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Sobre subjetividades diasporicas e ardis cotidianos (1): a cidadania cultural na favela da Candelaria.

RESUMO

O objetivo deste artigo e abordar a diaspora contemporanea, que diz respeito nao apenas ao transito migratorio entre paises, mas tambem ao movimento febril, a estetica diasporica que torna a cultura de nossos dias irremediavelmente impura e hibrida, repleta de um permanente deslize de significados, em permanente mutacao. O foco recai sobre a interface entre a memoria, a cidadania e o papel dos lideres na interpretacao dos valores culturais na comunicacao. Para explorar tais objetivos, realizamos, desde 200 , pesquisa de observacao participante na Candelaria, uma sublocalidade do Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro. O percurso de analise desenvolveu-se com base na concepcao teorica de entender a cultura nao como semiose ou apropriacao, mas como producao. O trabalho explora a insercao da ONG Meninas e Mulheres do Morro, aspectos do consumo e do multiculturalismo na metropole comunicacional.

Palavras-chave: Comunicacao; consumo; metropole; cidadania.

RESUMEN

El articulo tiene por objetivo abordar la diaspora contemporanea que esta relacionada no solo con el transito migratorio entre paises, sin tambien con el movimiento febril, con la estetica diasporica que convierte la cultura de nuestros dias en una cosa irremediablemente impura e hibrida, repleta de un permanente desliz de significados, en permanente mutacion. Focaliza la interfaz entre la memoria, la ciudadania y el papel de los lideres en la interpretacion de los valores culturales en la comunicacion. Para alcanzar estos objetivos, realizamos, desde 200 , una investigacion de observacion participante en la Candelaria, una sublocalidad del Morro da Mangueira, en Rio de Janeiro. El camino del analisis se desarrollo a partir de la concepcion teorica que entiende la cultura como produccion y no como semiosis o apropiacion. El trabajo analiza la insercion de la ONG Meninas e Mulheres do Morro, aspectos del consumo y del multiculturalismo en la metropoli comunicacional.

Palabras-clave: Comunicacion; consumo; metropoli; ciudadania.

ABSTRACT

The main objective of this article is to debate on the contemporary Diaspora, which relates not only to the migratory flows across countries but also to frenetic moving, the diasporic aesthetics that renders our present culture irremediably impure and hybrid, full of permanent lapse of meaning and permanently mutant. This paper focuses on the interfaces between memory, citizenship and the role of leaders in interpreting cultural values within communication processes. To better explore those objectives, since 200 , research has been conducted by means of participative observation at Candelaria--a specific locality in the Mangueira community, in the city of Rio de Janeiro, Brazil. The analysis is based on the theoretical conception of culture not as semiosis nor as appropriation but as production. The paper explores the insertion of the NGO Meninas e Mulheres do Morro and aspects of consumption and multiculturalism in the communicational metropolis.

Keywords: Communication; consumption; metropolis; citizenship.

Os deuses da cidadania

Em seu Historia da cidadania, Jaime Pinsky (200 : 15) aborda, em determinado capitulo, a existencia de um "deus da cidadania": aquele que respirou, durante seculos, amparado no trabalho dos profetas que serviam de porta-vozes a um passado imaginado. Era um deus da cidadania porque permitia que povos em situacao de diaspora, espalhados pelo mundo--como os judeus--preservassem entre si lacos de coesao identitaria e, sobretudo, mantivessem a ideia de "povo escolhido", ainda que vitimas de uma discriminacao secular. Esses "profetas sociais" apropriavamse do passado para anunciar um futuro de redencao, um retorno as origens. Pinsky e critico a esse respeito:

Meu ponto de vista e que, uma vez criado, um valor cultural (seja ele uma musica, uma pintura, um pensamento ou um livro) passa a fazer parte do patrimonio cultural da humanidade e nao mais de pessoas que, acidentalmente, nasceram no mesmo territorio geografico em que o bem foi concebido, ou que simplesmente se apresentem como descendentes geneticos ou culturais dos criadores daquele bem (idem: 20).

