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Uma contribuicao a fraseodidatica do frances como lingua estrangeira.

Uma contribuição à fraseodidática do francês como língua estrangeira

GONZÁLEZ-REY, Isabel. La didactique du français idiomatique. Fernelmont: E.M.E., 2007. 217 p. ISBN 978-29-30481-39-5.

Isabel González Rey é professora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Santiago de Compostela e seu trabalho constitui importante contribuição para o ensino da Fraseologia (Fraseodidática) do francês língua estrangeira (FLE); num exemplo do que podemos chamar de casamento perfeito entre teoria e prática. Além de ser autora de diversos artigos científicos, relevantes para os estudos fraseológicos, em seu livro anterior: La phraséologie du français (2002), ela apresenta os princípios teóricos que encontramos aplicados no livro objeto desta resenha.

Entre suas principais contribuições, podemos destacar os dois volumes recentemente por ela coordenados e publicados pelas edições E.M.E: Adquisicion de las expresiones fijas-metodologia y recursos didacticos (2007) e Les exressions figées en didactique des langues étrangères (2007), este último conta com a participação de duas pesquisadoras brasileiras, também dedicadas ao estudo da fraseologia: Maria Luisa Ortíz Alvarez, da Universidade de Brasília e Elizabete Aparecida Marques, da Universidade Federal do Mato Grosso.

La didactique du français idiomatique integra a coleção Discours et méthodes, dirigida por Bernard Delcord. Nesse livro, a autora dedica-se especificamente às expressões fixas (1) (EF), tão comumente relegadas a segundo plano, ou sequer mencionadas, em livros dedicados ao ensino de língua estrangeira.

Em 217 páginas, a autora nos oferece um verdadeiro manual, que pode parecer autodidático, para a aprendizagem de expressões idiomáticas da língua francesa, acompanhada de um glossário temático. Porém, uma leitura cuidadosa evidenciará entre seus objetivos o de auxiliar o professor de língua estrangeira (LE) a orientar suas atividades no ensino das EF da língua francesa.

Nas primeiras 35 páginas do livro, o leitor poderá encontrar as concepções teóricas que embasam a aplicação que se fará em seguida.

González-Rey nos introduz no tão pouco explorado universo da Fraseodidática, começando por explicitar o que é Fraseologia, o que se entende por EF e de que se ocupa a Fraseologia Aplicada. Em seguida, são destacadas as características intrínsecas das EF como signos linguísticos, signos culturais, signos valorizantes, bem como a função social dessas expressões.

Levando em conta que Fraseologia é o termo utilizado para designar tanto o conjunto de fenômenos fraseológicos, como a disciplina que os estuda (ainda que para alguns pesquisadores trate-se de uma subdisciplina da Lexicologia); vale ressaltar que no texto de González Rey, Fraseologia é o estudo das EF de uma dada língua, ou nas palavras da autora:

Il s'agit de l'analyse des expressions figées, préexistantes et subséquentes au discours libre, considérées généralement comme des éléments du lexique, et qui passent souvent inaperçues aux yeux du locuteur natif, alors qu'elles sont très vite repérées par l'étudiant étranger (González-Rey, 2007, p. 5).

Cabe lembrar que a autora trabalha com um conceito bastante expandido de unidade fraseológica uma vez que inclui: expressões idiomáticas; enunciados idiomáticos (fórmulas de rotina e expressões familiares); sintagmas idiomáticos (zoomorfismos, somatismos e outros); colocações; e parêmias.

Após a entrada no campo da Fraseologia, conforme exposto acima, a autora discute o lugar das EF no ensino de língua materna e estrangeira; o papel desempenhado pelo aluno e pelo professor nessa aprendizagem e, em seguida, apresenta uma análise de materiais disponíveis para a didática do FLE, dedicados a crianças, adolescentes e adultos, nos níveis debutante, intermediário e avançado, tais como: livros do aluno; cadernos de exercícios; guias para o professor; cassetes de áudio e de vídeo; CD-Roms; sites da Internete; livros dedicados a aspectos específicos da língua - fonética, ortografia, gramática, conjugação e léxico; dicionários de língua; dicionários enciclopédicos; e obras técnicas de referência.

De sua análise, emerge a constatação de que as EF, embora quase sempre presentes nos materiais analisados, não gozam de um tratamento didático pertinente a sua aprendizagem. Para a autora, esse descaso deve-se principalmente à má reputação dessas expressões:

Les expressions figées connaissent une mauvaise réputation parmi certains linguistes prisés de style, qui s'occupent d'étudier la langue sous ses aspects le plus élevés. Pour la plupart d'entre eux, les EF sont toutes des expressions triviales et familières (Gonzalez-Rey, 2007, p. 12).

e à falta de materiais consistentes que possam auxiliar o professor:

Or le professeur qui entreprend l'enseignement des expressions figées est souvent désorienté par rapport aux constructions à faire apprendre. Son manque de formation en matière phraséologique le pousse à traiter la question de façon superficielle et incohérente (Gonzalez-Rey, 2007, p. 17).

