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"Constant dripping wears away the stone": the path of waters in social catalysis in Colonial Brazil/"Agua mole em pedra dura, tanto bate ate que fura": o caminho das aguas na catalisacao social no Brasil Colonial.

"Indian voices largely are silent, but the artifacts crafted by the natives are obvious and extant. Their hands made the bricks that formed the adobe. Their arms lifted the whitewash brushes to the walls and brought the wood." (Silliman, 2010: 48-9).

Introducao

A descoberta de ouro e agua em abundancia em terras onde hoje se localiza Guarulhos-SP atraiu o olhar do colonizador portugues e levou a uma dramatica mudanca social e na paisagem local. Embora a riqueza natural de recurso aquatico na localidade, a necessidade de lavrar o ouro levou a procura do manejo da paisagem para a captacao e represamento de recursos aquaticos de nascentes da Serra da Cantareira, reconfigurando os percursos e permitindo nova rede de contatos entre a sociedade de um dos primeiros vilarejos do Brasil colonial do final do seculo XVI.

O impacto ambiental causado pela mineracao de Guarulhos foi alto, necessitou de cortes em montanhas, cortes em pedras, execucao de curvas em leitos de rios e riachos, represamento de aguas, construcao de dutos, "aquedutos", galerias e canais para lavagem em meio a mata. Ademais, tratou-se de impactos permanentes, pois as ruinas e as transformacoes paisagisticas estao presentes ate os dias atuais.

Contudo, o ouro e a agua nao foram apenas transformadores ambientais e paisagisticos, mas, sobretudo, catalisadores sociais. Grupos indigenas que se encontravam nas adjacencias formaram a base da mao de obra do empreendimento minerador.

Dessa forma, o territorio atualmente ocupado por Guarulhos, Mairipora e Nazare Paulista conjugou tres fatores que, intrinsicamente associados, tornaram essa regiao ideal para a exploracao aurifera: disponibilidade de mao de obra de grupos indigenas que viviam na regiao--escrava-, materia-prima, o ouro, e a grande quantidade de recursos aquaticos disponiveis pela configuracao espacial da localidade.

Embora a presenca indigena em Guarulhos seja de suma importancia para a constituicao historica dos primeiros quatrocentos anos de colonizacao europeia, a identidade e a localizacao de aldeias e aldeamentos sao controversos (vide Vilardaga e Miranda), as diferentes nomenclaturas e terminologia para designar a cultura indigena era confusa inclusive na documentacao escrita pela propria populacao contemporanea desses grupos.

Se os dados sobre identidade e localizacao dos assentamentos indigenas sao vagos, sua importancia para a historia local e fato contundente, pois sabemos que o emprego de um grande numero de trabalhadores indigenas foi necessario para o empreendimento minerador. Em contexto norte-americano, Silliman (2010: 33) reconhece problema semelhante e acredita que sao validos os esforcos para entender a relacao da ausencia da materialidade indigena em contextos historicos cuja presenca e conhecida.

Wurst (1991: 15) chama a atencao para o fato de que nem sempre em contexto colonial a relacao de espaco domestico esta separado do espaco de trabalho. Avancando nesta premissa, Silliman (2010: 38) aponta que na busca da materialidade cotidiana da presenca indigena, a arqueologia tem pouco contribuido para compreender a presenca indigena em contexto colonial, pois esses individuos geralmente utilizaram-se de objetos cotidianos diretamente em contexto de trabalho.

O objetivo deste artigo e analisar o processo de reconfiguracao paisagistica colonial e seu aspecto social da mineracao de Guarulhos, para entender como e de que modo a mudanca ambiental no periodo colonial a partir do processo minerador impactou a sociedade e a paisagem e reconfigurou culturalmente os modos de vida. Para tanto, partimos da cultura material em seu sentido mais amplo, paisagem cultural, edificacoes e caminhos para entender os meandros que forjaram as relacoes sociais no periodo que trataremos dentro dos temas de Arqueologia do Colonialismo e a Arqueologia do Movimento dentro da perspectiva da Arqueologia da Paisagem.

O tema da Arqueologia do Colonialismo envolve as relacoes de dominacao intercultural, em que o colonizador incorpora a terra, populacao e recursos do colonizado para o gerenciamento da colonia com o objetivo final de exportar os recursos a metropole (Jordan, 2009: 32). As formas de dominacao sao multiplas e variaveis e podem ocorrer desde a dependencia, onde os bens necessarios sao providos pelo colonizador, ate por meio de rompimento, onde as acoes impostas tornam impossivel o modo de vida do colonizado (Jordan, 2009: 35).

Migracoes, deslocamentos de pessoas, objetos e ideias sempre foram constantes no mundo e foram vetores de promocao de culturas e convergencias sociais. Foi, contudo, no encontro do Velho com o Novo mundo que o grande impacto cultural e biologico ocorreu de forma a afetar profundamente as sociedades de ambos os lados e reestruturando formas de vida desde suas praticas cotidianas, como na alimentacao e saude dos povos, ate as formas de pratica de poder e economia (Beaudry, 2013: 1).

Esse tema de encontro entre esses dois mundos tem sido uma incessante questao nas pesquisas arqueologicas. Nao obstante, lacunas profundas ainda sao encontradas na historia desses grupos sociais que se encontraram e se reinventaram culturalmente.

Este trabalho volta ao tema do choque cultural entre o Velho e o Novo Mundo, na expectativa de se compreender os fatores que dispararam a reorganizacao das sociedades luso -brasileiras em contexto guarulhense.

Contexto Ambiental

A cadeia de montanhas recoberta pela Mata Atlantica que caracteriza o municipio de Guarulhos e conhecida como Serra da Cantareira, por meio da qual, em sua porcao granitica principal, e irradiada uma rede de drenagem de rios e corregos (Ab'Saber, 2007: 77).

A bacia hidrografica da regiao do Alto Tiete no territorio de Guarulhos compreende as bacias Jaguari, Cabucu de Cima, Canal de Circunvalacao, Baquirivu Guacu. O proprio rio Tiete, que cruza diversos municipios do estado de Sao Paulo, e muito importante para Guarulhos. Tendo sua nascente localizada no municipio vizinho, Salesopolis, o rio Tiete corre em direcao oeste e corta todo o municipio.

Da perspectiva geologica, o ambiente onde se encontra Guarulhos possui caracteristicas singulares, sobretudo do ponto de vista mineralogico que, alem do ouro, possui remanescentes de rochas depositadas por aguas oceanicas em antigas eras geologicas (Perez-Aguilar et al., 2012).

