Printer Friendly

O "Jeito" brasileiro: um fenomeno cultural.

1. DAS ORIGENS CRIATIVAS DO "JEITO"

"DESERTORES dos exercitos castelhanos havendo alcancado o oeste da peninsula iberica, e percebendo que estavam encurralados entre o oceano e as tropas feudais no seu encalce, combinaram falar entre si num castelhano modificado, pressupondo que seus perseguidores os tomariam por habitantes do lugar. O estratagema logrou exito, mas a demora das tropas perseguidoras na regiao, aproveitando o clima ensolarado e os excelentes vinhos locais, obrigou os fugitivos a continuar falando do tal modo diferente. Porem, os astutos desertores nao perceberam que com o passar do tempo se habituaram a falar do novo 'Jeito' e esqueceram o castelhano." Nao obstante a farsa desta antiga anedota, pois a verdade historica sobre as origens da "ultima flor do Lacio" e bem outra, tudo leva a crer que o "Jeito" concebido como expediente sagaz e astucioso precedeu o idioma portugues.

2. DOS SIGNIFICADOS SEMANTICOS DO "JEITO"

A ferramenta de pesquisa eletronica Google registra em torno de 21.000.000 referencias para o verbete e significante "Jeito", cujo etimo e o vocabulo latino jactu, com extensa gama de significados, tais como: lancar, arremessar, mover, perseguir, dizer, proferir, abalar, atacar, mostrar-se, gabar-se, e outros. No sentido contemporaneo, "Jeito" significa modo, maneira, aspecto, feitio, feicao, carater, indole, disposicao do espirito, propensao, pendor, habilidade, capacidade, arte, e esta presente numa infindavel lista de acepcoes ao formar expressoes junto a adjeti vos, pronomes, preposicoes, verbos e adverbios. Exemplo: ao jeito de, com jeito, sem jeito, dar um jeito, fazer jeito, levar jeito para, desculpar o mau jeito, ser de jeito, nao ter jeito. Tao extensa e maleavel e a utilizacao do vocabulo "Jeito" que seria praticamente impossivel suprimi-lo do dia-a-dia brasileiro.

3. DOS SIGNIFICADOS CULTURAIS DO "JEITO" NO BRASIL

Historiadores, filologos, antropologos, sociologos, teologos e outros estudiosos do comportamento social e etico tem abordado as varias conotacoes implicitas nos significados do significante "Jeito". Sem consenso metodologico, depreende-se que os significados do "Jeito" vao alem da semantica. Assim, o "Jeito" constituiria fenomeno cultural, um animo latente ou indole dissimulada no carater do povo brasileiro. E teria conotacoes positivas e negativas, ou seja, tanto poderia estimular quanto inibir comportamentos psicossociais. Nessa hipotetica moldura cultural, o "Jeito" seria um modo habil e criativo de resolver situacoes dificeis de qualquer natureza, licitas ou nao, nos diversos contextos da vida em sociedade.

4. DAS OPINIOES DE ESTUDIOSOS SOBRE O "JEITO"

Opinioes substanciadas sobre o "Jeito" no comportamento psicossocial brasileiro aparecem com frequencia na segunda metade do Seculo xx. Segundo Lourenco Stelio Rega, licenciado em Filosofia e mestre em Teologia e Etica, o "Jeito" e um fenomeno cultural que controla o comportamento, decisoes e escolhas diarias dos brasileiros (18). Para a antropologa Livia Barbosa, o "Jeito" e uma solucao especial e criativa para resolver uma emergencia, seja burlando regras e normas, ou sob forma de conciliacao, esperteza, ou habilidade (32). Ja o antropologo e historiador, Joao Camilo de Oliveira Torres refere-se ao "Jeito" como fenomeno cultural positivo e caracteristico da vivacidade e flexibilidade do brasileiro (214). Tambem o antropologo Roberto Da Matta, mostra o "Jeito" como uma das caracteristicas da cultura brasileira, um modo de navegacao social, de sobrevivencia diante de situacoes sociais e legais (87,95-8). Por outro lado, a professora Julia Falivene Alves ve o "Jeito" como uma caricatura da cultura brasileira (135). E o frade franciscano, Bernardino Leers, sacramenta: "o jeito e a praxis do povo" (51).