Evocamos tal questao--ja muito bem definida por inumeros estudiosos--apenas para levantar alguns aspectos essenciais a contemporaneidade no que diz respeito a memoria, a cidadania e ao papel dos lideres na interpretacao dos valores culturais. Podemos dizer, ainda, que evocamos essa questao porque aqui, em um contexto que remete ao seculo VIII a.C., Pinsky esta se referindo a fluxos, a formas como os produtos culturais--e incluimos aqui os rituais e as tradicoes--se embrenham mundo afora em um constante jogo de apropriacao e reinvencao. E, sobretudo, a evocamos porque o objetivo deste artigo e abordar a diaspora contemporanea, que diz respeito nao apenas ao transito migratorio entre paises, mas tambem ao movimento febril, a estetica diasporica que torna a cultura de nossos dias irremediavelmente "impura": hibrida, repleta de um permanente "deslize" de significado, em permanente mutacao.

Nossa pergunta aqui e: e se, mesmo que ladeada por "deuses da cidadania" e "profetas sociais" que se apropriam do passado para reafirmar uma identidade comunitaria, uma "cultura da diaspora" pudesse fazer crer que qualquer producao cultural e automaticamente um patrimonio de todos, e nao desse povo eleito?

Aqui, queremos evocar a diaspora apontada por Canevacci (2005), que nao e aquela tradicionalmente ligada as migracoes forcadas, entre nacoes, as minorias expatriadas e aos conflitos etnicos, mas sim aquela que se apresenta de forma inteiramente distinta: as diasporas como "gema", tal e qual ocorre no mundo mineral, a interligacao de "refracoes que resplendem cromaticamente e difundem novos fluxos hibridos de criatividade". Queremos abordar uma cidadania que esta em um modo de reivindicar um "estar-na-cidade" que, em vez de amparar-se na ideia de unicidade, desenvolve-se seguindo fluxos multiplices, assumindo a feicao primordial daquilo digno do adjetivo "cultural": o movimento.

Sobre deslizes e gemas

Realizamos, desde 200 , uma pesquisa de observacao participante na Candelaria, uma localidade pertencente ao Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro. Nosso objetivo inicial--investigar o sentimento de pertenca local que aflora em ritmo permanente entre os moradores--passou a desdobrar-se em recortes diversos, com a insercao de novos pesquisadores e outras reflexoes em campo. Todos nos, no entanto, temos uma tematica em comum: a cultura nao como semiose ou apropriacao, mas como producao. Nao se trata de perscrutar uma cultura produzida pela periferia e reapropriada pelo asfalto, como muitos teoricos tem insistido em proclamar, porem em investir teoricamente na percepcao de que nao e mais possivel falar em periferia e em centro, em favela versus asfalto e demais categorias correlatas.

Se o estudo das cidades mostrou-se tao necessario na virada dos seculos XIX e XX, fazendo com que o surgimento de grupos como a Escola de Chicago fosse inevitavel, acreditamos que, hoje, e essencial repensar a forma como investigamos as sociabilidades e a comunicacao nas metropoles. Recorremos mais uma vez a Canevacci (idem), que nos leva a pensar em "subjetividades diasporicas sempre novas, que enxertam sincretismos comunicacionais inquietos e inquietantes". Ao abordar as historias da Candelaria--e a forma como elas investem em uma "nova cidadania"--estamos abordando as "mutantes feicoes da nova metropole": aquela que, sem o conceito liquido de diaspora, nao sobrevive. Ao buscar as historias em migalhas da Candelaria, os narradores anonimos e os atores invisiveis, estamos nos referindo a construcao de uma metropole comunicacional, na qual

o spraw comunicacional tem sentidos multiplos e multi-sequenciais que o enxertam a novas tecnologias e novos sincretismos atraves de mutantes panoramas urbanos e criatividades antropofagicas que remastigam estilos, cruzam varios codigos, regeneram todos os olhares (idem).

