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"It had a fortune-teller and she read my future": analysis of a life story (co)constructed in interaction/"Tinha uma cartomante e ela leu o meu futuro": analise de uma trajetoria de vida (co)construida na interacao.

Introducao

Se esta historia nao existe, passara a existir.

A hora da estrela Clarice Lispector

Em geral, o contato com o mundo dos livros comeca muito cedo. Folheamos as primeiras paginas quando criancas e contamos historias antes de decifrar o codigo da escrita. Muitas vezes, de fato, e no formato escrito que o discurso literario se materializa. Entretanto, criamos historias desde que nos constituimos como seres de linguagem no mundo, pois as narrativas sao propriamente o ato de (re)contar na interacao com o outro, ou seja, constituem um discurso organizado temporalmente, (co)construido em nossas relacoes sociais.

Por conseguinte, e possivel dizer que a literatura, e o que convenciono chamar de discurso literario, surgiu de nossa capacidade humana e social de (re)contar historias. So fazemos literatura porque organizamos nosso discurso oral de modo a narrar algo a nossos interlocutores. Estamos sempre contando algo que aconteceu, buscando uma maior compreensao para nossas experiencias e construindo nossas identidades em conjunto com o outro. Nossas pequenas narrativas diarias sao praticas sociais, assim como a leitura de uma obra literaria. E por meio das historias que organizamos nossa experiencia de vida e construimos sentido sobre nos mesmos.

Entendendo a literatura e as narrativas orais como praticas sociais, percebo que a leitura literaria e uma situacao de linguagem que acontece na sociedade e nao pode ser compreendida fora de seu contexto, isto e, uma obra so pode ser entendida a partir das circunstancias de sua producao. Para alem disso, e preciso observar o contexto de leitura e a recepcao do leitor que (co)constroi sentidos ao abrir o livro. Logo, este trabalho propoe uma reflexao sobre a vida social e sobre a literatura como modo de ser e estar no mundo.

Este trabalho e parte de uma pesquisa maior (1), cujo foco e a analise de narrativas geradas na interacao entre leitores e obras literarias, tendo como tematica central a migracao. Sendo assim, o ambiente de geracao de dados e contextualizado pela literatura, que conduz e e pano de fundo para a interacao. Neste recorte, meu proposito e analisar uma narrativa produzida na interacao entre mim (pesquisadora) e a participante Cassia (minha mae), a partir da leitura da obra literaria A hora da estrela, de Clarice Lispector, e gerar alguns entendimentos sobre as (co)construcoes identitarias que ocorrem nessa interacao com o texto.

1. Caminho percorrido

O alinhamento metodologico deste estudo se da com a pesquisa qualitativa, pois ela preocupa-se com o contexto de geracao dos dados e com seus aspectos sociais, olhando para um universo que nao pode ser quantificado. De acordo com Denzin e Lincoln (2006), a pesquisa qualitativa, entendida em si mesma como um campo de investigacao, pode ser conceituada como uma "atividade situada, que localiza o observador no mundo. Consiste em um conjunto de praticas materiais e interpretativas que dao visibilidade ao mundo" (DENZIN; LINCOLN, 2006, p. 17). Questionando e, ao mesmo tempo, se afastando de uma concepcao positivista de ciencia, a pesquisa qualitativa olha para os significados das praticas sociais, o que vai de encontro a concepcao de linguagem e de fazer literario como modo de ser e de estar no mundo.

Compreendo que, neste estudo, a objetividade e posta sob suspeita para uma valorizacao da subjetividade dos participantes, incluindo a da pesquisadora. Penso que os significados que criamos discursivamente nao estao previamente dados, mas, assim como na leitura literaria, (co)construimos nossas representacoes de mundo. Sendo assim, este trabalho nao objetiva encontrar uma verdade ou mesmo gerar uma compreensao sobre algo real que poderia, por ventura, ser apreendido.

Minhas analises sao situadas em um determinado contexto, logo tambem sao uma construcao discursiva e nao necessariamente correspondem a uma dada realidade. E importante mencionar, ainda, que devido a esse alinhamento epistemologico, nao existe a necessidade de refletir sobre a veracidade das narrativas que serao geradas por meio da leitura literaria. Reitero, portanto, que meu interesse esta voltado para a interacao entre a pesquisadora e a participante com a obra literaria e a construcao de sentidos geradas.

Eu participo desta interacao junto com Cassia, minha mae, a partir da leitura da obra A hora da estrela de Clarice Lispector. Essa obra foi selecionada a partir do contexto de vida da participante, que imigrou do Nordeste para o Sudeste ainda na adolescencia, tematica retratada na obra literaria. Minha intencao era, de fato, causar alguma identificacao entre minha mae e a obra de Lispector. Desse modo, era esperado por mim que a interlocutora contasse, durante nossa conversa informal, historias sobre sua imigracao para o Rio de Janeiro, Estado onde mora atualmente.

O contexto das narrativas de migracao sempre esteve ligado a minha vida, afinal cresci escutando historias da vinda de minha mae para o Rio de Janeiro e, tambem, de minha familia paterna, que imigrou de Portugal. Em vista disso, por situar esta pesquisa no ambito familiar, busco respaldo na autoetnografia, que se constitui um metodo qualitativo que abraca as reflexoes do pesquisador como objeto de estudo. Em uma concepcao autoetnografica, e possivel compreender o meio e os outros envolvidos por meio de um olhar sensivel para as minhas proprias subjetividades.

Segundo Ellis e Bochner (2000), a autoetnografia pode ser entendida como um genero autobiografico que conecta o pessoal e o cultural, objetivando requalificar a relacao entre objeto e observador ou entre participante e pesquisador, priorizando a interacao entre eles. Assim, a experiencia pessoal tem sua importancia ressaltada, sendo compreendida como construcao de conhecimento. O pesquisador pode, entao, ocupar o lugar da subjetividade, assumindo a impossibilidade de ser imparcial diante da vida social da qual e parte. Os autores acreditam que a autoetnografia possibilita uma serie de reflexoes significativas para o pesquisador e para o mundo, possibilitando ao autor transpor para seu estudo todas essas experiencias emocionais, revelando detalhes ocultos da vida privada. (ELLIS; BOCHNER, 2000). Esse entendimento permite, portanto, meu envolvimento enquanto pesquisadora, a inclusao de meus pensamentos e de minhas opinioes reflexivas diante do estudo em curso.

E preciso esclarecer, apesar disso, que este trabalho nao e um "escrever sobre si mesmo", mas sim uma reflexao que parte de experiencias pessoais, emocionais, sociais e discursivas (co)construidas sobre a sociedade, produzindo teorizacoes caras ao ambiente academico. Tambem considero pertinente ressaltar a importante reflexao sobre questoes eticas que perpassam este trabalho. Ellis e Bochner (2000) lembram que, a medida que uma narrativa pessoal e desenvolvida, o contexto e as pessoas que interagem com o participante comecam a surgir na pratica reflexiva.

Dessa forma, o consentimento dos participantes e fundamental, visto que nessas narrativas emergem questoes sensiveis, emotivas e de cunho particular. No presente estudo, ao olhar para uma interacao com minha mae, e possivel perceber a emergencia desses conteudos que podem, inclusive, deixar em situacao de vulnerabilidade a minha propria figura de pesquisadora, justamente por me situar como personagem da narrativa e, logo, como alvo da propria analise. Contudo, alem do consentimento de ambas as partes (participante e pesquisadora / mae e filha), reitero a honestidade com a qual os dados foram selecionados, transcritos e analisados, visto que nao ha a intencao, de me apresentar, nos dados, sob uma luz favoravel.

