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O Brasil cafe com leite. Debates intelectuais sobre mesticagem e preconceito de cor na primeira republica.

   (...) Na Saude a danca e uma fusao de dancas, e o samba, uma
   mistura do jongo e dos batuques africanos, do canaverde dos
   portugueses e da porace dos indios. As tres racas fundem-se no
   samba, como num cadinho. (...) No samba desaparece
   o conflito das racas. Nele se absorvem os odios da cor.
   O samba e, - se me permitis a expressao - uma especie de bule,
   onde entram, separados, o cafe escuro e o leite claro, e de onde
   jorra, homogeneo e harmonico, o hibrido cafe com leite.
   (Fantasio, pseud. de Olavo Bilac, Revista Kosmos, maio, 1906)


Os variados registros recolhidos em periodicos como a Revista Kosmos (Rio de Janeiro, 1904-1909) e o Almanaque Brasileiro Garnier (Rio de Janeiro, 1903-1914) sobre mesticagem e preconceito de cor fazem pensar no peso que a defesa da ideia do Brasil como um pais aberto a assimilacao tinha naquele momento. Analisados em conjunto e comparativamente, esses registros evidenciam o quanto a preocupacao com a unidade nacional motivou intelectuais a um mergulho nas "coisas brasileiras" - o que fica evidente, por exemplo, no trecho citado acima. Consequentemente, essa producao intelectual enveredouse por uma avaliacao do papel dos descendentes de africanos e da mesticagem para os destinos da nacao. No interior ou na cidade, a mistura foi o motor a partir do qual se inventaram "unidades" para o Brasil e seus padroes de autenticidade.

Usando outros termos, e possivel afirmar que a ideia de um "Brasil mestico" tem uma historia, anterior a Gilberto Freyre, inclusive; e que tanto a ideia quanto a sua historia estao relacionadas tambem aos polemicos debates sobre o carater nacional brasileiro, ocorridos entre o final do seculo XIX e o inicio do seculo XX.

O objetivo deste artigo e recuperar a historicidade desse debate e proporcionar uma reflexao sobre um tipo de producao intelectual que investiu na construcao de uma versao mestica da identidade nacional brasileira, ainda na primeira republica. Afinal, tanto a abolicao quanto a republica provocaram entre os intelectuais uma especie de tomada de posicao em relacao a populacao afro-descendente, pois era preciso pensar na incorporacao dos ex-escravos seus descendentes a vida nacional e a propria identidade da nacao. (1)

A reflexao proposta, entretanto, envolve necessariamente o dialogo com uma importante tese sobre a primeira republica, defendida por varios historiadores nos anos de 1980-1990. Essa tese afirma que o pensamento intelectual da chamada Belle Epoque, especialmente na capital da republica, voltava-se de modo praticamente total para valores externos e para a europeizacao dos costumes. Segundo esses estudos, desejava-se enterrar o "Brasil antigo e africano", empecilho para a realizacao de seu projeto civilizatorio. (2)

No entanto, para explicar o interesse de varios intelectuais, na epoca, por manifestacoes culturais associadas aos negros e mesticos, alguns historiadores, de uma forma proxima a argumentacao anterior, afirmaram a existencia de uma voga de exotismo e regionalismo, que teria invadido a cidade do Rio de Janeiro e outras capitais do Brasil, a partir do inicio do seculo XX. (3) Esse exotismo - tambem uma moda europeia -, embora deva ser levado em conta, nao e suficiente para a compreensao de tao complexas questoes, pois ignora a sociabilidade intelectual brasileira e continua a pressupor a imitacao, a copia da Europa.

De fato, e impossivel negar a fascinacao dos intelectuais pelo chamado "modelo frances" - que incluia tambem a valorizacao de inventarios folcloristicos. Mas, ao dar voz aos argumentos desses intelectuais, nao se pode entende-los somente a partir de explicacoes sobre o "gosto pelo exotico" ou sobre sua adesao a uma moda artistico-cientifica europeia de interesse pelas coisas etnograficas. Ate porque tiveram de pensar a partir de questoes internas, como a selecao, dentro de um universo bem variado, do que seria brasileiro, as disputas em torno da centralizacao e da descentralizacao do poder, as teorias raciais, o passado escravista e o futuro da nacao republicana. (4)

Mas, seja no caso das tradicoes populares encontradas nos reconditos do interior do pais e sua correspondente mesticagem, cujo fruto seria o mameluco, o caboclo ou o sertanejo, um tipo nacional de "alma mestica", sem que sua cor fosse mencionada; seja no caso das expressoes culturais urbanas e da afirmacao de uma mesticagem na qual a presenca negra era mais forte, originando o mestico "nao-branco", o que se buscava era a unidade nacional. Com base na comparacao entre o Almanaque e a Kosmos, embora a mistura das tres racas tenha sido assumida positivamente como a maior originalidade nacional, podemos indicar que a mesticagem no Brasil, do ponto de vista intelectual, nao foi um fenomeno interpretado de forma homogenea. A variedade de manifestacoes culturais era grande, tao grande quanto as possibilidades de escolha sobre o que valorizar e condenar.

Assim, determinadas contribuicoes de negros e mesticos foram reconhecidas e divulgadas em periodicos inseridos em um circuito comercial, produtos culturais que precisavam ser vendidos e eram comprados por leitores que estavam dispostos, se nao a concordar, ao menos a debater tais questoes. Os proprios projetos editorais do Almanaque e da Kosmos, ainda que sob diferentes perspectivas, tinham em comum o empenho em transformar o conhecimento sobre o Brasil publicado em suas paginas em reconhecimento nacional. (5)

Dialogos com a historiografia

Autores como Renato Ortiz, Roberto Ventura, Lilia Schwarcz e Claudia Matos localizaram uma intensificacao nos debates em torno da mesticagem e do negro, a partir das ultimas tres decadas do seculo XIX, em meio a in troducao das teorias evolucionistas e cientificas e a campanha pela abolicao no Brasil. (6)

Segundo Lilia Schwarcz, essas teorias opunham-se ao Humanismo do seculo XVIII e deixavam de lado o principio universal da igualdade, herdado da Revolucao Francesa, "(...) que buscava naturalizar a desigualdade em sociedades so formalmente igualitarias". Contraditorios, o Humanismo e as teorias raciais existiram num mesmo tempo, tendo sido ate mesmo combinados. E foi nesse contexto que o argumento racial adquiriu outros significados, nao limitados a definicao biologica. O termo raca, historicamente construido, recebeu uma interpretacao social e, dessa forma, nao pode ser tomado como uma ideia fixa ou natural. (7)

Portanto, foi a partir da segunda metade do seculo XIX que tanto os monogenistas quanto os poligenistas assumiram a perspectiva evolucionista e ao conceito de raca foi dado um significado original. As teorias de Darwin - cujo enfoque se referia estritamente a natureza e ao ramo biologico - se tornaram referencia obrigatoria e forneceram uma nova orientacao que foi aplicada a antropologia, a sociologia, a historia, a economia etc. No plano politico, por exemplo, o darwinismo foi tomado como base para projetos conservadores como o imperialismo europeu, ou seja, para o dominio sobre os supostamente "mais fracos e inadaptados". Assim, antigos debates tomaram novas proporcoes e rumos e os principios monogenistas e poligenistas (8) foram acionados em diferentes combinacoes com as, entao, novas teorias raciais e evolucionistas.

Desde a entrada das teorias raciais no pais, o Brasil passou a ser visto como espaco da mistura de racas, com todas as implicacoes que isso traria em termos de (im)possibilidade de progresso e de civilizacao. De acordo com as teorias raciais, a mesticagem emergia nesse momento como uma incognita, uma ambiguidade que pairava sobre a ideia polemica de paraiso racial. Ao mesmo tempo macula e singularidade, a mescla de racas significava degeneracao e ameaca ao futuro, mas tambem despertava curiosidade de estudiosos nacionais e estrangeiros. (9) Certamente, essa nao era uma afirmacao que trazia conforto para os intelectuais brasileiros.

