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"Miss", entrepreuners and the famous: making a distinction of the activity/Misses, empresarias e famosas: fazendo da atividade uma distincao.

As famosas do Recife: Aleika, Ellen e Elaine

Aleika ganhou o concurso de Miss Brasil Transex em 2002 e o segundo lugar no Miss Internacional Queen 2007, na Tailandia (MIQ 2007). Antes disso, conquistou o Miss Gay, em Pernambuco, em 1988, e o Miss Norte e Nordeste, em 1999 (1), na Paraiba (2). Para participar de seu ultimo concurso, na Tailandia, estudou ingles por quase um ano. No mesmo ano de 2007, Cris Couto obteve um titulo parecido em Madri, embora de menor amplitude em termos de preparativos, visibilidade e premios.

Aleika se tornou uma das grandes amigas de Ellen, socia-proprietaria de locadoras eroticas de video e Sex Shop na cidade do Recife. Ambas sao atendidas ocasionalmente por Elaine, enfermeira, concursada em dois dos maiores e mais importantes hospitais publicos da Regiao. Elaine modificou seu corpo apenas depois de passar pelo estagio probatorio, o que lhe garante nao precisar do trottoir para seu sustento. Ellen iniciou seu curso de Biologia na Universidade Catolica de Pernambuco, e embora nao o tenha concluido, por ter resolvido "tentar a vida" na Italia, ainda se preocupa em retornar aos estudos, o que a diferencia de outras travestis na cidade.

Aleika tambem deseja continuar os estudos, mas pensa em Jornalismo, o que acredita poder lhe garantir voz no meio LGBT no Estado. Elaine estuda

0 castelhano para tentar o doutorado na Espanha, o que conseguira assim que puder conciliar o projeto Europa com uma licenca nos hospitais, pois, segundo explica:

... isso me motiva muito, assim, o fato de eu ta (...) inclusa na sociedade, produzindo. Mas, que eu tenho valores, que eu posso ajudar a salvar vidas, isso pra mim e muito gratificante, nao tem dinheiro que pague, (...) assim que eu puder associar (...) essa minha ida a uma licenca, (...) eu vou, nao tenha nem duvidas, mas deixar isso, nunca, nunca, nunca, eu posso morrer, se tiver que escolher entre ir pra Europa pra ganhar dinheiro, viver de prostituicao, porque eu gosto da prostituicao tambem, [sic] (Elaine)

A fala de Elaine mostra o quanto estar inclusa na sociedade, com importancia reconhecida pelo trabalho que realiza, e vital para sua sobrevivencia enquanto pessoa. A dificuldade que Aleika expoe em muitas de suas falas, contradiz com sua trajetoria de vida de sucesso. Desde os 15 anos, vem sendo alvo de olhares de todos. Ela tem uma facilidade e seguranca na feminilidade que foi conquistada aos poucos. E exuberante e se gaba por ter uma familia que a respeita, desde ha muito, pela maneira como vem conduzindo sua vida e influenciando tantas outras travestis que vivem no Recife. Nem parecia que a dificuldade de trabalho tambem a atingia. Ela nao gosta que falem que e GP3, assim como tambem Cris Couto quando se apresenta em concursos, principalmente porque realizam programas na Europa (Piscitelli, 2005). O motivo para tal e a visibilidade negativa que tem esta atividade:

(...) a maioria delas sao quase que empurradas a isto pela falta de oportunidades em todos os setores produtivos. (...) melhor tratar deste assunto de maneira que possa trazer pra classe novas oportunidades de trabalho e nao de maneira com que a classe possa ficar mal vista, pelo fato da maioria exercer esta atividade como uma forma de sobreviver, vc sabe que de certa forma podemos ficar vistas como eternas prostitutas e rotuladas como submundo, [sic] (Aleika)

Por isso, e importante falar de prostituicao em duas vertentes distintas: uma delas e a atividade laboral que, por falta de oportunidade na escola e no mercado de trabalho, faz com que travestis, garotos e mulheres se dediquem a ela de forma cada vez mais constante, embora nao regularizada pelo governo, mas oficializada como atividade profissional (4).

Uma outra vertente e a que afirma ser a prostituicao uma atividade prazerosa, que segundo Mejia (2006), alem de significar um "extra" no final do mes, tambem proporciona prazer as pessoas, nao so a quem paga por servicos sexuais como tambem a quem os oferece em diversas circunstancias.

Panico moral acerca da prostituicao

No que se refere a "panico moral", o Grupo da Vida (2005) desenvolveu um estudo afirmando que o conceito vem instigar inquietacoes populares em escalas macicas sobre determinadas questoes sociais, pois, o medo se apodera das pessoas, levadas por determinados fatores, que podem ser "empresarios sociais ou a propria midia". O Grupo da Vida sugere que sejam implementadas regras que se estabelecem em movimentos, cruzadas, "campanhas politicas em torno de determinadas questoes morais e simbolicas, sem levar em conta a resolucao justa e democratica do problema focalizado" (Grupo da Vida, 2005: 1612).

A palavra panico significa medo e quando relacionada a atividade aqui referida, trata-se, principalmente, do medo da decadencia moral e social, o que gera mais ansiedade e confusao na hora de finalizar pesquisas cujas tematicas abordem questoes que impliquem circulacao internacional e genero, como bem discute Aleika (5):

Se eu fiz prostituicao? (...) Ate hoje eu faco. Faco por anuncio (...). Mas assim, faco da forma que me proteja o maximo entendeu? Claro que a gente nao tem 100% de chance de ta seguro ne? Que a gente sabe que corre varios riscos. (...). Mas, eu tambem trabalho, faco outros trabalhos como maquiadora, como cabeleireira, entendeu? Tambem trabalho com penteado e maquiagem, inclusive eu tenho curso pelo Senac (...) tanto o curso de maquiagem como de penteado. Tenho diploma (...) e sempre que aparece trabalho assim eu tambem faco. [sic] [grifo meu]

A interlocutora se refere a uma dicotomia clara entre "afazer" e trabalho. Ela faz prostituicao e nao valoriza suficiente esta atividade como tal. A expressao que utiliza "mas, eu tambem trabalho", serve para falar do que entende como sendo realmente trabalho a ser realizado, com formacao e titulacao para tal. Neste sentido, o conceito "trabalho" pode ser entendido aqui como produto de formacao escolar, tal como defende Pierre Bourdieu (1988). E, por todo um dispositivo que as discrimina pelo comportamento e pela aparencia (Fernandez, 2004), muitas vezes ambigua (Silva, 1993, 1996 e 2007a; Oliveira, 1994; Benedetti, 2005), ou "androgina" (Mejia, 2006), e que os limites aos acessos a outras possibilidades de profissionalizacao sao maiores, o que legitima muitas delas a nao considerarem os programas que fazem como atividade laboral, principalmente quando estao com pouca idade e precisam se manter para sobreviver.

