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O(s) sentido(s) do trabalho na contemporaneidade.

Introducao

O trabalho, como qualquer outra atividade humana, e uma atividade carregada de significados que impactam na (re)construcao de identidades/papeis e na (re)definicao de normas de vida. Ao longo da historia, o significado de trabalho tem sido associado a diferentes valores sociais--positivos e negativos--e a diferentes sistemas sociais. Na modernidade, com o surgimento do trabalho assalariado, o trabalho passa a assumir um lugar central na vida dos individuos e passa a ser visto como sinonimo de emprego (Saboia, Coelho e Aquino, 2007).

Com a crise economica mundial, deflagrada em setembro de 2008, observou-se o crescimento de um fenomeno ja iniciado nas ultimas decadas: o estabelecimento de novas relacoes de trabalho, como a subcontratacao, as atividades paralelas e o autoemprego. Pensar o trabalho fora do emprego, isto e, de relacoes formais de longo prazo e sem vinculo pleno com uma organizacao, traz para a cena dos debates publicos e academicos a questao do sentido do trabalho (1). Para Sennet (2009), a crise do emprego se tornou uma oportunidade de se resgatarem valores positivos para o trabalho. Para estudiosos das novas relacoes de trabalho (Bradley e Roberts, 2004; Hughes, 2003; Peel e Inkson, 2004), o autoemprego e uma modalidade que pode trazer novos sentidos para a atividade laboral. Um dos aspectos destacados por Gold e Fraser (2002) e o de que autoempregados tendem a valorizar, alem do trabalho, outros fatores que contribuem para a constituicao de suas identidades.

Neste artigo, buscamos contribuir para o entendimento do significado do trabalho na contemporaneidade, investigando os repertorios interpretativos (Gilbert & Mulkey, 1984) que emergem na fala de individuos que migraram da condicao de empregados para autoempregados e os dilemas ideologicos que alimentam esses repertorios. E nossa posicao que a ressignificacao do conceito de trabalho, na modalidade autoemprego, esta vinculada a categorias, associadas a valores positivos e negativos, disponibilizadas pela sociedade para entender trabalho como emprego. O(s) significado(s) de trabalho evocam, portanto, diferentes ideologias.

1. O discurso do trabalho

Uma breve retomada da diacronia dos termos trabalho e emprego pode nos ajudar a compreender as relacoes de semelhanca e diferenca de sentido entre eles. No discurso religioso, a maxima biblica "Comeras o pao com o suor de teu rosto" tem a forca de uma ameaca, associando trabalho a castigo, maldicao, sofrimento. Em sua etimologia, o termo trabalho remete ao substantivo tripalium (instrumento feito de tres paus agucados, com ponta de ferro, com o qual os antigos agricultores batiam os cereais para processa-los) e ao verbo tripaliare, igualmente do latim vulgar, que significava "torturar sobre o tripalium". Por muito tempo, a palavra trabalho significou experiencia dolorosa, padecimento, cativeiro, castigo (Bueno: 1988, p.25).

A concepcao moderna de trabalho como "esforco" e como "criacao" encontra-se associada, em grego, a dois termos distintos: ponos, que faz referencia a esforco e a penalidade e ergon, que designa criacao, obra de arte. Isso estabelece a diferenca entre trabalhar no sentido de penar, ponein, e trabalhar no sentido de criar, ergazomai. Essa contradicao e mantida na concepcao contemporanea de trabalho, em alguns contextos de uso, e manifesta nas formas como trabalho pode ser adjetivado: trabalho bracal, trabalho intelectual, trabalho escravo, trabalho artesanal, trabalho de parto, trabalho remunerado, etc.

Segundo Woleck (2007), observou-se, ao longo da historia, diferentes modos de producao. O modo antigo baseava-se no trabalho do escravo; o feudal, no trabalho dos servos da gleba; o capitalista, no trabalho do empregado assalariado. Essa modalidade de trabalho passou a ser compreendida como sinonimo de emprego. O termo emprego, nos dizeres de Souza (1981),"reflete a relacao entre o individuo e a organizacao onde uma tarefa produtiva e realizada e pela qual aquele recebe rendimentos" (p.26). Ate o seculo XIX, nao havia emprego fixo, vinculado a uma dada empresa. E a sociedade de mercado que veio transformar o homem necessariamente em um detentor de emprego (cf. Adam Smith,1776, apud Ramos, 1989, p.101), sendo o emprego formal a peca fundamental para o funcionamento da economia. Nesse tipo de sociedade, nao ser empregado e sinonimo de ser imprestavel ou excluido" ( Wolack, 2007).

O desemprego em massa, nas sociedades pre-industriais, era um acontecimento esporadico, causado por fenomenos como secas, guerras ou pragas. Ja na contemporaneidade, como apontam Saboia, Coelho e Aquino (2007), o referencial da sociedade do pleno emprego se aplica cada vez menos a realidade dos trabalhadores. A nova organizacao do capitalismo provocou o surgimento dos chamados "empregos informais" e novas relacoes de trabalho. Como argumentam os autores, a crise hoje e do emprego e nao do trabalho. O emprego formal parece estar deixando de ser um territorio privilegiado de insercao do sujeito na estrutura social.

Nesse contexto, uma questao que se coloca e que significados sao atribuidos ao trabalho quando ele deixa de ser igualado a emprego? A proposta analitica e a de investigar os repertorios interpretativos que emergem no discurso, ao se falar sobre essas categorias, bem como as ideologias que as alimentam.

