Aspectos da reproducao e alimentacao de Neoplecostomus microps (Loricariidae, Neoplecostominae) na microbacia do Ribeirao Grande, serra da Mantiqueira oriental (Estado de Sao Paulo).Introdução O gênero Neoplecostomus está composto por sete espécies distribuídas em rios e riachos do sudeste do Brasil (Reis et al., 2003; Buckup et al., 2007). A espécie Neoplecostomus microps (Steindachner, 1876) encontra-se no rio Paraíba do Sul e afluentes, entre os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro (Langeani, 1990), é um gênero ainda pouco conhecido, exceto pelos estudos sobre taxonomia (Reis et al., 2003). A microbacia do Ribeirão Grande é um sistema de riachos que desce as encostas da serra da Mantiqueira oriental indo tributar na margem esquerda do rio Paraíba do Sul, no Vale do Paraíba paulista (Braga e Andrade, 2005). Neste sistema, N. microps foi a quinta espécie mais abundante, em coletas experimentais, distribuindo-se em riachos da encosta e pediplano. Nos últimos anos, têm-se publicado vários artigos sobre a ictiofauna da bacia do rio Paraíba do Sul destacando aspectos da biodiversidade (Araújo, 1996; Bizerril, 1999; Araújo et al., 2001; Teixeira et al., 2005), tornando-a sob certo aspecto bem conhecida. Porém, o mesmo não é verdadeiro para a biologia populacional das espécies de peixes de riachos de pequeno porte, que formam microbacias e vão tributar no rio Paraíba do Sul, tanto nas vertentes da serra da Mantiqueira como nas da serra do Mar voltadas para o Vale do Paraíba paulista. Nos corpos de águas continentais brasileiros, os ambientes lênticos, como lagoas marginais ou resultantes do represamento de rios do sudeste-sul, têm sido bem estudados na última década, com enfoque especial à biologia de populações (Agostinho e Gomes, 1997; Vazzoler et al., 1997; Agostinho et al., 2007). Em riachos, os enfoques dados aos peixes referem-se principalmente à sistemática, biogeografia, alimentação e comportamento (Caramaschi e Mazzoni, 1999) e têm forte componente ecológico. No entanto, o conhecimento da dinâmica populacional com o fornecimento de informações para o estudo da ecologia de peixes de riachos é praticamente inexistente. Isso torna equivocada a colocação de uma espécie de peixe, por exemplo, na categoria de espécie ameaçada, sem de fato conhecer aspectos associados com a reprodução, além dos associados com a dinâmica populacional, como taxa de crescimento, taxa de mortalidade, sobrevivência, longevidade e comprimento médio da primeira maturação gonadal. Assim, este trabalho tem por objetivo estimar alguns parâmetros populacionais como fecundidade, comprimento médio da primeira maturação gonadal e utilização de recursos por N. microps na microbacia do Ribeirão Grande. Material e métodos Coleta de dados A área de estudo situa-se na microbacia do Ribeirão Grande, serra da Mantiqueira oriental, Estado de São Paulo (22[degré]47'08"S, 45[degré]28'17"W). Foram amostrados quatro riachos onde a espécie ocorre: córrego do Cedro, córrego da Canjarana, córrego do Ferraz e Ribeirão Grande ou Tetequera. Nesses riachos, foram definidos cinco pontos de coleta, amostrados nos meses de julho e outubro de 2001 e fevereiro e abril de 2002. Em cada ponto, foi utilizada uma unidade de pesca elétrica acoplada a uma fonte geradora de eletricidade, produtora de corrente elétrica de 300 a 500 V e 8,7 A, que percorria um trecho de 50 m com uma repetição. A descrição detalhada desses pontos de coleta e o número de exemplares coletados por ponto encontram-se em Braga e Andrade (2005). Os exemplares coletados foram fixados em formol a 10% e transportados para o laboratório; após alguns dias de estocagem, foram transferidos para álcool a 70% para a tomada de dados biológicos. De cada exemplar, foi obtido o comprimento total (cm) e o peso total (g), sendo em seguida dissecados para constatação do sexo, estádio de maturidade gonadal, grau de gordura acumulada na cavidade visceral e grau de repleção do estômago. Os estádios de maturidade gonadal (EM) foram avaliados visualmente em estereomicroscópio e caracterizados como: A (imaturo), B (em maturação ou em repouso), C (maduro) e