Nossas conversas foram cuidadosamente guiadas e tolhidas por Aleika para que sua atividade como profissional do sexo nao aparecesse, e, embora tenha ciencia sobre o trabalho que a sustenta ha muito, deixa claro o panico moral que tem quanto ao que realiza, algo que nem deve ser mencionado em sua casa, com os seus. Esta claro que ela nao concorda com o estigma que marca a prostituicao, principalmente quando pede para nao falar desta atividade, porque "pode dar mal visibilidade de um modo geral a classe", embora aparente que nao gosta do que faz, o que geraria, automaticamente, uma questao que parece simples e, nao obstante, e complexa. O destaque nesta vertente e que muitas nao se sentem bem com a atividade que exerceram ou que exercem, como afirma Ellen:
   Porque eu nao me adaptei a prostituicao (...) [tenho]
   uma base forte na faculdade, no estudo, na familia, eu
   achei que nao (...) e minha praia, e assim, eu dei de
   impacto com os proprios travestis, o preconceito de
   travesti pra travesti, por exemplo (...).


A critica feita por ela refere-se a uma realidade presente na prostituicao e na desvalorizacao de toda sua formacao em detrimento de um conhecimento de ethos especifico do mercado do sexo. O trabalho das meninas requer dedicacao exclusiva e disposicao fisica para o habitus de um mundo diferente, principalmente, um mundo em que os codigos de fala sao outros, em se tratando de outra lingua, mesmo que, ao se aprender os codigos deste mundo, se percebe que as diferencas entre paises sao pequenas.

Todas as caracteristicas que Ellen observara nas travestis brasileiras, enquanto estava na Italia, destoam do glamour, status e classe da qual passam a pertencer quando realizam viagens a Europa, retornam ao Brasil, e sao intituladas e se intitulam, aqui, de "europeas". Os conhecimentos de Ellen, construidos na familia, na faculdade, alem de habilidades financeiras adquiridas no trabalho no Recife, ja nao valem mais ao pisar em solo europeu. Principalmente num mundo de proxenetas, clientes e cuidados com a estrangeiria. Por isso, sua revolta por todo o conhecimento adquirido, ao verificar que esse conhecimento escolar nao lhe serve na avenida, principalmente na Europa. Ela nao queria mudar de atividade nem voltar a Europa, que lhe trazia mas recordacoes. Mas, acabou por retornar mais uma vez.

Creio que o "panico" que Ellen afirma ter da atividade prostitucional remete ao conceito que Loic Wacquant desenvolve em "Corpo e Alma", quando afirma ser o corpo do pugilista "seu instrumento de trabalho--arma de ataque e escudo de defesa--e o alvo do adversario" (2002: 148). Este ultimo mais temido pelas "trans", que tentam se proteger da violencia urbana e dos estigmas da atividade que exercem, seja no Recife ou em qualquer cidade do mundo.

Ser alvo do adversario pode significar receber, ao mesmo tempo prazer e dor (Figueiredo, 2008) no corpo, que pode ser "carimbado" (6) e elogiado, expressao de um sentido pratico transgenerico, um habitus adquirido atraves de um comportamento de viagem, mas nao apenas de viagem e, sim, de circulacao e de pratica de trabalho prostitucional que as poe em risco, pelo fato de se distinguirem, negativamente, de outras pessoas que fazem percursos similares e nao se expoe tanto, gerando em algumas delas um medo intenso da atividade longe de casa.

Assim como os pugilistas de Wacquant (2000), Ellen e Aleika sao
   (...) extremamente conscientes quanto ao fato de ter
   entrado em um universo de exploracao desenfreada
   em que a mentira, a manipulacao, o ocultamento dos
   fatos e os maus tratos sao a regra, e em que os danos ao
   corpo e o desmantelo da vida pessoal sao consequencia
   normais do oficio (2000: 128).


Assim, fica claro que a prostituicao e um dos "idiomas" de exploracao corporal levantados por Wacquant:
   Do mesmo modo que a prostituta oferece nas ruas, por
   dinheiro, a capacidade de performance sexual de seu
   corpo feminino, o lutador vende a varejo a capacidade,
   resultante de treinamento, que tem o seu corpo
   masculino de causar e suportar abusos fisicos entre as
   cordas do ringue. Os empresarios e patrocinadores, por
   sua vez, ficam do lado de fora e colhem o grosso do
   dinheiro gerado por esse comercio de carne masculina
   (2000: 129).


A consequencia da exploracao esta eivada na ideia de prostituicao vinculada com o mal, uma "doenca na sociedade" (Engel, 2004). Dessa forma, utilizo Fraser (2003), quando afirma que a "injustica economica esta ligada a injustica cultural" (Mattos, 2006: 146) e vice-versa. E isso fica bem claro no trabalho exaustivo das travestis fora do pais. O que muitas vezes ocorre em situacoes de vulnerabilidade em que se encontram, mesmo estando em suas cidades, trabalhando no mercado do sexo, em que a exploracao e a marginalizacao (Bandeira apud Oliveira, 2007) do trabalho, assim como a privacao de determinados direitos--o direito de frequentar escola sem sofrer discriminacao, por exemplo--, se estabelece como regra para que possam realizar determinadas insercoes no mercado de trabalho.

Desta forma, alem de injustica cultural, as travestis sofrem uma injustica economica por se diferenciarem de garotos de programa masculinizados e de mulheres profissionais do sexo (Fernandez, 2004; Parker, 1990; Perlongher, 1993), feminilizadas, o que gera uma marca de preconceito e violencia de genero.