2. Repertorios interpretativos e dilemas ideologicos

O construto "repertorio interpretativo" foi introduzido na psicologia social discursiva por Potter e Wetherell (1987), sendo definido como " basicamente um lexico ou registro de termos e metaforas mobilizados para caracterizar e avaliar acoes e eventos"(p.138). No Brasil, na area da psicologia social, este construto tem sido usado por Spink e seus colaboradores e discipulos para abordar temas como: menopausa (Menegon, 1998), masculinidade (Medrado, 1997), risco (Spink, Medrado & Mello, 2002),dentre outros. Segundo Spink et al (op.cit), o uso da linguagem coloca em movimento repertorios interpretativos culturalmente disponiveis, vistos como "unidades de construcao dos discursos" (p153).

Do ponto de vista discursivo, entao, repertorios interpretativos sao recursos linguisticos (e.g. palavras, expressoes, metaforas, ditados, etc) mobilizados e usados, ordinariamentem, no curso das interacoes sociais, constituindo , segundo Edley (2001), " parte e parcela do senso comum de qualquer comunidade, fornecendo uma base para o entendimento social partilhado" (p.198). Assim, repertorios interpretativos podem ser compreendidos como "discursos" (2), nos termos de Foucault (2005[1970]), mas, diferentemente desse construto, e usado para sinalizar uma maior enfase na agencia humana, em relacao ao uso da linguagem, e para se referir a blocos menos monoliticos e mais fragmentados de significados.

Um outro aspecto caracteristico dos repertorios e a possibilidade de serem alimentados por "dilemas ideologicos"(cf. BILLIG et al,1988). Em outros termos, um dado repertorio interpretativo pode ser constituido, tanto sincronica como diacronicamente, por diferentes ideologias que se sobrepoem ou se complementam.

O conceito de ideologia, a ser aqui adotado, filia-se a abordagem defendida por Billig e seus discipulos (1988) que refutam um entendimento de ideologia como um conceito unitario e monolitico. Ao contrario, ideologia e vista como algo multifacetado, complexo, caracterizado por contradicoes e ambiguidades. Segundo essa perspectiva, ideologias nao sao racionais ou universais e livres de influencias culturais e variacoes no curso da historia. Ideologias sao instaveis, situadas e influenciadas por contextos, historicamente relevantes, que interagem de modo complexo e contraditorio, podendo produzir dilemas para os individuos, em virtude de valores, crencas e moralidades particulares. Desse modo, as ideologias (no plural) que sustentam os repertorios interpretativos nao sao homogeneas, mas conflitantes e contraditorias. Esta visao de ideologia e compativel com a concepcao de repertorios interpretativos.Segundo Spink e Medrado (2004) "nas comunicacoes cotidianas, repertorios proprios de discursos diversos sao combinados de formas pouco usuais,.gerando, frequentemente, contradicoes (p. 48)".

Billig et al. (1988) chamam nossa atencao, ainda, para o fato de dilemas ideologicos estarem profundamente enraiza dos na cultura, atraves do uso da linguagem. Um bom exemplo desses dilemas ideologicos pode ser observado na analise de proverbios ou maximas populares que corporificam as ideologias da seguranca/estabilidade, que sao evocadas pelos entrevistados ao falarem de emprego e autoemprego": de um lado , a estabidade em "Mais vale um passaro na mao do que dois voando", ou "o seguro morreu de velho" e de outro, "Quem nao arrisca nao petisca'", que ilustraria a ideologia que nutre os "desafios".

3. O estudo

Os dados aqui apresentados sao parte de um projeto maior de pesquisa que objetiva investigar as novas relacoes de trabalho (Silva, 2008) e as narrativas de profissionais que migraram do emprego para o autoemprego (Oliveira e Silva, 2009).

Os dados foram obtidos atraves de entrevistas com individuos que atuam profissionalmente sem vinculo formal de emprego, quer como autoempregado individual (autonomo), quer como autoempregado gerador de emprego (Cowling et al. 2004). Como delimitacao, o estudo focalizou individuos com alto nivel de qualificacao, isto e, com formacao mais solida e maior nivel de experiencia profissional, o que, de acordo com aliteratura (Barbieri, 2003; Peel e Inkson, 2004 e Singh e DeNoble, 2003) e visto como um minimizador de dificuldades de adaptacao a nova modalidade de trabalho.

O criterio de selecao dos profissionais foi por tipicidade e acessibilidade, resultando em um grupo de oito homens e duas mulheres, todos com formacao superior e que atuaram como empregados em grandes empresas. Oito deles possuem pos-graduacao (mestrado ou doutorado) concluida ou em fase de conclusao e encontram-se entre 27 e 45 anos e com diferentes tempo de experiencia como autoempregados.

As entrevistas foram abertas com um convite para que o entrevistado falasse sobre o processo de migracao do emprego para o autoemprego e exploravam questoes como motivacoes, dificuldades, (in)satisfacoes, expectativas, dentre outras. Os encontros duraram entre 30 e 70 minutos e foram gravados em meio digital e posteriormente as falas foram transcritas.