Essa area compreende dois afloramentos pertencentes ao segmento central da Faixa Ribeira (sendo que o primeiro e parcialmente recoberto pelo segundo), sendo eles: o grupo Serra do Itaberaba (Mesoproterozoico), de sequencia meta-vulcanossedimentar e o Sao Roque (Neoproterozoico), representado por uma sequencia meta-siliciclastica. Ambos os grupos sao compostos por distintos corpos de granitoides sin--a pos-colisionais do periodo Neoproterozoico ao Cambriano (Perez-Aguilar et al., 2012).

O afloramento do grupo Serra do Itaberaba inicialmente foi depositado em aguas oceanicas, caracterizado pela presenca de basalto do tipo N-MORB (normal mid ocean ridge basalt), tendo uma posterior evolucao em ambiente de retroarco (Perez-Aguilar et al., 2012).

Ainda de acordo com Perez-Aguilar et al. (2012), os afloramentos possuem formacoes, lidas da base para o topo, da seguinte maneira: --grupo Serra do Itaberaba:

1) Morro da Pedra Preta--composta por metabasitos do tipo N-MORB com presenca de lavas almofadadas, rochas meta-vulcanoclasticas e metatufos com composicoes basicas a intermediarias e metatufitos;

2) Jardim Fortaleza--composta por xistos, xistos grafitosos, xistos ricos em sulfetos e xistos manganesiferos; subordinadamente, metabasitos, metatufos com composicoes basicas a intermediarias, metatufitos, rochas calcio-silicaticas, formacoes ferriferas do tipo Algoma (BIFs) e turmalinitos;

3) Nhangucu--composto por xistos ferro -manganesiferos e xistos calcio-silicaticos com intercalacoes de pequenas lentes de metabasitos;

4) Pirucaia--composto por quartzitos, graos de zircao, turmalina, rutilo e opacos com texturas reliquiares elasticas, e quartzo, mica xistos com sillimanita.

Essa composicao foi responsavel por extensas zonas de alteracao cloritica (ZC1), cortadas por zonas restritas de alteracao cloritica (ZC2), argilica e argilica avancada, cujas rochas sao compostas por margarita [+ or -] rutilo [+ or -] corindon ou por topazio [+ or -] rutilo e levaram a processos mineralizantes de ouro (Perez-Aguilar et al., 2012).

--grupo Sao Roque:

1) Pirapora do Bom Jesus (metabasitos e metassedimentos carbonaticos);

2) Morro Doce (meta-conglomerados polimiticos, meta-arcoseos e filitos);

3) Boturuna (arenitos e arenitos feldspaticos metamorfisados);

4) Estrada dos Romeiros (metassedimentos ritmicos) e

5) Jordanesia (metassedimentos ritmicos e metassedimentos grafitosos).

A Arqueologia da Paisagem

A materialidade da colonizacao e muitas vezes exigua, e uma primeira aproximacao para o estudo do tema pode ocorrer por meio de discussao de macroconfiguracao espacial de uma determinada area geografica com o objetivo de entender a estruturacao e articulacao das areas afetadas.

A literatura sobre a Arqueologia da Mineracao explora temas diversos, mas, sobretudo ligados a temas de patrimonio, impactos ambientais, tecnologicos para a compreensao dos processos de extracao e processamento, ou sociais para a compreensao sobre etnicidade, classe e genero (Pearson, 1993; Pearson e McGowan, 2000). Contudo, a partir da Pesquisa de Inventario do Patrimonio Arqueologico de Guarulhos--PIPAG, o tema desta pesquisa se voltou para o modo como a reconfiguracao de lugares singulares para a mineracao de ouro culminou em uma transformacao da rede de contatos e impactou a sociedade de modo a ressignificar seus valores socioculturais.

Trata-se, portanto, de uma leitura das modificacoes paisagisticas a partir do processo minerador implantado em Guarulhos. Embora a Arqueologia da Paisagem seja uma abordagem recorrente nas pesquisas arqueologicas, ela vem sendo aplicada de diferentes maneiras.

Com o surgimento da New Archaeology nos anos 1960, os arqueologos americanistas reconheceram que as modificacoes nas paisagens antropogenicas implicam mais do que modificacoes fisicas do ambiente; elas tambem implicam padroes ligados as "dimensoes sociais e ideologicos" (Deetz, 1990: 2). Segundo Anschuetz, Wilshusen e Scheik (2001), a Arqueologia da Paisagem passa cada vez mais a considerar paisagens historicamente documentadas de forma mais holistica, incluindo a mudanca na organizacao do assentamento, a demografia e as relacoes sociopoliticas.

No caso do Reino Unido, a afirmacao da Arqueologia da Paisagem assenta-se em uma tradicao de abordagens ecologicas. Esse caminho fez com que a tonica da investigacao envolvendo o tema paisagem recaisse sobre o estudo do meio (Orejas, 1991: 200-1 apud Marcolin, 2013: 3). A analise do meio e feita em niveis e escalas diferentes, focando cada um dos seus aspectos diferenciadores: as caracteristicas climaticas, a geomorfologia, a hidrografia, a vegetacao e a fauna.

O estudo do meio enquanto recurso, estabelecido na absorcao feita pelas comunidades, presente nas bacias de exploracao e nos assentamentos, associa-se a esse filao de pesquisa. Essa postura confere um importante protagonismo a reconstituicao dos paleoambientes, promovendo o desenvolvimento integrado das varias formas de analise arqueologica antes descritas, atualmente reunidas num ambito proprio: a chamada Arqueologia Ambiental (Orejas, 1991: 207 apud Marcolin, 2015: 3).

Diferentemente do que ocorre no Reino Unido, na Franca, sao as esferas da geografia e da historia que competem para a afirmacao da Arqueologia da Paisagem. Em meados dos anos 1960, Georges Bertrand abordou a paisagem como um problema de metodo, inspirandose no vocabulario corrente dos ecossistemas (geotopo, geofacies, geossistema, regiao natural, campo geografico, zona) e que tambem atribuiu uma perspectiva historica ao estudo dos geossistemas (combinando historia ecologica e historia social.

Atualmente, o contexto frances se desenvolve em torno de duas abordagens que se contrapoem: a abordagem morfologica, representada pela archeomorphologie, e a abordagem naturalista, representada pela geoarcheologie (Leveau, 2006: 9, 21 apud Marcolin, 2015: 3). A archeomorphologie parte do pressuposto de que a forma da paisagem resulta da estratificacao dos sistemas de ocupacao no tempo, sendo que tais sistemas refletem os vinculos estabelecidos com o meio envolvente.