Nossa pesquisa aborda lugares cujos nomes nao aparecem em nenhum mapa; ao mesmo tempo, nao estamos em busca de lugares definitivos--pelo contrario, nossa busca e pelas places de passage, no sentido apontado por Hall (200) ao evocar a "differance" derridiana. Neste trabalho, afinal, buscamos perscrutar as narrativas da Mangueira (com seus "profetas sociais" contemporaneos) para investigar uma cultura que

nao e apenas uma viagem de redescoberta, uma viagem de retorno. Nao e uma "arqueologia". A cultura e uma producao. Tem sua materia-prima, seus recursos, seu "trabalho produtivo" (Hall 200: 43).

Estamos falando, aqui, de uma diaspora da cidade, e de sujeitos diasporicos, e de cruzamentos e de travessias, de experiencias e de possibilidades. Estamos falando de movimentos e de espacos que se entrecruzam (na diaspora original do Rio de Janeiro, os "expatriados" do centro da cidade fincaram o pe em favelas, como a Mangueira, para reivindicar o direito de escolher seu proprio espaco no territorio urbano), estamos falando de um

sujeito desconexo, que opta por atravessar os fluxos metropolitanos e comunicacionais, pondo em discussao toda e qualquer solida configuracao daquilo que foi racionalizado, etnicizado, sexualizado por parte da logica classificatoria do Ocidente (Canevacci 2005).

Canevacci (idem) nos lembra que a matriz filologica da palavra diaspora esta em spora, que quer dizer "semente": ha, ja ai, "a perspectiva multiplice da disseminacao criativa de vida e de eros". Ele fala, tambem, em uma "optica gemada e por isso erotizada e erotizante". Nas gemas sincreticas dessa nova diaspora habitam, de diferentes formas, o erotismo brumoso de uma Sherazade (4) que percorre, com suas palavras, a corda bamba entre o ritual de mortificacao dos punidos e a regeneracao da vida.

Mas falar da diaspora de Canevacci implica falar tambem da diaspora de Hall (200 : 0), que lancou luz ao tema ja apontando: nao ha como se referir a uma diaspora contemporanea sem levar em conta que ela trata, basicamente, de identidades multiplas. "Todos que estao aqui pertencem originalmente a um outro lugar", afirma sobre a composicao multipla de nossas sociedades. Nesse sentido, a diaspora seria um sem fim de cruzamentos que impedem o tracado de uma origem--lugar onde so e possivel mapear processos de "repeticao-com-diferenca" ou de "reciprocidade-sem-comeco".

Sempre ha o "deslize" inevitavel do significado na semiose aberta de uma cultura, enquanto aquilo que parece fixo continua a ser dialogicamente reapropriado. A fantasia de um significado final continua assombrada pela "falta" ou "excesso", mas nunca e apreensivel na plenitude de sua presenca a si mesma (idem:).

Ele cita ainda o ganense Kobena Mercer, observador da influencia das diasporas africanas nas artes visuais, para apontar a existencia de

uma poderosa dinamica sincretica que se apropria criticamente de elementos dos codigos mestres das culturas dominantes e os "criouliza", desarticulando certos signos e rearticulando de outra forma seu significado simbolico (idem: ibidem).

Assim, Mercer fala de "movimentos performativos" e "inflexoes estrategicas" pelos quais o crioulo, o patois e o ingles negro desestabilizam e transformam a lingua inglesa. Em linhas gerais, ele esta se referindo a forca subversiva que modifica as diferentes formas de linguagem, que transforma a cultura, ou melhor: que semeia places de passage.

Este e um trabalho sobre gemas sincreticas e diasporicas, sobre dinamicas de apropriacao e rearticulacao de significados. Este e, pois, um trabalho sobre as historias da Candelaria e seu poder de disseminacao de vida, sua capacidade de tornar o homogeneo um fluxo de deslizes--que e, em sua essencia, materia-prima da Comunicacao.