D (esgotado) (Vazzoler, 1996). Os ovários em estádios B e C de maturação gonadal foram pesados em balança analítica com aproximação de décimos de grama, e aqueles em estádio C, além de pesados, foram colocados em solução dissociadora de Gilson para estimativa da fecundidade (Vazzoler, 1996). O grau de gordura acumulada na cavidade visceral (GA) foi obtido também em estereomicroscópio, adotando-se os graus: 1 (ausência de gordura na cavidade visceral), 2 (com acúmulo de gordura) e 3 (cavidade visceral repleta de gordura) (Braga, 2005). O grau de repleção do estômago (GR) foi inspecionado igualmente em estereomicroscópio, adotando-se os graus: 1 (estômago vazio), 2 (estômago com alimento) e 3 (estômago repleto de alimento) (Braga, 2005). Os estômagos com grau 3 foram separados e acondicionados para análise posterior de seus conteúdos. Análise de dados Os comprimentos obtidos dos exemplares foram grupados em classes de comprimento com intervalo de 0,5 cm, considerando-se machos, fêmeas e total. Para os estádios de desenvolvimento gonadal, graus de gordura acumulada na cavidade visceral e de repleção do estômago, foram construídas distribuições de frequências porcentuais por período, grupando-se os sexos. Com os valores de peso do peixe ([P.sub.t]) e peso dos ovários ([P.sub.o]) foi estimada a relação gonadossomática média por período, utilizando-se da expressão RGS = ([P.sub.o] / [P.sub.t]) x 100 (Vazzoler, 1996). Os ovários maduros (estádio de maturidade C) que foram dissociados tiveram seus ovócitos contados em sua totalidade e obteve-se o diâmetro de 100 ovócitos medidos, aleatoriamente, em estereomicroscópio com aumento de 16 vezes e utilizando-se de ocular micrométrica com aumento de dez vezes, sendo uma divisão da ocular micrométrica (d.o.m.) igual a 61,2 [micro]m. Aos dados de peso e comprimento de machos e fêmeas, foi ajustada a equação alométrica y = [ax.sup.b], sendo y o peso, x o comprimento e a e b constantes estimadas pelo método dos mínimos quadrados após transformação logarítmica dos dados (Santos, 1978). O fator de condição alométrico médio foi estimado para machos e fêmeas, por período, utilizando-se da expressão [K.sub.A] = P / [C.sup.b], sendo P o peso do peixe, C o comprimento do peixe e b a constante da equação alométrica da relação peso e comprimento estimada para machos e fêmeas (Braga, 1986). O fator de condição relativo médio foi estimado só para as fêmeas, por período, utilizando-se da expressão [K.sub.R] = P / a[C.sup.b], sendo a e b constantes da equação alométrica da relação peso e comprimento para fêmeas (Weatherley, 1972). Os estômagos com grau de repleção 3 foram dissecados em estereomicroscópio e os itens componentes do conteúdo estomacal identificados, utilizando-se de Borror e DeLong (1969) e de Needham e Needham (1982). Utilizou-se do grau de preferência alimentar para análise desses itens (Braga, 1999). O comprimento médio da primeira maturação gonadal, para machos e fêmeas, foi estimado seguindose os procedimentos descritos em Vazzoler (1996), fazendo-se o ajuste de uma curva aos dados (Santos, 1978) e, em seguida, estimando-se o comprimento em que 50% dos indivíduos da população entram em maturação gonadal (Braga, 2006). [FIGURA 1 OMITIR] Resultados e discussão Foram analisados 250 exemplares de N. microps, sendo 49 machos, 126 fêmeas e 75 com sexo indeterminado. As distribuições de freqüência por classe de comprimento para o total de exemplares, para machos e para fêmeas, encontram-se representadas na Figura 1. Os comprimentos variaram da classe de 3,25 à classe de 12,75 cm. Observam-se, nesta amplitude de variação, quatro grupos modais, respectivos às classes de 4,75; 6,75; 9,25 e 10,75 cm para o total de exemplares analisados. Quando esta distribuição é desmembrada para machos e fêmeas, observa-se que se destacam três grupos modais para os machos: 6,25; 9,25 e 10,75 cm, e dois grupos modais para as fêmeas: 6,75 e 9,25 cm. O ajuste da equação alométrica aos dados de peso e comprimento resultou nas expressões P = 0,0068 [C.sup.3,19] (r = 0,99) para machos e P = 0,0061 [C.sup.3,25] (r = 0,99) para fêmeas. Em ambos os casos, a