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"Adios soccer, here comes futbol!": Transnacionalizacao de comunidades esportivas Mexicanas nos Estados Unidos.

"Adios soccer, here comes futbol!": Transnationalization of the Mexican Sports Communities in the U.S.

Sao chamados de Necaxa, Tlatizapan, El Aguaje, Morelia, Toros ou Pumitas. Nos ultimos anos centenas de clubes amadores de futebol proliferam-se por todas as partes. Isso tem ocorrido nos Estados Unidos (EUA), pais em que esportes como beisebol, futebol americano e basquetebol tem, tradicional e historicamente, dominado a cena esportiva nacional. Dados clubes, que trazem nomes das comunidades de origem mexicana de jogadores ou de equipes populares do Mexico, atualmente caracterizam a paisagem urbana com pelejas futebolisticas dominicais, tanto em grandes cidades das costas leste e oeste dos EUA quanto nas da regiao sul e tambem naquelas do cinturao industrial do entorno dos Grandes Lagos.

Nessas regioes, tais equipes associam-se em ligas proprias, independentes das ligas anglo-saxas. Um exemplo e a Alianza de Futbol Hispano, fundada em 2004, a qual se vangloria de representar 200 mil jogadores de futebol e suas familias em todo o territorio estadunidense. (3) Em outros aspectos, esses grupos formam um mundo esportivo a parte, uma vez que o futebol hispanico (hispanic soccer) e jogado de acordo com regras e estilos distintos da variante 'gringa' (ou norte-americana). Alex Flores, presidente da Liga de Futbol Inter Latinos, assim explica: "Como nos latinos nao somos muito altos, jogamos mais proximos ao solo, com toques mais curtos e muitos passes, sem chutes longos ou mesmo jogo aereo, caracteristicas do jogo anglo-saxao". (4)

Estariamos presenciando uma "latino-americanizacao" esportiva dos EUA atraves do futebol? E, em caso afirmativo, isso ocorreria pois os migrantes mexicanos seriam ferrenhamente apegados as tradicoes e tambem as identificacoes esportivas de seu pais de origem? Se observarmos detidamente tal fenomeno, a simples cadeia causal se complexifica: nativos mexicanos habitantes dos EUA = mesmas preferencias esportivas que os mexicanos = futebol como esporte nacional.

Ja ha algum tempo certas empresas norte-americanas tambem intervem no mundo do futebol latino. Ha tres anos, por exemplo, a famosa Lowe's--do setor de decoracao de interiores--patrocina um campeonato no qual varias equipes masculinas (de jovens e de adultos hispanicos) se enfrentam em 11 cidades, em sistema de alternancia entre elas, por semanas seguidas. Nas finais da Copa Lowe's, equipes semiprofissionais jogam contra as profissionais mexicanas propriamente ditas. (5) Mike Robinson, diretor-geral da empresa de marketing La Verdad, de Cincinnati, destaca por que tambem outras companhias norte-americanas investem nesse tipo de torneio nacional: "O segredo e cooptar hispanicos onde normalmente se encontram. Eles estao em quadras e nao em centros comerciais que tem botiques de luxo". (6)

Por outro lado, o governo mexicano tambem dirige suas atencoes aos migrantes futebolistas. Desde fins dos anos 1990 tem organizado, para os mexicanos esportistas amadores, a Copa Mexico dentro dos EUA. (7) Alem disso, o excentrico empresario Jorge Vergara, de Guadalajara, pela primeira vez montou uma equipe de futebol norte-americana, vendendo-a como um icone desportivo do patrimonio cultural mexicano. Seu time Chivas USA compete, desde 2005, na Liga Principal de Futebol dos EUA (US Major League Soccer--MLS) com outras equipes estrelas dos EUA. A intencao por tras dessa acao e estimular os hispanicos a se identificarem com a equipe e, por meio de suas devocoes ao esporte, influenciarem a competitividade e a qualidade tecnica no interior da MLS, convertendo os EUA em uma nacao do futebol. (8)

Esporte, migracao e "mexicanidades"

Grupos de atores sociais (de ambos os lados da fronteira Mexico-EUA) interferem nesse hispanic soccer, e isso prova que o gramado futebolistico se converteu em um espaco central no qual se colocam em cena e se negociam questoes de identidades (nacionais) e organizacoes sociais, assim como e palco de integracao cultural. (9) Tambem outros esportes dos mexicanos-americanos sao expressao de novas realidades demograficas, sociais e economicas nos EUA, como mostra uma primeira compilacao acerca do tema. (10) A explicacao para isso e a rapida mudanca das coordenadas da migracao mexicana, que desde os anos 1970 cresceu estrondosamente. Atualmente, os cerca de 27 milhoes de mexicanos representam o maior grupo imigrante dos EUA, representando 9% da populacao total. Devido a complexa combinacao de diversos fatores, tal corrente migratoria continua em franca ascensao. Desde os anos 1990, sobretudo, muitos desses migrantes se deslocam a novos destinos na costa leste e no sudeste dos EUA, fato que tem transformado, substancialmente, a composicao e a dinamica etnicas nessas regioes. Alem disso, dadas as caracteristicas das ondas migratorias, tanto os grupos denominados "hispanicos" quanto os chamados de "mexicanos", ou "mexicanos-americanos", sao, em realidade, grupos muito heterogeneos. (11)

Cientistas e politicos populistas de direita, por sua vez, instrumentalizam homogeneizacoes em tais categorias a fim de provocar temores sobre "a" populacao estadunidense ante uma suposta transformacao cultural nociva da propria sociedade. (12) De outra parte, cientistas "transnacionalistas" argumentam que, com a ajuda de novas praticas culturais, os mexicanos etnicos (13) driblam as intervencoes dos Estados nacionais--tanto de seu pais de origem como do pais de destino--, escapando, dessa forma, da discriminacao e da subordinacao de classe (e "racial") na sociedade norte-americana. Habitantes de grandes cidades (e mesmo de povoados) no Mexico mantem relacoes sociais duradouras com seus parentes e amigos nos EUA, impulsionadas pela globalizacao dos mercados de trabalho, por novos meios de comunicacao e por dinamicas globais de difusao cultural. Consequentemente, os imigrantes sao ativos, tomam decisoes, assim como formam novas comunidades dentro de um espaco transnacional constituido por tais redes. (14)

David Gutierrez (15) faz mencao a uma partida de futebol que aconteceu em fevereiro de 1998, em Los Angeles. No momento em que a equipe nacional mexicana ganhou dos EUA pelo placar de 1:0, a maioria dos mais de 90 mil espectadores do estadio gritava de alegria. Alguns jogadores do time norte-americano se queixaram amargamente de que aquela nao era uma partida "em casa", pois o jogo aconteceu em uma cidade onde se estima em 50% o numero de hispanicos na composicao da populacao. Para o autor, o "drama simbolico" dessa partida e sinal da atual "desestabilizacao de concepcoes uniformes de comunidade, cultura, nacionalidade e, inclusive, da ideia de 'nacao territorial'". (16) Como resposta a sua homogeneizacao e subordinacao, os imigrantes mexicanos criaram novas praticas culturais que amalgamam suas tradicoes com valores da sociedade estadunidense, constituindo, assim, um terceiro espaco (a third space) que transpoe as fronteiras de ambos os Estados nacionais.