Performances e poeticas

Sob o enquadramento de seu acesso principal, o indicio mais forte de que estamos entrando em um espaco peculiar da cidade esta no ceu: nao e o azul espetado de torres estaticas, mas sim um ceu de pipas, pista aberta para o movimento, bale de um colorido que flutua. Para onde se olha, no alto, ha pipas: sorrateiras, imprevisiveis, alienigenas ao olhar cinzento do centro da cidade. Incendiadas por um desejo impossivel de coroar o espaco inabitavel--o celeste -, elas parecem nos lembrar de que a permanencia nao existe: e, na verdade, apenas uma artimanha para adiar o momento magico do deslocamento. No alto, as pipas nao demarcam nenhum territorio; sobrevivem de impulsos, vivem apenas para elaborar trajetorias. Como marca-textos, como os blocos de carnaval.

Situada em um dos extremos do Morro da Mangueira--aquele que faz divisa com a Quinta da Boa Vista -, a Candelaria comeca as margens da avenida Visconde de Niteroi, uma das principais vias de acesso da Zona Norte ao centro da cidade. Sob o ceu de pipas, as construcoes ficam cada vez mais truncadas entre si, a medida que o morro avanca. Na parte mais proxima da avenida, as casas sao esparramadas; mas, com o aumento do declive e o brotar de escadarias, o aproveitamento do espaco e desafiador e hipnotico.

Na criacao de um mapa simbolico, ha um ardil que faz da Candelaria o espaco onde as narrativas convergem em hachuras. As historias pululam regidas pelo mesmo ritmo segundo o qual brotam, como um susto, as janelas e as lajes cobertas de objetos, as escadarias e os becos assombrados e agitados por rumores vivos ou criaturas feericas. Em um espaco que a ordenacao oficial da cidade nao alcanca, e necessaria uma intensa adesao que elabora um outro tipo de ordenacao, e sempre em movimento: a ordem em permanente transicao que nomeia e renomeia o espaco, a ordem que faz de si mesma um fluxo.

As ruas, na Candelaria, nao tem um nome: elas tem possibilidades de nomes que se intercalam, reinventam-se. E o uso do espaco que as batiza: Largo das Cachorras, Beco do Fusquinha, Beco do Saci, Caboclo. A significacao da cidade nao e estatica: e a Candelaria sabe disso; nenhum nome e digno, se nao for movedico, sinal de passagem e de movimento, e nao de certezas.

Para estudar essas narrativas, usamos o conceito de "taticas" de Michel de Certeau (1994: 46): sao as dobras da cultura, estratagemas cotidianos, que se diferenciam do que ele chama de "estrategias". Enquanto esta ultima consistiria no "calculo das relacoes de forcas que se torna possivel a partir do momento em que um sujeito de querer e poder e 'isolavel' de um ambiente", a primeira diz respeito ao "calculo que nao pode contar com um proprio, nem portanto com uma fronteira que distingue o outro como totalidade invisivel. A tatica so tem por lugar o do outro" (idem: ibidem). As estrategias se relacionam as formas hegemonicas de construcao da historia, de organizacao do tempo, da economia e da politica; sao a colonialidade que enuncia o que e exterior a si proprio, ou seja, o que esta a margem. Ja as taticas sao as praticas cotidianas que, sem recorrer a um enfrentamento direto, tateiam brechas que "apresentam continuidades e permanencias" (idem: 47); apropriam-se de um "do outro" para criar um novo, para criar uma diferenca.

A essas taticas do cotidiano, Certeau da diferentes nomes: sao "maneiras de fazer", "performances operacionais", "destreza", "ardis cotidianos". Representam um "trabalho secreto" que elege e distribui autoridades diferentes daquelas "oficiais", ou seja, atreladas a ideia de Estado-Nacao. Falando de taticas, Certeau (idem: 8) aponta tambem para uma "combinatoria de operacoes" que e ferramenta para a elaboracao de uma poetica, que esta na base de um cotidiano que "se inventa com mil maneiras de caca nao-autorizada". As taticas dao origem a "poeticas sociais que despertam e exprimem autoridades emergentes" (1995: 7), "um murmurio organizador da lingua" (idem: ibidem) que esta no cerne da producao popular e que reivindica, ubiquamente, o retorno de uma etica sociopolitica.