constante b foi maior do que 3 (p < 0,05), sendo, portanto, a relação considerada alométrica para ambos os sexos. As fêmeas com ovários maduros (EM = C) ocorreram em outubro e fevereiro, estando ausentes nos demais períodos; não foram encontrados exemplares com as gônadas esgotadas (EM = D) (Figura 2). [FIGURA 2 OMITIR] Os maiores valores observados para a relação gonadossomática ocorreram também em outubro e fevereiro (Tabela 1). A ocorrência de fêmeas maduras, em outubro e fevereiro, e os maiores valores da relação gonadossomática, no mesmo período, sugerem que a reprodução ocorra entre o fim e o começo do ano (verão), coincidindo com o período de chuva. O fator de condição relativo ([K.sub.R]), que é um bom indicador do período reprodutivo, também apresentou maiores valores no período entre outubro e fevereiro (primavera e verão) (Tabela 1). A atividade alimentar de N. microps foi intensa durante todos os períodos analisados, evidenciada pela elevada frequência de ocorrência de estômagos com alimento (Tabela 2). Houve maior acúmulo de gordura visceral nos períodos de abril e julho, quando as gônadas encontram-se no estádio B, e decréscimo da gordura nos períodos de outubro e fevereiro, que correspondem ao início e término da desova, períodos em que as gônadas utilizam-se da gordura acumulada na cavidade visceral para o amadurecimento dos gametas (Tabela 2). O fator de condição alométrico foi bastante homogêneo ao longo do ano, quando os machos apresentaram sempre valores superiores aos das fêmeas (Tabela 3). A constância dos valores do fator de condição alométrico ao longo do ano corresponde à constância da atividade alimentar apresentada pela espécie. Foram analisados 78 estômagos com o grau de repleção 3, sendo identificados larvas de Diptera (Simulium, Chironomus), ninfas de Plecoptera e larva de Coleoptera aquática (Psephenus). O grau de preferência alimentar aplicado aos itens alimentares indicou que o item preferencial foi larva de Diptera (GPA = 2,6), enquanto ninfa de Plecoptera e larva de Coleoptera foram itens ocasionais (GPA < 1). A equação em logaritmo que representa a linearização da curva da primeira maturação gonadal para machos de N. microps é lnY = -5,2902 + 2, 5914 lnX (r = 0,95) e a de fêmeas é lnY = -18,2902 + 9,0902 lnX (r = 0,98). O comprimento médio da primeira maturação gonadal estimado para machos foi de 5,90 cm e para fêmeas, de 6,90 cm. Foram analisados três pares de ovários maduros (EM = C) de N. microps. O número total de ovócitos contados variou de 469 a 487; o número de ovócitos vitelogênicos com diâmetros maiores e prontos para serem eliminados variou de 44 a 54 (Tabela 4). A análise da distribuição de frequência de diâmetros de ovócitos mostrou um lote de ovócitos maduros entre 31 e 47 d.o.m. que correspondem a 1.897,2 e 2.876,4 [micro]m, respectivamente. Embora o número de pares de ovários analisados tenha sido pequeno, a existência de um lote de ovócitos maiores e vitelogênicos, antecedido de ovócitos menores em desenvolvimento, sugere que a desova possa ser do tipo sincrônica em dois grupos (Figura 3). O alto valor da relação gonadossomática para as três fêmeas analisadas corrobora o estádio de maturidade maduro dos ovários (Tabela 4). Na microbacia do Ribeirão Grande, N. microps ocorre em riachos da encosta e do pediplano, sendo mais abundante neste último e diminuindo de frequência em direção à planície do Vale do Paraíba (Braga e Andrade, 2005). A área de distribuição desta espécie estende-se pela bacia do rio Paraíba do Sul e rios costeiros adjacentes, na baixada fluminense (Langeani, 1990; Reis et al., 2003; Buckup et al., 2007). A espécie é conhecida como cascudinho pelo pequeno porte, podendo atingir 10,2 cm de comprimento-padrão (Reis et al., 2003) ou 12,7 cm de comprimento total conforme registrado neste estudo. [FIGURA 3 OMITIR] A análise da estrutura em comprimento para uma espécie de peixe pode fornecer informações importantes em diferentes aspectos, por exemplo, como a espécie ou população está distribuída em ocorrência de tamanho por segmento de um riacho (Santos, 2005; Gomiero e Braga, 2005a). Castro (1999) ressalta