O encontro das interlocutoras com a obra literaria aconteceu no dia 02/05/16, na casa das participantes. Por motivos de nivel de letramento, Cassia, minha mae, ouviu a historia que foi lida por mim. Penso que esse movimento de escuta nao invalida a pratica social de leitura, pois, quando muito pequenos, nao alfabetizados, nos ouvimos historias de nossos pais e folheamos livros, ou seja, ja temos certo nivel de letramento literario (COSSON, 2014). Considerando o letramento em um continuo (SOARES, 1998, p. 70), acredito que contar a historia para minha mae foi um momento de pratica social de letramento literario critico, pois nossa discussao ao longo da leitura e posterior a ela, que gerou muitas narrativas, foi reflexiva.

O momento da leitura da obra foi realizado de forma dividida: a primeira parte a tarde, gerando o primeiro audio de 01:51:07s; e a segunda, a noite, gerando o segundo audio com 01:55:10s. Como eu esperava, Cassia produziu algumas narrativas sobre sua vida dificil na Paraiba, sua chegada ao Rio de Janeiro e tambem contou sobre como era ser nordestina e empregada domestica. No entanto, uma de suas narrativas, a que escolho para analisar neste trabalho, despertou minha atencao em particular. Diferente das demais narrativas em que contava esporadicamente um ou outro episodio de sua vida, minha mae organiza seu discurso de modo a contar toda sua trajetoria de vida a partir de uma dada perspectiva.

Essa narrativa em questao surgiu apos o termino da leitura da obra, enquanto conversavamos informalmente e de forma reflexiva sobre os acontecimentos que culminaram na morte de Macabea--personagem principal de Clarice Lispector em A hora da estrela -, se localizando, portanto, durante a interacao dos minutos 01:38:22s e 01:45:35s do segundo audio. Esse recorte de nossa interacao, que escolho para esta analise, encontra-se inteiramente transcrito (cf. Anexo I) a partir das convencoes baseadas nos estudos de Analise da Conversacao (cf. Anexo II).

Observo, na analise desta narrativa, a estrutura basica proposta por Labov (1972) e como Cassia transita pelo mundo dual da narrativa (BRUNER, 1997 [1990]). Por apresentar uma historia de vida, trago a perspectiva de Linde (1993) e discuto, brevemente, a concepcao de Bamberg e Georgakopoulou (2008) para as narrativas curtas e longas. Alem disso, relaciono a esse estudo a nocao de (co)construcao de identidade a partir de Mishler (2002) e dialogo com Goodwing (1984), que trata sobre "personagem principal", uma nocao de pesquisadora-personagem. Segundo Bastos e Biar (2015), a analise de narrativa fornece instrumental teorico-metodologico para observar o discurso em interacao, alem de ser util na medida em que promove um dialogo interdisciplinar, volta seu olhar para diversos atores sociais e em diversos contextos de producao, compreende o discurso narrativo como pratica social constitutiva da realidade, nega a possibilidade de identidades estereotipadas e gera maior compreensao dos processos de resistencia e de reformulacao identitaria (BASTOS; BIAR, 2015, p. 102-103).

2. Tinha uma cartomante e ela leu o meu futuro

Penso que a narrativa que escolhi para esta analise foi motivada pela contextualizacao feita pela leitura do livro, pela interacao comigo (filha da interlocutora Cassia) e por contar um evento ate entao desconhecido por mim (a ida a cartomante aos dez anos de idade). Essa configuracao e importante para a propria organizacao de seu relato. E por meio desse ponto que Cassia estrutura toda sua narrativa e e isso que torna sua historia extraordinaria--ela foi a uma cartomante, que e muito boa, e que acertou tudo em sua vida.

Os estudos da narrativa foram introduzidos na Sociolinguistica por Labov e Waletzky (1968) e Labov (1972), que priorizavam a estrutura e as caracteristicas formais. Segundo Labov (1972), a narrativa e um metodo para se recapitular uma experiencia passada e se constitui como uma combinacao de uma sequencia verbal de oracoes com uma sequencia de eventos. Essas narrativas representariam uma ordem cronologica dos eventos passados, possuindo uma correspondencia no "mundo real".

De acordo com Labov (1972), as principais caracteristicas de uma narrativa sao: (i) ter um ponto, uma razao de ser da propria narrativa; (ii) ser contavel, fazer referencia a fatos extraordinarios, nao comuns, indicando sua reportabilidade (eventos completamente previsiveis nao se prestam a serem narrados); e (iii) conter avaliacao, que indica o ponto. O autor tambem propoe uma estruturacao com elementos optativos e obrigatorios, que veremos com maiores detalhes a seguir. De acordo com Bastos e Biar (2015, p. 105), Labov convencionou o que chamamos, atualmente, de modelo canonico de narrativa.

Os estudos de Labov (1972) foram pioneiros, abrindo portas para as narrativas no campo da linguagem, e ainda influenciam muitas pesquisas que os utilizam para uma analise formal. Contudo, inumeras criticas sao feitas por serem estudos que tratam a narrativa de forma descontextualizada, o que limita sua forca analitica e seu potencial como locus privilegiado para entender o mundo (BASTOS, 2005, p. 77). Segundo Bastos (2005, p. 77), as criticas sao provenientes, alem do mais, pelo fato de o autor nao problematizar a relacao entre evento passado, memoria e narrativa, ou seja, ha a prevalencia de uma visao representacionista da narrativa. Apesar dessas criticas, o metodo de Labov (1972) ainda se mostra um recurso bastante util, como veremos nas analises, quando aliado a outras perspectivas de cunho Socioconstrucionista.

Em termos labovianos, minha mae produz uma narrativa canonica, com uma estrutura bem definida. E possivel observar a existencia de um narrador, que narra um episodio especifico, uma sequencia temporal organizada no passado e, ainda, ha um drama, um conflito evidenciado pelo episodio que desencadeia toda uma trajetoria de vida da interlocutora. Pretendo exemplificar e discutir, a seguir, a estrutura laboviana na narrativa produzida na interacao com Cassia no contexto de leitura da obra literaria.

O primeiro elemento proposto por Labov e o resumo, que e um elemento optativo, embora seja muito comum que as narrativas comecem por enunciados que a sumarizem. Em geral, segue-se ao resumo, uma orientacao que identifica os personagens, o tempo, o lugar e as atividades narradas. Isso e necessario a contextualizacao da sequencia de eventos, mas, para Labov (1972), esse tambem nao e um elemento obrigatorio e pode, inclusive, aparecer em outros momentos da narrativa. No fragmento 1, e possivel observar essa estrutura inicial que contem, alem do resumo e da orientacao, uma avaliacao.

A avaliacao, segundo Labov (1972), explicita o ponto de vista do narrador em relacao a narrativa, ou seja, comunica ao ouvinte a propria razao da narrativa, o seu ponto, o que justifica sua reportabilidade. No fragmento 1, e possivel perceber que Cassia avalia a cartomante antes mesmo de fechar o resumo do que vai ser narrado a seguir. Esse dado e importante, pois ao longo de toda a narrativa ha uma reiteracao de avaliacoes positivas em relacao a cartomante--uma afirmacao de que ela e muito boa. Cassia cria varios significados para a "cartomante boa". Comeca avaliando-a como uma pessoa que dividia comida com sua mae, uma pessoa de bom coracao, caridosa.

O fragmento 2 mostra que, ao longo na narrativa, na medida em que a cartomante acerta tudo na vida de Cassia, as avaliacoes sobre ela ganham significados ligeiramente diferentes. Ela continua sendo uma "cartomante boa", mas agora no sentido daquela que detem um dom divino, um saber oculto. Essa cartomante e muito boa no que faz, seu poder divinatorio e de outro mundo.

