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A formacao de palavras a partir de morfemas monossilabicos nominais e bases verbais em linguas indigenas da familia pano: prefixacao ou incorporacao nominal?

Introducao

Uma propriedade comum a varias linguas da familia Pano e a ocorrencia de um conjunto finito de formas nominais que servem geralmente para nomear partes do corpo humano/animal (1) e que possuem um alomorfe cuja caracteristica principal e a reducao do numero de silabas da forma original a apenas uma silaba, mais especificamente, a primeira da sequencia. Pelo menos do ponto de vista sincronico, esse alomorfe monossilabico une-se a bases verbais para com elas formarem outras bases tambem verbais (2), as quais, por sua vez, dependendo da interpretacao que se faca, podem ter ampliada ou restringida a informacao semantica dada pelas duas bases envolvidas no processo (3).

Processos desse tipo ja foram registrados em diversas linguas Pano, como Kaxinawa (MONTAG, 1979), Amawaka (HYDE, 1980), Yaminahua (FAUST, 1990), Chacobo (ZINGG, 1998), Kapanawa (LOOS & LOOS, 1998), Shipibo (FAUST, 1990; LORIOT ET AL 1993; VALENZUELA, 2003), Matis (FERREIRA, 2001; 2005) e Matses (KNEELAND, 1979; FLECK, 2003, 2006), entre outras. Ha suspeitas, entretanto, de que o fenomeno possa ocorrer em todas as linguas da familia, o que certamente pode ser comprovado por meio de futuras descricoes tanto das linguas ja estudadas como daquelas que ainda sequer foram identificadas.

Apesar da ocorrencia ser unanimidade, a classificacao tipologica desse processo nao e ponto pacifico entre os estudiosos de linguas Pano. O primeiro ponto de discordia esta no fato de que, segundo as referidas fontes, em tres das linguas citadas -- Matses, Shipibo e Kapanawa--os alomorfes monossilabicos se unem nao apenas a bases verbais, mas tambem a nominais (nomes e adjetivos). Nas demais linguas ja descritas, o processo de uniao se da somente entre os morfemas monossilabicos e as bases verbais.

O segundo ponto de discordia e que, ao nosso ver, tambem e o de mais dificil resolucao trata do fato de que, a excecao de Ferreira (2001) (4), que descreve as bases lexicais finais como resultado de incorporacao nominal, todos os outros estudiosos de linguas Pano se referem ao processo como uma especie de prefixacao. Todavia, esta ultima conclusao nao condiz com a afirmacao de Loos (1999: 243) de que categoricamente as linguas Pano nao apresentam prefixos, mas registram uma tipo de incorporacao de algumas raizes nominais imediatamente antes do verbo. Segundo este autor, essas linguas sao essencialmente sufixais contando com mais de 130 sufixos verbais.

Considerando esse panorama de controversias e, ainda, um apelo formal de Fleck (2006) para que estudiosos se dedicassem a tarefa de detectar, se possivel, os morfemas especiais em linguas da familia Pano, pretendemos, no presente artigo, discutir a tipologia do processo de formacao de novos itens lexicais encontrado nas linguas Pano. Para tanto, descreveremos o referido processo em uma das linguas Pano, o Shanenawa, comparando-o eventualmente com outras linguas da familia (a saber: Amahuaca, Kapanahua, Kaxinawa, Matis, Matses, Shipibo, Yaminahua e Sharanawa). Na oportunidade, pretendemos contribuir para com os estudos sobre reconstrucao linguistica apresentando um argumento que, acreditamos, reforca a hipotese de Lanes (2000), Fleck (2003) e Amarante Ribeiro (2006) de que o Matses teria sido a primeira lingua a se separar daquela que teria dado origem a todas as linguas da familia Pano, ou seja, a proto-lingua.

Considerando entao esses objetivos, o artigo apresenta quatro partes assim organizadas: em 1. serao fornecidas algumas breves notas sobre a lingua Shanenawa, seus falantes e sua classificacao dentro da familia Pano; em 2. apresentar-se-ao alguns pressupostos teoricos que nortearao a descricao do processo de formacao de palavras em discussao; em 3. descrever-sea o referido processo na lingua Shanenawa; em 4., far-se-a uma breve comparacao entre o Shanenawa, o Matses e outras linguas Pano visando apresentar uma argumentacao sobre o lugar das duas primeiras linguas na evolucao do Proto-Pano. Fecham o artigo, a conclusao e as referencias bibliograficas.

1. A lingua Shanenawa

A lingua Shanenawa, como ja foi falado aqui, pertence a familia Pano, a qual possui cerca de 40.000 falantes, distribuidos em pelo menos 34 povos conhecidos. Estes ocupam juntamente com varias etnias de outras familias, uma vasta area de forma aproximada de um quadrilatero cujos lados sao limitados pelos paralelos 3[degrees] S e 14[degrees] S e pelos meridianos 72[degrees] W e 64[degrees] W. Esse quadrilatero situa-se na regiao amazonica boliviana, brasileira e peruana.

De acordo com Amarante Ribeiro (2006), as linguas dessa familia estao divididas em quatro grandes grupos. O Shanenawa figura no chamado Grupo III, que esta subdividido em dois grupos imediatos, sendo o maior deles o Subgrupo III-2 com varias subdivisoes menores, dentre elas a que origina o Subgrupo III-2-2-2 que inclui o Shanenawa e outras linguas ainda vivas como o Arara, o Sharanawa e o Yawanawa.