Na mesma linha argumentativa acham-se os trabalhos sobre a cultura mexicana do futebol na regiao dos Grandes Lagos, do lado americano. (17) Desde os anos 1920, os migrantes mexicanos se organizam em agrupamentos de vizinhos, e em pequenas comunidades, por meio do futebol. Mediante a cooperacao esportiva com grupos de imigrantes europeus (que trouxeram pela primeira vez o futebol aquela area), fizeram-se respeitar e sao apreciados pela sociedade em geral. O autor sublinha que tais atores agregaram ao ocio futebolistico valores da classe trabalhadora estadunidense, conferindo-lhe uma nova interpretacao. Nesse processo ressaltaram valores como disciplina, masculinidade, individualidade e competencia. Posto isso, Pescador, com razao, desvirtua a hipotese de que o boom futebolistico nos EUA deve-se ao fato de que os praticantes imigrantes seguiriam ferrenhamente as tradicoes de seu pais de origem. Em contrapartida, nao oferece uma explicacao sobre a forte e pronunciada influencia mexicana no futebol desenvolvido nos EUA. Os jogadores desse hispanic soccer nominam seus times segundo suas comunidades de origem e ate mesmo com nomes de equipes profissionais mexicanas; e com frequencia, inclusive, recrutam novos talentos esportivos do pais vizinho. Assim, resta a questao: por que um crescente numero de imigrantes reforca as relacoes com suas comunidades de origem (e mesmo sua patria) por meio do futebol?

Uma analise que toma o esporte como ponto de partida pode desvelar dinamicas da identidade social nos EUA latino-americanizados. Pesquisas sobre etnologia do esporte, com vieses historicos e transnacionais, mostram de que modo atores sociais--particularmente sob os efeitos da globalizacao--utilizam a pratica esportiva para dirimir conflitos sociais pelo controle do corpo fisico e como, simultaneamente, contestam as identidades sociais, os papeis de genero, as atribuicoes etnicas e nacionais existentes, renegociando-os. (18) Tanto a classe dominante como as dominadas souberam aproveitar as possibilidades que oferece o esporte como ordem de conhecimento que se transmite atraves do corpo, ou seja, o esporte e mais acessivel do que conhecimentos que estao mais estreitamente articulados com uma formacao institucional; e tambem o esporte goza de uma grande aceitacao, seja porque e percebido geralmente como 'apolitico', seja por ser visto alijado de interesses economicos.

Os representantes das potencias coloniais trataram, a miude, de evitar de antemao a resistencia dos colonizados, tentando pressiona-los por meio de seu esquema de "racas", nacoes e classes, justamente por meio de praticas cotidianas como o esporte. De outra parte, os oprimidos transformaram os esportes introduzidos em espacos sociais a fim de "colocar em cena os antagonismos de situacoes coloniais e pos-coloniais e de lhes dar uma solucao imaginaria". (19) Por assim dizer, os esportistas aficionados "reinventam-se" atraves da pratica esportiva, "conscientemente como atores de mudanca cultural". (20)

Dessa forma, por meio do futebol jogado nos EUA, poder-se-ia dizer que os esportistas hispanicos efetuam uma inversao simbolica comparavel a das relacoes de poder no ambito societal? Expressariam, atraves daquela modalidade, um novo conceito de "mexicanidade"? A seguir abordaremos tais questoes e, alem disso, partindo de uma perspectiva historica do contexto dos anos 1940 e da atualidade, analisaremos o desenvolvimento do futebol tanto no Mexico quanto nos EUA--particularmente em respeito ao segundo potencial "esporte nacional" mexicano: o beisebol. (21)

Apropriacoes regionais do beisebol e do futebol: o caminho mexicano em direcao a um esporte nacional

A instrumentalizacao do futebol (por parte de diferentes grupos de atores), descrita anteriormente, transmite a imagem de uma longa tradicao futebolistica nacional. No entanto, se analisado detidamente, o Mexico e um pais dividido em relacao as suas paixoes esportivas, mesmo quando o futebol tem ganhado espaco: somente no centro do pais ha um dominio indiscutivel do esporte-rei; o norte e o sudeste mexicanos mostram uma preferencia pelo beisebol marcada pelo regionalismo. Se efetuado um upgrade temporal, hoje tal questao e atravessada pela politica e pela economia: em 2006, por exemplo, o candidato a presidencia Andres Manuel Lopez Obrador--originario de Tabasco--pediu publicamente ao empresario das telecomunicacoes da capital, Carlos Slim, que sua empresa (Telmex) patrocinasse, alem das mais de 15 mil equipes de futebol, tambem os times de beisebol. (22)

Aqui se faz necessaria uma explicacao sobre por que o beisebol, que nos anos 1950 ainda superava o futebol em popularidade, posteriormente, acaba se tornando um esporte secundario. Pouco tempo depois que Alexander Joy Cartwright propos as regras do jogo moderno em Nova Iorque no seculo XIX, o beisebol tambem se converteu em um esporte local na Peninsula de Yucatan. Trabalhadores cubanos adotaram-no por volta de 1860, e tanto integrantes da elite nacional yucateca (que em parte haviam estado nos EUA) como tambem muitos outros trabalhadores passaram a pratica-lo rapidamente. (23)

Ao norte do Mexico algumas companhias norteamericanas, que durante o Porfiriato (24) investiram na mineracao e na construcao ferroviaria, patrocinaram o beisebol com o intuito de transmitir aos empregados valores como espirito de equipe, considerados por elas imprescindiveis para a construcao de uma moderna sociedade industrial. Os habitantes dessa regiao adotaram o esporte rapidamente como parte de um estilo de vida moderno, e Wallace Thompson (editor de uma revista) constatou: "foi o que mais proximo chegou o Mexico de ter um esporte 'nacional'". (25) Alem disso, nos estados norteamericanos proximos da fronteira, constelacoes de poder e motivacoes semelhantes contribuiram, desde os anos (1920), para que migrantes de origem mexicana (em sua maioria, trabalhadores da agroindustria) jogassem, sobretudo, beisebol. (26)

Empresas--como a produtora de citricos Sunkist--, patrocinavam a criacao de equipes de beisebol entre os trabalhadores mexicanos temporarios com o intuito de incrementar a produtividade desses e angariar suas respectivas lealdades. No sul da California, por exemplo, os habitantes de comunidades mexicanas e de bairros urbanos logo fundaram inumeros clubes, que jogavam entre si.