Para Labov (1972), a avaliacao pode ser feita de forma explicita, quando o narrador para o relato, como se fizesse um parentese, e da sua opiniao direta ou de forma implicita, quando o narrador usa estrategias, recursos expressivos que nao interrompem o fluxo dos eventos narrados. Cassia faz uso desses recursos, apresentando suas avaliacoes sempre de forma encaixada na narrativa. No fragmento 1, a avaliacao esta encaixada no meio do resumo e da orientacao, e acredito que ela aparece ja no inicio, pois e relevante para Cassia mostrar para mim seu entendimento sobre quem e a cartomante e seu relacionamento com ela.

E provavel que Cassia esteja (co)construindo, nesse momento, a propria identidade dessa cartomante. No fragmento 2, a avaliacao tambem aparece encaixada na acao complicadora, o que acontece com frequencia nessa narrativa. Minha mae reiteradamente avalia positivamente a cartomante. Ela afirma, no presente, que a "cartomante e foda", e vai ao passado, dizendo que "ela tinha muito (cliente)" e que "tudo que ela falava com as pessoas acontecia", logo ela e boa. Creio ser de suma importancia que Cassia continue avaliando reiteradamente a cartomante como boa para seu gran finale que e a resolucao, finalizada pela coda, como veremos a seguir.

O unico elemento obrigatorio da estruturacao proposta por Labov (1972) e a historia propriamente dita, chamada pelo autor de acao complicadora, que podemos chamar de parte minima da narrativa. Ela e constituida de oracoes narrativas ordenadas temporalmente e, em geral, com verbos no passado. O fragmento 3 exemplifica parte da longa sequencia de acao complicadora que aparece na narrativa de Cassia.

Estudos mais recentes problematizam a perspectiva laboviana, compreendendo a narrativa como uma recriacao ou reorganizacao da experiencia. Diferentemente de Labov, o entendimento Socioconstrucionista percebe que, quando contamos uma historia, podemos recriar nossas lembrancas e essa reinterpretacao discursiva muitas vezes passa a ser nossa memoria do que aconteceu (BASTOS, 2005).

Um dos autores que problematizou a perspectiva laboviana, na Psicologia Social, e Bruner. Para o autor (BRUNNER, 1997 [1990], p. 34), a vida humana e uma peca que ja esta em andamento com um enredo um tanto aberto que determina que papeis podemos desempenhar e em direcao a que desfechos podemos nos dirigir. Segundo a visao de Bruner (1997 [1990]), e a cultura, e nao a biologia, que molda a vida, que da significado a acao, ou seja, e a cultura que constitui a mente.

Entender o homem e compreender como suas experiencias e atos sao moldados por estados intencionais e como esses estados se realizam apenas por meio da participacao em sistemas simbolicos da cultura. O principio organizador desse sistema simbolico e a narrativa. Para Bruner (1997 [1990]), a narrativa e a linguagem que considera o particular e o simbolico, e a linguagem em que podemos interpretar os sentidos do mundo e de nos mesmos em uma logica nao formal. Dessa forma, a narrativa e mediadora entre o mundo canonico da cultura e o mundo dos nossos desejos e crencas.

Uma das caracteristicas observadas por Bruner (1997 [1990]) e a natureza dual das narrativas, cujo postulado mostra que as historias se passam em dois mundos: o mundo dos interlocutores, no qual a historia esta sendo contada, e o mundo da narrativa, que e o mundo dos personagens, onde a historia esta sendo relatada. Segundo o autor (BRUNER 1997 [1990], p. 51), eventos e acoes de um mundo real, que supomos verdadeiro, ocorrem concomitantemente com eventos mentais na consciencia do protagonista.

Sendo assim, e oportuno observar que Cassia recorre a um evento passado, que e o encontro com a cartomante aos 10 anos de idade, para reconstruir toda sua trajetoria de vida em um exercicio de reorganizacao de suas experiencias e memoria, indo desde seu passado, caminhando pelo presente e indo em direcao ao futuro. Sendo assim, durante a acao complicadora, para confirmar o acontecimento previsto pela cartomante, Cassia recorre ao mundo da interlocucao, mostrando o mundo dual da narrativa.

Por exemplo, no fragmento 4, Cassia conta que a cartomante previu que ela voltaria a estudar, fato que e narrado no mundo da narrativa. Em seguida, ela diz "voltei a estudar", que e um fato contextualizado no mundo das interlocutoras e que so pode ser confirmado como "real", pois a pesquisadora e filha de Cassia e compartilha desse conhecimento. Cassia faz esse movimento de sair do mundo da narrativa para o mundo da interlocucao com uma fala mais acelerada, utilizando, ainda, um sinal corporal que, sob meu ponto de vista, ratifica sua propria fala, confirmando o acontecimento da previsao da cartomante.

O proximo exemplo, no mesmo fragmento, e a passagem gradual do mundo da narrativa para o mundo das interlocutoras que Cassia faz ao falar da propria casa "nao ia ser feliz la nessa casa aqui" (cf. linha 114). Segundo a interlocutora, a cartomante previu que ela viveria em uma "casa grande", e que ela nao seria feliz "la". Cassia confirma a previsao e se localiza vivendo nessa casa, marcando o adverbio com funcao deitica "aqui", com uma enfase, e me interroga em uma pergunta retorica (cf. linha 114). Contudo, ela nao quer uma resposta se esta mesmo infeliz, pois a resposta ja e conhecida, ou seja, essa resposta e, na verdade, mais confirmacao da previsao da cartomante: uma inferencia contextual de sua infelicidade. Nesse momento, ela repete o sinal corporal que auxilia essa ratificacao.

Posteriormente, ela confirma novamente a previsao da cartomante, saindo do mundo da narrativa e indo ao mundo da interlocucao, por meio de uma pergunta retorica (cf. linha 118). Cassia so pode utilizar esse recurso porque eu compartilho do seu contexto de vida. Tambem acredito que essa confirmacao da previsao da cartomante que e contada no mundo da narrativa, por fatos que ocorreram no "mundo real", ou seja, no mundo da interacao e essencial para a (co)construcao do futuro realizada por Cassia e para que a voz da cartomante seja ratificada.

Segundo Labov (1972), a resolucao e a etapa de conclusao da serie de eventos que se da na acao complicadora e a coda e, por sua vez, a marcacao de que a narrativa acabou. Na narrativa de Cassia, e possivel observar a resolucao a partir da linha 118 (cf. fragmento 5), em que a interlocutora conclui os eventos da acao complicadora e (co)constroi seu futuro. Seu ponto, demonstrado nas avaliacoes, e de que a cartomante e boa e acertou tudo em seu futuro. Cassia ratifica todas as previsoes da cartomante na acao complicadora saindo do mundo da narrativa e indo ao mundo da interlocucao. Todo esse esforco para chegar a sua resolucao e transformar seu proprio futuro. Ela sera uma mulher prospera e, como sua cartomante nao erra, e muito boa, e quase certo que isso ocorrera. Essa resolucao esta ligada fortemente ao futuro de Macabea, interpretacao que ficara mais clara no item 5 deste trabalho, quando abordarei a (co)construcao identitaria pela diferenca. Na coda, Cassia fecha essa (co)construcao, dizendo que devemos esperar esse futuro.

Desde o seu resumo, Cassia entra em uma especie de congruencia com a obra literaria, recontextualizando a cartomante para tracar, em sua narrativa, toda uma trajetoria de vida que ira se desenvolver na historia propriamente dita, ou seja, na acao complicadora. De acordo com minha percepcao, esse movimento de reinterpretar a propria vida a partir de uma dada perspectiva, se aproxima da concepcao de Linde (1993) sobre historia de vida, que se refere ao que contamos sobre como nos tornamos e o que transmitimos ao outro para que saibam quem nos somos (LINDE, 1993, p. 20). Em alguma medida, a narrativa em questao tambem se afasta dessa perspectiva pois, para a autora (1993), as historias de vida sao as narrativas episodicas, que explicam, por exemplo, porque escolhemos determinado caminho profissional. Segundo Linde (1993), nos somos as narrativas que contamos sobre nos mesmos. Cassia nao conta um episodio especifico sobre sua vida, mas recontextualiza toda sua historia.