Quanto aos falantes da lingua Shanenawa, estes habitam a regiao norte central do Estado do Acre, a margem esquerda do rio Envira, no Municipio de Feijo, onde se distribuem em quatro comunidades assim denominadas: Paredao, Cardoso, Nova Vida e Morada Nova. Os dados demograficos da FUNAI (2002) dao conta dos seguintes numeros de habitantes em cada aldeia: Morada Nova, 200; Paredao, 53; Cardoso, 54 e Nova Vida, 49. Nas aldeias, embora a maior proficiencia seja dos mais idosos, todos usam a lingua. Entre os mais jovens e criancas, especialmente, enquanto cresce a preferencia pelo Portugues, nota-se que o uso da lingua indigena esta se tornando cada vez mais limitado. Por isso, infelizmente, pode-se dizer que o Shanenawa, como tantas outras linguas brasileiras, e uma endangered language, ou seja, esta situada no grupo das linguas em perigo de extincao.

2. Pressupostos teoricos

Estudos descritivos tem mostrado que as linguas naturais dispoem de varios recursos para ampliacao de seu lexico, recursos estes que vao dos processos de formacao de palavras aos emprestimos culturais e estrangeirismos. No presente estudo, interessam-nos os recursos utilizados pelos falantes para ampliar o lexico interno de sua lingua, ou seja, os processos de formacao de palavras, os quais, segundo a literatura especifica, podem ser assim esquematizados: a derivacao, a composicao, a reducao e a reduplicacao. (5)

Dos processos supracitados (tambem conhecidos como morfologia lexical), os mais comuns em termos de maior produtividade sao a derivacao e a composicao. O primeiro e caracterizado pela adicao de um ou mais afixos (6) a uma base lexical, o que lhe modifica parcial ou totalmente o significado original. Para haver derivacao, uma condicao necessaria na analise morfica de uma palavra e, para efeitos deste artigo tem muita importancia, e que haja possibilidade de depreensao sincronica dos morfemas que compoem tal palavra. Em Portugues, por exemplo, palavras como "submisso" e "admitir" apenas podem ser segmentadas a partir do criterio diacronico, pois so historicamente se pode depreender os prefixos sub- e ad- e os morfemas lexicais -misso e -mitir, respectivamente. Do ponto de vista sincronico, contudo, estes ultimos, por nao terem significacao na atualidade, nao podem ser considerados morfemas lexicais. Nesse caso, nao podemos dizer que "submissao" e "admitir" sao exemplos de derivacao no estagio atual da lingua.

Ainda no tocante a derivacao, a literatura linguistica (especialmente a descritiva) menciona um processo de formacao de palavras mais especifico: a "prefixacao". Este consiste na juncao de prefixos a bases diversas (verbal, nominal, etc.) para com elas constituirem novas bases, independente da natureza (verbal, nominal, etc.). E importante salientar aqui este conceito de forma a distingui-lo do tipo especial de "composicao" do qual trataremos em mais detalhes na sequencia.

Composicao e a forma de criar novas bases lexicais em uma lingua a partir de duas ou mais bases independentemente significativas para que, juntas (e com ou sem a reducao da estrutura morfica das mesmas), estas se comportem como uma so estrutura que por si mesma manifeste autonomia semantica.

Do ponto de vista do significado, diz-se que na composicao ocorre a combinacao de dois morfemas lexicais cujo resultado e uma fusao semantica que pode ser completa ou nao. Em Portugues, por exemplo, a palavra "guarda-roupa" e formada por composicao e seu significado de forma geral pode ser recuperado na segmentacao dos morfemas lexicais que a compoem: guarda- (do verbo "guardar") e -roupa. Por outro lado, numa palavra como "baba-de-moca" (um tipo de guloseima/doce), o significado de cada morfema lexical praticamente inexiste dando lugar a outro completamente diferente obtido pelo composto.

Alem do aspecto semantico, os compostos podem se distinguir dos sintagmas comuns por meio de outros criterios linguisticos, tais como a acentuacao, as regras fonologicas ou atraves de aspectos morfossintaticos, como a concordancia, a flexao no genitivo, a ordem dos constituintes no sintagma, entre outros.

Os processos de composicao podem ser de dois tipos: justaposicao ou aglutinacao. No primeiro tipo, as bases que se combinam na composicao sao, como o proprio nome indica, posicionados um ao lado do outro com a manutencao de sua autonomia fonetica e fonologica, como no caso dos dois exemplos da lingua portuguesa dados anteriormente. Ja no segundo tipo ocorre a fusao das bases num todo com possiveis alteracoes de elementos foneticos dessas bases. Exemplos em Portugues sao as palavras "planalto", "aguardente", entre outras. Dentre os tipos de composicao existentes nas linguas do mundo, um dos mais interessantes e que nos interessa sobremaneira aqui e a chamada incorporacao. Segundo Mithun (1984), o termo 'incorporacao' e geralmente usado para se referir a um tipo particular de processo de composicao de palavras em que um verbo e um nome se combinam para formar um novo verbo. Nessa composicao, o nome mantem uma relacao semantica especifica com o verbo, a qual pode ser de paciente, de locativo ou de instrumento.

O processo de criacao de novos itens lexicais por meio da incorporacao e, como atesta Mithun (1984), um processo morfologico com caracteristicas sintaticas. Isto porque, na juncao da base nominal com a verbal, pode haver a reducao da valencia verbal. Isto e, no caso de verbos originalmente transitivos necessariamente ha a intransitivizacao desses verbos, ja que em geral o nome incorporado ao verbo funciona como objeto direto (paciente) ou modificador adverbial (lugar, instrumento, entre outros). Na composicao, porem, esse nome nao perde sua funcao sintatica original, mas o composto torna-se um predicado intransitivo que denota um conceito unitario. Isto e, na incorporacao, o verbo deixa de ser transitivo para ser intransitivo. Uma caracteristica da incorporacao que pode ser importante nos trabalhos investigativos sobre o tema e apontada por Spencer (1991). De acordo com esse autor, para que uma incorporacao verdadeira ocorra, as formas (morfemas ou palavras) que constituem os compostos, quando isoladas devem representar uma parafrase de tais compostos.