Esse perceptivel isolamento pode ser relacionado com a pratica da segregacao, propria do mundo esportivo dos EUA. Ate 1947 negava-se o acesso de jogadores afroamericanos e latinos de pele escura aos clubes profissionais que competiam na MLS. Entretanto, com a ajuda de equipes de beisebol proprias, o grupo heterogeneo de mexicanos que haviam sido naturalizados como consequencia da guerra entre Mexico e EUA, os mexicanos-americanos e os imigrantes recentes reposicionaram-se diante dos conflitos "raciais" e de classe. Atraves do beisebol, tais individuos manifestaram uma consciencia etnica comum, uma solidariedade comunitaria e um comportamento masculino que, dessa forma, se faziam respeitar. Alem disso, ligaram o beisebol as suas vidas cotidianas nos EUA. Os imigrantes (homens na maior proporcao) reproduziam e reforcavam, na arena masculina do beisebol, a dominacao masculina do mundo laboral agroindustrial. (27)

Os mexicanos de ambos os lados da fronteira transformaram o beisebol, nesse periodo, em um fenomeno transnacional. Equipes mexicanas cruzavam regularmente a fronteira a fim de participarem de competicoes no sudoeste dos EUA. Jorge Pasquel, um empresario milionario da capital mexicana, patrocinou o beisebol do pais asteca com grande apoio financeiro, a partir dos anos 1940, influenciado por um sentimento de nacionalismo mexicano e pela ideia de desafiar os EUA, no ambito esportivo, de igual para igual. Apropriando-se da pratica de segregacao nos EUA, comprou jogadores-estrelas afro-americanos para equipes mexicanas; em 1949, inclusive, passou a alistar jogadores brancos. Dessa forma, conseguiu um rapido incremento na qualidade--e mesmo na popularidade--da Liga Mexicana de Beisebol. Mexicanos de ambas as partes da fronteira expressaram, por meio de seus apoios a essa liga, um sentimento de pertencimento transnacional. Por certo tempo, a manobra empreendida pelo empresario funcionou a contento. Contudo, sua politica agressiva de recrutamento de jogadores de outros clubes provocou uma contramedida por parte das ligas estadunidenses, que frearam seu ambicioso projeto. (28)

O futebol, naquela epoca um esporte sem importancia tanto no Mexico quanto entre os migrantes nos EUA, impos-se, primeiramente, em algumas cidades industriais do centro do Mexico nas quais as empresas britanicas possuiam hegemonia na mineracao e na industria textil. No entanto, em meados do seculo XX, trabalhadores britanicos especializados jogavam entre si do mesmo modo como ja ocorria em outros lugares da America Latina. Nos anos 1920, a exclusivamente britanica Liga Mexicana de Football sofreu uma derrocada decisiva no momento em que, pela primeira vez, clubes espanhois passaram em quantidade os britanicos.

Os clubes mexicanos, por sua vez, tambem se multiplicaram, principalmente gracas a membros de classes altas que haviam estudado (ou trabalhado) em paises europeus. Algumas companhias, sindicatos e instituicoes governamentais mexicanos financiaram tais clubes. Quando futebolistas espanhois e mexicanos comecaram a manifestar orgulho nacional atraves das partidas e menos ressentimentos entre si, o futebol experimentou uma fase de intensa popularidade. A disputa entre esses grupos estava intimamente relacionada com a posicao da Espanha como potencia colonial. Os mexicanos atualizaram esse antagonismo em vista do crescimento da comunidade espanhola e sob os auspicios de seu predominio em determinados setores economicos. Dois clubes de classe baixa na capital--Necaxa e Atlante--ficaram bastante populares justamente por triunfar sobre equipes espanholas e ate hoje continuam sendo importantes. Com o tempo, as equipes de futebol dirimiram menos os antagonismos etnicos do que os de classe. (29)

Nos anos 1960, o futebol ganhou em popularidade em relacao ao beisebol em terras mexicanas, fenomeno no qual a televisao, o novo meio de comunicacao da epoca, exerceu papel fundamental. Por exemplo, quando em 1950 a primeira emissora comecou a trabalhar na Cidade do Mexico, inclusive esportes como o boxe, as corridas de touros e mesmo a luta livre cativaram muitos seguidores. Nao obstante, os esportes que se adaptavam com grande rapidez a transmissao televisiva cresciam em importancia.

Alem disso, a televisao estabelecida na capital demonstrava maior interesse de difusao de esportes que eram mais populares no centro do pais do que nas demais areas, apoiando financeiramente, sobretudo, campeonatos nacionais com vistas a transmitir os jogos. Esse processo a favor do futebol experimentou um estimulo adicional com as celebracoes dos Jogos Olimpicos de 1968 e da Copa do Mundo de Futebol de 1970, ambos na Cidade do Mexico, mediante os quais as imagens do futebol obtiveram um marco de prestigio e foram difundidas, de forma intensiva e em nivel suprarregional, atraves do entao popular meio de transmissao: a televisao. (30)

Mundos esportivos paralelos nos EUA e praticas de empoderamento

No passado o futebol tinha um status marginal e de menor importancia tambem nos bairros mexicanos do meiooeste americano. Uma das razoes de tal fato era de a maioria dos imigrantes mexicanos originarem-se de comunidades rurais onde, costumeiramente, se jogava o balompie. (31) Apesar disso, Chicago era excecao no cenario nacional norte-americano: as estruturas esportivas e as de atividades de lazer existentes na cidade giravam em torno do futebol e tinham sido fundadas por britanicos e outros imigrantes europeus (como irlandeses, checos, poloneses e croatas). A cidade ate hoje tem a liga de futebol mais antiga dos EUA e segue sendo o centro nacional da modalidade. (32)

Os imigrantes mexicanos em Chicago se adaptaram a essa estrutura e fundaram, no ano de 1927, o clube futebolistico Necaxa, em uma referencia historica a um que fora criado em 1923, na capital mexicana. Os membros desse clube se associaram, nos anos 1940, a uma liga amadora de imigrantes europeus--a Liga Nacional de Futebol de Chicago (Chicago National Soccer League--CNSL), a qual se converte em uma liga mexicana-europeia. Assim, dentro dessa organizacao surgiu uma estrutura competitiva que seguiu uma logica nacional similar aquela existente (a epoca) entre equipes mexicanas e espanholas no Mexico: a equipe mexicana competia com as demais compostas de imigrantes europeus. Isso ocorreu com exito, e tal equipe subiu ate a divisao mais alta daquela liga. Contudo, atualmente na CNSL enfrentam-se, por exemplo, Deportes Colomex com FC Romania ou com FK Bosanska Dubica, (33) equipes amadoras ou semiprofissionais que nao sao tao expressivas. As rivalidades esportivas se desenvolveram ao longo das mesmas linhas etnicas que conformavam o mundo laboral da industria pesada do aco, em que mexicanos e europeus competiam aguerridamente por postos de trabalho. O processo de integracao nas ligas americanas de futebol foi mais facil para os migrantes que o praticavam do que para aqueles que jogavam beisebol, modalidade que se negou, formal e informalmente, a ceder espaco a participacao desses individuos.