Mas, se no Brasil o argumento racial estava adequado ao estabelecimento e legitimacao de diferencas sociais na pos-abolicao, sua defesa podia implicar uma visao pessimista da mesticagem e do proprio futuro do pais. E foi exatamente nos meandros dessa tensao que saidas originais puderam ser elaboradas, acomodando modelos de matrizes diversas. De tal maneira, foi possivel a adocao de determinadas assertivas, como a suposta diferenca entre as racas e sua natural hierarquia, sem tocar no que isso traria de negativo; ou, ainda, uma leitura do darwinismo social que solucionou a ideia de que as racas humanas nao permaneciam estacionadas, mas em constante evolucao e "aperfeicoamento", deixando de lado a nocao de que a humanidade tinha uma origem comum e abrindo espaco para o a defesa do branqueamento. (10)

Silvio Romero foi um dos autores que se dedicaram profundamente a pensar nas relacoes entre raca, cultura e nacao, entre o final do seculo XIX e o inicio do XX, influenciando seus pares e as geracoes posteriores. (11) Com posicoes por vezes ambiguas, partiu de uma afirmacao clara: nao adiantava debater se era bom ou ruim; o Brasil era um pais composto por mesticos e isso era fato irrevogavel. Reconheceu que tal fenomeno nao era novo, mas que no Brasil, naquele momento, era mais intenso e flagrante. Era preciso refletir e propor solucoes, ou seja, para alcancar o branqueamento era preciso conhecer as nossas herancas. (12)

De acordo com Roberto Ventura, as nocoes de mesticagem e de branqueamento elaboradas por Romero configuraram uma dessas possibilidades de interpretacao original das teorias raciais. O autor partiu da combinacao entre a crenca na existencia inata de diferencas raciais e nas ideias evolucionistas, ou seja, na existencia da concorrencia pela vida e no predominio do mais apto. Romero teria conjugado a mesticagem - como fenomeno que diferenciava o Brasil das outras nacoes - ao branqueamento. E, a partir dessa diferenciacao, o Brasil poderia superar a falta de originalidade da cultura nacional. Dessa forma, o medico sergipano condenava o mestico como racialmente inferior, ao mesmo tempo em que atribuia a mesticagem o papel de unica saida ou garantia, para a criacao de uma cultura nao-imitativa. A mesticagem seria o unico fator que conferiria originalidade ao Brasil, ainda que isso nao significasse obrigatoriamente riqueza e vigor. (13) Portanto, a reavaliacao e a redefinicao da mesticagem conferiram a Silvio Romero uma posicao que, a um so tempo, o distanciava e aproximava das teorias raciais. (14) Para ele, pensar sobre "o mestico" implicava necessariamente assumir e estudar o "(...) elemento africano, que por mais que queiramos esconder, predomina ainda em nossas populacoes... (...)". (15)

Essas ambiguidades foram comuns na trajetoria intelectual de Silvio Romero; atrelado que estava aos paradigmas do evolucionismo e do racismo cientifico, destacou as contribuicoes do negro, imputando a elas outras tantas reducoes que acabavam por lhes retirar a relevancia. A maior de todas as reducoes cometidas pelo autor relaciona-se as suas consideracoes sobre a mesticagem: "(...) a acao do negro e muito apreciavel na formacao do mestico. Se nao se conhece um so negro, genuinamente negro, livre da mescla, notavel em nossa historia, conhecem-se inumeros mesticos, que figuram entre os nossos primeiros homens". (16) A partir da mesticagem, Silvio Romero resgatou o negro e ao mesmo tempo o subsumiu, uma vez que o branqueamento pressupunha o predominio do elemento branco. (17) O mestico, para Romero, seria uma especie de "ganho evolutivo", pois teria ajudado o colonizador branco a se adaptar ao meio nos tropicos e incorporado indios e africanos a civilizacao.

Pensando nessas possiveis interpretacoes, ao avaliar a perspectiva do debate cultural dos intelectuais do Garnier e da Kosmos, parece que a penetracao das teorias raciais nao impediu outras saidas otimistas para se pensar a nacionalidade e o proprio futuro da nacao - saidas que, embora estivessem dentro dos paradigmas raciais, valorizaram a mesticagem e o mestico como (produtores de) singularidades nacionais.

Desde o final do seculo XIX, a ideia de um "Brasil-cadinho" vinha sendo forjada e a categoria mestico, para autores como Silvio Romero, Nina Rodrigues e Euclides da Cunha, fazia parte de uma linguagem capaz de expressar a realidade social desse periodo. E, dentro de certos limites, tambem correspondeu a uma busca pela identidade nacional, o que fica evidente a partir da pesquisa em periodicos publicados na primeira decada do seculo XX, bem como a existencia de outras mediacoes alem das teorias raciais. Para Ortiz, independentemente das criticas (que supos isoladas) cunhadas por Manoel Bomfim, o racismo cientifico foi a moeda corrente no debate politico e cultural brasileiro entre o final do seculo XIX e inicio do XX, redefinido e adaptado as condicoes locais. (18)

A partir do paradigma racista, autores como o proprio Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Afranio Peixoto e Joao Baptista de Lacerda, por exemplo, enalteceram a mesticagem como instrumento de assimilacao racial dos considerados grupos inferiores, de forma que escapavam da armadilha determinista que condenaria o Brasil ao atraso e a barbarie. (19)

Mais proxima ou mais distante do branqueamento, a adesao a mesticagem significou fundar os mitos da identidade nacional na fusao e na integracao de racas e culturas. Entre a certeza da inferioridade do africano de Nina Rodrigues; a mesticagem como originalidade tendendo ao branqueamento de Silvio Romero e de Gonzaga Duque; as investidas seletivamente consagradoras no mestico de Lima Campos, as colocacoes ambivalentes de Olavo Bilac e a recusa da raca como fator determinante de Juliano Moreira (20), oscilaram as posicoes sobre mesticagem, negros e mesticos nos periodicos pesquisados. Havia, portanto, varios tons na abordagem da questao, assim como outras mediacoes e matrizes que, juntamente com as teorias raciais, faziam parte de um mesmo universo intelectual.

E ainda que a nocao de intelectual nao tivesse limites claros no inicio do seculo XX, relaciona-la a ideia de um "produtor de bens simbolicos" localizado na arena politica, institucionalizada ou nao, ajuda a reforcar o argumento de que esses intelectuais estavam comprometidos com projetos de intervencao naquela sociedade. No que diz respeito a atuacao em campos de saber, a nocao de intelectual com a qual estamos nomeando esses homens letrados possui contornos fluidos, ate porque, salvo algumas raras excecoes, escreviam muito na imprensa e sobre diversos assuntos. Estamos falando de poligrafos, isto e, de um intelectual que deve "(...) ser pensado sempre como um double de teorico da cultura e de produtor de arte, inaugurando formas de expressao e refletindo sobre as funcoes e desdobramentos sociais que tais formas guardariam". (21)

Na pesquisa mais ampla (22) da qual esse artigo e fruto, foi possivel perceber que esses intelectuais compartilhavam alguns tracos, como a abordagem de temas relacionados a identidade nacional, uma postura tutelar em relacao a sociedade e a intensa atuacao na imprensa. A maioria deles nasceu na regiao nordeste e morreu na cidade do Rio, evidenciando que a "republica das letras" tinha o seu epicentro na capital federal. Alem disso, a maior parte dos intelectuais pesquisados era de filhos de profissionais liberais, comerciantes, pequenos ou grandes proprietarios em decadencia, ou seja, nao pertenciam ao que se pode chamar de "alta aristocracia brasileira", quer politica quer economica. Quase todos frequentaram alguma instituicao de estudos superiores, seja nas faculdades da Bahia, Recife, Sao Paulo ou Rio; originando ou nao diplomas, as escolas superiores representaram espacos de contatos e sociabilidade fundamentais para esses homens. Notou-se um significativo envolvimento com a educacao. A ocupacao de cargos nos medios e baixos escaloes da burocracia estatal e do mesmo modo uma constante, o que nao deixa de ser uma forma de participacao na politica institucional, embora nao partidaria. Mais um ponto em comum entre esses intelectuais era o convivio em cafes, confeitarias e livrarias - locais que eram o ponto de encontro no qual se travaram relacoes de amizade, contatos sociais, intelectuais e profissionais. (23)

Foi possivel localizar, tambem, tanto a partir da presenca de alguns desses intelectuais nos movimentos de luta pela abolicao e pela republica (como Coelho Netto, Olavo Bilac, Jose Verissimo, Joao Ribeiro, Rocha Pombo, Mario Mello, Graca Aranha, Gonzaga Duque, Lima Campos, Ernesto Senna e Xavier da Silveira Junior), quanto atraves das mencoes posteriores a esses acontecimentos (como nos casos de Joao do Rio, Joaquim Vianna, Curvelo de Mendonca e Gil), que tais processos tiveram um peso significativo em suas reflexoes. Vale destacar ainda a presenca de membros da Academia Brasileira de Letras dentre os autores estudados.

