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O apagamento da vogal postonica nao-final por falantes de Jaru--Estado de Rondonia.

Introducao

As linguas de todo o mundo estao sujeitas a modificacoes fonologicas, foneticas, morfologicas, sintaticas, semanticas, pragmaticas e lexicais. Estudar e explicar essas modificacoes sao tarefas do linguista. Para tanto, faz-se necessario que o linguista se dedique com afinco a abordagem dos aspectos linguisticos e extralinguisticos da fala.

Este trabalho tem como objetivo geral investigar o fenomeno do apagamento da vogal postonica naofinal (sincope) em proparoxitonas na fala rural e urbana do municipio de Jaru--Estado de Rondonia, contribuindo, dessa forma, para a descricao do portugues falado no Norte de nosso pais.

Para que o objetivo acima seja alcancado, estabelecemos os seguintes objetivos especificos:

--identificar os fatores linguisticos e extralinguisticos que influenciam a variacao do fenomeno;

--verificar e indicar se a sincope nas proparoxitonas evidencia um estagio de variacao estavel ou um processo de mudanca em progresso;

--demonstrar, com base nos postulados da Teoria Prosodica e, principalmente, da Teoria Metrica, que a sincope obedece a fonotatica do portugues, sendo, portanto, previsivel.

As hipoteses que dao base a esta pesquisa sao:

a) A variacao das proparoxitonas e condicionada por fatores linguisticos e extralinguisticos, sendo que a faixa etaria e o fator que mais influencia a ocorrencia da sincope.

b) O fenomeno do apagamento da vogal postonica nao-final continua a ocorrer na fala dos falantes mais velhos e menos escolarizados como uma regra geral, ao passo que na fala dos mais jovens e mais escolarizados ela e uma regra variavel.

Na lingua portuguesa, o fenomeno da sincope e muito comum, embora a sua origem tenha ocorrido no Latim Vulgar. Palavras como tegula > telha, opera > obra, hominis > homem, dominus > dono, calidus > caldo sao alguns poucos exemplos desse apagamento. Alem disso, palavras com ate cinco silabas chegaram a reduzir-se a duas. Nunes (1969, p. 56), referindo-se a esse apagamento, afirma que:
   As vogais atonas partilham da sorte das silabas de
   mesmo nome; como estas, alteram-se e por vezes ate
   desaparecem, mas quando persistem, tomam um
   som fraco e por vezes tao sumido que mal se faz
   sentir.


Compreender os fenomenos fonologicos que estao ocorrendo nas palavras proparoxitonas, as quais constituem a menor classe da lingua portuguesa, e fundamental para que se possam ter registrados os processos que desencadeiam a paroxitonizacao. O estudo desse apagamento, na regiao de Jaru, Estado de Rondonia, tem como objetivo primordial apresentar a sistematicidade da variacao linguistica. Nao temos como objetivo apresentar dados meramente quantitativos, mas, sim, demonstrar influencias ligadas ao uso de algumas formas paroxitonizadas por parte dessa comunidade, respeitando suas origens, seu linguajar, suas tradicoes.

Procuraremos abordar outras alteracoes que porventura venham a ocorrer. Os estudos variacionistas, respeitando os conhecimentos empiricos adquiridos, tem procurado demonstrar de maneira clara e objetiva os fenomenos da variacao linguistica e procurado afirmar, a partir dos dados, se se trata de simples variacao ou de mudanca.

Outra justificativa para a realizacao deste trabalho e o fato de haver muitos estudos que tratam das vogais pretonicas, como os de Silva (1998), no qual a autora estuda a elevacao das vogais medias pretonicas em contexto nasal no inicio de vocabulo na comunidade de Joao Pessoa, Soares (2004) que estuda as pretonicas medias em comunidades rurais do semiarido Baiano, Batisti (1993) que analisa a elevacao das vogais medias pretonicas em silaba inicial de vocabulo na fala gaucha etc., mas poucos sobre as postonicas, dentre os quais podemos citar os trabalhos de Amaral (1999), que trata da sincope nas proparoxitonas, e o de Nascentes (1922), em que o autor apresenta uma proposta sobre a divisao dos falares brasileiros.

Variacao linguistica

Embora o estudo da variacao linguistica despertasse o interesse de estudiosos do assunto, ela, de uma maneira geral, esteve durante muito tempo relegada a segundo plano. Foi a partir dos estudos da variacao quantitativa de Labov (1966) que a Teoria da Variacao passou a receber mais atencao por parte dos linguistas.

Segundo Tarallo (1994), essa proposta teorica tem por objetivo analisar e sistematizar a variacao existente na fala de uma comunidade linguistica. Sendo a fala o principal objeto de estudo, e necessario que o registro dessa fala seja o mais fiel possivel. Sabemos, porem, que alguns fatores, tais como, timidez, barulho, nervosismo etc., podem interferir de forma negativa durante a realizacao das entrevistas. Para amenizar esses problemas, o entrevistador deve procurar propor ao entrevistado um ambiente descontraido, tranquilo, pois a qualidade da amostra deve fornecer dados estatisticos confiaveis.

Metodologia

Como metodologia, analisaremos o fenomeno supracitado sob a optica da Teoria da Variacao, proposta teorica que tem por objetivo analisar e sistematizar a variacao existente na fala de uma comunidade linguistica (LABOV, 1966; 1972). Essa analise e estabelecida por meio de regras constituidas por um conjunto de categorias independentes que vao influir na ocorrencia de uma variante. Dessa maneira, podemos dizer que a analise de uma regra variavel tem por objetivo separar, quantificar e testar a significancia dos efeitos de fatores condicionadores que poderao influenciar a escolha de uma ou outra variavel linguistica. O primeiro passo para realizarmos a analise de uma regra variavel e identificar a variavel linguistica a ser tomada como objeto de estudo. Quando identificamos uma variavel, automaticamente, definimos variantes, ou seja, quais as sao as formas de expressao existentes. O passo seguinte consiste em determinar o envelope de variacao, em outras palavras, definir o campo de aplicacao. Os contextos que nao apresentarem variacao devem ser descartados, juntamente com aqueles que apresentarem variacao irrelevante. Outro passo na elaboracao de uma regra variavel diz respeito aos fatores que podem influenciar a escolha de uma ou outra variante, ou, ainda, a aplicacao da regra variavel.