Quanto aos procedimentos metodologicos, iniciamos por agrupar os fragmentos de fala de acordo com as categorias evocadas pelos entrevistados, tais como: a centralidade do trabalho, prazer, qualidade de vida, etc. Em seguida, considerando os posicionamentos (3) (DAVIS & HARRE, 1990) assumidos pelos entrevistados, buscamos identificar os recursos interpretativos que estes atores sociais ativamente negociam no discurso, visto que o recurso as opcoes oferecidas pela linguagem geralmente envolvem "escolhas" sobre formas adequadas de ser e agir, determinadas social e culturalmente, por vezes, de modo paradoxal (TOWNS & ADAMS 2007).Essas escolhas, quando sinalizam algum tipo de conflito, sao analisadas sob a perspectiva de "dilemas ideolgicos"(ver item 3 acima)

4. Repertorios interpretativos usados para falar do trabalho como emprego e como autoemprego:

A proposta de uma entrevista de pesquisa com foco no relato do processo de migracao do emprego para o autoemprego levou os entrevistados a se posicionarem ora como membros de uma categoria, ora como membros de outra. Cada posicao ativou repertorios interpretativos que colocaram em contraste a logica do empregado e a do autoempregado.

Neste artigo, destacamos dois dos repertorios que evocam aspectos de referencia simbolica do trabalho: de um lado, autonomia e de outro, controle.

4.1 O repertorio interpretativo da autonomia

Em varias passagens, os entrevistados salientam a satisfacao de serem livres para decidirem o que fazer e como fazer o seu trabalho. O uso enfatico do pronome EU sinaliza o valor moral do trabalho como um ato de realizacao propria em que a autonomia e condicao essencial

* A liberdade de escolher o que fazer

Um dos aspecto da autonomia, enquanto valor simbolico do trabalho, e o da liberdade para fazer o que da prazer e satisfacao:

ENTREVISTADOR--Aqui voce tem mais liberdade de escolher o que voce quer

ENTREVISTADO 1--E, e independente do que eu escolha eu vou estar satisfeito porque como eu falei, eu gosto de esporte como um todo, entao eu estou trabalhando em esporte, eu estou satisfeito. La na EMP B ( nome da empesa) eu poderia, eu tenho uma especializacao na area financeira, essas coisas assim. Ah, me mandaram fazer um projeto, sei la, de implantar RRP, talvez eu nao gostasse, oh, nao gosto, nao tenho esse perfil, entendeu. Poderia ter uma coisa dessas

ENTREVISTADOR--Aqui voce tem mais autonomia de decisao sobre o seu proprio trabalho.

ENTREVISTADO 1--o meu proprio trabalho e la como sendo funcionario eu teria que acatar, mesmo estando insatisfeito,

Na descricao do trabalho como emprego, os entrevistados reconhecem a possibilidade de fazer coisas que gostam, mas tambem a de ter que fazer coisas que nao gostam. Associam a posicao de subordinado o dever de acatar a decisao de outro(s). Com isso, o trabalho passa a ser entendido como uma obrigacao, como sofrimento, porque nao e um ato de escolha.

Uma metafora que traduz essa visao de trabalho e aquela referente ao significado de " segunda-feira e sexta-feira" no senso comum. Segunda-feira representa a escravidao; Sextafeira, a alforria:

ENTREVISTADO 2: E o que que eu estou querendo dizer e o seguinte. Muitas vezes que saco, amanha e segunda-feira e tem que trabalhar. Puta, que bom sexta-feira, final de semana, eu nao tenho esse sentimento (...)eu sou o meu chefe (...)Entao, eu nao tenho aquele sentimento, de puta, segunda-feira que saco, puta, aquela musiquinha do Fantastico que tem dor de cabeca porque tem que acordar. Eu nao tenho isso. Realmente nao tenho e isso e muito gostoso.

Como mostra o excerto, o entrevistado contrasta o trabalho posicionando-se como empregado e autoempregado. Como empregado, ele descreve o trabalho como obrigacao, o que e marcado pelo uso repetido do " tem que". Como autoempregado, ele nao reconhece esses valores positivos e negativos para os dias da semana, nem a possibilidade de ter um agente de controle que nao seja ele mesmo. Trabalhar mais ou no fim de semana e uma escolha e nao e um peso, porque e uma opcao e porque da prazer.

ENTREVISTADO 3: E por ser o negocio proprio agora, voce trabalha e esquece ate do horario, ai da seis e meia, sete horas, opa, esta hora de ir para casa. Entao eu vou para casa.

* A liberdade para fazer um trabalho bem-feito

De acordo com Sennet (2009), a preocupacao com a qualidade do trabalho foi perdida no capitalismo. No entanto, para os autoempregados, um dos beneficios morais do trabalho e a satisfacao de poder fazer um trabalho bem-feito.

Ha um orgulho de se ter autonomia para decidir como fazer bem um trabalho.

ENTREVISTADO 4: a vantagem de estar com esse negocio hoje e que eu faco as coisas da maneira que eu acho correta. As vezes eu tinha muita coisa que eu via que tinha que ser feito de uma determinada forma

ENTREVISTADOR:--e voce nao podia

ENTREVISTADO 4: Nao podia. A empresa falava assim: nao, nao e assim.

ENTREVISTADOR: Voce nao tinha toda a autonomia que voce gostaria

ENTREVISTADO 4: Nao tinha e hoje eu tenho.

(...)

