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"O povo quer se comunicar": Saraus y literatura "marginal". Seleccion de entrevistas a escritores del "movimiento de literatura marginal" de San Pablo.

"--Qual e a diferenca entre "marginal" e "periferico"'? --Puxa vida! Sabia que um dia ia ter que chegar nessas perguntas!"

Entrevista realizada a Binho (Robinson) Padial, 15 marco de 2010, Campo Limpo, S.P

El seminario que inauguro la cursada estuvo a cargo de la Profesora Heloisa Buarque de Hollanda, quien ante mi sorpresa no hablo de los "poetas marginales" de los anos 60 ni de su libro 26 poetas hoje (1976), sino que empezo a hablar de una serie de "escritores marginales" que no se identificaban con tal adjetivo por estar al margen del esquema legitimado para la circulacion y formato del libro, sino por pertenecer al espacio socialmente segregado de la ciudad de san Pablo, llamado periferia, favela o quebrada. Ferrez (Reginaldo Ferreira da Silva), Sergio Vaz, Alessandro Buzo, y otros tantos musicos del hip hop, como MV Bill (Alex Pereira Barbosa), fueron los nombres que resonaron en escasas seis horas de esa clase que, pese a ser la primera de un largo ano, marco mi camino profesional hasta hoy. La favela no solamente era una nota en el diario vinculada al trafico de drogas, ni el indice de una pobreza espectacularizada por las grandes productoras cinematograficas: en la favela existia un "movimiento de literatura marginal" que desde el ano 2001 venia publicando cada vez mas libros y ocupando cada vez mas el espacio de las regiones "mas alla de los puentes" que separan el centro de San Pablo de las zonas aledanas. (1) Me entero tambien ese dia de la existencia de un lugar llamado "Sarau da Cooperifa", que consistia en una reunion en un bar localizado en un barrio del extremo sur de San Pablo, donde todos los miercoles se acercaba la gente del lugar y durante dos horas declamaban y leian poesias en su mayoria escritas por ellos.

El rumbo que le fui dando a mi carrera, vinculando Antropologia Social con critica literaria, y mi trabajo como Profesora en Literatura Brasilena de la Universidad de Buenos Aires fueron haciendo que el foco en este "movimiento" no se desviara hasta hoy. Me fui acercando, entonces, primero a los pocos libros que habia llevado Heloisa para los alumnos, Manual pratico do odio (2003) y Capao pecado (2000). En el 2008 llego a mis manos Cooperifa: Antropofagia periferica, de Sergio Vaz, lanzado ese mismo ano por la coleccion Tramas urbanas, y a partir de ahi decidi que la lectura de los pocos libros que fueron llegando a mis manos no bastaba para saber de que se trataba lo que tanto estaba llamandome la atencion. Decidi entonces ir a San Pablo, sin referencias ni contactos mas que la direccion de Cooperifa, a partir del cual se me abrio el mundo de los "saraus": Sarau do Binho, Sarau da Fundao, Sarau do Ademar, Sarau da Brasa, Sarau do Elo da Corrente, Sarau Palmarino, Sarau Suburbano Convicto, Sarau dos Mosqueteiros, Poesia da Esquina, Sarau Maloqueirista, y muchos otros que se van organizando en algunos bares de la periferia de San Pablo. Fue asi que me entrene en la giria, (2) en pegar carona (3) para volver, me hice experta en reconocer un bom pastel," (4) y me acostumbre a la cerveja gelada. (5) Me enfrente, tambien, con la dificultad que acarrea el memorizar y declamar frente al microfono, entendi la necesidad del aplauso y del silencio, reconoci cuanto podia cambiar un poema dicho por dos personas diferentes, y como, tambien, cada uno de los saraus tiene su propio mecanismo de funcionamiento.