Alem disso, os imigrantes usavam os clubes de futebol (como o Necaxa, por exemplo) para reestruturarem seus momentos de ocio e lazer, ampliando-os com atividades sociais que iam alem do esporte em si. As equipes, os meios de comunicacao locais, os empresarios mexicanos e uma incipiente industria "etnica" do entretenimento promoviamse mutuamente em tal desenvolvimento, ja que cada um se beneficiava da cooperacao. Algumas empresas, visando principalmente a populacao mexicana (sobretudo restaurantes, lojas de cosmeticos, charcutarias, (34) armazens de bebidas e emissoras de radio em lingua espanhola), cofinanciavam os clubes de futebol, desejosos por conquistar os fanaticos do esporte como possiveis clientes. Os novos modelos de consumo, dessa forma, participavam do modus cultural mexicano, mas se orientavam por influencias norte-americanas, formando parte de um novo estilo de vida dos migrantes e de seu estabelecimento duradouro nos EUA. (35)

Paralelamente alguns imigrantes mexicanos se utilizaram dos clubes esportivos para construir (ou reforcar) redes transnacionais duradouras entre seu pais de origem e a comunidade de destino. Tais redes sociais facilitaram e promoveram a decisao de migrar e, portanto, aceleraram, no transcurso de uma geracao, a continuidade do movimento migratorio.

Douglas Massey e colaboradores (36) descrevem esse processo para o caso dos emigrantes da cidade industrial de Santiago, Jalisco, que se concentraram, principalmente, em Los Angeles (LA). A fundacao oficial de um clube de futebol lhes permitiu cobrar taxas de filiacao aos membros e melhorar rapidamente a qualidade da equipe amadora. Por sua vez, as vitorias obtidas em jogos motivaram a quase totalidade dos oriundos de Santiago a aderirem ao clube, que conseguiu assegurar um campo de treinamento em um parque publico de LA, o qual se tornou um espaco de encontros fixos dos migrantes residentes da (e tambem dos que chegavam a) cidade. Mais tarde, compraram casas nas redondezas, transformando o espaco, ao longo dos anos, em "seu" bairro. Motivados pela pressao de exito, os treinadores da equipe de futebol buscaram na comunidade de origem no Mexico mais jogadores com talento, inclusive lhes pagavam o "coyote" (37) para que conseguissem transladar o espaco da fronteira e fazer parte de sua equipe. (38)

Os mexicanos-americanos conquistaram, atraves do futebol e de outros esportes jogados em equipe, um espaco social de convivio e, atraves desse, atacaram as estruturas de ocio existentes nos EUA, modificando-as. (39) Antes da Segunda Guerra Mundial, justamente nos parques, nas piscinas e em outros estabelecimentos publicos ocorria a segregacao social de acordo com o conceito de "raca" dominante, sendo o acesso negado aos mexicanos. Esses se viam obrigados a se deslocar para terrenos baldios ou para localidades agricolas abandonadas. Ate hoje em dia se discriminam (veladamente) jogadores de futebol hispanicos, negando-lhes acesso aos parques publicos de lazer e entretenimento. (40)

A falta de instalacoes atrativas para o tempo livre influenciou futebolistas mexicanos de Chicago e regiao a abandonarem a CNSL e a fundarem em 1968, pela primeira vez, uma liga propria que passou a ser chamada de Associacao de Futebol Latino-Americano de Chicago (Chicago Latin American Soccer Association--Clasa). A decisao foi desencadeada pelo descontentamento dos futebolistas imigrantes mexicanos com o fato de que os delegados de origem europeia monopolizavam a liga e favoreciam suas equipes. Atraves da Clasa, os mexicanos abriram caminho a trinta parques publicos e a mais de quarenta campos de futebol. (41) Dessa maneira, transfor maram os parques em lugares de encontros permanentes das familias mexicanas de toda a regiao. Essas, por sua vez, estruturaram suas atividades recreacionais dominicais em torno das partidas de futebol ai organizadas, convertendo tais jogos em eventos centrais.

A transnacionalizacao do futebol a partir da decada de 1990

Desde os anos 1990 a migracao vinda da America Latina tem se intensificado: aproximadamente a metade dos oriundos do Mexico e dos hispanicos que vivem nos EUA se moveu para esse pais a partir dessa decada. Tal onda migratoria tem novas caracteristicas: primeiro chegava, sobretudo, das regioes que se encontravam em guerra civil (notadamente Honduras, El Salvador, Guatemala e Colombia) e, mais tarde, provinha do Mexico e do Equador, paises atravessados por intensas crises economicas e financeiras.

Os imigrantes, por sua vez, vem de paises com uma clara preferencia pelo futebol como esporte. Com respeito a esse aspecto, ha que levar em conta a hipotese segundo a qual os latinos, atualmente, servem-se do futebol (esporte internacionalmente com grande apelo e bastante popular no hemisferio sul) para "sustentar uma conexao profunda e duradoura com a America Latina", que se torna um marco cultural a partir do qual eles forjam "um incipiente sentido de patria em terras norte-americanas". (42) Grande parte desses imigrantes se dirigem a cidades e regioes estadunidenses sem qualquer tradicao de colonizacao de hispanicos. Entretanto, os migrantes de diferentes origens e de distintas geracoes e classe sociais usam o futebol de modo intencional como um recurso que cria comunidade. Atraves da modalidade tentam melhorar a qualidade do tempo de lazer em suas novas areas de moradia, fazer trabalho comunitario ou obter acesso a consumidores hispanicos. Alem disso, o futebol tambem foi descoberto pelos trabalhadores comunais, pelos centros de formacao, pelas organizacoes juvenis, pelas instituicoes sem fins lucrativos, pelas instituicoes sociais publicas, pelos meios de comunicacao de massa e pelas empresas nao etnicas. A atual politica norte-americana, de sua parte, trata de integrar os migrantes que vivem ha muito tempo no pais com seus descendentes. Desse modo, recorre-se ao futebol dentro do espaco do trabalho comunitario fomentado pelo Estado a fim de agregar os latinos.

Pode-se, assim, levantar alguns dados quantitativos significativos que identificam o crescimento do futebol via comunidade latina como um boom: ha uma decada, a Liga de Futebol Inter Latinos, com sede em Columbus (Ohio), reunia menos de uma dezena de equipes. Em 2006, por sua vez, contava com 92 times e 1.800 jogadores. Em Raleigh (Carolina do Norte), existia no ano de 2000 apenas uma liga hispanica. Em 2006, o numero sobe para quatro ligas, que reuniam 40 equipes e 1.300 jogadores. Ao passo que as ligas proprias oferecem vantagens ao serem usadas como formas de empoderamento, as ligas separadas predominam tanto no ambito amador como no semiprofissional. Dr. Tim Wallace, presidente da liga de Raleigh, explica: "ha vinte anos se podia encontrar alguns clubes hispanicos isolados nas ligas gringas, mas agora se impoe o modelo das ligas separadas". (43)

Os grupos de atores heterogeneos produziram um mundo futebolistico de grande diversidade. Os novos imigrantes comecam, minimamente, a jogar futebol sob condicoes semelhantes aquelas com que iniciaram os mexicanos, nos anos (1920) : em contextos informais, nos chamados sandlot teams (44) e beer leagues. (45) Os recemimigrados utilizam a oportunidade de participacao nessas equipes como primeiros contatos, estabelecimento de relacoes sociais, identificacao de locais para se alojarem ou trabalharem e, sobretudo, para se inserirem como jogadores atraves da linguagem internacional do futebol. Um dos problemas mais urgentes de tais times e exatamente garantir o espaco da pratica esportiva em um campo com dimensoes regulamentares, em parques publicos urbanos. (46) Tal empenho segue sendo uma importante motivacao para a formalizacao das organizacoes de futebol e para a criacao de ligas, cujos membros podem falar espanhol entre si e pagar contribuicoes mais baixas do que as que sao costumeiramente cobradas nas ligas estadunidenses.