Linde (1993), que tambem amplia a perspectiva laboviana, argumenta que as historias de vida, ou as narrativas de experiencia pessoal, funcionam na criacao e manutencao de identidades. Estamos sempre negociando o sentido de nos mesmos, de nosso "self" com nossos interlocutores. Nos contamos sobre como nos tornamos aquilo que somos e transmitimos ao outro o que eles devem saber sobre nos para nos conhecerem (LINDE, 1993, p. 20).

Na narrativa em analise e possivel observar as duas caracteristicas basicas das historias de vida, segundo Linde (1993, p. 21): (i) ter um ponto sobre o falante, o ponto de Cassia--de que a cartomante contou toda a sua vida e e boa--na verdade, e um ponto sobre ela mesma e nao sobre o mundo em geral. E por meio desse ponto que ela reconstroi toda sua experiencia e refaz sua vida a partir do encontro com a cartomante, recriando um futuro de felicidade. E ainda por meio do ponto e das avaliacoes que Cassia (co)constroi sua identidade; (ii) ter reportabilidade estendida, que e a capacidade de a historia ser contada e recontada por um longo periodo de tempo. Na narrativa de Cassia e possivel ver essa caracteristica, visto que o evento passado (a ida a cartomante) gera determinado recorte, uma organizacao temporal de suas experiencias que podem ser recontadas e reorganizadas de outra forma. Em outro momento, fora da contextualizacao dada pela obra literaria e sem a interacao comigo, sua historia de vida seria contada de outra forma.

Para Linde (1993), a avaliacao e relevante na medida em que indica por que o narrador esta contando determinado fato e pode revelar uma atitude ou uma crenca em relacao aos fatos. Para a autora (LINDE, 1993, p. 81), "a narrativa e uma apresentacao de si mesmo, e o componente avaliativo, em particular, estabelece o tipo de eu que e apresentado". Na narrativa de Cassia, como mostrei, as avaliacoes sao direcionadas a cartomante, que e o ponto da historia. Entretanto, penso que essa nao e uma avaliacao externa, sobre o mundo, mas e, na verdade, uma ratificacao da voz da cartomante que e sua possibilidade de (co)construcao de uma nova vida. O fato de a cartomante ser boa e a acertar seu futuro e crucial para a resolucao e a coda, como dito anteriormente, e para a (co)construcao dessa nova identidade de uma mulher prospera em rumo a felicidade.

3. No meio da historia tinha uma historia

Outro estudo que amplia a contribuicao de Labov (1972) e problematiza as suas concepcoes realistas/representacionista e o de Bamberg e Georgakopoulou (2008), que passam a incluir, sob o escopo de analise, segmentos nao canonicos, as chamadas "narrativas breves" ou "curtas". Para os autores (BAMBERG; GEORGAKOPOULOU, 2008, p. 381), as narrativas breves sao um termo guarda-chuva que abrigam uma gama de atividades narrativas, como as narrativas de acontecimentos em curso, narrativas hipoteticas, alusoes a eventos conhecidos pelo interlocutor, adiamentos de relatos e ate recusas a narrar.

Segundo Bastos (2008, p. 77), ha uma grande discussao em torno da oposicao entre as narrativas longas, que geralmente, emergem em entrevistas e sao as mais canonicas nos estudos sociologicos e antropologicos, e as breves que sao as narrativas produzidas em um evento especifico, em diferentes situacoes da vida social. Essas historias, prototipicamente curtas em sua extensao, podem contar sobre um momento muito recente ou sobre um momento em desenvolvimento, o que nos leva a uma necessidade de compartilhar o que acabou de acontecer. Segundo Bamberg e Georgakopoulou (2008), as narrativas breves podem nos ajudar na elaboracao de algum ponto argumentativo sobre a conversa. Logo, os autores se preocupam com a emergencia de identidades no contexto de utilizacao dessas pequenas historias, ou seja, eles observam sua emergencia situacional e contextual.

Na interacao informal com Cassia, contextualizada pela leitura da obra literaria, vimos a producao de uma narrativa longa, bastante canonica em sua forma. Contudo, no meio dessa narrativa, enxergo a emergencia de duas narrativas breves, encaixadas (cf. fragmento 6).

Essas narrativas (a primeira sobre os filhos da cartomante e a segunda sobre pegar manga em um sitio), apesar de serem breves e encaixadas na narrativa longa, me parecem possuir mais caracteristicas da narrativa canonica do que da narrativa breve de Bamberg e Georgakopoulou (2008). Elas possuem organizacao temporal, reconstrucao de eventos passados e estao conectadas com a historia principal, que e a trajetoria de vida de Cassia. Observando a estrutura basica da narrativa (LABOV, 1972), vejo que ha apenas acao complicadora e orientacao. O momento de avaliacao "ai ela falou tudo" refere-se a cartomante e a trajetoria de vida como um todo. No entanto, acredito que essas narrativas breves, consideradas como um todo, podem ter duas funcoes: a primeira de orientacao e a segunda de avaliacao.

Como podemos observar, na primeira narrativa breve ha bastante orientacao. Se considerarmos a narrativa como um todo, ela pode servir para orientar a trajetoria de vida que sera construida (e importante notar que as duas narrativas breves estao localizadas ainda no comeco da longa narrativa), explicando melhor quem e a cartomante e seus familiares, de onde veio essa relacao, o ambiente em que elas viviam e como elas eram proximas. Cassia fala aqui de localizacao geografica, espaco fisico, relacoes de proximidade e o que acontecia nesse tempo.

Tambem considero que essas narrativas funcionam como avaliacao, ou seja, como um posicionamento de Cassia, reforcando seu ponto de que a cartomante e boa. Quando um homem pergunta "que que ta fazendo ai?", e ela explica que esta pegando manga para a cartomante, fazendo com que ele mude de posicionamento (de questionador para aquele que da permissao), me parece que Cassia avalia, de forma implicita, a cartomante como uma mulher boa e influente no contexto em que elas viviam, uma mulher amiga de todos. Sendo assim, podemos considerar que ela conta uma pequena narrativa de sua relacao de proximidade com a cartomante para avalia-la. O que pode corroborar essa interpretacao e o fato de Cassia reiteradamente avaliar a cartomante de forma positiva, o que e essencial para sua construcao identitaria e para a construcao de seu futuro.

E relevante observar que, alem de mostrar caracteristicas canonicas, a primeira narrativa, de certa forma, foge ao padrao da narrativa prototipica. No momento que chamo de acao complicadora, Cassia insere um enunciado hipotetico "quando eu for la pro norte eu vou procurar a girlene". Depreendo que esse topico faz parte da pequena historia, quando ela me conta quem sao os filhos da cartomante, o que faz ela se posicionar em uma possivel busca por essa pessoa que era sua amiga. Creio que essa construcao nao esta desvinculada de sua reconstrucao das experiencias passadas que a faz projetar seu futuro.

4. Construcao pela diferenca

Como ja dito anteriormente, a narrativa e um modo de organizar a experiencia, por meio de nossas praticas sociais. O ato de contar historias nos permite agir sobre o mundo e uma dessas formas de acao e construir nossas proprias identidades, entendidas aqui como uma construcao social, dinamica e interpretativa (BASTOS, 2005). Segundo Bastos (2008, p. 77), quando criamos cenarios, personagens e sequencias de acoes, nos nos posicionamos, sinalizando quem somos. Dessa forma, as narrativas podem ser entendidas como performances de identidades (MISHLER, 2002).