Para concluir estes pressupostos, mencionaremos um ultimo principio de analise morfica que tambem sera importante neste artigo: "alomorfia". Como se sabe, os diferentes morfemas de uma lingua (lexicais ou gramaticais) nao sao sempre segmentos fonicos imutaveis, ou seja, em geral costumam apresentar variantes as quais chamamos alomorfes. A alomorfia pode ser de dois tipos: condicionada fonologicamente ou nao-condicionada. Esta ultima independe de causas foneticas, enquanto a primeira e basicamente resultado de mudancas morfofonemicas, tais como aquelas provocadas pela aglutinacao de fonemas pertencentes aos morfemas envolvidos nos processos de formacao de palavras e de que resulta alguma mudanca fonetica. Nas linguas Pano, em especial no Shanenawa, como veremos adiante, e importante considerar a variacao morfofonemica no processo de formacao de palavras ora em questao.

3. Formacao de palavras na lingua Shanenawa

Em Shanenawa, como soi ocorrer nas linguas naturais, encontramos os dois processos basicos de formacao de palavras: a derivacao e a composicao. O primeiro processo e bastante produtivo, pois, sendo essa lingua de tipologia morfologicamente aglutinante, tende a apresentar muitas palavras complexas, ou seja, aquelas constituidas por mais de um morfema. Corroborando a impressao de Loos (1999) para outras linguas Pano, no Shanenawa esse processo ocorre especialmente com as bases verbais, as quais podem receber um grande numero de sufixos, conforme podemos ver no exemplo a seguir:

(1) pi- ian-ma comer-PAS-NEG (7) 'Ele/ela nao comeu (no dia anterior).'

Como se pode notar, embora a sequencia de sons carregue um significado traduzido por uma frase inteira do Portugues, no Shanenawa, integrantes desse segmento frasal estao intimamente relacionados sintatica, morfologica e semanticamente, de modo a constituirem uma unica unidade lexica. Quanto a segmentacao da palavra em (1), o morfema pi- pode ocorrer isolado sem prejuizo de sentido, o que o torna potencialmente livre, ou seja, pi, uma raiz verbal. Em contrapartida,--ian e -ma necessitam ser ligados (ou presos) a outros morfemas para ter significacao completa.

Como no exemplo em (1), a maioria das palavras da lingua Shanenawa e formada por uma base lexical (nominal e verbal, geralmente) e um ou mais dos diversos sufixos existentes na lingua (cf. CANDIDO, 2004). Nao ha ate o momento registros de afixos do tipo infixos ou circunfixos. Quanto aos prefixos, a despeito de aspectos sintaticos que influenciam a probabilidade de ocorrencia deste tipo de afixo em uma lingua, como a ordem dos constituintes SOV nas sentencas, sua ocorrencia na lingua (passivel de questionamentos, alias) parece ser limitada, o que pretendemos discutir em mais detalhes posteriormente. Antes, porem, trataremos brevemente do processo de composicao de palavras nessa lingua.

Em geral, os compostos sao do tipo justapostos e podem ser reconhecidos a partir de dois criterios: a acentuacao e a flexao do genitivo. Como na lingua o acento nao e fonologico por incidir apenas sobre a ultima silaba das palavras, em um processo de composicao, o acento do(s) elemento(s) que se posiciona(m) mais a esquerda tende a enfraquecer ou mesmo desaparecer, ja que apenas o elemento colocado em posicao mais a direita deve receber o acento principal. Assim, se duas ou mais palavras independentes se juntam em um processo de que resulta uma palavra composta com significados diferentes daqueles obtidos pelas formas individualizadas e, alem disso, as representacoes foneticas dos compostos apontam a adequacao das formas antigas dos elementos a tipologia acentual da lingua (ou seja, uma so unidade acentuada com acento na ultima silaba), logo, poderemos concluir que os sintagmas constituem compostos autenticos, como nos seguintes dados:

[[i fi[??]].sub.N] + [[pa ni[??]].sub.N] [??] [[i fipa ni[??].sub.N] [??] /ifi # pani/ 'cama' (2)

madeira rede

[[ta [??]].sub.N] + [[a ka[??]].sub.N] [??] [[ta a ka[??]].sub.N] [??] /ta # aka/ 'sapato' pe casca

O outro criterio utilizado para identificacao de compostos na lingua Shanenawa e de cunho morfologico e diz respeito a flexao do genitivo. Nessa lingua, o caso genitivo e marcado pelo sufixo -n (ou por um dentre os seus alomorfes) no nome do possuidor, como ilustra o exemplo a seguir:

[[na wa-n].sub.N] + [[pi a[??]].sub.N] [??] /nawan # pia/ 'flecha de branco' branco-GEN flecha (3)

Quando, entretanto, o falante utiliza os dados nawa 'branco' e pia 'flecha' em um processo de composicao, o sentido obtido e um pouco diferente do que sugere a construcao genitiva e, nesse caso, a marca -n nao e expressa, como vemos, a seguir:

[[na wa[??].sub.N] + [[pi a[??]/].sub.N] [??] [na wapi a[??]] [??] /nawa # pia/ 'espingarda' branco flecha (4)

Alem desses processos de formacao de palavras, conforme antecipamos na introducao deste estudo, o Shanenawa tambem conta com um caso especial de formacao de palavras (8) envolvendo exclusivamente verbos de acao (transitivos) e bases nominais relativas essencialmente a partes do corpo humano/animal, na funcao de objeto desses verbos. Para ilustrar, consideremos inicialmente as bases nominais em (5:a) e as verbais em (5:b):
(5)    (a) puku 'barriga'     (b)  at    'cortar'
           mapu 'cabeca'           ku a   'bater'
           m vi 'mao'              t uka  'lavar'