5. DAS ORIGENS CULTURAIS DO "JEITO" NO BRASIL

Juntando as condicoes sociais do colonizador que se aventurava alemmar -- desprovido de vinculos, familia, planejamento e padroes -- ao extraordinario processo de miscigenacao que ocorreu na terra descoberta entre brancos, indios e negros -- contemporaneos nao-coetaneos, desde tupis antropofagos a criminosos degredados, de nobres feudais a escravos africanos --, teremos uma amostra de fatores decisivos na formacao de uma cultura com enorme plasticidade. Alem desses entrelacamentos de etnias e costumes dispares, dificuldades logisticas para ocupar um territorio continental sem vias de comunicacao, e administrado segundo a tradicao iberica centralizadora e despotica, tambem propiciaram variados comportamentos sociais, licitos ou nao, para vencer desafios e imprevistos.

5.1. O PERVERSO CALDO DE CULTURA DO "JEITO"

Num cenario onde Portugal tentava sair do atraso medieval, atenuar os poderes da Igreja, e estruturar-se como Estado moderno, vigorava no Brasil: portos fechados ao comercio internacional; proibicao de qualquer industria que fugisse aos interesses da metropole; governo exercido pelos Capitaes-Generais nas provincias, e Capitaes-Mores nas vilas, com poderes arbitrarios de policia e nao raro cumulativamente com os de justica; cargos publicos direcionados para interesses privados de protegidos da corte; corrupcao generalizada; analfabetismo esmagador; burocracia e justica morosas; eixo da estrutura produtiva movido a maode-obra escrava. Nesse perverso caldo de cultura, formaram-se os grupos sociais brasileiros durante tres seculos.

5.2. A HERANCA LUSO-IBERICA COMO DESCULPA DO "JEITO" BRASILEIRO

Face ao pretexto academico de que os fracassos civilizatorios do Brasil republicano provem da heranca luso-iberica, argumentamos que o foco da colonizacao visava um empreendimento comercial -- sem grande prioridade, pois o oriente dominava o imaginario portugues -- e nao aspectos sociais, apesar da presenca catequizadora da Igreja. Tal enfoque contribuiu para a formacao de uma cultura eivada de peculiaridades positivas e negativas nos diversos estratos sociais da colonia. A essa cultura foram agregados: valores e favores sociais trazidos pela transferencia da corte e familia real para o Brasil em 1808; caracteristicas sociais oriundas da esdruxula situacao que transformou a despreparada colonia em capital do imperio portugues; novas feicoes politicas, economicas e administrativas com a proclamacao da independencia em 1822; corretivos a muitos dos costumes e valores precedentes, a partir de 1835, quando o brasileiro Diogo Antonio Feijo assumiu a Regencia em virtude da menoridade do imperador D. Pedro II. A epoca, o Brasil teria em torno de quatro milhoes de habitantes, sendo metade escravos ou indios destituidos de direitos politicos efetivos (Caldeira, 15).

6. ILACOES SOBRE O "JEITO" CRIATIVO DOS BRASILEIROS

A criatividade dos brasileiros diante dos mais variados desafios nos estimula a abrir leque de conjeturas alem do conceito consensual do "Jeito".

6.1. A criatividade no ar

Provavelmente, o primeiro voo pilotado e documentado de um objeto mais pesado que o ar foi o da aeronave inventada por Alberto Santos Dumont, batizada por ele de "14 bis", com motor de 50 CV, e que decolou do Campo de Bagatelle, no dia 23 de outubro de 1906, em Paris. Cem anos depois, em 2006, especialistas internacionais em aviacao reconhecem os feitos da empresa brasileira "Embraer", sediada em Sao Jose dos Campos, portanto fora do circuito dos paises mais industrializados, que desenvolvendo tecnologia avancada na fabricacao de jatos executivos e aeronaves de porte medio -- com capacidade de transporte de ate 120 passageiros --, tornou-se um dos maiores fabricantes mundiais de jatos comerciais.