"Combinatorias de operacoes" e "poeticas sociais": um saber-fazer organiza a aparente desordem, o torvelinho bulicoso que entretece as narrativas na Candelaria. O que nos buscamos, neste trabalho, e perseguir o tracado dessa geografia tacita da comunicacao, desse "murmurio" que tem buscado, na articulacao entre seu cerne e o redor, os fluxos reinventados para percorrer a cidade e o imaginario sobre ela.

O fluxo da Candelaria nao esta relacionado a ausencia ou a exclusao (mesmo que isso nao signifique, de forma alguma, a eliminacao das injusticas sociais, que fique claro), mas, sim, com uma conexao desmesurada e camaleonica ao fluxo maior do contemporaneo: uma conexao que se reinventa, carregando em seu nucleo mutavel os tracos de um pertencimento localista que, em contato com o mundo, se revigora.

Consumo: dicas para se locomover em um mapa noturno

Logo na entrada da favela, as margens da avenida. Visconde de Niteroi, esta o nucleo de lojinhas que, como um cartao de visitas, anuncia a chegada a favela. E o comeco de tudo: a Candelaria e diferente de todas as outras regioes da Mangueira, indicam-nos a arquitetura e os seus usos. E essa mesma frase que ouvimos em inumeras entrevistas, ao longo desses anos.

E ali, naquele nucleo de lojinhas, que a Candelaria se cosmopolitiza, refrata-se. Temos, grudado a avenida, o bazar da ONG Meninas e Mulheres do Morro. La, o trabalho consiste em vender roupas com pequenos defeitos, doadas por grandes magazines. Quando o bazar foi criado, ha alguns anos, a ideia era ensinar turmas de adolescentes a transformarem as pecas, substituindo os defeitos por acessorios ou decotes, marcas de um estilo que se espelhasse no cotidiano da Candelaria.

Esse projeto, no entanto, foi substituido por outro, mais urgente. Hoje, as roupas ainda sao vendidas no bazar, mas apenas para garantir um suporte financeiro a ONG, pois, andando mais alguns metros em direcao ao nucleo da favela, encontramos a Casa das Meninas e Mulheres do Morro. Reparemos: chama-se casa, e nao "sede" ou "escola".

E nessa casa que as lideres da ONG recebem, em dois turnos, grupos de 0 ou 40 criancas. E la tambem que o projeto de costura foi (temporariamente, dizem elas) substituido por um projeto de estimulo a leitura e de criacao de uma biblioteca comunitaria: o "Costurando Palavras". Porque ha uma urgencia em nao apenas se espelhar--as roupas customizadas o faziam, refletindo o estilo da favela em seus ajustes--, mas sim em manter-se no fluxo, usufruir as possibilidades da internet, criar uma leitura agucada do movimento do mundo.

As tecnologias difundidas pelas redes dos computadores sao usadas, na Candelaria, para fortalecer a maneira de ocupar um determinado lugar no morro carioca e tambem para incrementar a cidadania cultural. Para Giddens (1997: 76), a vida do dia-a-dia sofre reformas quando o homem se relaciona com os outros por meio do aparato tecnologico contemporaneo. Reinventa-se uma sociabilidade que, ao mesmo tempo que se faz cosmopolita, tambem se afirma de maneira localista. Elementos diasporicos sao integrados a cultura comunitaria. A intimidade, o que pertencia ao dominio do caseiro, se projeta na extensao espacial e temporal das redes comunicacionais nas telas dos computadores interligados mundialmente.

Na nossa experiencia de pesquisa na Candelaria, vemos a intimidade da rua, das esquinas, dos becos, das casas com portas e janelas abertas espelhadas e "gemadas" nas tecnologias dos computadores--Orkut, blogs e sites de bate-papo.

Para Yudice (2007: 50):
 Um sitio de socializacion es um lugar em linea donde el usuario
 crea um perfil y estabelece um red personal para conectarse com
 otros usuarios. Em solo cinco anos, segun ComScore, que investiga
 marketing em linea, mas de mil milloneses de usuarios han colocado
 sus perfiles em estos sitios. Estos perfiles incluyen fotos
 proprias, de amigos y de sus celebridades favoritas, musicas,
 textos, videos, links, etcetera. Cada perfil es um mundo
 intertextual. Los software de estos sitios hacen posible mandar
 invitaciones a otros usuarios com perfiles parecidos, y asi van
 engrossando com nuevos miembros las listas de adscritos.