Na lingua Shanenawa, as bases nominais em (5:a) podem ser combinadas por aglutinacao com as respectivas bases verbais em (5:b), do que resultam novas bases de natureza verbal. Conforme vimos nos pressupostos teoricos, de acordo com Mithun (1984), combinacoes de duas bases lexicais desse tipo equivalem a uma especie de incorporacao nominal, com a particularidade, no caso do Shanenawa, de haver a reducao morfofonemica da base nominal a ser afixada a verbal, como nos mostram os exemplos a seguir:

(a) [[pu].sub.N] + [[ku a].sub.V] [??] [[puku a].sub.V] 'cortar a barriga'

(b) [[ma].sub.N] + [[ati].sub.V] [??] [[ma ati].sub.V] 'bater a cabeca'

(c) [[m ].sub.N] + [[t uka].sub.V] [??] [[m t uka].sub.V] 'lavar a mao' (6)

Outra razao pautada nos preceitos de Mithun (1984) para supormos que estamos diante de um caso de incorporacao nominal nessa lingua encontra respaldo nas caracteristicas das bases verbais envolvidas no processo. Considerando o criterio nocional, essas raizes verbais sao do tipo que expressam acao realizada por um agente e sofrida por um paciente, ou seja, trata-se de verbos de dois argumentos. Sintaticamente, chamamos esses verbos de transitivos, os quais requerem argumentos na funcao de sujeito e de complemento verbal (objeto). Na incorporacao nominal, a funcao de objeto e preenchida pelo morfema monossilabico. Contudo, apos a ligacao entre as duas categorias sintaticas, o verbo muda de valencia de transitivo para intransitivo, nao mais solicitando o complemento, mas eventualmente apenas adjuntos, como podemos ver nos exemplos seguintes:

[MATHEMATICAL EXPRESSION NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] (7)

[MATHEMATICAL EXPRESSION NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] (8)

Assim, quando o complemento verbal objeto (na forma nominal) incorpora-se ao verbo, este, que na estrutura profunda era transitivo, perde uma valencia, passando a figurar na estrutura de superficie como intransitivo; em contrapartida, a posicao de objeto se torna esvaziada. Assim, a sequencia estrutura das sentencas que antes era (S + [Adjun Restr] + Od + VT passa a S + [Adjun Restr] + + VI.

Apesar de todas essas caracteristicas, convem retomarmos aqui Spencer (1991), para quem um processo de incorporacao natural e aquele em que as formas que constituem os compostos, quando isoladas, representam uma parafrase dos referidos compostos. Essa particularidade leva-nos a questionar se de fato teriamos na lingua Shanenawa incorporacoes convencionais. Uma maneira de conseguir respostas plausiveis para isso e averiguar junto aos falantes nativos da lingua se nao haveria a hipotese de a raiz desses nomes de partes do corpo ser, diferentemente do que vimos em (6:a-c), as formas: pu 'barriga', ma 'cabeca' e m 'mao'. Todavia, todos rejeitaram as supostas bases simples e tampouco as formas -ku, -pu e -vi com significacao de forma isolada. Para os falantes, apenas exemplos contextualizados, como os que vemos abaixo, sao aceitaveis.

(9) n min pu-t uka-a-ki 1ps 2ps braco-lavar-PAS-DECL

'Eu lavei meus bracos'
(10) paka ku u      fu-ku a-a-ki
nome proprio        cabelo-cortar-PAS-DECL
'Paka Kuru (nome proprio) cortou o cabelo (dela).'


Diante disso, como classificar as formas nominais envolvidas em tal processo: alomorfes das referidas bases nominais ou, numa interpretacao mais abstrata, como prefixos tal como postulam alguns pesquisadores de lingua Pano? Supondo ser este ultimo caso, entao, ao inves de "composicao de palavras por incorporacao nominal", nao estariamos falando em processo de "derivacao de palavras"? O fechamento da questao nao e conveniente nem em uma nem em outra interpretacao, pois acreditamos que, na lingua Shanenawa, esse processo de formacao de palavras pode ser classificado tanto como composicao (via incorporacao nominal), como prefixacao, dependendo, claro, do ponto de vista (sincronico ou diacronico) que se adote para a analise. Assim, partindo da diacronia para a sincronia, estamos considerando a hipotese de que, no passado, a formacao de palavras em questao teria sido do tipo incorporacao nominal, a qual teria evoluido para um caso simples de derivacao por prefixacao no estagio atual da lingua.

Em funcao disso, e preciso salientar que os processos evolutivos nas linguas nao ocorrem como uma transicao brusca. Isto e, um falante nao dorme com um processo (no caso, a incorporacao nominal) e acorda com outro (a prefixacao). Ha uma lenta transicao da passagem de um processo a outro, na qual e possivel haver a coexistencia dos dois, como nas transicoes de fase do tipo liquido-solido em Fisica. Na passagem, por exemplo, da agua para o gelo, durante o processo de congelamento, antes de toda a agua solidificar-se, ha um estagio em que a agua convive com o gelo. Assim, acreditamos ocorrer com os dois processos morfologicos em discussao.