O outro extremo esta conformado pelos mexicanosamericanos da primeira e da segunda geracoes. Suas condicoes de vida nos EUA melhoraram demasiadamente, principalmente em decorrencia do Ato de Controle e Reforma Imigratoria (Immigration Reform and Control Act), de 1986, que promoveu a legalizacao dos migrantes que ja viviam permanentemente no pais, assim como o reagrupamento familiar. A antiga relacao numerica entre homens e mulheres imigrantes (na qual os primeiros eram numericamente superiores) se equilibrou; a maioria deles vive em familias e a tendencia de uma permanencia prolongada aumentou consideravelmente. Pode-se dizer que os imigrantes da primeira geracao conseguiram certa prosperidade, ocupando com exito determinados nichos economicos de mercado, ao passo que a geracao atual sofre com piores condicoes no que diz respeito a educacao escolar, ao trabalho e ao perigo de se envolver em grupos delinquentes juvenis. (47) Aqueles que conquistaram uma situacao de bemestar contribuem com o boom futebolistico financiando as equipes. Eles esperam obter prestigio dentro da comunidade hispanica por meio da posse de uma equipe vencedora. Para tal proposito, investem em campos de treinamento, uniformes de futebol e seguros-saude para jogadores, mesmo sem ter ainda a seguranca de valer a pena do ponto de vista financeiro. (48) Dessa forma, um empresario mexicanoamericano se permite financiar, por exemplo, a Diaz Mexican Soccer League, em Nova Iorque (a qual leva seu nome), e o industrial Mario Calleros, em Chicago, faz o mesmo com a equipe El Nacional. Essa, por sua vez, conquistou em 2006 o primeiro lugar nos torneios nacionais da Copa Tecate e da Copa Lowe's. (49)

Empresas etnicas ou nao etnicas, meios de comunicacao hispanicos e grandes ligas cooperam na organizacao e no financiamento de campeonatos regionais e nacionais custosos. A cadeia de supermercados Food City e a cervejaria mexicana Tecate, entre outras, aproveitam os eventos nacionais como meios de publicidade para conquistar "o maior mercado hispanico do mundo". (50) Na Copa Tecate, o "maior campeonato de futebol hispanico", competiram em 2006 mais de 2.700 equipes em 22 cidades, tendo o El Nacional de Chicago ganhado a final e o premio de US$ 15 mil. (51) Tais competicoes desestabilizam a antiga estrutura de conviccoes das equipes amadoras de niveis local e regional: muitos jogadores viajam horas a fio, uma parte do ano, como semiprofissionais a fim de participarem em tais eventos, recebendo por jogo uma quantia fixa, apesar de nao poderem contar unicamente com o futebol para sobreviverem.

Por outro lado, o Club Mexico de Chicago e um exemplo da combinacao de futebol com o trabalho comunitario e o trabalho com jovens. Carlos Cerrasco, oriundo do estado de Durango, participou das fundacoes tanto de uma organizacao comunitaria para os latinos no estado de Illinois quanto do clube de futebol, em 1996, (52) apesar do fato de Cerrasco nao ter experiencias com futebol nem com o trabalho com jovens. Tudo ocorreu, em verdade, quando seu filho entrou na adolescencia e ele quis oferecer aos jovens uma alternativa em relacao a criminalidade vigente nos grupos juvenis. Cerrasco, entao, fundou o Club Mexico como um espaco para praticas esportivas de adolescentes no oeste de Chicago, no bairro de Las Villitas, local de maior localizacao de imigrantes mexicanos do meio-oeste americano.

Ricardo Diaz, um ativista politico de origem mexicana--que em 2006 organizou os protestos contra o recrudescimento das leis de imigracao--, inaugurou, por sua vez, o clube de futebol Amistad, no sul da Philadelphia, como "pretexto" para o trabalho comunitario. Mesmo sendo maioria, os recentes imigrantes mexicanos nao contam com uma estrutura comunitaria minima, segundo Diaz. Portanto, o Amistad funciona, de acordo com ele, como um tipo de infraestrutura que lhe permite vislumbrar as necessidades de tais imigrantes e informa-los sobre o servico medico gratuito e seus direitos ante as novas leis de imigracao. (53)

Um sentimento de pertencimento entre o grupo heterogeneo de imigrantes apenas se cristaliza mediante um projeto comum. O interesse emerge rapidamente com relacao ao pais de origem, e tais comunidades engajamse em projetos de auxilio financeiro movidos pelos clubes de futebol. Os membros do Clube Ciudad Hidalgo, de Chicago, por exemplo, contribuem financeiramente, principalmente, com a cidade de mesmo nome, em Michoacan. Encarregaram-se da renovacao ou da reconstrucao da igreja nesse lugar, do colegio, do centro juvenil, da creche e da area de esportes. O radio e a televisao de Chicago comunicam, frequentemente, seu compromisso social exemplar, fomentando, assim, o orgulho de ser membro do clube. (54) Esse direcionamento da atencao em relacao ao Mexico nao esta motivado, em primeiro lugar, pela nostalgia. Como grande parte da populacao economicamente ativa (55) vive nos EUA, as comunidades mexicanas exigem dos migrantes, cada vez mais, auxilios financeiros para a manutencao da propria comunidade. (56)

Sobretudo nos novos destinos migratorios, os imigrantes mexicanos atribuem ao futebol um papel-chave. Em Dalton, Georgia (sudeste dos EUA)--que se vangloria de ser a 'capital mundial do carpete'--, durante um periodo de grande prosperidade na economia norte-americana e do consequente boom do setor relacionado a construcao civil surgiu uma enorme demanda por mao de obra barata. Na decada de 1990, no distrito mencionado, a porcentagem de hispanicos cresceu de 3 a 22%; atualmente, a metade dos trabalhadores da industria do carpete e hispanica. Em poucos anos, os imigrantes criaram (e praticamente do "zero") a Liga Mexicana de Futebol, uma organizacao de centenas de jogadores. Alguns migrantes, que antes se encontravam ativos nas ligas de futebol de Los Angeles, foram os responsaveis pela organizacao criteriosa, incluindo endereco proprio, aluguel de escritorio e ate contratacao de um tesoureiro. Tal liga foi considerada um dos ganhos mais significativos da jovem comunidade. (57) Segundo esses autores, isso mostraria como os atores usavam os recursos, as informacoes e o conhecimento que haviam adquirido como migrantes (temporarios e permanentes) a fim de rapidamente edificar, em um novo contexto, estruturas comunitarias.