Este estudio pretende dar una explicacion del "movimiento de literatura marginal" y de los "saraus de poesia" a partir de una seleccion de partes de entrevistas que fui haciendo durante el ano 2010 a una serie de actores con posicionamientos diferentes dentro del campo. Ferrez, uno de los escritores mas renombrados, incluso ya internacionalmente, y uno de los agentes claves de la articulacion del movimiento a partir de la publicacion, en el ano 2001, 2002 y 2004 de tres numeros especiales de la revista Caros amigos, llamados en esa ocasion Caros amigos: Literatura marginal. Sergio Vaz, poeta, creador y organizador del Sarau da Cooperifa (miercoles, 21 a 23 hs., en Chacara Santana) desde el 2001. Binho, poeta que esta a cargo del Sarau do Binho (lunes, 21 hs., en Campo Limpo) desde el ano 2004. Fernando (Fernando Santista), que crea y sostieneel Sarau Vila Fundao (jueves, 21 a 23 hs., Capao Redondo) desde el ano 2009. Alessandro Buzo, escritor, dueno de la loja Suburbano Convicto, quien en el momento de la entrevista, en marzo de este ano, no estaba a cargo de ningun sarau, aunque desde julio de 2010 viene desarrollando en su misma tienda el Sarau Suburbano Convicto (un martes pormes, 19 hs., Bixiga). Allan da Rosa, escritor, educador y editor a cargo de Edicoes Toro, que desde el 2005 viene publicando en forma independiente y artesanal libros escritos por participantes del "movimiento". Adriana Solinas, organizadora junto a siete personas mas, del Sarau de Ademar (dos domingos al mes, 17 hs., Cidade Ademar), que funciona desde el ano 2009.

La transcripcion de las entrevistas intento ser lo mas fiel posible al habla de los entrevistados, siendo justamente el "escrever como falamos" una de las banderas sostenidas por este "movimiento".

1. LT: iQue considera que es un sarau?

Binho Padial: O sarau, ele remete a uma coisa de humanidade, assim, de estar junto, de pertencer, acho que o sarau tem essa coisa principalmente da periferia, de pertencimento. Ali onde a gente esta, por exemplo, falando da gente, e uma coisa de pertencimento, de identidade local, de afirmacao, de poder ter. ... As vezes e uma forma de contestacao, mas as vezes e uma forma de dar uma certa luta tambem, o sarau tambem e uma bandeira. Isso e o que acontece na periferia, ne? E no centro, se se falar do centro tambem, porque o centro tambem tem periferia. A gente nao pode esquecer disso. ... Acho que os saraus sao tribos. Digamos, o que voce e la fora, la fora no sentido, o cara que e anarco-punk, outro que gosta do forro, outro que gosta de samba, outro gosta do hip-hop, outro gosta da forma do repente, do rock n'roll, um que gosta de MPB. Acho que tem um pouco disso. E o sarau ele converge, e ha um respeito, o sarau, acho que e esse treinamento, da tolerancia com o outro, e acho que essa e a principal caracteristica do sarau: e voce conviver com um cara que voce nao conviveria fora dali, mas a partir dali voce comeca a entender o outro tambem, a conhecer o mundo do outro, do universo. Entao acho que o sarau ele tem uma certa convergencia, e esse respeito com o outro, e ai voce comeca a respeitar mesmo, a ter tolerancia. Hoje existe tolerancia assim, so existem coisas boas ... eu acho.

Sergio Vaz: A funcao do Sarau da Cooperifa e simplesmente para praticar a cidadania atraves da literatura, a gente vem aqui ouvir e falar literatura, entao a gente incentiva a leitura e a criacao poetica. Nada mais. Este e um projeto que visa levar a autoestima da comunidade e cidadania atraves da literatura.