Para melhor compreensao disso, vejamos mais algumas caracteristicas do processo de formacao de palavras na lingua Shanenawa, especialmente, das bases nominais e seus respectivos alomorfes. Conforme poderemos ver na Tabela I, a seguir, ate o momento encontramos apenas 13 formas nominais. Este, porem, ainda nao e um numero exato e, alem disso, esta bem aquem do verificado em outras linguas Pano. Loos (1999) acredita que em cada lingua existam cerca de 45 bases nominais e seus respectivos morfemas monossilabicos; Ferreira (2005) menciona 27 casos no Matis; no Shipibo-Konibo, sao apontados 31 casos (VALENZUELA, 2003) e, no Matses, 28 (FLECK, 2006). Naturalmente, tal diferenca requer mais investigacao sobre a existencia de outras formas nao tao usuais entre os falantes, o que pretendemos fazer no futuro.

Quanto aos alomorfes, como podemos notar na Tabela I, todos sao caracterizados por uma reducao morfofonemica das respectivas bases nominais a apenas uma silaba, no caso a primeira. A exemplo de Fleck (2006) em sua descricao do referido processo na lingua Matses, optamos por chamar esses alomorfes de morfemas monossilabicos. Sob o ponto de vista semantico, esses morfemas possuem na lingua Shanenawa exclusivamente a funcao de designar partes inalienaveis de um todo, isto e, um corpo em geral referente a anatomia humana/animal. Em outras linguas Pano, porem, ha registros de outros prefixos envolvidos nesse processo, incluindo alguns de natureza completamente adversa daquela descrita para os morfemas do Shanenawa. Nesses termos, Fleck (2006:63) atesta que no Matses, alem dos 28 prefixos referentes a partes do corpo, existe uma outra categoria de morfemas aos quais chamou deintensifying prefixes. Trata-se apenas de duas formas: b -, que assume significados diversos conforme a informacao semantica dada pela base a qual se afixa: 'falso/pobre' com nomes, 'claro' com adjetivos relativos a cores, 'suave/parcial/incompleto' com verbos; e pa -, cujos significados sao 'proximo' com nomes relativos a parentesco e 'pobre' com verbos. Ja os morfemas referentes a partes do corpo contam com um numero maior de representantes (27) e, diferentemente do que vimos ate o momento no Shanenawa, a nocao de "partes" emitida pelos prefixos nao se limita ao corpo humano ou ao de outros animais, estendendo-se a plantas, a objetos inanimados e a relacoes espaciais. Ha ainda, segundo Fleck (2006:64), um morfema que nao se refere a partes do corpo ou de um "todo", n -, cujo significado e 'dentro d'agua' ou 'dentro do fogo'. (9) Alias, essa forma e claramente uma inovacao do Matses, haja vista que estamos supondo que na proto-lingua original nao existiam prefixos e sim incorporacao nominal. Isto porque a forma do prefixo em Matses nao pode derivar de 'agua' que e a[??]t. Essa inovacao tambem pode ser vista na lingua Matis, ja que provavelmente no Matis ancestral, a palavra para 'agua' era n e nao a forma atual n; o mesmo se pode dizer de akto para 'braco', que acreditamos era p e nao podo.

Ainda no campo semantico, outra caracteristica do processo de formacao de novas palavras, e o fato de as bases nominais das quais se originam os morfemas monossilabicos acabarem por perder em certa medida o seu significado especifico, tornando-se, assim, um mero componente do verbo derivado. Este, por sua vez, passa a designar um evento particular, unico, ja que seu significado e restringido pelo morfema a ele aglutinado.

No nivel sintagmatico (eixo das combinacoes), observamos que os morfemas monossilabicos sao potencialmente ligaveis a bases verbais existentes na lingua Shanenawa. Isto e, diferentemente de outras linguas Pano,os morfemas monossilabicos parecem nao se ligar a nomes ou adjetivos. (10) Nessa lingua, os sintagmas nominais constituidos por nomes de partes do corpo e outras bases nominais ou adjetivais sao sistematicos no que diz respeito ao fato de o nome relativo a anatomia figurar obrigatoriamente em sua forma completa, tal como demonstram os exemplos seguintes:

(a) [{ kin}.sub.N] + [{ uwi}.sub.N] [??] [{ kin uwi}.sub.N] 'narina' nariz orificio

(b) [{pahinki}.sub.N] + [{ uwi}.sub.N] [??] [{pahinki uwi}.sub.N] 'ouvido' orelha orificio

(c) [{ uma}.sub.N] + [{ ihu}.sub.N] [??] [{ uma ihu}.sub.N] 'bico do seio' seio ponta

(d) [{u i}.sub.Adj] + [{mapu}.sub.N] [??] [{u i mapu}.sub.SN] 'ruivo' vermelho cabeca (11)

A agramaticalidade da reducao das bases nominais a alomorfes monossilabicos, quando o processo nao envolve verbos de acao, e ratificada ainda pelo fato de os falantes Shanenawa nao aceitarem construcoes de formas compostas hipoteticas do tipo listado abaixo:
(12) (a) *     suwi    [{ kin uwi}.sub.N]            'narina'
     (b) * pa   uwi    [{pahinki uwi}.sub.N]   'ouvido'
     (c) *  u   ihu    [{uma ihu}.sub.sub.N]   'bico do seio'
     (d) * mau    i    [{u i mapu}.sub.N]      'cabeca vermelha'


E tambem caracteristica do Shanenawa vetar a ocorrencia de mais de um morfema monossilabico junto a raiz verbal. Por isso, nao encontramos nessa lingua formas do tipo *tapa-at, a qual corresponderia a significacao 'cortar os pes e os bracos'. De certo, tal restricao esta ligada ao fato de as formas monossilabicas nao poderem se ligar a outras bases (no caso as nominais "pes" e "bracos") que nao sejam as verbais. Alias, diferentemente de outras linguas Pano em que os morfemas monossilabicos se ligam a adjetivos, normalmente, referentes a cores, na lingua Shanenawa, como vemos no dado (12-d) nao ha o processo de incorporacao da primeira silaba do nome mapu 'cabeca' ao adjetivo u i. Ademais, ha tambem a ordem dentro do sintagma que inibi uma construcao como u ima com {-ma} na condicao de sufixo ao inves de prefixo.