Pensar em injustica cultural e economica envolve tambem os principios de diferenca vinculados ao valorar as interlocutoras enquanto migrantes e profissionais do sexo. Por serem diferentes, embora com similaridades fortes com o masculino e o feminino, possuem desvantagens, pela ambiguidade cravada no genero, representado pelo comportamento no e pelo corpo. Por serem diferentes de outros migrantes na Espanha, sofrem por nao conseguirem representacao nos coletivos e no acesso as leis daquele pais. Por isso, tem menor chance de conseguirem outro trabalho que nao seja em ruas e pisos, ou seja, no mercado do sexo.

Pensar em reconhecimento e importante aqui para entender as travestis brasileiras e o movimento entre nacoes. Axel Honneth (2003), analisando Hegel, afirma que o reconhecimento deve ser tambem intersubjetivo, enquanto "condicao para o desenvolvimento de uma identidade positiva necessaria para a participacao na esfera publica". As travestis intersubjetivamente reconhecem-se enquanto pessoas que desconstroem determinadas categorias de genero, mas isso nao exclui o processo de interacao que desenvolvem com os seus pares envolvidos na cadeia de redes de relacionamento que sustentam seu modo de vida, seja no trabalho fora do pais ou mesmo aqui, quando lutam pela sobrevivencia.

Esse processo de interacao e quase uma obrigatoriedade para que se mantenham circulando entre paises, assim como evidente nos "palcos" de seu lugar, o que define o reconhecimento da pessoa "trans". Quem nao acessa os meios desta interacao, as pessoas que interligam as redes, nao consegue estar em evidencia, seja em pisos na Espanha, seja em casas de shows no Brasil, na midia, em concursos ou mesmo na rua fazendo trottoir.

Esse reconhecimento intersubjetivo, analisado por Honneth (2003), pode se encaixar no desenvolvimento da identificacao enquanto "trans", mas vejo como nao excludente da categoria de reconhecimento analisada por Nancy Fraser (2003). Pois, a busca de reconhecimento social pela qual as travestis vem lutando, quando se trata de mercado de trabalho estigmatizado, acredito estar em intima ligacao com a luta por justica social de reconhecimento de sua condicao de genero e de seres humanos que sao e sofrem com "praticas discriminatorias institucionalizadas" (7) por se dedicarem ao mercado do sexo.

Prostituicao como forma de estar na vida do outro

Uma segunda nocao de prostituicao vem da ideia da atividade destacada por Elaine, quando relata o porque de gostar do que faz, nao apenas como complemento financeiro a seus trabalhos nos hospitais do Recife:

(...) Ve a visao que eu tenho da prostituicao. Essa necessidade de importancia que eu tenho pro meu paciente, que (...) me ve, gosta de que eu fure, (...) Essa doutora so fura uma vez. Essa doutora aqui nao machuca (...) Isso eu saio tao feliz, tao feliz!, e eu escuto isso com frequencia dos proprios medicos (...). Na verdade, pra mim fazer prostituicao e muito mais que dar prazer sexual e voce entrar na historia de alguem, passar a ser importante na historia de alguem (...), por exemplo, um cara que e executivo, que tem mil problemas administrativos, (...) ai encontra uma Elaine que vai dar carinho, que vai querer escutar o problema se ele quiser dizer, (...) que vai ate opinar se ele permitir, porque eu tenho condicao de fazer isso (...). Conclusao: Eu gosto quando o cara vai embora e diz "Po que travesti legal, gostei de ficar com ele!" (...). Entao, a visao que eu tenho da prostituicao e essa, e voce ser a fatia boa, e o lazer (...) (sic)

Nessa vertente, a percepcao de Elaine de poder estar na vida do outro, participar como uma fatia importante que merece ser lembrada e novamente apreciada, e ainda poder pensar-se como podendo ter um momento de reconhecimento pela atividade que exerce, no hospital, da a esta interlocutora uma distincao diferenciada das demais. Esta distincao foi construida por ela como uma "preferencia estreitamente associada ao nivel de instrucao (avaliado pelo diploma escolar ou pelo numero de anos de estudo)" (Bourdieu, 2007: 09).

Elaine conseguiu ultrapassar a fronteira que dividia a profissional do sexo da profissional enfermeira e ser uma pessoa so, enquanto travesti. Ela se distingue das demais, mantendo-se como profissional do sexo nas ruas de Olinda, e em seus plantoes atende as colegas vitimas de violencia sofrida na propria avenida, onde tambem "batalha" nas horas vagas. Atendendo tambem, na avenida, muitas das pessoas que circulam pelos hospitais, agora como clientes.

O fato de essa interlocutora ter podido estudar, fazer concursos, ter sido aprovada e de ter modificado seu corpo apos a realizacao profissional conferiulhe um equilibrio financeiro e tornou-a diferente em relacao as demais, o que gera comentarios maldosos sobre "nao precisar" fazer programa, pois nao compreendem o fato de Elaine ter um emprego fixo e ainda estar nas avenidas. Esta visao constitui um bom contraponto frente a nocao estigmatizada de prostituicao como atividade que deve ser rechacada pela maioria da sociedade.

Ha duas visoes diferentes, a de Aleika e a de Elaine, sobre a prostituicao, ambas realizando-a com constancia, alem de se dedicarem a mais de uma atividade.