Tais informacoes ajudam a identificar melhor quem eram esses intelectuais e o proprio espaco que existiu nessa "republica das letras" para uma diversidade de formulacoes sobre a mesticagem e o preconceito de cor. Certamente nao se restringiram somente as teorias raciais, a rejeicao irrestrita do que estivesse relacionado aos negros e mesticos, ou mesmo, a simples idealizacao de um pais futuramente branco. Acompanharemos a seguir algumas dessas formulacoes.

A valorizacao do papel dos africanos e seus descendentes e o preconceito de cor no Brasil

A argumentacao de Gonzaga Duque em uma cronica publicada na Kosmos sobre o seu admirado amigo Cruz e Souza nos traz pistas dessa variedade de abordagens sobre a mesticagem e sobre a presenca negra no Brasil. Segundo o autor, "o poeta negro" trazia consigo o "pesar da cor". "Intelectualmente superior, doia-lhe a diferenca deprimente da sua raca, que nele, por compreensivel supersensibilismo (...) atingia a forma duma desgraca." Descrevendo-o como portador de um forte recalque racial, Duque mencionou ter ouvido do amigo que o fato de ter nascido negro era acidental, mas raramente ele se referia a tal "acidente" com humor, como faziam "alguns homens intelectuais de sua raca". Cruz e Souza se sentia perseguido e hostilizado pelo seu chefe na Reparticao - um mulato do qual sempre se queixava: "E que eu lhe recordo a origem (...) dizia-me - tenho talvez a mesma cor da mae... e ele, que quer ser moreno a forca, esbarra-se comigo, ve-me como a afirmacao tremenda do seu passado, sou o espectro recordativo da mucama que o despejou no mundo". (24) O "talentoso negro" nao se conformava com a repulsa manifestada por um "assimilado" em relacao aos individuos de sua "raca ancestral", reagindo sempre com "amargor" e "acabrunhamento". (25)

Mas, de acordo com Duque, essas tensoes em torno da cor nao deveriam ganhar a posteridade porque a mesticagem, ao mesmo tempo em que eliminaria o "elemento negro" (de "tipo conservado", como Cruz e Souza), acabaria tambem com o proprio preconceito de cor. Para o futuro so interessaria o poeta Cruz e Souza e nao a sua forma agressiva de lidar com o preconceito de cor. Logo, seu nome deveria se firmar e nunca se apagar do "grupo intelectual de uma raca que tem dado, dentro do seu tipo conservado, homens de real valor mental e moral", como o pintor Manuel da Cunha, os Dias da Cruz, Luiz Gama, os Reboucas, Paula Brito e Rangel de Sao Paio. Aqui podemos observar uma aposta mais explicita no branqueamento. A "raca ancestral" foi valorizada no passado, no legado cultural deixado para o presente, mas a presenca em carne e osso de negros "de tipo conservado" traria inconvenientes, em termos do preconceito de cor, que logo desapareceriam atraves da mesticagem, para alivio do escritor.

Ja para o cronista Gil a definicao de um tipo homogeneo para a nacao implicava o "abrandamento" da "raca negra" pela mesticagem, ou seja, pela "assimilacao de elementos estranhos". Embora projetasse um tipo nacional no qual a presenca africana nao fosse explicita na aparencia, Gil defendeu, numa formulacao intrincada, que nao se deveriam apagar todos os tracos capazes de conferir originalidade ao Brasil. Optou por um tipo nacional que deveria ter como "(...) traco iniludivel, o leve dourado da face, a insurreicao mal refreada dos cabelos, o olhar insinuante e elastico (...)". (26)

Alem desses, ha outros registros que nos permitem confirmar a existencia, na primeira decada do seculo XX, de concepcoes que matizaram o determinismo racial vigente e trouxeram a tona elaboracoes intelectuais que, mesmo construidas em dialogo direto com as teorias raciais, valorizaram, de alguma forma, negros, mesticos e a propria mesticagem. Ao que indica a documentacao, aquele era um universo intelectual caracterizado pela pluralidade de posicoes, autorizando-nos a considerar a mesticagem como uma especie de campo de conflitos e negociacoes. Nesse sentido, e que apresento ao leitor um pouco mais dos interessantissimos registros de intelectuais sobre negros, mesticagem e preconceito de cor.

A contestacao do determinismo racial operada por Manoel Bomfim sera o nosso ponto de partida. Dentro da linguagem biologica do seu tempo, este autor refutou a aplicacao, segundo ele inapropriada, das teorias biologicas a sociedade humana. A fim de compreender o atraso em que se encontravam a America Latina e o Brasil, o autor investiu na analise dos problemas herdados do periodo colonial, chegando a conclusao de que o atraso tinha motivacoes historicas derivadas da exploracao predatoria operada por espanhois e portugueses na America Latina - o que vinculou a ideia do parasitismo.

Portanto, teria sido a colonizacao iberica predatoria a origem dos problemas nacionais e nao a pretensa inferioridade racial dos povos que viviam nesse territorio. Dessa forma, Bomfim rechacou a visao corrente na Europa de que a America Latina era composta de paises habitados por gentes preguicosas, mesticos degenerados e barbaros incapazes de organizar verdadeiras nacionalidades. (27)

Para ele, as teorias biologicas racistas eram um sofisma, isto e, uma justificativa "(...) mascarada de ciencia barata e covardemente aplicada a exploracao dos fracos pelos fortes". (28) Ao apontar as incoerencias das teses racistas de Agassiz sobre a pretensa inferioridade do mestico no Brasil, demonstrou o quao anacronico era o autor, pois defenderia premissas ja refutadas pelos novos estudos europeus:
   E horrivel o que o naturalista da "imutabilidade das especies"
   observou dos mulatos e mesticos brasileiros; (...) Nao ha razao
   para que nos impressionemos com os conceitos do sabio reacionario;
   ele andava por estes mundos com o proposito determinado de achar
   provas de que foi o Padre Eterno quem fez, bem separadamente, em
   momentos diferentes, cada uma das especies existentes,
   e que elas sao hoje o que eram quando sairam das maos do
   obreiro la dos ceus (...). (29)


Em publicacao de 1905, ao examinar a questao da mesticagem, Bomfim refutou com argumentos historicos e sociologicos as qualidades negativas imputadas aos africanos e seus descendentes - como "submissao incondicional", "frouxidao de vontade", "docilidade servil", "afetividade passiva" -, afirmando que tais caracteristicas, quando presentes, eram frutos das condicoes historicas e sociais a que foram submetidos, ou seja, da escravidao, da exploracao e do abandono.