Outra propriedade dos morfemas monossilabicos da lingua Shanenawa e a de se ligarem apenas aos verbos em termos de forma. Isto e, a fusao do morfema monossilabico nao afeta as propriedades fonologicas do verbo resultante, visto que todas as palavras em Shanenawa possuem acento na ultima silaba. Dessa maneira, todos as novas bases formadas tambem receberao o acento na silaba final. Acrescente-se a isso, o fato de que, devido a forma dos morfemas monossilabicos invariavelmente terminarem em vogal constituindo um monossilabo do tipo (C)V (em que C e opcional), nao se verifica fusao que afete as regras de silabificacao da lingua, como podemos ver nos dados foneticos, a seguir:

(a) [pu + ku a] [??] [puku a] [??] /puku a/ 'cortar a barriga' (b) [ma + ati] [??] [ma a ti] [??] /ma ati/ 'bater a cabeca' (c) [m + t uka ] [??] [m t u ka] [??] /m t uka/ 'lavar a mao' (13)

Feitas essas descricoes, podemos retomar a questao cerne deste estudo, ou seja, a classificacao tipologica do processo de palavras ora em debate. Pelo exposto sobre os morfemas monossilabicos ate agora e, como ja antecipamos, e possivel que o fenomeno que ocorre na lingua Shanenawa seja mesmo um caso de formacao de palavras por composicao do tipo incorporacao nominal. Entretanto, ainda restam duvidas sobre isso, muitas delas reforcadas por algumas das caracteristicas dos morfemas monossilabicos aqui listadas. Por exemplo, a visao que os falantes Shanenawa tem dos morfemas monossilabicos como elementos puramente formativos de uma palavra; elementos cujos conteudos lexical e formal nunca sao realizados de forma independente (ou livre) na lingua, tambem nao nos permitiria interpretalos como prefixos? Para nos provavelmente e isso que ocorre no Shanenawa, porque nossas pesquisas tem nos levado a crer que na lingua original, o Proto-Pano, teria existido um sistema produtivo de geracao de formas nominais que se uniam imediatamente a determinados verbos gerando outras bases verbais. Isso ocorreria em funcao de uma regra bem definida que consistia em gerar um alomorfe do nome original atraves de sua primeira silaba e que se unia exclusivamente a verbos para formar outros verbos. Tal interpretacao e reforcada por Shell (1975) que levanta a hipotese de que o morfema * seria a proto-forma para o termo 'nariz', ja que * k n teria resultado da fusao de * 'nariz' com *k n 'buraco/abertura'. Assim, na proto-lingua, teriamos um exemplo de incorporacao de raizes monossilabicas com uma base nominal, sendo as raizes monossilabicas o proprio nome designativo das diversas partes do corpo. Se assim for, essa propriedade teria se perdido na separacao das linguas.

A interpretacao pode ser reforcada por outros indicios encontrados no estagio atual da lingua Shanenawa. Analisando bases diversas pertencentes a um mesmo campo semantico, nelas e possivel identificar um morfema monossilabico referente a uma parte especifica do corpo humano. Para ilustrar, temos os exemplos dos morfemas ma-, ta-, f - e mo-, que estao presentes tanto em suas correspondentes atuais (as bases nominais mapu 'cabeca', tao 'pe', f ru 'olho' e m fi 'mao', respectivamente), como em outras palavras cognatas de cada uma das referidas bases como podemos ver nos grupos de exemplos seguintes:
(14) (a) mako      'calvo' (14)
     (b) ma o      'chifre'
     (c) mat o     'crista de galo'
     (d) masafi    'testa'

(15) (a) tapu      'raiz'
     (b) tapaka    'caule'
     (c) ta u      'tornozelo'

(16) (a) f u       'cego'
     (b) f un      'lagrima'
     (c) f ipi     'sobrancelha'

(17) (a) m i       'tocar, manusear'
     (b) m pu an   'antebraco'
     (c) m pu tu   'osso da mao'


Embora nao haja a possibilidade de depreensao sincronica dos morfemas componentes das bases lexicais exemplificadas, pelo criterio diacronico parece-nos pertinente considerar as formas ma, ta, f e mo, respectivamente 'cabeca', 'pe', 'olho' e 'mao', no Proto-Pano. E, por extensao, tambem podemos concluir que, na proto-lingua, as palavras exemplificadas em (14-17) poderiam ser resultantes de um processo de composicao em que o significado da segunda base lexical ainda e desconhecido ou se perdeu diacronicamente.

Dessa forma, se as bases nominais referentes as partes do corpo humano eram representadas por morfemas monossilabicos no Proto-Pano, o processo que ora descrevemos e de fato do tipo incorporacao nominal. Todavia, com a evolucao para as formas atuais polissilabicas dos lexemas, as formas ancestrais permaneceram como prefixos e, assim, o processo de incorporacao nominal evoluiu diacronicamente para prefixacao.

4. Hipotese sobre o lugar do Shanenawa e do Matses na reconstrucao do Proto-Pano

Como dissemos na introducao deste artigo, a ocorrencia de um processo de formacao de palavras envolvendo morfemas monossilabicos e bases verbais do qual resultam outras novas bases verbais ja foi registrado em um consideravel numero de linguas da familia Pano. Na Tabela II, a seguir, registramos dados referentes a 13 linguas dessa familia (11), incluindo o Shanenawa.