Esses fatores sao organizados em grupos que indicam onde se da o condicionamento. Por sua vez, cada fator deve ser representado por uma letra ou numero, ao qual e atribuido um valor durante a preparacao dos dados para a analise estatistica. Concluida a preparacao dos dados, da-se inicio a analise quantitativa propriamente dita. Como dissemos, este estudo trata-se de pesquisa naoexperimental, com enfoque e alcance quantitativos e descritivos, visando definir se a lingua da regiao onde foi feita a pesquisa encontra-se em estado de variacao ou de mudanca linguisticas.

Para a realizacao de nossa analise, utilizamos o VARBRUL, pacote de programas criado em 1971 e que foi desenvolvido por Sankoff e Rousseau (CEDERGREN; SANKOFF, 1974) e Rousseau e Sankoff (1978), com o objetivo de dar suporte a modelos matematicos que tratam estatisticamente de dados linguisticos variaveis.

Uma analise quantitativa de regra variavel e obtida por meio de dados estatisticos de sua significancia e de restricao. Dessa forma, e estabelecido um valor para cada fator envolvido na analise, ou seja, um numero, entre zero (0) e um (1), indicara a media de aplicacao da regra. Valores acima de 5,0 indicam que um determinado fator favorece a aplicacao da regra; valores abaixo de 5,0 indicam que eles inibem a aplicacao. Ja valores iguais a 5,0 sao considerados neutros, portanto, nao favorecem nem inibem a aplicacao da regra.

Guy (1993) afirma que o modelo logistico de Rosseau e Sankoff (1978) e o preferido pela maioria dos estudiosos da variacao linguistica. Esse modelo logistico utiliza a seguinte formula:

[MATHEMATICAL EXPRESSION NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]

em que P representa a probabilidade total de aplicacao da regra no contexto de fatores; [P.sub.o] representa a probabilidade de input que, por sua vez, estabelece o nivel geral de aplicacao da regra; e [P.sub.i] representa o valor de fator associado com o fator i. Atualmente este modelo e o mais utilizado para analise de dados binarios.

0 programa varbrul: codificacao e operacionalizacao

Esse programa foi criado em 1971 e desenvolvido por Sankoff e Rousseau (CEDERGREN; SANKOFF, 1974; ROUSSEAU; SANKOFF, 1978) com o intuito de realizar estatisticamente dados linguisticos variaveis. O VARBRUL e composto por um pacote de dez programas: CHECKTOK, READTOK, MAKECELL, IVARB, TVARB, MVARB, CROSSTAB, TSORT, TEXTSORT e COUNTUP. Mas, para fazermos uma analise de regra variavel, sao necessarios apenas o CHECKTOK, o READTOK, o MAKECELL e o IVARB para fenomenos binarios. Para fenomenos ternarios, e necessario o TVARB, e para fenomenos envolvendo quatro ou cinco variantes, empregamos o MVARB.

O primeiro passo, para a utilizacao desse programa, e criarmos tres arquivos:

a) o arquivo de dados, que contem os dados codificados conforme os simbolos devidamente selecionados para a variavel dependente e as variaveis independentes;

b) o arquivo de especificacoes, o qual contem os simbolos utilizados para a codificacao dos dados;

c) o arquivo de condicoes, que contem o numero de fatores ou grupos para a criacao do arquivo de celulas.

O segundo passo e darmos inicio a execucao do primeiro programa: o CHECKTOK, o qual exige como introducao um arquivo de dados e um arquivo de especificacoes. Sua funcao e comparar os simbolos desses dois arquivos com o objetivo de detectar erros de digitacao ou de classificacao no arquivo de dados. Nao havendo nenhum erro, o CHECKTOK cria um novo arquivo de dados, que servira como input para o programa seguinte, ou seja, o READTOK. A funcao deste outro programa e ler as ocorrencias de um ou mais arquivos de dados e escreve-las em um artigo de ocorrencias, o qual servira como input para o MAKECELL.

O MAKECELL cria o arquivo de celulas necessario para o IVARB, fornecendo o numero de ocorrencias do fenomeno e, em seguida, calcula o percentual de aplicacao para cada fator. E muito importante que se tenha o arquivo de condicoes, uma vez que as recodificacoes que vierem a ser feitas aparecerao nele. Se o percentual de um determinado fator for 0 ou 100, sera necessario elimina-lo e executar novamente o MAKECELL para depois, entao, dar prosseguimento a rodada dos programas.

Apos o MAKECEL, damos inicio ao IVARB, o qual apresenta em seus resultados as percentagens e os pesos relativos encontrados para cada fator presente na analise em forma binaria. O programa selecionara as variaveis, numa escala de importancia estatistica na aplicacao da regra, por meio de um valor denominado 'nivel de significancia'. Com referencia a interpretacao dos pesos relativos que variam num intervalo entre 0 e 1, os valores que forem maiores que 0,50 sao mais favorecedores a ocorrencia da sincope.

O IVARB executa diversos niveis de analise. Primeiramente, ele realiza um processo conhecido com step up, o qual vai do nivel 'zero' ao nivel 'n', em que 'n' corresponde ao numero de variaveis. No nivel inicial, ou seja, no nivel zero, esse programa calcula o input da regra, isto e, a media global de aplicacao da regra.

No nivel 1, o programa calcula os pesos relativos dos fatores de cada variavel isoladamente, apenas comparando com o input, e depois ele atribui a cada um desses pesos um log likelihood (o qual mede o grau de adequacao do modelo aos dados) e um 'nivel de significancia', que na verdade e uma margem de erro. Em seguida, e feita a escolha de uma das variaveis, em primeiro lugar, com base nos parametros estatisticos e, depois, com base no numero de fatores da variavel.

Num segundo nivel, o programa compara a variavel selecionada com as outras variaveis, e seleciona a segunda variavel mais importante do ponto de vista estatistico. Feito isso, ou seja, selecionadas as variaveis, o IVARB as compara com as demais para selecionar a terceira, e assim sucessivamente ate que todas as variaveis relevantes estejam estatisticamente selecionadas.

