista, escritora, politica, sindicalista, feminista e mae, saiu da redacao da revistaManchete em 1978, eleita com expressiva votacao para deputada estadual no Rio de janeiro, e reeleita 1982, dando continuidade as lutas feministas na vida parlamentar. Foi membro de comissoes especiais relativas aos direitos da mulher e direitos reprodutivos; fez parte da historia da Assembleia Constituinte, na qual participou do chamado "lobby do batom", destacando-se por criar leis em beneficio das mulheres e trabalhadoras/es. Fez-se porta-voz das minorias, especialmente das mulheres, tantas as angustias por elas vividas que, de diferentes formas, iam buscando se entender como sujeitos; cidadas que eram, tinham direito a defesa e a leis que minimizassem violencias e preconceitos culturalmente arraigados na sociedade brasileira. Deu visibilidade aos paradoxos e ao machismo que imperavam, abrindo portas a debates posteriores; contribuiu para a memoria historica dos estudos feministas no Brasil. Recebeu diversos premios e concorreu ao premio Nobel da Paz, em reconhecimento a sua luta pelos direitos das mulheres, sendo lembrada e citada como uma das pioneiras do Movimento Feminista no Brasil.

DOI: 10.15668/1807-8214/artemis.v18n1p103-115

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* Projeto: Entre imagens e discursos: representacoes sobre mulheres e feminismos na Revista Manchete (1952 a 1985). UDESC, PIC. Agradeco a bolsista Milene Chagas de Souza nesta pesquisa.

(1) Observo que nas paginas da Manchete, como em entrevistas, Heloneida Studart cita por vezes o Congresso Internacional, ou a Conferencia Internacional. Utilizo a nomenclatura oficial dos documentos e citacoes, ou seja, Conferencia Mundial da Mulher.

(2) Portaria que visava a regulamentar o servico de aborto legal no Sistema Unico de Saude em casos de estupro, risco de vida para a mulher devido a gestacao de alto risco e a interrupcao de gestacao de anencefalo, aumentando para isso repasses financeiros de custeio aos hospitais.

(3) Criada por Adolpho Bloch, foi considerada a segunda maior revista brasileira da epoca, atras apenas da revista O Cruzeiro, tendo na equipe de jornalistas, no seu auge, nomes como Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Manuel Bandeira, Fernando Sabino, David Nasser e a jornalista feminista Heloneida Studart. Entre as decadas de 1950 e 1970, foi a principal revista do Pais, a frente de O Cruzeiro e Veja, que hoje e outro fenomeno editorial, com circulacao de mais de 1 milhao de exemplares.

(4) "A ultima edicao, de numero 2.519, circulou em 26 de julho de 2000 e trouxe o ator Reynaldo Gianecchini na capa. O numero seguinte chegou a ser preparado pela redacao, mas, com a agonia da empresa, nao passou de uma edicao virtual, figurando apenas nos computadores dos jornalistas. E sao as imagens dessa derrocada de um grande imperio que ilustram os ultimos capitulos do livro" (BRASIL, 2008, s/p).

(5) Sua estreia com um texto de maior folego aconteceu em 1953, com a publicacao do romance A primeira pedra; em 1957, seu segundo romance, Dize-me o teu nome, obteve grande sucesso de publico, e recebeu o premio da Academia Brasileira de Letras e o Premio Orlando Dantas, do jornal Diario de Noticias.

(6) Ao envolver-se com a classe operaria, participou na fundacao do Sindicato dos Empregados em Entidades Culturais, Recreativas, de Assistencia Social de Orientacao e Formacao Profissional do Municipio do Rio de Janeiro (Senalba); com o golpe de 1964, o sindicato foi perseguido e, anos depois, fechado.

(7) Rose Marie Muraro (1930-2014), intelectual, feminista, escritora, presente nos movimentos mais importantes do seculo XX e XXI acerca dos direitos das mulheres, na denuncia da opressao e dos preconceitos, transformou-se em um icone das lutas feministas. Escreveu, dentre outras, a obra Sexualidade da Mulher Brasileira: corpo e classe social no Brasil (1996), pesquisa de campo em varios estados da Federacao, analisando a vivencia da sexualidade, tendo em conta a situacao de classe das mulheres, ate entao ausente do discurso psicanalitico. Inovou com perspectiva teorica para entender a vivencia da sexualidade e do corpo consoante as classes sociais.

(8) Carlos Heitor Cony, no 8 de marco de 1975, na secao Livros, publica pequena resenha, enfatizando a sua importancia, positiva o tema e acredita que "sao os homens os que mais aprenderao com o livro" (MANCHETE, 8-mar. 1975, p. 101). Atualmente, o livro esta na 29a edicao, fonte preciosa para os estudos feministas e de genero.

(9) Seguiram-se a II Conferencia Mundial sobre a Mulher: Igualdade, Desenvolvimento e Paz, Copenhague, Dinamarca; a III Conferencia Mundial sobre a Decada da Mulher, Nairobi, Quenia, de 15 a 26 de julho de 1985, e a IV Conferencia Mundial sobre a Mulher: Acao para a Igualdade, o Desenvolvimento e a Paz, Pequim, China, de 4 a 15 de setembro de 1995. A esta ultima compareceram mais de 180 paises e cerca de 35.000 pessoas.

(10) James Reston, influente jornalista, reporter de ideias da New York Times desde 1955, nesta entrevista enfatiza que "O mundo esta sem liderancas", detalhando as tensoes de bastidores nos governos e na politica mundial (MANCHETE, 5 jul. 1975, pp. 26-27).

(11) Referencias as guerras que envolveram Israel contra o Egito, a Jordania e a Siria, aos ataques terroristas e retaliacoes que, desde 1959, com a criacao do Al Fatah, nao cessavam.

(12) Entrevista por Millor Fernandes e outros articulistas do Pasquim, todos antifeministas; eles a ridicularizavam e distorciam os fatos. Carmen da Silva, editora da revista Claudia, escreve, em sua defesa, na coluna 'A arte de ser mulher', em julho de 1971.

(13) Evelyne Sullerot e sociologa, membro cofundadora do Planning Familiar, na Franca, e por quinze anos foi membro do Alto Conselho Europeu da Populacao e da Familia. E membro da Comissao Francesa Consultiva para os Direitos do Homem. Tem vasta obra sobre o tema.

(14) Este artigo foi publicado no Brasil em duas edicoes: em 1990 e, posteriormente, em 1995, ambos na revista Educacao e Realidade, da Faculdade de Educacao da UFRGS.

Marlene de Faveri

Doutora em Historia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora do curso de graduacao e do programa de pos-graduacao em Historia da Universidade do Estado de Santa Catarina. Membro do Laboratorio de Relacoes de Genero e Familia--LABGEF/FAED/UDESC.

E-mail: mfaveri@terra.com.br.
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Author:de Faveri, Marlene
Publication:Revista Artemis
Article Type:Ensayo critico
Date:Jul 1, 2014
Words:8209
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