6.2. A criatividade no mar

Apos o primeiro choque do petroleo, em 1973, quando paises exportadores do oriente Medio aumentaram o preco do produto, atentando que era um bem nao-renovavel, paises importadores viram-se na contingencia de reduzir o consumo de combustiveis fosseis, explorar fontes alternativas de energia, ou buscar petroleo nos oceanos. Tendo em vista as reservas brasileiras desses combustiveis se encontrarem em aguas profundas e ultraprofundas, especialistas da empresa estatal "Petrobras" desenvolveram e, atualmente, lideram tecnologias de exploracao e producao de petroleo em aguas profundas.

6.3. A criatividade em terra

Tecnicos brasileiros desenvolveram tecnologias para utilizacao do alcool etilico -- etanol -- como combustivel em substituicao a gasolina utilizada por veiculos automotores. o vegetal escolhido para a producao de alcool foi a cana-de-acucar, gracas a sua adaptacao ao clima do pais e tambem pelas suas grandes extensoes de terra. Essa tecnologia propiciou duas formas de uso do biocombustivel: adicionado a gasolina para reduzir o consumo de petroleo, ou utilizando-o em quantidade suficiente para abastecer veiculos movidos a alcool hidratado. o dominio dessa tecnologia mudou o perfil do mercado brasileiro, e as fabricas passaram tambem a produzir veiculos "bicombustiveis", aptos a receber tanto alcool quanto gasolina.

6.4. A criatividade nas artes e no futebol

Melodias, ritmos e arranjos principalmente do carnaval, samba e da bossa nova cruzam ares e oceanos levando a outros quadrantes a magia da musica popular brasileira. Por outro lado, o genio criativo de Heitor VillaLobos levou a musica classica a sonoridade cultural e ambiental do pais.

No panorama esportivo, sao reconhecidas a paixao e aptidao dos brasileiros pelo futebol. E e expressivo o numero de jogadores brasileiros atuando nos principais centros futebolisticos mundiais. Embora invencao inglesa, o Brasil poderia ser considerado a patria espiritual do futebol, nao so pela habilidade e notavel criatividade dos seus jogadores, mas tambem pelos titulos e trofeus conquistados por clubes brasileiros e selecoes representando o pais em competicoes internacionais.

6.5. A criatividade nas questoes economicas

Quando altas taxas inflacionarias flagelavam a estrutura economica do Brasil, dois artificios marcaram a vida da populacao: trocas periodicas da moeda corrente por uma nova, com cortes de varios digitos na precedente, e a indexacao dos valores economicos com indices de correcao monetaria. Embora nao tenham sido criados por brasileiros, mas gracas a plasticidade da sua cultura, tais mecanismos funcionaram com facilidade no pais.

Ja drastico foi o estratagema decretado, em 1990, pelo entao presidente Fernando Collor, ao confiscar os saldos acima de cinquenta cruzeiros -- padrao monetario da epoca --, depositados nas contas correntes e de poupanca de todos os cidadaos. o arbitrio, impar na moderna historia economica, visava "debelar a inflacao num so golpe". Mas o "Jeito" do presidente nao deu o resultado esperado. Em 1992, apos uma sucessao de escandalos, Fernando Collor foi destituido por processo de Impeachment.

Outro mecanismo criativo com "Jeito" de tributo, mas, para muitos, um confisco dissimulado, foi criado, em 1993, pelo governo federal na forma de imposto provisorio sobre movimentacoes financeiras de empresas e individuos, envolvendo cheques e transferencias, incidindo em 0,38% no valor das transacoes. Com vigencia prevista para quatro anos, e arrecadacao para financiar a saude publica, a previdencia e combater a pobreza, o mecanismo permaneceu em vigor ate 2007, sob o eufemismo de Contribuicao Provisoria sobre Movimentacoes Financeiras (CPMF). Um "Jeito" praticamente invisivel, mas que rendia bilhoes de dolares aos cofres publicos.