Apos a conclusao do step up, o programa executa o step down, que e um processo inverso que vai do nivel 'n' ao nivel 1, eliminando as variaveis que nao sao relevantes estatisticamente. As variaveis selecionadas no step up devem ser as mesmas que as eliminadas no step down, caso contrario, e necessario que seja realizada uma analise linguistica mais detalhada.

Finalizando, cabe ressaltarmos que o numero de rodadas do VARBRUL vai depender da estatistica alcancada. Se julgarmos que os resultados alcancados na primeira rodada sao significativos, paramos por ai; do contrario, necessitamos de fazer novas rodadas.

As proparoxitonas: um breve retrospecto

No seu livro A lingua de Eulalia, Bagno (2004, p. 111-112), referindo-se as proparoxitonas, cita que "Camoes, nosso velho conhecido, em seu poema epico Os Lusiadas so usou 267 palavras proparoxitonas, o que equivale a apenas 5% de todo o vocabulario usado no poema" Bisol (2001, p. 133), tambem se referindo a elas, afirma:
   Este grupo [o das proparoxitonas] e constituido
   principalmente por emprestimos do Latim e do
   Grego, os quais entraram na lingua portuguesa a
   partir da Renascenca, com o ressurgimento do
   interesse, por parte de escritores, artistas e estudiosos
   em geral, pelo periodo classico [...] Uma evidencia
   do carater nao-nativo destas palavras e o fato de que
   ha uma tendencia a regularizar o acento para a
   posicao paroxitona, atraves do apagamento da
   penultima silaba.


Alem do mais, como dissemos, as proparoxitonas constituem o menor conjunto de palavras da lingua portuguesa. Esse e um dos motivos que nos levam a considera-las formas marcadas no lexico. Outro motivo e o fato de estas palavras sofrerem, geralmente, o apagamento de fonemas postonicos nao-finais na fala, tornando-as paroxitonas. Muitas dessas formas paroxitonizadas ja se encontram registradas nos dicionarios, como ocorre com ubre < ubere, corgo < corrego.

O termo sinonimo para proparoxitono e 'esdruxulo', palavra esta que e muito empregada em Portugal (MATEUS, 1975). Teve sua origem no Italiano (esdrucciolo) e acreditamos que seu significado originario provenha do fato de os italianos estranharem o som ao pronuncia-lo. Isso, provavelmente, esta relacionado a presenca dos germanicos na Italia, uma vez que na lingua deste povo empregava-se o termo struhhon referindo-se as proparoxitonas, o qual significava 'tropecar' (VASCONCELOS, 1912).

Na lingua portuguesa, dois tercos do vocabulario sao compostos de palavras paroxitonas (graves)--aqui o termo 'graves' refere-se ao tipo de acento e deve ser tomado com o sentido de 'longa duracao', em oposicao as palavras oxitonas (agudas), cujo acento tem uma 'breve duracao'. As oxitonas compoem quase um terco do vocabulario, ficando as proparoxitonas (esdruxulas ou dactilicas)--palavras formadas de uma silaba longa e duas breves--com a menor parte. Massini-Cagliari (1992, p. 44) afirma que "[...] ha uma predominancia entre os autores no sentido de classificar o portugues como lingua de ritmo acentual". Como a maior parte de nosso vocabulario e formado de palavras paroxitonas, concluimos que o ritmo predominante na lingua portuguesa e o grave.

A organizacao silabica: o pe

O fato de haver silabas com maior proeminencia do que outras deu origem ao que se convencionou chamar de 'pe'. O tipo de pe mais comum e conhecido como binario e e formado por uma silaba forte e outra fraca. A silaba forte da-se o nome de cabeca do pe. Assim, os pes podem ter cabeca a esquerda ou a direita. Os pes com cabeca a esquerda sao chamados de troqueus. Ja os pes de cabeca a direita sao chamados de iambos. Quanto aos troqueus, ha os formados por duas silabas (troqueus silabicos), que ocorrem em sistemas naosensiveis ao peso silabico; e troqueus formados por duas moras (troqueus moricos), em sistemas sensiveis ao peso.

Na lingua portuguesa, podemos encontrar os seguintes tipos de pes (Figura 1):

Em (1) a) o tipo de pe que ocorre e o iambo, em (1) b), um troqueu e em (2) c), um datilo.

[FIGURA 1 OMITIR]

A maioria dos estudos realizados no Brasil aponta que o tipo de pe que ocorre em nosso idioma e o binario. Para Hayes (1992), as palavras proparoxitonas constituem uma classe que foge a regra geral de acentuacao. Como no portugues o tipo de pe basico e o binario, necessario e que se faca uso da extrametricidade para evitar pes ternarios. Ja Bisol (1992) afirma que as proparoxitonas possuem pes ternarios na forma subjacente, mas no nivel de superficie possuem pes binarios. Neste trabalho, procuraremos ratificar a afirmativa de que o pe metrico do portugues e o troqueu silabico.

Analise e discussao dos resultados

Conforme os postulados de Guy e Bisol (1991), os resultados quantitativos tambem devem ser usados para formular ou avaliar teorias.

Discutiremos de agora em diante os resultados apontados pelo programa VARBRUL 2000 (versao 1992) a respeito do apagamento da vogal postonica nao-final.

Para demonstrar esses resultados, utilizaremos tabelas e figuras, destacando as aplicacoes, frequencias e pesos relativos.

As variaveis selecionadas na ordem de prioridade foram as seguintes:

I--faixa etaria;

II--tipo de entrevista;

III--escolaridade;

IV--contexto fonologico precedente;

V--sexo;

VI--tracos de articulacao da vogal;

VII--contexto fonologico seguinte.

As variaveis 'estrutura silabica precedente e extensao da palavra' nao foram selecionadas pelo programa, mas ainda assim faremos algumas consideracoes a seu respeito.

Apresentamos, na Figura 2, os resultados gerais apontados pelo VARBRUL em ordem de prioridade.

[FIGURA 2 OMITIR]

Como podemos observar, a variavel 'faixa etaria' foi selecionada como a variavel que mais influencia o apagamento da vogal postonica nao-final. Por outro lado, vemos que a variavel 'contexto fonologico seguinte' foi a que menos influenciou o apagamento, seguida pelas variaveis 'estrutura silabica precedente e extensao da palavra'. Essas duas ultimas variaveis nao influenciaram o apagamento, sendo, portanto, descartadas pelo programa. As demais variaveis, em forma decrescente, tambem demonstram influenciar o apagamento.