Mishler (2002) e outro estudioso que trata sobre construcao de identidade na narrativa. O autor (MISHLER, 2002) compreende identidade como "praxis" e refere-se a posicao dupla do individuo: aquele que atua no mundo e aquele que, reflexivamente, responde a esse mundo. Identidade e uma performance situada na pratica social. Segundo Mishler (2002), a memoria e reescrita na narrativa, e quando recontamos historias, representamos nossas identidades. O autor (MISHLER, 2002) tambem explora as funcoes da ordem temporal em narrativas, fazendo uma distincao entre tempo cronologico e tempo experiencial (BASTOS; BIAR, 2015, p. 101).

Percebi ao longo de toda a interacao, e na producao de outras narrativas, que Cassia se constroi pela diferenca de Macabea. Isso pode ser observado tambem nesta narrativa. Nossa interacao comeca com uma reflexao sobre o tragico futuro de Macabea (cf. fragmento 7). Cassia afirma nao ter gostado do final do livro que culmina com a morte da personagem, pois ela gostaria que Macabea tivesse um futuro (cf. linhas 3 a 5). Eu retruco que Macabea teve um futuro dado pela cartomante (cf. linhas 8, 11 e 12) e Cassia discorda, dizendo que foi um futuro da morte (cf. linha 7).

Esse descontentamento inicial com o (nao) futuro de Macabea e fundamental para compreender como Cassia, em (co)construcao comigo, tenta se distanciar da personagem de Clarice Lispector. Da mesma forma que Macabea, Cassia consultou uma cartomante, todavia o que aconteceu (e o que vai acontecer) com ela e diferente do que aconteceu com a personagem da obra de Lispector. Sendo assim, acredito que o ponto da narrativa em analise Cassia foi a uma cartomante e ela era muito boa--e uma (co)construcao identitaria que a diferencia da personagem principal da ficcao.

E possivel observar essa (co)construcao identitaria pela diferenca nas avaliacoes que Cassia promove. No fragmento 8, Cassia avalia sua propria cartomante positivamente, pois ela tem o "dom do divino" em contraposicao a uma avaliacao negativa de uma "cartomante fuleira". O pronome demonstrativo "essas", em meu entendimento, faz mencao nao a qualquer cartomante, de forma generalizada, mas a cartomante de Macabea que errou. Nesse caso, o contexto e fundamental para compreender o surgimento dessa narrativa e os movimentos que Cassia promove para se construir como uma mulher com um futuro "prospero", em suas proprias palavras.

Cassia possui uma cartomante que acerta, diferente da cartomante de Macabea que erra, e, apesar das avaliacoes negativas que ela da sobre sua propria vida, no futuro ela ficara bem, como e possivel observar na resolucao (cf. fragmento5) em que ela refaz seu proprio futuro. Sua cartomante e uma voz do divino, ou seja, e uma voz de autoridade, o que fara a vida de Cassia dar certo no futuro, mesmo que nem ela nem a propria cartomante saibam como. Sua coda (cf. fragmento5) e quase uma certeza de que a cartomante, que ja acertou tudo em sua vida como vimos ao longo na narrativa, vai acertar seu futuro, transformando-a para sempre, e colocando-a no caminho da prosperidade e da felicidade plena.

Segundo Ricoeur (1980), o final da historia possui uma funcao primordial no processo de todo o enredo, que estabelece a acao humana nao apenas no ambito do tempo, mas tambem no da memoria. Toda a narrativa, para o autor, e governada pelo modo como termina, ou seja, os enredos sao governados pelas suas finalizacoes, mostrando a "mao dupla do tempo" (MISHLER, 2002, p. 104). Essa concepcao leva Mishler (2002) a pensar em um modelo de tempo narrativo e nao cronologico da narrativa para entendermos como os individuos agem no presente em direcao a um futuro desejavel ou para longe de um futuro indesejavel.

O que Mishler (2002) chama de "mao dupla do tempo" e uma alternativa para reinterpretacao dos significados dos eventos passados, em que o interlocutor pode redefinir quem e e revisitar o proprio enredo de sua vida. Para o autor (MISHLER, 2002, p. 105), "o passado nao esta gravado em pedra, e o significado dos eventos e experiencias esta constantemente sendo reenquadrado dentro dos contextos de nossas vidas". Sendo assim, e possivel dizer que nossa memoria e reescrita na narrativa e que reescrevemos nossas identidades a partir do modo como nos representamos em nossas historias pessoais.

Para Mishler (2002, p. 106-107), sao recorrentes nas narrativas de historias de vida os "pontos de virada", que sao eventos modificadores da compreensao sobre determinada experiencia passada. Esses eventos levam a um novo senso de si mesmo e a mudancas que trazem consequencias para a maneira como o interlocutor se sente e para as coisas que faz. Segundo o autor (MISHLER, 2002, p. 110), os pontos de virada, ainda, constituem uma caracteristica geral de nossas multiplas identidades. Essa ressignificacao de uma experiencia passada, i.e, os pontos de virada, levam a uma re-historizacao do passado e a adocao de uma identidade que muda o significado das relacoes passadas (MISHLER, 2002, p.108). Minha mae, ao me contar seu encontro com a cartomante, recontextualiza seu passado, reconstruindo suas memorias e reescrevendo a propria vida. Ela atribui significado para o que vive em seu presente e (co)constroi seu futuro, que sera diferente do destino da personagem literaria--uma identidade construida pela diferenca.

Quando reconstroi seu presente, Cassia assume uma identidade de mulher infeliz, que de certa forma se cola a Macabea. Entretanto, percebo seu ponto de virada, construido, discursivamente, em seu futuro (cf. fragmento 5, linhas 118 a 124) que e realizado no passado, pela cartomante--e a cartomante que lhe diz que seu futuro sera prospero. Ou seja, em minha percepcao, Cassia da inicio a toda essa narrativa para se afastar da personagem da obra de Clarice Lispector, recontextualizando suas proprias memorias, construindo um futuro diferente.

O evento desencadeado pelo passado, que e a previsao da cartomante, se cumprira no futuro, e ela se tornara, enfim, uma mulher "bem de vida". E possivel, nessa analise, observar a "mao dupla do tempo": Cassia retorna a um evento no passado distante, quando tinha apenas dez anos de idade, para reconstruir seu passado mais recente, seu presente e o futuro. Em meu olhar, seu ponto de virada nao e o acontecimento passado, mas a (co)construcao de seu futuro, em que recontextualiza sua propria vida, reenquadra sua historia no contexto de um novo final, revisando tambem sua identidade, isto e, ela nao sera mais uma mulher infeliz, mas sim uma mulher feliz e prospera.

5. Pesquisadora-personagem

O que pretendo mostrar neste trabalho e que a interacao entre a pesquisadora, a participante e a obra literaria foi, em varios sentidos, uma via de mao dupla. Eu nao apenas ouvi a historia, mas faco parte dela, afinal a participante Cassia e minha mae, o que reforca o aspecto autoetnografico desta analise ao requalificar a relacao entre objeto e observador, como propoem Ellis e Bochner (2000). Segundo Goodwing (1984, p. 237), em uma analise semelhante, em que um dos interlocutores se torna o personagem principal da historia, esse participante nao precisa ouvir o que esta sendo dito para saber sobre os eventos descritos. Na narrativa em analise, na qual eu sou personagem da vida de Cassia, a partir do meu nascimento, e interessante notar que ela fornece orientacoes adicionais (cf. linhas 57 a 60 do fragmento 9) sobre fatos que ocorreram antes de minha chegada ao mundo e cujo conhecimento eu nao compartilho, como a perda de seu primeiro filho.