Entretanto, pode-se dizer tambem que os empresarios locais nao hispanicos desempenharam um papel importante nessa bem-sucedida experiencia. Eles patrocinaram a manutencao de varios campos de futebol com dinheiro da exploracao da mao de obra barata dos recem-chegados: os trabalhadores imigrantes mexicanos, ao chegar, se conformam com salarios baixos. Tal fato e bem distinto do que ocorre, por exemplo, com a geracao dos trabalhadores localizada nos arredores dos Montes Apalaches, costa leste americana. Esses travam uma batalha judicial desde 2006 contra a produtora de carpetes Mohawk Industries, que e acusada por eles de contratar intencionalmente imigrantes ilegais mexicanos. (58)

Ainda que equipes hispanicas amadoras levem nomes de suas comunidades de origem, elas possuem um carater bastante inclusivo e, tendo-se em conta o exito esportivo, integram jogadores de uma serie de nacoes, como, por exemplo, do Mexico, do Brasil, da Guatemala, da Bosnia e da Somalia. (59) Isso nos adverte, previamente, para nao olharmos os clubes com lentes etnicas. Segundo Marcos Garcia--presidente de uma liga de futebol hispanica com uma maioria de salvadorenhos da regiao de Boston--, os torcedores fanaticos se orientam por um patriotismo local em relacao a equipe de sua comunidade de origem, mas nao os incomoda a "composicao multinacional", por assim dizer, dessa comunidade. "Ao contrario", relata, eles inclusive tratam especialmente os jogadores "de fora" como uma especie de "filhos adotivos" do time local. Essa projecao imaginaria a partir da localidade corresponde a ideia de nacao no mundo futebolistico profissional. Consequentemente, as equipes amadoras de futebol apresentam um efeito integrador para a comunidade hispanica sem desenvolver, explicitamente, o tema da multinacionalidade ou de uma identidade latinoamericana atraves do nome da equipe, do simbolismo visual ou de um nivel discursivo qualquer.

A posicao das mulheres no futebol, por seu turno, segue sendo marginal. No entanto, pela primeira vez em anos, algumas delas sao dirigentes de equipes masculinas e chegaram a se organizar como jogadoras em clubes e ligas. Em 2002, por exemplo, fundou-se em Nova Iorque uma liga feminina, a Liga de Futebol Internacional (International Soccer League), denominada de acordo com a homologa masculina correspondente. Em 2003, competia nela o consideravel numero de 12 equipes. As jogadoras mexicanas, peruanas, equatorianas e de outros paises latinoamericanos haviam imigrado aos EUA, em sua maioria, apenas ha dez anos ou menos. Haviam, sobretudo, aprendido o futebol la, uma vez que tal esporte era, em seus paises de origem, "tao guiado por testosterona e tao machista como o futebol americano nos proprios EUA", como explica uma jornalista a seus leitores, no jornal Puerto Rico Herald. (60) O futebol feminino e tratado na vida publica de todos os paises latino-americanos com negligencia, a excecao do Brasil; por exemplo, a equipe nacional mexicana ocupa, atualmente, somente o 22 lugar no ranking mundial da Fifa. (61) Ao contrario, nos EUA, a maioria percebe o futebol como esporte feminino e, em nivel mundial, as futebolistas americanas ocupam o segundo lugar, depois das alemas.

As latinas, por sua vez, poderiam se orientar pelo futebol-modelo e desestabiliza-lo como "ritual masculino dado, que forma parte da socializacao na America Latina". (62) Nao obstante, e indiscutivel que durante muito tempo as mulheres foram marginalizadas no universo futebolistico dos migrantes, como ja destacamos, pois nesse espaco se valorava a masculinidade, tanto na pratica esportiva quanto nos "momentos de bebedeiras", apos as partidas. Com as latinas nao foi diferente. Infelizmente, a maioria das equipes e ligas seguem ainda mantendo uma divisao de papeis sexuais, integrando as latinas como nao jogadoras, e sim como espectadoras, cozinheiras de quitutes em comemoracoes pos-jogos, recebedoras de donativos e, somente em casos individuais, como presidentas de clubes de futebol.

A criacao de uma equipe estadunidense autenticamente mexicana, a Chivas USA

Desde sua fundacao em 1996, a US Major League Soccer (MLS) esta bastante interessada em romper a existencia paralela dos mundos futebolisticos anglo-saxao e latino. E o que esta por detras dessa intencao, obviamente, sao o interesse financeiro e a esperanca de que, com a ajuda dos latinos, o pais possa, finalmente, converter-se numa "nacao do futebol". Entretanto, ate agora a MLS nao conquistou o publico de quarenta milhoes de hispanicos, apesar de muitas equipes profissionais americanas terem suas sedes em centros urbanos com forte presenca latina e de tambem possuirem futebolistas mexicanos-americanos integrados em seus grupos. Com o intuito de atrair hispanicos a MLS, ja foram investidos varios milhoes de dolares em compra de superestrelas mexicanas, como o goleiro Jorge Campos e os goleadores Luis Hernandez e Carlos Hermosillo. Alem disso, em 2003 foi criada a liga juvenil Futebolito, exclusivamente para hispanicos. Contudo, tais medidas somente tiveram exito moderado, causando o desespero dos administradores da MLS, dentre os quais se pode citar os empresarios americanos Phil Anschutz, Lamar Hunt e Robert Kraft. Ate agora somente os salvadorenhos e os bolivianos (que vivem na regiao de Washington) converteram-se em aficionados pelas partidas da liga norte-americana de futebol. A grande maioria dos hispanicos (e sobretudo os torcedores fanaticos mexicanos) ainda prefere assistir no Univision, ou em outros canais hispanicos, aos jogos de suas equipes favoritas da Primeira Divisao do Campeonato Mexicano de Futebol. (63)

Jorge Vergara e um empresario mexicano que conseguiu se converter em multimilionario mediante a venda de compostos vitaminicos e alimentos dieteticos em po da marca Omnilife. Ganhou espaco na MLS quando apresentou sua ultima ideia empresarial, qual seja, incluir uma equipe adicional no conjunto das ja existentes: seria, entao, o retorno do Club Deportivo Guadalajara, popularmente conhecido como Chivas. Chivas--que e de propriedade de Vergara e, ha algum tempo, um dos times de maior sucesso no Mexico--e o carro-chefe esportivo da cidade de Guadalajara, capital de Jalisco, um dos principais estados emissores de emigrantes aos EUA.

Vergara, por sua vez, copiou muitos ingredientes dos amadores do hispanic soccer para uma receita de sucesso: apesar das restricoes que a MLS impoe em relacao ao numero de jogadores estrangeiros em uma equipe, deu ao Chivas USA um carater latino "mais autentico", convocando prioritariamente jogadores hispanicos, compondo uma mescla de conhecidas estrelas do futebol mexicano, novos talentos norte-americanos de origem migrante, um ou outro brasileiro e/ou costarriquenho e outros quatro angloamericanos. Apesar disso, o idioma oficial da equipe e o espanhol e o grito de guerra autodenominador do grupo e "Adios soccer. !El futbol esta aqui!".