Para operar esse rompimento com as teorias raciais, Bomfim fez uso de outras referencias teoricas, recorrendo a autores como Ribot, Waitz, Marlin De Moussy e Quatrefages. Na leitura de Bomfim, ao contrario do que diziam as teorias racistas, Ribot, por exemplo, acreditava que a mesticagem poderia misturar qualidades morais e intelectuais e dar origem ao "aparecimento de aptidoes novas". Com base nesses autores, argumentou que a mesticagem teria desenvolvido no Brasil "qualidades apreciaveis", como a ausencia de preconceito de cor, possibilitando aos mesticos um pleno desenvolvimento de suas aptidoes, como a superioridade artistica em relacao as racas maes. A quase totalidade dos pintores e musicos brasileiros seria de mesticos, havendo tambem muitos notaveis na medicina. Logo, os problemas pelos quais passavam os mesticos nao diferiam em nada das populacoes europeias que nao tinham acesso adequado a educacao:
   Deem-lhes interesses superiores, e dali nascerao sociedades
   estimaveis. Fortes e vigorosos como sao, eles saberao aproveitar
   ultimamente as energias e resistencias que possuem, e que os
   tornam efetivamente superiores aos colonos que se fazem recrutar
   nos refugos das civilizacoes corrompidas. (30)


Dando um tom nacionalista e antiimperialista ao seu anti-racismo, Bomfim investiu em argumentos historicos para refutar o arcabouco racista, afirmando que a solucao para o atraso do Brasil estava na ampliacao do ensino e da habitacao adequada e na diversificacao da economia para alem da monocultura; o verdadeiro problema, a falta de "instrucao popular", o que seria "curavel, facilmente curavel". (31)

Um incidente comentado por Olavo Bilac na Gazeta de Noticias, em 1907, tambem e revelador dos matizes com que a mesticagem e o preconceito de cor foram concebidos na epoca. A ocasiao deu ensejo a uma dura critica do autor a ingratidao dos brasileiros que se envergonhavam da "raca martir" - "a raca a quem mais devemos". Ao contar da viagem do General Roca para Sao Paulo, mencionou um contratempo que teria acontecido em uma parada na cidade de Resende. Em meio a foguetes e bandas de musica, um octagenario negro, veterano da guerra do Paraguai, (32) teria gritado: "Viva o Imperador!", oferecendo ao general um cacho de bananas. De acordo com Bilac, diante da manifestacao "burlesca e comprometedora", os brasileiros presentes ficaram muito constrangidos porque quando os argentinos queriam "(...) cobrir-nos de ridiculo (...)" lancavam a face dos brasileiros
   (...) justamente esses dois estigmas: os nossos pretos e
   as nossas bananas. E ali estava um preto oferecendo bananas ao
   general Roca!... Imaginais o pasmo da comitiva? Os que nao
   coraram de vergonha, riram de malicia... Nao sei ate
   como nao se levantou ali algum punho colerico para fulminar
   com um soco patriotico imprudente, o homem que ousava, com sua
   presenca barbara, perturbar a harmonia da festa civilizada. (33)


Diferente dos "bonifrates" brasileiros da comitiva, o general Roca nao teria rido nem se indignado: recebeu o "preto" com benevolencia, saudou-o quando soube que era um veterano da guerra do Paraguai, aceitou as bananas e gratificou o "pobre anciao". A partir desse ponto, Bilac desfez a oposicao entre a "presenca barbara" e a "harmonia da festa civilizada", propondo que os valores trazidos por ambas deveriam ser integrados.

Preocupado com a questao, Bilac indagou de que os brasileiros teriam vergonha ou achariam graca, pois ali estava uma pessoa que deveria ser respeitada nao apenas pela sua idade, mas por representar a "(...) velhice na nossa terra, o nosso passado, a nossa tradicao. Estava ali a raca martir que nos desbravou a terra, que a regou com o seu sangue, que a defendeu, que a formou, que a enriqueceu!". A historia daquele "preto" de carapinha seria a de muitos outros pretos que vieram para ca ou aqui haviam nascido cativos; que se fizeram homens "debaixo do azorrague e do oprobrio" e que conquistaram a liberdade em troca de uma nova escravidao, pois foram lutar no Paraguai "e la se bateram sem saber porque se batiam". Na volta, teriam sido abandonados a propria sorte pelo governo e pela sociedade, envelhecendo na "ignorancia, na ociosidade e no abuso da aguardente (...) numa terra em que ate hoje a organizacao do trabalho e um mito". Bilac considerava que aquele homem era um sobrevivente tanto da guerra quanto do egoismo dos que nao se importaram com ele apos o seu retorno ao Brasil. Entao por que a vergonha e o riso, justamente em um pais que se orgulhava de ter assimilado a "raca negra"? Bradando contra o "desprezo" corrente contra os negros, defendeu que eles deveriam ser assumidos no passado e no presente:
   Nos todos costumamos dizer, com uma basofia retumbante, que nao
   desprezamos a raca negra, que a incorporamos dignamente em nossa
   civilizacao, que nao a perseguimos, nem a exterminamos. Nao a
   exterminamos pelas armas, e certo. Mas nao e menos certo ainda
   que a tratamos sempre com desdem. Aqui, os brancos desprezam os
   pretos; os mulatos claros dizem que sao brancos, e os mulatos
   escuros dizem que nao sao descendentes de pretos, mas descendentes
   de tamoios e de tupiniquins. E ainda uma raca maldita! e,
   entretanto, o Brasil foi feito por ela...Oh, a nossa cruel tolice!
   a nossa estupida presuncao! Como se uma patria pudesse anular o
   seu passado, alterar a sua tradicao, destruir a sua historia, toda
   facilmente como qualquer de nos deita ao lixo as botinas
   estragadas (...) Nao, meus amigos e meus irmaos! (...) Nao foi um
   incidente vergonhoso, nem um incidente ridiculo. Nessas festas ao
   nosso amigo [general Roca], a homenagem do soldado anciao, do preto
   maluco, do cidadao humilde, foi a nota enternecedora. Aparecendo
   ali, inesperadamente, em pleno brilho do festival civilizado, o
   preto decrepito parecia estar dizendo: "Um momento amigo! eu tambem
   sou brasileiro, e dos mais dignos, apesar da minha cor,
   apesar da minha decrepitude, e apesar da minha baixa condicao. (34)


Podemos perceber que Bilac dialogava com seus leitores assumindo que, embora se admitisse a integracao dos negros, havia um forte preconceito de cor naquela sociedade, abrangendo, inclusive, as relacoes de negros e mesticos entre si. A insistencia do autor na perspectiva da integracao e incontestavel, mormente ao defender que o Brasil deveria assumir sua heranca africana com orgulho, mesmo que isso ainda fosse um motivo de constrangimento. Por outro lado, podemos atentar para o que estaria em jogo, para Bilac, nos debates em torno dos criterios de pertencimento a nacao. A "raca negra", a decrepitude e a baixa condicao pareciam nao fazer parte do que os "boniferates" (35) do governo desejavam que fosse "o brasileiro".

Continuando nosso percurso pelos registros intelectuais em torno do preconceito de cor, encontramos mais uma vez Bilac preocupado em jogar por terra o que se dizia negativamente do Brasil em relacao a sua forte presenca negra e mestica. Isso se deu na ocasiao em que comentou o desdem com que uma atriz estrangeira se remeteu ao seu amigo Jose do Patrocinio, numa revista francesa chamada Je sais tout. A atriz era Jane Hading e se referia a vinda do ator Coquelin ao Rio: "(...) um deputado negro, em cena aberta, no Lirico, pregou ao peito desse ator a insignia da Ordem da Rosa...". Esta mencao teria provocado a "nossa furia patriotica". Bilac esclareceu que nao se tratava de um deputado, mas de um vereador da Camara Municipal: "o grande abolicionista Jose do Patrocinio". Impaciente, Bilac questionava o constrangimento causado pelo comentario no Brasil:
   Ora, pois! Que coisa ha, nesse fato, que nos possa envergonhar?
   Patrocinio, se nao era negro, era quase negro. E desse quase
   negro, do seu talento, da sua formidavel e esplendorosa acao
   social, da sua fulgida gloria de abolicionista, todo o Brasil
   se orgulha e se orgulhara sempre! (...) Vejam a grande desonra
   para um pais: ter um deputado negro! Mas a Franca ja teve uma
   porcao de deputados negros, - e nem por isso o galo frances, o
   glorioso Chanteclair da Galia, perde o entorno da voz possante
   e a cor afogueada da crista! (36)


Se a Franca civilizada, modelo de progresso, tinha (ou ja teria tido) deputados negros, o Brasil poderia assumir sua heranca sem nenhuma implicacao aos seus projetos modernizantes. Era o atestado na nossa compatibilidade (racial e cultural) com as grandes correntes universais. Para Bilac, Patrocinio era um homem negro que deveria ser fonte de orgulho nacional e nao de desprezo ou vergonha.