Embora com formacao no setor de estetica corporal, Aleika e Miss e assim se identifica procurando manter uma imagem diferenciada de muitas outras no Recife. Realizou cursos de Linguas, aulas de Postura, curso de Cabeleireiro e Maquiagem para aprimorar sua performance nas passarelas de concursos de beleza pelo mundo, entendendo como hobby o que faz para se distinguir das demais:

Sempre adorei participar destes concursos por todo o Brasil, para mim e como um hobby! Adoro e vejo estes eventos de maneira muito positiva, pois mostram a beleza da gente como realmente deveria ser mostrado para a sociedade (...). Acho que deveriamos ser mostradas nao como pessoas vulgares e sem nenhum escrupulo, como vem sendo mostrado nos mais diversos sites e blogs pelo Brasil e exterior, acho uma grande pena que muitas das nossas t-gatas tenham que se expor tanto e por tao pouco para poderem se sustentar do seu proprio corpo. E evidente que eu tambem tenho clientes, mas de maneira mais discreta e procurando sempre ser mais sensual e sexy nas minhas fotos para os mais diversos sites, mas tudo de maneira equilibrada, sem vulgarizacao, sem distorcoes e sem deixar esta imagem de submundo, [sic] (Aleika. In: casadamaite.com.br)

Aleika e Elaine fazem parte de um mundo igual, das travestis do Recife que deram certo, por terem se destacado por algo que realizam na vida: Elaine por ser concursada em duas instituicoes publicas, o que e quase impossivel em termos de cidade, estado e regiao, quando se trata de travestis. Aleika se destaca pela combinacao de beleza e desenvoltura, e ao mesmo tempo pela sua dedicacao em manter-se em contato com pessoas bem relacionadas e ligadas a concursos de beleza e eventos que lhe dao destaque, como revistas e jornais em que ela aparece com frequencia. Por isso, pelos concursos diferenciados e conquistados, nunca mais elas "voltam ao anonimato" (Sant'anna, s/d: 06), o que as distingue das demais que nao tiveram oportunidade de concluir a escolaridade necessaria para isso.

A famosa do Ceara

Neste ponto do texto vou tratar de outra famosa: Vivian, cearense de Maracanau, que conheci em Madri. O conceito de performatividade (Butler, 2003) cai bem neste momento em que distingo as "trans" famosas das demais que nao conseguiram acessar este universo do glamour e das conquistas em termos de trabalho. Performatividade como estabelecimento de normas repetitivas em um mercado de circulacao internacional de travestis brasileiras, que buscam trabalho e prestigio segundo uma atividade que paralelamente possam assumir e que seja distinta da prostituicao, que, segundo vertentes diversas, permanece em suas vidas.

Alem de titulos e premiacoes encontrados em seu perfil na internet, outras experiencias proporcionaram reconhecimento para Vivian:

Antigamente eu trabalhei como colunista de jornal da minha cidade, radialista, ja fiz show nos eventos da prefeitura ... (...) eu tinha uma coluna no jornal que falava da beleza masculina, da beleza feminina, da beleza gay. Trabalhava no programa de radio da minha cidade tambem. (...) E fazia shows na frente da prefeitura em praca publica, que eu fui o primeiro travesti da minha cidade a participar do Cultura em Movimento, do Departamento de Cultura. Ja fui Miss Gay da minha cidade. (...) fui coroada em praca publica pelo prefeito, entendeu? Ai fazia shows, eventos sociais, por exemplo, concurso de mulher, concurso de homem, concurso disso e concurso daquilo, sempre me chamavam para os buffets pra fazer os shows entendeu? Porque o pessoal ia muito pelo show. Ai tinha toda aquelas familias assistindo as filhas concorrendo e ao mesmo tempo assistia o show entendeu? Ai, agora, antes de eu virar travesti eu trabalhei numa companhia de alimentos, numa granja, e trabalhei um mes como cobrador de onibus intermunicipal, Fortaleza--interior, entendeu? (...) E estudei ne? Estudei o segundo grau e depois participei do movimento estudantil quando era rapazinho, em meu colegio fui o presidente e fundador do Primeiro Gremio. (...). Ate queriam que eu fizesse carreira politica, mas nao era isso nao. Eu tava fazendo isso porque era ate um incentivo pra eu ta estudando, aquelas coisas, entendeu? (grifo meu) (sic)

Vivian e uma das "trans" que se tornaram famosas com a atividade que exerceu e que garantiu sua visibilidade atraves do humor, tao caracteristico das pessoas do Ceara, como ela mesmo afirma. Nestes eventos, estar perto e sendo amiga de politicos locais foi uma estrategia de busca de reconhecimento perante a propria familia de origem, que valorizou sua trajetoria e reconheceu sua fama. Assim como Elaine, Vivian iniciou sua carreira de sucesso atraves de trabalhos que nao estavam ligados a prostituicao, e nem inicialmente ao corpo. Ambas utilizaram habilidades proprias. Estudaram, terminaram o Ensino Medio (8) e iniciaram suas carreiras de forma a mostrar que as habilidades poderiam se transformar em trabalhos reconhecidos socialmente. Obtiveram reconhecimento de suas competencias atraves da aprendizagem, enquanto "capital cultural adquirido", na pratica escolar institucional que as fizeram adiar muitos de seus sonhos mais imediatos. Habilidades estas, seja na performatividade, na escrita e na oratoria que lhes proporcionam distincao perante muitas travestis, o que mais a frente se amplia quando se chega ao que considero o apice da distincao na travestilidade.

Concursos de Misses: o caso do MIQ e MTI (9) 2007

O objetivo deste item e apresentar o MIQ 2007, Tailandia, em comparacao com o MTI que ocorreu no mesmo ano em Madri. Para isso, utilizo dados obtidos atraves de Aleika, assim como veiculados pela TV tailandesa, que transmitiu o evento ao vivo para os telespectadores que nao puderam ir a casa de shows Tiffany's (10), na cidade de Pattaya. E informacoes de Cris Couto, jornais que veicularam a noticia e alguns anuncios sobre o MTI na imprensa espanhola e brasileira.

Para participar de um Concurso de Miss e preciso primeiro querer participar, mas, em segundo lugar, o querer fica condicionado ao perfil estipulado para tal, porque se voce nao tem as medidas designadas pelo padrao determinado nao e possivel nem realizar a pre-inscricao. As medidas nao tem muito a ver com o modelo de "perfeicao corporal" em que 90-60-90 (11) podem ser o "maximo" (12) para a candidata, pois e possivel ver claramente medidas nada convencionais, em que, por exemplo, as "trans" se apresentam com suas adiposidades, como demonstrou no MIQ a candidata Sofia Montana, do Mexico, ou mesmo Jazmine International, de Porto Rico.

Os gastos com o MIQ se iniciam com a taxa de inscricao (online, no valor de duzentos dolares), passagens aereas e terrestres, traje tipico, roupas de gala (duas), roupas de uso diurno (varias), cabelo, maquiagem e maquiador (13), sapatos, joias adequadas para cada tipo de roupa e ocasiao, sandalias para cada dia/noite, tipo de evento e local, roupas para apresentacao artistica etc.

