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Do sentido da mediacao: as margens do pensamento de Jesus Martin-Barbero.


As contribuições dos estudos culturais para o campo da comunicação tém na obra do espanhol naturalizado colombiano, Jesús Martín-Barbero, seu mais importante aporte teórico. Expoente do pensamento comunicacional latino-americano, sua proposta de passar dos meios as mediações forneceu subsídios para pensar a recepção fora do diagrama da teoria informacional.

A abordagem culturalista de Martín-Barbero permite trabalhar a idéia de cadeias envolvendo produtores, produtos e receptores, compreendendo deslocamentos de significados entre as instâncias envolvidas. A ênfase muda da produção para a recepção, circuito que recodificaria os sentidos sociais.

O eixo epistemológico condiciona cultura à comunicação, e comunicação à cultura. A comunicação é então processo, simultâneo e co-depentente das formações culturais. O desafio aparece com toda a sua densidade no cruzamento dessas duas linhas de renovação -- que inscrevem a questão cultural no interior da política e a comunicação, na cultura (Martín-Barbero, 1997, p.299). O efeito imediato dessa noção teórica é envolver os elementos da liturgia informacional (1): emissor, receptor, canal e mensagem em contextos culturais. O conceito chave que coordena essas manifestações é o de mediação. Dos meios às mediações, pois.

Mediação seria o pano de fundo onde as manifestações comunicacionais orquestram tramas culturais. O conceito não tem contornos muito claros e compreende toda a gama de relações e intersecções entre cultura, política e fenômeno comunicacional. Especialmente, as mediações se referem às apropriações, recodificações e resignificações particulares aos receptores. Outra assunção importante é que produção, recepção, meio e mensagem só podem ser pensados como um processo contínuo -- as mediações -- posição de onde é possível compreender o intercâmbio entre produção e recepção.

A mediação integra cultura e comunicação na processualidade do cotidiano, é a cultura vivida em sua dinamicidade comunicativa. A interdependência dinâmica entre cultura e comunicação quer desfazer os vícios da sociologia, da semiologia e da abordagem informacional, oferecendo o conceito de mediação como o ponto fulcral de um sentido processado na comunicação. É aliás o conceito de sentido, parcamente desenvolvido por Martín-Barbero, que permite a conjunção de cultura e comunicação, afastando um entendimento antropológico de cultura; de outra maneira, cultura e comunicação seriam categorias intercambiáveis (2).

O que garante sustentação ao esquema, o que inviabiliza a redução da comunicação à cultura ou da cultura à comunicação, é essa instancia que processa sentido, as mediações. Essa centralidade dos dispositivos comunicacionais implica era um redesenho de seu sentido e sua razão (Martín-Barbero, 1993) (3). Mediações dinamizam a cultura, que são funcionalizadas pela comunicação e assim sucessivamente. O esquema se fecha.

Isso fica claro nos estudos de caso. Martín-Barbero (1997) oferece ao leitor inúmeros exemplos de recônditas codificações da realidade medial. A recepção assume formas de resistência insuspeitas, e a irradiação unidirecional dos meios de comunicação sofre assaltos e apropriações de significado inauditas. No invisível da trama social, as classes populares se vingam secretamente (Martín-Barbero, 1997, p.318). Martin-Barbero imagina uma negociação de sentido entre diferentes blocos sociais, uma movimentação político-cultural que as teorias da informação não podiam ver. A novela não aconteceria no significado frio do roteiro filmado, mas na circulação social de boatos e comentários, no bate-papo diário entre vizinhos. Onde havia consenso social, as mediações fazem ver contestação. Onde havia identidade, conflito. De um ponto de vista sociológico, os contextos se tornam delimitáveis apenas com a caracterização da dinâmica comunicacional, que reconfigura e recodifica a ação social.

Há uma produção social de sentido implícita ás mediações, e é isso que viabiliza a teoria de Martín-Barbero. A proposta é condicionada por uma idéia de sentido que relaciona sujeitos, significações e mensagens em funções mais complexas que a receita informacional de emissores e receptores.

Mas o conceito de sentido (função que perfaz as mediações) que Martín-Barbero apresenta é apinhado de assunções não declaradas: há blocos fechados que compreendem as mensagens, há sentidos negociados e há significações compartilhadas sorrateiramente, isto é, sentidos secretos que os grupos sociais trocara entre si. É como uma guerrilha de sentido entre as diferentes formações sociais, arena onde a vingança das massas se realiza. Assim, a arquitetura conceitual da proposta de Martín-Barbero está montada em um diagrama de circulação de sentidos que, de maneira curiosa, não é exposto pela teoria; é velado, uma dimensão que a teoria não apresenta mas que lhe permite funcionar.

Velado porque as mediações são simultaneamente significação individualmente codificada e sentido socialmente produzido. O sentido assim apresentado tem contornos semelhantes ao proposto por Bernard Pottier (1992), que tomando de empréstimo o exemplo de Hjelmslev sobre uma expressão traduzida para diferentes línguas, define o sentido como uma instância para a qual convergem as significações particulares das diferentes línguas, criadas nos diferentes registros semióticos de cada cultura. Seria como uma intersecção das traduções em um texto geral, atravessando diversas línguas e semióticas. Esse conceito de sentido também se aproxima da definição de Greimas e Courtés (1979), como lugar da transcodificação das significações, aquilo que permite a tradução de uma função semiótica de uma língua para outra. Sentido seria, portanto, simples função da significação, um texto comum que Pottier (1992) chama de instancia conceitual do sentido, um sentido conceitual comum.

É na idéia de transcodificação das significações que as mediações de Martín-Barbero se encontram com o sentido. Dadas diferentes redes semióticas dentro de uma mesma comunidade lingüistica, o sentido seria o lugar da transcodificação que atravessa todas as redes semióticas, oferecendo uma intersecção de significações como universo de sentido. O sentido se formaria, assim, na experiência prática de usos e desusos, antes uma zona de sentido, necessariamente mais extensa que a manifestação semiótica.

Essa característica ambígua do conceito de sentido não é particular a Martín-Barbero, é antes uma invariável nas ciências da linguagem, que também partilham um entendimento confuso do conceito. Mas o teórico colombiano complica ainda mais a questão, pois as mediações ultrapassam o escopo da linguagem e assinalam fenômenos culturais. De maneira semelhante ao interacionismo simbólico, Martín-Barbero recusa o esquema informacional de caixas estanques, atentando para processos sociais. Enquanto categorias como ação e reação enfatizavam a circulação de unidades, conceitos como sentido e significação reforçam a noção de processos integrados. De diagramas independentes que descreviam a circulação de informação, passa-se para esquemas dinâmicos de interdependência no processo comunicativo.

Mas Martín-Barbero não conceitua essa movimentação de sentido e significação. Pelo contrário, ela é ilustrada como recodificação dos textos culturais, sem mais. A teoria das mediações sugere a incorporação de um envelhecido diagrama do sentido, primeiro descrito pelo psicólogo e educador Charles Egerton Osgood (1957). Osgood usa o termo sentido para se referir aos julgamentos interiores que os indivíduos fazem. Seria um diferencial semântico que insere um conceito onde antes havia um contínuo de termos polares, permitindo o julgamento. Com isso, o comportamento das pessoas dependeria do significado pessoal atribuído às situações cotidianas: atitudes e valores seriam codificados em processos representacionais ou simbólicos por ele chamados de sentido. Um conceito que não é nem significação nem sentido propriamente ditos, mas as inferências entre as duas dimensões.

Há também a dimensão social dessa produção de sentido, um entendimento diverso ao do interacionismo simbólico e que aparece nas análises do discurso de Michel Pêcheux (1995). Se para Osgood o sentido estava nas pessoas, para Pêcheux não está nem nas pessoas, nem nas coisas, mas no instante em que os atos verbais tomam forma, no entrelaçar histórico entre lugar social e prática verbal. Discursos seriam como conjugações da significação, efeitos de sentido entre interlocutores diversos cuja historicidade não é auto-evidente. É uma estrutura invisível do discurso, um elemento de ordenação abstruso que conduz o tecido social. Pêcheux trabalha com uma rede de conceitos que vai ao encontro das mediações de Martín-Barbero: sujeito, contexto, ideologia e discurso.

Mas a teoria das mediações não considera essas dimensões. Isto é, ainda que o teórico colombiano se desfaça de conceitos como emissor e receptor, propondo uma análise que abandona os meios para se deitar sobre as mediações, não fica claro quais elementos compõem essas mediações.

Pois se a mediação é todo um complexo social incomensurável que resignifica os produtos culturais, criando sentido intersubjetivo, então há pouco de comunicação e muito de sociologia na abordagem, que não permite vasculhar a translação de significações em sentidos, que não explica corno a natureza anódina do significado textual se transforma em sentido social.

Martín-Barbero, é verdade, tem o mérito de ver a comunicação com processo (como mediação, afinal), mas é econômico sobre a natureza desse processo. No final, nos oferece uma sociologia atenta aos fenômenos contemporâneos, onde o conceito de mediação aponta para a insidiosa penetração de significações não previstas nos produtos culturais, um movimento concomitante e inexpugnável à própria circulação de signos na cultura. Não é, de todo modo, uma análise voltada aos fenômenos da comunicação, conquanto a trama da mediação faz da trama do sentido um processo secreto, um pequeno segredo da teoria.

A proposta é contudo audaciosa, pois busca um conceito que permita penetrar no processo comunicacional. Que permita ultrapassar a termodinâmica de emissões e recepções; meios e mensagens. Mas esse conceito de mediação precisa ser funcionalizado por um sentido, uma codificação da experiência social, elemento que a teoria comunga mas não conjuga. A mediação delineia o processo mas não acusa seus componentes, jogando pouca luz na mágica do acontecimento comunicacional.

Destarte o conceito de mediação, esse universo da recepção e apropriação dos significados, demanda noções que caracterizem a processualidade comunicacional, que não pode ser reduzida à circulação de signos no tecido social. As deformações que os receptores dedicam aos estímulos mediais transformam o endereçamento da comunicação, alterando toda a cadeia de profusão de significados.

Há na duração desse processo toda uma especificidade que não pode ser simplesmente subsumida pela esfera cultural. O risco é de nos encontrarmos novamente com o conceito antropológico de cultura, onde tudo é cultura, até mesmo o sentido: A cultura é resgatada congo espaço estratégico da contradição, como lugar de crise de motivação ou de sentido (Martín-Barbero, 1997, p.100). E se tudo é cultura, nada o é, tampouco a comunicação.

Esses apontamentos em nada conflitam com o estatuto transdisciplinar do campo da comunicação. Não se trata de normatizar a área, mas de arriscarmos teorias à altura do objeto. Martín-Barbero (2002, p.217) é rápido em concordar como diagnóstico: A transdisciplinaridade de modo algum significa a dissolução dos problemas-objeto do campo da comunicação nos de outras disciplinas sociais (4).

Infelizmente, os estudos culturais, incluindo a teoria das mediações de Martín-Barbero, constituem uma disciplina acadêmica que combina elementos diversos, da política à comunicação, mas cujo foco é em práticas culturais específicas.

Um ponto de vista comunicacional pedirá as mediações uma arquitetura conceitual mais robusta, que relacione a recepção aos processos comunicacionais com conceitos específicos, ultrapassando essa seara da cultura que envolve o fenômeno comunicacional em diversidade indiferenciada e o devolve em atividades simbólicas invisíveis. Um ponto de vista comunicacional pedirá outras noções, porque para além da operacionalidade medial da cultura, quer compreender o que há de comunicacional em cada cultura.

Por fim, é o caso de se perguntar: o que há de comunicação na mediação, esse processo social, esse perambular de significações a que os produtos culturais são objeto dentro de diferentes grupos sociais? O tripé conceitual que a mediação, afinal, medeia: política, cultura e comunicação, torna visível a complexa compleição dos produtos culturais. Mas a questão permanece: o que há de autenticamente comunicacional nessas mediações?

REFERÊNCIAS

GREIMAS, A. J. e COURTÉS, J (1979). Dicionário de Semiótica. São Paulo: Cultrix.

MARTÍN-BARBERO, J. (1993). La comunicación en las transformaciones del campo cultural. lteridades, no 5, México.

MARTÍN-BARBERO, J. (1996). Comunicación fin de siglo. ¿Para donde vá nuestra investigación? Telos, no 47, Madrid.

MARTÍN-BARBERO, J. (1997). Dos meios às mediações. Comunicação, cultura e hegemo nia. Rio de Janeiro: UFRJ.

MARTÍN-BARBERO, J. (1999). Los ejercicios del ver. Hegemonía audiovisual y ficción televisiva. Barcelona: Editorial Gedisa.

MARTÍN-BARBERO, J. (2001). Decontrución de la crítica: nuevos itinerarios de la investigación. IN: LOPES, M.I.V. & FUENTES, R. Comunicación. Campo y objeto de estudio. Guadalajara: ITESO.

MARTÍN-BARBERO, J. (2002). Oficio de Cartógrafo. Travesías latinoamericanas de la comunicación en la cultura. México: Fondo de Cultura Económina.

OSGOOD, C. E., SUCI, G. J. & TANNENBAUM, P. H (1957). The measurement of meaning. Urbana: University of Illinois Press.

PÉCHEUX, M. (1995). Semântica e discurso. Uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Unicamp.

POTTIER, B. (1992). Lingüística Geral: Teoria e Descrição. Rio de Janeiro: Presença,1978.

Marco Toledo de Assis Bastos

Doutorando /USP

herrcafe@uolcom.br

NOTAS

(1.) Martín-Barbero (1997) apresenta uma extensa crítica à teoria da informação nas páginas 291, 292 e 293.

(2.) Mas permanece certa conversibilidade entre os conceitos, como fica claro nessa passagem relacionando cultura e política: precisamos ler a cultura em chave política e a política em chave de cultura (Martín-Barbero, 1997, p.148).

(3.) No original: "Esa centralidad de los dispositivos de la comunicación está implicando el replanteamiento de su sentido y su razón".

(4.) No original: Transdisciplinariedad en el estudio de la comunicación no significa la disolución de _sus_ objetos en los de las disciplinas sociales sino la construcción de las articulaciones - mediaciones e intertextualidades - que hacen su especificidad.
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Title Annotation:IMPASSES TEÓRICOS
Author:Toledo de Assis Bastos, Marco
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:Apr 1, 2008
Words:2481
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