Allan da Rosa: O sarau e muito importante porque ele junta gente para desfrutar da arte, o sarau e muito importante porque ele tira do pedestal, ele tira aquela indumentaria toda de literatura, o sarau e importante porque ele faz uma ponte entre oralidade e escrita, o sarau e um lugar de encontro de gente que esta fazendo arte da palavra, o sarau e importante porque a partir dele e que a gente pode pensar os limites dele mesmo: se ele nao existisse, nao fosse tao forte, a gente nao ia poder cobrar da gente os outros proximos horizontes [...] os saraus em geral nao podem ser um fim em si mesmo ... e porque vai se esgotando [...] sarau e onde as pessoas ate agora acostumaram a se encontrar no movimento de literatura. Mas o movimento de literatura nao e feito so disso, o movimento de literatura e feito de publicacoes, e feito de uma coisa que a gente tem que construir que e uma critica nossa (a gente tem uma missao e um potencial de fazer uma critica literaria nossa, que eu acho que e ainda mais dificil do que fazer os proprios textos literarios, porque ai ele ja precisa de pensar a forma, o contexto, de fazer relacoes com outros movimentos).

Ferrez: Na verdade as pessoas estao la para digerir a palavra, entao o cara tem que chegar la e se expor, se expressar, e ouvir os outros tambem. Muitas vezes quando eu chego la, fica aquela coisa de beber e tal. E e o que nao acho legal. Como nao sou a favor da bebida, nada, entao eu fico assim meio de segunda com isso. Mas tem muita gente tambem que esta treinando nos saraus e tal, e quem organiza o sarau e um heroi, porque o cara esta la toda quarta, toda terca, toda segunda, organizando, e tem que ter um saco gigante, e eu nao tenho. Assim: eu nao queria ver pessoas toda semana, nao gosto nem de ver parentes meu, imagina as outras pessoas todo o dia, sei la, nao teria essa paciencia nem esse jogo de cintura, por isso eu acho o Vaz, o Binho, esses caras bem mais herois, de fazer toda a semana, esses caras sao corajosos.

Fernando Ferrari: Eu vejo o sarau como algo mais amplo que so literatura, sabe? Eu vejo como um movimento social, mesmo, um movimento social muito interessante, um movimento social com uma base muito solida, onde as pessoas tem se apoderado. ... Na verdade, quando eu volto do sarau Vila Fundao para a minha casa, fico horas sem dormir, fico tentando imaginar cada momento, mas todos os saraus sao importantes, sabe? Fico feliz com todos assim. Eu falo sempre para o dono do bar, ele fala "Fernando, poucas pessoas hoje!", falo que o sarau nao e publico, falo para ele que se tiver so uma pessoa la para escutar poesia, isso ja e maravilhoso, sabe? Ja e algo diferente, ne? Para falar a realidade, ja e algo revolucionario, ja e algo de resistencia, entao assim, eu vejo que todos os saraus eles tem um poder muito grande.

2. LT: iPor que el sarau en la "periferia" se practica en un bar?

SV: Eu acho que o bar e um espaco publico que nos temos. O espaco que o estado deixou para nos e o bar, aqui nao tem museu, nao tem teatro, nao tem cinema, nao tem lugar para se reunir, e o bar e o nosso centro cultural, onde as pessoas se reunem para discutir os problemas do bairro, onde as pessoas vem se reunir depois do trabalho, onde as pessoas se reunem quando vao jogar bola ou quando e um aniversario, onde se reunem para ouvir e tocar samba. Entao o bar e a nossa agora, a nossa assembleia, o nosso teatro, tudo. A unica coisa que o estado deixou para nos foi o bar, entao a gente ocupou o bar. E so isso o que a gente tem, entao, e isso o que vamos transformar.

BP: O bar e um espaco para aquele que esta passando. Quantas pessoas passaram pelo bar e hoje estao falando poesia? Entao se voce faz em um lugar fechado, voce vai fazer so para aqueles ouvintes, vai ficar aquele ali varios anos e so aquelas pessoas. Eu acho que o bar te da a possibilidade e a chance de que, de repente, outras pessoas se encantem tambem, como aconteceu isso com a gente la.