O estudo morfologico e conduzido em varias escalas, articulando-se os contextos espaciais em funcao da problematica em analise. A geoarcheologie foca essencialmente na reconstituicao dos paleoambientes, "integrando uma abordagem analitica, centrada nos componentes da paisagem, e uma abordagem dinamica, que considera os processos intervenientes na sua formacao" (Leveau, 2006: 14-5 apud Marcolin, 2013: 4). A abordagem analitica considera a paisagem como realidade sistemica, que integra os componentes geologico, biologico e humano.

A partir dos anos 1990, o crescimento do uso de conceitos relacionados a paisagem foi muito rapido. Isso e sintomatico de uma mudanca significativa no pensamento arqueologico sobre paisagens. Dentro dessa analise continua das relacoes entre natureza e cultura, observando como as comunidades transformam espacos fisicos em lugares significativos, as abordagens da paisagem apresentadas em compendios recentes (e.g., Knapp e Ashmore, 1999; Crumley e Marquardt, 1987; Carmichael et al., 1994; Feld e Basso, 1996; Fisher e Thurston, 1999; Hirsch, O'Hanlon, 1995; Ucko, Layton, 1999) estabelecem quadros para a construcao de uma arqueologia mais sintetica de "lugar" (Anschuetz, Wilshushen, Scheik, 2001: 159).

Na atualidade, os lugares, assim como as paisagens, passaram a ser entendidos como significativos, adjetivados de varias maneiras (e.g. sagrados, perigosos, tradicionais, culturais) e estudados em termos de suas biografias, significados metaforicos e metonimicos, politicas, logicas, redes, transformacoes e persistencias (Whitridge, 2004; Stewart et al., 2004; Carroll et al., 2004; Brown, 2004; Bowser e Zedeno, 2009). Assim, pode-se entender uma "arqueologia do lugar" como:

Aquela que se concentra sobre os modos como as pessoas comunicam significado--tanto simbolicamente como atraves da acao--ao seu entorno fisico e cultural em multiplas escalas e sobre as formas materiais que estes significados adquirem (Bowser e Zedeno, 2009: 5). As pessoas criam lugares atraves de suas experiencias com o meio (tangivel e intangivel), dando significados a eles e produzindo conhecimento sobre os mesmos. Os lugares tem uma dimensao individual e social, bem como agencia para modelar e influenciar as acoes das pessoas. Os lugares sao irremediavelmente ligados a historia e a memoria das pessoas e, por isso, podem tambem assumir dimensoes politicas e identitarias (Bowser, Zedeno 2009; Stewart, Strathern, 2003: 31).

Por fim, a ciencia mais afim com a Arqueologia, a Antropologia, enquanto Antropologia Cultural, pesquisa a ideia de lugar como local de identidade e de contestacao. Trabalhos com grupos indigenas mostram como as paisagens sao importantes para as comunidades em termos de manutencao da memoria e da tradicao.

Susan Alcock (2002) tem trabalhado a questao da construcao da identidade a partir da significacao outorgada coletivamente a certos lugares. Desse modo, a lembranca compartilhada--a partir da memoria social--permite a criacao de imagens do passado e de designios para o futuro. No entanto, ao mesmo tempo em que e extremamente poderosa, a memoria social e tambem fugidia. No livro Archeologies of the Greek Past (2002), Alcock, segundo Komikiari (2014), pretende alcancar esta fugida memoria a partir de improvavel documentacao, a material, especificamente os monumentos e a paisagem.

Places, meanings, and memories are intertwined to create what some authors have termed a "sense of place. A sense of place rests upon, and reconstructs, a history of social engagement with the landscape, and is thus inextricably bound up with remembrance, and with time; its construction is tied into networks of associations and memories through a process Basso (1996: 107) calls interanimation. As humans create, modify, and move through a spatial milieu, the mediation between spatial experience and perception reflexively creates, legitimates, and reinforces social relationships and ideas (Alcock, 2003: 5).

Um ultimo aspecto importante da discussao de paisagem na Arqueologia advem da chamada Arqueologia do Construido. Essa Arqueologia propoe a reflexao sobre algumas perguntas que de uma forma ou de outra perpassam pela proposta de discutir a relacao do homem com a paisagem: como as formas construidas acomodam o comportamento humano e se adaptam as necessidades humanas? De que maneira se da a acomodacao de um grupo social a forma que ocupa? Quais sao os possiveis significados da forma?

De acordo com Rapoport (1982), as formas construidas expressam e representam os aspectos da cultura. Esse autor sugere que as formas construidas sao uma extensao do individuo, representam uma dimensao espacial do comportamento humano, com seus processos mentais e com sua fisicalidade propria do ser humano.

Nessa relacao, forma construida/ambiente construido, temos de considerar que os ambientes construidos sao determinados por fatores historico-culturais, fatores fisicos e fatores teoricos. Carl (2000) discute essa questao ao relacionar a formacao da cidade com a chamada topografia da praxis, na qual as descontinuidades da cidade seriam, na realidade, a continuidade de diferencas. Nesse sentido, as formas construidas se inserem num plano em que as diferencas fazem sentido e dao sentido a uma topografia, que se vista sem atencao poderia sugerir desniveis ou uma ausencia de harmonia social. Em outras palavras, a morfologia da paisagem se da a partir das continuidades e descontinuidades topograficas, economicas, religiosas, politicas e sociais, enfim, culturais.

Da mesma maneira que a sociedade produz formas, as formas reproduzem a sociedade. E importante considerar os papeis da Historia e instituicoes sociais para a geracao do ambiente construido reverberando numa relacao de espaco-poder. Assim, partindo desse raciocinio, a forma construida nao pode e nao deve ser vista de modo estatico, sem interacao com a sociedade que a produziu. Cabe ao arqueologo, com esse novo olhar, perceber a pulsacao das formas construidas, entendendo-as a priori como componentes indissociaveis da propria natureza social do ser humano.

Historico

De acordo com Miranda e Vilardaga, a presenca indigena em Guarulhos em documentacao historica remonta ao inicio da colonizacao europeia, no seculo XVI, e segue presente, mesmo que progressivamente mais esparsa, ate o seculo XIX, ate sumir completamente dos documentos.

Nesse mesmo periodo de contato entre indigenas e europeus ocorreu um dos primeiros empreendimentos mineradores dos colonizadores no atual territorio de Guarulhos. Do mesmo modo que a presenca indigena no territorio analisado, as principais trilhas que percorrem areas de lavras de mineracao teriam sido proximas aos atuais "ribeiroes das Lavras e Tome Goncalves e dos corregos Tanque Grande e Guaracau" (Juliani et al., 1995: 6), alem do rio Baquirivuguacu, que compunham um amplo territorio permeado de lavras.