Analise da variavel 'faixa etaria'

Os resultados demonstram que a variavel faixa etaria e a mais importante para que o apagamento ocorra, sendo que os mais idosos (mais de 40 anos) se destacam na aplicacao da regra. Vejamos, na Tabela 1, os pesos relativos correspondentes.

Como podemos observar, os mais idosos (.55) apagam mais a vogal postonica nao-final do que os jovens (.45).

Como foi dito, dividimos os informantes em duas faixas etarias: de 20 a 40 anos e de mais de 40 anos. Os resultados comprovam nossa hipotese, ou seja, apontam que os mais velhos (mais de 40 anos) tendem a apagar mais que os jovens (de 20 a 40 anos). Vejamos a Figura 3:

[FIGURA 3 OMITIR]

Paiva e Duarte (2006) afirmam que, dentre as variaveis sociais, as diferencas etarias sao o primeiro indicador social, embora nao absoluto, de mudanca em progresso na lingua. A Figura 2 demonstra que o apagamento da vogal postonica nao-final ocorre com maior frequencia entre os mais idosos, apresentando indicio de que a lingua esta num processo de mudanca em progresso.

Analise da variavel 'tipo de entrevista'

Labov enfatizou que o estudo da lingua deve se dar em situacoes naturais de comunicacao (LABOV, 1972). Porem, segundo ele, esse estudo deve ser feito de forma sistematica. A essa aparente contradicao Labov chamou de 'paradoxo do pesquisador'. Procurando seguir a orientacao de Labov, dividimos nossa entrevista em dois tipos: dirigida e livre. Porem, sabemos que a presenca de um gravador e de um entrevistador inibe essa 'naturalidade'. Foi para atenuar a inibicao por parte do entrevistado que utilizamos em nossa entrevista dois meios: um questionario e a conversacao livre. O tipo de questionario utilizado foi o indireto, o qual consiste em formular perguntas mostrando o objeto ou o desenho, como, por exemplo: 'Que desenho (ou objeto se for o caso) e esse?'

Ja a conversacao livre proporciona ao entrevistado a oportunidade de relatar experiencias pessoais, fazendo com que ele se sinta mais a vontade. Por outro lado, o entrevistador deve ficar mais atento para que nao perca muito tempo coletando dados que nao o ajudarao na pesquisa. Por isso, ele deve procurar instigar de maneira bem sutil o entrevistado para leva-lo a pronunciar as palavras que realmente facam parte da pesquisa.

A entrevista dirigida era composta de 20 interrogacoes diretas, tais como: O que as pessoas utilizam no carnaval para esconder o rosto? Como se chama o orgao do corpo feminino onde o feto se desenvolve? Como se chama a area de terra que fica localizada proximo a cidade e que e menor do que o sitio? Como se chama a pedra preciosa que e encontrada dentro das ostras? Como se chama o periodo correspondente a cem anos? Como se chama o objeto utilizado pelas pessoas para tomar cafe de manha? etc. As respostas esperadas para essas perguntas eram: mascara, utero, chacara, perola, seculo e xicara. Compunham ainda a entrevista dirigida, 20 proposicoes indiretas, nas quais propunhamos frases faladas, as quais deveriam ser completadas corretamente, como por exemplo: Um carro que consome pouco e conhecido como carro ... As pessoas colocam ... nas armas de fogo para que estas possam disparar. Ao ligar o radio, as pessoas gostam de ouvir belas ... Devemos plantar ... para termos ar puro. Para terem saude as pessoas devem fazer exercicios ... Os riachos tambem sao conhecidos como ... etc., cujas completivas esperadas eram as seguintes: economico, polvora, musicas, arvores, fisicos e corregos.

Quando nao obtinhamos a resposta que desejavamos, mostravamos aos entrevistados alguns desenhos que representavam a resposta que queriamos que fosse dita. Desse modo, podemos afirmar que obtivemos grande exito em nossa pesquisa, embora nem sempre obtivessemos todas as respostas que queriamos. Uma preocupacao a mais que procuramos ter foi a de representar fielmente os desenhos que eram mostrados aos entrevistados, bem como a de registrar com fidelidade os dados obtidos; quando alguma resposta nao atingia o objetivo da pesquisa, modificavamos as questoes, procurando facilita-las ao maximo para que o objetivo fosse atingido.

Ja a segunda parte da entrevista baseava-se num dialogo em que propunhamos aos entrevistados que contassem como foram suas infancias naquele lugar: quais as maiores dificuldades enfrentadas, como eram os corregos se comparados aos da atualidade, como era o transito, se havia assistencia medica, quais as doencas existentes, se havia muitas pessoas com ulceras etc. Essa parte da entrevista foi a mais dificil, pois nao podiamos interromper os relatos para que eles pudessem se sentir mais a vontade, mas tambem tinhamos que orienta-los para que proferissem as palavras que desejavamos que dissessem, o que nem sempre conseguiamos. Tinhamos, entao, que agendar uma outra entrevista para que conseguissemos obter sucesso. Na Tabela 2 apresentamos os resultados apontados pelo VARBRUL:

Como podemos ver, tanto o peso relativo da entrevista dirigida (.48) quanto o da entrevista livre (.50) nao favorecem nem inibem muito o processo de apagamento da vogal postonica nao-final, pois se aproximam do ponto neutro. Contudo, a entrevista livre ainda influencia mais o processo do que a dirigida (Figura 4). Isso demonstra o que ja esperavamos: a fala natural, livre, tende ao apagamento em oposicao a fala dirigida, pois nesta ultima, o falante tende a ser mais cauteloso nas respostas.

[FIGURA 4 OMITIR]

Analise da variavel 'escolaridade'

Esse fator tem sido objeto de estudo num grande numero de obras recentes, principalmente, naquelas que tratam do preconceito linguistico. As pessoas com menos anos de escolarizacao tem sofrido grande discriminacao por usarem formas variantes nao-padrao. E muitas escolas nao podem negar que elas tem sua parcela de culpa, pois sempre primaram em ensinar apenas a norma-padrao, relegando a segundo plano nao apenas o uso das demais variantes, como tambem seu estudo.