O autor ja trabalhou com essa questao do uso da cultura em outra obra (Yudice 2004) quando afirma claramente que o povo utiliza a cultura comunitaria para negociar espaco e marcar sua presenca na cidade contemporanea. A cultura, assim, e um recurso, como uma especie de reserva disponivel para a melhoria politica, economica e social, alem de cultural. Yudice trabalha a cidadania fundamentada na participacao ativa da populacao. Assim, afirmamos que hoje esta em processo de redefinicao a ideia de cultura diasporica.

O "estar-na-casa" (da ONG) ja e, por si so, compartilhar de uma experiencia diasporica e de uma exacerbacao do espaco que faz parte daquilo que as lideres da ONG intencionam com seu trabalho: valorizar o ato da escolha. O espaco nao se define sozinho. Todos retrucam na disposicao inquieta dos moveis, aparelhos, signos. E essa inquietude e filha de uma inquietude maior: aquela que determina a "estetica da ginga" (Jacques 200), que representa a configuracao das favelas e os seus usos do espaco; e, ainda, aquela que designa a reivindicacao de uma etica sociopolitica na ordenacao do espaco em comum (o que, em outra instancia, poderiamos chamar "espaco publico"; mas nao teriamos como contemplar este tema aqui). Uma estetica da ginga que se expande para a internet, para o consumo dos bens simbolicos, para os fluxos on-line e off-line.

Mas continuemos nossa caminhada pela Candelaria. Entre o bazar e a casa das MMM, ha uma lan house, uma lojinha que vende pecas para celulares e outros pontos de comercio informal. Mas vamos nos deter na lan house e no centro para celulares--chamemos assim. A lan house, espaco criado por tres jovens da Candelaria, tem funcoes muito mais abrangentes do que podemos supor pelo seu nome. La, os moradores da Candelaria nao apenas navegam pela internet, como tambem tem aulas de informatica, imprimem documentos, criam seus fotologs e comunidades no Orkut e contratam os servicos de conexao banda larga e de TV a cabo--todos eles piratas, que fique claro.

Ja na lojinha de celulares, qualquer um pode comprar, com uma unica nota de R$ 10,00, creditos em valores bem mais altos. Ou ter a sua conta inativa habilitada novamente.

Certeau (1994: 47) aponta as combinatorias de operacoes que compoem, no tracado do dia-a-dia, uma cultura; e que reivindicam uma "politica das astucias": golpes ou desvios a uma ordem (ou racionalidade) preestabelecida. E o "saber-fazer" que marca as praticas cotidianas: "falar, ler, circular, fazer compras ou preparar as refeicoes etc.". Para ele, a ordem efetiva das coisas e

justamente aquilo que as taticas "populares" desviam para fins proprios, sem a ilusao que mude proximamente. Enquanto e explorada por um poder dominante, ou simplesmente negada por um discurso ideologico, aqui a ordem e representada por uma arte (idem: 88).

No centro de celulares e na lan house, o que acontece e uma manipulacao (ilegal, sabemos disso) da ordem preexistente, que reverbera em uma especie de arte--arte no sentido de buscar novas dimensoes para as experiencias mais corriqueiras. Arte porque representa inovacoes--impregnadas de experiencia estetica, e quem experimenta o dia-a-dia em uma lan house sabe disso--nos processos de comunicacao com o mundo e com si mesmo, arte porque derruba barreiras, arte que reivindica uma cidadania ancorada, inclusive, no direito de consumo.