A partir do ciclo da mineracao de ouro em Minas Gerais, no seculo XVIII, as propriedades paulistas passaram a ter propriedades rurais de diversas naturezas: desde pequenas chacaras e sitios, voltados a economia de subsistencia e mercado local, ate grandes fazendas centradas na producao de trigo, cana-de-acucar e algodao, e na criacao de gado que, alem do mercado interno, abasteciam as regioes de mineracao, possibilitando, tambem, o abastecimento e logistica das rotas e pontos de paragem das tropas de muares que percorriam as rotas de Sao Paulo ao Rio de Janeiro e de Sao Paulo a Minas Gerais, e Brasil adentro.

Duas igrejas catolicas mais antigas sao importantes para compreendermos mais adiante os territorios de importancia no periodo colonial, a Igreja Nossa Senhora do Bonsucesso e a atual matriz Nossa Senhora da Conceicao. Embora ambas as igrejas tenham passado por reconstrucoes em lugares distintos da implantacao original, ambas tiveram origem no periodo colonial, de acordo com dados historicos.

De acordo com dados de Vilardaga, embora a igreja Nossa Senhora da Conceicao pareca ter sido formalmente construida em 1665, ha indicios que indicam que uma capela nessa localidade do mesmo nome da igreja ja existia por volta de 1620, quando um vilarejo ainda incipiente parece se formar ao redor desse territorio e ja atrair romeiros de outras localidades em 1620.

Quanto a Igreja Nossa Senhora do Bonsucesso, embora o reconhecimento por parte da Igreja oficial, da existencia da Festa do Bonsucesso e a data do ano de 1741 como o seu marco inicial, dados historicos apontam a presenca da Capela do Bonsucesso, na sesmaria de Ururai, na decada de 1620, no entorno da Capela do Bonsucesso, em terras de Francisco Cubas. Essa igreja e ainda muito importante para a cultura local por sua festa que perdura ate os dias atuais, realizando anualmente no mes de agosto celebracoes no espaco do entorno da igreja.

Na atualidade, esses rituais sao iniciados na primeira segunda-feira do mes de agosto, com a "carpicao" do adro da igreja. Os demais finais de semana encerram novenas, missas, congadas, folias de reis, procissoes e, ainda, um ritual de cura, a "Carpicao", onde milhares de pessoas carregam um punhado de terra que, acreditam, se for colocada sobre uma parte enferma do corpo tem o poder de remediar o problema.

Metodologia

Para fim do inventario do projeto PIPAG, no que tange as ruinas de mineracao do seculo XVI em Guarulhos, foram efetuadas prospeccoes arqueologicas de superficie, junto ao historiador Elton Soares de Oliveira, morador local. De modo geral, as ruinas se encontram atualmente em meio a mata e poucas na area urbanizada, como no caso do bairro Jardim Hanna.

Em principio do projeto, o emprego de GPS para a localizacao das coordenadas das ruinas nao obteve exito, pois os erros de leitura eram bastante altos, fazendo com que as coordenadas fossem mapeadas em municipios adjacentes. Houve a tentativa do emprego de drone para fotografias e filmagens aereas, porem, pelo fato de a grande maioria das ruinas estar em mata fechada, nao conseguimos continuar com esse procedimento.

Recentemente, com o emprego de GPS Monterra e Montana (Garmin), o problema pode ser contornado. Desta forma, as ruinas foram fotografadas e mapeadas de modo georreferenciado sistematicamente e fichas de inventario foram preenchidas com informacoes e caracteristicas gerais.

Assim como se procedeu para o mapeamento das ruinas de mineracao, antigos caminhos e rios foram mapeados de modo que pudessemos empregar o estudo de rotas e movimentos sugerido por Earle (2006). Para o autor, rotas de movimento representam diferencas em formas de utilizacao, marco fisico e construcao. As rotas podem ter uma ou mais caracteristicas, representando distancia de trajetos, subsistencia, mercado, rota de contatos, socializacao, projeto de permanencia, politica e cerimonias. Mais do que isso, o grau de integracao politica e suas funcoes explicariam grande parte da variabilidade das rotas humanas (Earle, 2006: 255-60).

Topografia e hidrografia fazem parte das barreiras naturais a serem contornadas e transpostas pelas rotas construidas. Para tanto, Earle (2006: 261) sugere a utilizacao de variaveis de barreiras de topografia em extrema, moderada e baixa para inicio do mapeamento das barreiras.

Essa metodologia adaptada a area de pesquisa deste projeto, que relaciona caminhos, terreos e aquaticos, associados as barreiras topografica e hidrograficas, nos permitira uma leitura da paisagem colonial em seu aspecto mais marcante, a movimentacao e transito social que lentamente crivaram no ambiente natural lugares de importancia cultural.

A Dutra no meio do caminho

No inicio do projeto PIPAG, quando a equipe fazia o reconhecimento das adjacencias da Igreja do Bonsucesso, conhecemos uma senhora, Dona Neisa, vizinha da igreja, e que nos contou o que sabia acerca da Igreja. Ela nos relatou que, ha mais de quarenta anos, quando da construcao da casa do padre, haviam ossos e objetos "de indio" no terreno, que foram levados para a prefeitura. Ela teria presenciado o acontecimento, muito embora os funcionarios da prefeitura e Arquivo Historico atuais nao tenham conhecimento do fato nem do material arqueologico.

Mais do que isso, Dona Neisa sabia que a igreja do Bonsucesso nao era original, que ela teria sido em outra localidade antes do seculo XIX. Ainda que essa seja uma pergunta que sempre realizamos informalmente para a populacao, a maioria das pessoas desconhecia qualquer fato acerca de uma igreja anterior. Ela nos relatou que seu pai, um sitiante local, sempre tinha contado que a antiga igreja do Bonsucesso situava-se em uma area as margens da Rodovia Dutra, proximo ao quilometro 209.

Ainda em prospeccao de antigos caminhos proximo a localidade que pudesse explicar antigas rotas deparamo-nos com a Rua dos Jesuitas que, atualmente, comeca e termina na Rodovia Dutra, no quilometro 216 e apresenta uma configuracao anterior a implantacao dessa rodovia. Nao conseguimos nenhum dado historico sobre o assunto, seja por oralidade, ou por documentos, mas a configuracao espacial e sua toponimia sao notorias.

As ruinas das Lavras de Ouro de Guarulhos

As ruinas da mineracao de ouro de Guarulhos sao estruturas construidas para o gerenciamento de cursos d'aguas, transpondo e contornando os relevos para a mineracao das lavras de aluviao. Sao estruturas confeccionadas com pedras cortadas, com tuneis escavados em rochas, trincheiras para o gerenciamento dos cursos d'agua, trilhas como sistema de circulacao humana, cavas, dutos com o objetivo de canalizacao d'agua para a mineracao de rios e riachos que descem da serra da Cantareira por meio do rio Tome Goncalves, ribeirao das Lavras, corrego Guaracau, corrego Guavertuva, e ribeirao Tanque Grande.