De forma calculada, integram-se particularidades do hispanic soccer em um novo pacote global, como a combinacao do futebol com o trabalho comunitario: o Chivas USA dirige varios programas juvenis como forma de promover o futebol entre os adolescentes hispanicos e possui tambem um programa de caridade a criancas necessitadas. No que diz respeito as mulheres, o Chivas integra as jovens nos grupos de cheerleaders do clube e mantem um grupo junior para as meninas.

A MLS aceitou tais inovacoes "revolucionarias" nao apenas pelo fato de Vergara ter pagado US$ 25 milhoes pelos direitos da equipe. Ao lado desse forte componente, o time tambem possui outras estrategias de autocomercializacao pelos meios de comunicacao hispanicos, como o canal de televisao Univision e mesmo o Los Angeles Times. Alem disso, o empresario aposta na vinculacao da equipe estadunidense com a de Guadalajara. "As camisetas de futebol, as cores, a tradicao e a paixao", exclama o milionario, teriam falado mais alto ate agora na Major League. Por isso e que ele vestiu o Chivas USA com as mesmas cores da bem-sucedida equipe mexicana Chivas, resultando em camisetas de listras brancas e vermelhas alternadas, que, combinadas com o gramado verde, relembram as cores nacionais do Mexico. Alem do mais, nos arredores do estadio do clube em Los Angeles se pode tambem sentir um "clima mexicano", visto que no parque de diversoes chamado ChivaTown--seguindo a publicidade da pagina na web--os torcedores e suas familias podem "reviver a cidade de Guadalajara. Ali se encontram os arcos de Guadalajara, a [estatua] de Minerva, o Hall da fama 'Honda', o McDonalds 'FutZona', uma arena de entretenimento, comes e bebes, e muito mais". (64)

Tais promessas nao sao de todo falsas, pois tambem na cultura do futebol de Guadalajara se combinam as tradicoes mexicanas com os padroes de vida norteamericanos, sempre com vistas a gerar ganhos. Vergara promove atualmente a construcao de um novo estadio de futebol para o Chivas (no Mexico), em forma de vulcao. Esse e um dos pilares de uma "cidade do futuro" que esta em gestacao nos arredores de Guadalajara e na qual se buscara integrar os aspectos de conversacao ambiental e de um discurso intelectual ao consumo e ao lazer em larga escala.

Foi com o Chivas USA que, pela primeira vez, se introduziu uma logica de "nacionalidades" dentro da MLS. Seus inventores, no entanto, estao conscientes de que a criacao de um cenario nacionalista mexicano nao bastara para trazer ao Chivas USA uma legiao diversa de fieis mexicanos e um lugar de destaque dentro do futebol americano profissional. A equipe necessita conseguir triunfos esportivos. Para conquista-los, mudou-se o treinador oficial em 2006 e se contratou o americano Bob Bradley. Com sua ajuda o time conquistou um respeitavel terceiro lugar na porcao oeste da Major League. Ainda que seja incerto como terminara o experimento Chivas USA, em um mundo globalizado os empresarios e os meios de comunicacao apostam no momento de transmitir, de maneira crivel, novos localismos e nacionalismos orientados aos paises latinoamericanos, incluindo, ao mesmo tempo, jogadores de outras filiacoes nacionais e hemisfericas, segundo criterios de desempenho esportivo. Tal receita de sucessos lhes fora ensinada pelos amadores do mundo esportivo.

Consideracoes finais

Na atualidade, o futebol latino esta chamando muita atencao, visto que os migrantes hispanicos parecem difundir "seu esporte" paulatinamente nos EUA. Em consequencia, muitos analistas esportivos interpretam o boom do futebol latino como uma sucessiva (re)conquista cultural dos EUA por parte dos mexicanos. Com o tema "Adios soccer. !El futbol esta aqui!", os diretores do Chivas USA comercializam a nova equipe profissional explicitamente como parte desse fenomeno.

A isso se pode agregar que os imigrantes mexicanos nao deram--em todos os periodos historicos e por todos os meios relacionados ao futebol--expressao a uma "mexicanidade" transnacional e expansiva. Por outro lado, os atores sociais que expressaram (e ainda o fazem) certa "mexicanidade" nao sao, em seu conjunto, oriundos do Mexico. A perspectiva historica bem demonstrou que no transcurso do seculo XX estiveram (e estao) envolvidas dinamicas complexas. O grupo dos imigrantes mexicanos e hispanicos e heterogeneo; muitos atores se reinventaram de diferentes maneiras por meio do futebol--de acordo com o periodo historico e mesmo regiao onde se encontravam--e, assim, expressaram distintas formas de "mexicanidade". Algumas vezes foi destacada a rivalidade com imigrantes europeus (com os quais os mexicanos competem no mundo do trabalho), por meio de uma logica esportiva nacional ou continental. Outras vezes, atraves do futebol, reforcaram-se papeis de genero que predominavam na migracao e no mundo masculinizado do trabalho. Em dados momentos, os atores--que se diferenciavam com respeito a seu pertencimento etnico, de genero e de classe--buscavam, por meio das praticas futebolisticas, projetos de cunho comum: isso e valido para os torcedores e para os empresarios de uma incipiente industria etnica do lazer e dos meios de comunicacao. No caso de Dalton (Georgia), empresarios nao etnicos e trabalhadores mexicanos de baixos salarios se comprometeram em favor de um futebol etnico local.

Desde os anos 1990, tanto grupos de hispanicos quanto os de nao hispanicos serviram-se, em crescente proporcao, do futebol como um recurso que constroi comunidade (principalmente no caso de novos imigrantes). Esses aproveitam o fato de que jogar e atuar em um mundo esportivo separado lhes oferece boas opcoes de empoderamento. Por essa razao, recentemente tal experiencia paralela esta caracterizando o mundo amador e--com relacao a simbologia de um pertencimento nacional--atualmente chegou tambem ao universo do futebol profissional dos EUA. Ao mesmo tempo, desde os anos 1990, os imigrantes mexicanos servemse do futebol como cenario-chave por meio do qual estendem uma vida transnacional de praticas e relacoes sociais que os vincula de maneira duradoura ao seu pais de origem (no caso, o Mexico). Com isso, expressam uma "mexicanidade transnacional" que nao e "harmonica", e sim marcada por linhas de conflito, e que, portanto, se apresenta como uma mexicanidade fragil. Nessa "nova mexicanidade" manifestam-se conflitos de genero, de classe e etnicos, locais e nacionais que se dao simultaneamente nos EUA e no Mexico e que se influenciam mutuamente.