ENTREVISTADO 4: (quando empregado) Entao eu via muita coisa errada, eu falava, nao, agora eu vou fazer a coisa certa porque vai ser o meu negocio e as coisas vao acontecer como eu acho que tem que acontecer.

Ha uma percepcao de que a posicao de empregado nao oferece condicoes para o trabalho bem-feito. Uma analogia foi utilizada pelo entrevistado para tornar explicavel accountable --(cf. Buttny and Morris, 2001) essa posicao:

ENTREVISTADO 5: me atrai o modelo de fazer, sim, fazer consultoria mas com uma base mais consistente, com um esquema menor, ou seja, talvez alguma coisa que se aproxime mais do papel do professor, que voce esta ali realmente com conhecimento diferenciado, que realmente pode ajudar a descobrir novos caminhos, e nao alguem que esta ali, que ao contrario, que voce tem a certeza que ele nao tem esse conhecimento todo, mas supostamente, que ele tem por tras e uma grande organizacao, que somados os conhecimentos de um monte de gente pelo mundo afora, pode ate te ser util, mas pode nao ser.

A analogia coloca em contraste um saber consistente que pode inovar, e um saber menos aprofundado, armazenado, que pode ser replicado mas que nem sempre pode ser util.O excerto aponta tambem para a invisibilidade do saber daquele que faz o trabalho. Quem tem o credito pelo trabalho e a organizacao, vista como detentora do capital intelectual dos seus empregados.

Em outra fala, e atraves de uma metafora--a placa por tras--que a questao do saber como algo desvinculado do trabalhador reaparece. No excerto a seguir, o entrevistado relata a sua primeira atividade profissional como autoempregado. Trata-se de um servico de consultoria que prestara na condicao de terceirizado--e nao mais funcionario--da empresa de consultoria da qual se desligara:

ENTREVISTADO 5: porque eu absorvi todos os problemas de um projeto mal vendido que o cliente comprou porque nao sabe bem, a EMP C (nome da empresa) vendeu o que nao sabe bem, classico, e, como eu tinha a placa por tras, pagaram rios de dinheiro sem saber o que estavam comprando e empresa vende qualquer coisa para fechar o contrato. Isso e uma coisa seria no mundo de consultoria e ainda acontece. Apesar das empresas estarem mais criticas com relacao a isso, mas isso acontece. Eu ali era EMP C, apesar desse primeiro trabalho, de eu ser um terceiro, ainda era a EMP C

O trabalho bem-feito e descrito como algo incompativel com o objetivo da empresa--fechar contratos--mas como algo presumido pela " placa atras" do profissional, isto e, pelo nome da Empresa.

Como defende Sennet (2009:47), o ethos do bom trabalho, na nova economia, permanece sem recompensa ou invisivel. E a autonomia de que goza o autoempregado que permite ter o bom trabalho como um ideal e, por consequencia, ter o seu saber reconhecido:

ENTREVISTADOR: O teu valor profissional esta sendo mais reconhecido?

ENTREVISTADO 5: Sim, sim, na verdade e mesmo. Olha so, entao vou te contar um pouco daquela historinha (...) Ou seja, o trabalho na EMP C (nome empresa), esse diagnostico eu fiz sozinho, nao foi a nem a BZ(nome da empresa do autoempregado), fui eu que fiz o trabalho, fui eu que fui pra la e fui que fiz. As que eu fiz foi um trabalho de diagnostico que fez vender a continuacao de agora.

ENTREVISTADOR: E voce acha que se voce tivesse que ir la para fazer o mesmo trabalho pela EMP C as pessoas iriam te ver como EMP C

ENTREVISTADO 5: Acho que sim, e claro que se voce tem um relacionamento (com o cliente) que vai crescendo a longo prazo, acaba sendo fulano de tal da EMP C, claro, aquilo acaba se sobrepondo, mas pelo menos num primeiro momento, nao. O que eu estou colocando e que como uma empresa pequena, com um esquema de empresa pequena de prestacao de servicos de consultoria, necessariamente, vai ser funcao a experiencia da ou das pessoas. Necessariamente. Nao tem essa de ah, a empresa esta ha tres, quatro anos no mercado, ja tem credencial, nao tem isso. Ninguem vai contratar a BZ porque ela tem meia duzia de clientes, nao vai. Eu acho que nao vai. Vai contratar se eu for la e eles sentirem firmeza em mim e no que eu estou falando das minhas experiencias. Ponto. Eu acho que vai muito, ai fica muito pessoal. Pelo menos e isso que eu sinto. Nao tenho certeza, mas e assim que eu vejo.

A autonomia cria visibilidade para o reconhecimento pessoal, para a demonstracao real da capacidade de fazer um bom trabalho. O entrevistado inicia sua fala admitindo que, se houver uma relacao forte com o cliente, o seu valor profissional pode ser reconhecido. Mas, mesmo nesses casos, parte desse valor ainda e visto como atrelado a sua filiacao (fulano de tal da EMP C). Ja, quando ele se posiciona como autoempregado, ele torna relevante a questao da agencia, atribuindo o merito a sua propria experiencia e postura (firmeza) pessoal. A agencia e discursivamente enfatizada pelo uso recorrente do pronome pessoal "eu" para fazer referencia pessoal.