Nao resisto em apresentar mais um caso semelhante registrado por Bilac. O acontecimento se deu quando foi encenada na cidade do Rio a peca O dote, de Arthur Azevedo, em italiano, por atores italianos. Na vespera do espetaculo, Bilac ouvira comentarios de que a peca seria um fiasco, pois um ator italiano iria representar o "(...) velho preto Joao, que e um tipo exclusivamente, fundamentalmente, essencialmente brasileiro (...)". Mas, segundo Bilac, "(...) o preto Joao interpretado pelo ator italiano foi um admiravel preto". Ao sair do teatro, o autor, teria encontrado novamente com o pessimista que previu erroneamente o fracasso da peca, preocupado que a companhia italiana de teatro fosse encena-la na Italia, justamente uma peca brasileira com um preto como personagem. Esse seria ate um grande favor que os atores italianos fariam ao Brasil, divulgando nossas artes no exterior, mas para o "Sr. Nariz torcido" era motivo de vergonha ir mostrar na Europa que no Brasil havia pretos. Bilac criava mais uma vez a oportunidade de abordar o tema do desdem pelos negros, afirmando novamente seu importante papel na formacao brasileira:
   E esta uma das nossas manias: esconder o preto, disfarcar o
   preto, ter vergonha do preto, querer convencer a Europa da nao
   existencia do preto. Queremos tirar o preto das nossas fotografias,
   das nossas pecas de teatro, dos nossos romances, da nossa historia,
   da nossa raca e da nossa vida...Absurda e tola pretensao! Nescia e
   irritante mania! Nenhum povo altera, nem anula, nem precipita a sua
   historia. O preto e inseparavel, na constituicao da nossa raca,
   dos outros elementos que tem contribuido e ainda hao de contribuir
   para forma-la. A mania nao e apenas absurda e tola e tambem injusta,
   e reveladora de muita ingratidao. Foi o preto, afinal, que
   verdadeiramente criou esse pais: lavrou a terra, regou-a com o suor,
   com o seu sangue e com as suas lagrimas; fecundou-a com o seu
   trabalho e com o seu sofrimento; preparou-a, com o seu obscuro
   sacrificio, para o radiante presente, de que ela ja esta gozando,
   e para o futuro, mais radiante ainda que a espera... Nao ha motivo
   para que reneguemos o preto, - nem no teatro, nem na vida real.
   O preto Joao de Arthur Azevedo nao nos desmoralizara na Italia.
   Ja temos para la mandado muitos brancos de verdade, - muito piores
   do que esse pobre e generoso preto de ficcao. (37)


Mais veemente que as anteriores, essa foi uma manifestacao contra os paradigmas racistas em voga no momento, que apontavam a presenca de negros e mesticos como estorvos ao progresso e a civilizacao. Note-se que em nenhum desses momentos o autor mencionou a necessidade de imigrantes nem o branqueamento e, ainda que tais questoes pudessem estar implicitas em suas analises, nao ha como negar que Bilac estava travando um dialogo com tais paradigmas e combatendo-os.

Ciente de sua missao pedagogica, Olavo Bilac foi um dos que reagiam indignados ao que, segundo ele, seria a crescente americanizacao do Brasil, representada pela introducao do preconceito de cor aqui. O Brasil correria o risco de fazer aflorar os odios de cor, caso se submetesse ao imperialismo dos Estados Unidos, pais destacado como sendo racialmente segregacionista. (38)

De volta de uma viagem a Sao Paulo, o autor comentou sobre a proibicao da entrada de "pretos e mulatos" - tomados por "incapazes e mas figuras" - na guarda civil daquela cidade. O preconceito de cor, "o mais barbaro e revoltante de todos os preconceitos", para Bilac deveria ser totalmente repudiado. Afinal, o que mais honrava e nobilitava a "civilizacao brasileira" era justamente
   (...) a singela e admiravel harmonia que ela estabeleceu entre
   as racas que contribuiram para a sua formacao. A cor jamais
   impediu, no Brasil, que um homem galgasse as mais altas posicoes.
   Ja no tempo do Imperio havia no Senado homens de cor. Varios
   mulatos, bem pouco disfarcados, foram ministros de Estado... Foi
   preciso que estabelecessemos a Republica e que nos entregassemos
   de corpo de alma ao mais democratico de todos os regimes - para
   que alguem se lembrasse de excluir do seio de uma corporacao os
   pretos e os seus descendentes! (39)


Ao referir-se ao passado, Bilac trazia a tona exemplos dessa pretensa convivencia racial harmonica, defendendo a mesticagem como caracteristica positiva e original da nacionalidade brasileira. A destruicao da "grande obra confraternizadora das racas" empreendida no passado seria "um crime imperdoavel", alem de uma "revoltante ingratidao" com o "preto". Estaria ele se referindo a casos de preconceito de cor mencionados anteriormente como algo exclusivamente recente, que nao aconteceria nos tempos do Imperio? Dificil saber. Como fundamento de seu argumento, Bilac expos a realidade mestica do Brasil, ao afirmar que nessa "perseguicao imoral e vergonhosa exercida contra os homens de cor" nao haveria somente ingratidao, mas tambem uma "filaucia comica", pois nenhum brasileiro seria "completamente, absolutamente, legitimamente" branco, sem a mescla africana no sangue:
   Lembrai-vos, amigos, que ja o Marques de Pombal foi um dia
   obrigado a lancar um decreto determinando "que todos dos
   fidalgos de Portugal, fosse qual fosse a sua ascendencia,
   seriam, para todos os efeitos, considerados brancos..." E
   que la, depois das conquistas na Africa, comecou a nascer
   muito fidalgote de pele trigueira demais...E que diremos nos
   da nossa fidalguia agricola, nascida
   entre o palacio e a senzala? (40)


Olavo Bilac defendia que o Brasil, em comparacao com os Estados Unidos, era um pais no qual existia mistura e tolerancia racial, como provaria a nossa propria historia - o que ele valorava positivamente. Mas, ao mesmo tempo, no inicio do seculo XX, bradou nos jornais contra o que seria para ele uma novidade no pais: o preconceito de cor. Assim, a constatacao historica de que o Brasil era uma nacao mestica - originada de outra nacao mestica - legitimava a condicao mestica brasileira como singularidade. E isso nao implicaria inferioridade racial nem impedimentos ao progresso e a civilizacao. Penso que o leitor ja esteja percebendo que as teorias raciais fizeram parte daquele horizonte intelectual de diferentes formas, sobretudo quando tratadas no ambito dos debates

culturais.

O que dizer, entao, do professor negro Hemeterio dos Santos? (41) Embora fosse alvo de trocas racistas na imprensa, acreditava ser o Brasil uma obra de tolerancia e amor, na qual os negros teriam um papel importantissimo.

A famosa carta em que Hemeterio criticava Machado de Assis logo apos a sua morte foi publicada na Gazeta de Noticias, em 1908, e no Almanaque Garnier, em 1910. (42) Na carta, Hemeterio acusava Machado de ter negligenciado o "problema do negro", fundamental na "vida de nacao" brasileira. Diante disso, concluiu que o autor de Dom Casmurro partiu de "(...) ideias preconcebidas contra sua cor de procedencia", enveredando-se por preconceitos "(...) vesgos e zarolhos".

