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Casos de leishmaniose visceral registrados no municipio de Montes Claros, Estado de Minas Gerais.

Introdução

A leishmaniose visceral (LV) ou calazar, como é mais conhecida, é uma zoonose típica de regiões tropicais, causada por um protozoário pertencente à ordem Kinetoplastidea, família Trypanossomatidae e gênero Leishmania. Leishmania são protozoários pleomórficos, apresentam a forma promastigota que se desenvolve no trato alimentar de um hospedeiro; uma de suas formas é a amastigota que se localiza e se multiplica no interior de células do sistema mononuclear fagocitário de um hospedeiro vertebrado (Feitosa et al., 2000).

No Brasil, a transmissão de Leishmania chagasi, principal agente etiológico da LV, dá-se pela picada de fêmeas de insetos dípteros, pertencentes à família Psychodidae, ao gênero Lutzomia (nas Américas) ou Phlebotomus (no Velho Mundo), cujo principal vetor, no Brasil, é a espécie Lutzomia longipalpis (Rey, 2002).

A LV apresenta amplo aspecto de manifestações clínicas, desde formas assintomáticas ou oligossintomáticas até o quadro clássico, que se caracteriza por febre irregular de longa duração, emagrecimento, hepatoesplenomegalia, anemia, leucopenia e trombocitopenia (Mantovani et al., 2005). Essa zoonose tem causado sérios problemas à saúde pública, em diversas cidades do país (Courtenay et al., 2002).

Dentre os reservatórios, são encontradas espécies animais silvestres e domésticas, e o cão é considerado o principal reservatório natural relacionado com casos humanos (Courtenay et al., 2002). Esse hospedeiro apresenta variações no quadro clínico da doença, passando de animais aparentemente sadios a oligossintomáticos, podendo chegar a estágios graves da doença (Monteiro et al., 2005).

Por mais de 60 anos, o tratamento das leishmanioses vem sendo realizado com antimoniais pentavalentes: antimoniato de N-metil glucamina-Glucantime[R] e estibogluconato de sódio-Pentostan[R], que são os medicamentos de primeira escolha (Lima et al., 2007). Estas drogas são tóxicas, nem sempre efetivas, usadas em esquemas prolongados na LV e podem causar morte em paciente com quadro de diabetes melito e hipertensão (Lima et al., 2007). Como tratamentos alternativos, no Brasil, são utilizadas a anfotericina B e suas formulações lipossomais (anfotericina B - lipossomal e anfotericina B - dispersão coloidal) (Lambertucci e Silva, 2008), as pentamidinas (sulfato e mesilato) (Moreira et al., 2007) e os imunomoduladores (interferon gama e GM-CSF) (Olivier et al., 2008); recentemente, tem sido testado o extrato de Stachytarpheta cayennensis, conhecida como gervão, rinchão ou vassorinha-de-botão (Moreira et al., 2007).

A doença, antes restrita às áreas rurais do Nordeste brasileiro, avançou para outras regiões alcançando a periferia de centros urbanos em todas as regiões brasileiras (Sangioni et al., 2007; Monteiro et al., 2005; Zanzarini et al., 2005).

A LV é relatada, em Minas Gerais, desde 1940, quando foram detectados os primeiros casos humanos no Norte do Estado. Em 1989, a doença passou a ser notificada na região metropolitana de Belo Horizonte; em Sabará, ocorreu o primeiro caso humano relatado no Estado e, posteriormente, em Belo Horizonte, em 1991. Atualmente, em Minas Gerais, os municípios de Belo Horizonte, Montes Claros, Ribeirão das Neves, Janaúba, Santa Luzia e Paracatu correspondem a 56% das notificações do Estado (Freitas et al., 2006). O convívio muito próximo homem/reservatório (cão), o aumento da densidade do vetor, o desmatamento acentuado, a expansão das áreas urbanas, o constante processo migratório e a falta de saneamento básico têm sido causas determinantes nos níveis epidêmicos da LV nos grandes centros (Vieira et al., 2007; Marzochi e Marzochi, 1994).

O programa brasileiro de combate à LV visa reduzir as taxas de letalidade e o grau de morbidade por meio de estudos epidemiológicos, diagnóstico e tratamento precoce dos casos humanos, e controle das populações de reservatórios e vetores (Gontijo e Melo, 2004).

Com o objetivo de avaliar os aspectos epidemiológicos da LV no Norte de Minas Gerais, foi procedido um levantamento dos casos, entre 2001 a 2007, no município de Montes Claros. Tais dados são indicativos para auxiliar os sistemas de saúde e os profissionais da área no controle da doença, pois Montes Claros recebe pacientes de toda a região do Norte de Minas, e os dados buscados neste município são indicativos da região.

Material e métodos

O município de Montes Claros situa-se na bacia do alto-médio São Francisco do Norte do Estado de Minas Gerais, Brasil, e está integrado na área do Polígono da Seca. Latitude sul: 16[degré]43'41"; longitude oeste: 43[degré]52'54", altitude: 638 m, com área de 4.135 [km.sup.2]. A temperatura média anual é de 24,2[degré]C, com média máxima [ano.sup.-1] de 29,4[degré]C e média mínima [ano.sup.-1] de 16,3[degré]C.

O clima é quente e seco. A estação seca é prolongada (aproximadamente cinco meses por ano). Dados climatológicos indicam precipitação anual em torno de 1.060 mm, com as chuvas ocorrendo entre os meses de outubro a março, e umidade relativa de 52 a 80%. Tais dados climatológicos indicam que é um local propício para o desenvolvimento dos vetores de doenças endêmicas como a doença de Chagas e a leismaniose.

Para realização do estudo, foram coletadas informações referentes aos casos de LV, notificados no Sinan/SMS (Sistema de Informações e Agravo de Notificação da Secretaria Municipal de Saúde), utilizando fichas epidemiológicas de pacientes nos últimos sete anos (2001 a 2007), diagnosticados por meio de mielograma e imunofluorescência indireta.

Foram analisados dados como: idade, sexo e mês da notificação da doença, e comparados por análise de variância (Anova), com um valor de p < 0,01, utilizando o programa Origin 6.0 (Microcal Software Inc.).

Resultados

No período de janeiro de 2001 a outubro de 2007, foram notificados 288 casos de LV pelo Sinan/SMS do município de Montes Claros (Figura 1).

[FIGURE 1 OMITTED]

Na Tabela 1, encontra-se a distribuição dos 288 pacientes com a LV. Destes, 174 (60,41%) eram do gênero masculino e o restante, obviamente, do gênero feminino. Os dados analisados indicaram diferença mínima significativa para o teste t de Student (p < 0,01) entre os números de casos da doença entre os gêneros (Figura 2), diferença esta causada pelos dados de divergências entre os gêneros em indivíduos com faixa etária superior a 30 anos (Figura 1).

[FIGURE 2 OMITTED]

Não foi observada diferença mínima significativa (p < 0,01) entre os dados associados aos meses em que se obtiveram as notificações (Tabela 1).

Em ambos os gêneros, as faixas etárias mais atingidas foram entre um a quatro anos, com 87 casos (30,2%), e acima de 30 anos, com 88 casos (30,5%). A análise estatística demonstrou que, para p < 0,01, houve diferença mínima significativa entre essas duas faixas e as demais, mas não houve diferença mínima significativa entre as outras faixas etárias entre si (Figura 3).

[FIGURE 3 OMITTED]

Discussão

No presente trabalho, foi verificado que a LV acometeu 60,41% de indivíduos do gênero masculino dos pacientes analisados, visto que estes, putativamente, encontram-se em áreas que oferecem maior risco ou desenvolvem atividades de lazer ou trabalho que envolvem riscos de infecção; tais dados corroboram os trabalhos de Silveira et al. (1996) e Freitas et al. (2006).

Percebeu-se que, a partir de 2004, houve queda no número de casos de LV na região. Como não foram verificadas alterações climáticas importantes nessa região, tal fato pode ter como causa o aumento do controle dessa protozoose no município de Montes Claros e região, mas não foi observada diferença mínima significativa entre o número de casos de LV, quando levado em conta o mês da notificação, mesmo nos meses de maior seca (de maio a setembro) de cada ano estudado.

Quanto aos dados sobre a faixa etária dos pacientes analisados, houve predomínio de indivíduos acima de 30 anos (30,5%) acometidos pela leishmaniose, hipoteticamente porque o perfil de pessoas nessa faixa etária é de indivíduos mais ativos, como trabalhadores, resultado concordante com Castro et al. (2002) e Freitas et al. (2006).

A hipótese associada aos indivíduos ativos (Castro et al., 2002) apresenta consistência em relação ao gênero, pois, na Figura 1, em indivíduos com faixa etária superior a 30 anos, observa-se a prevalência da doença em adultos masculinos, putativamente, trabalhadores no peridomicílio, em relação aos indivíduos femininos, quase sempre guardadores das casas em regiões pobres.

A infecção por LV foi evidente também em mulheres (39,59%) e crianças, principalmente de 1 a 4 anos (30,2%), o que indica que a infecção pode estar ocorrendo no domicílio e peridomicílio (Aguiar et al., 1996; Domingos et al., 1998).

A participação de outras espécies de animais (galinha, bovino, equídeo, caprino, ovino, suíno e gato), além do cão, na epidemiologia da LV, parece estar associada à capacidade de atração dos vetores ao peridomicílio ou atuação como reservatórios do parasito (Moraes-Silva et al., 2006). A presença de suínos, no peridomicílio, é um fator de risco importante na contaminação peridomiciliar de LV (Barboza et al., 2006). A associação entre a presença de galinhas e infecção peridomiciliar está constatada; provavelmente, deve-se ao fato das galinhas servirem de alimento, tanto para os vetores quanto para predadores silvestres (potenciais reservatórios de Leishmania chagasi), atraindo-os ao o peridomicílio e intensificando o ciclo de transmissão do parasito para as populações humana e canina (Alexander et al., 2002). É bem conhecido que crianças e idosos estão a maior parte do tempo na região domiciliar e peridomiciliar, o que justifica os dados apresentados na Figura 3.

Como este estudo de saúde pública é incipiente na região, novos dados devem ser coletados e analisados para se determinar a prevalência da LV e de outras doenças com caráter de problemas de saúde pública na região; no entanto, estudo sobre flebotomídoes e infecção canina já foram levados a termo (Monteiro et al., 2005).

Mesmo com diminuição da prevalência relativa da doença a partir de 2005 (Figura 1), os dados sugerem que medidas preventivas devem ser mantidas (proteção individual com repelentes sempre que estiver em áreas de risco, equipamentos adequados para o trabalho rural, utilização de telas em janelas e portas e evitar locais de focos do flebótomo, principalmente ao anoitecer).

O uso de inseticidas nas matas e na própria cidade representa risco biológico para a fauna e flora locais, mas alguns estudos já avaliaram a eficácia da desinsetização de domicílios e abrigos de animais domésticos, demonstrando bons resultados no controle do número de flebotomíneos em ambiente peridomiciliar e domiciliar de áreas endêmicas (Teodoro et al., 1991). Além dos inseticidas, é possível empregar medidas de controle, tais como retirada de matéria orgânica, podas nas gramas, retirada de folhas do solo, o que facilita o desenvolvimento do vetor (Teodoro et al., 2004).

Conclusão

Os dados obtidos e analisados sugerem que o município de Montes Claros é uma área endêmica para a LV, mesmo que a partir de 2005 a incidência da LV tenha diminuído. Ressalta-se a importância de mais estudos que possam avaliar os dados, que demonstram que estão ocorrendo infecções domiciliares em crianças abaixo de quatro anos e em adultos acima de 30, e também é preciso adotar medidas profiláticas, como o uso de mosqueteiros, telas nas janelas e portas e aplicação de inseticidas para melhor controle dessa parasitose, principalmente em ambiente peridomiciliar e domiciliar.

Agradecimentos

Aos funcionários do Sistema de Informações e Agravo de Notificação da Secretaria Municipal de Saúde de Montes Claros, pela colaboração com os dados de notificação de LV do município de Montes Claros.

Received on December 23, 2007. Accepted on July 31, 2008.

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Raissa Graciellen Sousa (1), Jéssica Fernandes Santos (1), Humberto Gabriel Rodrigues (1) e Tales Alexandre Aversi-Ferreira (2) *

(1) Departamento de Parasitologia, Faculdades Santo Agostinho de Montes Claros, Montes Claros, Minas Gerais, Brasil. (2) Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Goiás, Cx. Postal 131, 74001-970, Campus Samambaia, Goiânia, Goiás, Brasil. * Autor para correspondência. E-mail: aversiferreira@gmail.com
Tabela 1. Frequência por ano da notificaçáo de 288 pacientes com LV,
de acordo com o mês da notificaçáo.

Mês da notificaçáo    2001    2002     2003     2004    2005

Janeiro                  0       2        7        3       6
Fevereiro                0       5        5        5       8
Março                    0       4        4        6       4
Abril                    2       5        3        2       4
Maio                     3       9        2        7       5
Junho                    2       3        3        7       5
Julho                    2       1        3        4       5
Agosto                   4       4        2        7       7
Setembro                 3       1        2        7       3
Outubro                  2       3        5        4       4
Novembro                 2       6        6        8       0
Dezembro                 4       2        2        8       2
Total                   24      45       44       68      50

Mês da notificaçáo    2006    2007    Total

Janeiro                  4       2       24
Fevereiro                2       0       25
Março                    5       2       24
Abril                    1       3       23
Maio                     2       3       31
Junho                    2       3       31
Julho                    6       6       28
Agosto                   1       0       26
Setembro                 3       3       22
Outubro                  1       4       23
Novembro                 4       -       27
Dezembro                 3       -       26
Total                   34      23      288

Fonte: Sinan/SMS Montes Claros-MG.
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Title Annotation:texto en portugués
Author:Graciellen Sousa, Raissa; Fernandes Santos, Jéssica; Rodrigues, Humberto Gabriel; Aversi-Ferreira, T
Publication:Acta Scientiarum Health Sciences (UEM)
Date:Apr 1, 2008
Words:3151
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