4.2 O repertorio interpretativo do controle

O repertorio interpretativo do controle, em oposicao ao da autonomia, mostra que o trabalho como emprego e pensado nao como um ato de afirmacao individual, mas de submissao a vontade de outros. Os termos que constituem esse repertorio se dividem em duas categorias: quem controla e o que e controlado

* Quem controla

O repertorio do trabalho como controle evoca termos que remetem tanto a controles exercidos por pessoas quanto por praticas e documentos regulatorios. No excerto abaixo, em que o entrevistado fala das interferencias que sofre para exercer o seu trabalho, sao identificados alguns desses termos:

ENTREVISTADOR: Tinha interferencia?

ENTREVISTADO 5: Direto, direto. Claro que tinha, tinha interferencias tanto a burocracia EMP C coisa do dia-a-dia, que ai transcende a area de negocios onde voce esta, como claro, tem que dar satisfacao para uma monte de gente.

Outros entrevistados falando sobre o mesmo tema

ENTREVISTADO 6: so que ai eu so fiquei cinco meses porque ai eu nao aguentei. Simplesmente nao aguentei porque tinha um chefe que era um cara pessoalmente muito bacana, mas profissionalmente a gente nao se entendeu. E eu acho que e muito dificil, bicho, voce fica tres, quatro anos nessa relacao de autoemprego, como voce chama, voce voltar a ter um ambiente de trabalho, onde voce tem uma rotina fixa, onde voce tem as relacoes de trabalho com chefes, com normas, com regras rigidas, e muito dificil voce se readaptar. (...) E ai fiquei cinco meses falei, bicho, estou dando um tchau de novo, ja tinha dado uma estabilizada

ENTREVISTADO 7: Eu acho que ela te restringe, a sua imaginacao, ela reprime, ou seja, a sua capacidade de criacao ela reprime, porque a organizacao ela esta la, tem um conjunto de normas, regras

Estes excertos chamam a atencao para a burocracia. As praticas burocraticas aprisionam os empregados, nao lhes permitindo liberdade de acao. O controle tambem e evocado na obrigacao de prestar contas a outros hierarquicamente superiores. Fazem parte desse quadro o par relacional chefe-subordinado. O relacionamento com a chefia e descrito como problematico, mesmo nos casos em que o empregado distingue positivamente a pessoa do papel que ela exerce.

A burocracia das organizacoes e avaliada como algo que "restringe", "reprime", evocando a percepcao do trabalho como cerceamento da liberdade, como prisao. Sao eles: a rotina fixa, as normas, as regras rigidas, tudo que e imposto ao empregado como um padrao que deve ser seguido.

Uma das diferencas nas relacoes de trabalho, no emprego e autoemprego, pode ser ilustrada pela forma como os significados simbolicos da relacao chefe-subordinado sao manifestos na fala de um entrevistado que abriu uma pequena empresa com seu irmao:

ENTREVISTADO 8: meu irmao e um pouco meu chefe, eu sou um pouco chefe dele e tal. Os clientes sao os meus chefes, mas e uma relacao completamente diferente.

Como mostra o excerto, o entrevistado, ao falar da sua sociedade com seu irmao, estabelece um novo par relacional: chefe/ chefe. Esse par nao remete a controle, mas a uma troca igualitaria em que ambas as partes se supervisionam para o bem comum. Nessa linha de ressignificacoes, o entrevistado cria outro par relacional--clientes/ socio. O cliente nao e apresentado como aquele que "manda", " controla", mas aquele a quem o autoempregado tem o compromisso de servir.

* O que e controlado

Dentre os objetos de controle citados, o tempo e um dos aspectos avaliados de forma mais negativa pelos entrevistados. Para os autoempregados, ao se estabelecer um horario de trabalho, perde-se o significado do trabalho como produtividade:

ENTREVISTADA 1: na EMP A (nome da empesa) eu fiquei impressionada com assim o desperdicio de tempo. Entao, olha so, vamos pagar esse pessoal para ficar seis horas aqui e depois manda os caras para casa. Entao fica todo mundo tentando enganar a organizacao e a organizacao se enganando, achando que tem que ter uma Norma e Instrucao desse tamanho que a EMP A acha que tem que ter que ninguem cumpre absolutamente nada e a verdade e essa, e fica matando tempo, dando um tempo para ir embora. Entao quando eu percebi isso, eu falei realmente essa nao e a minha praia porque eu nao tenho tempo a perder.

A entrevistada usa as metaforas "desperdicio de tempo", "matando o tempo" e "dando um tempo" para explicar por que horario de trabalho nao significa trabalho, visto como produtividade. O horario fixo faz com que o trabalho seja enquadrado como uma encenacao (enganosa): a empresa estabelece uma norma que nao e cumprida de fato, e os empregados fingem que cumprem a norma. Com outra metafora "nao tenho tempo a perder", a entrevistada volta a significar trabalho como produtividade, apontando um dos fatores que a levou a migrar para o autoemprego ("essa nao e a minha praia")

Os entrevistados apontam tambem para outras deturpacoes do significado do trabalho em decorrencia da definicao de um " horario de trabalho". Um delas e a compreensao de que trabalho e um lugar, e nao uma atividade produtiva:

ENTREVISTADA 1: Entao la, voce tem que estar la, se nao tivesse projeto voce tinha que estar la. Podia num dia da semana ou no outro nao aparecer la, mas voce tem que estar la presente porque se as pessoas perguntarem onde voce esta, voce esta no trabalho. Nao tem o projeto, mas esta la esperando, disponivel para alguma coisa. Entao realmente isso e posso considerar uma desvantagem de voce nao ter essa liberdade de teoricamente mandar em voce mesmo

De acordo com a entrevistada, o trabalho e visto como uma presenca fisica num determinado espaco ("estar no trabalho"). Trabalhar e visto como estar disponivel e nao necessariamente estar produzindo. Sem autonomia, o empregado nao pode gerenciar o seu tempo e a sua produtividade.