Entre series de relevos escavados e margens de rios corre agua com alta pressao a partir de uma altitude de 1200-1000m, no ponto mais alto, e em 763m de altura, o ponto mais baixo.

O mapeamento espacial das ruinas demonstra que o empreendimento de exploracao de ouro se tratou de um sistema integrado. A partir das areas de maior porte para a captacao d'agua, na zona mais ao norte, cuja area e ocupada pelos sitios 1, 2 e 3, ha maior declividade e, portanto, maior pressao e energia da forca d'agua. Na area intermediaria, representada pelos sitios 7 a 13, a declividade e a pressao no escoamento dos cursos d'agua e relativamente menor. Finalmente, onde hoje e localizada a gleba urbana, proximo ao bairro do Bonsucesso, chega-se a uma area de menor altitude, abaixo de 800 m, onde a pressao d'agua e mais baixa.

A configuracao espacial da area de dispersao das ruinas aponta uma estruturacao que parte em linha do n. 1, seguindo pelas estruturas n. 2 e n. 3, ate se radiarem em dois diferentes eixos a partir do n. 4 (sudoeste e sudeste), sendo que o ramo sudoeste e aquele que segue em direcao a parte norte do Aeroporto, o sitio Tanque Grande ainda apresenta altitude elevada, e outro, o ramo sudeste, aquele que desemboca nas adjacencias do Bonsucesso, ponto mais baixo.

As ruinas ligadas a mineracao acompanham tanto a geologia local, os veios de ouro (fig. 8), quanto a hidrografia mais proxima dos veios de ouro (fig. 7).

Rios e caminhos: imbricamentos e conexoes

Os rios foram as primeiras grandes vias que possibilitaram grupos indigenas e colonizadores de entrarem mata adentro da atual area do municipio de Guarulhos. O acesso dos europeus em terras do atual municipio de Guarulhos ocorreu por meio do rio Tiete e rio Baquirivu.

Contudo, e possivel entender, por meio da modificacao paisagistica, que o empreendimento minerador em Guarulhos seguiu ordem inversa daquela percorrida pelo colonizador europeu rumo ao norte, quando do primeiro contato com as sociedades locais. Os primeiros sitios parecem ter surgido na regiao norte e com maior altitude e depois descido para o sul. Alem desses pontos, o sitio Tanque Grande tambem e mencionado em dados historicos, mostrando que nesse ponto um outro nucleo de mineracao antigo.

As areas proximas aos sitios 1, 2 e 3 e o Tanque Grande se apresentam em uma topografia de alta declividade, tornando dificil o assentamento de grande numero de pessoas. Ja na area intermediaria, onde as ruinas se bifurcam em direcao sudeste e sudoeste, existem condicoes mais favoraveis para o assentamento de maior numero de pessoas.

Podemos notar que entre os sitios localizados ha uma maior concentracao em areas de declividade moderadas, estando, nessa categoria, inclusive, a atual igreja do Bonsucesso. Provavelmente, a escolha para assentamento mais duradouro em areas de declividade moderada ocorra por conta dos problemas topograficos das areas extremas e de alagamentos das areas plainas. Se do ponto de vista topografico as areas mais ao norte apresentam cadeias de montanhas ingremes que dificultam a permanencia de um grande numero de pessoas, do ponto de vista das aguas nas areas baixas, tanto a pluviosidade quanto as centenas de cursos d'agua alagavam grandes areas e comprometiam o deslocamento das pessoas por trilhas e caminhos.

Dados historicos (Relatorio PIPAG, 2015 (1)) corroboram com a questao de terras inundaveis, as condicoes de intemperies prejudicavam o deslocamento de bens e de pessoas ainda no seculo XIX, fazendo com que apenas a partir desse periodo, quando do crescimento urbano do municipio de Guarulhos, maiores providencias e empenho politico para a abertura de novos caminhos e aterros contornassem problemas antigos de movimentacao da populacao local.

De modo geral, as ruinas representam dutos, respiradouros, paredes de contencao dos morros e antigas trilhas para a mobilidade humana. Trata-se de pequenas trilhas em meio a mata que dao acesso as ruinas ate os dias atuais. Essas pequenas trilhas levam, consequentemente, a caminhos maiores que interligam a outros canais e dutos. Os caminhos maiores levam a estradas antigas, mas ainda em uso na atualidade, tal como a estrada de Nazare Paulista.

Necessariamente, as trilhas sao percorridas em um curto periodo de tempo, a pe, enquanto que os caminhos e as estradas de terra demandavam mais tempo, energia e logistica para o des<08_TB003> locamento de pessoas e podiam ser percorridos tanto a pe quanto a cavalo. Assim como os caminhos e estradas, os caminhos fluviais demandam mais tempo e energia e organizacao logistica para cada viagem, necessitando ainda como meio de transporte formas de embarcacoes.

Grupos de menor densidade populacional necessitam maior espaco para locomocao para explotacao do meio e subsistencia, sendo o transporte a pe ou com tecnologias simples adaptada ao percurso de longa distancia; enquanto que populacoes mais densas podem percorrer menores espacos em busca de sua subsistencia (Earle, 2006: 262-3).

A partir da metodologia de movimentacao e da implantacao e utilizacao de caminhos e possivel visualizar que apesar do alto grau de imbrincamento das trilhas de menor porte para acesso direto e pontuais das construcoes para o trabalho da mineracao, como os dutos e canais, dentro da mata, os caminhos de conexao de longo percurso, apresentam-se em grande quantidade, articulando longos caminhos, estradas e rios.

Pelo mapeamento dos percursos, e possivel identificar que as rotas de longa distancia foram essenciais para a manutencao da vida cotidiana da sociedade colonial, sobretudo no que diz respeito aos eixos norte-sul, leste-oeste.

Parece haver tres clusters de caminhos, o primeiro com mais caminhos antigos que seguem desde o Tiete rumo a Bonsucesso e segue para a estrada de Nazare Paulista. O segundo, a partir da atual regiao central de Guarulhos, com menor densidade numerica de caminhos, que tambem levam a estrada de Nazare Paulista e, o terceiro, na regiao oeste, regiao do Cabucu, em posicao intermediaria em importancia numerica, com estradas menores que cortam a regiao.