Para o autor da carta, Machado teria apagado quaisquer vestigios significativos do negro em sua obra e, por isso, estaria muito aquem de homens como Rio Branco, Patrocinio, Arthur e Aluizio de Azevedo, Joaquim Nabuco, Silvio Romero, Rui Barbosa e "varios em legiao", que nao se furtaram a missao patriotica de referir-se ao negro na vida nacional. O preconceito contra sua propria origem teria marcado nao so obras, mas a propria vida pessoal do bruxo do Cosme Velho, que teria renegado sua madrasta, uma "boa mulata velha"; a literatura pretensamente incolor de Machado, uma ofensa aos "seus irmaos de cor". Alem disso, demonstraria que o autor nao tinha tido ousadia suficiente para provar com fatos "(...) que a obra do portugues e do negro" nao tinha "par no mundo, pela bondade e pela candura que ambos derramaram por toda a parte (...)". Dessa forma, para Hemeterio, contrapor-se ao preconceito de cor implicava afirmar que o "problema do negro" no pais nao teria se desdobrado em antagonismos em funcao da propria contribuicao dos negros. Nesse quesito, o Brasil seria tao original que deveria servir de exemplo para o mundo:
   (...) a sociedade brasileira e sem modelo na historia pelos
   exemplos de altas virtudes constantes, multiplas e variadas
   desses tres tipos que se irmanaram pelo sentimento, tornando-se
   um so espirito para a cultura do bem, desde os
   tempos de Vieira e Gregorio. (43)


Era inaceitavel para Hemeterio que Machado de Assis se envergonhasse da cor da qual ele tanto se orgulhava. Defendendo essa mesma perspectiva, publicou um estudo no Almanaque Garnier contestando outro gramatico, que garantia estar a palavra "preto" etimologicamente associada a algo desprezivel e vil. Hemeterio argumentou que tal afirmacao nao tinha fundamento nem na etimologia nem na linguagem popular. Na linguagem popular, por exemplo, o vocabulo significaria "colorido mais forte que o negro, de uso mais geral para designar a raca simplesmente", o que o levou a crer que nao existiam nocoes pejorativas associadas aos termos "preto" e "negro". (44)

Mas o que diferencia o registro de Hemeterio e o fato de ser negro e de ter sofrido publicamente com o "preconceito de cor". Se, por um lado, reconhecia a existencia do preconceito de cor e posicionava-se contra ele, afirmava tambem o Brasil como uma nacao construida com base no "amor" e na "tolerancia". (45)

Nao menos interessante e a posicao de Juliano Moreira, expressa em um texto escrito por sua esposa, a enfermeira alema Augusta Moreira, e publicado no Almanaque Garnier, em 1910. (46)

De acordo com as ideias e experimentacoes de Juliano Moreira, explicava Augusta, era possivel afirmar, com base cientifica, que negros e mesticos, independente da origem africana e/ou da mesticagem, teriam as mesmas condicoes raciais que os brancos. So o que poderia distingui-los era o meio em que viviam e a educacao recebida. Uma prova disso era que, apesar de todos os "preconceitos de cor" existentes no Brasil, individuos descendentes de africanos tinham conseguido "atingir boas posicoes" nas mais variadas profissoes e cargos, incluindo-se medicos, pedagogos e advogados respeitaveis. Existiriam "no Brasil pretos tao bons quanto brancos" e a unica coisa que os distinguiria, ou que os deveria distinguir, eram os meritos, passiveis de serem alcancados por todos desde que se tivesse boa educacao e se vivesse em boas condicoes sanitarias e mentais. A raca nao distinguiria ninguem.

Se os "mulatos" no Brasil vinham, ao longo do tempo e em larga escala, distinguindo-se da "massa geral de seus compatriotas", como era o caso de Goncalves Dias, Reboucas, Tobias Barreto e Patrocinio, como afirmar que a mesticagem era um "empecilho aos surtos de inteligencia"? Os maiores "defeitos" que os estudiosos da "questao negra" vinham atribuindo ao negro, como "imprevidencia, imoralidade e improbidade", foram combatidos por Moreira com minuciosa argumentacao e exemplos. Apostando na educacao, o autor chegava a conclusao de que "(...) os defeitos dos pretos nao sao maiores que os dos brancos e (...) por intermedio da educacao eles desaparecerao (...)". (47)

Antes de ter seu artigo publicado no Garnier, entretanto, as questoes relativas ao determinismo racial e ao preconceito de cor ja mobilizavam o autor. Em 1896, depois de ser aprovado no concurso para professor da Faculdade de Medicina da Bahia, em seu discurso de posse, dirigiu suas palavras aos que tinham receio de que "(...) a pigmentacao" fosse uma "nuvem capaz de marear o rilho" daquela Faculdade. Marcou sua posicao, afirmando que nem a cor nem a raca deveriam importar, mas sim os meritos individuais. O que enegrecia a "pasta humana" eram o servilismo e a ignorancia, nao o negro:
   Subir sem outro bordao que nao seja a abnegacao ao trabalho,
   eis o que ha de mais escabroso. (...) Ver-se-a, entao que
   so o vicio, a subserviencia e a ignorancia sao que tisnam a
   pasta humana quando a ela se misturam (...). A incuria e o
   desmazelo que petrificam (...) dao aquela massa humana aquele
   outro negror (...). (48)


O concurso prestado por Moreira para entrar para a Faculdade de Medicina foi um processo dificil. A banca era composta por homens conhecidos por seu passado escravocrata. Na manha de maio de 1896, ao entrarem no predio da Faculdade, os estudantes puderam conferir que Juliano Moreira havia sido aprovado com nota maxima. Aos 23 anos, o filho de uma domestica com um funcionario da prefeitura tornou-se professor da Faculdade de Medicina da Bahia. (49)

Em dialogo com seus pares, Juliano Moreira defendia o papel da profilaxia, ou seja, a importancia da educacao e da higiene mental. Imbuido da perspectiva de "moralizacao das massas", analisou o problema dos negros africanos viciados em alcool, chegando a conclusao de que os elementos degenerativos nao se relacionavam a raca, pois
   (...) o alcool infiltrava-se nos neuronios os elementos
   degenerativos que, reforcados atraves dos tempos dao
   razao de ser a muita tara atual, atribuida a raca e a
   mesticagem por todos aqueles que nao se querem dar ao trabalho
   de aprofundar as origens dos fatos (...) a ma natureza dos
   elementos formadores de nossa nacionalidade deve-se a
   degenerescencia fisica, moral e social que injustamente tem
   sido atribuida ao unico fato da mesticagem. (50)


Partindo desses pressupostos, polemizou a respeito com seu conterraneo Nina Rodrigues, baseando-se em casos empiricos, o que nos da a medida das hesitacoes nesse momento em relacao a questao racial. Moreira descreveu com a historia de um paciente (chamado de A.P.D.), sua infancia, os estudos ate o segundo ano de direito, o seu retorno a casa dos pais, a doenca e a morte. A.P.D. era um "(...) pequeno proprietario, falecido aos 55 anos de idade, mestico, filho de italiano e de uma preta. Antecedentes hereditarios - Pai bebado habitual, mae nada apresentava de anormal". (51) Descontente com a interrupcao de seus estudos, A.P.D. passou a preocupar-se demasiadamente com a questao dos limites de suas terras com as de um vizinho. Uma "paranoia querelante" levou o paciente a interminaveis processos judiciais durante 32 anos. O proprio Juliano Moreira verificou pessoalmente o carater paranoico de APD. Entretanto, ao contrario do seu colega Nina Rodrigues, Moreira desassociava qualquer hipotese dessa "demencia" estar ligada a mesticagem:
   (...) Tendo mostrado este doente ao Prof. Nina Rodrigues,
   achou ele no caso mais uma prova de que a mesticagem e um
   fator degenerativo. Ora, tendo eu sempre me oposto a esta
   maneira superficial de ver o problema, aproveitei uma
   longa estada na Europa para examinar os parentes de A.P.D.
   que tinham ficado na Europa livres da mesticagem. (...) Apurei
   o seguinte: o velho pai de nosso doente tivera dois irmaos e
   uma irma. Dos primeiros, um tambem partiu para a America
   desertando das fileiras do exercito. Dele nao se sabe noticias.
   O outro, imbecil, ebrio habitual, turbulento, muito
   supersticioso, esteve preso duas vezes por ter ofendido
   fisicamente duas velhas (...) casou-se e teve dois filhos,
   ambos imbecis. A irma epileptica teve tres filhos: um tambem
   epileptico, um imbecil e o terceiro homicida, supoe-se que
   tambem epileptico (...). Ve-se que o ramo europeu da familia,
   livre da mesticagem, em nada foi superior ao ramo mestico
   brasileiro. (...) Intelectualmente mesmo A.P.D. apesar de
   paranoico era evidentemente superior aos seus primos italianos.
   Nao afirmarei que o relativo lucro proveio do cruzamento,
   mas sim da circunstancia de ser a mae dele uma mulher sa,
   nao tendo ele herdado sua eiva senao de seu pai, bebado habitual,
   nada escrupuloso em negocios e com evidente tendencia
   demandista. (52)