Outro termo que constitui o repertorio do controle sao as longas jornadas de trabalho. Por um lado, elas tem sido naturalizadas por um discurso do senso comum que vincula dedicacao a sucesso profissional (Oliveira, 2008a):

ENTREVITADA 2: entao sao 12 horas mesmo todos os dias. A rotina era essa. (...) fins de semana e trazia trabalho para a casa

ou

ENTREVISTADO 4: Na EMP D (nome da empresa) tambem e assim, voce tem que justificar porque esta saindo na hora. Vou sair na hora porque eu vou ao medico, ta, gente. Nao estou desmotivado, nao. Nao sei o que. Tem esse tipo de cultura.

A exigencia tacita de uma disponibilidade de tempo faz com que obedecer ao horario de trabalho seja enquadrado como um sinal de desmotivacao do empregado. Como tal, a saida no horario exige explicacoes. No entanto, ficar mais na empresa nao e reconhecido necessariamente como trabalhar mais.

Para os autoempregados, trabalho envolve comprometimento com resultado, o que nao e estabelecido por mecanismos de controle--explicitos ou implicitos:

ENTREVISTADO 7: (...) quando eu te digo que tem que ter disciplina, mas nao uma disciplina de horario, tem que ter disciplina com comprometimento com resultado. Eu sei o que que e o objetivo da Minha Empresa, o que que e eu sei, qual e a nossa agenda para o ano, nossa agenda para o semestre, para o bimestre, pro mes, para a semana e pro dia. Entao, isso faz com que eu me organize e consiga desempenhar, se tiver que trabalhar 15 horas, se tiver que trabalhar final de semana eu trabalho, e ai que esta.

O entrevistado introduz o termo "disciplina" como algo que melhor define o compromentimento do autoempregado com "resultados",com objetivos a serem alcancados e previstos em uma "agenda". Desse modo, o "tempo" de trabalho esta diretamene associado a necessidade de cumprimento das tarefas e nao a um mero cumprimento de horario e e resultado de organizacao e produto de uma escolha.

Outra categoria do trabalho como emprego--aposentadoria--reafirma alguns dos significados de trabalho para autoempregados. Na posicao de empregados, o tempo de parar de trabalhar e definido pela empresa/ governo e significa parar de ser produtivo e, no imaginario, comecar a aproveitar a vida. Para os autoempregados, porem, a aposentadoria nao e uma meta nem tem esses significados:

ENTREVISTADOR: Como e que voce ve a nocao de aposentadoria? Voce se pensa ... como aposentado, nao?

ENTREVISTADO 6: Nao, entao, eu consigo me imaginando daqui a 15, mas nao consigo me imaginar daqui a 40. O que estou fazendo hoje e depois das caidas e das caidas de cavalo e tal, tentando pavimentar um futuro, para que daqui a 10, 15 anos, eu consiga ter uma estrutura que, que eu continue fazendo o que eu estou fazendo hoje, ou seja, tendo o autoemprego, tendo a tranquilidade e tal, mas com mais tranquilidade e com mais, mais capitalizado, e mais experiencia de vida e tudo o mais, entendeu. E, mas eu imagino, a questao da aposentadoria, acho que nem tanto a financeira, nem a, ou seja, nem parar de trabalhar e ter uma aposentadoria que me remunere, um fundo de pensao, um fundo de previdencia ou um da vida ai, eu nao penso muito nisso, nao. Se eu pudesse chutar eu te diria que eu nao me imagino parando de trabalhar nao, nem com 70 anos de idade. O que eu quero e efetivamente estar com 70 anos de idade, e so estar fazendo o que eu aquilo que eu gosto, como eu sempre tenho buscado isso dentro da minha vida. Estar sempre bem, procurando estar sempre bem comigo mesmo, de oito as cinco, de oito a meia-noite, mais nessa linha

Como mostra o fragmento, aposentadoria nao e fim, e continuidade de um projeto de vida: fazer o que da prazer, estar bem consigo mesmo, ter lazer e trabalho. Admite a necessidade de "pavimentar o futuro" de construcao de uma "estrutura" atraves de algum tipo de plano de previdencia. Mas nao ve a aposentadoria como o marco de uma libertacao das amarras do trabalho, como e suposto na logica do empregado. Para ele, trabalho nao e obrigacao, e prazer.

Cada um dos repertorios aqui identificados compreende um tipo de lexico que evoca os valores positivos do trabalho como autoemprego e os valores negativos do trabalho como emprego. O lexico do repertorio autonomia inclui 'ter prazer em trabalhar', 'gostar do que se faz', 'trabalho como distracao', 'fonte de prazer', 'fazer a coisa certa', 'valor profissional', 'conhecimento especializado', 'ter experiencia', 'ter credencial', e a metafora 'correr atras do sonho'; e no que se refere a falta de autonomia: 'ser infeliz', 'parar de trabalhar/aposentadoria', 'rabalho chato', burocracia (reprimir/ restringir/interfirir) e as metaforas: "ter placa por tras", "dar chicotada nas costas".