3. LT: iLa actividad de los saraus causo algun efecto en las personas de la comunidad?

SV: O! Em muitas pessoas! Por exemplo, quando seu Lorival chegou aqui tinha cabelo branco, hoje ele pinta os cabelos. A autoestima la em cima! A gente tem garoto que tinha parado de estudar, voltou a estudar, terminou a faculdade e a tese foi sobre a Cooperifa. Entao, tem pessoas que incentivadas pela Cooperifa direta ou indiretamente, comecaram a sentir a necessidade de progredir intelectualmente, entendeu? Mas isto e uma coisa da pessoa, a gente nao fala para a pessoa, volta a estudar! Ninguem cuida da vida de ninguem, mas o lugar intensifica que as pessoas tenham essa magia de querer mais, e o querer mais nao e aqui, e em outros lugares, aqui e um lugar para a gente se reunir.

FF: Na verdade, assim, o periferico, de uma forma bem sociologica, sempre foi, e, um ser muito inibido, porque a todo momento voce sofre pressoes. Pressoes sociais mesmo, tanto da policia, quanto do hospital publico que voce vai, que voce e mal atendido, ou da escola onde os professores nao te dao a minima importancia. Posso te dar um exemplo, quando eu tinha la uns oito anos minha professora jogou meu caderno no lixo, porque eu nao fazia as licoes, mas ela nao sabia o que estava por tras, nao sabia o que estava acontecendo na minha casa. Entao, eu vejo o periferico muito inibido. Periferico e um ser inibido, ele tem medo de tudo, ele tem vergonha, e eu tambem ja fui isso, entao eu vejo que e muito dificil a participacao deles. Por isso eu fico muito feliz quando alguem de la da comunidade participa, sabe? Tem algumas pessoas que ja vem participando, so que ainda e muito dificil.

4. LT: iCual fue la razon para apropiarse de la categoria "marginal" o "periferico"? iQue significa cada una de esas palabras?

F: Entao, a literatura marginal ou periferica antigamente nao tinha um nome. A gente fazia literatura e nao era enquadrado nem como contemporaneo, nem como de elite, a gente nao e de elite, entao a gente ficava meio jogado, nao tinha um nome. Ai quando eu pus o nome, eu trouxe esse nome de volta, que e um nome antigo que as pessoas chamavam alguns escritores como preconceito "e literatura marginal ... e da margem". Ai eu falei, ta, vou por nos meus escritos "literatura marginal", quem quiser vir comigo, os novo autores, vou por tambem literatura marginal. E ai muita gente falou assim: "ah, mas o cara deu o nome que depois estigmatiza, acaba ficando marcado". Mas a gente nao era conhecido como nada, entao pelo menos que seja marcado por alguma coisa. Que o moleque que hoje comeca a escrever possa falar, "o, eu sou isso, sabe?, eu tenho um nome, um movimento para seguir, eu tenho uma coisa para ir junto", do que nao ser marcado por nada. Sou o que? Literatura, ah, ta, beleza, com essa cara voce nao vai andar, nao vai chegar la, nao vai poder ter as amizades do lado de la, e outra coisa, e outro mundo. Entao tem a ver com a gente aqui, tem a ver com o cara que esta trabalhando, esta escrevendo, o cara que esta roubando e esta escrevendo, o cara que esta preso e esta escrevendo. Tem a ver com isso: a literatura marginal, o cara mesmo que esta a margem da sociedade, esta fazendo um texto diferente, com uma linguagem propria, e agindo por outros meios: um cara que nao atende uma editora grande, mas atende uma editora pequena, aqui, que vai falar sua poesia em qualquer boteco, em qualquer lugar pequeno, mas nao vai na Casa das Rosas, ta ligado? (6) Nao vai nesses lugares, entao, e uma postura tambem, ne? Um movimento que tem uma postura.