a importância evolutiva de peixes de riachos terem porte pequeno, pois favorece melhor adaptação ao ambiente em que vivem. As cinco espécies mais abundantes na microbacia do Ribeirão Grande são todas de porte pequeno e com isso adaptam-se bem aos hábitats espacialmente limitados e torrentosos (Braga, 2004). O comprimento médio em que uma população atinge a primeira maturação gonadal é uma tática do ciclo de vida, pois aumenta a participação genética da população na geração seguinte (Vazzoler, 1996). Em peixes, a fecundidade aumenta com o comprimento (Wootton, 1992), portanto, peixes menores são menos fecundos e mais expostos à predação. A estratégia que adotam não é em direção a abundância, em decorrência de uma fecundidade maior, mas a adaptações que proporcionarão à espécie melhor adequação ao hábitat. Segundo Lowe-McConnell (1975), em ambientes onde ocorrem flutuações sazonais--como, por exemplo, nos riachos torrentosos da serra da Mantiqueira oriental, sujeitos a aumento de volume na estação chuvosa--há investimento para ciclo de vida curto e maturação rápida. Lamas (1993) constatou a correlação entre fecundidade e tamanho da primeira maturação gonadal analisando dois grupos de peixes: o primeiro representado por espécies de fecundidade alta, que atingem grandes tamanhos e são migradoras, e o outro representado por espécies de baixa fecundidade e de pequeno porte, que são estacionárias. O fator de condição ou índice ponderal indica o estado de bem-estar que uma espécie ou população de peixe apresenta naquele momento, no ambiente em que vive (Le Cren, 1951; Weatherley, 1972; Weatherley e Gill, 1987). É um método útil na análise do ciclo reprodutivo e da atividade alimentar de uma população de peixe e tem mostrado bons resultados na análise de populações de diferentes bacias (Gomiero e Braga, 2005b). O fator de condição relativo é mais sensível na indicação do período reprodutivo por ponderar melhor o peso da gônada, em especial os ovários, por adquirirem maior peso, do que o fator de condição alométrico (Le Cren, 1951). Para N. microps, foi encontrada maior frequência de fêmeas em relação a machos (3:1), podendo ocorrer a possibilidade de cada macho acasalar-se com várias fêmeas. Embora não tenha sido observado o comportamento de acasalamento, os machos, por serem maiores do que as fêmeas, fato nem sempre comum entre peixes, podem aproximar-se de várias fêmeas, arrebanhando-as e cortejando-as no momento da fecundação. O sucesso reprodutivo dos machos depende da distância das fêmeas, presença ou ausência de um eventual competidor, velocidade da água (Levitan, 2005) e da quantidade de fêmeas a serem fecundadas (Yasui, 1998). Em riachos torrentosos, a turbulência da água dificulta a fertilização (Shapiro, 1994); acasalamentos sucessivos dos machos e a fertilização dos ovócitos em águas turbulentas predizem que a espécie desenvolva estratégias alternativas de reprodução, com consequente aumento dos testículos e da produção de esperma (Gomiero e Braga, 2007). O ciclo reprodutivo, em peixes, é um processo dinâmico e pode ser acompanhado associando-se às variações sazonais dos estádios de maturidade gonadal, relação gonadossomática e fator de condição, que por serem processos relacionados, quando analisados conjuntamente, fornecem indicações do período reprodutivo. As espécies desenvolvem processos adaptativos para a reprodução por meio de ajustes denominados de táticas reprodutivas, que envolvem adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais (Breder e Rosen, 1966; Wootton, 1992; Vazzoler, 1996). Na microbacia do Ribeirão Grande, duas espécies de Crenuchidae, Characidium lauroi e C. alipioi, apresentaram os picos dos períodos reprodutivos em outubro e fevereiro, respectivamente (Braga, 2006). Para N. microps, o período estimado foi de outubro a fevereiro, estando, portanto, dentro do período reprodutivo para C. lauroi e C. alipioi, que coincide com a época de chuvas. O período reprodutivo, que ocorre entre a primavera e o verão, influenciado por fatores bióticos e abióticos, é uma característica apresentada por várias espécies de peixes neotropicais (Vazzoler e Menezes, 1992). Em peixes, a fecundidade é uma característica específica e está adaptada às condições do ciclo de vida da espécie, podendo variar com o crescimento, densidade populacional, disponibilidade de alimento, cuidado parental e taxa de mortalidade (Nikolsky, 1969). Braga (1997) discute o fato de espécies de peixes de água doce serem menos fecundas e terem ovócitos maiores do que espécies relacionadas de ambiente marinho, pois a fecundidade expressa a abundância da espécie e na água doce o espaço torna-se mais limitado, suportando biomassas menores. A redução da fecundidade é compensada por ovócitos maiores que dão origem a larvas maiores e com mais recursos para explorar o ambiente, quando ainda não usam o alimento exógeno (Wootton, 1992). Na estimativa da fecundidade de N. microps, levaram-se em conta todos os ovócitos com vitelo e desenvolvidos, pois são os que podem ser eliminados durante o período reprodutivo (Hartz et al., 1994). Rondineli (2007) estimou fecundidades absolutas baixas para diversas espécies de peixes Siluriformes de porte pequeno do rio Passa Cinco, sub-bacia do Corumbataí--Estado de São Paulo, encontrando os seguintes valores: para Trichomycterus sp., fecundidade média de 73 ovócitos, com diâmetro médio de ovócitos maduros em 2.203,2 [micro]m; para Imparfinis mirini, fecundidade de 641 ovócitos e diâmetro médio em 550,8 [micro]m; para Corydoras flaveolus, fecundidade de 137 ovócitos e diâmetro médio de 1.591,2 [micro]m; para Hisonotus sp., fecundidade de 34 ovócitos e diâmetro médio de 1836 [micro]m. A fecundidade absoluta de N. microps situou-se em 44 e 54 ovócitos, tendo os ovócitos maduros diâmetro médio de 2264,4 [micro]m. Em peixes, uma tática utilizada para reduzir a fecundidade é aumentar o diâmetro do ovócito, o que leva a maior reserva de vitelo e maior tempo de consumo do mesmo pela larva (Nikolsky, 1969). Essa é uma tática que parece ser comum para diversas espécies de peixes de riachos em que os ambientes são limitados e inconstantes. Braga (2004) discute outras características utilizadas por peixes de riachos na microbacia do Ribeirão Grande, como redução de uma das gônadas e ausência de bexiga natatória. Um dos objetivos da teoria do forrageamento é predizer o quanto um animal pode assimilar de energia com o objetivo de maximizar a reprodução, tornando-se, portanto, uma estratégia de alimentação (Gerking, 1994). A maioria dos teleósteos alimenta-se por sucção, e o alimento é levado até a cavidade bucal impulsionado por uma corrente de água, sendo o mais versátil modo de alimentação entre os vertebrados; para isso, contribuem mandíbulas que podem ser estacionárias, dentes delicados, boca suctória e ventral (Gerking, 1994). A dieta de N. microps baseou-se, principalmente, em larvas e ninfas aquáticas, prevalecendo as de Diptera. Outras espécies de peixes, igualmente abundantes neste sistema, foram Characidium lauroi e C. alipioi, que também se alimentaram principalmente de larvas de Diptera (Braga, 2005). No entanto, o espectro alimentar é mais amplo em Characidium spp., em que outros itens também foram ingeridos, minimizando a competição interespecífica. Segundo Nikolsky (1969), a competição interespecífica por alimento pode ser minimizada, mesmo ocorrendo preferência alimentar comum pelo item principal, quando há divergência pela preferência em itens secundários ou terciários. A maneira pela qual N. microps obtém o alimento principal, larvas de Diptera Simulium e Chironomus, fica evidente pela sua estrutura bucal e modo de vida dessas presas. Ao redor da boca, existem duas papilas e os dentes são inconspícuos e filiformes; a larva de Simulium é presa ao substrato pela extremidade distal, enquanto que a de Chironomus vive dentro de um tubo em forma de J enterrado no substrato (Allan, 1995), conforme representado na Figura 4. [FIGURA 4 OMITIR] Por ser um peixe de hábito bentônico e desprovido de bexiga natatória (Braga, 2004), tem facilidade de nadar próximo ao fundo e vasculhar o substrato com o lábio e papilas em busca de presas e sugá-las. Embora sendo considerados itens ocasionais, ninfas de Plecoptera e larvas