Como podemos notar, do ponto de vista formal, praticamente nao ha diferencas entre as informacoes linguisticas dadas na Tabela II. Todavia, retomando a hipotese de Shell (1975) de que as proto-formas correspondentes aos significados dos dados expressos na Tabela II seriam, respectivamente: *ana 'lingua', *mapo 'cabeca', *mikini 'mao', *poyami 'braco', *rikini 'nariz' e *biro 'olho' e observando de modo detalhado os dados aqui apresentados, notaremos que as formas do Matses sao as que mais se desviam dessas propostas de protoformas. Isso e um indicio de que o Matses seja, talvez, a lingua que primeiro teria se separado da lingua original, o que esta de acordo com um pensamento corrente entre estudiosos da area de linguistica historica: na variacao linguistica os aspectos gramaticais mudam mais lentamente do que o lexico. O processo de prefixacao ou incorporacao nominal (dependendo, claro, da interpretacao que se queira dar) em estudo neste texto e um aspecto morfologico, o qual deve ter existido na proto-lingua com os prefixos que sao comuns, exceto pelas variacoes fonologicas, a todas as linguas. Entretanto, nas palavras que nao se desviaram muito do Proto-Pano, o Matses manteve a estrutura original, como podemos ver, a seguir:
            Matses      Proto-Pano

Prefixo
an-         ana         * ana       'lingua'
ma-         mapi        * mapo      'cabeca'
ta-         tao         * tai       'pe'


Alguns outros "prefixos" (ou "morfemas monossilabicos"), por sua vez, mantiveram a forma do Proto-Pano, apesar de as formas das raizes terem sofrido modificacoes morfofonemicas, conforme mostram os dados seguintes:
           Matses      Proto-Pano
Prefixo

p -        podo        * pii       'folha/pena'
n -        a[??]E      * ini       'agua'
b                      * biro      'olho'
na-        pina        * ina       'rabo'
po-        pobid       * posto     'barriga'


Ja na lingua Shanenawa, ao que tudo indica, as formas sao as mesmas da lingua-proto, conforme podemos ver nos dados a seguir:
            Shanenawa         Proto-Pano
Prefixo
an-         ana               ana              'lingua'
ma-         mapu              mapo             'cabeca'
ta-         ta                tai              'pe'
b           b ru              b ru             'olho'
na-         ina               ina              'rabo'
po-         pustu             posto            'barriga'


Apesar de na reconstrucao feita por Shell (1975) nao terem sido usados dados do Shanenawa, acreditamos que esta lingua tenha sido uma das ultimas a se separem da lingua original. Para reforcar essa ideia, lembramos que, como foi dito anteriormente, o Matses e a unica lingua descrita que apresenta outras formas que podem ser interpretadas como prefixos "enfraquecedores" (deintensifying prefixes), embora nao sejam muito usados na lingua alem das formas do tipo corpo descritas aqui. Isto sugere, como bem afirmou Fleck (2006), que a lingua Matses nos da uma oportunidade de perceber como os prefixos evoluem de construcoes de incorporacao nominal que existiam no passado. Temos, nesses termos, reforcada a hipotese de Lanes (2000), Fleck (2003) e Amarante Ribeiro (2006) de que o Matses teria sido a primeira lingua a se separar daquela que teria dado origem a todas as linguas Pano.

Conclusao

Neste artigo, discutimos um processo particular de formacao de palavras nas linguas indigenas Pano. Trata-se de da formacao de bases verbais a partir da juncao de alomorfes monossilabicos de um determinado nome (em geral referente a partes do corpo) e outras bases verbais. A discussao girou em torno do carater tipologico do referido processo, haja vista nao haver consenso entre os estudiosos de linguas Pano sobre a classificacao dos morfemas monossilabicos envolvidos no processo: alomorfes das bases nominais ou prefixos? Por meio de uma descricao do processo de formacao de palavras em uma das linguas dessa familia, o Shanenawa, procuramos expor nossa opiniao sobre o tema. Defendemos que o processo descrito e de fato do tipo incorporacao nominal, devido ao fato de termos conjeturado a possibilidade de as silabas dos nomes que participam do processo representarem proto-formas das raizes nominais Pano. Todavia, com a evolucao para as formas atuais polissilabicas dos lexemas, as formas ancestrais permaneceram como prefixos e, assim, o processo de incorporacao nominal evoluiu diacronicamente para prefixacao. Na oportunidade, acrescentamos uma breve discussao na area de reconstrucao linguistica do Proto-Pano, apresentando uma argumentacao, pautada na comparacao entre o Shanenawa e o Matses com outras linguas da familia (Shipibo, Amahuaca, Yaminahua, Sharanawa, Kaxinawa e Kapanahua), que busca reforcar a hipotese de Lanes (2000), Fleck (2003) e Amarante Ribeiro (2006) de que o Matses teria sido a primeira lingua a se separar do Proto-Pano. Nessa mesma linha de raciocinio, mostramos que a lingua Shanenawa, por sua vez, deve ter sido uma das ultimas a se separar da proto-lingua.

Artigo enviado para publicacao em 12/02/2008.

Referencias

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Notas

(1) Embora nao tenha sido verificado isso em todas as linguas Pano, ha casos de raizes nominais nao associadas as partes do corpo, como veremos a contento.

(2) Eventualmente, embora de forma mais restrita, e possivel observar a ligacao das bases nominais a outras bases nominais (adjetivos e nomes) para formarem bases tambem nominais. Exemplos disso serao mostrados oportunamente.

(3) Pensemos, por exemplo, no verbo 'cortar' em Portugues. Sintaticamente, trata-se de um verbo transitivo, ou seja, que exige um objeto que complemente sua significacao. Essa complementacao e devida a generalizacao semantica (muitas vezes conotativa) do verbo e, em consequencia, da diversidade de entidades que podem sofrer a acao de 'cortar': O churrasqueiro cortou a carne./ A costureira cortou o tecido./ Maria cortou os cabelos./ Os filhos cortaram as relacoes com seus pais.). Nesse caso, portanto, o complemento (o objeto) tem carater restritivo, ja semanticamente sua funcao e restringir o escopo dos seres passiveis de sofrer a acao verbal em questao.