AR: O marginal, ele surge, principalmente por causa daquela coletanea das Caros amigos: Literatura marginal. (7) E por que se chama "marginal"? Porque nos da periferia, nos passamos por um processo de racismo muito forte, porque a gente sofre muito mais de violencia policial. Entao em torno de todas essas questoes sociais, raciais, historicas, tem essa palavra aqui no Brasil, "marginal". Ela nao tem o mesmo significado que tem por exemplo para a elite, da literatura marginal dos anos 70, nao e margem alternativo, um artista que e marginal em relacao ao sistema dos museus, nao. Ser marginal na rua, ele tem outro significado, as pessoas falam marginal o tempo inteiro, minha mae fala: "aqueles marginais!" Sao aqueles bandidos. Ou a policia chega, e voce nao e bandido e te trata como um marginal. Marginal e uma palavra que na historia do Brasil ela sempre foi atribuida para os delinquentes, pros fora da lei, e ai quando vem o tema da literatura marginal, ela vem com esse tom. Eu prefiro "periferica", mas tambem eu sou literatura marginal sem nenhum problema. Quando me perguntam porque "marginal", eu nao quero ser marginal, no sentido de bandido, delinquente, nao, marginal e quem esta nas margens da cidade, nas bordas, nas beiradas, sabe? Na linha das fronteiras ... O periferico e bem esse lance de periferia, mesmo, a gente pode pensar com todas as palavras, mas "periferia", na historia do Brasil, isso traz a gente para essa segunda metade do seculo XX, migracoes, alta demografia urbana, explosao suburbana, problemas de politica e saude, de escola, de transporte. "Periferia" ja tem outro tom que o "marginal" esta junto, mas ao mesmo tempo e diferente, por isso literatura periferica e mais apropriada, eu acho.

Adriana Solinas: "Marginal" pela definicao e uma coisa que esta a margem, que esta fora da sociedade, particularmente eu me sinto muito confortavel em estar fora, porque voce estar dentro significa que voce tem que se engajar numa serie de padroes e eu prefiro ser autentica, entao particularmente eu gosto muito desse tema "marginal", porque esta a margem da lei, esta a margem da sociedade, mas isso e muito confortavel se voce pensa bem, porque voce nao tem que estar entrando num padrao. E uma pessoa que esta fora, que nao pede licenca nem depende de uma e, eu acho, que o fato de a gente estar construindo esse colar, esse anel, do sarau, do movimento e tal, nao precisa passar pelo centro, nao o centro da cidade fisica, o centro. Porque para eu sair daqui para ir pra Brasilandia, (8) eu tenho que passar pelo centro fisico, mas eu nao preciso passar pelo centro intelectual, entendeu? Eu dou a volta. Tambem "periferia" e "periferico" e uma coisa que esta em tudo, na verdade sao todos sinonimos. Eu acho que tem duas situacoes, tem uma situacao que voce e periferico e voce tem um pouco de vergonha da casa onde voce mora, da sua rua, voce tem vergonha de falar de onde voce e. Mas eu comeco a perceber uma mudanca, sabe? Ao contrario, a gente esta comecando a sentir orgulho de falar "eu sou da CidadeAdemar", "eu sou do Sarau de Ademar", e eu acho que isso cria uma identidade periferica, acho que isso e importante, acho que consegue reverter essa situacao. E tem outras inerentes que sao a droga, a violencia, essas coisas acontecem na porta de casa, ne? Voce esta numa rua e voce ve movimento, voce passa entao a dizer "eu vejo, esta aqui, mas nao faco parte desse lado ruim, faco parte daquele lado que e bom".

BP: Nao e uma coisa que eu discuto, assim. Aceito tambem, eu acho legal de repente ser, e isso. Mas tambem eu acho que falta ainda uma estetica, de se identificar um pouco, nao tem ainda, ou tem ja e a gente nao percebeu ainda porque a gente esta muito nela, esta dentro, esta tao dentro que nao conseguiu enxergar, esta no olho do furacao. Esse nome "literatura marginal", "literatura periferica", eu acho bonito, ate gosto, mas tem hora que eu fico em duvida.

Alessandro Buzo: Eu acho que o que a gente faz e so literatura, mas o pessoal depois das edicoes especiais da Caros amigos, a gente chamou de "literatura marginal", hoje a gente chama de "literatura periferica". Eu nao me sinto mal com nenhum dos nomes, se e marginal e marginal, se e periferica, periferica, mas eu so acho que e literatura, mas nao me incomodo com os nomes. Que geralmente o pessoal tem o habito de rotular tudo. ...