Na apresentacao veiculada pela TV da Tailandia, se percebe que apenas as roupas de banho deveriam ser vermelhas, o modelo dependia de cada candidata. As roupas de dia eram padronizadas: blusas verdes com calcas brancas, para combinar com a tematica do evento diurno, da cidade de Pattaya, assim como do pais: a Preservacao Ambiental.

Uma semana antes, as 24 candidatas (14) passaram por uma maratona de provas: ensaios de passarela, idas a bosques, parques tematicos, zoologicos, parques ambientais, praias, zonas de preservacao e areas onde o desmatamento esta mais a ceu aberto foram visitadas pela equipe de candidatas, para passeio e filmagem, alem de palestras sobre crimes ambientais e preservacao, que, segundo Aleika, tinha como objetivo testar a capacidade intelectual delas, porque o "intelecto ajuda muito para participar".

No caso do MIQ, o padrao e ser "trans", independente de ter realizado a cirurgia de transgenitalizacao. Na versao 2007 nao houve limite de quantidade de inscricoes por pais.

O show de apresentacao noturna do MIQ se iniciou com uma apresentacao artistica da Miss Mexico, ganhadora do titulo de 2006 e ja contratada da casa. Os apresentadores eram um casal, em que a moca fora miss no ano anterior. As linguas faladas foram o tailandes e o ingles, segunda lingua do pais. Uma tela por tras dos apresentadores mostrava os patrocinadores oficiais do evento. As candidatas foram chamadas em seus trajes tipicos, mas nem todas foram ao palco, por causa da quantidade dispar e entre candidatas e paises. Logo apos a apresentacao das candidatas em trajes tipicos foi apresentado o Corpo do Juri.

O traje tipico de Aleika caracteriza muito bem a variedade encontrada na natureza do Brasil. Mostrase, parafraseando Pequeno (2004), como "folklorica", em que tudo e aplique. Em homenagem a floresta amazonica, a beldade pernambucana tem em seu vestido borboletas, tigres, sapos, cobras, rosas, flores, folhagens numa base verde, copiada de um modelito da Miss Rio Grande do Sul que representou o Brasil em um dos concursos de Miss Universo.

Em outros blocos, as candidatas apresentaram-se uma a uma, como de costume, aparecendo na tela um quadro no qual estavam colocados seu numero, idade, e medidas, em ingles.

Da mesma forma como em um concurso de garotas e rapazes, o MIQ elege Miss Simpatia (15), Miss Fotogenia (16), Melhor Vestido de Noite (17), Melhor Traje Tipico (18), Miss Voto Popular (19), Melhor Talento em Show (20), em concursos realizados na semana do evento e nao na noite de gala em que se escolhem as misses propriamente ditas para todo o mundo. Dessa forma, as Filipinas sairam ganhando com suas cinco candidatas.

Os shows de todas as concorrentes so puderam ser visto por quem teve acesso via internet ou estava na Tailandia e no Tiffany's nos dias e no momento do evento. Uma ressalva: para se ter acesso a casa de shows na noite final do evento foi preciso desembolsar entre trinta e quarenta dolares (U$30 ou U$40), sem contar com as apresentacoes das mesmas candidatas em noites anteriores, que valeram pontuacao no concurso. Um negocio muito lucrativo.

No evento de Madri, MTI 2007, o valor da entrada foi de vinte e cinco euros (25 [euro]) por pessoa, valendo apenas para uma noite, ja que o evento nao teve etapas anteriores a noite de gala. Como o da capital da Espanha e um evento iniciante, creio que o da Tailandia cobrou um valor bem superior aquele, ate pelo fato de ter patrocinadores de peso. Com outra configuracao, em termos de organizacao e premiacoes, assim como de divulgacao, o MTI 2007 faz parte de uma serie de outros concursos a que as cidades do mundo todo, principalmente as da Europa, aderem, com o objetivo de movimentar o mercado de concursos oficiais, alem de mostrar as mais variadas possibilidades de insercao na categoria de concursos chamados universais, ou mundiais, que hoje tem destaque.

Vale salientar que o evento da Tailandia e todo financiado pela iniciativa privada (internacional, nacional e local (21)). Assim, trata-se de uma "estrategia de marketing de empresas que as promovem" (Sant'anna, s/d: 03). O que, consequentemente, gera publicidade. Primeiro, atraves da midia internacional, que disponibiliza na internetas imagens, as votacoes e os eventos preparatorios para a noite de gala. Depois, atraves da divulgacao que as proprias candidatas fazem em seus paises e nos paises em que circulam, na maioria das vezes pela Europa.

As brasileiras que estavam no MIQ, representando a Suica, a Italia e o Brasil sao as chamadas "europeas": "trans" brasileiras que circulam pela Europa para trabalhar e, pelo tempo que permanecem por la conseguem, de diferentes maneiras, visto permanente.

O MIQ se prolonga por mais uma semana, para a realizacao de atividades que as tres primeiro colocadas devem cumprir, como ir a cada patrocinador agradecer formalmente, encontrar-se com a imprensa divulgadora do evento, e com outros canais de divulgacao, conceder entrevistas. Pois, como todos os outros concursos de misses no mundo todo, geram dividendos para o pais.

Fazer parte do mundo das misses e ponto para o curriculo. Com isso, se adquire mais distincao. Outras oportunidades aparecem para as candidatas: seja para atuar em filmes eroticos (22), participar do corpo de jurados em outros concursos, ou mesmo para introduzir-se em universos antes pouco acessados pelas trans brasileiras, como a internet, territorio rico para analise da travestilidade atual, e territorio de passagem para um outro universo de acesso a clientes e pares.

Alem disso, participar de concursos e uma maneira de construir a identificacao de si enquanto "trans", e tambem enquanto brasileira, principalmente porque as que tem como referencia a condicao de miss participam de forma diferenciada do mundo do espetaculo e do glamour, ficam bem mais visiveis em revistas, filmes e eventos nacionais e internacionais de travestis. Pois, ser brasileira deixa de ter destaque negativo, como o de ser puta na Espanha, como afirma Cris Couto antes do concurso em Madri, sobre isso ela comenta:
   (...) porque eu quase nao falo que sou brasileira, as
   vezes eu falo que sou portuguesa. Porque? porque eu
   ja falei muitas vezes que eu sou brasileira e eles ja
   comentam com o amigo e falam "E puta!" (...) Eu nao
   gosto de ta em um lugar e ser a puta. E quando alguem
   pergunta eu falo que nao trabalho.


Assim, era interessante para ela nao afirmarse como brasileira. Dai amenizando a questao da identidade profissional que estigmatiza a comunidade feminina, inclusive as travestis, com excecao das misses, condicao que pede orgulho pela

nacionalidade, embora nao da atividade realizada antes das passarelas.

Para Pequeno (2004), o corpo da Miss se converte, no concurso, no icone simbolico da identidade nacional. Neste sentido, o fato de haver uma super valorizacao, no caso do MIQ 2007, as candidatas brasileiras, assim como de outras nacoes, embora nao representando outros lugares alem do seu, parece indicar que estamos vivenciando uma perpetuacao da imagem de nacao sexualizada. Mas, esta visao so e possivel porque, ao analisar o fato, sabia de antemao que as candidatas da Italia e Suica eram brasileiras; e mesmo que o pessoal da organizacao soubesse que elas nasceram no Brasil, a plateia e os jurados provavelmente nao tiveram acesso a essa informacao, o que talvez nao interferisse no resultado final.

Estar participando de concursos de misses proporciona a Aleika e a Cris Couto, embora em lugares e destaques diferenciados, ultrapassar uma etapa de status, e se alcar a outro nivel que distingue estas travestis de outras brasileiras que circulam pela Europa, e principalmente das que nao conseguem ter distincao, seja de que maneira for.

Poder participar de eventos como representante da beleza nacional [grifo meu], como e o caso de Aleika, e por isso ser respeitada, ou mesmo discriminada, entre as demais, pela referencia de europeidade, e ganhar reconhecimento de classe, ser distinta. E trazer para casa, seja aquele apartamento que divide com a mae e o irmao ou mesmo as paginas de jornal que expoem sua beleza "trans" brasileira, o trofeu como "objeto enclasante" (Bourdieu, 1988: 13).

O trofeu obtido por Aleika fica na mesinha da sala, onde todos, ao entrar, descobrem o que a diferencia das demais, mesmo que seja a mesma sala, os mesmos moveis, a mesma televisao, mas nao o mesmo video exibido, nem o mesmo bibelo destaque. O trofeu de Aleika pode ser comparado a uma obra de arte, porque adquiriu um potencial corporal pelo titulo de beleza internacional em que ela competiu e representou o nome de uma nacao--o Brasil. Obra de arte, porque foi produto de um empenho, mesmo nao pensado pelo autor da obra, mas incorporado pela candidata que, mesmo em segundo lugar no concurso, dispoe a representacao de sua vitoria em destaque para a admiracao de todos.

Participar desses eventos proporciona, ainda, poder cobrar um valor maior do que as demais "trans" quando na atividade de profissional do sexo, ou seja, o mais novo titulo aumentou o seu valor como profissional. E uma forma de ser reconhecida pelo trabalho que realiza, pelo tempo de dedicacao, a construcao e manutencao do corpo, assim como o controle de uma imagem que e publica.

No MTI, Cris Couto inicia sua primeira participacao em concursos de beleza de grande porte. E o primeiro, logo apos termos conversado. Segundo jornais escritos, como Folha de Sao Paulo (Caderno Mundo, 28/06/2007), de divulgacao tambem pela internet, ela mostra sua profissao "oficial"--cabeleireira--, mas nao a atividade que exerce na cidade espanhola, como ja exerceu em outras cidades europeias, a prostituicao. E o que une seu discurso com o de Aleika e que ambas negam publicamente a atividade no mercado do sexo em que estao envolvidas na Europa e no Brasil.

Vejo que alem de ter adquirido uma outra identidade, a de Miss, Aleika adquiriu um outra postura, e com isso um habitus de classe e gosto, assim como Cris Couto, tal como afirma Bourdieu (2007), diferenciado das demais travestis do Recife, e de muitas do Brasil. Gosto este que estabeleceu nela distincao, enquanto

(...) disposicao adquirida para 'diferenciar' e 'apreciar' (...), para estabelecer ou marcar diferencas por uma operacao de distincao que nao e--ou nao necessariamente--um conhecimento distinto, (...) ja que ela garante o reconhecimento (no sentido comum) do objeto sem implicar o conhecimento dos tracos distintivos que propriamente o definem. (Bourdieu, 2007: 434)

Um objeto que observo como diferente em seu apartamento, alem do trofeu obtido no concurso internacional, e o teclado. Uma das vezes que a visitei, questionei quem ali se dedicava as artes musicais. Pensei que seu irmao era musico ou mesmo tocava da Igreja na qual fazem parte, mas era Aleika mesma que comprou para adquirir cultura erudita. Mais um aspecto de distincao que faz da pratica de um instrumento musical a determinacao de classe que possui esta interlocutora. Mesmo que, na realidade, a pratica do instrumento nao seja continua. Ou seja, independente de seu uso, e uma tentativa de encontrar mais uma forma de distinguir-se das demais.

Cris Couto nao quer se comparar a outras candidatas, como as drags em seus trajes "exagerados" e pouco femininos, pois, como ela mesma afirmaja passou por esta etapa, quando ainda nao tinha modificacao corporal alguma. Em sua representacao, fica claro que nos concursos--gays e transex--se encontram diferentes pessoas, destacadas em diferentes modalidades de genero e identidade, mas concorrendo a apenas uma categoria, que elege apenas um/a campea/o. Ser drag-queen e diferente de ser travesti ou transexual, embora nos concursos nao importe muito o processo de modificacao corporal e construcao de cada identificacao e pertencimento de pessoa, porque nao se desnuda, nem ha criterios que possam medir as diferencas ou semelhancas.

Aleika ja participou de concurso gay, mesmo como travesti, como tambem transex (23). Contente com o titulo na Tailandia, afirmou, em seu blog:

Somos vices. o Brasil levou segundo lugar com gosto de primeiro no miss universo na Thailandia, arrazamos por aqui ... Foi tudo lindo, tinham 24 candidatas e ficamos em 2. lugar no concurso das mas belas, o site da globo.com hoje trazia a seguinte manchete na pagina G1 Rainha--Brasileira leva 2.lugar no miss transexual. Adorei tou super feliz apesar que os comentarios aqui e que as brasileiras sao belas e mereciam o titulo, mas a Thailandesa era linda tambem e arrazamos todas aqui fico agora 8 dias na thailandia pra entrevistas em jornais, tvs e radios. por aqui sera uma semana super corrida (...). [sic] (Aleika, 11/11/2007)

Couto deixa claro para que veio, para chamar a atencao e ser destaque pela sua mais nova aquisicao, o corpo recem-modificado (24) e sua beleza de menina recem formada corporalmente, dando entrada ao mundo das misses. Mostra-se ambigua em sua fala, quando afirma que as "trans" nao precisam se prostituir na Espanha para sobreviver, mais uma estrategia para se destacar como diferente das demais que buscam fama, glamour e reconhecimento pelo que conquistam. Uma fala de Cris Couto, concedida em entrevista a esta pesquisadora, deixa claro sua situacao. E uma entrevista bastante diferente da que concedeu apos receber o titulo de Miss, na qual nao se inibe em falar de suas atividades:

Quando eu cheguei aqui na Espanha ainda fazia cabelo das trans, (...) mas tambem ganhei muito pouco dinheiro (...), paga muito pouco, a gente nao e valorizada. Ja que nao tem valor, entao vou fazer uma coisa que nao tem valor? (...) Em Portugal ja fiquei livre um pouco, so que como tinha familia eu me sentia mal. Aqui nao tem nenhum familiar meu, so tem muitos amigos meus. Depois que eu entrei nessa vida eu fiquei mais liberta entendeu? Porque eu era um pouco fechada, eu era um pouco recatada entendeu? (...) No Brasil eu nao sabia o que era o mundo das trans. (...) Cheguei, fui trabalhar em uma casa, o primeiro lugar onde me prostitui foi aqui. Por que? Porque eu trabalhava, ganhava 1.500 euros no salao, pra mim era pouco. E isso e o que eu faco a cada dois dias, entendeu? (...). Trabalho de vez em quando agora, quando eu quero. Nao preciso trabalhar todos os dias. Nao tenho anuncio mais. Trabalho numa agencia de escorte (25) (...) onde tem clientes da Inglaterra, americanos. Ela [a dona da agencia] me liga, vou pro hotel com o cliente, fico algumas horas e ganho um bom dinheiro. (...) trabalhei na rua tambem [Casa de Campo e Castellana], [sic] (Cris Couto)

Essa sua fala mostra o quao discriminado e a prostituicao para as "trans", embora constitua uma atividade reconhecida pelas interlocutoras como profissional, mas dificil de ser dita como tal para uma estranha, como eu, ou para um periodico de circulacao nacional e internacional. Ser prostituta ainda e estigma, e como estigma (Goffman, 1963) e algo que quem busca reconhecimento e fama atraves de sua beleza corporal nao ousa admitir.

Ser Miss e muito mais interessante, pois quem foi coroada tem no curriculo experiencia, categoria que ressalta as qualidades do ser pessoa "trans" nas interlocutoras e as tornam visiveis perante a sociedade, como ressalta Aleika:

C: Tentaste outras vezes o concurso Transex?

A: Nao, porque a primeira vez que eu tentei eu ja ganhei, ne? Da primeira vez. (...) Entao nao e valido pra mim ganhar uma coisa que eu ja tenho ne? Um titulo que eu ja tenho. (...) O que vai valer e o que eu falei, que e o lado de reconhecimento das pessoas e e poder mostrar um outro lado que as pessoas nao conhecem. Mas a nivel economico nao e uma coisa tao valida entendeu? [sic] (Aleika)

Ser Miss fica marcado como o fato de ter dado certo na vida, mas ser Miss com titulo e nao apenas como candidata, pois, quem e Miss o e por toda a vida. E possivel aqui fazer uma comparacao entre ser Miss e Presidente de uma nacao (Da Matta, 2007), pois ambos, ao se elegerem, sao reconhecidos e distintos por toda a vida. Assim sendo, Miss e Presidente nunca mais voltam ao anonimato.

Quando se trata de concursos de Miss Transex mundo, o proprio jornal que veiculou noticias do MTI 2007 destaca o evento como "concurso singular", embora igual a qualquer outro concurso de beleza, em que nao se exige "inteligencia". Na fala de uma das juradas do MTI, e icone da musica origem na Movida madrilenha, Alaska: "pedimos (...) que sejam (...) apenas bonitas". Ou seja, nao interessa outras ocupacoes ou etapas pre-concurso.

Querer ser vista, nao apenas nas ruas, pelos homens e pelos pares. Querer ser apreciada pelo empenho na construcao do corpo e pela educacao desse corpo, com movimentos cada vez mais femininos, principalmente o movimento da mao da Miss quando sauda o publico, no momento da coroacao. E algo que persegue qualquer uma que va tentar a vida no territorio do outro, a Europa. Dessa forma, ter destaque enquanto travesti brasileira, no Brasil ou no exterior, e fazer da atividade uma distincao. Mas, para isso as travestis que ouvi precisaram ultrapassar as barreiras do estigma que a prostituicao lhes imprime, e, mais que isso, provar que sao competentes para alcancar patamares superiores aos determinados quando se trata de pensar a travestilidade. Elaine concursou-se enfermeira, Ellen associou-se com um amigo e abriram uma locadora erotica e sexshop, o que se ampliou em numero. Aleika, Vivian e Cris Couto conseguiram brilhar nas passarelas dos concursos de beleza, nacional e internacional. Com isso, fugiram da marginalidade que ronda a figura da travesti que faz programa.

Conquistando, ou nao, a identidade de europeas, essas travestis se distinguem das demais por se dedicarem a atividades que as diferenciam, pelo fato de terem conquistado outros mundos. Mas, para isso, como vimos ate aqui, tiveram que trilhar caminhos ambiguos e transgressores.

Referencias

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Maria Cecilia Patricio

Professora das Faculdades Joaquim Nabuco e Decisao, Pernambuco. Pesquisadora do Nucleo de

pesquisa em Genero--NUPEGE--UFRPE. email: mcecpatricio@yahoo.com.br

(1) Dados encontrados no site, blog: <www.casadamaite.com.br>; <www.aleikasandria.blogspot.com>.

(2) Nos concursos de categorias Gays, travestis e transexuais nao e necessario ser natural de determinado estado ou pais para representar o local, por isso Aleika representou a Paraiba e conseguiu o titulo. Da mesma forma as misses candidatas da Italia e Suica, que representavam estes paises, mesmo tendo nascido no Brasil, puderam se candidatar a favor daqueles paises, com os devidos documentos em dia como italiana e suica.

(3) Garota de Programa.

(4) Na Classificacao Brasileira de Ocupacoes (CBO), sob categoria de no. 5198-05, a "Prostituicao nao e crime, e sim, uma profissao regulamentada pelo Ministerio do Trabalho", segundo Sergio Rangel.

(5) Como pesquisadora, devido a esclarecimentos realizados com as interlocutoras, me sinto a vontade para utilizar a palavra e nao estar julgando negativamente as pessoas que realizam a prostituicao, e embora a nocao de panico moral esteja presente em muitos discursos das proprias interlocutoras, elas estao cientes do que escrevo, ate porque nem todas tem o mesmo cuidado que Aleika em relacao ao uso da palavra prostituicao.

(6) Posso utilizar esta palavra em dois sentidos. Um deles e a emblematizacao do feminino no corpo da travesti, como forma de erotismo e de conquistas de parceiros, ou parceiras, como enfatiza Ellen. Uma outra concepcao diz respeito a contrair o virus FHV, que e denominado ser carimbado, principalmente quando elas afirmam que alguem voltou da Europa carimbado, ou seja, com o virus no corpo. Assim, ao mesmo tempo une os dois emblemas, europeia e Aids, bem e mal, vitoria e derrota, signos de classe, status e poder.

(7) Mattos, 2006: 150. op. cit. Fraser & Honneth: 29.

(8) Antigo Segundo Grau.

(9) Miss International Queen, que ocorre na Tailandia. Escolho informar sobre este determinado concurso porque foi o unico em que obtive informacoes exatas. O segundo concurso e o MTI, Miss Transexual Internacional, que ocorreu em Madri no mes de junho do mesmo ano.

(10) O Tiffany's e uma casa de shows onde 90% dos funcionarios sao travestis, alem das apresentacoes de trans do mundo todo. Segundo seu proprio site, esta na lista das dez melhores casas de shows do mundo. Apenas perde para o Moulin Rouge de Paris, em primeiro lugar, Siegfried & Roy e Misters de Las Vegas, segundo e terceiro lugares, respectivamente. Mas, na Tailandia, e a maior casa de shows, principalmente quando se refere a shows de travestis, comparada apenas ao Moulin Rouge, segundo Aleika.

(11) Medidas respectivas para busto, cintura e quadris.

(12) Em termos de medidas maximas, nao podendo ir alem destas.

(13) Foram de grande valia, para Aleika seus conhecimentos de maquiagem do curso que fez no Senac, pois, enquanto dividia seu maquiador com outras candidatas, misses Suica e Italia, ela dava um jeito em si mesma, com o que ja sabia, o que lhe garantiu uma boa apresentacao no evento.

(14) Bruna Cabral--Suica, 20. Camila Pryns--Suica, 28. Natasha Lim--Malasia, 30. Raim Marie--Filipinas, 24. Melania Armenta--Colombia, 25. Perla Quigaman--Filipinas, 34. Sofia Montana --Mexico, 20. Gresia Rivas--Venezuela, 36. Ruby Bella Cruz--Costa Rica, 27. Francine Garcia--Filipinas, 20. Akanchya Moktan--Nepal, 21. Ai-Haruna--Japao, 30. Tanyarat Jirapatpakon --Tailandia, 21. Anjali Lama--Nepal, 23. Bhumika--Nepal, 19. Aleika Barros--Brasil, 28. Chanel Madrigal--Filipinas, 28. Shima Shyna--Japao, 26. Joana Ingrid--Filipinas, 24. Ireen Sue--Alemanha, 31. Melanie Robles--UK Reino Unido, 26. Patricia Binotto--Italia, 30. Jazmine International--Porto Rico, 28. Beni Tsukishima--Japao, 32.

(15) Ireen Sue--Alemanha.

(16) Melania Armenta--Colombia.

(17) Chanel Madrigal--Filipinas.

(18) Tsukishima--Japao.

(19) Rain Marie--Filipinas.

(20) Gresia Rivas--Venezuela.

(21) Dentre elas, Coca-Cola, Sistema de Correios de Tailandia, Caring Heart Aids Foundation, Industrias de Cosmeticos local, USA Pageant, Host of Morning T., LG., dentre outras.

(22) O filme "Me Chama Que Eu Vou", conta com a participacao de Myriane Ribeiro, Miss Bahia Gay, Miss Sao Paulo Transex e Miss Brasil Transex em 2005, evento este que Aleika fez parte como, jurada. E Monik Lorran, Miss Piaui Gay e Miss Norte/ Nordeste Transex 2005.

(23) Categoria utilizada nos concursos de beleza, que travestis, transformistas, top--travesti, t-girl, t-gata participam.

(24) Quando realizei a entrevista com a candidata, ela ja possuia peitos, colocados por uma amiga, em Madri. Pouco antes do concurso modificou o corpo mais uma vez, o que acredito ter contribuido para que ela os mostrasse ao publico do evento.

(25) Escorte e uma agencia de encontros em que as travestis, ou mulheres e garotos de programa sao agenciados para fins de atividade sexual. Nos escortes pode haver um espaco fixo, casa ou apartamento que serve para encontros amorosos, ou apenas a intermediacao entre as partes interessadas. Quem gerencia o escorte pode ser a mesma pessoa que agencia as travestis, mulheres ou garotos de programa, de seu lugar de origem.
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Author:Patricio, Maria Cecilia
Publication:Revista Artemis
Date:Jan 1, 2012
Words:8025
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