(4) Em Candido (2004), um de nos, descreveu o processo como um caso especial de composicao. Todavia, uma reanalise desse processo foi realizada em conjunto. Portanto, estamos desconsiderando (parcialmente) a proposta de analise feita anteriormente.

(5) Outros recursos utilizados para ampliacao do lexico sao: a abreviacao, a onomatopeia e as siglas (ou acronimos). Contudo, por se tratarem, em geral, de formacoes intencionais, a literatura especifica costuma classifica-los como "morfologia improdutiva".

(6) O afixo e um morfema que nunca se realiza como lexema e deve ser ligado a uma raiz (base) para produzir novas palavras. A base, por sua vez, e a parte da palavra a que um afixo pode se ligar. Pode ser considerada a base de uma palavra nao somente a raiz, mas tambem um conjunto compreendido entre esta e outros morfemas. Quanto ao lugar que os afixos ocupam em relacao a base, os mesmos podem ser de quatro tipos: a) prefixos, se afixados em posicao anterior a base; b) infixos, se introduzidos no meio da base; c) sufixos, se posicionados posbase; d) circunfixos, se puderem dividir-se para circundar a base.

(7) Abreviaturas e simbolos usados neste texto: ABS, Absolutivo; Adj, Adjetivo; Adjun Restr, Adjunto Restritivo; C, Consoante; DECL, Declarativo; ERG, Ergativo; GEN, Genitivo; N, Nome; NEG, Negacao; O/Od, Objeto Direto; PAS, Passado; S, Sujeito; SN Sintagma Nominal; V, Verbo/Vogal; VI, Verbo Intransitivo; VT, Verbo Transitivo; 1ps, 1a Pessoa do Singular; 2ps, 2a Pessoa do Singular; , Morfema Zero; *, Agramatical (ou referencia a um termo reconstruido); #, Fronteira de Palavras; [ ], Transcricao Fonetica; //, Transcricao Fonologica.

(8) Cf. nota 4.

(9) Informacao ratificada por Loos (1999) para outras linguas como o Kapanawa, em que, alem das partes do corpo, existem alguns poucos casos de morfemas referentes a "liquidos" e a locativos como "dentro de".

(10) Em Matses, nao apenas os prefixos desintesifying, mas todos eles podem se ligar a outras categorias como nomes e adjetivos (FLECK, 2006).

(11) Os dados foram retirados das seguintes fontes: Amawaka (HYDE, 1980), Kapanawa (LOOS, 1998), Kaxinawa (MONTAG, 1979), Matis (FERREIRA, 2001; 2005), Matses (KNEELAND, 1979; FLECK, 2003, 2006), Shanenawa (CANDIDO, 2004), Sharanawa (SCOTT, 2004), Shipibo (FAUST, 1990; LORIOT ET AL 1993; VALENZUELA, 2003), Yaminahua (FAUST 1990).

Lincoln Almir Amarante Ribeiro (UFMG/GICLI) Glaucia Vieira Candido (UEG/GICLI)

almir.bh@terra.com.br glaucia.vieira@ueg.br
Tabela I: Lista das bases nominais e seus alomorfes referentes a
partes do corpo na lingua Shanenawa.

BASE                 ALOMORFE              GLOSA
NOMINAL              MONOSSILABICO

ana                  a-                    lingua

f  u                 f -                   olho
fu                   fu-                   cabelo
k  a                 k -                   labio
m vi                 m -                   mao
mapu                 ma-                   cabeca
pahinki              pa-                   orelha
punian               pu-                   braco
  kin                -                     nariz
  ta                 -                     dente
  uma                u-                    seio
t  u                 t  -                  pescoco
t iman in            t  i-                 anus

Tabela II: Exemplos de morfemas monossilabicos e respectivas bases
nominais em linguas da familia Pano.

GLOSAS/
LINGUAS      LINGUA           CABECA           MAO

AMAWAKA      ja-/jana         ma-/mapo         me-/mucun
KAPANAWA     ja-/jana         ma-/mapo         me-/mequen
KAXINAWA     jan-/jana        ma-/mapu         me-/meken
MATIS        an-/an           ma-/ma o         m -/m k n
MATSES       an-/ana          ma-/mapi         m -/m dante
SHANENAWA    a-/ana           ma-/mapu         m -/m vi
SHARANAWA    a-/ana           ma-/mapo         mu-/mucu
SHIPIBO      ha-/hana         ma-/mapo         me-/mequen
YAMINAWA     a-/ana           ma-/mapo         me-/meken

GLOSAS/
LINGUAS      BRACO            NARIZ            OLHO

AMAWAKA      po-/ponyan       ru-/ruquin       vu-/vuro
KAPANAWA     po-/poyan        re-/requin       be-/bero
KAXINAWA     pun-/punyan      d -/kin          be-/bedu
MATIS        po-/podo         d -/d an         b -/b du
MATSES       p -/podo         d -/d biate      b -/
SHANENAWA    pu-/punjan       r -/r kin        f -/f ru
SHARANAWA    po-/poyan        ru-/ruchoco      fu-/furo
SHIPIBO      pon-/ponyan      re-/requin       be-/bero
YAMINAWA     po-/pojan        re-/rechoko      fe-/w ru
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Author:Amarante Ribeiro, Lincoln Almir; Vieira Candido, Glaucia
Publication:Veredas - Revista de Estudos Linguisticos
Date:Jan 1, 2008
Words:6950
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