6.6. A criatividade na politica

Entendendo a Presidencia da Republica como vertice dos cargos publicos, seus ocupantes ao termino do mandato passariam a Historia. Em alguns paises de base democratica consolidada, ex-presidentes recebem a prerrogativa da vitaliciedade senatorial, como alta honraria. No Brasil, ex-presidentes tem retornado, por sufragio universal, a cargos publicos hierarquicamente inferiores, no senado, governo estadual, prefeitura municipal e, por nomeacao, a cargos em embaixadas no exterior. Em nao havendo outros interesses que se sobreponham aos do pais, esse enigmatico comportamento talvez se explique pelo inconsciente coletivo do brasileiro, pois ja na carta de Pero Vaz Caminha ao rei Dom Manuel I, de 1 de maio de 1500, ha registro de que os tupis desconheciam a hierarquia.

Outro exemplo instigante ocorreu nas eleicoes presidenciais em 2006. A vista de sucessivos escandalos de corrupcao envolvendo ministros de estado, assessores do presidente Luiz inacio Lula da silva, bem como representantes do partido do governo na administracao federal e no congresso, com impacto na opiniao publica e repercussao nas midias, era esperado um repudio a reeleicao daquele titular. Apesar dos escandalos, o presidente Lula foi reeleito com 20 milhoes de votos a frente do segundo candidato. Analisando a fenomenal votacao, e mesmo admitindo o carisma pessoal do presidente, pesaram a seu favor medidas assistencialistas do governo federal as classes pobres da populacao. Dentre outras, o programa "Bolsa-Familia", uma distribuicao mensal de cheques entre R$15,00 a R$120,00, atraves de cadastramento de milhoes de familias com renda per capita mensal inferior a R$120,00, representando, estimativamente, 40 milhoes de brasileiros. O compromisso dessas familias para receber o beneficio era manter seus filhos em idade escolar frequentando a escola, e cumprir cuidados basicos de saude.

O programa permanece em vigor e com valores atualizados periodicamente. Possivelmente, o "Bolsa-Familia" mensal nao so alavancou a reeleicao do presidente Lula, mas tambem o elevou a condicao de "presidente mais popular da Historia do Brasil" (pesquisa Datafolha, publicada no jornal Folha de Sao Paulo em 17.12.2006). Num pais com assimetrias sociais aterradoras, onde nao se consegue acabar com a miseria, da-se um "Jeito" de torna-la compravel, contra recibo. E voto.

7. O "JEITO" COMO SUBORNO: A "CERVEJINHA"

Desde que se convertam em situacoes de transgressao a ordem, norma, regra, lei, classificacao, hierarquia, prudencia, ou ao preceito, merito, dominio, principio, regulamento, sentido, padrao, modelo, calculo, enfim, a coisa certa e correta, conotacoes negativas do "Jeito" -- e do seu diminutivo "Jeitinho" -- podem se manifestar em qualquer circunstancia da vida cotidiana. subornar, por exemplo, o guarda de transito com importancia em dinheiro alcunhada de "cervejinha", para fugir de multa, tornou-se ato corriqueiro, um "Jeito" com folclore, jargao e coreografia nacionais. infelizmente essa pratica se estende a mil e um tipos de pequenos subornos no dia-a-dia.

8. PROCESSOS DE METAMORFOSE DO "JEITO"

Neste topico, levantamos hipotese de que o "Jeito" seria passivel tanto de variacoes quanto de mutacoes no sistema social e, portanto, em diferentes graus de metamorfose conforme implique delitos de maior ou menor gravidade. os elementos catalisadores dos processos de mudanca estariam, principalmente, na incapacidade organizativa, abulia, leniencia e corrupcao do poder publico.