Os estudos recentemente realizados, principalmente, pela sociolinguistica, tem procurado acabar com o preconceito linguistico, enfatizando que as variacoes diatopicas e diastraticas sao, plenamente, aceitaveis e explicaveis, uma vez que obedecem a fonotatica da Lingua Portuguesa. Sabemos que embora o falante nao tenha clara consciencia de como se dao os processos fonologicos, ele os pratica de modo cabalmente correto. Um exemplo disso e a propria reducao das proparoxitonas em paroxitonas pelos menos escolarizados, uma vez que a fazem de maneira plenamente aceitavel, pois o fenomeno constitui apenas um processo que, como vimos, teve sua origem no latim vulgar.

Nossa hipotese era de que os informantes mais escolarizados usam mais a forma padrao, tidas como forma mais prestigiada, ao contrario dos menos escolarizados, que utilizam as variantes nao-padrao, tidas como estigmatizadas. Os resultados confirmaram nossa hipotese, como podemos observar na Tabela 3.

O peso relativo referente as pessoas menos escolarizadas (.80) indica um alto indice de apagamento da vogal postonica nao-final, ao passo que o das pessoas mais escolarizadas (.20) aponta pouco apagamento. Isso se da porque a escolarizacao prima pelo ensino da norma-padrao. Um fato interessante demonstrado pela pesquisa e que alguns entrevistados, embora tenham estudado mais de cinco anos, continuam empregando a sincope. Isso, provavelmente, devese ao fato de, apos alcancarem uma determinada serie, terem abandonado seus estudos, deixando, assim, de sofrer a influencia da escolarizacao, e por isso, passaram a empregar as variantes do grupo em que vivem, pois, dessa forma, pretendem demonstrar que, embora escolarizados, ainda sao as mesmas pessoas com quem as demais conviveram e que nao se tornaram diferentes destas.

A Figura 5 nos permite afirmar que quanto menos escolarizada for a pessoa, maior sera o indice de apagamento.

[FIGURA 5 OMITIR]

Analise da variavel 'contexto fonologico precedente'

Esta variavel tambem tem influencia na ocorrencia da sincope. Como dissemos, o contexto fonologico precedente refere-se ao ambiente ocupado pelos fonemas que precedem a vogal que sofre o fenomeno do apagamento.

A importancia dessa variavel justifica-se pelo seguinte motivo: apos a queda da vogal, o fonema que sobrara (quando consoante) formara uma nova silaba com o fonema da silaba seguinte: chacara > chacra, arvore > arvre, abobora > abobra, ou seja, ao apagar a vogal postonica nao-final, o falante forma uma nova silaba, obedecendo aos padroes silabicos de sua lingua.

Na Tabela 4, verificamos os pesos relativos apontados pelo VARBRUL em relacao ao 'contexto fonologico precedente'.

Observamos que as consoantes velares 'K' e 'g' (.76) 'sao as que mais favorecem o apagamento, como ocorre em 'mascara>mascra' e 'poligono>poliglo', seguidas das alveolares (.71), das labiais (.58) e da vogal coronal i (.51), sendo que esta ultima aproxima-se do ponto neutro. Ja as palatais (.39) atuam como inibidoras da sincope (Figura 6):

[FIGURA 6 OMITIR]

Analise da variavel sexo

Os trabalhos realizados abordando essa variavel tem demonstrado que os homens apagam mais a vogal postonica nao-final do que as mulheres, ou seja, eles utilizam mais a paroxitonizacao do que elas. Labov (1991) procura demonstrar que muitas mudancas que ocorrem nos sistemas linguisticos sao influenciadas por alguns fatores externos, tais como guerras, epidemias, migracoes, invasoes etc., fatores estes que afetam diretamente a comunidade linguistica onde ocorrem. Sabemos, ainda, que em situacoes informais as mulheres tendem a empregar formas que demonstram mais afetividade do que as empregadas pelos homens. Exemplos disso sao algumas formas diminutivas: 'bonitinho, engracadinho, lindinho' etc. A busca por melhores oportunidades de realizacao profissional por parte das mulheres tambem influencia a escolha de uma ou outra forma. Assim, elas tendem a empregar mais a forma padrao do que os homens como forma de enfrentar os preconceitos sociais, pois na sociedade moderna os homens recebem salarios maiores, mesmo que apresentem a mesma escolaridade e ocupem a mesma posicao que elas.

Em nossa pesquisa, os resultados apontam para um emprego equivalente entre homens e mulheres, como pode ser observado na Tabela 5.

Vemos que tanto o peso relativo dos homens (.51) quanto o das mulheres (.49) aproximam-se do ponto neutro. Assim, a pesquisa indica que tanto homens quanto mulheres apagam quase que igualmente a vogal postonica nao-final. Embora esse resultado nao fosse esperado, pois nossa hipotese era a de que os homens empregariam mais a sincope, ele demonstra que a variavel sexo nao tem grande influencia no apagamento.

A Figura 7 demonstra por meio das duas Figuras que a variavel sexo nao e muito significativa no apagamento da vogal postonica nao-final.

[FIGURA 7 OMITIR]

Analise da variavel 'traco da vogal'

Vimos que essa variavel foi a sexta selecionada pelo programa na ordem de significancia. Em relacao a ela, os resultados sao os seguintes (Tabela 6).

Percebemos, na tabela 6, que as vogais labiais que constituem as silabas atonas nao-finais, favorecem o apagamento (.58). Ja a vogal dorsal (.45) e as vogais coronais (.45) inibem a sincope. Desta forma, os resultados reafirmam nossa hipotese, ou seja, a maior influencia no apagamento e exercida pelas vogais labiais.

A maioria dos estudos realizados sobre os tracos de articulacao das vogais tem demonstrado que a vogal /e/ tem se realizado como /i/ e que /o/ tem sofrido a elevacao, sendo realizado como /u/: pessego>pessigu, fosforo>fosfuru. Os resultados de nossa pesquisa indicam que as vogais /e/ e /i/ dificultam o apagamento, uma vez que se aproximam do ponto neutro (.45) (Figura 8). Palavras como */vespira/ e */medko/ nao ocorreram. Quanto a dorsal /a/, vimos que ela e, das vogais, a mais resistente a mudanca (NUNES, 1969). O resultado (.45) demonstra que essa vogal, assim como /e/ e /i/, inibe o apagamento, embora tenhamos encontrado algumas formas, tais como: chacra, masera e petla, correspondendo, respectivamente, a chacara, mascara e petala. Dai concluirmos que, das vogais, as coronais sao as mais resistentes ao processo de ocorrencia da sincope e que palavras como *vespira (vespera) e *proxmo (proximo) nao ocorrem. Ja as labiais /u/ e /o/ sao as que mais favorecem o processo de apagamento: musculo > musclu, oculos > oclus, abobora > abobra, arvore > arvre, fosforo > fosfru.