Ja o lexico do repertorio controle inclui: 'rotina', ' planejamento', 'projeto', 'agenda', 'segunda-feira/sexta-feira', 'ser workaholic',horario, final de semana, e as metaforas "vida de louco", 'matar o tempo; e no que se refere 'falta de controle, 'resultado', 'produtividade', 'disciplina', 'lazer', 'negocio proprio' e a metafora 'dono do tempo.

O contraste entre os lexicos relativos a autonomia e a controle mostra que o trabalho como autoemprego resgata valores como criacao, trabalho artesanal, prazer, expressao de si mesmo.

5. Trabalho e ideologia

Os repertorios interpretativos relacionados a autonomia e a controle estao associados a significados do trabalho sustentados por diferentes ideologias.

Na descricao do trabalho como emprego, os entrevistados evocam um discurso da meritocracia que legitima a submissao do trabalhador aos mecanismos de controle da organizacao. Um dos tracos desse discurso diz respeito a dedicacao como um dos criterios de avaliacao do merito do empregado (Oliveira, 2008b). A dedicacao aqui nao e apresentada um como ato de determinacao individual, mas como um ato de aceitacao das regras do jogo. A dedicacao para os entrevistados vem alinhada a uma concepcao de trabalho como instrumento de manutencao do emprego e, principalmente, de ascensao vertical, de reconhecimento publico do merito atraves da posicao alcancada, dos salarios recebidos e dos simbolos de status a que passa a ter direito o empregado, como carro, celular, secretaria, computador, etc.

Essa ideologia do " sucesso a qualquer preco" e rejeitada pelos autoempregados:

ENTREVISTADO 7: Nao quero ser esses caras que ficam trabalhando ai 20 horas por dia, porra que chegam a socio e continuam sendo chefe, ou seja. Socio da EMP F continua sendo chefe, po, e eu nao quero ter essa vida de louco, nao ter familia, nao quero muito essa vida, nao.

A categoria dedicacao compreende tambem o conceito de workaholic:

ENTREVISTADO 7: Trabalho, sem duvida nenhuma e fonte de prazer. Mas eu nao sou, nunca fui, e eu acho que nunca vou ser um cara bitolado, um workaholic, se eu tiver que trabalhar durante dois meses, 20 horas por dia, eu vou trabalhar. (...)

ENTREVISTADA 1: E eu nao tenho esse espirito de workaholic dessas pessoas que trabalham 14, 15 horas por dia, sete dias por semana e se nao trabalharem ficam infelizes. Tem pessoas que tem essas caracteristicas, eu nao sou assim.

Como mostram os dois depoimentos, o conceito de workaholic e associado a valores negativos: bitolado, vicio, doenca (sem o trabalho, a pessoa e "infeliz".) Apesar de reconhecerem o trabalho como prazer, os autoempregados entendem que o trabalho nao e a unica fonte de prazer.

A ideologia que sustenta esse tipo de posicao esta alinhada a um outro discurso focado no bem estar e no estar bem consigo mesmo. Reconciliando o trabalho a outras fontes de prazer, os autoempregados tornam-se porta-vozes de um discurso de qualidade de vida, em que o trabalho e apenas uma das dimensoes da vida. As organizacoes tem introduzido a questao da qualidade de vida do empregado como um instrumento de produtividade e tambem de reducao de seus custos. Para os autoempregados, porem, a qualidade de vida e apresentada como um projeto de vida, que tem por base o prazer e a liberdade.

Para os autoempregados, ser submetido a fazer o que nao da prazer nao compensa nenhum tipo de beneficio material. A experiencia do autoemprego resgata o prazer como beneficio moral do trabalho:

ENTREVISTADO 7: discordo muito daquelas pessoas que acham que precisam ser infelizes das oito as cinco da manha, de segunda a sexta para poder ser feliz de....

ENTREVISTADO: de meia-noite as cinco

ENTREVISTADO 7: pois e. E pro cara, assim, ah, nao, eu nao sou feliz com o trabalho, e, nao sou feliz no meu trabalho, mas eu porra, eu faco uma viagem internacional por ano no meu trabalho. Caralho, o cara tem 30 dias de ferias por ano, ele se diverte, os outros 11 meses, que ele porra, ele fica se dando chicotada nas costas? Que porra de relacao e essa? Entao eu sempre discordei dessas pessoas. E sempre acreditei, bicho, que voce tem que correr atras do seu sonho. Eu sempre acreditei que por mais dificil que pareca, voce tem que acreditar em voce mesmo e correr atras do seu sonho.