8.1. Variacao do "Jeito": A pirataria

O Brasil e um dos maiores mercados consumidores de produtos copiados, falsificados, adulterados -- vestuario, eletronicos, medicamentos, perfumes, CDs, combustiveis e outros -- numa esteira de delitos envolvendo contrabando, sonegacao fiscal, burla as leis trabalhistas, comerciais e aos direitos de propriedade e autorais. As comunidades na periferia das grandes metropoles, atraidas pelos precos baixos dos produtos, formam clientela preferencial. Nessas regioes, tambem e assustador o numero de ligacoes clandestinas de redes de eletricidade e TV a cabo, chamadas de "gatos" e de "TV a gato", respectivamente. Porem, em condominios da classe media alta, nao e dificil encontrar ligacoes clandestinas de agua, por exemplo.

8.2. Mutacao do "Jeito": A violencia

Onde grassa a impunidade, o "Jeito" e suscetivel de mutacao, tornando-se irrefreavel, como nas manifestacoes de violencia -- contra a vida e o patrimonio -- que devastam o Brasil atual. Porem, Estado e sociedade nao conseguem decifrar o que esta acontecendo, nem estao capacitados para isso. De fato, o processo de reorganizacao politica, a partir de 1985, com a redemocratizacao do pais, subestimou o carater indispensavel dos mecanismos de seguranca publica, ate por revanchismo aos aparelhos de coercao e repressao da hegemonia militar que funcionavam - para o bem e para o mal -- concentrados sob o poder federal, ao amparo de rigido normativo: a Lei de Seguranca Nacional. Apos 24 anos de nova experiencia democratica, porem moldada num sistema politico arcaico, edificado numa confusa relacao do patrimonio publico e patrimonio privado (Martins, 40), ferve o vulcao social. Politicalha, oportunismo e corrupcao minam o aparelho burocratico do Estado, incapacitando-o de suprir necessidades basicas a populacao, como educacao, saude, transporte, seguranca e justica; de impedir o vil inchaco nas periferias urbanas e, por conseguinte, degradando valores sociais, principios de civismo, e a supremacia moral do poder publico. Aproveitando-se da situacao, surge a constelacao criminosa: partidos do crime organizado, trafico de armas e drogas, contrabando de mercadorias, roubo de cargas, economia informal, transportes clandestinos, assaltos, sequestros, milicias paramilitares, tropas de narcotraficantes, roubo e incendio de veiculos, invasao de terras, "ferros-velhos" receptadores, homicidios por motivos banais, balas perdidas, e muito mais, em grandeza escalar.

Seria injusto nao reconhecer manifestacoes da populacao quanto ao caos na seguranca publica. Existem. Em geral, lutuosas, clamando paz sobre a barbarie e acao contra a impunidade. Tambem seria incoerente desmerecer os esforcos dos contingentes policiais civis e militares, inclusive com perdas numerosas de vidas. Contudo, tais forcas sao orfas da vontade politica federal, carecem de plano global do governo, de aparelhamento e logistica a altura dos desafios, e agem sob a vigencia de leis penais frouxas, benevolentes, extemporaneas e inadequadas a realidade criminal.

Por outro lado, com uma justica lenta e inoperante, o Brasil tinha em 2007, aproximadamente, 400.000 presos em cadeias abarrotadas e im proprias; mais de meio milhao de foragidos que se valiam de 550 mil mandados de prisao nao cumpridos pelas policias estaduais. se cumpridos, nao haveria celas para todos. Alias, ao prestar informacoes sobre a populacao carceraria do Brasil, numa solenidade na Federacao das Industrias do Estado de Sao Paulo, em 19.02.2007, a ministra Ellen Gracie, na epoca presidente da mais alta corte de Justica, o Supremo Tribunal Federal, bem como do Conselho Nacional de Justica, disse que 62 milhoes de processos tramitavam no pais a espera de decisao. Porem, nenhum exemplo do caos na seguranca publica seria mais contundente do que o assalto sofrido pela propria ministra e sua comitiva oficial no Rio de Janeiro, em 07.12.2006, quando bandidos fortemente armados tomaram-lhe o veiculo oficial e pertences.