[FIGURA 8 OMITIR]

Analise da variavel 'contexto fonologico seguinte'

Esta foi a ultima variavel selecionada pelo programa. Na Tabela 7, observamos que os resultados indicam que a liquida lateral foi a consoante que mais influenciou o apagamento (.62): seculo > seclu, oculos > oclus, seguida da liquida vibrante (.59): abobora > abobra, mascara > mascra. Por outro lado, as nao-liquidas (nasais, oclusivas e fricativas) sao as que menos favoreceram o apagamento (.39): Jeronimo>Jeromo, relampago > relampo, filosofo > filosfo.

Como ficou demonstrado na tabela 7, a consoante liquida lateral foi a que mais influenciou o apagamento da vogal postonica nao-final (.62), e as nasais, oclusivas e fricativas, as que menos influenciaram o apagamento (.39). Isso nos leva a crer que ha, na fala, algumas preferencias por algumas estruturas linguisticas em detrimento de outras. Vennemann (1988) propos as Leis Preferenciais, nas quais sugere que ha um ordenamento nos sons da fala, cuja variacao no traco de forca corresponde ao grau de soancia e de abertura do segmento.

Nas Leis Preferenciais, que sao tambem leis universais, Vennemann especifica os padroes silabicos preferidos das linguas naturais e a variacao da estrutura silabica. Dessa forma, Vennemann (1988) sugere que a estrutura linguistica seja classificada em melhor ou pior, conforme algumas propriedades da lingua. Para ele, a estrutura (CV.CV.CV.) e otima, porem a apocope, a ditongacao e a sincope pioram essa estrutura. Isso se da porque esses fenomenos transformam uma estrutura simples numa estrutura complexa, como, por exemplo, ocorre com a forma 'corrego', forma esta que por sincope passa da estrutura simples CV.CV.CV (melhor) para a estrutura complexa CVC.CV (pior). Na obra, o autor ainda propoe a Forca Universal de Consoante, segundo a qual ele defende que as linguas possuem sequencias sonoras que podem variar conforme os contextos prosodicos e sintagmaticos. Essa variacao ocorre por um grau de desvio da corrente de ar soante, provocando um ordenamento nos sons da fala. A escala seguinte procura demonstrar essa ordenacao (Figura 9).

[FIGURA 9 OMITIR]

Percebemos, na Figura 8, que a liquida vibrante /r/ e, das consoantes, a que tem menor forca consonantal, logo maior soancia, sendo seguida pela liquida lateral /l/. Sendo assim, o apagamento da vogal diante da liquida favorece a formacao de um grupo consonantal bem-formado: oculos > oclus, musculo > musclo, arvore > arvre, abobora > abobra. Por outro lado, os sons mais resistentes ao apagamento sao os oclusivos surdos, ao passo que os menos resistentes sao as vogais baixas, ou seja, /a/, /e/ e /i/.

Embora nao haja consenso quanto ao grau de soancia dos fonemas entre alguns linguistas e algumas escalas indiquem que a liquida vibrante e melhor formadora de um ataque complexo do que a liquida lateral, os resultados de nossa pesquisa apontaram que esta ultima e favorecedora do processo de apagamento.

Ja a escala de Clements e Hume (1995) coloca a liquida lateral e a liquida vibrante em igualdade de sonoridade (Figura 10).

Em portugues, o padrao silabico CCV permite a formacao de um ataque complexo, desde que a segunda consoante seja uma liquida: seculo > seclu, abobora > abobra. Isso se da porque, apos a queda da vogal postonica nao-final, surge um novo padrao silabico obediente a fonotatica da lingua. Apesar de a presenca de grupos consonantais formados pela vibrante ser maior no portugues (br, cr, dr, fr, gr, pr, tr e vr) do que o grupo formado pela lateral (cl, dl, tl e vl), os resultados de nossa pesquisa, como foi dito, apontaram um peso relativo maior para este ultimo grupo (.62) (Figura 11): oculos > oclus, petala > petla.

Quanto as nasais, oclusivas e fricativas o peso relativo (.39) demonstrou que elas sao desfavorecedoras do processo, uma vez que, apos a queda da vogal, nao formam um grupo licenciado pelo sistema linguistico: relampago > * relampgo, decada > * dekda. Desta forma, as nasais, oclusivas e fricativas tendem a cair, e a consoante precedente j untar-se a ultima vogal formando uma nova silaba: * relampgo > relampo, * dekda > deca. Outro fenomeno que pudemos constatar na pesquisa e a ocorrencia da 'perda compensatoria', ou seja, com a queda da vogal que segue a nasal labial, esta ultima passa a ser seguida por uma homorganica: estomago > istombo.

[FIGURA 11 OMITIR]

Variaveis descartadas pelo programa

O programa VARBRUL descartou as seguintes variaveis:

Estrutura silabica precedente

Para que pudessemos obter o resultado do peso relativo dessa variavel, levamos em consideracao a seguinte estrutura silabica: silaba leve, aquela terminada em vogal; silaba pesada, aquela terminada em consoante. O programa descartou essa variavel, pois apresentou os seguintes resultados (Tabela 8):

Como podemos depreender, ambas as variaveis apresentaram peso relativo neutro (.50), o que demonstra a sua nao-influencia no apagamento da vogal postonica nao-final.

Antes de apresentarmos, apropriadamente, a discussao dos resultados, sao necessarias algumas abordagens sobre a silaba. No portugues, a silaba possui uma estrutura de constituintes binaria, ou seja, ataque e rima, sendo que a rima divide-se em pico (nucleo silabico) e coda. O ataque e a coda sao opcionais. A silaba que possui a estrutura CV e considerada leve ou aberta, e a que possui a estrutura CVC ou CVV e considerada pesada ou fechada. As generalizacoes qu e governam a ordem preferida de segmentos dentro da silaba obedecem ao Principio de Sequenciamento de Soancia (PSS). Esse principio estabelece que, a partir de uma escala de soancia, os seguimentos que possuem0 a posicao mais alta na escala ocupam o nucleo da silaba.