de Coleoptera-Psephenidae (Psephenus) ocorrem sob pedras ou outros objetos submersos em riachos (Borror e DeLong, 1969) e são capturadas por sucção por N. microps, que vasculha o substrato em busca de alimento. Esse modo de forragear é corroborado pela existência de outras presas no ambiente, mas de hábito vágil e que não foram ingeridas por N. microps, bem como perifiton, cuja obtenção necessita de que o peixe raspe o substrato. A disposição do aparato bucal de N. microps dificulta a obtenção de outros itens bentônicos de natureza vágil, como larvas de Trichoptera e ninfas de Ephemeroptera, que foram ingeridas por Characidium spp. neste mesmo ambiente (Braga, 2005). Segundo Fugi et al. (2001), a posição da boca e de outras estruturas associadas com o processo da alimentação diferenciarão os hábitos alimentares de espécies distintas de peixes. A estrutura em comprimento de uma população de peixe bem amostrada pode apresentar grupos modais distintos em que cada grupo corresponde a uma classe etária (Nikolsky, 1963; King, 1995; Sparre e Venema, 1997). O cascudinho N. microps, espécie que habita ambientes lóticos encachoeirados e torrentosos, é de porte pequeno, e o comprimento médio de primeira maturação gonadal e fecundidade indicam que a espécie segue a estratégia K, ou seja, adota recursos de adaptação ao meio em que vive e não de abundância. Em uma estratégia evolucionária do tipo r, há o investimento de um grande número de ovos pequenos quando os recursos são disponíveis em escala espacial ampla (Winemiller e Rose, 1993); por outro lado, uma população em equilíbrio apresenta fecundidade baixa e ovos grandes (Winemiller, 2005). O ambiente ocupado por N. microps é reduzido espacialmente e sujeito a alterações súbitas de volume de água nas estações chuvosas, o que restringe a alocação de recursos e faz com que a espécie adote estratégia que lhe permita melhor adequação ao meio. Conclusão Na microbacia do Ribeirão Grande, o cascudinho N. microps desenvolve adaptações ao meio em que vive, tais como: baixa fecundidade, porte pequeno e maturação gonadal precoce. Seu período reprodutivo ocorre de outubro a fevereiro (primavera--verão), quando utiliza reserva de gordura acumulada na cavidade visceral e proveniente do período de alimentação mais intensa. A espécie alimenta-se de itens autóctones, como larvas de Chironomus e Simulium. Essas adaptações direcionam a espécie a apresentar uma estratégia K, em que prevalece a adaptação ao meio em relação à abundância. Agradecimentos Externamos nossos agradecimentos à Cemasi/Votorantim Celulose e Papel-Florestal, pelo suporte dado ao desenvolvimento deste trabalho; ao CNPq e à Fapesp, pelo auxílio financeiro concedido, e a todos aqueles que contribuíram para o desenvolvimento deste estudo. Received on October 24, 2007. Accepted on April 24, 2008. Referências AGOSTINHO, A.A.; GOMES, L.C. 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Tabela 1. Variação por período da relação gonadossomática (%
RGS) e do fator de condição relativo (KR) de Neoplecostomus
microps.
julho outubro fevereiro abril
RGS (%) 2,15 7,55 10,57 --
[K.sub.R] 0,967 1,022 1,047 --
Tabela 2. Variaçãode repleçáo do estómago
(GR), com o número de estômagos do gran de
gorduracumulada na(GA) de Neoplecostomus
microps.
Julho (%) Outubro (%) Fevereiro (%) Abril (%)
GR1 27,3 (24) 15,8 (9) 22,2 (6) 13,5 (5)
GR2 34,1 (30) 57,9 (33) 44,4 (12) 32,4 (12)
GR3 38,6 (34) 26,3 (15) 33,3 (9) 54,1 (20)
GA1 77,1 71,9 74,1 51,3
GA2 17,2 28,1 25,9 43,6
GA3 5,7 -- -- 5,1
Tabela 3. Variaçáo por período do fator de condiçáo alométricomedio
([K.sub.A]), para machos e fìmeas de Neoplecostomus microps.
julho outubro fevereiro abril
Machos 0,0064 0,0069 0,0068 0,0070
Fêmeas 0,0059 0,0062 0,0063 0,0062
Tabela 4. Dados relativos à fecundidade de três fêmeas maduras
de Neoplecostomus microps: comprimento total (CT), peso total
(PT), número total de ovócitos (NT), número total de ovócitos
maduros (NO) e relação gonadossomática (RGS).
Fêmeas CT (cm) PT (g) NT NO RGS (%)
1 9 7,63 469 50 11,8
2 8,5 7,91 487 54 10,2
3 8,6 7,28 475 44 12,2
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