Ademais da paisagem, com seus caminhos e toda a rede de circulacao, a alta quantidade de documentos historicos corroboram para a importancia das rotas de longa distancia serem essenciais na vida diaria da populacao. Documentos apontam que ainda no seculo XIX, quando a importancia do empreendimento da mineracao ja era exigua em relacao a outras areas de mineracao do pais e a outros empreendimentos economicos do estado, as estradas de longo percurso continuam essenciais para a manutencao da vida da regiao e localidades adjacentes, como no exemplo a seguir (para mais informacoes ver Anexo 5 do Relatorio PIPAG, Plens, 2015 (2)):
   [p.013] Excelentissimo Senhor

      Acusando o recebimento do oficio de
   Vossa Excelencia de 31 do mes findo em
   que me declara nao poder aceitar a minha
   proposta para fazer os consertos da estrada
   geral que desta Freguesia segue a Vila de
   Nazareth por menos de tres contos de r.
   por que foram eles orcados visto que na
   Lei vigente do orcamento so foi consignado
   a quantia de um conto de r. para estas
   obras, tomei a resolucao de tornar a oficiar
   a Vossa Excelencia que com quanto esta
   quantia seja insuficiente convenho todavia
   de aplica-la em alguns dos consertos mais
   urgentes para evitar, que na forca das aguas
   fique cortado o transito desta estrada, por
   onde passam as tropas dos importantes
   Municipios de Nazareth e Sto. Antonio da
   Caxoeira (Cachoeira) que abastecem essa (?)
   Capital e o Porto de Santos de generos de
   1a necessidade.

      Os consertos mais urgentes sao os dos
   pontilhoes sobre o aterrado do rio Baquiruvu-guassu
   sendo indispensavel fazer-se de
   novo tres pontilhoes por estarem ameacando
   (?) ruina os que existem, e um deles ja
   abateu.

      Junto remeto a Vossa Excelencia o
   orcamento para estas obras.

      Deus guarde a Vossa Excelencia por
   muitos anos. Freguesia da Conceicao dos
   Guarulhos 10 de novembro de 1864.


Ate meados do seculo XIX, as propriedades de terras nao eram autossuficientes, fazendo com que a populacao local necessitasse percorrer grandes distancias para o trabalho, para a troca, compra e venda de produtos para a subsistencia.

O primeiro cluster antes mencionado, a regiao marcada pelos caminhos de Sao Miguel, Caminhos dos Pimentas, Caminho antigo do Bonsucesso e Nazare Paulista, entrecortado por caminhos que se tornaram a Rodovia Dutra, engloba uma importante area para percurso de contingente humano e bens de consumo para outras areas abastecedoras, como Santos, Minas Gerais, Sao Paulo e Rio de Janeiro.

Essa rede de caminhos composta por Sao Miguel, Caminhos dos Pimentas, Caminho antigo do Bonsucesso e Nazare Paulista se articulam de modo a contornar as barreiras topograficas e hidricas, constituindo uma rede integrada de caminhos, levando a composicao de uma regiao dependente entre si cotidianamente.

Para compreender os caminhos terrestres dessa conexao do periodo colonial na regiao mineradora, precisamos voltar a questao de Sao Miguel, tanto pelo Caminho de Sao Miguel ser uma historica passagem dos grupos indigenas mas, sobretudo, pela evidencia de que a toponimia Sao Miguel se trata justamente de uma grande regiao e nao de um unico lugar ou caminho. Dados apontam que o termo Sao Miguel se refere a uma area territorial muito mais abrangente do que tratado na atualidade, e nao restrito a conhecida Sao Miguel Paulista, igreja do aldeamento jesuita do seculo XVII, hoje localizada na zona leste do municipio de Sao Paulo, e proximo ao bairro dos Pimentas, em Guarulhos.

Ainda que dados historicos sobre a presenca indigena apos a colonizacao seja exigua, podemos partir da interpretacao da paisagem e de dados historicos para entender sobre a presenca indigena no territorio.

Como apontado por Monteiro (1998: 205-6), Sao Miguel se localizava dentro da area original de sesmaria concedida em 1580. A sesmaria intitulada Ururai abrangia terras localizadas tanto do lado norte quanto sul do rio Tiete, sendo que na parte norte aglomeravam-se os colonos, enquanto que, ao sul, situava-se o nucleo do aldeamento que, por sua vez, tinha em suas adjacencias areas que integram parte do bairro de Caaguacu (posteriormente se tornou freguesia de Guarulhos), as terras de Conceicao e a area ao longo do rio Jaguari. Prova dessa territorialidade e que "(...) aparece na lista do donativo como o bairro de Sao Miguel (...) as pequenas propriedades ao redor da capela de Bonsucesso, a qual pertencia a fazenda de Francisco Cubas" (Monteiro, 1998: 204-6).

Obviamente que a concentracao de grupos indigenas nessa area nao era restrita ao aldeamento, sendo que o empreendimento aurifero dependia de uma mao de obra pesada e constante, tal como nos atestam a reconfiguracao da paisagem e as ruinas identificadas. Os indigenas que trabalhavam na mineracao de ouro certamente residiam nas proximidades da area de trabalho, nao podendo se deslocar diariamente da area do aldeamento do lado sul do Tiete para a zona norte nas areas de exploracao de ouro.

Sobre os indios que residiam fora da area de aldeamento, ou mesmo sobre o empreendimento minerador no que tange a exploracao, economia e modos de vida dos colonos, contamos com esparsas informacoes historicas. O que e de se esperar para o empreendimento minerador paulista que, como ressalta Vilardaga (2013), sempre esteve, convenientemente, em meio a uma "nuvem de fumaca".

A configuracao dos territorios ocupados no periodo colonial ocorre pelas areas de exploracao dos recursos naturais, assim como pela instalacao de bairros rurais de pequena producao de bens de consumo e capelas que atendiam e mantinham as populacoes indigenas.

O que aparece na lista de donativo como o bairro de Sao Miguel incluia, basicamente, as pequenas propriedades ao redor da Capela do Bonsucesso, a qual pertencia a fazenda de Francisco Cubas. Este, genro do grande sertanista Manuel Preto, havia herdado uma posse consideravel de indios do seu sogro, agregando muitos outros atraves das atividades de apresamento de seu filho Francisco Cubas Preto, por sua vez um sertanista experimentado, participante de bandeira de 1666 e possuidor de cerca de duzentos indios quando da sua morte em 1673. Assim, o exemplo de Francisco Cubas demonstra, mais uma vez, a relacao entre a fundacao de capelas--e, por consequencia, de bairros rurais--e a chegada de grandes levas de cativos (...) (Monteiro, 1998: 206).

No segundo quartel do seculo XVII, um grande numero de indigenas esta vinculado a Igreja do Bonsucesso. Contudo, vale lembrar que nao se trata da mesma igreja implantada no atual bairro do Bonsucesso (que foi erigido em 1808), mas a originaria, localizada provavelmente no eixo da atual Dutra, da qual nao temos registros de sua localizacao exata. O importante aqui e se atentar ao fato de que os indios, a essa altura, estavam concentrados na regiao setentrional da sesmaria e nao vinculados com o Aldeamento de Sao Miguel Paulista.

Embora diversos parentes de Francisco Cubas figurassem entre os principais residentes do bairro em 1679--a viuva de Cubas Preto, constava como a maior contribuinte, com 4$000--, ele rompe com alguns padroes de distribuicao e transmissao de riqueza observadas em outros bairros. De fato, diferentemente de outras parentelas que se pulverizavam por meio do dote, procurou manter a propriedade e a familia intactas. Chegando ao fim de sua vida, Cubas vinculou grande parte de sua riqueza e de seus indios a Capela do Bonsucesso. (Monteiro, 1998: 206).

Ate esse periodo, aqueles que detinham o poder em relacao as areas de mineracao de ouro na regiao de Guarulhos e sobre os indigenas, destacavam-se em relacao ao poder economico que, embora de valor elevado, nao compartilhado com a sociedade local, mas concentrado nas maos de uma unica familia, nao produzia riqueza nem bem estar, nem social, e tampouco a si mesmos, necessitando, eles tambem, percorrer longos trajetos a fim de suprir suas necessidades.

No final do seculo XVII e todo o seculo XVIII, a regiao contava com apenas pequenas propriedades rurais (Relatorio PIPAG, 2015, exemplos de propriedades em Mapa 2 nos Anexos 4), poucos produtores de trigo e criacao de gado (Monteiro, 1998: 206), fazendo com que essa sociedade esparsa, nesse grande territorio, necessitasse de contatos em longa distancia, passando a desenvolver sistemas sociais e redes de contatos bastante intensas para sua manutencao cotidiana.

E comum que entre sistemas sociais que se mantem por meio de contatos intensos para a subsistencia se mantenha tambem por meio de cerimonias periodicas entre os nucleos de contato (Earle, 2006: 262-3). Nesse sentido, surgem os lugares sagrados, que atraem os grupos sociais e asseguram uma rede de reciprocidade (4).

Dentro desse contexto no periodo colonial, nessa vasta regiao onde os caminhos terrestres e aquaticos ajudam a populacao local a percorrer longos trajetos, ha antigas capelas que atendem a populacao rural. Mais exatamente dentre os lugares de interesses religiosos da area em questao se destaca um, a Igreja Nossa Senhora do Bonsucesso. Nessa igreja ha indicios de uma festa que remonta o final do seculo XVIII.

Para a execucao da Festa, uma complexa manifestacao cultural, o pequeno comercio local e o pano de fundo que mantem sua viabilidade logistica, mas ela e especialmente conhecida por atrair romeiros de terras distantes atraidos pelo seu carater religioso, a Carpicao, ato da celebracao que, por meio dos poderes da terra local, leva a cura de enfermidades.

Com mais de dois seculos de historia, a Festa de Nossa Senhora do Bonsucesso agrega tracos de permanencia de um calendario agricola, comercio de produtos variados e a comunicacao e vinculo de diferentes segmentos sociais. A Festa e uma invocacao de negociacao entre os diferentes grupos para a manutencao do sistema social dependente entre si economicamente.

Agua, ouro e sangue

No caso da area de mineracao de ouro dentre a qual esta localizado o municipio de Guarulhos, e a agua o elemento de vital importancia que cintila atraves da historia ate os dias atuais, conferindo significado no espaco e para a sociedade desde o periodo colonial. A agua possibilitou a movimentacao de pessoas, a mineracao de ouro, irrigacao para plantacoes e sistema de escoamento de bens e o comercio.

Na area tratada nos documentos ora como Sao Miguel, de uma maneira abrangente--referindo-se as terras doadas aos indios pela sesmaria de 1580, e gradualmente usurpada por grileiros ao longo de mais de quatrocentos anos (ver Miranda)--, ora como areas especificas como Lavras Velhas do Geraldo, Tanque Grande, entre outras toponimias, estabeleceuse o primeiro nucleo colonial de Guarulhos, configurado pelo uso e movimentacao constante dos cursos d'agua e os caminhos de terra que os margearam nessa regiao e ao redor do recurso aurifero.

Mas a formacao desse primeiro nucleo colonial que teve como gatilho as fontes minerais e a presenca indigena foi ainda mais complexa e, alem dos fatores economicos que levaram os colonizadores a se deterem na regiao, teve nos aspectos religiosos a concretizacao de um projeto colonizador, pois foi esse atrativo simbolico que selou e inculcou a importancia do lugar entre a populacao local e seus visitantes.

Snead (2009: 44) lembra que a viagem por novos lugares e topografias e um processo de comprometimento entre pessoas e lugares, reafirmando compromissos. Nesse nucleo colonial, a agua e o ouro foram responsaveis por conferir a sacralizacao da terra na parte setentrional dessa regiao da sesmaria de Ururai, por meio do ato da Carpicao da Festa do Bonsucesso, atraindo pessoas de diversas regioes ora para a festividade, ora como moradores que tomaram, pouco a pouco, as terras doadas aos indigenas.

Se a agua foi o elemento que desde o periodo colonial estruturou o assentamento e sustentou diversos empreendimentos economicos ate os dias atuais em Guarulhos, em contrapartida o ouro conferiu uma riqueza simbolica, dado que a familia de Cubas Preto, maior detentora do poder local, possuia recursos economicos mas nao usufruia de seus bens para o luxo, ja que se encontravam em meio a uma populacao rural marginalizada pela pobreza, pela escravidao e o genocidio.

E, como diz o ditado "nem tudo que reluz e ouro" (Pearson, 1983), o empreendimento minerador em Guarulhos foi altamente impactante do ponto de vista social. Os grupos indigenas se desintegraram de seus lacos familiares e sociais sendo reduzidos a aldeamentos e outras formas de escravizacao de seus corpos e almas, a tal ponto que ja no seculo XIX sua total ausencia na Vila e tida como indicativo de progresso.

Mas se o genocidio em massa e a miscigenacao esporadica fizeram com que nomes e historias indigenas desaparecessem dos documentos historicos e da memoria social, sua presenca se faz valer por todas as regioes de Guarulhos por meio das toponimias de rios, caminhos e lugares. Assim como a agua que escorreu pelos rios, conferindo historias de lugares, o sangue indigena permeou pela terra, cravando no espaco e no tempo a historia de sua presenca.

Agradecimentos:

Agradecimentos aos companheiros de campo Sr. Elton Soares de Oliveira, Evandro Souza, Geronimo Luna Junior, Karin Shapazian e a Fapesp/Condephaat/SEC pelo financiamento do projeto.

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Claudia Regina Plens *

Vagner Cavalheiro Porto **

(*) Arqueologa, Professora do Departamento de Historia da UNIFESR

(**) Arqueologo, Professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Sao Paulo.

(1) Disponivel em: http://www.arqueologia.sites.unifesp.br/site

(2) Disponivel em: www.arqueologia.sites.unifesp.br/site

(3) Durante a vigencia do projeto PIPAG, dois artigos acerca da localizacao das minas de ouro foram publicados por Perez-Aguilar et alii, 2012 e Perez-Aguilar et alii, 2013. Vale ressaltar que anteriormente uma primeira pesquisa ja abordava as minas de ouro de Guarulhos: Juliani, C. et al, 1995.

(4) Reciprocidade e um conceito da sociologia forjado por Marcel Mauss em que as relacoes sociais sao simbolos com significados, que implicam em consideracoes reciprocas, expectativas e estrategias. Para saber mais, ver MAUSS, Marcel. "Ensaio sobre a Dadiva". In: Sociologia e Antropologia. Sao Paulo: EPU, 1974.

Caption: Fig. 1. Rua dos Jesuitas. Detalhe de configuracao espacial antiga. Fonte: google earth.

Caption: Fig. 2. Duto construido com pedras cortadas.

Caption: Fig. 3. Parede construida em pedras.

Caption: Fig. 4. Duto escavado em rocha.

Caption: Fig. 5. Area de respiradouro de dutos d'agua.

Caption: Fig. 6. Detalhe da Entrada de um duto.

Caption: Fig. 7. Mapa de distribuicao de ruinas de mineracao.

Caption: Fig. 8. Rotas antigas de Guarulhos. Adaptado de Instituto Geografico e Geologico (1950: 105).
Tabela 1: Tipologia de rotas de movimentacao adaptado
de Earle (2006: 255).

Rotas      Extensao    Periodo de   Volume   Construcao     Funcoes
           espacial    utilizacao

Trilhas      Local     Cotidiano    Baixo      Baixo       Logistico

Caminhos    Local e    Sazonal e    Medio      Baixo      Logistico e
           regional    periodico                          cerimonial

Estradas   Regional    Cotidiano,    Alto       Alto      Logistico,
            e longa    sazonal e                          cerimonial
           distancia   periodico                          e politico

Tabela 2: Localizacao das estruturas de mineracao de Guarulhos.
Fontes: Plens 2015 e Perez-Aguilar et alii, 2012 e Perez-Aguilar et
alii, 2013.

No.         COORDENADAS (UTM)

      Zona   LESTE         NORTE

1     23K    35 4258,222   7421691,321
2     23K    354178,451    7421136,843
3     23K    354187,241    7420244,868
4.1   23K    353966,4      7419111
4.2   23k    354014,6      7419023
5     23K    355022,1      7418541
6     23K    354545,047    7418525,789
7     23K    355569,625    7418320,510
8     23K    355801,339    7417861,363
9     23K    355665,203    7417347,648
10    23K    354077,875    7417659,402
11    23K    356785,747    7415933,021
12    23K    350949,223    7414228,547
13    23K    353262,725    7413222,221
14    23K    353533,816    7411877,504
15    23K    353961,016    7410819,746

No.             LOCALIDADE              ALTITUDE
                                        (m)

1             Fazenda Colegio           1000-1200
2                Progresso
3
4.1          Fazenda Soledade           926,76
4.2                                     944,587
5            Fazenda Soledade           913,692
6        Barragem -Lagoa de Pedra       876,013
7           Fazenda dos Franco          800-900
8
9     Dois Tanques/Lavras do Monjolo    921,758
10          Ribeirao das Lavras         849,45
11               Guaracau               800-900
12             Tanque Grande            828,602
13          Lavras do Fortaleza         815
14          Lavras do Seminario         787,707
15          Lavras do Jd Hanna          763,917

Tabela 3: Localizacao das ruinas de mineracao em
relacao a topografia, de acordo com Earle (2006).

Nivel          Casos        Altitude
                             metros

Extremo      1,2,3,5,9      1200-1000
Moderado   6,7,8,11,12,13    999-800
Baixo          14,15         799-700

Tabela 4: Tipologia de rotas de movimentacao adaptado
de Earle (2006: 255).

Rotas      Extensao          Extensao espacial          Rotas   Direcao
           espacial

Trilhas      Local         Ruina Mineracao n. 01
                           Ruina Mineracao n. 02
                           Ruina Mineracao n. 03
                           Ruina Mineracao n. 04
                           Ruina Mineracao n. 05
                           Ruina Mineracao n. 06
                           Ruina Mineracao n. 07
                           Ruina Mineracao n. 08
                           Ruina Mineracao n. 09
                           Ruina Mineracao n. 10
                           Ruina Mineracao n. 11
                           Ruina Mineracao n. 12
                           Ruina Mineracao n. 13
                           Ruina Mineracao n. 14
                           Ruina Mineracao n. 15

Estradas   Regional          Estrada do Satx'o
e           e longa      Estrada de Nazare Paulista
caminhos   distancia       Estrada de Sao Misuel
                       Caminho dos Pimentas (Estrada
                             do Caminho Velho)
                        Estrada Velha do Bonsucesso

                          Estrada de Santa izabel
                             Estrada do Bananal
                          Estrada Mato das Cobras
                          Estrada Velha do Cabucu
                          Estrada do Morro Grande
                            Estrada da Conceicao
                            Estrada do Itaberaba
                           Estrada do Sacramento
                           Estrada dos 7 Pecados
                             Estrada dos Veieas

Fluviais   Regional            Rio Baquirivu
            e longa
           distancia             Rio Tiete

Rotas      Transporte   Periodo de   Volume   Construcao    Funcoes
                        utilizacao

Trilhas       A pe      Cotidiano    Baixo      Baixo      Logistico

Estradas    A pe e a    Cotidiano,    Alto       Alto      Logistico,
e            cavalo     sazonal e                          cerimonial
caminhos                periodico                          e politico

Fluviais    A pe e a    Cotidiano,    Alto       Alto      Logistico,
            cavalo e    sazonal e                          cerimonial
           embarcacao   periodico                          e politico
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Author:Plens, Claudia Regina; Porto, Vagner Cavalheiro
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Article Type:Ensayo
Date:Jan 1, 2016
Words:8625
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