Ja os segmentos com posicao mais baixa ocupam as margens, em outras palavras, ataque e coda. Segundo Clements e Hume (1995, p. 284), esse posicionamento permite a existencia do "Ciclo de Soancia", o qual estabelece que a silaba constitui uma curva que se inicia em ordem crescente de soancia e termina em ordem decrescente. Exemplificando (Figura 12):

[FIGURA 12 OMITIR]

A escala de soancia apresenta a seguinte ordem:

O < N < L < G < V

da qual depreendemos que: as obstruintes (O) sao os sons menos soantes, ao passo que as vogais (V) sao as mais soantes. Desta forma, sequencias como tr, br, dr, fl, bl etc. sao permitidas porque atendem ao PSS, ou seja, crescem em direcao ao nucleo. Ja sequencias tais como: lt, lv, rt, rd etc. nao sao licenciadas, pois violam o PSS, uma vez que a soancia decresce em relacao ao nucleo.

A escala de soancia, como ja foi demonstrada, e expressa por meio das quatro maiores classes de tracos, como podemos rever ao lado (Figura 13).

Percebemos, na Figura 12, que as vogais tem o maior grau de soancia, ao passo que as obstruintes tem o menor.

Em portugues, somente os sons coronais /l/, /n/, /s/e/r/ podem ocupar a posicao de coda, pois tem menos soancia do que as vogais que possuem soancia maxima. Naro e Lemle (1976) afirmam que, segundo o Principio de Saliencia Fonica, palavras com mais material fonetico sao mais resistentes a mudanca. Assim, as proparoxitonas cujas silabas sao pesadas tendem a ser preservadas. Contudo, os resultados de nossa pesquisa rechacam essa afirmacao, como veremos a seguir.

Os valores relativos apontados pelo VARBRUL (.50) para as duas variantes demonstram que nao houve interferencia desta variavel no apagamento, como podemos observar na Figura 14.

[FIGURA 14 OMITIR]

Apesar disso, ha trabalhos em que os resultados mostram a influencia da variavel 'estrutura da silaba anterior' no apagamento. Como exemplo, citamos o trabalho de Amaral (1999).

Extensao da palavra

Embora essa variavel tenha sido descartada pelo programa, apresentaremos o resultado obtido para que possamos tecer a analise que julgamos necessaria.

A Tabela 9 indica que palavras trissilabas e polissilabas estao em pe de igualdade no apagamento, ou seja, o valor relativo e o mesmo para ambas.

O valor relativo (.50) estando no ponto neutro, como foi apontado pelo programa, indica que ambas as variaveis nao sao significativas, sendo, por isso, descartadas. Isso demonstra que a sincope nao e fruto decorrente diretamente do fato de as palavras estudadas terem tres ou mais silabas, ou em outras palavras, que o fator extensao nao e fundamental para que o apagamento ocorra. Uma possibilidade que poderia explicar essa reducao e a velocidade de fala. Caixeta (1989) procura demonstrar que a velocidade de fala influencia a reducao das proparoxitonas. Os resultados obtidos parecem confirmar essa hipotese (Figura 15).

[FIGURA 15 OMITIR]

Conclusao

Os avancos alcancados pela fonologia metrica concernente ao estudo do acento e da formacao da silaba contribuiram para que chegassemos as seguintes conclusoes:

a) O acento conduz ao abreviamento e ate mesmo a queda de vogais atonas, enquanto, por outro lado, alonga a silaba sobre a qual recai;

b) apos a queda da vogal postonica nao-final, um novo molde emerge, obedecendo, contudo, aos padroes silabicos do portugues:

[ILUSTRACION OMITIR]

c) a nova silaba adapta-se ao Principio de Sequenciamento de Soancia (PPS).

Nossa pesquisa demonstrou que o processo de apagamento e formacao da paroxitona se da da seguinte forma:

--quando ocorre a queda da vogal postonica naofinal e o contexto seguinte e ocupado por uma liquida, a consoante oclusiva ou fricativa labial torna-se flutuante e junta-se a silaba seguinte, formando, desta forma, um novo ataque: mas.ca.ra>mas.c[??].ra > mas.cra, ou ainda, a flutuante pode juntar-se a silaba precedente, provocando o processo conhecido como vocalizacao: ce.lul.a > ce.l[??].la > cew.la;

--quando o contexto precedente e uma fricativa, apos o apagamento da postonica nao-final, a consoante flutuante forma a coda da silaba precedente, uma vez que um ataque do tipo */st/ nao e licenciado pela lingua: tran.si.to > tran.s[??].to.trans.to;

- quando o contexto seguinte e uma oclusiva ou nasal, apos a queda da postonica nao-final a consoante seguinte cai juntamente com ela, uma vez que a consoante que flutua nao pode formar uma nova silaba com as consoantes adjacentes: */rmp/ ou */pg/. Dessa forma, a consoante que flutua forma um ataque, surgindo assim, uma nova silaba: re.lam.pa.go > re.lam.p[??].[??]o > re.lam.po;

- por meio da chamada 'perda compensatoria', a qual se da da seguinte forma: apos a queda da postonica nao-final, a consoante seguinte e substituida por uma homorganica da consoante nasal do contexto antecedente: es.to.ma.go >

es.to.m[??].go > es.tom.bo.

Alem de todos esses processos envolvendo a sincope, outros foram registrados, tais como:

- assimilacao: [ f[??]ssu] por fosforo;

- dissimilacao: [lampida] por lampada.

Pelo que pudemos constatar, as vogais postonicas nao-finais que mais favorecem o apagamento sao: /a/: chacara, mascara; /o/: fosforo, abobora e /e/: corrego; vespera. E as que mais inibem a ocorrencia da sincope sao: /i/: medico, musica e /u/: musculo, pilula.