O entrevistado coloca em oposicao o tempo de trabalho (como obrigacao, atividades que nao despertam prazer) ao tempo de ferias (o lazer). Atraves da metafora "dando chicotada nas costas", ele descreve uma atitude de resistencia passiva do empregado a um significado de trabalho como sofrimento. Em oposicao, ele fala da experiencia de autoemprego como uma experiencia de agencia, de prazer (correr atras do seu sonho). Nesse sentido, a fala do entrevistado se aproxima do significado de merito na cultura americana. De acordo com Barbosa (1999: 66) nessa cultura, o merito esta na "capacidade do individuo em moldar a sua realidade de acordo com sua visao de mundo, por sua determinacao e esforco." O beneficio moral do trabalho e o orgulho de afirmar a individualidade, de poder satisfazer o desejo de autonomia, de ser autor do seu plano de voo:

ENTREVISTADO 4: agora eu sou realmente o dono do meu tempo. Entao estou me dedicando muito mais ao mestrado, eu faco as leituras, eu me preparo para as aulas, eu venho para as aulas. E antes eu sentia que eu nao tinha esse tempo todo. E esta sendo uma surpresa muito positiva porque eu ja esperava, mas esta excedendo as minhas expectativas nesse sentido. E outra coisa tambem e com relacao as atividades que eu sempre me preocupo em fazer uma atividade fisica, eu estou nadando, fazer uma corrida para, enfim, para manter minha parte saudavel, para manter minha saude. Antes eu nao tinha tanto tempo como eu tenho agora.

ENTREVISTADA 1: Eu adoro lazer, eu preciso ler, eu preciso dormir, eu preciso ir a praia, eu preciso ir ao cinema, eu gosto. Gosto muito de sair ate reverte positivamente ao meu favor, eu trabalho muito melhor do que quando eu fico so em cima de uma coisa, Eu nao me incomodo de trabalhar final de semana. Mas nao e isso. Mas nao ter lazer e muito complicado.

Ambos depoimentos retratam um plano de qualidade de vida que atende a necessidades relacionadas saude fisica (como caminhar, dormir), mental (lazer, convivio social) e intelectual. A propria realizacao do bom trabalho (eu trabalho muito melhor do que quando eu fico so em cima de uma coisa) e apresentada como uma consequencia desse estar bem, de vivenciar outras fontes de prazer, alem do trabalho.

A visao de trabalho como prazer exclui tambem do lexico a categoria aposentadoria, entendida por empregados como a hora de parar de trabalhar. Perguntados sobre isso, os entrevistados reiteram a visao ja apresentada sobre os significados simbolicos dos dias de semana:

ENTREVISTADOR: Pensa em se aposentar?

ENTREVISTADA 1: Nao, que chatice. Eu ja sou aposentada desse trabalho chato.

E eu gosto tanto de do que eu faco que eu faria se tiver disposicao e saude e cliente ate os 80, 90 anos, nao tem o menor problema. Porque isso distrai, eu acho que a vida sem trabalho e muito chata.

Quando o trabalho nao e o centro da vida nem e obrigacao, as fronteiras entre tempo de trabalho e aposentadoria desaparecem. Trabalho e prazer, e parte da vida.

Consideracoes finais

O foco da discussao aqui apresentada aponta para a dificuldade de se pensar as novas formas de trabalho sem aludir a categorias vinculadas ao trabalho como emprego. Com base numa analise do vocabulario, das construcoes e metaforas, usadas pelos entrevistados para falar sobre o processo de migracao do emprego para o autoemprego, identificamos dois repertorios interpretativos evocados para falar de trabalho: o controle e a autonomia. O primeiro, que emerge quando o entrevistado se posiciona como empregado, tem como termochave a palavra submissao e remete a visao de trabalho como obrigacao. Seu lexico e constituido de categorias vinculadas, no senso comum, a emprego, chefe, horario de trabalho, rotina, burocracia, longas jornadas, etc. O segundo, que emerge quando o entrevistado se posiciona como autoempregado, tem como termo chave a palavra autonomia e remete a visao de trabalho como prazer. O seu lexico nao e constituido por categorias proprias, mas, sim, por termos que se opoem as categorias do emprego, como agencia, trabalho bem feito, qualidade de vida, etc.

A analise dos repertorios interpretativos apontou tambem para as ideologias que sustentam esses repertorios. Ao apresentarem a visao de trabalho como emprego, os entrevistados rejeitam algumas das condicoes imposta para a obtencao do sucesso profissional, como a centralidade do trabalho na vida, a dedicacao total do empregado a empresa e a luta apenas pelo aumento de salario e pela promocao vertical.

Ja ao apresentarem a visao de trabalho como autoemprego, os entrevistados alinhamse a um discurso do empreendedorismo, focado na capacidade do individuo de criar, de se autoexpressar atraves do trabalho, e ao discurso da qualidade de vida que equilibra a necessidade de realizacao profissional a de satisfacao pessoal, em conciliar trabalho a outras categorias como familia e lazer.

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RECEBIDO EM: 27/04/2012 APROVADO EM: 23/06/2012

(1) BERTOL, Raquel. Novos sentidos do trabalho: ruptura profunda de valores dominantes ate a crise intensifica debate sobre emprego. Caderno Prosa e Verso. O Globo, 6 de julho de 2009. p. 1-2

(2) Segundo o autor, os diversos discursos encontrados em uma dada sociedade, ou em um grupo social especifico, exercem funcoes de controle, limitacao e validacao das regras de poder desta mesma sociedade.

(3) Posicionamentos, segundo Davis & Harre (1990), sao praticas discursivas em que os participantes de uma dada situacao de fala-em-interacao reivindicam/atribuem "posicoes", isto e, "lugares" disponibilizados/construidos nas linhas de historia (storylines) que emergem no discurso.
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Author:de Oliveira, Maria do Carmo Leite; Silveira, Sonia Bittencourt
Publication:Veredas - Revista de Estudos Linguisticos
Date:Jan 1, 2012
Words:7256
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