SV: A periferia nao e apenas um lugar, e um sentimento, entao as pessoas confundem muito. Quando a gente fala periferia, a gente esta carregando com a gente muitas pessoas que ja morreram, pessoas que estao desempregadas, pessoas que sofrem, pessoas que viraram alcoolatras por angustia, por falta de emprego, entao a nossa literatura representa tudo isso, e e muito diferente de uma outra literatura, que nao e melhor, entendeu? Mas ela representa essa gente, a nossa gente, representa a mim. Quando eu falo ou escrevo como nos escrevemos, falo de tudo isso. E dificil explicar isso para as pessoas, entao a nossa literatura quando a pessoa le, ela tem gosto de sangue, ela tem o cheiro de suor, a giria faz um mo de sentido para nos, e a gente nao escreve errado, sao as pessoas que escrevem certo, assim que a gente se comunica, essa e a diferenca dessa literatura periferica e essa literatura que existe por ai.

5. LT: iLa literatura "no letrada" es una novedad en el campo brasileno?

BP: Nao. Voce viu o cordel, e uma coisa muito da oralidade tambem, entao isso ajuda. Mas eu acho ... sabe o que e legal? E que esta se falando muita poesia hoje, e as pessoas, como tem essa liberdade dos saraus, as pessoas vao na oralidade, vao la para falar, nao importa nem como esta escrito no livro, as pessoas tem aquilo de memoria, escreveu ali do jeito delas, com todos os erros que essa lingua dificulta, mas ta ali, ta falando, e e do jeito, se concorda ou nao concorda. ... A propria periferia ja tem essa coisa de estar junto, "tamo juntos", "tamo" ja e singular, e "juntos", "e nois", seria "somos nois". Na periferia se fala "e", se conjuga no singular, "e nois", enquanto que na fala, no jeito de escrever, e no singular, mas na acao na periferia, e no plural, a acao das pessoas. E diferente, do que o letrado, diria "somos nos", mas na verdade seria uma coisa eu, mais fechada. Esta questao da oralidade ... eu acho que e isso mesmo. ... E o povo mesmo, deixe o povo falar do jeito que ele quiser! Deixa construir, fazer! Por que frase engravatada? Deram umas regras, e ai o povo nunca chega naquelas regras, nunca vai aprender aquele jeito de escrever ou aquelas regras. Agora e que e o contrario, vamos falar, vamos dizer, e nao se importar com a academia, com nada disso, embora as vezes seja necessario para ter o aval, mas antes desse aval acho tem que ter essa luta, essa conquista. Tanto faz ter o aval da academia ou nao, a gente vai fazer saraus, vai falar poesias, e nao tem essa preocupacao, ate porque nao tem uma pretensao, e aquilo ali, e para aquilo, e para essa convivencia, para estar junto, para pertencer [....] isso fez muito mal para o povo, tem gente que me pergunta "Binho como e que escrevo uma poesia?" Eu falo "escreve do jeito que esta na tua cabeca, com erro, com tudo, poe para fora, esse e o primeiro passo". E tem gente que faz belissimas poesias, nao ta preocupada se e "s" ou e "z", a fala e o mais importante, do jeito que vem, e depois a gente corrige se precisar, mas faca poesia! [...] O povo quer se comunicar, nao quer saber se as palavras tem concordancia ou nao ... e a gente se entende, inclusive com o argentino!

AS: Acho que falta um pouco do pessoal que esta la, encastelado, sair um pouco para a rua, abrir os olhos e ver, entender que, daqui a cem anos, nao vai se falar da literatura que esta sendo produzida nas academias, vai se falar dessa literatura aqui, com erro de portugues, com edicao, com falha, sem apoio, mas e essa que vai fazer a diferenca daqui a cem anos.

6. LT: iQue vinculacion tiene el "movimiento de literatura marginal" con el "movimiento del hip-hop"?

AB: Na realidade, antes da literatura periferica ... antes da literatura expandir na periferia, quem mandava a mensagem que a gente hoje manda nos livros, era o rap. Entao, quero dizer, o hip-hop e a literatura sao meio que primos, irmaos, alguma coisa assim. E muitos dos autores, eu, o Ferrez, a gente, veio proximo do rap. Entao, e muito proximo por isso. A linguagem e a mesma, ate as limitacoes, assim, a falta de espaco na midia, o rap enfrenta como nos tambem.

AS: O hip-hop e a musica da periferia, assim como o samba e assim como varios outros estilos. O movimento do hip-hop tem um rol fortissimo, porque as criancas param para ver o hip-hop, entao, assim, se voce consegue fazer um hip-hop com uma letra consciente, bem feita, engajada, que vai despertar a consciencia daquelas criancas, olha que maravilha! Entao o hip-hop tem um papel fundamental nisso tudo. Talvez seja um pouco exagerado dizer que e a trilha sonora do movimento dos saraus, mas com certeza que esta muito junto. E o rap, o que e que e? Ritmo e Poesia, nas siglas, entao a gente esta falando de poesia, entao tudo e literatura no fundo, se voce for ver. Entao eu acho que foi muito feliz o encontro do hip-hop com a literatura da periferia, porque eles viram que eles se complementam, um movimento complementa o outro, um ajuda o outro, entao voce tem grupos de hip-hop dancando nos saraus, voce tem poetas nos shows de hip-hop, entao olha que beleza!

7. LT: iCual es en su opinion el papel de la literatura en el contexto de la "periferia"?

F: E militancia porque a gente poe o livro na bolsa, ne mano? Poe o livro na bolsa e sai batalhando com os outros, insiste nos outros ler, esta o tempo todo falando de

literatura, e uma militancia no dia a dia. A gente faz uma palestra e atende todo mundo depois da palestra, conversa com todo o mundo, o cara pergunta dica de livro, voce da. Voce esta sempre ali no fronte de batalha, nao e que nem os outros autores que vai la, lancam seu livro, e deixam. A gente quer lancar o livro o ano todo. E diferente, sabe? Entao e outra briga, e outra. Se a gente vai fazer um evento, o cara nao tem dinheiro, a gente da o livro, e outra coisa, estamos plantando outro publico. A gente vai para escola e se fala que nao tem ninguem interessado na literatura na escola. Nao e para publico alvo, mas ao mesmo tempo e aquele publico que a gente quer, aquele moleque que nao le, que nao se informa, que quer ler qualquer livro, nao precisa ser um livro nosso. Entao e uma militancia, e acho que a gente foi para cima disso, e uma briga. Faz projeto, faz revista, faz festa, sabe? Faz lancamento, poe para distribuir; tudo isso faz parte da coisa de querer cativar a pessoa.

BP: Eu brinco, eu falo que toda literatura e uma forma de autoajuda, todos os livros ... (o pessoal vai ficar bravo comigo por isso!) Quando voce vai para um livro, aquele livro que voce esta lendo, a nao ser que e imposicao, mas aquele livro de uma certa forma ele esta te ajudando, voce esta lendo aquele livro porque voce precisa daquilo ali, naquele momento, amanha pode ser que o livro nao e aquele, sera um outro livro, mas naquele momento voce precisava daquilo. Entao eu acho que e uma forma de autoajuda, todo livro tem essa, nao sei, eu mesmo quando eu li o Grande sertao, me ajudou muito. Foi um livro que me deu muita coragem, o personagem que era o Riobaldo, ele era muito corajoso, ele e muito corajoso, e ele ficou assim rondando na minha cabeca, e me deu muita coragem para enfrentar muita coisa, entao, entao eu tiro isso por isso. Um livro daqueles, o Grande sertao, nao e um livro de autoajuda? E uma heresia, talvez, mas para mim foi um puta livro de autoajuda, e eu recomendo. Entao a literatura para mim e isso, e e crescimento tambem, porque o livro voce aprofunda, nao e o computador: voce vai la na frente, fica vendo o computador, aquela superficialidade, voce le um pouco, te ajuda, sim, pode ate ler muitos livros por ali, mas tem um prazer sinestesico, de voce tocar para o livro, e o livro voce consegue aprofundar mais, coisa que as vezes o computador e tao rapido, ja mexe clique, ja sai outra coisa, ja viaja muito, e mais superficial.

FF: E eu vejo que so me salvei, consegui me salvar e estar livre, sei la, da criminalidade, das drogas, foi atraves da literatura, ai vem o poder da literatura, sabe? Acho que tem um papel super importante. Porque o periferico e o seguinte, eu e os meus amigos, a gente achava que so existia aquela possibilidade de viver, ne? Se fala "da ponte para ca",9 para mim so existia, o mundo era isso, o mundo era o Capao Redondo, nao existia outra possibilidade de mundo que nao fosse o Capao Redondo. E quando eu comecei a abrir os livros eu comecei a ver que estava em Cuba, estava no Afeganistao, estava no mundo inteiro atraves das linhas. isso me ajudou muito, sabe? A minha visao de mundo se ampliou. Entao o fato da literatura, com certeza, tem uma importancia social sim, na vida de cada um.

Referencia de las entrevistas

Ferrez, 3 de marzo 2010, Capao Redondo

Allan da Rosa, 6 de marzo de 2010, Perus

Alessandro Buzo, 14 de marzo 2010, Bixiga

Binho Padial, 15 de marzo de 2010, Campo Limpo

Sergio Vaz, 17 de marzo 2010, Chacara Santana

Fernando Ferrari, 18 agosto 2010, Campo Limpo

Adriana Solinas, 24 de agosto 2010, Cidade Ademar

Obras citadas

Buarque de Hollanda, Heloisa. 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.

Ferrez [Reginaldo Ferreira da Silva]. Capao Pecado. Sao Paulo: Labortexto, 2000.

--. Caros amigos especial: Literatura marginal: A cultura da periferia: Ato I ago. 2001.

--. Caros amigos especial: Literatura marginal: A cultura da periferia: Ato II jun. 2002.

--. Caros amigos especial: Literatura marginal: A cultura da periferia: Ato III apr. 2004.

--. Manual pratico do odio. Sao Paulo: Objetiva, 2003.

Rosa, Joao Guimaraes. Grande sertao: Veredas. Ed. Bia Lessa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

Vaz, Sergio. Cooperifa: Antropofagia periferica. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2008.

LUCIA TENNINA

UNIVERSIDAD DE BUENOS AIRES

Notas

(1) Los puentes que separan el centro geografico de San Pablo de las regiones suburbanas en las que estan localizados los saraus mencionados atraviesan dos rios, hacia la region sur, el rio Pinheiros, hacia la region norte, el rio Tiete.

(2) Giria refiere al slang.

(3) Expresion que significa "hacer dedo".

(4) Especie de empanada frita.

(5) "Cerveza helada".

(6) La Casa das Rosas es un caseron que fue de los barones del cafe. Esta localizado en la Avenida Paulista. En la actualidad funciona como un espacio de poesia en el que se organizan, entre muchas actividades, algunos saraus de poesia que frecuentan, en su gran mayoria, poetas y academicos de trayectoria letrada.

(7) Como fue senalado al comienzo, en los anos 2001, 2002 y 2004, Ferrez idea, organiza y edita tres numeros espaciales de la revista Caros amigos llamados Caros amigos: Literatura marginal, "Ato I", "Ato II" y "Ato III" respectivamente. Como podra notarse a partir de las entrevistas, muchos senalan el inicio de esta serie como el comienzo del "movimiento de literatura marginal".

(8) Barrio localizado en la zona norte de San Pablo, donde, el segundo y el ultimo sabado de cada mes, se lleva a cabo el Sarau da Brasa.

(9) Se esta refiriendo puente que atraviesa el rio Pinheiros.
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Author:Tennina, Lucia
Publication:Afro-Hispanic Review
Geographic Code:3BRAZ
Date:Sep 22, 2010
Words:5287
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