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[Recebido em 10 de junho de 2011 e aceito para publicacao em 30 de setembro de 2011]

Ingrid Kummels (1)

Freie Universitat, Alemanha

(1) Ingrid Kummels e professora doutora de Antropologia Social e Cultural no Instituto de Estudos Latino-Americanos (LAI) da Freie Universitat (Universidade Livre), em Berlim, Alemanha.

(2) Artigo traduzido do espanhol, reescrito em portugues e revisado por Wagner Xavier de Camargo. O artigo original--"Adios soccer, here comes futbol!: la transnacionalizacion de comunidades deportivas mexicanas en los Estados Unidos"--foi publicado na Revista Ibero-Americana, v. VII, n. 27, p. 101-116, 2007. Parte do titulo original e mantida, primeiro por trazer nela mesma as nocoes de transitoriedade e transposicao do espanhol ao ingles (nos termos "adios' e "here comes"), que sao importantes no artigo, e, segundo, por apresentar um mesmo esporte entendido nao apenas por dois universos linguisticos distintos ("soccer" e "futbol"), mas por concepcoes de jogo bastante diferentes, vigorantes entre mexicanos e norte-americanos.

(3) ALIANZA DEL FUTBOL, 2006.

(4) Matt REED, 2006, p. 1.

(5) COPA LOWE'S, 2006.

(6) REED, 2006, p. 3.

(7) Juan Javier PESCADOR, 2004; e Christopher SHINN, 2002.

(8) CHIVAS USA, 2006.

(9) PESCADOR, 2004.

(10) Jorge IBER e Samuel REGALADO, 2007.

(11) Emprego o termo "originarios do Mexico" da mesma forma com que se utiliza na atual estatistica americana mexican ou of mexican origin, ou seja, como um termo coletivo, o qual inclui tanto os descendentes dos mexicanos que foram naturalizados como consequencia da guerra entre Mexico e EUA de 1846 a 1848 quanto os cidadaos nascidos ou naturalizados nos EUA, os quais tem uma ascendencia mexicana (mexican americans), e ate mesmo os recentes imigrantes sem documentos (US-Mexicans, vulgarmente denominados" illegal aliens"). Sob a designacao "hispanicos" (hispanics) incluemse pessoas de paises latinos ou luso-americanos. Apesar disso, esses termos coletivos nao se afinam com as autorrepresentacoes e autoatribuicoes dos atores, suas diferentes situacoes de interesse e a consequente complexidade das interacoes sociais, como mostraremos no transcurso deste artigo. Os envolvidos preferem o termo coletivo latinos ou latinas em lugar de hispanicos (hispanics).

(12) Por exemplo, Samuel HUNTINGTON, 2005.

(13) O termo "mexicano etnico" agrupa os originarios do Mexico nos EUA e os cidadaos mexicanos propriamente ditos.

(14) Linda BASCH, Nina Glick SCHILLER e Cristina Szanton BLANC, 1994.

(15) David GUTIERREZ, 1999.

(16) GUTIERREZ, 1999, p. 483.

(17) PESCADOR, 2004 e 2007.

(18) Pierre BOURDIEU, 1992; e Jeremy MACCLANCY 1996.

(19) Cyril Lionel JAMES, 1963, p. 23.

(20) Louis PEREZ, 1994, p. 500.

(21) Em seu Programa para uma Sociologia do Esporte, Bourdieu (1992, p. 195) destaca que, "[...] para compreender um esporte de qualquer tipo, [...] e necessario discernir a posicao que ocupa dentro do espaco dos diferentes tipos de esporte".

(22) Coletanea de entrevistas com Obrador sobre as relacoes com Carlos Slim, consultar ETECETERA, 2006.

(23) REGALADO, 1998.

(24) "Porfiriato" ou "Porfirismo", como e conhecido na historia do Mexico, e o periodo de 1884 a 1911 em que, devido a mudancas na constituicao nacional, o militar Jose de la Cruz Porfirio Diaz Mory presidiu o pais (Nota do Tradutor).

(25) Jose ALAMILLO, 2007, p. 52.

(26) ALAMILLO, 2007.

(27) ALAMILLO, 2007.

(28) Mais detalhes sobre as manobras efetuadas, consultar Alan KLEIN, 1997, p. 66-113.

(29) PESCADOR, 2007.

(30) PESCADOR, 2007.

(31) Literalmente "bola no pe". O balompie e um antecessor do futebol contemporaneo, de origem e influencia espanholas (Nota do Tradutor).

(32) Gabriela ARREDONDO e Derek VAILLANT, 2006.

(33) NSL CHICAGO, 2006.

(34) Em paises como Franca e Italia tal localidade vem se desenvolvendo desde a Idade Media como uma forma de conservar carnes. A charcuterie era especializada na producao e venda de embutidos, linguicas, charques, chouricos, salsichas, bacon e afins (Nota do Tradutor).

(35) PESCADOR, 2007.

(36) Douglas MASSEY et al., 1987.

(37) Atravessador da fronteira Mexico-EUA. Geralmente cobra por "cabeca" para ajudar no cruzamento ilegal da fronteira (Nota do Tradutor).

(38) Ver tambem Michael RILEY, 2003.

(39) ALAMILLO, 2007; e PESCADOR, 2004.

(40) Joel COHEN, 2006.

(41) PESCADOR, 2004.

(42) SHINN, 2002, p. 41.

(43) REED, 2006, p. 1.

(44) Grupos de jogadores bem jovens e inexperientes (Nota do Tradutor).

(45) Beer leagues e uma designacao conferida aos campeonatos nos quais as equipes, ganhando ou perdendo, comemoram seus sucessos ou fracassos com o consumo de muita cerveja e outras bebidas alcoolicas. Sao jogos totalmente amadores em que a presenca de uma duzia de espectadores pode ser considerada uma "bilheteria" de sucesso. Nao ha glamour nem condicoes objetivas e estruturais favoraveis. Jogadores dessas ligas, na maioria das vezes, jogam com equipamentos precarios, sem uniformes e mesmo sem calcados adequados (Nota do Tradutor).

(46) Patrick JONSSON, 2003.

(47) Robert SMITH, 2005.

(48) COHEN, 2006.

(49) Jesse AGUILAR, 2006.

(50) CHRON, 2007.

(51) COPA TECATE, 2006.

(52) PESCADOR, 2004.

(53) CITY PAPER, 2006.

(54) PESCADOR, 2004.

(55) No original encontramos mencao a "poblacion en edad de trabajar", que, do ponto de vista da geografia economica, significa "populacao economicamente ativa" ou PEA (Nota do Tradutor).

(56) SMITH, 2005.

(57) Ruben HERNANDEZ-LEON e Victor ZUNIGA, 2002.

(58) Dale RUSSAKOFF, 2006.

(59) COHEN, 2006.

(60) Franziska CASTILLO, 2003.

(61) Gert EISENBURGER, 2006.

(62) SHINN, 2002, p. 242.

(63) Steven GOFF, 2005.

(64) CHIVAS USA, 2006.
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Author:Kummels, Ingrid
Publication:Revista Estudo Feministas
Article Type:Report
Date:Sep 1, 2011
Words:9766
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