9. CONCLUSOES

Apesar da grande influencia cultural luso-iberica na mentalidade do povo brasileiro, seria infundado atribuir somente ao passado colonial o rol de fracassos civilizatorios, mazelas e assimetrias sociais do pais. Mesmo porque o lado bom da criatividade brasileira deve muito ao mosaico cultural que se instalou na colonia. Alem disso, apos 187 anos de independencia e 120 anos republicanos, a sociedade brasileira tende a comportar-se motu proprio, ignorando os poderes coercitivos do Estado, ou corrompendo-os. E nao e excessivo admitir um ciclo vicioso nisso tudo, pois o fulcro da deformidade esta no poder publico ausente, incapaz, corrupto, ou omisso na formacao do civismo e da cidadania. Dai essa indole individual contagiosa -- a revelia do estrato social -- inclinada a subterfugios imediatos, propensa a anomia e a subverter o distico Ordem e Progresso da bandeira nacional. Dai essa indole horizontal e vertical, passivel de variacoes e mutacoes, e que embute um "Jeito" economicamente mais predador que construtivo; mais espoliativo que distributivo; administrativamente mais burocratico que empreendedor; politicamente mais inclinado ao conchavo do que ao confronto; judicialmente mais prolixo e moroso que justo; sociologicamente mais anarquico que disciplinado; moralmente mais fraudador que honesto; de costumes mais permissivos que castos; historicamente emasculado de consciencia critica sobre o passado, indiferente aos desafios do presente, e incapaz de projetar o futuro.

ESCRITOR BRASILEIRO DE FICCAO

OBRAS CITADAS

Alves, Julia Falivene. A invasao cultural norte-americana. Sao Paulo: Ed. Moderna, 1988.

Barbosa, Livia. O jeitinho brasileiro: A arte de ser mais que igual que os outros. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1992.

Caldeira, Jorge. Diogo Antonio Feijo. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1999.

Da Matta, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Ed. Salamandra, 1984.

Leers, Bernardino. Jeito brasileiro e norma absoluta. Petropolis: Ed. Vozes, 1982.

Martins, Jose de Souza. O poder do atraso. Sao Paulo: Ed. Hucitec, 1994.

Rega, Lourenco Stelio. Dando um jeito no Jeitinho: Como ser etico sem deixar de ser brasileiro. sao Paulo: Ed. Mundo Cristao, 2000.

Torres, Joao Camilo de Oliveira. Interpretacao da realidade brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Jose Olympio, 1973.

(1) A partir d'ara AC. Cit per l'edicio de les Obres Essenciais, volum I (Barcelona: Editorial Selecta, 1957). Les referencies a les pagines on apareixen els passatges citats van entre parentesis.

(2) Es ja classica la classificacio de la produccio lul-liana en quatre etapes basades en les diverses formulacions de l'Art. Son les seguents (Bonner 1989: 58-59):

1) Etapa pre-art (1272-1274), que abasta els ultims anys de formacio intel-lectual de Llull. Destaca el Llibre de contemplacio en Deu.

2) Etapa quaternaria (1274-1289), des de la il-luminacio de Randa fins a l'experiencia d'ensenyament a Paris. Els principis generals de l'Art apareixen en multiples de quatre i les exposicions de l'Art contenen un gran nombre de figures geometriques. Hom ha dividit aquesta etapa en dos cicles: a) Cicle de l'Art abreujada d'atrobar veritat (1274-1283), que inclou un programa d'aplicacio a les ciencies (Libri de principiorum theologiae, philosophiae, iuris i medicinae) i a l'apologetica (Llibre del gentil e dels tres savis), com tambe el Llibre de l'orde de cavalleria, la Doctrina pueril i el Blanquerna. b) Cicle de l'Art demostrativa (1283-1289), en que trobam tambe aplicacions de l'Art a les altres ciencies. S'inicien reformulacions del paper de la teoria dels quatre elements i el desenvolupament de la teoria dels correlatius. Destaca el Llibre de meravelles.