Na sequencia abaixo (cf. fragmento 9), Cassia diz que "ia ter uma filha so" e que "ia perder uma crianca" e retorna ao mundo da interlocucao, da mesma forma como o faz em toda a narrativa para ratificar a previsao da cartomante, mostrando o mundo dual da narrativa (BRUNER, 1997 [1990]). Em seguida, como nao compartilho esse conhecimento, ela da uma explicacao adicional, que entendo aqui como uma orientacao sobre o que aconteceu, por que aconteceu, onde aconteceu e que pessoas estavam envolvidas.

De acordo com Goodwing (1984, p. 237), o fato de compartilhar significados sobre os eventos descritos nao libera o ouvinte de sua tarefa, pois o mais primordial nao sao os fatos narrados, mas a maneira como eles sao representados. Ou seja, mesmo que eu compartilhe da historia de vida de minha mae, o modo como ela narra e unico e entender como eu participo dessa narrativa se faz relevante. Sendo assim, e necessario compreender como eu me constituo personagem de sua historia. Na linha 61 (cf. fragmento 9), Cassia organiza seu discurso mostrando mais uma previsao da cartomante, de que ela teria "UMA FILHA". Em seguida, na linha 62 (cf. fragmento 9), ela liga essa "filha" do mundo da narrativa a mim, por meio do pronome de tratamento deitico "voce", ratificando, mais uma vez, a previsao da cartomante como um acerto e me transformando em personagem da narrativa.

Goodwing (1984, p. 237), mostra que o personagem principal pode ser confrontado com a tarefa de estar disponivel em um determinado lugar na historia e ter o seu comportamento organizado a partir de outros participantes. Talvez, me observar como personagem em uma historia alheia gere algum descoforto e constrangimento. E notavel que eu tomo o turno e interpelo Cassia justamente quando ela esta falando sobre essa filha, que, como ja sabemos, se trata de mim (cf. fragmento 10). Quando ela retoma o turno da interacao, o encadeamento da historia ja e outro e, me parece que, de alguma forma, eu tentei, de forma inconsciente, tirar o foco da atencao sobre mim mesma.

Consideracoes finais

"Se esta historia nao existe, passara a existir", como disse Rodrigo, o narrador ficticio de Clarice Lispector em A hora da estrela. Todas as historias passam a existir no momento em que sao (co)construidas no aqui e agora. E essas mesmas historias existem muitas vezes, sempre que as contamos, das diferentes formas que as contamos. E certo que Cassia provavelmente ja contou e contara novamente sua historia de vida muitas e muitas vezes, contudo o modo de organizacao desse discurso, nesse dado momento, proporcionado pela interacao comigo e com a obra literaria foi unico, criando um contexto para a (co)construcao da narrativa analisada.

Quando lemos uma obra literaria podemos recontextualizar nossas proprias historias, (co)construir identidades e interagir com o mundo. E assim o fez Cassia: ao entrar em contato com a obra de Lispector ela reconfigurou sua propria historia de vida e se tornou autora do passado, do presente e do que vira no futuro. Mesmo colocando sua sorte nas maos da cartomante, percebi em Cassia uma (co)construcao identitaria pela diferenca. Uma nao aceitacao do destino da personagem ficticia da obra literaria a fez querer mudar o seu proprio futuro discursivamente. Sua cartomante, que e diferente da cartomante de Macabea, e uma cartomante que acerta e, dessa forma, e certo que ela se transformara em nova mulher. Cassia narra uma trajetoria de vida rumo a felicidade plena.

Em toda essa reconstrucao feita por Cassia, capto a importancia da literatura como pratica social, como possibilidade de reinterpretacao de nos mesmos e do mundo que nos cerca; como possibilidade de reflexao critica e de producao de um pensamento reflexivo sobre si mesmo e sobre o mundo. O movimento que Cassia faz por meio da leitura e de nossa conversa informal e a propria reflexao sobre a obra e reinterpretacao de si mesma, recontando sua trajetoria a partir de um ponto de contato com a historia--o encontro com a cartomante. Isso passa a ser o ponto de sua narrativa--sua cartomante era muito boa e acertou tudo em sua vida. Cassia faz um exercicio de memoria, ao (co)construir a propria de vida, revisando suas experiencias, baseando-se em um encontro com a obra literaria.

Tambem e proveitoso, neste momento de conclusao, expressar o quao genuino e poderoso foi, para mim, me colocar no papel de ouvinte a partir de uma perspectiva de pesquisa autoetnografica. Sendo assim, nao me tornei um "ouvinte recipiente" ou um pesquisador que nao se inclui na pesquisa, mas, sim, uma interlocutora que escuta verdadeiramente o que o outro tem a narrar. Todos somos autores de pequenas historias. Todos os dias temos algo muito importante para contar, quando chegamos em casa do trabalho ou da escola, sejamos adultos ou criancas, e sabemos como fazer isso discursivamente. E essa e a grande maravilha de estudar o discurso em sociedade.

Referencias

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BASTOS, L. C. Diante do sofrimento do outro--Narrativas de profissionais de saude em reunioes de trabalho. Calidoscopio, v. 6, n. 2, p. 76-85. 2008.

--. Contando historias em contextos espontaneos e institucionais--uma introducao ao estudo da narrativa. Calidoscopio, v. 3, n. 2, p.74-87. 2005.

--.; BIAR, L. de A. Analise de narrativa e praticas de entendimento da vida social. DELTA, v. 31, n. spe, p. 97-126, 2015.

BRUNER, J. S. [1990] Atos de Significacao. Porto Alegre: Artes Medicas, 1997.

COSSON, R. Letramento literario: teoria e pratica. 2. ed. Sao Paulo: Contexto, 2014.

DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. 2. ed. Porto Alegre: ARTMED, 2006.

ELLIS, C.; BOCHNER, A. P. Autoethnography, personal narrative, reflexivity: Researcher as subject. In: DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. (Eds.). Handbook of qualitative research. London: Sage, 2000.

GOODWIN, C. Notes on story structure and the organization of participation. In: J.M. ATKINSON e J. HERITAGE (Eds.), Structures of social action. Cambridge: Cambridge University Press, 1984.

LABOV, W.; WALETZKY, J. Narrative analysis: oral versions of personal experience. In: HELM, J. (Ed.) Essays on the verbal and visual arts. Seattle: University of Washington Press, 1967.

--. Language in the inner city: studies in the Black English Vernacular. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1972.

LINDE, C. Life stories: the creation of coherence. New York: Oxford University Press, 1993.

LISPECTOR, C. [1977] A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

MISHLER, E. Narrativa e identidade: a mao dupla do tempo. In: MOITA LOPES, L. P.; BASTOS, L. C. (Eds.). Identidade--recortes multi e interdisciplinares. Campinas: Mercado de Letras, 2002.

RICOEUR, P. Narrative time. Critical Inquiry, Chicago Journals, v. 7, n. 1, p. 169-190, 1980.

SOARES, M. Letramento: um tema em tres generos. Sao Paulo: Autentica, 1999.

ANEXO I
Transcricao

1     Cassia   vai dormir que voce ta com o olhinho ja vermelho pra
2              dormir ... "vou escovar o dente de noite pra mim dormir
3              entendeu" ... MAS eu nao gostei porque ela devia-ela
4              morreu eu queria que ela tivesse dado um futuro melhor
5              pra ela . . . ter casa::do
6     Odete    MAS a:: cartomante deu um futuro ne,
7     Cassia   deu o futuro da morte pra ela
8     Odete    NAO A CARTOMANTE deu um futuro brilhante pra ela
9     Cassia   ela virou estrela morreu virou estrela ne hehehe
10             brilhante o que? virou estrela ne ... [morreu virou
               estrela]
11    Odete    [nao a cartomante deu] um futuro mas ela nem aproveitou
12             ne ela atravessou a rua e,
13    Cassia   acho que ela nao folhou jo fsinal ffechado ...
               "entendeu"
14    Odete    assim eu eu acho que:: ... a intencao e-era de fato
15             mostrar que a personagem tinha uma vida totalmente
               miseravel,
16    Cassia   e
17    Odete    e:: quando ela tinhaa a a possibilidade de[:: ...]
18    Cassia   [ter uma vida melhor]
19
20    Odete    u::ma::
21    Cassia   uma vida digna [uhum]
22    Odete    [mas que] mas que e uma possibilidade de sonho ne
23             [porque ...]
24    Cassia   [de sonho]
25    ODETE    a cartomante e um,
26    Cassia   e um sonho
27    Odete    nao e uma possibilidade real ne sei la ela nao nao nao
28             ganhou:: ... nao ganhou ... um emprego melhor nao e uma
29             mudanca [real]
30    Cassia   [dete] olha ne mas- a- ... tinha uma cartomante
31             ... la ... la em cuite que se dava com a minha mae ela
32             era boazinha ... quando a gente nao tinha comida ela
33             dividia as coisas com a minha mae "(era) cartomante
34             ela" ... e ela leu o meu futuro ...
35    Odete    uhum
36    Cassia   e deu certo.
37    Odete    o que?
38    Cassia   ="entendeu?" ... que eu ... ia morar com homem depois
39             de muito tempo quase trinta anos ... um homem branco
40             familia de fora portugues nao do brasil ... que eu ia
41             morar em um quarto em um lugar pequeno nao ia ser rica
42             ia morar em um lugar pequeno ... ela contou toda a
43             minha vida ela botou carta pra mim mesmo dona maria
44             cartomante tinha a girlene e tinha o valdir ela deve
45             ter-esses meninos nem sei se estao vivos moravam em
46             cuitegi depois eles foram morar em campina grande ela
47             mudou ... quando eu for la pro norte eu vou procurar a
48             girlene era amiga minha e amiga da nazare ... ai ela
49             falou tudo eu ia pra-eu saia de cuite pra guarabira a
50             pe com ela que ela ia botar carta la pro pessoal ai no
51             caminho tinha um sitio la de um conhecido dela e a
52             gente pegava manga ... e ela ela dava pegar manga la no
53             sitio do homem pra comer ... uma vez estava pegando
54             manga e >o homem ele o moco< falou "que que ta fazendo
55             ai?" vim pegar manga que a dona maria cartomante mandou
56             pegar "ah:: ta:: minha amiga pode levar as mangas pra
57             ela" ... ai ela falou ... que eu ... ia ter uma filha
58             soia perder uma crianca ... e perdi uma crianca do teu
59             pai ... nos perdemos o primeiro filho dele ia perder ia
60             abortar eu estava com uma feridinha no colo do utero
61             tperdi ... ai fiz uma coletagem la na policlinica pagou
62             teu pai ... e <de>pois do tratamento eu ia ter um UMA
63             FILHA ... uma filha e que eu ia viver com esse homem
64             ate voce ficar maior de idade ... lembro de tudo isso
65             ... entendeu? ... QUE IA TER UMA MULHER que ia
66             atrapalhar muito nossa vida que eu deixar ele ... tudo
67             isso ... QUE QUE voce ta fazendo ai ah ta e o negocio
68             pensei que estava arrancando a porta deixa ele tirar
69             ((interrupcao do gato)) ... que ia atrapalhar muito a
70             minha vida hum ... MAS ... que essa pessoa ia morar em
71             outro lugar que ia se arrepender de ter me deixado e
72             ter ficado com a outra e aconteceu seu pai arrependeu
73             ... tudo MENINA ela ficou mais de uma hora conversando
74             comigo minha vida ... tinha dez anos isso hein ... tem
75             cartomante que sabe mesmo ela tem o dom que tem gente
76             que tem o dom do divino la de cima que nasce o dom com
               a pessoa ... nao e essas cartomante fuleira nao SAI DAI
               de cima das minhas coisas para com isso ((interrupcao
               do gato))
77    Odete    esse gato atrapalhando ... a minha narrativa
78    Cassia   e
79    Odete    rummm ((tom de brincadeira))
80    Cassia   =e:: e ... que ele ... e que ele ia morar num lugar e
81             ia morar em outro lugar e eu ia conhecer outro cara que
82             eu ia morar ... que esse cara era casado ... que eu ia
83             morar com esse cara e depois eu ia me arrepender que
84             esse cara nao ia ser um bom marido para mim eu nunca
85             dei importancia para isso ... O ... tudo ... e dep-e
86             que o teupai que eu nem sabia que eu ia ter ... que::
87             ... voce ia ser descendente de gente de fora ... <tua
88             vo e teu pai era portugues> ... entendeu? ... tudo
89             ligou um dia desses eu estava lembrando eu estava
90             lembrando de tudo que teu pai ia morrer so no
91             apartamento ia morar so e ia morrer so e que a outra ia
92             ficar so perturbando e so pegar o dinheiro do cara
93             queria so dinheiro do cara ... esse dinheiro do meu ex-
94             marido ... e que ele ia morar so e que ele ia morrer
95             quase com oitenta anos ... dito e feito quase oitenta
96             anos ... essa mulher vou te contar dona maria
97             cartomante e foda ... entendeu? ... que:: eu tin-eu ia
98             ter uma filha que ia ser professora ... <impressionante
99             professora> ... entendeu? ... que nao ia-que no momento
               nao ia casar com ninguem ia morar com um homem com um
               rapaz ... esta morando com um rapaz[hehehe]
100   Odete    [ela]
101            falou isso tudo quando voce tinha DEZ anos de [idade?]
102            ((com tom risonho))
103   Cassia   =[dez anos]
104            de idade [dez anos de idade] o pessoal gostava muito dela
105   Odete    [po::]
106   Cassia   ela tinha muito (cliente) tudo que ela falava com as
107            pessoas acontecia ... entendeu? ... e QUE EU ... nao ia
108            tambem futuramente viver com esse cara que eu ia voltar
109            a estudar >voltei a estudar< ((faz sinal, trazendo a
110            mao do ombro para a frente do corpo, apontando para o
111            chao, como se estivesse ratificando a propria fala))
112            ... que eu ia morar em uma casa muito grande morava em
               um quartinho mas depois ia morar em uma casa tgrande
113            ... mas eu tambem nao ia ser feliz la nessa casa aqui
114            estou sendo feliz aqui? ((faz sinal, trazendo a mao do
115            ombro para a frente do corpo, apontando para o chao,
116            como se estivesse ratificando a propria fala)) ... que
117            eu nao ia ser feliz com esse cara ... E EU TO SENDO?
118            ... nao |to ... entende? ... MAS no futuro que eu ia
119            ser uma mulher bem pros-pro-pro-
120   Odete    prospera
121   Cassia   prospera ... que eu ia ter o dom nao sei como ela falou
122            que nao sabe que eu ia ser bem de vida muito bem de
123            vida nao que esse cara ia fazer eu bem de vida ... mas
124            que ia ter muita sorte ... vamos esperar ne


ANEXO II
Convencoes de transcricao (2)

...            Pausa nao medida
.              Entonacao descendente ou final de elocucao
?              Entonacao ascendente
,              Entonacao de continuidade
-              Parada subita
=              Elocucoes contiguas, enunciadas sem pausas entre elas
sublinhado     Enfase
MAIUSCULA      Fala em voz alta ou muita enfase
"palavra"      Palavra em voz baixa
>palavra<      Fala mais rapida
<palavra>      Fala mais lenta
::             Alongamentos
[              Inicio de sobreposicao
]              Termino de sobreposicao
( )            Fala nao compreendida
(( ))          Comentario do analista, descricao de atividade nao oral
"palavra"      Fala relatada, reconstrucao de dialogo
hh             Aspiracao ou riso
[up arrow]     Subida de entonacao
[down arrow]   Descida de entonacao


Data de envio: 25/06/2017

Data de aceite: 18/02/2018

Data da publicacao: 15/08/2018

Odete Firmino Alhadas Salgado (PUC-RIO)

(1) O presente trabalho e um recorte de minha pesquisa de doutoramento ainda em curso.