Essas duas mazelas são cuidadosamente tratadas pela autora: ao destacar a importância da aprendizagem das EF para o bom desenvolvimento da competência comunicativa, e ao apresentar um material didático consistente para orientar o trabalho do professor de FLE, ou o aprendiz de LE que queira lançar-se na empreitada de forma autodidática.

Antes de explicitar em que consiste especificamente a Fraseodidática das EF em LE, González-Rey nos apresenta um documento pouco conhecido no Brasil, mas muito debatido e utilizado no ensino de LE no continente europeu. Trata-se do CECR (2)--Le Cadre européen commun de référence pour les langues, texto redigido por especialistas do Conselho de Educação da União Européia, documento que pode ser considerado similar aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o ensino de língua estrangeira, no Brasil.

O que diferencia substancialmente esse documento dos nossos PCN é que se trata de um material de referência para professores, examinadores e elaboradores de manuais de apoio a programas educativos, provas e métodos pedagógicos para o ensino de línguas.

Após apresentar a estrutura geral do documento, explicitar os níveis a serem alcançados, ela explicita os critérios de avaliação das competências lingüísticas necessárias para a passagem de um nível de conhecimento a outro.

Em seguida, a autora focaliza o espaço dedicado à Fraseologia no CECR e, de forma particular, o tratamento que lhe é conferido na passagem entre os níveis, para, então, evidenciar o processo de aquisição das EF subjacentes ao documento.

Embora apresente os aspectos positivos do CECR no tratamento das EF, a autora assinala a ausência de proposições didáticas concernentes à integração dessas expressões em sala de aula; o que deixa o professor com total liberdade para trabalhá-las e, por conseguinte, sem nenhuma orientação.

Ao adotar o termo Fraseodidática, para o ensino da EF, a autora leva em conta a origem germânica desse campo de estudo (phraseodidactik) e sua consolidação nos trabalhos de Lüger (1997; 2001) apud González-Rey (2007) e Ettinger (1998) apud González-Rey (2007). Ela lembra que a constituição de um domínio específico para a didática das EF exige o reconhecimento dos elementos constitutivos desse domínio, quais sejam: o ensino, a avaliação e o material pedagógico. Nessa linha de pensamento, ela nos descortina concepções de aprendizagem das EF sob o ponto de vista psicolinguístico.

Nessa perspectiva, ela procede uma concisa, mas pertinente revisão das teorias psicolinguísticas elaboradas para explicar o processamento das EF em língua materna, passando em revista quatro dessas teorias.

A primeira delas, Idiom list hypothesis, presente nos trabalhos de Bobrow e Bell (1973) apud González-Rey (2007) e Searle (1979) apud González-Rey (2007), pressupõe a existência de uma lista de expressões idiomáticas estocadas no léxico mental dos falantes, que lhes permitiria sua interpretação graças a um processo de codificação, armazenamento e recuperação.

A segunda, Lexical representation hypothesis, defendida por Swinney e Cutler (1979) apud González-Rey (2007), considera que as EF são estocadas e recuperadas no léxico mental como qualquer outra expressão, sem a intervenção de nenhum mecanismo especial.

A terceira teoria, Direct acess hypothesis, representada pelos trabalhos de Gibbs e Gonzalez (1987) apud González-Rey (2007) e Muller e Gibbs (1987) apud González-Rey (2007), admite que a compreensão e a produção de uma EF seria facilitada pelo caráter fixo e institucional dessas unidades.

A quarta teoria, Key configuration hypothesis, proposta por Cacciari e Tabossi (1988) apud González-Rey (2007), assume que a interpretação de uma EF seria, inicialmente, literal, seguida da ativação de um mecanismo específico para seu reconhecimento, a partir do momento em que o falante reconhecesse sua não-composicionalidade semântica.

Para encerrar sua apresentação dos modelos psicolinguísticos concernentes ao processamento das EF, González-Rey assinala a importante contribuição, para esse campo, trazida pelos trabalhos de Häcki-Buhofer (1989; 1993; 1996) apud González-Rey (2007) acerca dos aspectos psicolinguísticos da representação de imagens subjacentes às expressões idiomáticas.