"Os consumidores dos tempos modernos avancados ou pos-modernos sao cacadores de emocoes e colecionadores de experiencias", afirma Bauman (1999: 102). Ja Beatriz Sarlo (2000: 26) prefere chamar o consumidor contemporaneo de "colecionador as avessas": "aquele que sabe que os objetos que adquire desvalorizam-se assim que ele os agarra" (idem: 27). Pois a postura marota desses hackers da Candelaria provem talvez dessa nocao inconsciente de que o lancamento avido a colecao de experiencias resgata uma sensualidade obscura, um poder advindo da graca do que e potencialmente hibrido, da capacidade de se diversificar (a si mesmo e a atmosfera simbolica ao redor) a todo o instante. Nesse caso, os objetos (sobretudo os simbolicos) que as jovens da Candelaria adquirem nao se desvalorizam, mas sim ganham um valor inusitado, diverso do original.

Navegar na internet, piratear uma conta de celular ou, em outras palavras, cavar brechas para consumir informacao e uma atividade similar aquela vista no vestuario dos jovens mangueirenses. Quando compram uma "calca de cachorra", as "ratas" da Candelaria nao a usam intacta: primeiro a customizam, transformam-na. Sao ratas, afinal. O estar-amargem que representaria o favelado do seculo passado ja nao tem os mesmos contornos: onde estao as margens? Onde o consumo passivo, estatico e ingenuo? A pirataria ocupou o lugar da exclusao digital na Candelaria: o acesso a internet e amplo, quase irrestrito, apesar da ausencia de programas publicos oficiais de inclusao na web. Ratas e outros jovens tem no cerne de sua identidade a nocao, talvez inconsciente, de que nao sao espectadores ou tao-somente consumidores: sao produtores de seu proprio estilo de vida. Fazem de seu consumo uma arma de producao e, por conseguinte, de seducao--e ha, ai, a construcao de uma diferenca. Sabemos, no entanto, que o consumo passivo nunca foi uma verdade absoluta. No entanto, vale ressaltar: a viabilidade de consumir e produzir a todo o instante e em todo o lugar, na qual a internet e protagonista, conduz a uma mudanca de paradigmas. Podemos citar Chartier (1995: 6), quando este diz que "cultura popular" significa, sobretudo, situar um espaco de enfrentamentos, no qual existem, por um lado, mecanismos de dominacao simbolica, cujo objetivo e tornar aceitaveis para os proprios dominados (5) as representacoes e os modos de consumo que os desqualificam, que fazem sua cultura parecer inferior e ilegitima; e, por outro lado, o mecanismo dos proprios "dominados", que recriam logicas especificas para o uso e apropriacao daquilo que lhes e imposto. Como acrescenta o autor, as formas "populares" de cultura podem ser pensadas como "um conjunto de taticas produtoras de sentido, embora de um sentido possivelmente estranho aquele visado pelos seus produtores".

Ja na decada de 1980, Featherstone (1995) chamava a atencao para uma estetizacao da vida cotidiana, que ele julga ter tres acepcoes: aquela dos movimentos artisticos (como o dadaismo, por exemplo), aquela que corresponde ao projeto individual de fazer da vida uma obra de arte e, afinal, o fluxo veloz de signos e imagens--que e o que nos interessa aqui. Na correnteza de signos e imagens, a estetica cotidiana das jovens da Candelaria se esgueira no "mapa noturno" de Martin-Barbero (200): ha velocidade e habilidade na forma como se locomovem no escuro saturado de signos, na originalidade instintiva com a qual se adequam ao espaco, seja ele qual for.

E tambem Martin-Barbero (idem: 01) quem afirma que "nem toda forma de consumo e interiorizacao dos valores das outras classes. O consumo pode falar e fala nos setores populares de suas justas aspiracoes a uma vida mais digna". Ele tambem cita inumeras vezes a "apropriacao", ressaltando, principalmente, a necessidade de se investigar a comunicacao/ cultura com base no popular, mas escapando de um vies reprodutivista ou culturalista. Segundo Martin-Barbero:

O consumo nao e apenas reproducao de forcas, mas tambem producao de sentidos: lugar de uma luta que nao se restringe a posse dos objetos, pois passa ainda mais decididamente pelos usos que lhes dao forma social e nos quais se inscrevem demandas e dispositivos de acao provenientes de diversas competencias culturais (idem: ibdem).