(2) Convencoes baseadas nos estudos de Analise da Conversa (SACKS; SCHEGLOFF; JEFFERSON, 1974), incorporando simbolos sugeridos por Schifrin (1987) e Tannen (1989), apud Bastos e Biar (2015).
Fragmento 1

30   Cassia   [dete] olha ne mas-a- ... tinha uma cartomante
31            ... la ... la em cuite que se dava com a
32            minha mae ela era boazinha ... quando a gente
33            nao tinha comida ela dividia as coisas com a
34            minha mae "(era) cartomante ela" ... e ela
              leu o meu futuro ...

30   Resumo
31   a:/Avaliacao
32   Avaliacao
33   Aval./Orientacao/Res.
34   Resumo

Fragmento 2

34    Cassia   anos ... dito e feito quase oitenta anos ...
95             essa mulher vou te contar dona maria
96             cartomante e foda ... entendeu? ... que:: eu
97             tin-eu ia ter uma filha que ia ser professora
SB             ... impressionante professora ... entendeu?
S3             ... que nao ia-que no momento nao ia casar
               com ninguem ia morar com um homem com um
               rapaz . . . esta morando com um rapaz
               [hehehe]
100   Ode te   [ela] falou isso tudo quando voce tinha DEZ
101            anos de [idade?] ((com tom risonho})
102
103   Cassia   = [dez anos] de idade [dez anos de idade] o
104            pessoal gostava muito dela
105   Odete    [po::]
106   Cassia   ela tinha muito (cliente) tudo que ela falava
107            com as pessoas acontecia ... entendeu? ... e
               QUE EU ... nao ia

34    Acao complicadora
95    / Avaliacao
96
97
SB
S3

100
101
102
103
104
105
106   Avaliacao/ Acao
107   complicadora

Fragmento 3

38   Cassia   ="entendeu?" ... que eu ... ia        Acao complicadora
39            morar com homem depois de muito
40            tempo quase trinta anos ... um
41            homem branco familia de fora
42            portugues nao do brasil ... que eu    Avaliacao
              ia morar em um quarto em um lugar
              pequeno nao ia ser rica ia morar em
              um lugar pequeno ... ela contou
              toda a minha vida ela botou

Fragmento 4

108   Cassia   tambem futuramente viver com esse     Acao complicadora
109            cara que eu ia voltar a estudar
110            >voltei a estudar< ((faz sinal,
111            trazendo a mao do ombro para a
112            frente do corpo, apontando para o
113            chao, como se estivesse ratificando
114            a propria fala}} ... que eu ia
115            morar em uma casa muito grande
116            morava em um quartinho mas depois
117            ia morar em uma casa grande ... mas
118            eu tambem nao ia ser feliz la nessa   Resolucao
               casa aqui estou sendo feliz aqui?
               ((faz sinal, trazendo a mao do
               ombro para a frente do corpo,
               apontando para o chao, como se
               estivesse ratificando a propria
               fala)) ... que eu nao ia ser feliz
               com esse cara ... E Eu TO SENDO?
               ... nao fto ... entende? ... MAS no

Fragmento 5

118   Cassia   ... E EU TO SENDO? ... nao tto ...    Resolucao
119            entende? ... MAS no futuro que eu
               ia ser uma mulher bem pros-pro-
               pro-

120   Odete    prospera

121   Cassia   prospera ... que eu ia ter o dom      Coda
122            nao sei como ela falou que nao sabe
123            que en ia ser bem de vida muito bem
124            de vida nao que esse cara ia fazer
               eu bem de vida ... mas que ia ter
               muita sorte ... vamos esperar ne

Fragmento 6

43   Cassia   carta pra mim mesmo dona maria        Acao complicadora
44            cartomante tinha a qirlene e tinha
45            o valdir ela deve ter-esses meninos   Orientacao
46            nem sei se estao vivos moravam em     Acao complicadora/
47            cuitegi depois eles foram morar em    Orientacao
48            campina grande ela mudou ... quando   Avaliacao/
43            eu for la pro norte eu vou procurar   Orientacao
50            a girlene era amiga minha e amiga
51            da nazare ... ai ela falou tudo eu
52            ia pra-eu saia de cuite pra           Acao complicadora
53            guarabira a pe com ela que ela ia
54            botar carta la pro pessoal ai no
55            caminho tinha um sitio la de um
              conhecido dela e a gente pegava
              manga ... e ela ela dava pegar
              manga la no sitio do homem pra
              comer ... uma vez estava pegando
              manga e >o homem ele o moco< falou
              "que que ta fazendo ai?" vim pegar
              manga que a dona maria cartomante
              mandou pegar "ah:: ta:: minha amiga
              pode levar as mangas pra ela" ...
              ai ela

Fragmento 7

3    Cassia   ... MAS eu nao gostei porque ela devia- ela morreu eu
4             queria que ela tivesse dado um futuro melhor pra ela ...
5             ter casa::do
6    Ode te   MAS a:: cartomante deu um futuro ne.
7    Cassia   deu o futuro da morte pra ela
S    Ode te   NAO A CARTOMANTE deu um futuro brilhante pra ela
S    Cassia   ela virou estrela morreu virou estrela ne hehehe
10            brilhante o que? virou estrela ne ... [morreu virou
              estrela]
11   Ode te   [nao a cartomante deu] um futuro mas ela nem aproveitou
12            ne ela atravessou a rua e,

Fragmento 8

72   Cassia   ... tinha dez anos isso ... tem       Avaliacao
73            cartomante que sabe mesmo ela tem o
74            dom que tem gente que tem o dom do
75            divino la de cima que nasce o dom
              com a pessoa ... nao e essas
               cartomante fuleira nao SAI DAI de
              cima das minhas coisas para com
              isso

Fragmento 9

56   Cassia   falou ... que eu ... ia ter uma       Acao complicadora
57            filha so ia perder uma crianca ...    Orientacao
53            e perdi uma crianca do teu pai ...
59            nos perdemos o primeiro filho dele
60            ia perder ia abortar eu estava com    Acao complicadora
61            uma feridinha no colo do utero
62            perdi ... ai fiz uma coletaqem la
              na policlinica paqou teu pai ... e
              depois do tratamento eu ia ter um
              UMA FILHA ... uma filha e que eu ia
              vivi: c::r esse roner ate :ee iscar
              nas:r ie sisee ...

Fragmento 10

96    Cassia   ... que:: eu tin-eu ia ter uma        Acao complicadora
97             filha que ia ser professora ...
93             impressionante professora ...
99             entendeu? ... que nao ia-que no
               momento nao ia casar com ninguem ia
               morar com um homem com um rapaz ...
               esta morando com um rapaz[hehehe]

100   Odete    [ela] falou isso tudo quando voce
101            tinha DEZ anos de [idade?] ((com
102            tom risonho))
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Author:Salgado, Odete Firmino Alhadas
Publication:Veredas - Revista de Estudos Linguisticos
Date:Jan 1, 2018
Words:9649
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