Segundo sua esposa, Juliano Moreira teria deixado claro que os estudos que concluiram pela inferioridade do mestico "estudaram a questao muito unilateralmente", pois eram influenciados por uma "leitura apressada e erronea" dos trabalhos de Gobineau. (53)

De uma maneira proxima ao argumento defendido aqui, mas investigando a construcao de uma "Historia do Brasil", Angela Castro Gomes sugeriu que "ao lado do amplo compartilhamento das teorias europeias racistas que existia na virada do seculo XX, crescem as divergencias quanto a avaliacao dos efeitos da miscigenacao existente no Brasil, francamente constatada, mas nem sempre mais tao condenada". Logo, a crenca no fundamento cientifico dessas teorias continuava latente, dai a propria difusao da ideologia do branqueamento. Mas, comecava-se a avaliar de forma mais sistematica a presenca ativa de indios e negros na historia e cultura, que estavam sendo forjadas naquele momento como nacionais. (54)

Diante desses registros, podemos deixar de encarar intelectuais como Manoel Bomfim e Alberto Torres como isolados ou dissidentes, mas como participantes de um debate marcado por ambiguidades, e certo, e tambem por uma pluralidade de concepcoes. Por isso mesmo, operaram sensiveis deslocamentos no debate racial e cultural sobre a identidade nacional no periodo. Ainda que dentro do paradigma racial e em dialogo com ele, relativizaram o "peso negativo" da mesticagem e do mestico na formacao nacional, valorizando a fusao como nosso mito de origem. (55)

Nao se trata de minimizar o peso das teorias raciais, nem seus desdobramentos em termos das politicas voltadas para o branqueamento e para a repressao e o controle aos afrodescendentes na primeira decada do seculo XX; nem tampouco exaltar a eugenia e seus adeptos. Trata-se de trazer a tona outras mediacoes, fundamentais para se compreender a pluralidade das avaliacoes acerca do papel dos afrodescendentes na formacao nacional. Paralelamente as teorias raciais que previam a inferioridade dos afrodescendentes e a degeneracao dos mesticos as quais intelectuais, politicos, cientistas, medicos e juristas aderiram naquele periodo, e possivel identificar investimentos de alguns intelectuais na descoberta e na difusao de manifestacoes culturais marcadamente mesticas. Como homens dentro do seu tempo, no entanto, esses intelectuais nao escaparam das maximas racistas, mas tambem nao desejaram banir negros e mesticos do cenario nacional, nem desprezaram suas contribuicoes ao que estavam definindo como elementos originais da "cultura brasileira", capazes de selar uma unidade nacional e harmoniosa para o Brasil. Tambem debateram sobre relacoes e conflitos raciais; alguns ate denunciaram o preconceito de cor, firmando publicamente a posicao de que nao se devia apagar o negro, da nossa historia, da nossa cultura e das nossas fotografias. Mas e evidente que as diferentes versoes sobre o Brasil que tocaram no tema da mesticagem trazem por certo nocoes hierarquizantes. Nao podemos esquecer o silencio desses intelectuais em torno da ampliacao dos direitos politicos e trabalhistas, da questao da terra e etc.

Uma chave de leitura para o Brasil

A partir da abordagem da mesticagem e do preconceito de cor no Brasil, alguns intelectuais de peso abriram possibilidades de conciliar as contradicoes de uma sociedade multirracial e hierarquizada.

Refletindo sobre o contexto de producao e recepcao de Casa grande e senzala, a partir de um recuo as primeiras decadas do seculo XX, Angela de Castro Gomes evidenciou os esforcos dos intelectuais em conferir novos contornos aos debates em torno do papel do indio e do negro na historia e na cultura do pais. A autora, entao, identificou um "clima favoravel" ao acolhimento da obra, seja em relacao ao uso de fontes historicas, a forma da narrativa ou a apreciacao do negro/mestico como presencas ativas na historia e na cultura do pais. Portanto, quando Casa grande e senzala foi lancada, em 1933, algumas das "inovacoes" trazidas por Gilberto Freyre ja vinham sendo debatidas e outras valorizadas desde o inicio do seculo. (56)

Nao se pretende postular um novo marco zero para o investimento na associacao entre nacao e mesticagem no Brasil, nem afirmar que determinados intelectuais da primeira decada do seculo XX estavam defendendo a mesma coisa que Gilberto Freyre defenderia a partir de Casa grande e senzala. Diferente do sociologo pernambucano, estavam em busca da "substancia" que faltava para que o Brasil fosse uma verdadeira nacao (com atributos culturais e historicos singulares) e tivesse um povo de fato (isto e, uma populacao dotada de sentimento de pertencimento e irmanacao).

Se, por um lado, as elaboracoes intelectuais apresentadas aqui constituiram o "clima favoravel" para a otima recepcao de Casa Grande e Senzala, por outro lado, tambem fazem parte da historia de uma forma duradoura de se pensar o Brasil.

(1) Jose Murilo de Carvalho, "Brasil: nacoes imaginadas", in: Pontos e bordados. Escritos de historia e politica, Ed. UFMG, Belo Horizonte, 1998, p. 233-268.

(2) Para algumas obras importantes nas quais os autores defenderam essa tese, ver: Nicolau Sevcenko, Literatura como missao: tensoes sociais e criacao cultural na Primeira Republica, Sao Paulo, Brasiliense, 1983; Jeffrey Needell, Belle Epoque tropical, Sao Paulo, Cia das Letras, 1993; Monica Pimenta Velloso, Tradicoes populares na primeira decada do seculo 20, Rio de Janeiro, FUNARTE, 1988; Martha Abreu Esteves, Meninas Perdidas, os Populares e o Cotidiano do Amor no Rio de Janeiro da Belle Epoque, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989.

(3) Sobre esse ponto de vista, ver Hermano Vianna, O misterio do samba, Jorge Zahar, 1995; Santuza Cambraia Naves, O Violao Azul, Modernismo e Musica Popular, Rio de Janeiro, Fundacao Getulio Vargas, 1998; Nicolau Sevcenko, Literatura como missao..., op. Cit.

(4) Essas reflexoes foram desenvolvidas em conjunto com Martha Abreu em outro artigo. Ver, Martha Abreu; Carolina Vianna Dantas, "Musica popular, folclore e nacao no Brasil, 1890-1920", in: Jose Murilo de Carvalho (org.), Nacao e Cidadania no Imperio. Novos horizontes, Rio de Janeiro, Civilizacao Brasileira, 2007, p. 123-151.

(5) Sobre a relacao entre divulgacao de conhecimentos nacionais e reconhecimento de codigos identitarios nesse momento, ver Lucia Lippi de Oliveira, "Questao nacional na primeira republica", in: A decada de 1920 e as origens do Brasil moderno, Sao Paulo, Editora da Unesp/ FAPESP, 1997, p. 186.

(6) Ver Renato Ortiz, Cultura brasileira e identidade nacional, Sao Paulo, Brasiliense, 1986; Roberto Ventura, Estilo tropical. Historia cultural e polemicas literarias no Brasil, Sao Paulo, Cia das letras, 1991; Lilia K. M. Schwarcz, O espetaculo das racas. Cientistas, instituicoes e questao racial no Brasil, Sao Paulo, Cia das letras, 1993; Claudia Matos, A poesia popular na republica das letras: Silvio Romero folclorista, Rio de Janeiro, FUNARTE/Ed. da UFRJ, 1994.

(7) Lilia K. M. Schwarcz, op. cit., p. 244.

(8) Segundo Lilia Schwarcz, os monogenistas teriam sido a corrente dominante ate meados do seculo XIX, e baseava-se no Humanismo e nas escrituras biblicas, defendendo que a humanidade era uma. Ja os poligenistas teriam se firmado a partir da segunda metade do seculo XIX e acreditavam que existiam varios centros de criacao que correspondiam as diferencas raciais, fortalecendo a concepcao biologica dos comportamentos humanos, tidos como determinados pelas leis biologicas e naturais. Lilia K. M. Schwarcz, op. Cit.

(9) Lilia K M. Schwarcz, O Espetaculo das racas, op. cit., p. 12; p. 53.

(10) Idem, ibidem, p. 53-54.

(11) Claudia Matos, op. cit.