Os resultados obtidos, como vimos, demonstraram que a variavel 'faixa etaria' e a mais importante para que o apagamento ocorra, sendo que os mais velhos (mais de 40 anos) se destacam na aplicacao da regra, apresentando indicio, como dissemos, de que a lingua esta num processo de mudanca em progresso. Mas vimos tambem que a escolarizacao tem um papel importantissimo como inibidora desse processo. Em outras palavras, poderiamos dizer que a sincope da postonica naofinal, a qual ja ocorria no latim, passando por todas as fases do portugues e que ainda continua a ser empregada, principalmente pelos menos escolarizados, podera um dia deixar de existir. Mas, provavelmente, isso somente ocorrera se o analfabetismo, inclusive o funcional, for totalmente erradicado. Ainda assim, no entanto, nao poderiamos fazer esta afirmativa com toda a certeza, uma vez que a lingua sofre, constantemente, a influencia de fatores culturais.

Sendo assim, concluimos que a sincope nas palavras proparoxitonas e um processo sistematico, que preenche plenamente as exigencias da fonotatica do portugues; e, portanto, previsivel.

Por outro lado, o fator que menos influencia o apagamento e o 'contexto fonologico seguinte', sendo que a liquida lateral foi a consoante que mais propiciou a ocorrencia da sincope: (.62): seculo > seclu, seguida da liquida vibrante (.59): mascara > mascra. O trabalho de Amaral (1999) apresenta resultado diferente do obtido por nossa pesquisa. Essa diferenca deve-se, principalmente, ao fato de a escolha dos corpus tambem ser distinta.

Quanto a segmentacao em pes, concluimos que o troqueu silabico e o que mais se ajusta aos padroes de nossa lingua. No que diz respeito a teoria empregada, constatamos que a proposta por Labov (1969) foi imprescindivel para que pudessemos chegar as seguintes conclusoes: a sincope nas proparoxitonas e provocada por fatores linguisticos e sociais.

Entre os fatores linguisticos destacam-se por importancia, em ordem crescente: contexto fonologico precedente, tracos de articulacao da vogal e contexto fonologico seguinte. As duas variaveis linguisticas--estrutura silabica precedente e extensao da palavra--foram descartadas, embora analisadas.

Acreditamos que o objetivo primordial desta pesquisa, que foi registrar a forma de se expressar de uma pequena parte do povo da regiao Norte do Brasil, foi alcancado. Esperamos que este trabalho sirva como suporte para que possamos comparar com os demais realizados em outras regioes do Brasil e, assim, possamos tracar um quadro mais completo do apagamento da postonica nao-final no Brasil.

Por ter sido um dos primeiros trabalhos da regiao Norte em tentar registrar este tipo de fenomeno, e pela falta de literatura especializada sobre o assunto na regiao, alguns dados podem, a primeira vista, nao apontar alguns resultados, talvez, esperados; contudo, procuramos ser os mais fieis possiveis no registro da coleta e obtencao dos resultados.

Finalmente, esperamos que muitas outras pesquisas concernentes a este tema possam ser realizadas na regiao de Jaru, Estado de Rondonia, para que a Sociolinguistica possa se valer de muitas fontes de pesquisa.

Received on January 23, 2009. Accepted on May 17, 2009.

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License information: This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.

DOI: 10.4025/actascilangcult.v31i2.6202

Sebastiao Adauto Franca

Centro Estadual de Educacao para Jovens e Adultos de Jaru, Rua Goias, 3143, setor 2, Jaru, Rondonia, Brasil. E-mail: adautojaru@bol.com.br
Tabela 1. Variavel faixa etaria.

Fatores    Apl/Total   %    P. Rel.

(jovens)   358/1600    22     .45
(idosos)   446/1600    28     .55

268 celulas, input .84

Tabela 2. Variavel tipo de entrevista.

Fatores    Apl./ Total   %    P. Rel.

dirigida   438 / 1788    24     .48
livre      366 / 1412    26     .50

268 celulas, input .84

Tabela 3. Variavel escolaridade.

Fatores       Apl/Total   %    P. Rel.

0 a 5 anos    94/1602     44     .80
5 a 11 anos   710/1598    6      .20

268 celulas, input .84

Tabela 4. Variavel contexto fonologico precedente.

Fatores           Apl. Total   %    P. Rel.

velar              236/576     41     76
alveolar          272/1186     23     71
labial            250/1152     22    .58
vogal Coronal i     6/30       20     51
palatal            40/256      16     39

268 celulas, input .84

Tabela 5. Variavel sexo.

Fatores    Apl. Total   %    P. Rel.

homens      408/600     25     .51
mulheres    396/600     25     .49

268 celulas, input. 84

Tabela 6. Variavel traco da vogal.

Fatores   Apl. Total   %    P. Rel.

labial     352/1152    31     .58
dorsal     210/832     25     .45
coronal    242/1216    20     .45
Total      804/3200    25

268 celulas, input. 84

Tabela 7. Variavel contexto fonologico seguinte.

Fatores                          Apl. Total   %    P. Rel.

nasais, oclusivas e fricativas    276/1536    18     .39
liquida vibrante                  322/1088    30     .59
liquida lateral                   206/576     36     .62

268 celulas, input .84

Tabela 8. Variavel estrutura silabica precedente.

Fatores   Aplic./Total   Frequencia   Peso relativo

leve       264 / 1024       26%            .50
pesada     138 / 576        24%            .50
Total      402 / 1600       25%

268 celulas, input . 84

Tabela 9. Variavel extensao da palavra.

Fatores        Aplic./Total   Frequencia   Peso relativo

Trissilabas      321/1248        26%            .50
Polissilabas      81/352         23%            .50
Total            402/1600        25%

268 celulas, input .84

Figura 10. Escala de soancia.

O   <   N   <   L   <   G   <   V

-       -       -       -       +   silabico
-       -       -       +       +   vocoide
-       -       +       +       +   aproximante
-       +       +       +       +   soante
0       1       2       3       4   grau de soancia

Figura 13. Escala de soancia.

O   <   N   <   L   <   G   <   V

-       -       -       -       +   silabico
-       -       -       +       +   vocoide
-       -       +       +       +   aproximante
-       +       +       +       +   soante
0       1       2       3       4   grau de soancia
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Adauto Franca, Sebastiao
Publication:Acta Scientiarum Language and Culture (UEM)
Date:Apr 1, 2009
Words:8939
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