3) Etapa ternaria (1290-1308), en que els principis de l'Art son reduits a tres, el nombre de figures a quatre i desapareix la notacio algebraica. Hi trobam tambe una nova estructuracio de l'Art a la Taula general i a l'Ars ultima. Pertanyen a aquesta etapa l'Ars inventiva i VArbre de ciencia.

4) Etapa post-Art (1308-1315): Llull deixa per establerta l'estructura basica del seu sistema i se centra en questions especifiques de logica, filosofia i teologia.

(3) Amb paraules de Llull: "Un libre general a totes ciencies qui leugerament se pogues entendre, e per lo qual hom pogues entendre la sua Art general que feta havia [...]. E encara, que les altres ciencies que han fetes los antics savis qui son passats, son aixi greus d'entendre e requiren tan long temps a apendre, que a penes ne pot hom venir a neguna fi. E encara, molts son los dubtes que los uns savis han contra los altres" (555). Aixo es molt desitjable perque "enteniment confus porta gran perill e privacio de gran devocio a honrar Deu e amar e servir, e a procurar salut son proisme" (555).

(4) Es tracta d'una recopilacio en cinquanta llibres que recull les obres dels juristes romans de l'epoca classica, central i tardana (30 aC.-230 dC.). Es la font principal i primera del dret roma i, en sentit general, del dret comu europeu.

(5) Per exemple, quan afirma que el dret canonic, que es una de les classes de dret, es troba "en dacret e en dacretals, qui son dits de sants e regla e ordonament de santa Esgleya" (Doctrina pueril, capitol LXXVI, paragraf 6).

(6) Ulpia es un dels grans juristes romans de l'etapa tardana, important per la quantitat i la qualitat de la seva obra. Fou un dels cinc juristes indicats en la famosa llei de citacions de Teodosi II i Valentinia III, de l'any 426, segons la qual en qualsevol disputa judicial davant dels tribunals nomes podien ser al-legades les opinions de Gai, Pau, Modesti, Papinia i Ulpia. Gairebe un terc del Digest es extret de les seves obres.

(7) Com demostra Lloret (2006: 180), el Llibre de l'orde de cavalleria tambe conte la famosa definicio d'Ulpia: "E cor l'espaa es taylant de cada part, e cavaylaria es per mantenir justicia e justicia es donar a cascun son dret, per ayso l'espaa del cavayler significa que lo cavayler ab l'espaa mantengua cavaylaria e justicia" (V, 2).

(8) Aixi, Soto Rabanos (1998: 77), Montserrat Quintana (1987) o Andreu de Palma (1936: 25), entre d'altres, consideren, erroniament, que Llull no segueix els principis exposats per Ulpia.

(9) Com en el capitol 114 del Llibre de contemplacio, on arriba a dir que "s esforsen a fer ver so qui es fals e a destruir so qui es ver: e tot asso fan per tal que pusquen aver honor e riquees de los mesquins homens qui en ells comanen lur dret e lur rao" (versicle 4).

(10) Hom pot consultar, entre d'altres, el treballs de Pedro Ramis y Serra (1991) i de Ricardo da Costa (2000).
COPYRIGHT 2009 University of North Carolina at Chapel Hill, Department of Romance Languages
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2009 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

 Reader Opinion

Title:

Comment:



 

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Trigueiro, Carlos
Publication:Romance Notes
Date:Jan 1, 2009
Words:3841
Previous Article:Dret I justicia a l'arbre de ciencia de Ramon Llull.
Next Article:Anonymat et reference dans la poesie de Frederic Boyer.

Terms of use | Copyright © 2014 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters