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Cultivares de mamoneira e adubacao nitrogenada na formacao de mudas.

Introducao

Segundo Beltrao et al. (2002), no pais, as areas cultivadas com mamona tem crescido. Nos cerrados das regioes Nordeste e Centro-Oeste, sua exploracao visa principalmente a producao do biodiesel.

Comparando a adubacao organica com a mineral em mamoneira, Severino et al. (2006) relatam que, apesar de o esterco bovino ser rico em N, foi necessario fazer complementacao com N mineral para aumento da produtividade da mamoneira. Segundo Duete et al. (2008), o aproveitamento do N do fertilizante pelo milho foi, em media, de 39% e o solo foi a principal fonte do nutriente para a cultura. Pieters et al. (2006) avaliaram crescimento, rendimento e economia do N em duas cultivares de arroz, e os autores atribuiram melhor rendimento de uma cultivar em utilizar o N a caracteristicas geneticas, porem se o rendimento de aproveitamento de uma cultivar e bom, a producao de biomassa e prejudicada.

O nitrogenio e o nutriente mais limitante para muitas culturas no mundo, e o seu uso eficiente e de extrema importancia economica para os sistemas de producao. Alem do mais, a dinamica natural do nitrogenio e a perda deste no sistema solo-planta criam um desafio unico para seu correto manejo (FAGERIA; BALIGAR, 2006).

Segundo Lavres Junior et al. (2005), entre outros, os nutrientes de massa de materia seca que mais restringiram o crescimento de mudas de mamoneira foram, em ordem decrescente: nitrogenio, calcio, enxofre, magnesio, potassio e fosforo. Silva et al. (2007) citam que a utilizacao de ate 80 kg [ha.sup.-1] de N em cobertura em cultivo com mamoneira nao influencia o teor de oleo.

Esposti e Siqueira (2004) avaliaram doses de ureia no crescimento de porta-enxertos de citros produzidos em recipientes, e observaram diferentes respostas entre os porta-enxertos estudados em funcao da aplicacao de N. Resultados semelhantes tambem foram encontrados por Decarlos Neto et al. (2002).

Dentre as varias cultivares de mamona, a escolha de um material que tenha boa resposta a adubacao e de suma importancia.

Trabalhou-se com tres cultivares: Mirante-10, de porte medio, desenvolvida para as condicoes de Cerrado, mais secas, mas nao semiaridas; a AL-Guarani tambem pode ser considerada de porte baixo, so que para condicoes mais umidas (Sao Paulo), desenvolvida pela CATI; por ultimo, a Nordestina 149, desenvolvida para a regiao Nordeste, pela Embrapa Algodao, adaptando-se muito bem no semiarido, desde que nao falte chuva nas fases criticas. As caracteristicas de cada uma farao com que se comportem diferentemente em relacao a exigencia nutricional, especialmente na fase inicial de desenvolvimento. Rodrigues et al. (2007) avaliaram acessos de cultivares de mamoneira e citam que ha necessidade de mais pesquisas com esta cultura, de modo que se possa fazer melhor caracterizacao morfologica e agronomica.

A utilizacao de mudas traz beneficios em relacao a semeadura direta, dentre as vantagens se justifica a maior chance de pegamento, a manutencao do stand, alem de propiciar desenvolvimento muito mais rapido nos estagios iniciais, em relacao ao plantio com sementes. Para producao de mudas de mamona ainda nao se dispoe de informacoes tecnicas basicas, principalmente quanto a adubacao a ser empregada.

Em funcao do exposto, este trabalho foi desenvolvido com o objetivo de avaliar a influencia de nitrogenio no desenvolvimento de mudas de cultivares de mamona.

Material e metodos

O experimento foi conduzido em casa-devegetacao no Setor de Cafeicultura do Departamento de Agricultura da UFLA, Lavras, Estado de Minas Gerais.

As sementes foram semeadas em bandejas com areia ate a protusao da radicula (aproximadamente cinco dias) e depois transplantadas para o recipiente com o substrato.

Utilizaram-se sacolas plasticas com capacidade de 3 [dm.sup.3]. Como substrato foi usado o Plantmax-cafe[R], que possui as seguintes caracteristicas: pH [agua] - 4,7;

M.O. - 578 g [kg.sup.-1]; C.O. - 321 g [kg.sup.-1]; N - 8,12 g [kg.sup.-1]; P - 2,81 g [kg.sup.-1]; K - 4,80 g [kg.sup.-1]; RMT - 422 g [kg.sup.-1]; Umidade a 65[grados]C [%] - 67,22; Condutividade eletrica [[micro]S] - 3,33.

O delineamento experimental foi em blocos casualizados, constituindo-se em um esquema fatorial 4 x 3, com tres repeticoes e duas plantas por parcela, perfazendo um total de 72 plantas.

Os tratamentos consistiram de quatro doses de N (0-150-300-450 mg de N [kg.sup.-1] de substrato) associadas a tres cultivares de mamona (AL-Guarani, Nordestina 149 e Mirante-10). A dose de 300 mg [kg.sup.-1] foi a padrao (MALAVOLTA, 1981).

As doses de nitrogenio foram adaptadas segundo recomendacao de Malavolta (1981) para adubacao em vasos (independentemente da cultura). A fonte de nitrogenio utilizada foi a ureia (45% N).

Os tratamentos consistiram de quatro doses de nitrogenio e tres cultivares, sendo um fatorial 4 x 3, com tres repeticoes e duas plantas por parcela, perfazendo um total de 72 plantas.

As aplicacoes iniciaram-se quando as plantas apresentaram o primeiro par de folhas verdadeiras e foram realizadas via fertirrigacao, durante 40 dias, em tres aplicacoes semanais. Durante a conducao foi realizada tambem a aplicacao, a cada dez dias, de uma solucao contendo 198 mg de superfosfato simples, 23 mg de KCl, 0,21 mg de sulfato de zinco e 0,5 mg de acido borico em todos os tratamentos. Tais dosagens foram baseadas na recomendacao de Malavolta (1981) para experimentos com vasos.

Foi realizada avaliacao apos os 40 dias de duracao do experimento (altura em que as mudas estariam prontas a ir a campo). As variaveis estudadas foram: altura de plantas, comprimento de raizes, numero de folhas, diametro de caule, materia seca das folhas (peciolo + limbo), materia seca do caule, materia seca de raiz e materia seca total, ou seja, apenas avaliacoes biometricas.

Para determinacao da altura de plantas e comprimento de raizes foi utilizada regua graduada em centimetros; para diametro de caule foi utilizado paquimetro; para obtencao da materia seca das plantas, o tecido vegetal foi colocado em estufa de ventilacao forcada de ar, a temperatura entre 65 a 70[grados]C, ate atingir massa constante.

Os dados foram submetidos a analise de variancia e as medias comparadas pelo teste de Scott-Knott.

Resultados e discussao

A analise de variancia (Tabela 1) indicou interacao significativa apenas sobre a materia seca de raiz e total.

Para os demais parametros houve efeito apenas dos fatores isolados. Analisando as variaveis, todos os parametros foram afetados pela adubacao nitrogenada, porem as cultivares tiveram efeitos apenas sobre o comprimento da parte aerea.

Dentre as variaveis analisadas na Tabela 2, observa-se a diferenca de respostas das cultivares no comprimento da parte aerea e materia seca de raiz. A cultivar Mirante-10 obteve maior altura, seguida da Nordestina e da AL-Guarani. A maior producao de materia seca de raiz foi observada na cultivar ALGuarani.

Para comprimento de parte aerea tambem foi encontrada significancia para doses (Figura 1). De acordo com a Figura 1, a altura das mudas sofreu decrescimo com a aplicacao das doses de N, revelando que a adubacao nitrogenada comprometeu o desenvolvimento das mudas. O melhor ajuste foi obtido pelo modelo linear. A presenca do nitrogenio tambem comprometeu o desenvolvimento radicular, e a equacao quadratica foi a que melhor se ajustou aos dados (Figura 2). O sistema radicular foi menos sensivel as altas concentracoes de nitrogenio do que a parte aerea, pois apenas doses superiores a 180,18 mg [kg.sup.-1] de N promoveram efeitos negativos no crescimento de raiz, enquanto a parte aerea foi afetada independentemente da dose aplicada.

Para numero de folhas (Figura 3), diametro (Figura 4), materia seca de caule (Figura 5) e materia seca de folha (Figura 6), o melhor modelo estatistico foi o linear decrescente, como ja observado para comprimento da parte aerea, e o aumento das doses de N implicou decrescimo (da altura das mudas) nos seus valores.

[FIGURA 1 OMITIR]

[FIGURA 2 OMITIR]

Analisando a interacao dos fatores doses de nitrogenio x cultivares (Figura 7), observa-se comportamento diferenciado para as cultivares em relacao as doses de nitrogenio. Embora a materia seca de raiz tenha decrescido em todas as cultivares, apresentou maior sensibilidade ao aumento do nitrogenio, com reducao de 0,65 para 0,05 g quando a dose passou de 0 para 450 mg [kg.sup.-1] de N.

[FIGURA 3 OMITIR]

[FIGURA 4 OMITIR]

[FIGURA 5 OMITIR]

[FIGURA 6 OMITIR]

As cultivares Nordestina e Mirante-10 foram menos afetadas pelo aumento da concentracao de nitrogenio, embora tenham apresentado valores de materia seca menores que AL-Guarani. Comportamento semelhante foi observado para a materia seca total de mudas (Figura 8), porem, houve pouca diferenca na resposta do nitrogenio em relacao as cultivares.

Raij (1991) mencionou que em alguns casos o N nao e tao importante nos estagios iniciais de formacao de mudas, sendo mais importantes o P e o K. Em estudo com aveia preta a adubacao nitrogenada, Luz et al. (2008) concluiram que os efeitos da irrigacao sao mais determinantes que a nutricao com N para a producao.

Ao estudarem o crescimento de mudas de tamarindo com N, Souza et al. (2007a) observaram que 0,8 kg [m.sup.-3] de N juntamente com 10,0 kg [m.sup.-3] de P sao uma otima opcao para producao de mudas considerando o crescimento.

[FIGURA 7 OMITIR]

[FIGURA 8 OMITIR]

Em trabalho com producao de mudas e doses de N, Souza et al. (2007b) verificaram que doses elevadas de N promoveram efeitos depressivos no crescimento de mudas de maracujazeiro. De acordo com os autores, doses de ate 2.000 mg d[m.sup.-3] promovem efeitos satisfatorios na producao de mudas.

Lavres Junior et al. (2005), estudando a omissao de macronutrientes em mudas de mamoneira, concluiram que a producao total de materia seca das plantas e afetada pelas deficiencias dos macronutrientes, sendo o N o mais limitante.

Na producao e disponibilidade de nutrientes para mamoneira (cv. IAC 226) em funcao da adubacao com NPK, Pacheco et al. (2008) relataram que a adubacao nitrogenada nao influenciou a producao. Este aspecto possivelmente e explicado, segundo eles, pela alta concentracao de materia organica do solo, que, pelo processo de mineralizacao, disponibilizou as quantidades exigidas de N.

Na avaliacao de substratos e suas influencias na producao de mudas de mamona, Severino et al. (2008) tentaram correlacionar os nutrientes encontrados no substrato com o teor presente na muda, no entanto nao obtiveram sucesso. O substrato mais rico em N utilizado no estudo, composto por cama de frango, nao foi o substrato que proporcionou o maior incremento na materia seca. Lima et al. (2006), estudando recipientes e substratos na producao de mudas de mamona, concluiram que recipientes de ate 2 L de capacidade sao adequados, e a utilizacao de substratos com areia compostos com esterco bovino ou casca de amendoim tambem propiciam mudas de qualidade; na analise de tais compostos, porem, ambos nao sao os substratos mais ricos em N.

Como ja citado, Esposti e Siqueira (2004) encontraram diferentes repostas de porta-enxertos de citros a adubacao nitrogenada, de modo que as variedades ou cultivares respondem de maneiras distintas a adubacao empregada. Resultados semelhantes tambem foram encontrados por Mariot et al. (2003), trabalhando com diferentes cultivares de arroz e adubacao nitrogenada, e por Kolchinski e Schuch (2003) que avaliaram cultivares de aveia branca em funcao da adubacao com N, de modo que esta afetou as cultivares de maneira distinta.

Outros experimentos com adubacao nitrogenada e a nao-influencia nos caracteres morfologicos sao encontrados na literatura, como constatado para jilos, segundo Torres et al. (2003). E possivel tambem que a composicao do substrato tenha interferido na resposta das cultivares a adubacao.

Nas condicoes em que o experimento foi conduzido, a adicao de nitrogenio inibiu o desenvolvimento das mudas de mamoneira. O nitrogenio fornecido pelo substrato, juntamente com a adubacao de manutencao, foi suficiente para suprir a demanda pela cultura nos estagios iniciais. Desta forma, e possivel que o fornecimento de nutrientes ao substrato tenha elevado a concentracao do nitrogenio a niveis toxicos, comprometendo, assim, o crescimento das mudas de mamoneira.

Ainda nao se dispoe de informacoes tecnicas suficientes para a producao de mudas de mamona, havendo necessidade da realizacao de trabalhos para elucidar algumas questoes referentes, principalmente, a adubacao. Assim, novos trabalhos podem mostrar melhor a exigencia desta especie com relacao a adubacao, especialmente nitrogenada na fase de mudas.

Conclusao

A aplicacao de N em doses elevadas prejudica o desenvolvimento de mudas de mamoneira. A cultivar Mirante-10 destacou-se das demais.

DOI: 10.4025/actasciagron.v32i3.4063

Received on June 25, 2008.

Accepted on October 13, 2008.

Referencias

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Helen Cristina de Arruda Rodrigues (1), Samuel Pereira Carvalho (2), Henrique Antunes Souza (3) * e Alexandre Alves Carvalho (2)

(1) Departamento de Tecnologia, Faculdade de Ciencias Agrarias e Veterinarias de Jaboticabal, Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho", Jaboticabal, Sao Paulo, Brasil. (2) Departamento de Agricultura, Universidade Federal de Lavras, Lavras, Minas Gerais, Brasil. (3) Departamento de Solos e Adubos, Faculdade de Ciencias Agrarias e Veterinarias de Jaboticabal, Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho", Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane, 14884-900, Jaboticabal, Sao Paulo, Brasil. * Autor para correspondencia. E-mail: henrique.antuness@yahoo.com.br
Tabela 1. Resumo da analise de variancia para comprimento de parte
aerea (PA) e radicular, numero de folhas e diametro de caule,
materia seca parcial e total de cultivares (C) de mamona submetidas
a doses de nitrogenio (N).

         GL   Comprimento (cm)
Trat.             PA      Raiz         No folhas    Dia. caule
                                                       (mm)
N         3   23,37 *     32,63 *      10,11 **      0,03 **
C         2   76,85 *     20,31(NS)     0,34 (NS)    0,01 (NS)
NxC       6   2,47 (NS)    9,21 (NS)    0,28 (NS)    0,01 (NS)
Bloco     2    0,51       10,15         0,52         0,00
Erro     22    3,63        8,45         0,35         0,00
CV (%)         9,3        24,2         12,0         13,5

         Materia seca (g)
Trat.    Raiz       Caule        Folha        Total

N         0,24 **    0,07 **      0,60 **      2,33 **
C         0,01 *     0,01 (NS)    0,04 (NS)    0,05 (NS)
NxC       0,02 **    0,01 (NS)    0,02 (NS)    0,14 **
Bloco     0,01       0,00         0,02         0,08
Erro      0,00       0,00         0,01         0,04
CV (%)    23,2       21,4         21,6         16,7

NS, * e **--Nao-significativo pelo teste de F, significativo
a 5 e 1% de probabilidade.

Tabela 2. Comprimento da parte aerea (cm), comprimento de raiz (cm),
numero de folhas (NF), diametro (mm), materia seca de raiz (g),
materia seca de caule (g), materia seca de folha (g) e materia seca
total (g) (para as cultivares utilizadas) de cultivares de mamona.

Cultivar         Parte aerea Raiz        NF     Diametro
                           cm                     mm
Nordestina 149   20,90 b *   12,82 a   4,87 a   0,38 a
Mirante 10       22,91 a     10,52 a   4,75 a   0,40 a
AL-Guarani       17,89 c     10,52 a   5,08 a   0,42 a

Cultivar         MS Raiz   MS Caule   MS Folha   MSTotal
                           G
Nordestina 149   0,19 b    0,29 a     0,57 a     1,06 a
Mirante 10       0,20 b    0,28 a     0,48 a     0,97 a
AL-Guarani       0,26 a    0,27 a     0,58 a     1,10 a

* Medias seguidas pela mesma letra na coluna nao diferem
estatisticamente entre si, a 5% de probabilidade, pelo
teste de Scott-Knott.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:de Arruda Rodrigues, Helen Cristina; Pereira Carvalho, Samuel; Antunes Souza, Henrique; Alves Carval
Publication:Acta Scientiarum Agronomy (UEM)
Date:Jul 1, 2010
Words:3609
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