(12) Silvio Romero, "Brasil Social IV (o negro)", Renascenca, n. 29, julho, 1906.

(13) Roberto Ventura, op. cit., p. 51.

(14) Claudia Matos, op. cit., p. 111.

(15) Silvio Romero, Estudos sobre a poesia popular, Petropolis, Vozes, 1977, p. 49.

(16) Idem, Historia da literatura brasileira, Tomo 1, p. 111 apud Claudia Matos, op. cit., p. 118.

(17) Claudia Matos, op. cit.

(18) Renato Ortiz, op. cit., p. 62.

(19) Idem, ibidem, p. 62-63.

(20) Nina Rodrigues, "As belas artes dos colonos pretos do Brasil - a escultura", Kosmos, n. 8, agosto, 1904; Gonzaga Duque, "O poeta negro", Kosmos, n. 2, fevereiro, 1909; Lima Campos, "A capoeira", op. cit.; Lima Campos, "Cake-walk", op. cit.; Fantasio/pseud. de Olavo Bilac, "A danca no Rio de Janeiro", op. cit.; Augusta P. Moreira, "Homens de cor no Brasil", Almanaque Brasileiro Garnier, 1910, p. 352-359.

(21) Angela de Castro Gomes, Essa gente do Rio. Modernismo e nacionalismo, Rio de Janeiro, Editora FGV, 1999, p. 37-39; p. 13.

(22) Carolina Vianna Dantas, O Brasil cafe com leite: historia, folclore, mesticagem e identidade nacional em periodicos. Rio de Janeiro, 1903-1914, Tese de doutorado (Doutorado em Historia), Programa de Pos-graduacao em Historia/UFF, 2007.

(23) Monica Pimenta Velloso, Modernismo no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, FGV, 1996, p. 47.

(24) Gonzaga Duque, "O poeta negro", Kosmos, n. 2, fevereiro, 1909.

(25) Uma dessas criticas carregadas de referencias raciais foi feita a Cruz e Souza, na revista Kosmos, por Jose Verissimo. Ver Jose Verissimo, "Vida literaria - uma poetisa e dois poetas", Kosmos, n. 1, janeiro, 1905.

(26) Gil, Cronica, Kosmos, n. 5, maio, 1904.

(27) Manoel Bomfim, America Latina. Males de origem, Rio de Janeiro, Topbooks, 1993, p. 39. 1a edicao em 1905.

(28) Idem, ibidem, p. 243.

(29) Idem, ibidem, p. 263.

(30) Idem, ibidem, p. 267.

(31) Idem, ibidem, p. 299-351.

(32) Ver, nesse mesmo sentido, Dionisio Cerqueira, "O rosario do Cabo-de-ordens", Kosmos, n. 5, maio, 1908. Neste artigo o narrador discorre sobre a vida de um liberto, filho de pais alforriados, que teve uma atuacao heroica na Guerra do Paraguai.

(33) Olavo Bilac, "Cronica", Gazeta de Noticias, 24/03/1907, in: Antonio Dimas, Bilac, o jornalista. Cronicas, v. 1, Sao Paulo, Imprensa Oficial do Estado de SP/EDUSP/Ed. UNICAMP, 2006, p. 817-821. Ver, nesse mesmo sentido, Domingos Olimpio, "O Doutor Conceicao", Kosmos, n. 5, maio, 1904. Nesse texto o autor relata o "preconceito de cor" sofrido pelo medico negro Pedro da Conceicao.

(34) Olavo Bilac, Cronica, Gazeta de Noticias, 24/03/1907, op. cit.

(35) Bonifrate significa: "boneco de engoncos; automato, titere./ Fig. Pessoa cuja aparencia nao corresponde a gravidade propria da sua idade, estado ou posicao social". Disponivel em: www.kinghost.com.br/dicionario/bonifrate.html. Acesso em: jan. 2007.

(36) Olavo Bilac, "O que se diz de nos", Correio Paulistano, 13/09/1907, in: Antonio Dimas, Bilac, o jornalista. Cronicas, v. 2, Sao Paulo, Imprensa Oficial do Estado de Sao Paulo/EDUSP/ Ed. UNICAMP, 2006, p. 78-79.

(37) Olavo Bilac, "Cronica", Correio Paulistano, 23/06/1908, in: Antonio Dimas, Bilac, o jornalista. Cronicas, v. 2, op. cit., p. 198-199.

(38) Olavo Bilac, "Cronica", Gazeta de Noticias, 21/01/1906, in: Antonio Dimas, Bilac, o jornalista. Cronicas, v. 1, op. cit., p. 773-774.

(39) Idem, ibidem, p. 774.

(40) Idem, ibidem, p. 774.

(41) Hemeterio Jose dos Santos nasceu em Codo, no Maranhao, em 1858, e morreu na cidade do Rio, em 1939. Foi poeta, professor, gramatico e filologo. Foi professor e diretor do Pedagogium no Rio de Janeiro. Publicou "O livro dos meninos" (1881), "Pretidao do amor" (1905) - no qual defendeu os casamentos inter-raciais -, "Gramatica portuguesa" (1913), "Frutos cativos, poesias" (1919).

(42) Hemeterio dos Santos dirigiu uma carta aberta a Fabio Luz, publicada na Gazeta de Noticias, em 16/11/1908. Nao interessa aqui avaliar se tais acusacoes tem fundamento ou nao, mas analisar o que se pensava e como se lidava na epoca com o preconceito de cor e com a participacao do negro na construcao de uma identidade nacional.

(43) Hemeterio dos Santos, "Machado de Assis", Almanaque Brasileiro Garnier, 1910, p. 369-374.

(44) Idem. Etymologias. Preto. Almanaque Brasileiro Garnier, 1907, p. 237-239.

(45) Hemeterio dos Santos, Machado de Assis, op. cit.

(46) Augusta P. Moreira, op. cit.

(47) Augusta P. Moreira, op. cit.

(48) A. PASSOS, Juliano Moreira (vida e obra), Rio de Janeiro, Livraria Sao Jose, 1975, p. 17-18. Ver tambem Anamaria Galdini Oda; Paulo Dalgalarrondo, "Juliano Moreira: um psiquiatra negro frente ao racismo cientifico", Rev. Bras. Psiquiatria, dez. 2000, v. 22, n. 4, p.178-179.

(49) Anamaria Galdini Oda, "Teoria da degenerescencia na fundacao da psiquiatria brasileira: contraposicao entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira", Psychiatry On-line Brazil, n. 6, dez., 2001. Disponivel em: www.polbr.med.br/arquivo/wal1201.htm. Acesso em: mar. 2006.

(50) Juliano Moreira apud Vera Portocarrero, Arquivos da loucura. Juliano Moreira e a descontinuidade da psiquiatria. Rio de Janeiro, Editora FIOCRUZ, 2002, p. 55-56.

(51) Juliano Moreira, Querelantes e Pseudo-querelantes. Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal, v. 4, p. 426-434, 1908.

(52) Idem, ibidem, p.431-432.

(53) Idem, ibidem.

(54) Angela de Castro Gomes. Gilberto Freyre: alguns comentarios sobre o contexto historiografico de producao da Casa grande e senzala. Remate de Males - Revista do Depto de Teoria Literaria/UNICAMP, Campinas, 2000, p. 50.

(55) Ver Renato Ortiz, op. cit.; Eliana Dutra, The fusion of races as locus of memory, Diogenes, Oxford, n. 191, v. 48, 2000.

(56) Angela de Castro Gomes, Gilberto Freyre: alguns comentarios...,op. cit., p. 50 e 56.

Carolina Vianna Dantas **

* Artigo recebido em setembro de 2008 e aprovado para publicacao em outubro de 2008. Este artigo e uma versao de um dos capitulos da minha tese de doutorado O Brasil cafe com leite: historia, folclore, mesticagem e identidade nacional em periodicos. Rio de Janeiro, 1903-1914, defendida em 2007, no Programa de Pos-Graduacao em Historia da UFF. A pesquisa contou com o apoio do CNPq.

** Professora da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro.
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Author:Vianna Dantas, Carolina
Publication:Tempo - Revista do Departamento de Historia da UFF
Article Type:Report
Date:Jan 1, 2009
Words:10759
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