O autor evoca Beatriz Sarlo e Hans-Robert Jauss para estabelecer um paralelo entre consumo e leitura--aquela relativa a leitores sociais, baseada nao na reproducao, mas na producao que questiona a centralidade atribuida a mensagem como lugar de verdade. Consumidores (consumidoresprodutores) e leitores sociais, para Martin-Barbero, representam a possibilidade de criar negociacoes partindo de um texto-realidade, um texto "ja nao-cheio, e sim espaco globular perpassado por diversas trajetorias de sentido" (idem). A atividade de leitura a qual se refere restitui a legitimidade do prazer, ao mesmo tempo que serve de exemplo de uma resistencia mole, fluida, marota--traco do "mapa noturno" ao qual o autor se refere para falar na configuracao de nossos tempos.

Quando falamos em consumo, voltamos entao a falar de cidadania. E importante ressaltar: estamos levando em conta que o proprio circular pela cidade e uma forma de consumo. Levamos em conta, tambem, as reflexoes de Boaventura de Sousa Santos (200 b:) sobre um novo tipo de multiculturalismo--aquele baseado em versoes emancipatorias, no reconhecimento da diferenca e do direito a diferenca, e na "construcao de uma vida em comum alem de diferencas de varios tipos". Essa nova cidadania requer, para o autor, "a invencao de processos dialogicos e diatopicos de construcao de novos modos de intervencao politica" (idem: 4).

Quando o circular pela cidade e pela internet (que e o circular pelo mundo) assume a postura de performance, ha uma reivindicacao espontanea, associada mais ao gozo do que ao embate, do direito a diferenca. Quando essa performance incorpora-se tambem ao espaco, ousariamos dizer que essa reivindicacao vira reinvencao de cidadania. Seja no trabalho oficializado da ONG Meninas e Mulheres do Morro, seja nos servicos piratas da lan house, transcorre um movimento em comum: a potencializacao extrema do sentido basico da palavra Comunicacao: "tornar comum". Esses fluxos diasporicos do contemporaneo, afinal, nao convergem apenas rumo a dispersao.

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Joao Maia (2) Juliana Krapp (3)

(1) Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Comunicacao e Cultura, do XVII Encontro da Compos, na UNIP, Sao Paulo-SP, em junho de 2008.

(2) Professor-adjunto e diretor da Faculdade de Comunicacao Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), lider do grupo Comunicacao, Arte e Cidade (CAC; CNPq, 2004).

(3) Mestre em Comunicacao pela UERJ, membro do grupo Comunicacao, Arte e Cidade (CAC; CNPq, 2004).

(4) Sherazade, protagonista de As mil e uma noites, cujo nome em persa significa "nascida na cidade", nao usa seu poder narrativo, a priori, apenas para descrever lugares fantasticos. Seu ato heroico e outro: aqui, o relato e sobretudo arma para a resistencia, recurso sempre renovavel para escapar a um destino cruento. Inventar historias, para Sherazade, e estabelecer contato com a continuidade milagrosa dos dias, fugindo incessantemente de sua condenacao a morte. A filha do vizir nao conta historias por prazer: conta-as para se perpetuar, narra-as para nao desaparecer. Isso nao quer dizer, no entanto, que o prazer nao exista. A seducao de Shahryar pelas fabulas que se prolongam noite apos noite acontece quase como uma extensao a seducao erotica: com Dunyazade ao pe da cama, o rei possui Sherazade esperando o momento magico em que ela retoma a historia do dia anterior. Corpo e fabula enovelam-se, como se misturam gozo e sobrevivencia. Mas mais do que isso. Empenhada no labor de, noite apos noite, contar historias para Shahryar, Sherazade consegue nao apenas escapar ao seu terrivel destino: ela tem o merito de reconstruir a cidade de Samarcanda, anulando, com o poder de suas fabulas, a ordem preestabelecida pelos reis assassinos.

(5) Nao concordamos com esse termo, por refutarmos a ideia de "dominacao cultural", apenas o utilizamos como uma reproducao do autor.
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Title Annotation:texto en portugués
Author:Maia, Joao; Krapp, Juliana
Publication:Comunicacao, Midia E Consumo
Date:Nov 1, 2008
Words:5230
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