Com relação à aprendizagem das EF em LE, autora menciona as pesquisas de:

--Kellerman (1983) apud González-Rey (2007) que evidenciaram que os aprendizes raramente transpõem as EF de sua língua materna para a língua estrangeira, uma vez que as consideram como especificidades de sua própria língua, evitando a tradução literal;

--Kövecses e Szabó (1996) apud González-Rey (2007) para os quais a presença de metáforas conceituais é insuficiente para impulsionar o emprego das EF em situação de aprendizagem de LE;

--Selinker (1969) apud González-Rey (2007) que evidencia a importância da frequência de uso para a internalização das EF, considerando que as expressões correntes são mais facilmente transponíveis para outra língua, embora não esteja garantida a qualidade da transposição, que poderá ser realizada palavra por palavra e;

--Gréciano (1984) apud González-Rey (2007) que considera que as pesquisas precedentes nesse campo evidenciam a intrínseca relação entre as características principais das EF (fixação, polilexicalidade, e figuratividade) e os mecanismos naturais da produção e recepção de mensagens linguísticas, inerentes à faculdade da linguagem humana.

O principal legado dos modelos psicolinguísticos para a autora é que:

   [...] notre compréhension est globalisante et
   synthétique, et de ce fait, la perception humaine se
   révèle prédisposée à établir des connexions et à former
   des complexes à partir d'unités distinctes. Ainsi, le sujet
   récepteur repère-t-il plus vite le sens global que les sens
   unitaire de chacun des composants d'un énoncé.
   Autrement dit, les sens appréhendé en premier lieu est
   un sens non pas analytique mais synthétique. Cela nous
   amène à dire à dire dans le cas des expressions
   idiomatiques que le sens figuré serait avant le sens
   littéral. Quant au stockage et à la reproduction
   mémorielle de ces unités, ils se réaliseraient en bloc,
   libérant automatiquement les expressions dans leur
   intégralité.

González-Rey inicia, então, uma discussão acerca de melhor momento para inserir as EF em um curso de LE. Ela apresenta os argumentos de autores que sugerem que se evite o contato com as EF, no início da aprendizagem de uma segunda língua, para impedir a apresentação de dificuldades suplementares para os alunos; bem como, os de autores que recomendam sua introdução desde as primeiras lições, com os quais se solidariza.

Ao recomendar a introdução das EF desde o início, ela sugere um trabalho de forma gradativa, partindo da sensibilização dos alunos em relação à existência das EF em LM, seguida da apresentação das EF na segunda língua, levando em conta suas dificuldades, formais, semânticas e pragmáticas. Para alcançar seu objetivo, a autora apresenta um exemplo baseado em uma tipologia concreta, baseada em critérios situacionais.

Nessa abordagem, as expressões rotineiras podem ser as primeiras a serem introduzidas. Na prática, se trata de trabalhar as EF utilizadas para cumprimentar, apresentar-se, solicitar informações, perguntar a hora, dar uma opinião, mostrar concordância, ou desacordo, entre outras.

Sua exemplificação, extremamente didática, inicia-se com os pressupostos teóricos que embasam a seleção de conteúdo e conclui-se com a apresentação de modelos de exercícios a serem propostos para auxiliar a aprendizagem.

Concluída a parte teórica, a autora nos apresenta seu método para o ensino do francês idiomático, no qual as expressões são divididas em dois níveis, debutante e avançado.

Cada grupo é apresentado em quatro lições para o nível um (debutante) e quatro para o nível dois (avançado), constituídos de uma lista de cinco exercícios, acompanhados de suas respectivas soluções.

Seu método se completa com um glossário composto pelo conjunto das EF trabalhadas, em ordem de apresentação. Ela esclarece não se tratar de um dicionário de definições, mas de um instrumento de fixação e memorização das EF em francês, com vistas a auxiliar o desenvolvimento de uma competência ativa nesse domínio. Para efetivar o alcance dessa competência, no conjunto de sua obra, a autora propõe uma aprendizagem progressiva que parte da compreensão para a produção oral e escrita.

Em suma, Isabel González Rey apresenta um método de trabalho moderno e coerente com as atuais necessidades pedagógicas, para a aprendizagem de uma língua estrangeira, que vai da teoria à prática.

Received on September 09, 2008.

Accepted on September 11, 2008.

Referência

GONZÁLEZ-REY, I. La didactique du français idiomatique. Fernelmont: E.M.E., 2007. 217 p.

(1) Optamos por traduzir expressions figées, por expressões fixas, para designar fenômenos lingüísticos fraseológicos, em respeito à nomeclatura comumente utilizada em língua francesa, embora consideremos mais apropriado nominá-los por unidades fraseológicas.

(2) Em Portugal, trata-se do QECR - Quadro Europeu comum de referência para as línguas. Disponível em: <http://sitio.dgidc.min-edu.pt/línguas_estrangeiras/Paginas/QECR.aspx>.

Rosemeire Monteiro-Plantin

Centro de Humanidades, Departamento de Letras Vernáculas, Programa de Pós-graduação em Linguística, Universidade Federal do Ceará. Av. da Universidade, 2698, 60015-290, Benfica, Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: meire@ufc.br

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Author:Monteiro-Plantin, Rosemeire
Publication:Acta Scientiarum Language and Culture (UEM)
Date:Apr 1, 2008
Words:2458
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